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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nosotros fuimos al cine

1 O fantástico Senhor Raposo estreou sexta passada por aqui, mas nós já tínhamos visto durante a Mostra numa sessão muito especial porque contou com a presença de Pablo Villaça. Foi preciso controlar meu acompanhante, que teve acessos de tiete. Gostamos muito. A estética e o humor de Wes Anderson encontraram seu lugar na animação. É seu melhor filme desde Os excêntricos Tenenbaums, que vocês devem imaginar que é dos meus favoritos. Uma tarde dessas, assisti o Senhor Raposo uma segunda vez com uma amiga do serviço e ela dormiu a maior parte do filme.

2 Também vi, com a amiga mencionada, Cidadão Boilesen, um filme necessário. Cidadão Boilesen, um filme necessário, é um documentário sobre Henning Boilesen, que dá seu nome a uma rua na zona Oeste da capital e foi presidente da Ultragás nos anos 1960. Era dinamarquês e se mobilizou, junto ao empresariado paulistano, para patrocinar a tortura na época do regime militar. Chegou a participar de sessões muito privativas no clube DOI-Codi, convidado especial do coronel Brilhante Ustra, que também conta sua versão da história. O nome de Sergio CAMARGO CORRÊA também é citado, além, é claro, da Folha de S.Paulo como empenhados patrocinadores da tortura. E muitos outros que não ousam dizer o nome, mas que estão por aí alegres a cantar, como afirma um militar reformado, também entrevistado. Um filme necessário.

3 E ontem mesmo vimos uma sessão tardia de Um namorado para minha esposa, espécie de Se eu fosse você argentino, sem o histrionismo e o mau-gosto que só Daniel Filho e grande elenco podem fazer por você. Noveleiro que é, Daniel Filho não está cometendo nenhum crime, mas dando o que o povo quer. Mas, como eu e você nos achamos mais que povo, fiquemos com o cinema argentino, sensível e contido, mesmo ao mostrar que nuestros hermanos son más bregas que nosostros. Inclusive endosso quem diz que espanhol é só um português ridículo. Pantalones e preguntas é que não me desmentem.

4 E falando em cinema nacional, discutimos os problemas da maior parte da produção atual (e desconfio que da passada, como também da futura) e identificamos uma causa principal, chamada Fator Clóvis Bornay. Trata-se do exagero e da pompa que marcam e que, na maioria das vezes, deformam qualquer expressão cultural no Brasil. Foi descoberto enquanto víamos, aos risos, o trailer de Ouro Negro, filme com Danton Mello sobre a fundação da Petrobras. Siiiiim. O projeto obviamente exigia uma superprodução para a qual, no entanto, faltava orçamento. Resultado: overacting, que na cabeça dos atores brasileiros compensa o déficit épico da mise-em-scène pobretona, e efeitos especiais de Trapalhões, rendendo uma grande sessão de humor involuntário. A estrear.

5 The Conversation, um Coppola de 1974, é provavelmente melhor que Apocalypse Now, mas esse é o tipo de controvérsia que não me interessa criar quando o barco já está afundando. Mas é outro FILMAÇO que assisti nesse interlúdio gostoso longe de vocês. Procurem pela internet, porque não foi lançado nem em VHS, nem em DVD, entrando numa longa lista de títulos essenciais que aguardam a boa vontade das distribuidoras, que precisam lançar antes edições comemorativas de Vovozona para aquecer o mercado, ui.

6 Li também muitos livros, porque os blogs que eu acompanho deixaram de ser atualizados. Aparentemente blogueiros entram em “crise criativa” ou “se cansam do formato”. Tudo se passa como se estivessem escrevendo Anna Karenina. São divas que perderam a hora da pedicure. Recomendo Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, uma novela russa em que muita gente é assassinada e você sente que é o próximo. Das melhores coisas que li. E esta passagem aqui de um texto da jornalista Vanessa Barbara, porque de repente dei pra citar texto de jornalista: “O tempo corria para trás nas aulas de francês do mosteiro São Bento – como se fosse sempre à tarde e nós usássemos chapéus.” Sei lá, posso andar sentimental, mas esse “como se fosse sempre à tarde” me pareceu tão bonito quanto um haicai sem ser. Grato.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fomos ao cinema ver Bastardos Inglórios Vol. 1

(aka The 209th Post by Camarada Fundamentalista)

Bastardos Inglórios é filme pra quem gosta mesmo de Tarantino. Gostar mesmo de Tarantino tem a ver com baixar as trilhas sonoras dos filmes dele e ser burrão de achar Kill Bill melhor que Pulp Fiction. Já não gostar mesmo de Tarantino deixa ver que Pulp Fiction nem é do Tarantino. Pulp Fiction é bom demais pra ser do Tarantino. Muita gente, inclusive eu, faz campanha pra que Pulp Fiction não seja do Tarantino. Pra que seja do Robert Zemeckis. Ou do Cameron Crowe. Ou do Robert Redford. Ou pra que volte a ser do Danny DeVito. Tudo menos do Tarantino. Pode ser até do Liev Schrieber. Só tira pelamor o nome do Tarantino dos créditos. É que Pulp Fiction criou um mito. Criar mitos é a segunda pior coisa que pode acontecer no mundo do cinema, e acho que da literatura, se eu lesse livros. Só perde pra ressuscitar carreira de astro decadente. Tipo John Travolta ressuscitado em Pulp Fiction graças ao diretor Danny DeVito pra depois produzir A Reconquista, eeeeeeeee. Esse mito se chama Quentin Tarantino.

Mas Bastardos Inglórios pode ser do Tarantino. Faço questão de que todo o mundo saiba que Bastardos Inglórios foi escrito e dirigido por Quentin Tarantino. Porque Bastardos Inglórios tem 150 minutos. Porque Bastardos Inglórios tem uma cena em que a cara do Hitler é metralhada até virar pudim. Porque eu saí do cinema mais preocupado com a cara do Hitler transformada em pudim na base do tiro que com a intertextualidade. Porque teve muito neguinho crítico de cinema que deu cinco estrelas pro filme por causa da homenagem a toda a porcaria da história do cinema. E eu acho muito bom as pessoas homenagearem toda a história do cinema. Mas o cara não pode fazer isso só porque acha que dirigiu Pulp Fiction. Porque quem dirigiu Pulp Fiction foi o Danny DeVito. Aquele gordinho baixinho e careca.

Três fãs do Tarantino me esperando na saída do metrô.

E o problema é que quem gosta mesmo de Tarantino acha que ele é tipo o Messias. A história toda do cinema convergindo nele. E o pior é que o Tarantino acha mesmo que é o Messias. Senão não fazia um filme que faz convergir em si a história toda do cinema de um jeito todo atrapalhado. E todo o mundo acha o Tarantino um cara muito doido. E deve ser mesmo. Mas fazer pudim da cara do Hitler é uma coisa que ainda me choca. Apesar de muita gente me responder na hora que, pô, é um filme do Tarantino. Então tá. Só que eu fico chocado. Mas não com todo o mundo olhando. Fico chocado e quietinho. Pode me chamar de filisteu. Pode me chamar de tonto. E eu acho que alguém devia apresentar o Tarantino a um ser humano de verdade. Não ser humano de filme de luta. Ser humano ninja. Tarantino, esse aqui é o ser humano. Ser humano, esse aqui é o Tarantino. Porque tem gente que morre em Bastardos Inglórios, e a gente não está nem aí, gente que devia morrer com a gente gritando pelamor não mata ele, não mata, ahhhhhhhhhh.

Eu não sou fã do Quentin Tarantino a ponto de achar Kill Bill, os dois volumes, o máximo. Achar Kill Bill, os dois volumes, o máximo é coisa de adolescente que quer ser cineasta quando terminar o Ensino Médio daqui a dois anos. É o sujeito que lê O Guia do Mochileiro das Galáxias hoje, aos 15, e acha o melhor livro do mundo, e vai ler O Guia do Mochileiro das Galáxias aos 45 e ainda vai achar que é o melhor livro do mundo. Porque Kill Bill é bem legal e tudo. Mas é fase. Eu tive a minha. Assobiei a musiquinha. Comprei a caixa The Box Deluxe Sweet Child of Mine Edition. Curti a Uma Thurman. Namorei uma japinha com cara de protagonista de filme de terror japonês e chamava ela de Gogo. Dei até com uma arma mortal na cabeça dela. Comprei um macacão amarelo e um tênis de alpinista amarelo. Fui pra Liberdade atrás da japonesada pra lutar e tudo. Etc, etc. Mas, sei lá, passou.

O filme é tipo meio que a história de uma menina e um cara que tipo persegue e não persegue ela, mas não é nada pessoal. Aí a menina foge, e o cara continua perseguindo outras pessoas enquanto ela não aparece, mas aí quem aparece são os Bastardos Inglórios, que tipo não têm nada a ver com a menina, porque eles nem conhecem ela, e tal, mas o cara meio que conhece os Bastardos, que também perseguem uns caras, no caso os nazistas, e, ah, a menina é judia e tudo. E tem aquela mesma estrutura em capítulos dos dois Kill Bill. Mas mais preguiçosa. Uns enquadramentos classudos. David Bowie. E eu queria que o Tarantino voltasse a ser objetivo como em Cães de Aluguel.

Bang bang, she shot me down.

Isso até me lembra de outro dia quando um amigo meu me perguntou sobre o que é que era Kill Bill, que o extraterrestre não tinha visto. Aí eu disse que era tipo meio que uma paródia, mas mais do que isso, de filmes de artes marciais. Mas aí eu vi que dizer que era tipo meio que uma paródia de filmes de artes marciais não convencia muito de assistir o filme como eu queria que ele assistisse. Mesmo que fosse mais do que isso, de filmes de artes marciais. E aí eu continuei falando que tinha uns lances de câmera que ele ia perceber de cara porque o negócio era bem filmado e tudo. E uns enquadramentos e tal por ser bem filmado e tudo. E aí ele se convenceu e disse que veria um dia. E aí eu fiquei satisfeito e aliviado. Nem sei por quê. Acho que não queria parecer burro.

Bastardos é uma sátira de guerra. Isso porque tem o Hitler falando cuspindo meio histérico. Como é uma sátira de guerra, as pessoas vão logo lembrar de Doutor Fantástico. Mas pomba! Doutor Fantástico não foi dirigido pelo Tarantino. E não é qualquer guerra. É a Segunda Guerra Mundial. Mas a verdade é que o Tarantino passa que nem um trator por cima disso. Porque podia ser sobre qualquer guerra. Qualquer coisa. Podia ser sobre a guerra da Indochina. Podia ser sobre a Escola de Sagres. Que dava na mesma. Tudo porque é um filme do Tarantino. Com um carimbo gigante na testa dos atores e nas cenas dizendo Tarantino’s movie. E tem também um gordo que nem dizem que querem que a gente ache que é o Churchill. Mas é. E o Mike Myers na mesma sala com esse gordo que deveria ser o Churchill. O que é muito inverossímil. Porque o Churchill nunca ficaria na mesma sala com alguém como o Mike Myers. O Mike Myers que é o, er, astro decadente da vez a ser ressuscitado. Mas sinceramente acho que não vai rolar. E eu acho que o Tarantino devia logo refilmar Era Uma Vez no Oeste do jeito que o Gus Van Sant refilmou Psicose. Aí ele parava de enfiar Sergio Leone goela abaixo da gente, que é bem legal e tal, mas pô.

Agora meu TOP 5 dos filmes do Danny DeVito:

5. Morra, Smoochy, Morra
4. Matilda
3. Hoffa
2. Pulp Fiction
1. Era Uma Vez no Oeste

sábado, 10 de outubro de 2009

joaquimnabuco.wordpress.com

Este post sofreu o patrocínio da Monsanto Company.

O que a sabedoria manda fazer? Nunca confessar que se gosta de Los Hermanos gostando-se de Los Hermanos. Não discordar dos amigos em pontos que envolvam paixões virulentas. Afastar-se diante de paixões virulentas. Evitar paixões virulentas. Esconder paixões virulentas.

Mas hoje estou particularmente preocupado com generosidade e com os empecilhos para sua prática. Pois, como todas as outras virtudes, ser generoso não é talento, mas ação. Direto e reto como os bons comunicadores, vou dizer o que penso. Acho que o principal obstáculo para a generosidade é o detalhe. Deter-se nos detalhes.

Em estética, isso é fundamental. Dizem que o gênio está nos detalhes. Obras de arte são invariavelmente um acúmulo absurdo de detalhes, resultado da preocupação maníaca do artista com detalhes. Pensem num quadro. Pensem num livro. Não, O estrangeiro, não. Pensem em A educação sentimental. Remeto-me ao cancioneiro popular: “Quando Deus te desenhou, ele tava namorando”. Escrevam-me suas conclusões.

Mas, moralmente, o detalhe amesquinha. Estranho, não? Não, nem um pouco. Estética e ética são dois ramos do cerumano onde o lóbulo frontal e o dianteiro diferem. Aqui tem um esquema:

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Woody Allen me ensinou que é possível driblar a percepção de uma pequena multidão se apelarmos para as conhecidas pretensões intelectuais. Retrospectivamente falando, foi o que fi-lo quando citei A educação sentimental em detrimento de O estrangeiro. Se tivesse dito Tolstoi, o efeito diminuiria, porque não o tendo dito supus que sabiam que foi Tolstoi que escreveu A educação sentimental. Formou-se, metaforicamente falando, um pequeno clube, e a chamada cumplicidade autor-leitor foi estabelecida. Agora piscarei meu olho esquerdo, quero que o imaginem: Flaubert, Flaubert, Flaubert.

Mas isso ainda é o detalhe. Cinematograficamente falando, volto a Woody Allen. Dizia eu que ele fez algo que, a título de ilustração, mostra que a estética se fundamenta na ética. É o liame diáfano do raciocínio. Mas ó, atenção, que dá pra entender. Sem um posicionamento ético – testa no chão, tronco num ângulo de 45º em relação ao mesmo chão, pé esquerdo tocando a base da nádega e perna direita recolhida junto ao estômago – que releve o detalhe, qualquer empreendimento estético no sentido de produzir detalhes (já que é essa a natureza estética par excellence) gorará. Sim, senhores, temo que gorará.

Por exemplo Woody Allen ter filmado Manhattan, que é lindo, com Gershwin logo de cara, fotografia p&b maravilhosa e citações eruditas a cada cinco linhas de diálogo (rate fornecido pelo AFI Crazy Nuts Quotations Index). Tudo pra dissimular o fato de que Woody Allen era um judeu baixinho de 42 anos dating uma Mariel Hemingway de 17 anos. Premissa doida do caramba.

(Anatomicamente falando, prevejo dificuldades para entender o que seja a base da nádega. Ora, nada mais que o ponto em que se encontra a dita coxa com a sobredita polpa.)

Mas a audiência vulgo nós bate palmas porque funcionou graças ao fato ético de havermos esquecido detalhes como as conveções sociais sobre beleza, atração sexual e lógica clássica e acreditado na ilusão dramática de que o amor pode tudo. Os filmes do Woody Allen são sobre isso, não são? Quase todos os filmes são. Mas há filmes que falham justamente em embasar detalhes de ordem estética com a ausência de detalhes de ordem ética, compreende? Aqui cumpriria falar de Bastardos Inglórios, que era de fato o meu objetivo. No fundo da coisa toda, estava um filme de Tarantino, este gênio contemporâneo. Convém preambulá-lo.

Muita gente se engana ao dizer que Quentin Tarantino é o exato oposto de Glória Kalil, que, conforme sua descrição pessoal no twitter, é uma “jornalista, empresária e consultora de moda brasileira”, que se dedica “à consultoria de estilo e negócios ligados ao campo da moda e do comportamento”. E, a propósito, a minha descrição é: “um colchonete entre colchonetes”, que na época achei muito espirituosa. E ainda acho. Mas, praticamente falando, Quentin Tarantino e Glória Kalil são praticamente a mesma pessoa quando percebemos que ambos são interessados em estilo. Agora uma palavra sobre estilo.

Clodovil ou Pedro Bial, talvez os dois, não sei ao certo, disse que “O estilo é o homem” ou "O estilo é homem". Se a frase é do Clodovil, tendo à segunda opção. Ora, eles estão estão certos. Porque o estilo é isso aí. Mas o estilo é também a coisa mais perigosa do mundo quando priva o homem daquilo que ele tem de mais precioso: a vontade de construir um mundo melhor. Quer dizer, escrever certo por linhas tortas. Isto é, ser feliz ao lado de quem se ama. Trocando em miúdos, ganhar muito dinheiro e namorar modelos ajudando a comunidade.

O estilo pode ser o homem, mas também pode ser o que mata. E o que mata o homem.

Um soco no estômago da mesmice do consenso.

Este post sofreu o patrocínio da Monsanto Company.

Aos 7 anos, eu já catava lixo na rua pra ter um futuro melhor, cursando Letras e me apaixonando por você (coloque o seu nome aqui:_________). A nossa trajetória é uma história de desafios. A mesma de Tarantino. Nossos pais não nos liam Baudelaire à mesa de jantar. Nós nem tínhamos uma mesa de jantar. Nem posso imaginar mamãe, com sua sensibilidade romântica, fazendo vômito ao ouvir o lirismo da carne putrefeita da amada do Poeta. O saldo de nossa (de)formação é que hoje gostamos de cantar junto. E o critério de Tarantino é um só: fazer filmes que ele gostaria de ver. (Vide lista dos filmes favoritos de Tarantino nos arquivos imundos deste blog.)

É inegável que Tarantino é um exímio. Mas será que ele tem algo a dizer? Pois será que nós mesmos temos algo a dizer e, por que não dizer, a ouvir? Encerro aqui, deixando estas perguntas aos senhores, que espero meditarem com escrúpulos redobrados na clausura de suas cabeças.

Este post sofreu o patrocínio da Monsanto Company.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vivre sa vie

Prometem demais pra gente com esse lance todo de amor. Quando é a nossa vez, pra valer, nos decepcionamos pra vida inteira. Divórcios são só o mais comum, mesmo entre aqueles que não aprova(va)m. Trata-se de uma geração terrivelmente mal preparada para se sacrificar, para admitir que a vida não é curtição, Coca-Cola, etc e tal.

Quer dizer, na maior parte do tempo estaremos só tranquilos, depois entediados, aliás muito entediados; e se não estivermos entediados, então será um inferno e estaremos à procura de paz, porque alguém ou alguma coisa nos enche muito o saco, talvez nos atormente mesmo. É, a alternativa será essa, ou tédio, ou perturbação. Mas às vezes felicidade, pura e simples, algum sucesso, aquela sensação de triunfo, que tem de ser ocasional, e depois a morte. As vidas são assim, todas iguais, e pelo que eu sei não mata, ou quase.

Frustrar-se é inevitável, os mais sensíveis se frustram por completo, terminando amargos; e quem diz que não é frustrado, é conformista, talvez cínico, talvez conivente. “O mundo está contra nós” é papo de adolescente, mas que não colobora, isso não.

O amor é das maiores promessas jamais cumpridas. Depois vem trabalho, formando os dois eixos fundamentais da vida; realização profissional, dizem. Quer dizer, depois que você descobre que não devia se casar, porque achava que era uma coisa que não era, e inventa de ter filhos pra “preencher a vida”, volta-se pro serviço, se pode. Às vezes, antes mesmo de se casar, ou em vez de se casar. É uma tentativa válida, alguns conseguem, como sempre existe quem consiga alguma coisa, levando o resto a imaginar que também pode.


O romântico em mim diz que há uma saída, que tem a ver com os idealismos mais inconsequentes, porque desprovidos de cartão de crédito, estabilidade financeira, implicando algum tipo vago de revolução social, não socialista, mas mais puxada pra ação social, tipo aquele desejo fofinho e nem um pouco prático de “ajudar as pessoas”. Se você conseguir transformar esse slogan em algo parecido com uma vida em tempo integral, talvez seja menos frustrado e egocentricamente entediado que a maioria acima descrita. Boa sorte.

E tem que a gente só acha o mundo tão tosco por causa das pessoas nele. Isto é, não são os furacões e terremotos que nos aborrecem, ou câncer, ou crianças nascendo sem braços e outras deficiências, isso tudo a gente aceitaria muito bem. O que torna a vida eventualmente miserável são os outros, que somos nós. Por isso, a conclusão é que a maioria das pessoas está contra nós, que estamos contra as pessoas, pela razão de sempre: por nós mesmos. Yes, that same old song, chap: a tragédia do nosso egoísmo em quantos atos você queira.

Minha tendência é achar que 70% das pessoas são toscas e que as poucas pessoas legais que existem são exatamente aquelas que eu chamo de amigos, com algumas exceções, que reconheço porque sou muito razoável a ponto de saber que nem todo o mundo que presta vai gostar de mim, porque nem todo o mundo combina e então é melhor seguir cada qual o seu caminho. A tosquice das pessoas consistindo não tanto em maldade intencional, ou seja, crueldade, mas ignorância e acomodação diante do sofrimento e do mal com argumentos incrivelmente razoáveis e superficiais. Amém.

domingo, 27 de setembro de 2009

Pra coisa não esfriar

1 Descobri que todas as frases que eu escrevo são esquisitinhas, mas tudo bem, que isso é estilo. Eu, como aqueles motoristas que, obrigados pela empresa, colocam um adesivo na traseira do veículo perguntando como estão dirigindo, pergunto: como estou escrevendo? As minhas frases são esquisitinhas mesmo? Ou estou só tendo mais um surto de TOC, se é que é adequado falar em surtos, mas é o que eu sinto.

2 Aí depois eu invento um esquema e me acalmo. A frase – sim, falo como Flaubert, “na frase” – fica ok, e eu descanço até ser novamente tomado de uma desconfiança horrível até do artigo “a”, que não devia ser usado. Logo estarei como Perec, que, segundo ouvi, mergulhou tão fundo naquele experimento de escrever um romance inteiro sem usar a letra “e”, que no francês é onipresente, a ponto de começar a achar que a letra estava perseguindo-o. Sim. Mas vocês já viram a cara do Perec? Explica muita coisa.

3 Mas eu queria mesmo era me sentar e escrever algo bombástico sobre o amor. Queria escrever O Segredo do amor, O Código da Vinci do amor, A Cabana do amor, o Ninguém é de Ninguém do amor. Pessoas no metrô lendo sobre o amor segundo eu. Que contribuição. Que megalomaníaco. Mas minha, er, vida amorosa está parada desde janeiro. Isso não é bom nem ruim. Nesse meio-tempo pessoas muito próximas, que acreditavam no amor, deixaram de acreditar ou pelo menos sossegaram, e outras que não acreditavam, se não passaram a acreditar, pelo menos ficaram bem promíscuas em nome do amor. Quer dizer que todo o mundo continua tateando, literalmente ou não, nos relacionamentos. Eu vos lamento, senhores.

4 A única coisa que nos tem salvado, como sempre, é a amizade. Se em todo o resto nós somos absolutamente desastrosos, o que não chega a ser verdade, pelo menos – o que é muito – temos sido amigos. Se querem uma definição de amor honesta, é isso: amor é amizade, amizade é amor. Um amigo é a expressão do amor desinteressado e incondicional que esperamos dos relacionamentos amorosos, até agora sem sucesso, quase sempre por nossa culpa. CULPA.

5 E essa semana eu vi A Onda, um filme alemão excessivamente esquemático. É um High School Musical sobre as origens e natureza dos regimes fascistas. O problema é que é uma obra de tese. E teses são carnívoras: comprometem desde complexidade psicológica até desenvolvimento dramático. Os personagens não são pessoas, de carne e osso, mas ideias. Eles ilustram pontos. Em vez de se expressar, eles argumentam. Todas as suas palavras e atos são silogismos. Tudo se curva ao esquema. É a única forma de comunicação da tese. E é raso demais. Mas aprendi que é fácil ser Führer. Semana que vem, tento.

sábado, 19 de setembro de 2009

Cabelo crespo, cabelo ruim, cabelo pixaim

Tenho uma opinião sobre gente normal. Gente normal é ruim. Não biologicamente, como se genética e determinismo entrassem na história. A princípio eu ia dizer que era uma escolha. Que era moral. Mas seria supor que as pessoas andam pensando mais do que realmente pensam. Que ingênuo.

Aí eu comprei um sorvete e, enquanto tomava, vi que normalidade tem a ver com higiene. Porque o sorvete escorria todo pelo meu braço, que eu era obrigado a lamper desde o cotovelo.

Daí que ser normal é uma questão de limpeza. Você precisa estar limpo. Sem meleca nem mistura. E sujar-se é muito fácil. Envolver-se suja. Trocas em geral. Mesmo de ideias, que podem subverter convicções antigas. Imagine de emoções, que talvez te inutilizem pra sempre.

E gente limpinha é só gente esquisita disfarçando. Porque gente normal é absolutamente limpa. Pura. Por isso é que é ruim. Bondade suja. Bondade despenteia. Tanta coisa nessa vida despenteia. Beethoven despenteia. E muito. Mas bondade mais. Porque bondade tem a ver com curvar-se e deixar a nuca à mostra. Gente normal anda ereta. E nunca corre. Correr é indigno. Fosse possível, gente normal nem comeria. Quem come é obviamente inferior a quem não come. E quem está de pé, a quem está sentado. Gente normal prefere ficar sentada.


E você precisar ter certeza. Dúvidas são como manchas no cérebro. Corre-se o risco de se aprofundar alguma coisa. Aprofundar-se é como enfiar a mão no ralo do banheiro pra tirar tufos de cabelo acumulados ao longo de semanas e procedentes de várias partes do corpo humano. Gente normal já é aos 20 o que vai ser pelo resto da vida. Gente normal fica pronta rápido. É muito prático ser normal.

E gente normal não incomoda. Não incomoda porque não se importa. Importar-se é anti-higiênico. Ser normal é não pôr a mão. O problema em gente esquisita é que elas vivem colocando a mão em tudo, inclusive onde não se deve. Pensar muito, por exemplo. É como pegar em corrimão de metrô e depois colocar a mão na boca. Nojo.

Gripe suína não se espalha em ambiente cheio de gente normal. Quem transmite doença é gente esquisita. Claro. Gente esquisita não lava as mãos depois de ir ao banheiro. Anda com as unhas pretas. E despenteada. Por mais limpa que possa estar, gente esquisita sempre está despenteada. Tem a ver com a gravidade. A natureza querendo jogar gente esquisita pra fora do planeta Terra. A natureza é bem normal.

Por tudo isso é que o meu filho vai ser normal. E de proveta. Ou clonado. Senão, suja.

domingo, 13 de setembro de 2009

On love for men

A maioria das pessoas inteligentes que eu li não acredita no amor. E a maioria das pessoas inteligentes que eu conheço finge que não acredita no amor. Essa disparidade pode ser facilmente explicada. Escrever é um modo de antecipar a morte. Quem tem um pingo de senso só escreve algo que imagina que não fará as pessoas rirem do defunto na posteridade. As pessoas inteligentes escrevem então para serem lidas depois de mortas. É um padrão de qualidade. Mórbido. Mas eficiente.

“Pois é, o amor não existe, e agora estou morto, etc, etc, fim.”

Quando estão mortas, as pessoas inteligentes se sentem livres para admitir que aquilo que era a maior promessa de felicidade de suas vidas não existia. Podem admiti-lo sem se sentirem humilhadas por serem tão burras. Estão mortas.

Você só será feliz se encontrar a garota certa. A garota certa é a promessa do amor em sua vida. E o amor, por sua vez, é a maior promessa de felicidade de sua vida.

Todo o mundo vive dizendo que não acredita no amor verdadeiro. Mas nem 10% das pessoas se perguntam o que é o amor verdadeiro. Isso porque mais de 90% das pessoas não são nem um pouco filosóficas. Não que a vida ficasse melhor ou mais fácil se as pessoas decidissem se perguntar pelo significado das coisas. As coisas no máximo demorariam mais pra acontecer. As pessoas levariam quinze minutos para cometer cagadas que normalmente aconteceriam em cinco.

Mulher bonita.

Mulher bonita é o aceno do diabo de auto medieval quando você só está de passagem. Todo pimpão por ser um jovem solteiro com a vida toda pela frente. A vida cheia de promessas é como uma flor que você leva ao nariz para sentir seu perfume numa manhã quente de janeiro. E depois um hálito gelado que sussurra muito perto da sua jugular sugere que você está deixando a vida passar. E você se perturba intimamente com o fantasma do carpe diem negligenciado. Burrão.

Mulher bonita é o depósito de ideal de todo homem pra manter a sanidade e não ceder ao cinismo debilitante da época. Ele pode desperdiçar seus dias num emprego que subestima sua inteligência e ignora seus valores e anseios mais básicos. Ele pode vender sua alma a cada sorriso forçado e aperto de mão contrariado. Ele pode – na verdade, se permite – isso e muito mais. Tudo porque no final ele será redimido pelo amor. Essa é a sua crença. Consciente ou não. E certamente brega. É ela que explica sua vidinha, ele ter uma vidinha. O que há de melhor nele é adiado pela expectativa permanente do amor que só uma mulher bonita pode realizar.

Feminilidade é ideologia. Doçura também.

Você só será feliz se encontrar a garota certa. A garota certa é a promessa do amor em sua vida. E o amor, por sua vez, é a maior promessa de felicidade de sua vida. (2)

A garota certa é bonita. A garota certa não é bonita porque você é fútil. A garota certa é bonita porque você não tem tempo nem paciência pra descobrir que a verdadeira beleza é interior. Como você é homem, e homens são muito práticos, você é muito prático e quer o pacote completo. A garota certa poderia até ser feia se não houvesse a mínima chance de a garota certa ser bonita. A mínima chance de a garota certa ser bonita faz a garota certa ser bonita.

Culpa.

Você se sente culpado porque a garota certa é bonita. O fato de a garota certa ser bonita e de você não querer parecer fútil pelo fato de a garota certa ser bonita faz com que você se torne excepcionalmente eloquente e articulado ao romantizar o fato muito simples de que a garota certa é bonita. Então você não diz que esta ou aquela garota é certa porque é bonita. Mas porque ela lembra uma atriz numa cena de um filme qualquer. A garota supostamente certa lembrar uma atriz numa cena de um filme qualquer é o máximo de romantismo num homem.

Romantismo macho.

Quando vou ao cinema ou quando fico em casa lendo um livro, só estou interessado em saber se o herói e a mocinha vão ficar juntos. É o que prende a minha atenção em qualquer história. Não importa o gênero. Não importa se é Henry James ou uma comédia romântica com Zooey Deschanel. Outro dia mesmo eu estava lendo Os espólios de Poynton, um Henry James da fase tardia, ou seja, uma coisa bem abstratamente esquisitinha, que eu não queria parar de ler até descobrir se Flora Vetch, a protagonista, ia ficar com Owen Gereth, filho de Miss Gereth.

O problema é que qualquer porcaria acaba me convencendo se tiver um cara e uma garota que não se sabe se vão acabar juntos. Lois & Clark – As novas aventuras do Super-Homem, por exemplo.

Estudo de caso - Lois & Clark – As novas aventuras do Super-Homem.

Outro dia eu estava assistindo Lois & Clark – As novas aventuras do Super-Homem quando comecei a me perguntar o que aconteceria se Clark Kent casasse com Lois Lane e nunca revelasse sua identidade secreta de Super-Homem. O que aconteceria quando o casamento começasse a se desgastar, o que levaria menos de três anos, porque Lois é o tipo de mulher que manda no marido e se irrita por ele obedecer e Clark é o tipo de cara que obedece se perguntando onde é que estava com a cabeça ao se casar com aquela megera. Lois continuaria se metendo em confusões e precisando ser salva pelo Super-Homem. E o Super-Homem continuaria salvando Lois.

É muito fácil salvar alguém por quem você está apaixonado. Estar apaixonado é inclusive a maior razão pra você querer salvar a vida de alguém. Mesmo que isso custe a sua própria vida ou a destruição do planeta Terra. E esta é justamente a questão. Quantas vezes o Super-Homem teve que escolher entre salvar o planeta Terra ou salvar Lois Lane? Muitas. E em todas elas ele conseguia fazer as duas coisas. E conseguia porque fazia um esforço danado nesse sentido. Só alguém muito apaixonado tem energia pra fazer esse tipo de esforço.

Lois Lane testemunha contra misoginia de comediante.

Imaginemos então que no mesmo dia em que o planeta Terra e Lois Lane novamente corriam perigo, Clark Kent saiu de casa pra salvar o mundo depois de uma discussão incrivelmente longa e sem sentido sobre a tampa do vaso aberta. E então ele se acha no impasse de sempre entre salvar toda a humanidade ou a garota. Só que a garota não é mais aquela que ocupava seus sonhos de adolescente babão. Com o frescor e o fascíncio que só a distância proporciona a uma pessoa. Ela se transformou na mulher que todas as manhãs o recebe na cozinha com uma carranca e a pele em torno dos lábios avermelhada porque acabou de depilar o buço. Porque essa garota tem um bigodinho. (O machismo inutilizou o homem para o bigodinho. Homens simplesmente não conseguem lidar com essa realidade. Claro que o bigodinho é só uma metáfora para as representações sexistas de gênero.)

Lois Lane está presa em uma fábrica de pregos em Metrópolis que vai explodir em menos de dois minutos. Super-Homem está tentando deter quatorze mísseis nucleares que acabaram de ser lançados para diferentes pontos da Terra. Ele pensa no bigodinho. Super-Homem está na Sibéria. Faltam três mísseis. Bigodinho. Super-Homem voa para deter o último dos mísseis. Bigodinho. O míssil está a menos de um quilômetro da superfície da Terra. Bigodinho. Ele segura o míssil com seus superbraços. Bigodinho. Bigodinho. Bigodinho.

Conclusão.

Muitas vezes a grandeza de um homem se resume a saber se ele é capaz de passar por cima de um bigodinho e amar a garota. Mas o problema é que nesse caso o bigodinho é como a manifestação física do gênio horrível da mulher com quem eu nunca devia ter me casado. Você vai me perguntar se não bastava o divórcio. Se era realmente necessário deixá-la morrer na explosão de uma fábrica de pregos. Mas o fato é que eu não disse que Super-Homem escolheu salvar o planeta Terra.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rsrsrsrsrs

O fim politicamente correto da opressão depende do começo da opressão politicamente correta. Acusar o humor como refúgio de racistas e fascistas é um exemplo. Perco a libertação que os politicamente corretos buscam, mas não perco a piada. Mas isto não é um manifesto.

O que aborrece nas almas sensíveis responsáveis pela instituição do politicamente correto como conduta crítica, e não como moralismo rasteiro – o que ele de fato é –, é, no mínimo, a falta de educação. É ser presunçoso da maneira mais grosseira possível. A certeza arrogante de sua própria justiça faz cada palavra sair de sua boca no familiar tom da ameaça. Você se faz juiz do seu irmão. Primeiro sobe num banquinho e do alto da sua superioridade moral recém-adquirida clama contra o fascismo e a discriminação nas entrelinhas de recados em porta de geladeira. Ô, ele está alimentado o ódio e o preconceito contra as minorias fazendo esse tipo de piada, temos que pará-lo, temos que denunciá-lo. Vem cá, nunca ouviu falar em: o sujo falando do mal-lavado?


Me deixa ser profético agora. Ser justo aos próprios olhos acaba sendo o único pecado que cristão e não cristão cometem que vai levá-los para o inferno, se não se corrigirem. Com toda a certeza. E o humor, que é justamente o remédio contra esse tipo de postura obtusa, é o que mais tem sido vigiado e atacado por essa gente justa.

A beatitude do humor se assenta em suas intenções. Quem faz uma piada não quer convencer ninguém da superioridade ariana e/ou masculina. A piada de loira não é um panfleto incitando as mulheres a saírem e afogarem oxigenadas, como no fundo e de fato elas querem fazer. Nem contar piada de português significa que você não vai deixar o Manoel operar o cérebro do seu unigênito. Aliás, se dermos ouvido a esse tipo de correção extrema – promovida pela hipersensibilidade moral dos politicamente corretos –, olhar de cima pra baixo racistas merece a guilhotina, já que contraria o postulado da igualdade entre os homens. E maldizer o indivíduo que preenche todos os requisitos do esteriótipo da loira burra vulgar que rouba namorado é preconceito.

O que estou dizendo é que todos estão condenados. Inclusive você. Inclusive eu. Então, seja mais humilde. E não um fascista ao contrário. Porque estão simplesmente inventando um fascismo arco-íris multiculturalista para combater o fascismo old school. É a mesma imposição que suprime, com simplismo desumano, o longo e difícil processo de aprender a viver e conviver, substituído pela força da lei.

O humor serve pra gente dizer o que não pode dizer. Num lance só, você confessa o pecado e se salva da hipocrisia. Porque, sob a chave do ridículo, as coisas se veem libertas de seu poder de dominação. O humor recontextualiza o mal e assim o neutraliza. Sua função é exorcizar. É uma verdade tão velha que é constrangedor ter que repeti-la. É hermenêutica básica, que estão jogando no lixo. Feminista acusando comediante é tão fascista como quem ri da piada porque é “assim mesmo que preto faz”. Porque ambos estão levando a piada a sério – que seria uma boa definição de fascismo: a piada levada a sério.


Rir não é o problema, e muito menos a piada. O problema é por que se ri. Eis a ambiguidade do humor. Que é a ambiguidade da arte. É perigosa porque a inteligência é perigosa. Esse perigo consiste em deixar que as pessoas tirem suas próprias conclusões, em não tomá-las pela mão com condescendência paternalista ou, se não funcionar, à força mesmo, para que pensem da maneira correta.

A piada não é inimiga. A piada é na verdade o diagnóstico de que as coisas não vão bem. Ela ridiculariza o opressor, e não o oprimido. Porque humor não é desculpa pra ser cretino sem censura. É, ao contrário, autorreconhecimento. A essência da ironia. Um instantâneo do ridículo, e do ridículo da nossa mediocridade. Quem faz a piada se inclui no problema na medida em que expõe o mal, e não o pratica. O piadista não se coloca acima, mas no lugar do opressor. Essa é a humildade do humor.

Estão querendo transformar falta de senso de humor em esclarecimento. Nunca pensei que ficaria do lado dos nazistas. Mas chegou a hora. Hoje vou sair e bater nuns pretos. E comprar minha Playboy.

domingo, 23 de agosto de 2009

Meu amigos e eu conversando sobre arte – tipo um poema modernista

Ih, indie.


I.

Fui lá na exposição do Degas.
Ôôô. E aí?
Degas, meu. Sensorial.
Cezanne.
Cezanne.
E aquele tecido lá da saia da escultura?
Pô, tecido de bailarina. De roupa mesmo.
Sacada do cara.
Pffff.

II.

Saca os pré-rafaelitas?
É, tipo vi uma vez numa aula de História da Arte na FAU.
É muita informação mesmo.
Matisse.
Puuuuuuutz, Matisse. Toca aqui.

III.

E Kandinsky.
Bauhaus, é.
Tem Dalí.
Velásquez.
Muita renascença.

IV.

Meu preferido é Van Gogh. Aquele fogo todo, tipo um fogo mesmo.
A pincelada que queima, né?
Éééé, toda uma mistura. A representação mesmo.
Arte é mesmo o que vem de dentro.

V.

Sabe do que eu gosto? De abstracionismo.
Meu, Pollock!
Pollock!
Tem aquele filme com aquele carequinha.
Issssssso.
O carequinha, como é que o nome dele?

Pô, Matisse.

Dá até uma fome.

Nota: a ausência de palavrões é puramente ficcional.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Curso de filosofia, salvo engano, brasileira

Quer ser filósofo?

1. Ó.

Ó.

2. Pressupondo.

O sonho de todo filósofo é dizer algo que não pressuponha nada. Mas o máximo que consegue é estar consciente de que está pressupondo algo e admiti-lo.

3. Pressuposto.

Heidegger disse que filosofar é dialogar com filósofos.

4. E agora?

Encontre um filósofo.

Heidegger não conta, porque era nazista.

5. Encontrando um filósofo.

Vou escolher outro aleatoriamente.

6. Reconhecendo um filósofo.

Existem muitas maneiras de se reconhecer um filósofo. Duas são canônicas e bastante práticas.

7. As duas maneiras.

7.1. Método do Queijo e da Cordinha.

Você vai precisar de 1 (um) pedaço de queijo, 1 (uma) cordinha, 1 (uma) caixa e 1 (uma) vareta.

Amarre a cordinha na vareta. Pegue a caixa e vire-a de cabeça pra baixo. Encaixe a vareta em um dos cantos da caixa de modo que se possa colocar o pedaço de queijo embaixo. Então espere o filósofo ser atraído pelo queijo. Quando ele estiver sob a caixa, puxe a cordinha.

7.2. Método Lula Lá.

A segunda maneira é Convite à Filosofia, de Marilena Chauí. Tão eficaz quanto a primeira, mas um pouco mais cara.

8. Escolhendo aleatoriamente.

Dessa vez, vou recorrer à segunda maneira. Pego meu Convite à Filosofia e abro em qualquer página. Aqui, racionalismo. Descartes.

Não tem problema ele ser francês. Franceses também são seres humanos. Só não tomam banho. (Pressuposto: Faz tempo que não ouço alguém falar que francês não toma banho. Piadas com francês que não toma banho estão em baixa desde que o mundo resolveu se assumir brega sem medo no coração.)

La raison dans la philo.

9. E agora?

Encontrado o filósofo, dialogue.

10. Como dialogar.

Dialogar é dizer que alguém disse x, mas que você diz y. Mostrar a língua é dispensável. Só blogueiros mostram a língua.

Dialogar com a tia Lurdinha não vale. A desagregação das discursividades onto-teológicas faz o bolo de fubá queimar. (Pressuposto: A tia Lurdinha é um esteriótipo do familiar insensível às Grandes Questões da Humanidade, mas que espero que o advento do Twitter venha a desmentir nas próximas décadas.) Precisa dialogar com filósofos.

11. Dialogando com filósofos.

Descartes disse que o bom-senso é a coisa mais bem distribuída do mundo. É óbvio que nunca esteve no Brasil. Nem leu um livro do Richard Dawkins. Eu digo que o bom-senso é a coisa mais mal distribuída do mundo. E no Brasil é um pouquinho pior. Um lema que resume muito bem o que a gente pode chamar de metafísica brasileira é o seguinte:

Quando tudo fica feio e ruim, aí tudo fica bonito e legal.

E dá sistema. A metafísica brasileira explica também por que o coração do brasileiro transborda de misericórdia. A reeleição vitalícia de toda aquela molecada bagunceira do Legislativo é simplesmente perdão. Quem perdoa vive mais e mais feliz. Então. E depois dizem que esse país não é cristão. Perdoar político é uma prática tããão cristã. Cristianismo brasileiro, claro. Parece que o que faz do Brasil Brasil é a capacidade de dar sua própria versão de qualquer coisa que caia aqui. As más línguas dizem que uma versão piorada. A elite golpista, claro.

Pra vocês entenderem, vocês que não sabem nada de teologia, cristianismo brasileiro é como se o Anticristo fosse o Sérgio Mallandro. No fim dos tempos, o mundo inteiro se curvará perante a Besta, que gritará: “Rá, pegadinha do Mallandro!”

12. E agora?

Quem chegou até aqui é quase um filósofo. Basta depositar a quantia de R$ 50,00 na conta bancária abaixo que eu enviarei por e-mail seu certificado. E parabéns.

Banco do Brasil ag. 0646-7 conta 21.153-2

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Datafolha: 74% querem o afastamento de Sarney

José Sarney não é judeu. Nem mesmo marrano. O y no nome faz desconfiar. Mas Britney também é com y e não é judeu. Mulheres judias são geralmente magras. O caso é que nazistas perseguem judeus. Ouvi dizer que também negros e homossexuais. Mas acho que não. Assisti A Lista de Schindler, e não tinha o Morgan Freeman nem o Rupert Everett. Só se forem judeus negros homossexuais. Tipo o 50 Cent. Aquilo na cabeça dele é um kipá, né? E o clipe em que ele e o Eminem estão presos em clima de rebelião lembra Oz.

Costumava desprezar gente que se impressionava com 50 Cent e sua trajetória de superação da bandidagem ao estrelato. “Sou durão porque levei uns tiros.” Não fosse o fato de ser judeu, negro e homossexual, ele seria nazista pensando desse jeito. Olhar as pessoas de cima pra baixo só porque levou uns tiros é o mesmo que eu esnobar alguém porque estou com o braço engessado. Militares fazem isso com civis. Esses civis aí. Tá, eu nunca quebrei o braço, nunca assinaram o meu gesto e eu já me sinto diminuído o bastante sem ter de tocar nesse assunto.

Minha reflexão profunda de hoje é que política é uma espécie de moralização do poder. Em vez de barbarizar geral sem dar satisfação a ninguém, você barbariza geral e depois pede desculpas. Você barbariza geral limpando a boca com o guardanapo. Alguém aí pode dizer que, se for assim, então a única diferença entre a civilização e a barbárie ou o chavismo é que na primeira o tapa na orelha é previsto em lei. Então.

Um ato secreto seria então a exposição necessária da coisa podre que é a nossa alma?

Mas eu estou preocupado com a desumanização que o debate político pode implicar. Queremos ter razão e acabamos enxergando do outro lado apenas a parte equivocada, faltosa, desonesta. O inimigo a ser combatido e derrotado. Um alvo. Sabe, desumanizar o outro é desumanizar a si mesmo. Por isso quero fazer algo diferente hoje.

Veja isso:



Lembra?

Bom, vou contar uma história. Fechem os olhos. Quero que me ouçam. Quero que ouçam a si mesmos.

É a história de um garotinho brincando numa praia. Pensem nesse garotinho. Imaginem o enorme sorriso em seu rostinho de bolacha e ele correndo de um lado pro outro. Imaginem esse garotinho fugindo das ondas, que avançam gentis sobre seus pezinhos bronzeados. Esse garotinho está feliz. Ele é feliz. Porque é uma criança pura e inocente. Ele nunca ordenou um ato secreto. Tirando aquela vez em que a priminha Clarice foi em casa. Mas essa vez não conta. Ele gosta de bolo de fubá. Principalmente do bolo de fubá da vó dele. Esse garotinho tem uma vó. Uma avozinha toda tortinha com um buço que espeta quando ela beija o garotinho. Agora imaginem esse garotinho de volta da praia. Ele está saindo do casarão da vovó pra ir brincar, com a boca cheia de bolo de fubá. Mas, em vez de encontrar a criançada de pé descalço esperando, ele se depara com uma multidão de caras-pintadas. O garotinho não sabe o que está acontecendo. Imaginem sua cara de bolacha ficando vermelha e seus olhinhos se enchendo de lágrimas. Ele começa a chorar daquele jeito que as crianças choram como se alguma coisa muito horrível estivesse acontecendo. E está. A multidão avança sobre ele gritando que ato secreto é crime. Ela pede que o garotinho vá embora do casarão da vovó. Da avozinha dele. Que ele vá embora e fique pra sempre sem o bolo de fubá da vovó. O garotinho corre pra debaixo da saia da vovó e se agarra nas pernas dela. Ele está tão aterrorizado que quando for adulto vai ter que escrever um romance de qualidade duvidosa sobre esse episódio e depois conseguir uma cadeira na ABL. Imaginem todos aqueles estudantes de humanidades gritando “Fora!”. Todos sem tomar banho. Imaginem o cheiro. É uma mistura de cecê e livro de sebo. O garotinho está tremendo. Suas pernas fininhas balançando. Seu coraçãozinho batendo cada vez mais depressa, parecendo que vai explodir. Vocês conseguem ver seu pequeno toráx subindo e descendo debaixo da camisetinha? Vocês conseguem ver o garotinho apertando os olhos muito forte como se isso pudesse fazer aquela gritaria horrível parar? Conseguem ver? Eu quero que vocês imaginem esse garotinho. Imaginem que é o Sarney.

Podem abrir os olhos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Como a minha mente funciona about conservadorismo

É muito fácil ser conservador quando você é velho. Você não precisa explicar por que você é conservador. Você é conservador porque você é velho. Isso é evidente. As pessoas acham isso evidente. Tudo o que as pessoas acham evidente é evidente. Então você é velho e pode ser conservador em paz. Alguém poderia dizer que você pode ser conservador em paz porque as pessoas não te levam a sério. E que as pessoas não te levam a sério porque você é velho. Então seria difícil ser velho porque as pessoas não te levam a sério. Mas não é disso que eu estou falando.

Difícil mesmo é ser conservador se você é jovem. Se você é jovem, as pessoas não acham evidente que você seja conservador. As pessoas acham isso diferente. As pessoas acham isso estranho. Porque as pessoas esperam que alguém jovem seja libertário. Esperam que você seja libertário. Moral e politicamente libertário. Ser moralmente libertário significa acreditar que as pessoas são livres. Acreditar que as pessoas são livres significa acreditar que cada um tem o direito de viver a própria vida do jeito que achar melhor. Acreditar que cada um tem o direito de viver a própria vida do jeito que achar melhor significa acreditar no amor livre. Acreditar no amor livre significa acreditar que o amor tem muitas formas. Acreditar que o amor tem muitas formas significa apoiar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Apoiar a união civil entre pessoas do mesmo sexo significa que você é gay.

Se você é gay, é natural que você seja moralmente libertário. Mas você não precisa ser moralmente libertário pra ser gay. Você pode ser gay e ser moralmente conservador. Você se sentiria muito original. As pessoas que você conhece te achariam muito original. E você seria muito original se ser muito original não fosse uma falácia. Porque não existe ninguém muito original. Todo o mundo é muito parecido. Todo o mundo pensa quase as mesmas coisas. Qualquer coisa que você pensou e que aparentemente nunca foi pensada por ninguém na verdade nunca foi pensada pelas pessoas que você conhece. As pessoas que você conhece não são todo o mundo. Mesmo que você conheça muitas pessoas. Mesmo que você tenha dois perfis de orkut lotados de pessoas que você conhece. E nem todo o mundo que você conhece é seu amigo. Mas não vou entrar nesse assunto.

Eu discutindo pressupostos com Olavo de Carvalho (à direita) na minha mente.

Eu estava dizendo que, se você é jovem, as pessoas esperam que você seja não só moralmente libertário, mas também politicamente libertário. As pessoas que sabem o significado da palavra libertário acham que politicamente libertário significa discordar da ordem estabelecida. Discordar da ordem estabelecida significa que você é de esquerda. Ser de esquerda significa (querer) lutar por um mundo melhor. (Querer) Lutar por um mundo melhor significa lutar contra o patriarcado e a opressão patriarcal. Lutar contra o patriarcado e a opressão patriarcal significa ser contra a Igreja Católica. Ser contra a Igreja Católica significa acreditar no amor livre. Acreditar no amor livre significa acreditar que o amor tem muitas formas. Acreditar que o amor tem muitas formas significa apoiar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Apoiar a união civil entre pessoas do mesmo sexo significa que você é gay.

Olavo de Carvalho não acredita que discordar da ordem estabelecida significa que você é de esquerda. Porque, pra ele, a ordem estabelecida é apenas uma invenção da esquerda e que ser de esquerda significa que você não é libertário. Olavo de Carvalho acredita que ser libertário é ser de direita e que não existe direita no Brasil. Pra ele, ser de direita é acreditar no primado do individual sobre o coletivo e ser de esquerda é acreditar no primado do coletivo sobre o individual. Olavo de Carvalho diz que o primado do coletivo sobre o individual é a própria definição de totalitarismo. As pessoas que sabem o significado da palavra totalitarismo acham o totalitarismo ruim. Por isso é que Olavo de Carvalho diz que ser de esquerda é ruim.

A maioria das pessoas discorda de Olavo de Carvalho. Porque a maioria das pessoas o acha muito conservador. Conservador e maluco. A maioria das pessoas é conservadora, mas se acha muito libertária. Se achar muito libertário faz com que as pessoas achem ruim ser muito conservador. Mesmo sendo conservadoras e se achando libertárias. Mesmo sem saber o que significa ser libertário. Mesmo sem se decidir se ser libertário é ser de esquerda ou ser de direita.

Na minha mente eu e Olavo de Carvalho somos parceiros de dança.

Algumas pessoas acreditam mesmo que nem exista esse negócio de direita e esquerda. Elas querem dizer que isso não existe no Brasil. Elas estão se referindo à corrupção política e ao fisiologismo. Fisiologismo significa que você não acredita nesse negócio de direita e esquerda e que por isso só quer o poder. Só não acreditar nesse negócio de direita e esquerda não significa que você apoia o fisiologismo. Tem que também só querer o poder. Essas pessoas que não acreditam nesse negócio de direita e esquerda sem só querer o poder não estão necessariamente discordando de Olavo de Carvalho. Talvez porque nem mesmo o leram. E se lerem, talvez o achem muito conservador. Conservador e maluco. Porque ele apoia o papa Bento XVI. Apoiar o papa Bento XVI significa estar do lado da Igreja Católica. Estar do lado da Igreja Católica significa que você é conservador. Ser conservador é muito difícil quando se é jovem. Por causa das pessoas. O problema do mundo são as pessoas. Não haveria guerras nem crianças passando fome se não houvesse pessoas no mundo. Olavo de Carvalho diria que é justamente assim que a esquerda pensa, com a diferença que ela não está nem aí pras guerras e crianças passando fome. Ela só odeia que haja pessoas no mundo. E que por isso ela é totalitária. Olavo de Carvalho é contra coletivismos porque é contra o totalitarismo. Por isso ele se considera moralmente libertário. Ser moralmente libertário significa acreditar que as pessoas são livres. Acreditar que as pessoas são livres significa acreditar que cada um tem o direito de viver a própria vida do jeito que achar melhor. Acreditar que cada um tem o direito de viver a própria vida do jeito que achar melhor significa acreditar no amor livre. Acreditar no amor livre significa acreditar que o amor tem muitas formas. Acreditar que o amor tem muitas formas significa apoiar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Apoiar a união civil entre pessoas do mesmo sexo significa que você é gay.

Continua indefinidamente.

sábado, 8 de agosto de 2009

Fomos ao cinema ver Inimigos Públicos

Inimigos Públicos é filme de macho pra macho, segundo uma estética muito macha que Mann veio aperfeiçoando até chegar aqui mais sóbrio e nos entregar sua visão do romantismo macho, essa modalidade original dos romantismos. Mulheres deveriam mesmo acreditar senão no romantismo macho, que é claro que cobra seu preço em que talvez seu amante não volte, garota, porque o romântico macho crê que prova de amor é indispensável e que é dada apenas sob a forma de algum heroísmo, que como todo heroísmo é estritamente inconsequente e perigoso. É meio sexista, pois propõe que o mundo é o mundo do herói, no qual a mulher só pode ser aquela que precisa ser salva. Sexista, condescendente, etc e tal, mas muito bonito, como mostra Mann.

Pelamor, alguém me salve do mal!

Cada cena é obra de ourivesaria, ou coisa que o valha, latejando em nossas cabeças depois da sessão e nos garantindo que se trata de um espetáculo, de muito bom gosto, conforme deveriam ser dois em cada quatro filmes lançados, os outros dois sendo um de mau gosto intencional e o outro de mundo cão em estética modernista. Isso até vir algum gênio sob a inspiração de Shiva para restabelecer o Espírito desencarnado das artes nas artes e assim nos tirar do atoleiro de cinismo que matou John Hughes, acho eu, se é que não foi a Baader-Meinhof 15ª geração.

Marion Cotillard pode negar o 11 de Setembro e, dependendo do dia, o Holocausto, contanto continue sendo bijuzinho como aqui, emocionando o fundo do peito amigo macho mediante sua presença francesa exportação, naturalmente kitsch, mas por isso mesmo incrivelmente consumível. E Johnny Depp é o John Dillinger romantizado que Mann pediu a Deus, caindo morto covardemente varado de bala com a gentileza de galã hollywoodiano que se acha mais do que isso, talvez um tipo de Dillinger legalizado, como se Depp cumprisse os desejos consumistas de bon vivant do assaltante de 1930 estrelando num blockbuster como a versão bucaneira de Keith Richards, mas eu posso estar enganado.

No banco de trás, a mulher observa os homens sendo homens.

Como o eixo narrativo é a história de amor de Dillinger com Billie Frechette, pode levar a namorada, que mais gostará quanto menor for seu coeficiente libertário, mas lembrando que, segundo Michael Mann, namorar mulher libertária é o mesmo que namorar homem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Preenchendo o perfil

Percebi que eu não dou a mínima. Assim, absolutamente, em geral. A totalidade da indiferença ou indiferença à totalidade. Radicalismos assim pedem explicação. Bom. Estava lendo uns blogs; é sempre assim, a pessoa está bem, mas de repente entra em crise porque foi à academia, ou porque estava lendo uns blogs, ou porque tomou um sorvete de casquinha. Bom, lendo uns blogs, notei como as pessoas se interessam pelas coisas. Poxa, as pessoas se interessam mesmo, e muito, pelas coisas. Escrevem posts enormes sobre notas de escândalos com parlamentares. Linkam matérias de revistas científicas norte-americanas sobre como os gays estão tentando dominar o mundo (verdade). Analisam, em profundidade, cretinices em textos postados por outros blogueiros. Divulgam bandas obscuras, com faixa a faixa de toda a discografia, que você nem podia imaginar que já vem desde a década de 1970. Enfim, é “de uma grande efervescência cultural essa blogosfera”, pra arremedar estilo novela das oito.

Mas eu não dou a mínima. Não tenho vontade nem de escrever sobre filmes, que eu vejo só por prazer. Sem profissionalismo nem disposição maníaca. Escrever sobre filmes me dá um bode terrível justamente porque milhões de pessoas estão fazendo isso com muito mais vontade e instinto assassino. Se empenhando mesmo em analisar e fundamentar suas impressões sobre um filme. Ou seja, fazendo a coisa com aquela seriedade que te faz levantar da mesa e dizer que está ficando tarde.

Na faculdade o pessoal está aprendendo justamente isso, né? Esse instinto assassino que também chamam de paixão pela vida, mas que eu no fundo só acho uma obrigação autoimposta de ser intrometido porque disseram que isso é sinal de inteligência. E porque disso depende seu emprego. Daí o sujeito ler muito pouco, e com mínima retenção de conteúdo, mas ter um milhão de referências, como verbetes que ele saca numa conversa, só por uma muito contemporânea compulsão por citar. Você quer conversar com um ser humano, mas ele só tem nomes, e não ideias próprias, coisas que geralmente não têm muito glamour, porque ainda não foram devidamente lapidadas. Ou seja, não são bonitas de se dizer. É preferível dizer alguma platitude pomposa disponível no Wikipedia.

A ideia é que você lê Dostoievski e assiste filmes do Bergman porque assim que entrou na faculdade descobriu que é isso que pessoas do seu curso fazem. Você está preenchendo lacunas de seu perfil. Você está preenchendo um perfil. Nossa. No fundo, gosta de literatura beat, que é o mesmo que não gostar de literatura, e de filmes como Magnolia. Filmes sensíveis assim. Assuma-se então. A verdade é que fomos criados diante da televisão, certo? Isso faz de toda esta geração uma farsa no que diz respeito à arte. Mas isso é justificar, o que eu não quero. Vou pular isso então.

Camarada Moderado, Rogério L. e Paulo Nishihara com umas meninas esquisitas do tempo do colégio.

Gente como a gente não deveria fazer faculdade. Deveria vender coco na praia, entardecer de calção, essas coisas que não forçam muito e que constituem a vida boa. Certas vocações não se expressam em carreiras profissionais. Mas disseram que a gente tem que ser diplomado. Então...

Mas naturalmente são os blogs bons, com ideias e pensamento autônomo, bem escritos e divertidos que me fazem me sentir mal por ser tão desinteressado. Inclusive as pessoas interessantes têm mais interesse que eu. Uma pista? A maioria é católica. Precisa então defender o papa. O nível geral de estupidez do mundo se mede pela quantidade de ataques ao papa, ou mesmo pelo fato de atacarem o papa. É o common sense da intelectualidade: pra ser intelectual, você tem que “apreciar” Godard (até você sabe que Godard no máximo se aprecia; Godard e umas tantas outras coisas foram feitas não para serem amadas, mas apreciadas) e ser contra o papa. Ser contra o papa é o tipo de ideia tão idiota que mesmo a forma de enunciá-la te constrange a não o fazer. Afinal, o que é que você é? Baygon? Contra moscas e baratas. Bom lembrar que gente como a Madonna protesta contra o papa. De que vale ter um QI de 150 quando você o usa como a Madonna? Protestar contra o papa, pff.

Mas essa é a minha tese. Ter de estar contra um mundo contra o papa e de certo modo defendê-lo de seus terríveis detratores (estou pensando na Madonna; quantos jovens católicos apostataram por causa dela? Certamente toda uma geração.) é que torna as pessoas interessadas. Mas eu não sou católico nem a favor do papa. Tem gente que é a favor do papa, que é tão idiota quanto... Nesse nível de reflexão e inteligência, o melhor é ser o papa. Ele tem curso superior e fala várias línguas.

E os não católicos? Os protestantes sem medo no coração, como eu, e os designers, e as cheerleaders que leem Gatsby às escondidas no quarto depois da meia-noite, e as menininhas mordazes em geral que vão se casar com um cara bem goiaba, com cara de pochette e cérebro de pudim? E gente que ouve Rossini da única maneira que dá pra ouvir Rossini – sorrindo? Estes não terão interesses nem a segurança de se enquadrarem, ao mesmo tempo sem serem desajustados, com o privilégio boboca de ser um desajustado, de ser incompreendido, snif, snif.

A coisa mais legal em designers, pelo menos os que eu conheço na base da idealização, é não terem o compromisso de ser intelectualizados. São como eu, querem entreter. Um dia você desencanta, disse a tia Judite. Nem quero, tia.

Nham, será que ele tem mesmo uma tia chamada Judite?

sábado, 25 de julho de 2009

A crítica da crítica da crítica da crítica

Ouvindo conversas alheias em locais públicos, descobri que, minha nossa, todo o mundo tem blog hoje em dia. A maioria é ruim. Pois a maioria diria que a proliferação de blogs mostra que as pessoas estão lendo e escrevendo mais. Gente chatinha que escreve mal e lê os livros errados sempre está preocupada com que as pessoas leiam mais. Sim, é possível que você esteja lendo os livros errados. Exatamente, gente chatinha não acha que existam livros errados. Errado é não existir livros. Dã.

Só me tornei blogueiro porque tenho algo a dizer, uma mensagem a passar.

A maioria dos blogs que não te atordoa com as cores berrantes de um layout cheio de figuras de mangá é de jornalistas wannabe e entusiastas do entretenimento. O que é um entusiasta do entretenimento? Algum jovenzinho vislumbrado que prega sobre a revolução democratizante da internet, ignorando que democratizar é necessariamente nivelar por baixo. Capaz que ele acredite que a tecnologia vai redimir o ser humano, a-hã.


***

Em O casamento de Rachel, as coisas pioram, as coisas melhoram, e no final fica tudo na mesma. Nos vinte minutos finais, aparece na festa um bloco carnavalesco, e todo o mundo cai no samba. Achei bem emblemático num filme em que nada se resolve. O casamento de Rachel também é Brasil.

Consenso que seja o melhor Demme desde O silêncio dos inocentes, o que não é grande coisa diante de Beloved. Se olhar sua filmografia, a gente confere meia dúzia de documentários musicais. Esse interesse por música fica evidente neste filme; no segmento final, por exemplo. Pode incomodar um pouco, mas eu gosto de diretores que se demoram nas coisas, mesmo quando elas são só do interesse deles próprios.

Anne Hathaway concorreu ao Oscar por sua atuação como a irmã egocêntrica e viciada. O filme é uma bomba emocional, transcorrendo em constante tensão, que o registro documental, de câmera na mão, acentua. E é melhor que todos esses filmes com fotografia estilizada que você tanto adora.


***

E, por último, este trecho de um livro de Diogo Vasconcellos, “O mexeriquinha e outros contos”:

“Haviam dito que sim. Ela saiu dali louca varrida beijando saltitante. Se era assim, tudo daria certo não só hoje como sempre. Tadinha dela que já via flores onde nem havia caminhos. Contou as moedinhas e comprou um lanche com maionese perigosíssima, mas nem ligou, achando tudo uma delícia. Subiu no ônibus e escolheu onde sentar, e ônibus vazio era lindo, era precioso, tinha espaço pra sua alegria tola, só sua. Um menino do outro lado estava lendo Kafka, que leu na capa e depois nem olhou mais, que Kafka era deprê total.”

A referência a Kafka achei meio gratuita, mas o estilo gay é suuuuuuperlegal. Recomendo.

sábado, 18 de julho de 2009

HEART-SHAPED BOX

Seria eu também um indivíduo profundo tentando pronunciar nos intervalos do inteligível o inefável que mal se pode sustentar, como quem tenta apanhar estrelas com uma rede? Teria eu mãos delicadas ao escrever, capazes de dedilhar as saliências fugidias da coberta da alma? Ó, amigos, procedo eu do mesmo Espírito cuja fecundidade infinita torna cada gota pesada demais de sentido, sempre prestes a se espatifar no fundo onde nos confinamos?

Não, é claro que não.

Porque é isto que descobri, ainda ontem e quase todo o dia, que: apesar de sofisticado, fino e educado, muito ético mesmo, com espiritualidade ok (que quer dizer espiritualidade a caminho, com os cinco solas e tudo), ouvindo Rachmaninov e me emocionando, eu não sou profundo. O indivíduo profundo é emocionalmente complexo demais pra mim.

Enquanto eu acho bebês fofinhos, mulher bonita e tenho dó de criança na rua, o indivíduo profundo sofre: sofre porque os bebês não são suficientemente amados, porque as mulheres são cidadãos de segunda classe, porque as crianças, de rua ou não, se tornarão adultos cínicos e materialistas, mas também – e principalmente – porque a miséria é como agulhas penetrando em seu coração sangrento e o afeto é senão uma ilusão que se alimenta do clarão evanescente da alma torturada do poeta sufocado dentro de mim.

A selva de desesperança que é a minha alma.

Ter uma alma torturada e sofrer apaixonadamente sua inadequação no mundo têm nome: chama-se adolescência. Evocar a adolescência é quase como apelar a um absoluto capaz de encerrar a discussão na hora; as pessoas dizem “ah, sim, é por causa da adolescência”. Pois na minha época esse negócio de adolescência não existia, nós usávamos sapatos com solado de madeira, as meninas casavam aos quatorze anos e poligamia era incentivada.

A profundidade é como a torneira da pia da cozinha pingando sobre três pratos amontoados um sobre o outro num equilíbrio perfeitamente instável, tec, tec, tec, a noite inteira, e você com preguiça de levantar no frio e ter que pisar no chão gelado só pra apertar bem a porcaria que deixaram mal rosqueada. O indivíduo profundo está condenado a vagar pelo mundo com um coração vasto demais e por isso deixando por aí uma melequinha como se fosse um caramujo. Isso porque o eu profundo não é nada higiênico; não pode colocar a mão e depois coçar o olho, porque se corre o risco de perder as vistas.

O sentimento profundo de não querer ser um clichê gigantesco tatua na testa das pessoas como elas são tão oblíquas ao sentir e pensar que perguntar pra elas onde é que fica uma rua pode te conduzir à viagem trascendental aos subitamente não fictícios nove círculos do Inferno, mas sem Virgílio com pinta de Classic Hollywood actor by Gustave Doré.

Mas você realmente sabe que é profundo quando para de falar de pessoas com nomes de verdade e endereço físico e se pega falando do SER HUMANO.

O SER HUMANO SOFRE é também arte.

Ler Crepúsculo aos 16, 17 anos é gracinha em meninas, acho que porque eu sou muito condescendente com as menininhas, que me lembram a filha que eu nunca tive. Mas ser emo é como transformar a profundidade num desses chaveirinhos que a molecada carrega na mochila com a foto do Bush ou da suástica cortada no meio, porque a molecada é contra o imperialismo militarista e o nazismo. Por isso, a gente que é cínico e materialista, com a boca cheia de Coca e pipoca com manteiga de golfinho do Cinemark, a gente tem que cuidar da molecada, tão perdida nesse mundo e dentro de si. Amém.

E não percam o próximo post, no qual falarei sobre crianças de colo forçadas a usar dreads.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Twitterianas

http://twitter.com/rainnwilson Rainn Wilson com twitter me fez pensar no assunto.

Tchau, blog imundo; adeus, mundo cruel.

Agora, eu twitto onde deveria blogar e blogo onde deveria twittar. E fica tudo pela metade.

Ele acordou e se viu transformado num blogueiro gigantesco. Tentou blogar e percebeu que estava analisando filmes. Era horrível.

A gente tá na moda. E a moda é felicidade. Uma amiga minha disse que tá todo mundo falando de felicidade. Sei não.

Escrever sobre felicidade. Mas minha ideia de felicidade é muito simples e prática. Feliz é quem faz dancinha. Vide os clipes da Feist. Ó: http://www.youtube.com/watch?v=xvOOegxKIoI

Prometo um post-dancinha quando puder.

A forma mais autêntica de felicidade é a dancinha. Só é realmente feliz quem faz dancinha.

Tem também amizade. Pra mim, felicidade é amizade.

Resolvi então escrever sobre amizade.

Os filmes de Judd Apatow provam que amizade é um tema atual.

http://www.youtube.com/watch?v=kRLf04gH7mc Eu te Amo, Cara é outro exemplo. Paul Rudd do bem. E Rashida Jones é amorzinho. Passou batido pelos cinemas daqui. Falta de amor no coração das pessoas.

Não me olha assim. Tô blogando, não tô?

Me preocupa que tudo o que traz uma mensagem o faça a custo da própria dignidade. Inspirar pessoas acaba implicando o sacrifício da inteligência.

Revi Beleza Americana, e aquilo é uma droga. Quando moleque, adorava. Ganhou cinco Oscar e é como um Use Filtro Solar incrivelmente longo, com o Pedro Bial e tudo.

A vida sem amigos é impensável. Li isso em Cícero ou no papel de uma bala de hortelã.

Amigos são melhores que namoradas. (O preço de ser honesto é que a gente acaba, sem querer, admitindo que é gay.)

Namoradas deveriam ser amigos que a gente pode beijar.

Não tem problema algum em ser gay.

O amor é uma coisa ruim porque obviamente não pode ser uma coisa boa.

Amizade é ter alguém a quem contar sem medo no coração que a gente gosta de Los Hermanos.

Não conta pra ninguém que eu gosto de Los Hermanos. Mesmo porque eu nem gosto.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Fomos ao cinema ver Apenas o fim

Apenas o fim é um trabalho de conclusão de curso de alunos da PUC-Rio, que vimos com aquele prazer solidário bem ao gosto parlamentar, pois a gente é jovem, universitário e wannabe que nem a molecada na tela. O comentário cinematográfico profissionalizante se resume a isso mesmo – é um trabalho de conclusão de curso de alunos da PUC-Rio. Pra quem perde tempo vendo o Dado Dolabella cavalgando de cueca, tá bom demais.

A primeira cena é particularmente amadora, dando a entender que os recursos eram mesmo escassos ou então que a perspectiva de acesso a essa história é tal que se esconde no forro de marquises para captar a vida pulsando. É um ângulo doido, trutinha. O filme vai ganhando naturalidade à medida que a identificação com espertezas à Woody Allen se acentua nos diálogos pela repetição e com direito a alusões metalinguísticas explícitas como o loser que se coloca no roteiro e uma edição pocket de “Que Loucura!” no quarto do protagonista neurótico.

Informação técnica relevante é que é feita pelo menos uma piada com Godard ligando-o corretamente a Transformers, o que é toda a história do cinema. Isso nos remete naturalmente a mais uma digressão que é a marca da falta do que dizer sobre qualquer assunto dos meus textos, s’il vous plait. Quantas fadinhas críticas de cinema não caíram mortas cada vez que eu disse que não acreditava em crítica cinematográfica? Provavelmente, muitas. Mas a única coisa que deve ser levada a sério nessa vida com certeza não tem nada a ver com Godard e Michael Bay. E Kubrick, nem feder, fede mais. Imagine você. Imagine eu.

Mó bacaninha pra nascidos em 1984-1986.

Oitenta minutinhos depois você já readquiriu o genuíno sotaque carioca que nunca teve e está se perguntando por que não eu, isto é, se for wannabe o suficiente pra ter um blog. Sempre achei esse o melhor critério para se julgar qualquer objeto artistíshco: eu consigo fazer igual? Por isso é que Vermeer e todos os anos 1980 são pura arte.

Quem for mesmo brasileiro, vai assistir.

Um filme aí que eu vi

Você agora vai ler um post inédito do Camarada Fundamentalista depois que ele foi desmascarado pelos comparsas malfeitores da Fada Malvada dos Dentes. Atualmente, o Camarada Fundamentalista se encontra nas mãos de gnomos psicóticos que chantagearam o Supremo a fim de desvalidar a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo para o exercício da profissão, só pra enfiar um pouco de atualidades neste texto, inclusive a morte de Michael Jackson, cabendo a nota digressiva seguinte.

(Quando Michael Jackson morreu, confirmou-se que esta geração estava destinada a enterrar todos aqueles que eram conhecidos highlanders, como Leonel Brizola e Dercy Gonçalves. Era no mínimo estranho que tantas cabeças estivessem sendo cortadas em plena luz do dia sem que ninguém fizesse nada a respeito. Quedou-se melancólico e meditabundo. E veio a tarde, e veio a manhã. Decidiu blogar.)

He, he, blog arte, né?

O amor não é ecológico

Não fosse meu amorzinho, eu estaria hoje vivendo tranquilamente com uma miséria de dignidade em algum lugar obscuro. Mas acontece que ela não gostava de passarinhos, na verdade os detestava a ponto de querer realmente exterminar todos que cruzassem seu caminho, todos que – em suas próprias palavras – a desafiassem. E desde sempre tenho ouvido que qualquer pessoa com o coração no lugar certo adora passarinhos, de modo que minha educação me colocava num impasse que amigos já avisavam que havia de se resolver da pior maneira possível, mas não quis ouvi-los achando que apenas exageravam, quando eram verdadeiras Cassandras em sua precisão. Mas não vou lamentar ter conhecido o meu amorzinho, que com apenas seu perfume me fez mais feliz que todos os livros de que eu vivia cercado, aprendendo sutilezas que na defesa de meu amor de nada serviriam. E agora sei que mesmo correndo na frente e olhando pra trás apenas quando pensava ouvir um carro, e pisando sobre a minha cabeça com muito cuidado, ela vale mais que todo o esforço de cadáver a que eu me dedicava, pesquisando temas que não interessam em absoluto a um homem de verdade.

Agora ela não precisa mais se preocupar com os passarinhos, pois eu acabei com todos eles. Eu explodi o lugar onde eles se ajuntavam “desafiadoramente”, depois queimei os escombros e os restos da destruição e espalhei cal em cima. Eu não perdoei ninhos nem filhotinhos, mas dei cabo de tudo, inclusive de outros animaizinhos vivendo na proximidade, porque queria estar certo de que não incomodariam nunca mais meu amorzinho, que não teria mais dores de cabeça nem de estômago. E assim meu amorzinho poderia ficar comigo quando eu voltasse cansado do emprego horrível que eu tinha no centro, depois de enfrentar ônibus e metrô cheios de pessoas que haviam se tornado repugnantes em sua insipidez.

Era assim que deveria ser. Eu deveria acordar mais jovem a cada dia a seu lado, com ela coberta apenas pelo lençol branco, que me deixava adivinhar completamente seu corpo deitado de lado, como se estivesse prestes a rolar da cama, no balanço da respiração. Pois eu sempre acordava antes dela, como num ritual, para observá-la e depois ir até a janela e olhar na rua as pessoas saindo pra trabalhar encapotadas num dia completamente borrado pela chuva, só para que eu me sentisse ainda mais privilegiado por poder ficar aqui, com ela, e voltar a me deitar e acordar muito depois das dez da manhã.

Mas o mundo se encheu de passarinhos enquanto eu voltava pra casa com as mãos machucadas, com farpas nos dedos e cortes profundos na junção das falanges, prestes a sangrar de tão secas. O mundo se encheu de passarinhos de todas as cores mais extravagantes, que contra a luz me ofuscavam, e eu tombei cobrindo em vão os olhos, atraindo a atenção indesejada de transeuntes entorpecidos, com caras amassadas e narizes cheios de gomos, o que me desesperava, porque eu só queria que o meu amorzinho me socorresse. Mas ela certamente deveria estar dormindo no apartamento da mãe, depois de ter se entopido de chocolate e bolachas caras, que eu sempre trazia pra ela, mas que acabavam estragando em nosso armário.

Ela não podia nem queria saber que neste momento eu estava sendo acudido por gente que me odiaria se descobrisse que eu faria qualquer coisa pra alegrar o coraçãozinho torto do meu amor. Poluiria todos os rios, mataria todos os filhotes do mundo, queimaria florestas inteiras, porque a biodiversidade não me importa quando o meu amorzinho não consegue pensar direito, quando a vida faz tanto barulho que não deixa o meu amorzinho deitar-se quietinha e descansar como se estivesse morta, pra eu olhar pra sempre como ela é, em cada detalhe.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Por que Maria Antonieta é bom

Pelo espírito do Camarada Fundamentalista

(Oi, meu nome é Camarada Fundamentalista. Eu costumava escrever neste blog.)

É bom porque é bonito, poxa. E você pegar o Ancien Régime e fazer disso uma crônica adolescente merece as cinco estrelas vendidas e promíscuas do Pablo Villaça. E o século XVIII é bem indie mesmo.

This is Versailles!

Sei lá quando, mas em algum momento os críticos esqueceram de vez a arte para serem profundos. Foi quando a coisa ferrou mesmo. Daí que você lê resenhas e resenhas de filmes e livros em que a palavra beleza e seus derivados só aparecem entre aspas ou com muitas ressalvas, se não for a própria ressalva. "Apesar de ser bonito", "só é bonito", etc, etc. A ideia de algo "só ser bonito" bastava quando as pessoas tinham alguma sensibilidade ou quando os gostos eram educados e o espírito não era um cheque sem fundo.

Tá, culpa das vanguardas modernistas, culpa do Brecht, que pintaram o filisteu da cultura como aquele arrumadinho todo art nouveau.

Mas antes mesmo de começar o filme, decidi que ia gostar de Maria Antonieta, quando pensei na cara feiosa de todo o mundo que não tinha gostado. Gente que acha que cenografia é coisa de decorador e figurino, coisa de bicha. Gente feia, com os dentes todo estragados, que acha que higiene é coisa de burguês, que beleza é coisa de burguês. No fundo, essa gente é que é o próprio burguês, o único que existe hoje em dia como categoria estética, dos sem-gosto. Isso me leva ao ponto deste post, a saber: da necessidade do Ancien Régime e de filmes sobre o Ancien Régime. Com a morte de Luís XVI, meus filhos, veio a democratização da arte, esse negócio chamado cultura, com gente falando cuspindo na nossa cara.

Kirsten Dunst de Maria Antonieta ficou bem fofa, faz odiar a Revolução Francesa. E olha que eu gosto da ideia de armar barricadas, botar fogo em tudo e cortar cabeças ocas. Mas no fundo, a voragem assassina que conduz à guilhotina é alimentada por um espírito extremamente aristocrático. Afinal, trata-se de um privilégio. Cortar cabeças é o tipo de privilégio que a plebe criou assim que descobriu, ou coisa parecida, que a nobreza não podia ter privilégios, que era errado (sic), afinal todos os homens são iguais etc e tal. Mas o que seria do mundo se não houvesse privilégios? Emprego, mulher bonita, títulos dos mais variados tipos, tudo o que se faz se faz exclusivamente para alcançar algum privilégio, que é aquela posição na qual você pode dizer "eu tenho, mas você não". No caso, "Maria, eu tenho cabeça, e você não". Na autoajuda, é a vontade de se sentir especial; na autoajuda e nos cartões de feliz aniversário com o Snoopy.

Ai, que saudades de quando era indie ser indie...

O privilégio é a fina flor das instituições, o sentido profundo do poder, o estado a que toda experiência com a beleza conduz. (Se exalta.) Imagine você, espinhento e meio tonto, tendo que ler um livro, em vez de desfragmentar seu HD, poxa, qual a graça da vida? Pois a graça da vida está em resmungar, todo espinhento e meio tonto, que pelo menos "eles" não conhecem a verdadeira arte de um casemod da Enterprise. Um privilégio, criança.

Mas eu fico com Kirsten Dunst e trilha sonora 80’s very cool mais figurino e cenografia deslumbrantes, ai, sim, deslumbrantes. "Quer escrever deslumbrante, escreve, mas depois se mata, bicha, se mata" (Manual de Estilo do Estado de S.Paulo, p. 86). E onde mais a gente vai ver nobres franceses se empanturrando de docinhos e dançando ao som de Siouxsie and the Banshees?

Então, repetindo: filme bonito é bom. Punkt.