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sábado, 8 de novembro de 2008

Barack Obama: Discurso da vitória

Discurso da vitória do senador Barack Obama, proferido esta semana, em Chicago, Illinois.

Neste fim de semana, esta nação [This nation] fez uma de suas mais importantes escolhas. Tinha diante de si a tarefa de dizer que tipo de país é este. A tarefa de decidir, de uma vez por todas, que tipo de país quer ser. E esta escolha, que definirá não só o futuro deste povo, mas o futuro de todos os povos, esta escolha foi feita. E como me alegro em dizer que não poderia ter sido mais sensata nem mais brilhante.

"High Schooool..."

High School Musical 3 – Ano da Formatura bateu Jogos Mortais V nas bilheterias. Quando o primeiro episódio de Jogos Mortais foi lançado, em 2004, creio que todos se lembram do tamanho da comoção que causou. Naquela época, era impensável o que hoje testemunhamos: que a esperança e o otimismo de High School Musical levasse mais pessoas ao cinema que a desesperança e o pessismismo de Jogos Mortais.

Que a vontade de mudar [change] nossas vidas triunfasse sobre nossa culpa e nosso medo. Que a doce mensagem de que devemos ser nós mesmos e de que, só assim, seremos felizes fosse, afinal, mais eloqüente que todos os nossos acusadores, que diziam que não éramos capazes de ser melhores. Que não poderíamos mudar [change].

Porque o sucesso da série Jogos Mortais é senão mais uma prova de que este país era prisioneiro da culpa e do medo. De que estávamos tão confusos e desesperados a ponto de aceitar a ajuda de qualquer um. De que simplesmente não conseguíamos nos libertar dos erros que havíamos cometido. Jigsaw representa nossa enorme culpa e a necessidade que tínhamos de nos punir. Estávamos envergonhados de ser quem éramos. Estávamos envergonhados de ser americanos.

Mas se erramos, estamos arrependidos. Se nos enganamos, finalmente o reconhecemos. Porque somos americanos. Somos um povo que, por mais enganos que tenha cometido, jamais perdeu de vista a liberdade e a justiça como objetivos. E hoje finalmente nos reconciliamos com estes valores. Deixamos a culpa e o lamento para trás. É hora de agir. É hora de mudar [change] as coisas. Porque esse é o tipo de país que somos, um lugar onde ainda existe perdão para todos.

Jigsaw, não precisamos mais de suas lições. Não somos mais as pessoas que um dia precisaram de suas lições. Jigsaw, dispensamos seus métodos, sua tortura e seu moralismo. Esta nação tem uma nova consciência e, portanto, novos professores. Finalmente percebemos que não é por violência e coação que corrigiremos nossas falhas e superaremos nossas limitações. Não, a única maneira de conquistarmos tudo aquilo que sempre sonhamos é ouvir a mensagem de High School Musical.

Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad representam a América que decidimos ser quando fomos ao cinema ver High School Musical 3 – Ano da Formatura. Uma América em que as diferenças já não podem mais nos separar. Uma América em que os sonhos são respeitados e realizados. De fato, uma América que é feita justamente destes sonhos. A única América que sempre existiu.

Minhas filhas Sasha e Malia são fãs de High School Musical. Um dia, quando elas assistiam ao filme pela décima vez – eu tinha de colocar o DVD para elas, por isso sei que foram dez vezes, eu contei –, perguntei do que elas mais gostavam em High School Musical. E sabem o que elas me responderam? Não eram as músicas, as coreografias, Zac Efron ou o cabelo de Ashley Tisdale. Elas me disseram que gostavam das pessoas. E eu perguntei “como assim, das pessoas?”. E Sasha se apressou em explicar que gostava do modo como as pessoas eram felizes, porque não tinham medo de ser quem eram.

Nós, pais, nos comovemos com qualquer coisa que nossos filhos fazem ou dizem, porque sabemos que não são bobagens. Mas naquele momento eu fiquei comovido não como pai, mas como ser humano. Minhas filhas haviam entendido a mensagem de High School Musical. Uma mensagem que eu demorei anos para compreender.

Vocês já ouviram falar da minha busca por uma identidade. E de como, confuso e irresponsável, eu me envolvi com drogas, na juventude. Mas minhas filhas, ali sentadas do meu lado no sofá, vendo um filme da Disney, tinham a oportunidade de aprender uma lição que havia me custado tantos erros, tanto sofrimento. Por isso, reconheço, por experiência própria, a importância e a verdade da mensagem de High School Musical.

Precisamos ser quem somos, porque somos grandes, somos capazes, somos melhores. Sim, nós podemos [Yes we can].

Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad demonstram a coragem que nós teremos de demonstrar de agora em diante para assumir todos os riscos e sacrifícios que a realização de nossos maiores e mais belos sonhos exige. Neste terceiro episódio da série, os personagens vão se formar. É o momento da passagem da vida escolar para a vida adulta. É o inevitável processo de amadurecimento, no qual nós também nos encontramos e no qual – agora eu vejo – finalmente avançamos.

Não é a graça de Vanessa Hutchens, irresistível como a de Ginger Rogers, nem o charme de Zac Efron, comparável ao de Gene Kelly, que nos levaram aos cinemas; mas a mensagem de que, sim, nós podemos [yes we can].

Com Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad, nós também amadurecemos. Nós também vencemos nossos medos e realizamos nossos sonhos. Já não precisamos ter vergonha de ser quem somos e querer o que queremos, porque hoje sabemos que estamos no caminho certo. Porque, sim, nós podemos [yes we can].

Obrigado. Que Deus os abençoe. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América.

Tradução: Camarada Fundamentalista.

sábado, 11 de outubro de 2008

Se Superman é Clark Kent, Tyler Durden é Tyler Durden

Os nomes que adotamos na internet são todos pseudônimos, só pra constar. E no mundo real nossas identidades permanecem secretas, ainda que, entre si, nos conheçamos e nos freqüentemos, nós que escrevemos, cantamos e posamos para internautas do mundo inteiro. Somos como uma liga da justiça que, em dia de semana, é gente como a gente, que pega ônibus e passa mal se come maionese vencida. Quando nos encontramos pelas ruas de São Paulo, por exemplo, como outro dia em que encontrei Mallu Magalhães no metrô, nos cumprimentamos discretamente, às vezes apenas com um olhar cúmplice.

Eram umas três e meia da tarde, e eu embarquei na estação Ana Rosa, a caminho de..., para me deparar com Mallu, sentada com o violão no colo. Ela quase não conseguiu disfarçar a surpresa e contentamento ao me ver:

- Oi, Camarada Fundamentalista! – um tom de voz quase que alto demais, que ela já diminuiu pela metade ao prosseguir: - Que bom te ver, rsrsrs.

- Bom te ver também, Mallu Magalhães, rsrsrsrsrsrs – respondi, me ajeitando entre um cara enorme, de sobretudo, e uma mulher cheia de sacolas, que me fizeram pensar que Mallu Magalhães era o tipo de pessoa que não segurava sacolas nem mochilas para os outros em ônibus e metrôs, tsc, tsc, tsc. Mas eu sou muito julgador, por isso afastei esse pensamento da cabeça e ia perguntar não sei quê pra ela, quando o trem parou bruscamente, e o cara enorme oscilou como um carvalho golpeado por um guindaste, e me perdoem a eloqüência inesperada da imagem.

"Mallu, que surpresa!"

(Um fã da Mallu que leu a primeira versão deste relato observou que provavelmente ela não se oferecera para segurar as sacolas da mulher das sacolas porque estava com seu inseparável violão no colo, como eu mesmo mencionei. Plausível, mas mantive o original, compensando-o com este adendo, por achar mais honesto registrar minha possível precipitação. Agradeço ;) especialmente, portanto, a Wilson F., o fã, que me garantiu que Mallu Magalhães não só segura bolsas e sacolas, como cede seu assento para idosos, gestantes e deficientes físicos.)

Ô, sim, era naquela época de constantes falhas mecânicas do metrô, que não suportava o aumento excessivo de usuários com a integração metrô-ônibus possibilitada pelo Bilhete Único. O vagão lotado, e quente como é na Linha Verde, já imaginem, porque, não sei se lembram, mas as paradas devido a falhas mecânicas então podiam durar de vinte a trinta minutos, como de fato se deu.

Passados dez minutos, e nada, as pessoas se abanando, bufando e resmungando, como uma purulenta galé de degredados, Mallu e eu tivemos a idéia de salvar o dia, principalmente considerando que havia ali muitos dos internautas que tanto nos amavam em segredo. Demos uma piscadela, e ela já foi tirando o violão da capa. Não foi preciso mais nada para que meia dúzia – dentre os quais, um casalzinho indie e um rapaz com um Dom Casmurro do Estadão nas mãos – a reconhecesse, mas, contidos como são os jovens bem-nascidos, procuraram apenas chegar mais perto, porque sabiam que dali sairia aquele folk gostoso e intimista, ora entranhado, que fez a fama de Mallu Magalhães.

"Essa aqui é pro meu grande rsrs camarada rsrsrsrs, Camarada Fundamentalista."

A pedido meu, que considerava a mais representativa cover de seu repertório e especialmente adequada à ocasião, sem dizer que a de Mallu era a melhor interpretação desde a versão original de Johnny Cash, ela começou a introdução de “Folsom Prison Blues”:

“I hear the train a comin'

It's rolling round the bend

and I ain't seen the sunshine since I don't know when,
I’m stuck in Folsom prison, and time keeps draggin' on
but that train keeps a rollin' on down to San Anton.
When I was just a baby my mama told me:
Son, always be a good boy, don't ever play with guns.
But I shot a man in Reno just to watch him die
When I hear that whistle I hang my head and cry.”

E que olhar era aquele no rostinho de Mallu, da angústia negra de Memphis, da revolta estudantil do Quartier Latin, da sanha assassina das Bolsas em 1997, era o puro espírito maldito! Arrepiado, dizia comigo mesmo que já não estávamos num vagão de metrô entre as estações Paraíso e Brigadeiro, aquilo era a Caverna de Adulão, referência que os leitores versados nas Escrituras não deixarão passar. E continuou, prodigiosa:

“I bet there's rich folks eating in a fancy dining car
they’re probally drinkin' coffee and smoking big cigarrs.
Well I know I had it coming, I know I can’t be free
but those people keep a movin'and that’s what torture means.”

(Muitos blogueiros me perguntam, em congressos de que participo, se a introdução de letras de música, mesmo quando devidamente contextualizadas, como “é o caso de seus posts”, eles contemporizam, se mesmo assim é legítima. A pergunta procede desde que muitos amadores, notadamente miguxinhas não filiadas, fazem disso um expediente gratuito e preguiçoso. Costumo dizer que a subversão fraudulenta de um recurso legítimo depõe, por certo, tão-somente contra o subversivo, como se diz que a lei é boa, nós é que somos corruptos.)

“Well if they'd free me from this prison,
if that railroad train was mine
I bet I'd move just a little further down the line
far from Folsom prison is where I long to stay
and I'd let that lonesome whistle blow my blues away.”

Aquilo era um canto da terra, profundo e verdadeiro apenas como um produto da natureza podia ser. E eu tinha certeza de que todos naquele cubículo haviam transcendido, nem que por quatro minutos, porque quando desembarcaram, minutos mais tarde, na Trianon-Masp e na Consolação, iam com um semblante como que purificado por uma grande fúria finalmente liberada pela voz e violão de Mallu Magalhães. Ela, que também o pressentira, quando nos despedimos no Sumaré, onde ela ia descer, me confessou, renunciando por um instante a sua grande humildade de artista folk:

- E pensar que eu nunca estive em Folsom Prison, rsrsrsrsrsrsrs.

– Nem nós, Mallu, nem nós.

A Arte, e somente a Arte, é capaz de nos unir tanto na miséria aviltante, como na glória excelsa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

De como Jewel e eu salvamos a Augusta

Jewel e eu. A Jewel de 95 é um dos meus 14 grandes amores. É uma lista fixa que foi inaugurada muito antes de eu saber que seria uma lista, quando eu vi um dos irmãos Hanson, aquele, e achei que era uma garota, pelo que me lembro, mas isso não vem ao caso.

Depois mais equívocos, quando eu me apaixonei pela Victoria (então) Adams, ainda Posh Spice, por causa de “2 Become 1”, que eu cantava junto, em falsete, apontando com o dedinho que nem ela fazia no clipe.

Mas se é natural sentir atração por um homem, achando que é uma mulher, e mesmo depois de descobrir, não querer acreditar, bem, e gostar de Jewel?

Em Pieces of You, seu debut, ela expôs sua alma dilacerada, ecoando a dor de multidões que comprariam o disco, garantindo um colinho milionário para suas lamentações intermináveis, mas totalmente justificadas. Porque ela não negociaria seus sentimentos para agradar ninguém. Aqui, o paralelo com Marilyn Mason é evidente e inevitável, como muito bem assinalado pelo Wikipedia.

Mas Jewel e eu. Talvez nossa história tenha começado apenas por causa da rua Augusta. Sim, acho que é isso mesmo. Já posso me lembrar...

Jewel de 95.

De como eu desci a Augusta, sentido centro, e provei um pouco do mundo cão. Como descesse a Augusta, sentido centro, muito, muito longe de casa, logo ficou claro pra mim que seria difícil viver o lado Coca-Cola da vida ali. E a coisa só piorou, quando a Bichinha Pobre, perto de mim, disse detestar cinema nacional. Nesse instante, devastado, pela quinta vez naquela semana jurei vingança ao Capital, que fazia do homem proletário, e do proletário consumidor, e do consumidor bichinha, aquela bichinha.

Um menino como eu, criado a leite com pêra, conhecia lugares como a Augusta apenas de ver Amarelo Manga ou Baixio das Bestas. Aliás, assistir Baixio das Bestas é um tipo de obra social.

De como eu me juntei com o dono do Feliciano’s Bar para trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados. Com essas noções de degradação social do cinema brasileiro misturando-se na minha cabeça, é que eu me lembrei do clipe de “Who Will Save Your Soul”, em que a Jewel salvava um bando de excluídos incontinentes num banheiro público só tocando violão. Foi aí que eu tive a idéia de trazê-la pra cá, e então era só ela tocar violão e fazer aquele bando de pederastas e meretrizes mudarem de vida.

Parei pra tomar uma Coca num boteco, eu, um menino criado a leite com pêra, mas que, àquele ponto, já não tinha mais escrúpulo algum. O dono do bar, que era uma espécie de Paul Newman paraibano, chegou-se pro meu lado e disse: – Eu sei o que você tá pensando, que isso aqui não tem jeito. Mas você, um menino criado a leite com pêra, não veio parar aqui por acaso. Não podem imaginar como aquelas palavras me devolveram toda a vontade de mudar o mundo. Puxei na hora um santinho do Glauber Rocha que eu carregava comigo, junto ao peito, e beijei-o.


Terminei a Coca de um só gole e disse àquele clarividente comerciário:

- Eu acho que sei o que fazer, mas preciso da sua ajuda.

- Opa – ele respondeu e bateu o paninho encardido contra o balcão.

Contei então pra ele o meu plano de trazer Jewel pra Augusta. Nessa hora fizemos o Hi-5.

De como eu não tinha idéia de como trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados e acabei desacreditado pelo dono do Feliciano’s Bar. Então, o dono do bar me perguntou como traríamos a “Jiu” e seu violão pra Augusta. Respondi que eu não era um indivíduo particularmente prático. – E não particularmente? – ele me perguntou. Desconversei, falando que uma coisa dessas não acontecia assim, da noite pro dia, a-ham.

De como o acadêmico falha miseravelmente em alcançar o Homem Comum. O problema todo do Homem Comum é esse: a incapacidade de deter-se no plano das idéias, viver uma experiência puramente teórica, por mais paradoxal que pareça. Ele quer ver logo os resultados, quer partir pra ação quando não é hora. E, aliás, quem pode saber qual é a hora? Era o que eu procurava explicar ao dono do bar. Inutilmente.

De como tudo acabou inesperadamente comigo cantando pro dono do Feliciano’s Bar “Who Will Save Your Soul”, porque também ele era um desgraçado. Então, eu comecei a cantar, arriscando inclusive um falsete:

People living their lives for you on TV
They say they're better than you and you agree
He says "Hold my calls from behind those cold brick walls"
Says "Come here boys, there ain't nothing for free"
Another doctor's bill, a lawyer's bill
Another cute cheap thrill
You know you love him if you put in your will
Who will save your soul when it comes to the flower
Who will save your soul after all the lies that you told, boy
Who will save your soul if you won't save your own?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Post com fotos de Ashley Judd

Hoje eu vi, no metrô, um advogado segurando Terra Fria, aquele filme com a Charlize Theron. Sabia que era advogado porque, além do DVD, carregava uns três livros ruins e, o principal, a certa altura da conversa com uma moça ok, ele disse que alguma coisa era improcedente. Nessa hora, eu disse “Ah, tá”.

Aqui uma foto da Ashley Judd, que eu acho um tesouro.

Mas Charlize Theron merece um parágrafo.

Mais de uma vez vieram me falar da beleza de Charlize Theron, dizendo que era ideal etc e tal. Sabe, já tive uma namorada que era a cara dela. Chamava-se Vanessa e tinha cara de esquilo, pelo que eu me lembro. Mas, então. Charlize, filha de Charles e Gerda Theron, nasceu em 7 de agosto de 1975, em Benoni, África do Sul. Uma boa cantada pra se usar com ela é: “Sonhei com você essa noite, neném”.

Mais uma.

Mas de volta. Me preocupou o seguinte: o fato de os advogados de hoje estarem trocando o vade mecum por filmes de tribunal. Eu, por exemplo, já seria bacharel. Essa semana vi Tempo de Matar, só pra constar. Aquele discurso final do Matthew McConaughey é de deixar a gente arrepiado. “Agora imaginem que essa garotinha é branca!” – e lambe o beiço melado de suor e lágrimas. Chocrível!


E aqui outra.

Terra Fria não é tão contundente, principalmente para aqueles que estão acostumados a filmes contundentes. Trata-se de um drama sobre um processo por assédio sexual movido contra uma empresa mineradora de Minnesota, Estados Unidos. (O grifo é do autor, a fim de auxiliar estudantes de Direito que freqüentam este blog.) Nele, Charlize Theron é uma mulher de fibra que aparece às vezes bem esculhambada pra gente não ter dúvida da fibra. :oP

domingo, 28 de setembro de 2008

Ainda os homens do amanhã

Sábado, 14 de fevereiro de 2047. 13h26. Eu estou em apuros, mamãe. Acabei de chegar em Buenos Aires e não me lembro onde mora o tio Val... Ô, sim, lembrei. Tá bem. Te ligo quando chegar lá. Beijo.

14h41. Oi, mamãezinha, cheguei. Estou bem. Tio Val também. A nova cabeça de Gustav Mahler que colocaram nele, apesar do ar severo e das novas mas esperadas fixações com a morte, lhe ficou muito bem. Prefiro-o assim, realmente. A senhora tem de conferir. Tia Marta é que não se conforma; discutem o dia todo porque a cabeça cheira esquisito, e quando brigam, ela começa a gritar “Sinfonia dos Mil, Sinfonia dos Mil!”, e ele quer morrer.

Maman aos 14.

Segunda, 16 de fevereiro de 2047. 20h51. Acabei de voltar do Museu. Ouvimos algumas gravações do que era música há 30, 40 anos. Um horror. Um dos fragmentos, intitulado "Bildam n° 14", devo confessar que era chatíssimo, tinha quatro minutos que pareciam se estender por horas. Tá, o interesse arqueológico, pff. Agora entendo o ditado de que “civilização e energia elétrica são incompatíveis”. Por Diomedes, pensar que já fizeram música com computador. Computador, mamãe! Graças ao bom Calímaco, abandonou-se a guitarra elétrica, a bateria eletrônica e outras obscenidades mais.

Quinta, 19 de fevereiro de 2047. 17h03. Desculpe a demora, é que estive envolvido com a caça a coalas, que se tornaram uma praga nas pradarias. Ah, a senhora sempre me fala de amor. Estou vendo uma moça chamada Helena, muito dócil e prendada. Acho que a arrematarei hoje à noite. Pediram $15 por ela, mas eu não tinha trocado comigo na hora. Mandei reservar. Me deseje sorte, maman.

Me (third from the left) and my mates at... rsrsrsrs Love u guys!

Sábado, 21 de fevereiro de 2047. 11h23. Ô, mamãe querida, estou correndo hoje. Mais tarde, tio Val – que agora insiste em falar alemão, vá bem – vai reger um coro de setecentas crianças carentes entre 21 e 37 anos, todas sem as presas. Lindas. Acredita que ainda não me acostumei com as cebolas daqui, que todos dizem ser as melhores. Ainda me sangra o nariz, mas dizem que é normal. Ah, a tal Helena era uma bela de uma enrascada. Tinha os olhos castanhos, mamãe. Castanhos! Não tinha reparado na hora. Por sorte a senhora que me atendeu era honesta e gentil, e me mostrou devidamente todas as características da moça. Claro, certamente previa devolução futura, sob protestos e reclamações, de que eu não a pouparia. Enfim, ainda espero o amor...

E todo o mundo tem o seu own private dâimon.

sábado, 27 de setembro de 2008

Sweet about me, nothing sweet about me

Quando parece que tudo vai dar errado, começo a pensar na beleza de Claudia Abreu, que é brasileira e atriz, duas coisas que são absolutamente terríveis justamente por poderem ter sido tão boas; provavelmente num outro mundo. E a participação dela no pior e o fato dela continuar sendo tão bonita, meu, acho que sou um romântico.

Fiz um trato com a Martha Suplicy que era o seguinte: se ela não mostrasse a cara durante a campanha ou mesmo depois, votava nela, apesar de tudo. Porque no começo eu estava com essa esperança de que ela não apareceria nenhuma vez. Mas ela descumpriu o nosso trato, desfilando com o surrado tailleur petista e falando que o fato de ser mulher gera preconceito, daí que, se ela se divorcia, então é vagabunda. E eu fiquei sensibilizado nessa hora. Ah, a sociedade paulistana: conservadora e machista. Malufista. E não perde um programa da Hebe.

Ficar sensibilizado por causa de um político – um que é por acaso uma mulher de garra, que diz o que pensa – é como ter pena do Dunga, porque, coitado, o povo brasileiro cobra muito dele. O gênio peripatético do leitor certamente não ignorará como sofismamos no período anterior.

Ser autêntico, dizer o que se pensa. A inversão dos valores. Nietzsche, atacando Sócrates, reclamava que a dialética é uma grosseria; que era indigno argumentar. Mas era ateu. E era também indigno ser ateu. Como não tomar banho ou falar de boca cheia. Richard Dawkins não é o capeta; só alguém que arrota à mesa.

Quando tudo fica feio e ruim, aí tudo fica bonito e legal.

Claudia Abreu civiliza o estilo, pra eu, falando de eleições, envilecê-lo. Sócrates, após ser condenado à morte pelos quinhentos, assim finaliza seu discurso: “Mas agora é hora de partirmos: eu, para morrer; e vocês, para viver. Quem de nós vai para melhor é a todos inaparente, mas não ao deus”. Pois eu queria que nos importasse ser políticos como o era Sócrates: sendo teóricos e, portanto, fazendo da lucidez, que costuma quase sempre vir da reflexão, nossa prática em relação ao cachorro correndo atrás do próprio rabo, a.k.a. mundo das pessoas ser humanas. Porque ser lúcido é olhar o cachorro, e só assim, o que não é um truísmo, porque eu sei que tem muita gente querendo ser o cachorro. (E a forma de dizê-lo é truncada porque precisa.)

Mas também sei que tem gente que defende lucidez no cachorro. Relativistas, é claro. Mas se depois de ouvir os últimos quartetos de Beethoven, ainda continuo achando felicidade em ouvir Gabriella Cilmi cantando “Sweet about me”, como não ser um relativista? Como não justificar posições contraditórias? Mas é culpa da televisão, e de Bergman em DVD. A gente acaba com sensibilidade artística de comercial de desodorante.

Bergman em DVD: o cúmulo da civilização. Em todos os sentidos. Entenda como quiser.

Mas conservadores é que acham bom ser lúcido. Eu acho.

Essa Gabriella Cilmi, ela é um pão. (Isso de dizer que alguém é um pão: só cabe pra quando o dito pão é homem?) E a maquiagem e a produção do clipe induzem o pobre marmanjo à pedofilia sem culpa, disfarçando ainda mais os 16 anos da menina, esses 16 anos de hoje em dia, na base de muita proteína na alimentação. O que faria Sócrates?

Também os homens do amanhã dirão que não sabiam?

E a velha questão se ainda é pedofilia se tem 16. Os que dizem “já” – “se tem 16” – se entregam nessa hora. E como os lamentamos, tsc, tsc, tsc. Mas são os homens do amanhã que hão de decidi-lo, se é, a partir de critérios o mais objetivos possível.

Mas e você, caro leitor, que tem 20 e poucos, poucos... e namora uma colegial, que pensa? Nabokov era Humbert Humbert, como Flaubert Madame Bovary? Ou Lolita? Aliás, Flaubert era Madame Bovary?

sábado, 16 de agosto de 2008

Comentadores Malvadões - o Filme

Advertência: as fotos de Natalie Portman se prestam unicamente a distrair os eventualmente ofendidos pelo texto a seguir, estando portanto desvinculadas do conteúdo do mesmo.

Oiiiiiiii.

Num dos tantos livros de Aristóteles dos quais só nos restam fragmentos, Da Chatice, o Filósofo distingue dois tipos de chatos, a saber: o chato por conhecimento e o chato por ignorância. O primeiro é chato por muito saber, aborrecendo as pessoas com discursos corretos, mas “excessivos”. Aristóteles diz literalmente “aquele que calca o saco”, referindo-se a como é visto o chato por conhecimento. O segundo chato o é por não saber o bastante, porque, como Aristóteles adverte, “todos sabem algo, mas ocorre não saberem na medida”, sendo que aquele que é chato por não saber o bastante alardeia saber o que não sabe, dizendo coisas que pessoas inteligentes (Aristóteles diz “aqueles não-otários”, mas também “os dificilmente vislumbráveis”) logo percebem ser embustes (“groselha”, conforme o Filósofo).

Ora, this is ourselves under pressure.

Uma coisa que os antigos ficaram nos devendo por se tratar de algo óbvio pra eles é que as pessoas podiam ser inteligentes, e inclusive dizer coisas inteligentes, sem ser chatas. Na verdade, elas só eram de fato inteligentes se o fossem entretendo aos demais. Como bobos. Platão jamais escreveria, por exemplo, a Crítica da Razão Pura, uma das maiores grosserias jamais cometidas contra o ser humano, tamanho o mau gosto dos períodos kantianos. Por sinal, “períodos kantianos” é também uma tremenda grosseria.

Nesse sentido, a seriedade é um dos maiores impedimentos que existem para que a chatice seja erradicada do mundo. Faz lembrar uma proposta de roteiro que eu submeti à avaliação de uma produtora independente e até agora não recebi resposta.

O filme se chamaria Comentadores Malvadões – o Filme. Fala de uma organização semi-secreta de comentadores de blog que criou uma intrincada e influente rede de comentários chatinhos, geralmente mal-educados e eventualmente ameaçadores, a blogs de pés-rapados que só escrevem por diversão. Os Comentadores Malvadões respiraram uma toxina liberada pelas plantas de um filme do Shyamalan, fazendo com que eles perdessem todo o pouco senso de humor que tinham e ficassem muuuuuito sérios.

A história começa quando um grupo de blogueiros de Itapecerica da Serra tem sua caixa de comentários covardemente atacada por membros da sociedade semi-secreta, que defende, de maneira bastante duvidosa, como valores – Imparcialidade, Respeito e Tolerância, as três virtudes teologais da bundamolice intelectual contemporânea.

Numa conversa por MSN – uma clara referência a Closer, quando Jude Law e Clive Owen elegantemente simulam praticar sexo virtual, uma contundente crítica do diretor Mike Nichols à artificialidade das novas formas de interação humana, mera ficção de um escritor hábil, personagem de Jude Law no filme, etc e tal – um dos blogueiros de Itapecerica da Serra confronta um dos Comentadores Malvadões, por acaso mãe do diretor Kevin Smith. Eis um trecho:

“Mas se eu rebolar, quer dizer que eu sou viado?”

“Não, se você rebolar, você vira viado. Vira. Se vira, quer dizer que antes não era. Mas depois fica sendo. É diferente, saca?”

Tem que ter as filosofias na cabeça pra entender a profundidade do raciocínio, uma clara referência à Filosofia tal como nasceu na afirmação de Tales de que tudo é água, isto é, a protoproposição da unidade de todas as coisas, fundamento e anseio último da Ratio, etc e tal. E há também um confronto com sabres de luz, com a participação especial do Chris Martin, uma clara referência ao Coldplay, que também pode ser responsável pela trilha sonora do filme, com músicas sobre as dificuldades de relacionamento contemporâneas quando a conectividade é um valor tão abstrato, tão virtual, etc e tal. Outra clara referência do filme é que Chris Martin aparece lendo O que é o Virtual?, de Pierre Lévy, uma clara referência a Pierre Lévy, teórico da informação, etc e tal.

Como se vê, é um filme cheio de referências, o que acaba selecionando muito bem o seu público, apenas pessoas inteligentes que entendem referências muito sutis com sabres de luz.

Na cena final, um dos blogueiros de Itapecerica da Serra, disfarçado de oficial da SS, faz um discurso inflamado sobre o que é um blog de cinema:

“Blog de cinema é um negócio onde pessoas que não sabem nada de cinema profissionalmente (graças a Deus) poderiam escrever sobre os filmes que viram do jeito que quisessem, inclusive tirando sarro, apesar de vir um monte de fã chato de coisa ruim encher o saco porque a gente meteu o pau no que não podia. No que não podia, essa é a idéia. Mas a gente pode. Somo tudo comédia.”

E termina dizendo:

“Sois homens, e não comentadores de blog!”

Uma clara referência a O Grande Ditador, reafirmando mais uma vez a liberdade como apanágio incontestável do ser humano, desde que exercida com o esteio da inteligência, etc e tal.

Porque who are they to judge us, simply because our hair is long.

Natalie achou este post muito engraçado.

Comentário antecipado ao filme: “Comentadores Malvadões – o Filme discute as redes de influência estabelecidas anonimamente entre fãs de artigos da cultura de massa. Uma sátira ao espírito de rebanho da juventude contemporânea. É desde já um clássico contestador.”

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Madonna, adooooooooro

O filisteu da cultura diz assim: os modernos (Stravinsky, Shostakovich e cia.) são inferiores aos clássicos, de classicismo, porque exageram nos pianíssimos. E é verdade. Meu, como você vai ouvir os pianíssimos no busão? Vou te dizer: música moderna (não, não e não; de novo, estou falando de Stravinsky, e não de Madonna) é elitista, porque a gente que é marrom e ouve música no caminho pro trabalho/faculdade/casa/etc, fica como, se não tem a melhor acústica do mundo no Vila das Mercês 4632 e no Terminal Pq. D. Pedro 4506 sacolejando, mas com toda a dignidade proletária no fundo do peito amigo?

Mozart, amigos, é um menino que alegra os dias dos mais pobrinhos como eu, porque, olha, qual foi a última vez que eu ouvi um pianíssimo dele? Ah, você quer saber o que é um pianíssimo? Ora, um piano bem fininho, seu cretino!

Hediondo o blogueiro xingar o leitor. Mesmo que farsescamente. Vai que ele se transforma em comentador de blog, com as mãos peludas e coração de monstro. Nessa hora, entra uma velhinha que grita: ó, mooooonstro! E a turba se acanalhava antigamente com essas coisas. Hoje, com Kevin Smith, gênio. Ah, quer que eu desenhe o que quer dizer “farsescamente”?

Além de Mozart, Brahms, não a cerveja.

Cotas no blog: agora estou ouvindo jazz.

Mas acanalha mesmo o leitor é subestimá-lo, supor que o máximo que ele pode fazer é ouvir jazz, que pra ele jazz é erudito. Jazz não é erudito, gente. Jazz é chato. Tá, estou só brincando, Britney. Porque, por exemplo esse álbum que eu ouvi, Sarah Vaughan with Clifford Brown: era jazz e não era chato. Vocês ouçam aí, que faz bem ouvir de vez em quando gente que não berra. Sarah Vaughan vocalista, mulher e negra; e Clifford Brown, trompetista, homem e negro, só pra situar.

Madonna não é o máximo, esse é o ponto mais controverso do meu pensamento, a que eu sempre tenho que voltar quando as menininhas me param na rua. Porque, ora, vejam, ela canta mal e ela dança mal. Tá, Narcisa, finge que eu estou só brincando. Amo muito tudo isso.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Fomos ao cinema

Estética

Cinema 99% do tempo não é arte, mas vale a pena.

Para ser fiel a esta geração, teríamos que admitir que Curtindo a Vida Adoidado é o maior filme de todos os tempos. Qualquer outra conclusão é pura afetação passadista; mais correta, mas mentirosa. Me refiro às listas encabeçadas por Cidadão Kane, etc. Pobres e cegos, é isso que somos.


Vin Diesel revisitado

Operação Babá é mais honesto que Crash. É gratuito e vale pra toda a família. Crash é só gratuito.

Gratuito é tudo aquilo que diz, e não tem como não dizer, “só foi feito para...”. No caso de um filme que coloca o Vin Diesel de babá, “só foi feito para faturar uma graninha com gente que acha engraçado o Vin Diesel dando uma de babá, ha, ha, ha”. E Crash: “só foi feito para discutir, sob um verniz politicamente correto, as tensões sociais na América, criando um mosaico blargh! que pressupõe as contradições humanas e as nuanças intrínsecas ao social blargh-triplo!”.

Velozes e Furiosos é videogame. E Paul Walker é tipo o Zangief, que você tem que ser muito mala pra escolher como lutador. E o Vin Diesel é tipo o Bison, o vilão que a molecada acha legal.

Generalidades

Lavoura Arcaica tem no elenco Simone Spoladore em participações homeopáticas. Infelizmente, porque sua visão é um deleite ao espectador, que tem à frente um filme excessivo, para o bem e para o mal. Selton Mello magrinho, Leonardo Medeiros que é um ator com que simpatizo muito mesmo e Raul Cortez shakespeareano? Bem, não exageremos. A advertência filistina aos filisteus é de que é um filme para quem realmente gosta de cinema, supondo pois que haja filmes para quem não gosta de cinema. Sabemos todos que os tais existem, e em profusão; eu é que estou sendo chatinho ao querer parecer tão sofisticado a ponto de nem mais entender o funcionamento da mentalidade truculenta. Você, meu beócio leitor, esteja portanto avisado.

Em La Dolce Vita Anita Ekberg encarna ironicamente o ideal que redimiria Marcello de sua vida profissional e espiritualmente prostituída. Como todas as demais seqüências do filme, que avança em ciclos, esta se encerra melancolicamente com a negação do glamour de que se cercam as personagens. É o melhor de Fellini, que leva a cabo um filme que em nada deve à melhor tradição dos moralistas franceses, em denunciar a vaidade do mundo e a pusilanimidade do caráter.

Anedota

Robin Williams para Matt Damon, em Gênio Indomável:

“So if I asked you about art, you'd probably give me the skinny on every art book ever written. Michelangelo, you know a lot about him. Life's work, political aspirations, him and the pope, sexual orientations, the whole works, right? But I'll bet you can't tell me what it smells like in the Sistine Chapel.”

Damon fica calado. Alguém levanta no cinema:

“Mas eu sei: cheira a turista suado.”

Imediatamente um rapaz romântico começa a chorar baixinho num canto.

This is ourselves under pressure.

sábado, 26 de julho de 2008

Pai e Filha

Pai e Filha, de Yasujiro Ozu, só porque eu decidi ser mais japonês, pelo menos abstratamente. Note a expressão dos rostos, o sorriso forçado, e a lentidão calculada dos movimentos. Isso é ser japonês?

Aprecio em Bresson o mesmo que é de Ozu, essa tendência à imobilidade, à estaticidade. Uma qualidade propriamente oriental, o despojamento que visa à essência, a ponto de reduzir atores a modelos, expressão de Bresson, que empregava não-atores em seus filmes, porque o pessoal passa a ser visto como interferência à comunicação do espiritual. E por isso é tudo muito abstrato e severo. Mas Ozu é um romântico, que ama a tradição e faz do casamento um sacrifício de amor do pai pela filha.


O Pai aconselha a filha a como ser feliz no casamento; falando que a felicidade não deve ser esperada, mas criada, que é ela a própria criação. E, em vista do que é a cultura japonesa, quando ele diz felicidade, entendamos nós sossego – cada um na sua, com algo em comum, mas bem pouco.

A Filha de repente entende que casar é uma forma de continuar servindo a seu pai, tudo o que ela quer. Quando ela, uma linda noiva japonesa, ajoelha-se e agradece ao pai pelos anos que passaram juntos, é como se renunciasse a um sacerdócio. [E eu quase chorei.]

Os japoneses são engraçados aos olhos ocidentais, porque, muito contidos, se expressam subitamente, como se deixassem escapar, sem que se entreveja a razão do choro ou do riso, já que são estes senão a superfície do que nunca deve ou vai ser exposto.


Volta e meia se ouve por aí um suspiro que romantiza o matriarcado, imaginando-se que um mundo governado por mulheres seria mais justo e menos opressivo. Mas a civilização só não descamba para a barbárie por causa das convenções sociais, que condenam tudo o que em nós é mais sincero, intenso e, portanto, agressivo, como já constatava a psicanálise. E por uma questão de sobrevivência, porque são elas o sexo frágil, ao menos fisicamente, é que as mulheres são também as mais interessadas em zelar pela manutenção dessas mesmas convenções sociais, que tanto nos oprimem, mas principalmente a elas. (No caso do filme, falo é claro que da tia casamenteira.)

No entanto, não poderiam ser mais subservientes. Enquanto os homens lúdica e levianamente relativizam o código social por meio de palavras e comportamento, relevando descortesias e higiene, por exemplo, as mulheres se aborrecem e protestam, sendo elas as educadoras primárias dos filhos, fazendo do pai senão uma figura simbólica da lei e da ordem que elas ensinam.

Etiqueta e bons modos carregam em si o signo da opressão e da dominação, e isso é frankfurtianamente inevitável.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

As good as it gets

Deu pau no Orkut e sobrou tempo pra eu blogar. Jack Nicholson VS Heath Ledger? Dar uma de gentinha me colocando na ordem do dia? Nããããõ. Vamos olhar algumas fotos.

Não que seja o caso de sugerir com a iconografia abaixo que já fomos melhores, porque não.

Amante histérica de filme do Woody Allen


O problema entre homens e mulheres sempre foi naturalmente um problema das mulheres, que insistem em exigir dos homens atitude. Ao som de Schubert, despacham Angelica Huston. Satisfeitas?

Mr. Deeds


Questão de signos. Jean Arthur era libriana e Gary Cooper, taurino. Winona Ryder é escorpiana e Adam Sandler, virginiano. Consultando diversas fontes competentes, conclui-se que a primeira é uma combinação mais verossímil. Logo, ponto pro Capra. (Mas o amor é uma caixinha de surpresas.)

Mr. And Mrs. Smith


Um mundo melhor não é necessariamente mais inteligente. Arrematar crianças em saldão terceiro-mundista? Não tem preço. Angelina Jolie é a idéia que elas fazem da mulher ideal. Senhoras, eu sei que pode parecer antiquado, talvez até regressivo, mas deixem pros homens definir a mulher ideal. Aqui, ó.

Mulher

Feirante.

O povo tem fome. Então que coma.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Madama e o Torneiro Mecânico

Para Pauline.

Porque, quando eu for humilhado e martirizado pela causa da justiça, que não seja por alguém de quem, em agonia excruciante e entre alucinações, eu me lembre como uma Cruella de Vil com chapinha falando como um oficial da SS miguxo: “Queridinhos, vocês agora vão todos pra câmara de gás sem dar um piu. Um piu! Ouviram?”

Dentre as fábulas modernas, nenhuma é tão rica em ensinamentos como a arquifamosa “A Madama e o Torneiro Mecânico”, adaptação da fábula de Esopo “A Serpente e a Anta”.

Contam que fazia muitos anos que a Dona Anta estava, como se diz, pela Caixa, graças à ajudinha de um médico truta seu. Mas a sorte dela mudou de uma hora pra outra quando responsabilizaram pela perícia outro médico, que, percebendo o esquema, queria fazê-la voltar ao batente. Muito brava, Dona Anta partiu pra cima, mas, enganchando o chinelo de dedo na cadeira, bateu com a boca na quina da mesa e só não foi presa porque começou a chorar que nem uma menininha quando os seguranças lhe travaram as patas.

Esopo.

Vinha andando muito desconsolada pela rua, enquanto tirava o gesso que já não servia pra nada, quando viu entrando numa clínica de estética a Dona Serpente, acompanhada de um segurança de 1,90 e 140 quilos, tão chique ela que até parecia atriz da Globo, e eu acho que era mesmo. Dona Serpente, sem hora marcada, chegou aos berros porque uma mancha que ela tinha em cima da cabeça dela de serpente não tinha saído depois da última limpeza de pele. Apesar da médica lhe explicar que aquela mancha não sairia porque era da espécie de serpente que ela era, Dona Serpente já começava o discursinho do “Você sabe com quem está falando?”, que era exatamente a questão.

Do lado de fora, espreitando, Dona Anta ouvia tudo com atenção. Depois de empurrar uma atendente que a quis conduzir à sala de exames, Dona Serpente saiu possessa, porta afora, seguida pelo segurança. Na calçada, no entanto, sendo abordada pela Dona Anta, que pedia só “um minutinho da vossa atenção, madama”, mandou que o Waldinei, o segurança, entrasse em ação, o que ele fez de pronto, dando uma cacetada na cabeça da Dona Anta debaixo do boné encardido de partido político. Waldinei ainda achou por bem dar-lhe alguns chutes no estômago, já que não tinha ninguém olhando, enquanto Dona Serpente entrava no carro.

Em entrevista ao A Tarde é Sua, da RedeTV, Narcisa Saldanha Tamborindeguy disse jamais ter ouvido falar na fábula da Madama e do Torneiro Mecânico.

Mas Dona Anta era persistente quando estava em jogo a possibilidade de não ter de trabalhar por mais pelo menos uns três anos ou até mais, se ela conseguisse arrancar daquela perua (Dona Anta não era boa de zoologia) uns 500 reais, dinheiro mais do que suficiente pra comprar carvão pras churrascadas quinzenais com carne podre que o governo costumava enterrar nas proximidades da floresta, porque a cerveja era o Diógenes que providenciava. Por isso, com o resto de forças que tinha, gritou que havia um jeito de tirar aquela mancha da cabeça da Dona Serpente, mesmo ela sendo de uma espécie de serpente com mancha na cabeça. “Fala logo”, disse a serpente com aquela voz enjoadinha de serpente, fazendo sinal pro Waldinei parar de chutar a Dona Anta.

Limpando o sangue da boca, o mamífero disse: “Ólia, madama, s’a çinhora kinzé, eu poçu tira eza manxa da sua cabessa”. E explicou que era só cortar a cabeça da Dona Serpente que, por ela ser uma serpente, cresceria de novo. Dona Serpente, que, por causa das sessões contínuas de bronzeamento artificial, andava menos astuta do que de costume, achou a explicação bem convincente.

Tirou 500 conto da carteira de couro de anta e jogou pra Dona Anta, cujos olhos brilharam, apesar do inchaço decorrente das pancadas começar a lhe deformar a fisionomia de anta. Querendo por isso mesmo se vingar, Dona Anta, muito mau-agradecida, disse assim para Dona Serpente: “S’a madama qinze, eu messmu cortou pra sinhoura”. Fazendo uma cara enorme de nojo, Dona Serpente já ia recusando, quando viu refletida no retrovisor do carro aquela mancha horrorosa em sua cabeça. Apavorada, ela concordou com que Dona Anta mesma fizesse o serviço com aquelas patas que não pareciam ver água há mais de ano, contanto que fosse imediatamente.

Torno mecânico.


Foram, então, as duas e o Waldinei pra rua de trás da clínica de estética, onde havia um terreno baldio. “Vai doer?”, perguntou Dona Serpente. “Nada”, respondeu Dona Anta, que já levantava bem alto uma faca que ela achou no meio do lixo, mas que ela disse que tinha trazido de casa porque sempre costumava fazer isso de cortar cabeça de serpente com mancha. E de um só golpe decepou a cabeça de Dona Serpente. Voltando-se ao Waldinei, Dona Anta pediu que ele levasse a patroa e a cabeça para casa e esperasse pelo menos umas 24 horas até que começasse a brotar a nova cabeça, e deu o fora em seguida.

Passadas 24 horas, não cresceu porcaria de cabeça nova nenhuma. Mas, em compensação, a mancha na cabeça já cinzenta da Dona Serpente estava muito mais clara do que antes, ainda que não tivesse sumido. Três dias depois, que foi quando o Seu Serpente voltou da “reunião de negócios”, encontrou Waldinei inconsolável com a cabeça fedorenta da patroa no colo. Seu Serpente chamou então a polícia, que saiu imediatamente em busca da Dona Anta, que foi facilmente localizada, dando uma churrascada olímpica na floresta do Heliópolis. Na mata fechada, o pagodão e o barulhinho de havaianas sendo arrastadas contra o cimento facilitaram o serviço da polícia, que desconfiou do fato daquele churrasco ser tão opulento e não contar apenas com carne podre do governo. Interrogou um por um e chegou ao nome da Dona Anta, que foi pra delegacia apanhando no camburão.

Moral da história: as pessoas são caricaturas de si mesmas. Se você entrar numa clínica de estética, vai encontrar pelo menos uma Soraya Montenegro e uma Paola Bracho fazendo limpeza de pele. Se der um pulo no Heliópolis, vai ver pobres em lajes fazendo churrasco e ouvindo a Dança do Créo. E é tudo gente perversa.


Fim

domingo, 8 de junho de 2008

Rigoletto

Você sabia que Renata Tebaldi e Maria Callas eram rivais nas décadas de 1950 e 1960? Mas que as duas fizeram as pazes em 1968, porque cada qual sabia que era melhor que a outra, mas que isso é coisa que se guarda do lado esquerdo do peito? Mais uma rivalidade que você desconhecia, viu?

Mas ópera é a coisa mais bonita do mundo. Naturalmente, depois disto:


Passei a tarde ouvindo Verdi: Rigoletto e Aida. Rigoletto é sempre Rigoletto, desde a primeira vez que a ouvi pela Cultura FM, em transmissões diretas do MET. Mas Aida não me convenceu. Ainda. Dãããã.

Rigoletto é uma ópera em quatro atos sobre um nigger que resolve folgar com quem não deve, ou seja, um branco rico. Rigoletto tem uma filha que é um estouro, Gilda, interpretada por Rita Hayworth no famoso filme homônimo de 1946, de Charles Vidor.

As célebres rotinas de Rigoletto, na melhor tradição bufa da denúncia pelo humor, recurso muito sagaz do libretista.

No final, [spoiler] Gilda é assassinada por engano no lugar do Duque de Mântua, dando a entender que a opressão continua. Rigoletto ouve o Duque de Mântua cantando “La donna è mobile”, então imediatamente abre o saco onde deveria estar o corpo do nobre e encontra sua filha Gilda agonizante.

A versão de Rigoletto que estive ouvindo é de 1964, com Dietrich Fischer-Dieskau no papel de Rigoletto e Renata Scotto no papel de Gilda.

Estava procurando fotos da Renata Scotto no Google só pra descobrir que ela parece um Muppet. Isso estraga um pouco a minha imagem da Gilda no duo com o Duque de Mântua, de “E il sol dell’anima”. Em compensação, imaginar a Miss Piggy agonizando dentro de um saco é mais divertido, mesmo que suprima um tantinho a tragicidade.

Rita Hayworth dentro do saco é uma das cenas mais emocionantes do cinema mundial.

E aonde eu vou as pessoas me vêm falar de Puccini, como se Puccini fosse mais pop que Verdi. Rigoletto, meus queridos, Rigoletto.

Minha objeção a Puccini é, no fundo, senão uma defesa de Verdi, pois se Rocco e i Suoi Fratelli me provoca lágrimas, High Noon me comove muito mais.

No libreto, baseado na peça de Vitor Hugo, Le Roi S’amuse, Francesco Maria Piave, por causa da censura da época, recorreu à maldição que o Conde Monterone lança sobre Rigoletto como metáfora para a discriminação sofrida pelos pretos.

Maldição do Conde sobre Rigoletto:

“e tu serpente, tu che d'un padre ridi al dolore, sii maledetto!”

E é claro que eu me lembrei de In the Heat of the Night, com Sidney Poitier e Rod Steiger, quando o velho aristocrata sulista leva do Poitier um tapa na cara e fica todo melindrado.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Aconteceu

O Pianista

Estava passando O Pianista na televisão, ééééé. E eu fiquei olhando de vez em quando. Porque O Pianista a gente no máximo olha. Não dá pra assistir ou ver um filme desses. Você vai ao banheiro, come uma bolacha, olha todo aquele sofrimento e miséria a que o povo judeu foi submetido pelo regime nazista, brinca com o gato, tira cera do ouvido. Essas coisas.

Não é porque é “muito forte”. Não, que bobagem. Schindler era bem mais dramático e eficiente nesse sentido. Foi quando o virtuosismo vislumbrado do Spielberg melhor funcionou, diga-se de passagem.

Seth Cohen (Adam Brody em atuação que lhe rendeu uma estatueta) de braços dados com os Aliados naquela praia famosa.

Mas qual era a idéia do Polanski ao filmar O Pianista? Era o pianista? O piano não pode ser porque aparece muito pouco. Ah, era mostrar como os judeus sofreram muito. Então. O Polanski não deve ter TV a cabo em casa e por isso nunca viu na vida um documentário sobre Auschwitz. Mas a gente já, a gente já.

Confundo sempre o Adam Brody com o Adam Brody. Um fez The O.C.

É o filme mais gratuito que eu já vi. Ruim, ruim. Mas sou eu que não tenho sensibilidade, que não gosto de judeus. Posso até acabar na cadeia porque o Polanski e o moleque do The O.C. resolveram se juntar pra fazer um filme só pra me ferrar. A vida é muito injusta, muito mais do que qualquer totalitarismo.

A Questão

No sofá da minha casa, que é a resistência reaça da sociedade brasileira (tão entregue à licenciosidade) muito mais do que o Olavo de Azevedo e o Reinaldo Carvalho, minha mãe e eu vendo flashes da Parada Gay. Se bem que falar de Parada Gay, com a Parada Gay aí, é tão uó... hmm, quanto usar reticências.

Mas aí apareceu um go-go boy falando que era o Homem-Melancia porque tinha uma bunda enorme, que ele começou a sacudir num shortinho vermelho, só que a única coisa que eu e a minha mãe vimos foi o cofrinho dele aparecendo. Minha mãe horrorizada, mas eu garanti pra ela que o cofrinho do rapaz não tinha nada a ver com Parada Gay, que aquilo era Brasil. Aquilo era subdesenvolvimento. Culpa do Lula.

Ai, mas de repente fiquei tão político, e isso é tão over. Daqui a pouco estou falando do fim do preconceito, da Parada Gay como movimento social e evento político. Fazer esteira também é bem social e político. Pessoas se reunindo em torno da esteira pra discutir seu uso comum pela sociedade, a necessidade de cotas para seu acesso.

Ombudsmancia

Agora, há de vir algum jagunço aqui e chiar porque eu sou preconceituoso. Se morre, meu, se morre! Lê as palavra antes de abrir a boca.

Mas pelo menos ninguém reclamou ainda da gente falar de cinema não sendo obviamente connaisseurs. Graças aos conselhos de Lady Macbeth, deixei de falar de cinema, para falar a partir de cinema.

sábado, 24 de maio de 2008

Fomos ao cinema ver Control

Cinebiografia musical é coisa de idiota. Amadeus é só meio burrinho e se salva porque fala de um negócio que cinema e cineastas não entendem, arte. Se bem que não dá pra ser mais burro que a música, a coisa mais próxima da pura forma. Pura forma é tipo a Isabeli Fontana ou também nome de academia em bairro de classe média. Ao passo que a escrita, essa coisa eminentemente cerebral, é a mais gentinha das artes.

Dito isto, fomos ao cinema ver Control, sobre Ian Curtis, vocalista suicidado do Joy Division.

Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei.

Fez sucesso em Cannes ano passado. Até pior, ganhou prêmio em Cannes, o que nunca é bom, porque o júri de Cannes, como de qualquer outro festival de cinema, é formado por atores, e atores não prestam.

Sean Penn adverte que só vai premiar um filme político, antes mesmo do festival começar. É um filisteu. Deve por acaso queimar edições da Divina Comédia porque a obra defende uma visão de mundo medievalista. Cretinice.

Pior que ator, só músico. No primeiro, o ego é maior que a sensibilidade, isto é, a frescura. No segundo, é o contrário. Ninguém me compreende, buáááááááááááá, e sai daqui, seu pobre.

Os únicos músicos que têm direito de ser uns cretinos são os cantores líricos. E só as mulheres. Aliás, só algumas, as mais bonitinhas. Tipo, a Tebaldi e a Callas, pra ficar nas canônicas. E não me fala do nariz da Callas, se não eu te meto a mão na Callas, ha, ha, ha.

Cozinho, lavo, passo, costuro e canto “Casta diva”, da Norma de Bellini.

O filme é p&b, recurso muito comum pra fazer coisas ruins parecerem artisticamente ruins. É ingênuo, mas funciona com o público de filmes do tipo, gente que gosta de “cinema alternativo”.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um post polêmico

O jovem Alex era um degenerado, apesar da boa educação que recebera. Fazia coisas terríveis, principalmente contra as minorias. E desde muito cedo. Aos oito anos, descobrira as minorias, para nunca mais deixá-las em paz.

Não descansou, até que tivesse aborrecido a todas elas – negros, bichas, chinas, retardados, gordos, fãs de Charlie Brown Jr., judeus, mulheres, ô, inclusive as mulheres. Para o mal, os homens costumam ser incansáveis.

Saíam pelas noites, ele e sua gangue, formada por jovens igualmente privilegiados e podres, para encontrar suas vítimas. Geralmente, mendigos, só porque eram sujos e bêbados. Mas logo a aparente impunidade que os poupava teria fim. Pois havia muitas investigações nesse sentido, para acabar com o abuso contra as minorias, como as cometidas contra os mendigos.

Quando, certa noite, encontraram outro mendigo fedido, jogado na sarjeta, sob a marquise de um prédio do governo, que horror, puseram-se a abusar dele como se abusava das minorias em geral. Cercaram o pobre diabo e começaram a lhe contar piadas politicamente incorretas sobre negros, bichas, chinas, retardados, gordos, fãs de Charlie Brown Jr., judeus e mulheres burras, enfatizando que mulher burra é redundância, ha, ha.

Mas dessa vez, não sabiam eles, sua vítima era um policial disfarçado, todo sujo e bêbado, para aparentar ser mesmo um mendigo. E estava bem real. Ora, prenderam Alex e seus comparsas. Como eram menores, e era esse seu primeiro delito, os pais compareceram em juízo e responderam por eles. A sentença foi que o rapaz fosse enviado a uma instituição competente de recuperação de jovens degenerados.

O jovem Alex seria submetido a inúmeras sessões de um filminho em que um homem escorregava numa casca de banana e caía muito seguramente num sofá deixado no meio da rua pelo pessoal de uma empresa de mudança, e estava escrito no caminhão que era uma empresa de mudança, era a Granero, pois era importante que todos soubessem que era uma piada. Aprenderia assim o que era humor saudável – o simpático –, o verdadeiro humor, que não ofendia ninguém e que, de quebra, ainda fazia amigos por onde quer que fosse. E que o humor físico – desde que as carnes não ficassem à mostra, com exceção dos comerciais de cerveja e programas humorísticos para a família brasileira – era também grandemente aceito e recomendado para animar festinhas, de casamentos a batizados.

"Aprenderia assim o que era humor saudável – o simpático..."

Mas, dentre os maiores benefícios que o tratamento lhe legaria, estava o que os médicos e professores da casa de recuperação chamavam DSCS, Dispositivo de Segurança para Comicidade Social. Consistia em pospor ao fim de um dito ou comentário jocoso a frase “É só uma piada”, ou suas variantes, tais como: “Isto é uma piada”, e também “Só estou brincando” ou “É brincadeirinha”.

Após três meses, Alex foi devolvido à sociedade curado. A partir de então, toda vez que lhe vinha o desejo de proferir uma observação irônica ou sarcástica, começava a babar e entrava em choque. Era preciso aproximar-lhe do nariz um pouco de vinagre para que recuperasse a consciência. Entretanto, por causa desses acessos, ele é que começou a ser vítima de piadas politicamente incorretas.

Fora apelidado “Tremelique”, e quando andava pela vizinhança, as crianças se sacudiam inteirinhas, com a boca cheia de Coca imitando a baba saindo da boca dele. Mas todo homem tem seu limite. Ele devia ter tentado o suicídio, como se espera a essa altura numa história assim, mas não foi isso, não. Ele resolveu criar um blog.

A seguir é transcrito o trecho de uma postagem de maio do ano passado:

“Estava pela Paulista, esperando uma amiga. E mais uma vez confiro que esta cidade não é absolutamente detestável, ao menos não como o divulgam no usual tom alarmista dos noticiários. Uma cidade que nos premia com visões com a clareza e o didatismo de ilustrações tiradas a um volume escolar de estudos sociais não pode ser absolutamente detestável. Pois nos quinze minutos em que estive parado por ali, vi um grupo de gays carecas e de camisetas justinhas posando para fotos, enquanto um moleque de rua, devidamente descalço como os moleques de rua fazem questão de andar, certamente para que não sejam confundidos com quaisquer outros moleques que não os de rua, os observava com o sorriso malicioso de quem, diante de tanta viadagem, se conforta imaginando que, particularmente em seu caso, um simples banho resolveria. E devo concordar com ele, pois era disso mesmo que ele mais precisava, de um banho. É o que as autoridades precisam entender e, tendo entendido, implementar: o assistencialismo do pão substituído pelo do sabão. De todo modo, os tão falados contrastes sociais jamais foram tão bem sintetizados quanto nesta cena, apesar do componente queer, francamente caricatural. Neste sentido, tenho de confessar que a cidade me surpreendeu negativamente.”

Como se vê, grotesco. Aristocraticamente grotesco. Quando ele escrevia, sentia um alívio absurdo, naturalmente seguido por espasmos, baba e coma. Mas, com o tempo, isso passou. Aparentemente, os efeitos do tratamento miraculoso estavam sendo revertidos, para horror da sociedade.

A foto destes dois gatinhos é só pra aliviar o post, cheio de piadas pesadas.

O pior, entretanto, veio quando ele escreveu:

“Só tem viado na Parada Gay”

(Isto é, nessa frase, duas coisas têm que ficar claras: a) se a Parada é gay, naturalmente se acharão “viados” nela; e b) a palavra “viado” tem o mesmo sentido ofensivo que quando empregada por um homem que preconceituosamente coloca em dúvida a masculinidade de outro. O humor resulta da aproximação desses dois fatos. Sem dizer que não tem só "viado" na Parada Gay; vão também familiares dos "viados".)

A casa veio abaixo. E-mails ameaçadores, scraps malcriados no Orkut. Ele foi novamente preso, só que dessa vez ele já era maior de idade, por isso o mandaram para o mesmo presídio em que o Nardoni estava. No dia em que lá chegou, a população indignada com o assassinato da menina Isabella dividia a calçada com militantes da causa gay, e eu vi pela televisão você lá também.

“Só tem viado na Parada Gay” virou uma divisa da campanha para o fim do humor politicamente incorreto, seguida da frase de indignação “Até quando isso?”, querendo dizer “Até quando as pessoas serão tão cruéis com as minorias?”, e não “Até quando haverá viados na Parada Gay?”.

Nos meses seguintes à prisão de Alex e à sua condenação à pena máxima, o governo ainda aprovaria uma lei segundo a qual todos eram obrigados a explicar uma piada que envolvesse qualquer tipo de ambigüidade, como constante nos parágrafos anteriores. Caso encerrado.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Quando o Amor Vem a Caráter

Sob as bênçãos do Código Hays, uma deliciosa comedy of remarriage:

Quando o Amor Vem a Caráter.

Estrelando Katharine Hepburn como Mulher-Aranha,



Camarada Fundamentalista como Homem do Campo de Força Invisível,



James Stewart como Hipnótico,

Cary Grant como C.K. Dexter Haven.



E introduzindo Ruth Hussey como Coisinha Fofa.

.

E participação especial de Gary Cooper como o Reverendo.


(Filadélfia, 1940. Sala de estar sudoeste da mansão dos Lord. Ao fundo, uma grande janela que revela o jardim. Trace Lord, ou Mulher-Aranha, de pé, bem atrás da poltrona onde está sentado o Homem do Campo de Força Invisível, com os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido empilhados sobre o colo, mostrando como ele é erudito e tudo.)

Homem do Campo de Força Invisível: O velho Lord já sabe que você é uma mutante do mal, Trace?

Mulher-Aranha: É claro que não. Se soubesse, eu não teria o controle das empresas. Seria um escândalo para ele se descobrissem que eu, sua filhinha amada, sou uma mutante com os poderes e a força de uma aranha.

HCFI: Não sei até quando você vai conseguir sustentar essa farsa, minha querida. De qualquer forma, pode contar sempre comigo. Desde a primeira vez que eu te vi, eu quis te encher de beijo. E não vou te deixar na mão, não.

MA: (Beija-o) Obrigada, eu sei que sempre vou poder contar contigo, Homem do Campo de Força Invisível. Mas o que me preocupa mesmo é Dexter, que talvez queira impedir nosso casamento.

HCFI: C.K. Dexter Haven pode até ser seu primeiro marido, mas não tem mais direitos sobre você, desde que o bom juiz do Estado da Filadélfia lhe concedeu o divórcio. Com ou sem a preciosa ajuda do Hipnótico, a decisão não poderia ter sido outra, afinal, ele enfiou a mão na tua cara.

(Entra o Hipnótico.)

Hipnótico: Os dois pombinhos falavam de mim quando deveriam estar falando do casamento? (Cumprimenta Trace e o Homem do Campo de Força Invisível)

MA: Ah, Hipnótico, falávamos de como você nos ajudou no julgamento com seus olhos hipnóticos poderosíssimos.

Hipnótico: É mesmo. Mas a verdade é que nos arriscamos muito no tribunal. Mesmo meus poderes de hipnose sendo incríveis e devastadores, quase me pegaram naquele dia. É claro que se não houvesse outros mutantes do mal ali, ninguém teria desconfiado. Uma grande concentração de superpoderes se formou dentro da sala, desencadeando muitos efeitos colaterais terríveis. Mas tudo correu bem, graças ao bom Deus. (Senta-se) Mas e o casamento?

HCFI: Os convites foram enviados ontem, não é, querida?

MA: Sim. E é claro que Dexter não foi convidado. Nem ele nem seus mutantes criados em laboratório, muito diferentes de nós, que nos tornamos mutantes depois da explosão da usina nuclear. Foi quando meu relacionamento com Dexter começou a se desgastar. Não conseguimos lidar com o fato de eu ser uma mutante e ter estes enormes poderes. Não foi nada fácil. Eu, uma aranha, uma mulher. Uma mulher-aranha. (Com olhar melancólico) Com os poderes e a força de uma aranha. Insaciável, mas solitária como uma aranha em sua teia de desejo.

HCFI: (Volta-se para Trace) Mas agora você tem eu do seu lado. (Para o Hipnótico) A aranha é realmente uma criatura fascinante. São mais de 40.000 espécies diferentes. É um erro comum acharem que elas são insetos, mas, diferentes dos insetos, que possuem seis patas, as aranhas possuem oito patas. Além disso, elas produzem uma teia muito poderosa, cinco vezes mais forte que o aço.

O elenco de estrelas de Quando o Amor Vem a Caráter.

(Entra C.K. Dexter Haven, acompanhado da Coisinha Fofa, sua assistente na revista Spy.)

C.K. Dexter Haven: Vejo que a galera do mal está toda reunida.

MA: Não venha com seus sarcasmos, Dexter. Estávamos até agora entre amigos, até você chegar.

C.K. Dexter Haven: Por favor, desde quando éramos casados, eu temia ser picado por essa aranha ou por qualquer um desses mutantes horríveis. Não queria ser infectado. Podia ser um vírus, como a dengue ou a lequitospirose. Seja gentil pelo menos uma vez.

MA: Está bem. O que o traz aqui, Dexter?

C.K. Dexter Haven: Esta é Coisinha Fofa, eu a conheci em minha viagem à Itália. Ela estuda as Artes.

Coisinha Fofa: As Artes me interessam muito.

HCFI: Qual das Artes mais te interessa, senhorita Fofa?

Coisinha Fofa: Ah, todas as Artes me interessam muito. O Dexter aqui, ele sempre fala que detesta cinema, mas eu adoro ver filmes, muitos filmes.

HCFI: Pois Fomos Ao Cinema ontem mesmo. (Para Trace) Que filme vimos, querida?

MA: Não vamos aborrecer os convidados com nossas miudezas cotidianas. (Caminha em direção ao gramofone) Vocês já ouviram essa nova banda, Siouxsie and the Banshees? Parece que tem um ex-padre na formação. Particularmente acho o teclado em “Kiss Them For Me” sublime. Querem ouvir um pouco?

C.K. Dexter Haven: Agora me lembro por que costumava enfiar a mão na tua cara.

(Furiosa, Trace se transforma em Mulher-Aranha. Duas de suas patas gigantescas atravessam a parede do jardim. Avança sobre Dexter Haven.)

Coisinha Fofa: Mas eu adoraria.

HCFI: (Limpando os escombros do terno) Não se exalte, querida. Vamos, não quero ter que apelar aos poderes de hipnose do Hipnótico. Coloque a música para que todos possamos ouvir.

MA: (Para Dexter Haven) Pelo menos, sua amiguinha tem mais educação que você. (Para Coisinha Fofa) Querida, você é mais um casinho do Dexter ou uma de suas mutantes de laboratório a serviço dos desígnios de um louco?

Coisinha Fofa: Imagina, nem superpoderes eu tenho. Na verdade, estou aqui por sua causa, Mulher-Aranha.

Hipnótico: (À parte) Hum, será que vai rolar um beijinho? He, he, he.

C.K. Dexter Haven: (Assustado) Olhe o que você vai dizer, Coisinha Fofa.

Coisinha Fofa: (Maliciosa) O que foi, Dexter? Não quer que eles saibam que eu trabalho pra Polícia Especial dos Estados Unidos?

C.K. Dexter Haven: Não, que você trabalha comigo na revista Spy. (Dando-se conta do que ela acaba de dizer, fica confuso) Mas o que você disse? Polícia Especial dos Estados Unidos?

HCFI: A mesma que caça mutantes do mal como eu e minha querida Trace. Ora, ora.

MA: Como você pôde, Dexter? Trazer esta mulher aqui? Mas que golpe sujo!

C.K. Dexter Haven: Mas Coisinha Fofa trabalhava comigo na revista Spy. Eu não sabia que ela era uma polícia disfarçada.

Coisinha Fofa: Exatamente. Disfarçada. Agente Especial Coisinha Fofa, da Polícia Especial dos Estados Unidos. Vocês estão todos detidos.

MA: Hipnótico, use seus poderes de hipnose sobre ela e nos salve mais uma vez com suas fantásticas habilidades!

Hipnótico: Pode deixar. (Para Coisinha Fofa, desafiador) Quero ver você resistir aos meus poderes hipnóticos, benzinho!

(Coisinha Fofa saca o revólver e o aponta para o Hipnótico.)

HCFI: Vamos ver se suas balas podem atravessar o meu campo de força invisível, senhorita Fofa.

(Coisinha Fofa dispara. Mas as balas se chocam contra o campo de força invisível.)

MA: Vou prendê-la com a minha poderosa teia cinco vezes mais forte que o aço. Ela não conseguirá se soltar.

(Mulher-Aranha lança sua teia. Coisinha Fofa fica completamente imobilizada.)

Hipnótico: Vou agora hipnotizá-la e fazer com que ela esqueça que nos conheceu e que somos mutantes do mal vivendo como aristocratas no grande e próspero Estado da Filadélfia.

HCFI: Faça isso, Hipnótico.

(Hipnótico sai, carregando Coisinha Fofa nos braços.)

C.K. Dexter Haven: (Angustiado) Eu sinto muito por tudo isso. Eu só queria me vingar de você, Trace, por você ter se divorciado de mim, porque eu não tinha superpoderes como o Homem do Campo de Força Invisível, que pode criar terríveis campos de força invisíveis e nos proteger de balas de revolverês. Por isso vim aqui fazer uma matéria para a revista Spy sobre o seu casamento.

MA: Mas Dexter, você é mesmo um bobo. Eu não me separei de você por você não ter superpoderes. Você é que não conseguia lidar com o fato de eu possuir esses incríveis superpoderes. Dexter, na verdade, eu ainda te amo. (Recolhe suas gigantescas pernas de aranha)

C.K. Dexter Haven: Eu também te amo, Trace Lord. (Beijam-se)

MA: (Para Homem do Campo de Força Invisível) Ô, meu querido Homem do Campo de Força Invisível, nós não podemos nos casar. Eu ainda amo o Dexter.

HCFI: Acho que eu sempre soube disso, mas só esperava ter mais tempo para conquistar seu coração e fazê-la esquecer de C.K. Dexter Haven.

(Hipnótico volta acompanhado de Coisinha Fofa restabelecida, mas visivelmente confusa, e do Reverendo.)

Hipnótico: Achei melhor trazer o Reverendo.

Coisinha Fofa: Quem são todos vocês?

HCFI: Não se preocupe, querida. Meu nome é Camarada Fundamentalista, e você está entre amigos. Com certeza nenhum deles um mutante abominável. (Todos riem) Agora, tratemos de começar essa cerimônia. (Para Trace) A noiva não se importa de casar em roupa de dia de semana?

MA: De jeito nenhum. Tudo o que me importa é poder passar o resto da minha vida com este homem maravilhoso.

HCFI: E o noivo?

C.K. Dexter Haven: (Para Trace) Por que me importaria, se você está absolutamente linda?

Reverendo: Bem, se todos estão portanto de acordo, vamos começar.

Hipnótico: Um momento, Reverendo. (Para o Homem do Campo de Força Invisível) E você, camarada? Temos aqui a senhorita Fofa, afinal de contas?

HCFI: O que acha, senhorita Fofa?

Coisinha Fofa: (Hesitante) Bem... mas é claro!

Hipnótico: Do contrário, eu dava um jeito, afinal eu tenho poderes de hipnose. (Todos riem)

Fim.

Fade out. Créditos.