quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Macaulay Culkin: Nós que aqui estamos por ti esperamos

Os dois natais mais abonados da história ocorreram em 1990 e 1992. Esqueceram de Mim 1 e Esqueceram de Mim 2. Os dois filmes somados ultrapassaram um bilhão de dólares em arrecadação. Um bilhão de dólares. Para fazer o segundo filme, o guri Caulkin levou para a casa (quer dizer, sua família malvada levou) cinco milhões de dólares, com apenas 12 anos de idade. Se corrigirmos esse valor pela inflação, hoje seriam 10 milhões de dólares. Sim, Giovanni Ribisi, você nunca vai ganhar nem metade disso por filme nenhum. Toda essa insanidade poderia ser considerada válida? O que essa série, que teve duas horrendas continuações lançadas direto para vídeo e com outros atores no lugar de Culkin, tinha de tão especial para ter conquistado tamanho êxito de público e ter feito de Culkin o maior astro daquela época? Eu, Camarada Progressista, impregnado pelo espírito natalino vivido pelo blog, venho aqui arriscar minhas tentativas de respostas. Quando o primeiro filme foi lançado, eu tinha apenas seis anos de idade, mas me lembro com clareza da onipresença do filme na mídia e nas discussões das rodinhas de conversas do pré-primário (hoje a molecada discute o Tropa de Elite e diz para os amiguinhos que eles deveriam "pedir para sair, senhor 02". Mas isso é assunto para depois).

Todos nós nos identificavámos com Culkin, o medo maior da infância de se ver sozinho, longe das barras dos pais, de ser abandonado, de estar à deriva perante um mundo cáustico e cruel, e de enxergá-lo por nós mesmos, e não mais com os olhos dos nossos progenitores. E justamente no Natal, data tão cheia de simbologias e cara aos infantos. Logicamente que a história do filme era bobinha, o que piorou ainda mais na continuação, supondo o absurdo que seria os pais deixarem para trás mais uma vez um filho, novamente na época do Natal, ele sendo atacado mais uma vez pelos mesmos meliantes do anterior numa cidade diferente. Pais relapsos, não? Deveriam estar totalmente calejados pelo trauma do primeiro acontecimento. Mas haviam milhões de dólares prontos para serem conquistados, e o negócio foi ir no seguro. O autor do roteiro dos dois filmes e criador de todos os personagens foi John Hughes, icônico diretor de filmes adolescentes dos anos 80, responsável por obras como Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco, entre outros. Se fosse escolher um motivo pelo êxito da série, seria esse. O toque cálido de Hughes se fez presente no primeiro filme. Mesmo com a trama estúpida e banal, e mesmo sabendo que esse filme fora feito para estourar as bancas nas bilheterias ao invés de buscar supostos êxitos artísticos, como acabou fazendo, Hughes lança mão mais uma vez da sua inimitável visão de vida. Ele sempre consegue fazer os espectadores se importarem com os seus personagens, já que olha para eles com uma sensibilidade aguçadíssima, dando tempo para eles resolverem seus conflitos internos e externos, jamais jogando o carro na frente dos bois. Tem um talento nato para cenas de maior intimidade afetiva e psicológica entre personagens, algo que é um calo no pé de diversos roteiristas e diretores famosos, mas que com ele sempre funcionam. Momentos como quando a mãe de Kevin (personagem de Culkin) voltando para buscar o filho numa van de um grupo de polka encabeçado pelo sensacional John Candy refletem essa sensibilidade com perfeição. Um momento pouco lembrado, perdido entre as confusões de Culkin com os ladrões (como eles conseguiram escalar o Joe Pesci para interpretar um deles, e como eles conseguiram convencê-lo a fazer a continuação, será sempre um mi$tério), mas que contêm todas as características que fizeram a justa fama de Hughes. O que matou os dois filmes artisticamente (ugh!) e ao mesmo tempo os fizeram estourar a banca foi a escalação do diretor. O ignóbil Chris Columbus, incompetente de marca maior e autor de alguns dos filmes mais cretinos já feitos (O Homem Bicentenário deveria ter garantido para ele duzentos anos de cadeia na chincha como punição), mas que inegavelmente sabia o que esperava a platéia daquele início da década de 90, tanto que foi autor de outro filme que quebrou recordes de bilheteria na época, o pavoroso Uma Babá Quase Perfeita.

Se o filme tivesse sido dirigido por Hughes, provavelmente não teria feito o mesmo sucesso, já que seu estilo mais sutil e discreto não seria capaz de movimentar as multidões ávidas por algo mais energético e burro. Por isso que, tristemente, Columbus foi necessário. A sua energia estúpida e exagerada , combinada com o olhar melancólico e belo de Hughes, foram mais do que suficientes para o sucesso da empreitada. Macaulay Culkin seguiu a trilha da maioria dos astros infantis, e se afundou em drogas, bebidas, escandalos sexuais (testemunhou a favor de Michael Jackson no escândalo de Neverland), jamais repetindo o mesmo sucesso. Oras, não seria essa sim a bela tragédia natalina, as lembranças de épocas mais gloriosas e vívidas, e a melancolia deprimente e negativa ocasionada pelas reafirmações desses sentimentos? Nós esquecemos de John Hughes, afastado do showbussiness e hoje vivendo nos cafundós do Judas em Connecticut? Não. Esquecemos de Culkin, elo perdido das nossas juventudes? Não, não nos esquecemos. Nos esquecemos de Chris Columbus? Bem que queríamos! Tentamos de todas as maneiras nos esquecer dele, mas sempre há algum produtor pronto para lhe dar novas oportunidades, como na péssima versão cinematográfica do musical Rent, lançado para as moscas no ano passado. Queremos a volta de Hughes. Queremos uma vida menos infeliz para Culkin. Queremos a prisão perpétua para Columbus. Papai Noel, where art thou?

Um comentário:

  1. OLá Amigo.
    Procurando um artigo crítico sobre os filmes esqueceram de mim. Deparei com o seu blog. Muito bom o que tu escreveu. Tomei a liberdade de copiar o seu artigo em um post sobre a trilogia de Alone Home. Por favor. espero que você não se sinta constrangido pelo uso de seu artigo. Os créditos foram mantidos. Caso Não goste. Por favor. Deixe um comentário que retirarei o artigo. Grato.

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