Se um dia eu te escrever uma cartinha, a você mesmo, e vier a citar Isócrates, Demóstenes, Cícero, não o farei por me alinhar ideologicamente com nenhum deles. Antes, o farei, por serem nomes que remetem à arte retórica, com ou sem conteúdo.
Se um dia eu te escrever uma cartinha em que diga que ser professor, no Brasil, equivale a se alistar em alguma missão de ajuda humanitária na África, de combate à fome, não o farei por achar que professor ganha mal; não, nada disso. Mas porque o sistema educacional público brasileiro é uma causa perdida quase como a erradicação da fome no mundo.
Se um dia eu te escrever uma cartinha, e você for de um partido, digamos o PSDB, e você estiver a serviço do PSDB, e eu, nessa cartinha, discordar de você e do PSDB, não o farei porque estou do lado adversário, porque sou, por exemplo, petista. Não, mas o farei porque discordo do PSDB e, pra falar a verdade, acho o PT um PSDB mais estabanado.
Enfim, se um dia eu te escrever uma cartinha, no fundo, no fundo, a minha intenção será só tornar você meu amigo, porque eu acho que todo o mundo é mó legal, e que a gente pode superar as diferenças, fazer churrasco juntos e emprestar havaianas um pro outro. E saiba que, no fundo, no fundo, eu sou só um bufão.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Estudantes da USP mantêm Ulysses Guimarães em cativeiro desde 1992
A Rede Bandeirantes divulgou que os estudantes que invadiram a Reitoria da USP, além de furtarem documentos confidenciais, depredarem patrimônio público e ameaçarem repórteres do canal, mantêm Ulysses Guimarães em cativeiro desde 1992.
Ulysses Guimarães, político brasileiro, fora dado como morto em acidente de helicóptero, ao largo de Angra dos Reis, Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1992, ainda que seu corpo nunca tenha sido encontrado.
Foram descobertas fotos do político que indicam que ele está vivo, em poder de estudantes, em local ainda desconhecido.
Ulysses Guimarães, político brasileiro, fora dado como morto em acidente de helicóptero, ao largo de Angra dos Reis, Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1992, ainda que seu corpo nunca tenha sido encontrado.
Foram descobertas fotos do político que indicam que ele está vivo, em poder de estudantes, em local ainda desconhecido.
Marcadores:
Brasil,
Camarada Fundamentalista,
Televisão
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Hilário
Lendo o blog do Reinaldo Azevedo, nao pude deixar de notar um dos títulos dos posts: "Professor relata a humilhação a que foi submetido pelos neomaoístas ". Neomaoístas? NEOMAOÍSTAS? HUAHAUHAUHAUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUHUAHAUA!!!!
Pelo o que sei, os partidários do carniceiro-mor Mao Tse-Tung queimavam livros e vestiam os professores com chapéu de burro. Por enquanto, no Brasil, quem anda queimando livros é somente o queridíssimo Roberto Carlos, e impedir professor de dar aula em nome de protestos ainda não pode ser considerado humilhação, ainda não, já que a humilhação so é constituída quando existe uma causa extrema para um efeito inexistente, e esse não é o caso, em nenhum dos lados. Mas vai tentar explicar isso pro inflado Azevedo e o seu estilo Carlos Lacerdiano de fazer notícia. Pena que não temos Getulios Vargas para serem acossados na história toda.
(Obs: não sou da faculdade dos meus camaradas de blog que vem sendo o centro de toda a confusão, eu vomitei no meio da prova no vestibular. Por uma indisposição estomacal causada pela ansiedade, deixei de ser um apedeuta. Pena?).
Pelo o que sei, os partidários do carniceiro-mor Mao Tse-Tung queimavam livros e vestiam os professores com chapéu de burro. Por enquanto, no Brasil, quem anda queimando livros é somente o queridíssimo Roberto Carlos, e impedir professor de dar aula em nome de protestos ainda não pode ser considerado humilhação, ainda não, já que a humilhação so é constituída quando existe uma causa extrema para um efeito inexistente, e esse não é o caso, em nenhum dos lados. Mas vai tentar explicar isso pro inflado Azevedo e o seu estilo Carlos Lacerdiano de fazer notícia. Pena que não temos Getulios Vargas para serem acossados na história toda.
(Obs: não sou da faculdade dos meus camaradas de blog que vem sendo o centro de toda a confusão, eu vomitei no meio da prova no vestibular. Por uma indisposição estomacal causada pela ansiedade, deixei de ser um apedeuta. Pena?).
Marcadores:
Brasil,
Camarada Progressista,
Política
Reinaldo, e você? Você me ama?
"Educação humanística dos pobres é saúde para todos, o que ainda não há; é escola fundamental e média para todos, o que ainda não há; é saneamento básico para todos, o que ainda não há. Em que país do mundo, capitalista ou comunista, o ensino universitário é considerado um direito? Nos EUA ou na China, no Chile ou em Cuba, é para os mais capazes."
Reinaldo Azevedo, colunista da VEJA
Eu, Camarada Fundamentalista, ou melhor: "apedeuta, cretino, petralha, vermelho, esquerdopata, porco, vagabundo e parasita do esforço alheio", fui inventar de comentar no blog do Reinaldão suas opiniões sobre a Querela Serra-USP (ambíguo assim mesmo) - Dos Decretos à Ocupação da Reitoria. Escrevi um comentário em dez minutinhos e postei. As qualificações mencionadas vieram, logo após o colunista se dignar a refutar meu comentário (que ele chamou "cartinha", termo muito miguxo, obrigado) linha a linha, por parte dos leitores de seu blog que discordavam de mim. Minha favorita é "apedeuta", gosto das palavras difíceis, principalmente dessas que dão na cara sua origem greco-latina.
Segundo Reinaldo Azevedo: pobre não precisa de Homero (que só falava de rico), nem de La Rochefoucauld (que odiava pobre). Machado, só se for daqueles edições do Estadão que a gente acha em sebo por 2 real. Pobre precisa é de dentadura, cachaça, camiseta e boné do partido do candidato.
E, ainda segundo ele, os mais capazes é que merecem a oportunidade de ingressar no Ensino Superior. Concordo. Só não usaria o termo "capazes", parece darwinismo social, e eu sou muito politicamente correto. Não vou fazer que nem aquela ministra que teve que retificar o que disse, porque tinha pegado mal, mas era tarde demais. Em lugar de "capazes", diria "dispostos", "desejosos". Na prática, quem quer realmente se formar? O que todo o mundo quer mesmo é ganhar muita grana, e ponto.
Eles, leitores do blog do Reinaldo antipetistas, eu sei que não me amavam, mas o Reinaldo... ele até retrucou as minhas palavras, como vêem. Mas, ainda assim, fiquei na dúvida: ele me ama ou não? Ambíguo.Eu não volto lá pra contrargumentar, porque eu não sou de comprar briga. Sou, na verdade, um tremendo miguxão, se vocês ainda não perceberam. Porque se o Reinaldo disser que quer ser meu amigo, visto a camisa do PSDB na hora. Juro que visto.
Em lugar de tudo aquilo que disseram de mim, apresento a lista oficial dos meus defeitos atuais, confirmada pelos íntimos e ex-namoradas:
Filisteu, diletante, doutrinador, conservador, puritano, doutrinado, obsessivo, arrivista, oportunista, cheio de si, egocêntrico, redundante, verborrágico, dispersivo, intolerante, e por aí vai.
O link para o post "As Catilinárias do Tio Rei", em que Reinaldo Azevedo confessa que "ama meu ser, mas odeia meu viver", é:
Ele devia saber que eu só escrevi lá, no blog dele, porque queria aumentar o número de acessos aqui, no nosso, e que eu nem gosto de Cícero, porque nunca li, só tava enrolando o pessoal. Isso, acrescentem à lista: "charlatão", logo após "oportunista".
Marcadores:
Brasil,
Camarada Fundamentalista,
Política
Não acredite em tudo que vc lê( Eu já disse isso antes) - Fragmentos de um discurso quase sincero
é meus caros, a frase acima já disse era o meu intento nesse post. Mas não vou me moderar( ah não dessa vez!). Tanto eu como o camarada fundamentalista estudamos na mesma universidade, ainda que façamos cursos diferentes . Nessa universidade que estudamos costuma ter greve, pelo menos atualmente; ano a ano e a premissa de greve neste ano parece ser maior do que nos anos anterioriores. Nos anos anteriores foram outros propósitos; em 2005 foi a Lei de Diretrizes Orçamentárias( LDO para os íntimos), qual teria o intento de evitar o aumento de repasse de verbas para as universidades, colégios técnicos e faculdades tecnológicas( isso quando todas as instituições de ensino acima citadas passavam por expansões físicas e de cursos); em de 2006, era sobretudo o sobre o salário de funcionários, qual fui contra. Agora, nesse ano, soube dos decretos do Serra e suas idéias sobre as universidade públicas. Não vou me delongar sobre isso, mas o que vemos agora, é o repúdio contra isso, contra o fim da automia universitária, antes outras coisas foram feitas pelo governador Serra(olhe aqui) que caminham na contramão da evolução de um ensino integrado e de melhor qualidade.
Ligo a Tv, leio a revista preferida do meu camarada, entro em blogs e o que vejo? Pessoas falando que a invasão da minha reitoria foi aparelhada por partidos socialistas, que o intuito é a politicagem, a anarquia( no sentido de vandalismo). Onde as mafaldinhas e os remelentos, intimamente conhecidos como colegas de faculdade, são nada mais que pessoas de vários partidos tedenciosos, meninos mimados que não trabalham e por isso vivem de zonear . Isso pra ficar no mais suave. Mesmo sendo aluno da Usp, o remelento aqui trabalha e tem que pagar contas. Aproveitando a deixa e que não tinha visitado a ocupação da reitoria, só sabia das coisas que meus amigos falavam resolvi me aventurar pelas bandas uspianas. Achava que não deveria escrever sobre ocupação até ter melhores conhecimentos sobre o assunto e ver a tal "apropriação aparelhada pelo PSTU". Foi o que fiz, aproveitei que tinha livre acesso a reitoria e fui dar uma espiada.
A sorte estava ao meu lado, no dia que fui( segunda feira, dia 14/05) foi votada a permanência da ocupação ( ganhou de 249 a 179, para desespero dos poucos alunos aparelhados politicamente que queriam sair da ocupação) e também pude conhecer quem estava lá, o que tinha acontecido até então e conhecer a geografia da reitoria. Esperava uma bando de comunistas, como dizia o jornais e a Tv, mas nada disso, era bem heterogênio a populção presente. Lógico , contávamos os vermelhos, eram poucos. Havia pessoas que trabalhavam, pessoas da pós, todo tipo de estudante universitário. Dentro da reitotia pude perceber que realmente esse negócio de influência dos partidos é balela, sim existe - como eu disse; aqueles que são partidários, mas nem de longe compõe um massa forte e influente. As pessoas presentes pensavam em melhorias das universidades e não coalizações partidárias e luta armada, os tempos são outros e as armas também.
Pra finalizar vou explanar uma conversa que tive com um amigo:
"O velho, tá aproveitando a reitoria,hein? Tá fumando vários aqui, né?Sei que vc curte pacas, eu fiquei sabendo que tava rolando muita maconha aqui."
"Nada. eu sou contra fumar maconha aqui, pode prejudicar o andamento das coisas, pode prejudicar a ocupação. A galera que tava fumando aqui, também fazendo daqui um ponto de vedade droga, foram expulsos. Críamos até o lugar pra fumar cigarro."
Realmente temos que cortar o fornecimento de pizza dos estudantes, a única coisa que estão usando lá é orégano.
Ligo a Tv, leio a revista preferida do meu camarada, entro em blogs e o que vejo? Pessoas falando que a invasão da minha reitoria foi aparelhada por partidos socialistas, que o intuito é a politicagem, a anarquia( no sentido de vandalismo). Onde as mafaldinhas e os remelentos, intimamente conhecidos como colegas de faculdade, são nada mais que pessoas de vários partidos tedenciosos, meninos mimados que não trabalham e por isso vivem de zonear . Isso pra ficar no mais suave. Mesmo sendo aluno da Usp, o remelento aqui trabalha e tem que pagar contas. Aproveitando a deixa e que não tinha visitado a ocupação da reitoria, só sabia das coisas que meus amigos falavam resolvi me aventurar pelas bandas uspianas. Achava que não deveria escrever sobre ocupação até ter melhores conhecimentos sobre o assunto e ver a tal "apropriação aparelhada pelo PSTU". Foi o que fiz, aproveitei que tinha livre acesso a reitoria e fui dar uma espiada.
A sorte estava ao meu lado, no dia que fui( segunda feira, dia 14/05) foi votada a permanência da ocupação ( ganhou de 249 a 179, para desespero dos poucos alunos aparelhados politicamente que queriam sair da ocupação) e também pude conhecer quem estava lá, o que tinha acontecido até então e conhecer a geografia da reitoria. Esperava uma bando de comunistas, como dizia o jornais e a Tv, mas nada disso, era bem heterogênio a populção presente. Lógico , contávamos os vermelhos, eram poucos. Havia pessoas que trabalhavam, pessoas da pós, todo tipo de estudante universitário. Dentro da reitotia pude perceber que realmente esse negócio de influência dos partidos é balela, sim existe - como eu disse; aqueles que são partidários, mas nem de longe compõe um massa forte e influente. As pessoas presentes pensavam em melhorias das universidades e não coalizações partidárias e luta armada, os tempos são outros e as armas também.
Pra finalizar vou explanar uma conversa que tive com um amigo:
"O velho, tá aproveitando a reitoria,hein? Tá fumando vários aqui, né?Sei que vc curte pacas, eu fiquei sabendo que tava rolando muita maconha aqui."
"Nada. eu sou contra fumar maconha aqui, pode prejudicar o andamento das coisas, pode prejudicar a ocupação. A galera que tava fumando aqui, também fazendo daqui um ponto de vedade droga, foram expulsos. Críamos até o lugar pra fumar cigarro."
Realmente temos que cortar o fornecimento de pizza dos estudantes, a única coisa que estão usando lá é orégano.
Marcadores:
Camarada Moderado,
Conchavos,
Política,
Televisão
terça-feira, 15 de maio de 2007
As Dez Mais - Nacional
Todos aqueles que me conhecem sabem o que eu acho da música brasileira. Então, para efeitos sociológicos, lanço aqui as minhas 10 favoritas do Rock/Pop nacional (MPB fora).
10 - "Rios, Pontes e Overdrives"- Chico Science e Nação Zumbi - Da Lama ao Caos, 1994
Hoje em dia, essa banda pernambucana ainda é reverenciada pela crítica, embora tenha se tornado uma filial do Steely Dan com batuques, fazendo música para elevadores com sotaque manguebeat, e tem nos vocais substituindo o defunto Chico Science o Jorge Du Peixe, tão carismático quanto um poste de rua. Nessa música do primeiro álbum, é fácil notar o quanto a banda errou tentando continuar: Chico Science, embora fosse cabeçóide demais, era 90% da banda, e nessa eficiente composição fica claro que os experimentalismos e climas apeteóticos-agrestes funcionavam somente quando encontravam a árida poesia carangueja do Chico. Boa música, sem dúvida nenhuma.
9- "Envelheço na Cidade" - Ira! - Vivendo e Não Aprendendo, 1986
Sempre compre uma revista que tenha uma entrevista com o Nasi, vocalista no Ira, na capa. É hilário, ver esse velhote pagando de adolescente rebelde, dizendo ter o "sangue calabrês" e afirmando ser mal, pois para ele, roqueiro tem que ser malvado mesmo. Vai jogar bingo, véio! Depois falam do Chorão ainda. Mas, indo para o campo musical, o Ira sempre primou pelas letras colegiais demais e por ter um bom guitarrista, o Edgard Scandurra, hoje metido a DJ. Dizem que o terceiro disco da banda, Psicoacústica, é um clássico, as 3 pessoas que ouviram juram de pés juntos. Sei. Mas essa música é a obra-prima da banda, nunca mais farão nada parecido, um bom trabalho de artesanato pop que livra a cara deles até hoje.
8- "Me Chama" - Lobão- Vida Bandida, 1987
O Lobão é um compositor muito acima da média no esquálido rock nacional, a sua carreira foi mais ambiciosa que a dos seus pares, mas o que mata é essa mania que ele tem de querer ser o Lou Reed tupiniquim, dar entrevistas falando um monte de bobagens, se contradizendo em cada palavra, metendo o pau no rock quando lança disco de MPB e metendo o pau na MPB quando lança disco de rock. Um chato. Agora gravou até acústico para a MTV, emissora a qual ele jurou nunca mais colocar os pés em fins dos anos 90. Integridade artística é isso aí. Me Chama é a melhor música escrita por ele, um retrato de como o rock nacional poderia ser se houvesse um mínimo de inteligência entre os nossos músicos. Isso vale para o próprio Lobão também.
7- "Todo Carnaval Tem O Seu Fim" - Losermanos, ops, Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho, 2001
A banda que não fazia música para empregas domésticas ouvirem nos seus radinhos de pilha (eles mesmos disseram isso em entrevista pra Folha), por se acharem deuses da intelectualidade pós-moderna latino-americana, encontrou seu único acerto nessa música do seu segundo disco, que unia as duas facetas da banda, o hardcore do início de carreira com os metais e Marchinhas do fim da banda. Eu nunca suportei essa cambada, mas se negasse que Todo Carnaval Tem o Seu Fim é uma ótima canção, estaria agindo com a mesma arrogancia burra dos membros dessa banda.
6- "Alagados" - Paralamas do Sucesso - Selvagem?, 1986
O nosso careca favorito, Herbert Vianna, sempre foi um péssimo cantor, e banda ficou marcada por copiar descaradamente o Police. Nos anos 80, tentaram desesperadamente se livrarem desse rótulo, gravando discos em espanhol e outros que soavam quase como axé-music (dúvida? Tente ouvir o Bora-Bora). Selvagem foi o começo da experiência com percussões que a banda aprofundaria nos discos seguintes, mas Alagados tinha influências de música africana, e, por incrença que parível, o resultado foi bom, com o refrão mais esperto já escrito pelo Herbertão (pela última vez, é "Alagados, TRENCHTOWN", caramba!) e a bateria marcante do João Barone.
5- "Flores" - Titãs - Ô Blésq Blom, 1989
Não dá pra levar os Titãs a sério, uma banda com 456 integrantes e que ainda precisa de músicos contratados pra tocar no palco, que gravou discos horrendos como o Tudo ao Mesmo Tempo Agora e o Titanomaquia, que fez um disco de covers de fazer corar qualquer bandinha de garagem por aí. Por isso, eu nunca acreditei que esse bando de incompetentes tenha escrito uma música tão boa quanto Flores. Não pode ser, eles devem ter comprado a letra e os arranjos. Como é possível, uma letra coerente, inteligente e sagaz, uma melodia que vai além de berros de "u-hu" e repetições fonéticas guturais, tudo isso vindo dos maiores farsantes da história da nossa música? Não, essa mentira eu não compro.
4 - "Telefone" - Gang 90 e Absurdettes - Essa tal de Gang 90 e Absurdettes, 1983
Quando o jornalista, DJ nas horas vagas e maluco em tempo integral Júlio Barroso fundou essa filial do B-52's no começo dos anos 80, praticamente dava os primeiros passos, junto com o Blitz, do rock nacional. As viagens beatniks que ele tinha nas letras (uma das músicas do disco chamava Jack Kerouac, muito criativo mesmo) encontraram a sua melhor forma nessa música, que foi regravada um milhão de vezes por outras bandas. O visionarismo de Barroso terminou quando ele caiu da janela do seu apartamento em meados de 1984, e ele não viu o estouro do rock nacional, talvez tenha sido melhor assim, do que ter de ser colocado junto dos Barões Vermelhos e RPMs da vida.
3- "Será" - Legião Urbana - Legião Urbana, 1985
Renato Russo era um bom letrista. Ponto. Mas o seu talento como escritor nem sempre encontrava equivalência nas composições da banda, já que a Legião Urbana tinha instrumentistas medíocres nos seus quadros, e o sucesso das músicas dependia das sacadas melódicas que ele tirava das letras, já que se dependesse do Marcelo Bonfa e do Dado Villa-Lobos, poderia esperar sentado. Por isso, os últimos discos da banda soavam chatíssimos e arrastados, poemas musicados na verdade. Será, do primeiro disco da banda, se beneficiou do frescor de idéias que ainda existia, e com a sua letra que versava sobre um casal (gay? dah!) com tendências a extremismos emocionais, acabou sendo talvez o maior acerto da banda, sem dúvida um grande momento do rock nacional.
2 - "Hoje" - Camisa de Vênus - Batalhões de Estranhos, 1984
Marcelo Nova, compositor, vocalista e faz-tudo na banda, ficou com péssima fama ao estar junto do Raul Seixas na época da sua morte, sendo apontado como o responsável a levar o Raul de volta ao vício de bebidas que acabaria lhe matando. Bobagem, o Raul Seixas era um maluco de carteirinha que sempre foi chegado numa cachaça, independentemente de qualquer influência do Marcelo Nova em cima dele. Quanto a música, um belo pau na mania brasileira de cobrir os problemas do dia a dia com festas e carnavais, foi um belo achado na errática carreira do Nova, que não tem culpa de ser pai da mulher mais feia da história da humanidade, a Penélope Nova. Pô, antes que me xinguem, alguém tinha de ser a mulher mais feia já nascida, não é?
1- "Coração Pirata" - Roupa Nova- Não tenho a menor idéia do disco, deve ser de alguma novela dos anos 80, Salvador da Pátria, Vale Tudo, Mandala...
Eu tento ser sério. Eu tento fazer tudo direitinho. Mas, ai eu acabo sempre me perdendo nas minhas bozonices. E sabe por quê? Por que eu faço por que quero, estou sempre com a razão, mas jamais me desespero, sou dono do meu coração. A, o espelho me disse. Você não mudou.
10 - "Rios, Pontes e Overdrives"- Chico Science e Nação Zumbi - Da Lama ao Caos, 1994
Hoje em dia, essa banda pernambucana ainda é reverenciada pela crítica, embora tenha se tornado uma filial do Steely Dan com batuques, fazendo música para elevadores com sotaque manguebeat, e tem nos vocais substituindo o defunto Chico Science o Jorge Du Peixe, tão carismático quanto um poste de rua. Nessa música do primeiro álbum, é fácil notar o quanto a banda errou tentando continuar: Chico Science, embora fosse cabeçóide demais, era 90% da banda, e nessa eficiente composição fica claro que os experimentalismos e climas apeteóticos-agrestes funcionavam somente quando encontravam a árida poesia carangueja do Chico. Boa música, sem dúvida nenhuma.
9- "Envelheço na Cidade" - Ira! - Vivendo e Não Aprendendo, 1986
Sempre compre uma revista que tenha uma entrevista com o Nasi, vocalista no Ira, na capa. É hilário, ver esse velhote pagando de adolescente rebelde, dizendo ter o "sangue calabrês" e afirmando ser mal, pois para ele, roqueiro tem que ser malvado mesmo. Vai jogar bingo, véio! Depois falam do Chorão ainda. Mas, indo para o campo musical, o Ira sempre primou pelas letras colegiais demais e por ter um bom guitarrista, o Edgard Scandurra, hoje metido a DJ. Dizem que o terceiro disco da banda, Psicoacústica, é um clássico, as 3 pessoas que ouviram juram de pés juntos. Sei. Mas essa música é a obra-prima da banda, nunca mais farão nada parecido, um bom trabalho de artesanato pop que livra a cara deles até hoje.
8- "Me Chama" - Lobão- Vida Bandida, 1987
O Lobão é um compositor muito acima da média no esquálido rock nacional, a sua carreira foi mais ambiciosa que a dos seus pares, mas o que mata é essa mania que ele tem de querer ser o Lou Reed tupiniquim, dar entrevistas falando um monte de bobagens, se contradizendo em cada palavra, metendo o pau no rock quando lança disco de MPB e metendo o pau na MPB quando lança disco de rock. Um chato. Agora gravou até acústico para a MTV, emissora a qual ele jurou nunca mais colocar os pés em fins dos anos 90. Integridade artística é isso aí. Me Chama é a melhor música escrita por ele, um retrato de como o rock nacional poderia ser se houvesse um mínimo de inteligência entre os nossos músicos. Isso vale para o próprio Lobão também.
7- "Todo Carnaval Tem O Seu Fim" - Losermanos, ops, Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho, 2001
A banda que não fazia música para empregas domésticas ouvirem nos seus radinhos de pilha (eles mesmos disseram isso em entrevista pra Folha), por se acharem deuses da intelectualidade pós-moderna latino-americana, encontrou seu único acerto nessa música do seu segundo disco, que unia as duas facetas da banda, o hardcore do início de carreira com os metais e Marchinhas do fim da banda. Eu nunca suportei essa cambada, mas se negasse que Todo Carnaval Tem o Seu Fim é uma ótima canção, estaria agindo com a mesma arrogancia burra dos membros dessa banda.
6- "Alagados" - Paralamas do Sucesso - Selvagem?, 1986
O nosso careca favorito, Herbert Vianna, sempre foi um péssimo cantor, e banda ficou marcada por copiar descaradamente o Police. Nos anos 80, tentaram desesperadamente se livrarem desse rótulo, gravando discos em espanhol e outros que soavam quase como axé-music (dúvida? Tente ouvir o Bora-Bora). Selvagem foi o começo da experiência com percussões que a banda aprofundaria nos discos seguintes, mas Alagados tinha influências de música africana, e, por incrença que parível, o resultado foi bom, com o refrão mais esperto já escrito pelo Herbertão (pela última vez, é "Alagados, TRENCHTOWN", caramba!) e a bateria marcante do João Barone.
5- "Flores" - Titãs - Ô Blésq Blom, 1989
Não dá pra levar os Titãs a sério, uma banda com 456 integrantes e que ainda precisa de músicos contratados pra tocar no palco, que gravou discos horrendos como o Tudo ao Mesmo Tempo Agora e o Titanomaquia, que fez um disco de covers de fazer corar qualquer bandinha de garagem por aí. Por isso, eu nunca acreditei que esse bando de incompetentes tenha escrito uma música tão boa quanto Flores. Não pode ser, eles devem ter comprado a letra e os arranjos. Como é possível, uma letra coerente, inteligente e sagaz, uma melodia que vai além de berros de "u-hu" e repetições fonéticas guturais, tudo isso vindo dos maiores farsantes da história da nossa música? Não, essa mentira eu não compro.
4 - "Telefone" - Gang 90 e Absurdettes - Essa tal de Gang 90 e Absurdettes, 1983
Quando o jornalista, DJ nas horas vagas e maluco em tempo integral Júlio Barroso fundou essa filial do B-52's no começo dos anos 80, praticamente dava os primeiros passos, junto com o Blitz, do rock nacional. As viagens beatniks que ele tinha nas letras (uma das músicas do disco chamava Jack Kerouac, muito criativo mesmo) encontraram a sua melhor forma nessa música, que foi regravada um milhão de vezes por outras bandas. O visionarismo de Barroso terminou quando ele caiu da janela do seu apartamento em meados de 1984, e ele não viu o estouro do rock nacional, talvez tenha sido melhor assim, do que ter de ser colocado junto dos Barões Vermelhos e RPMs da vida.
3- "Será" - Legião Urbana - Legião Urbana, 1985
Renato Russo era um bom letrista. Ponto. Mas o seu talento como escritor nem sempre encontrava equivalência nas composições da banda, já que a Legião Urbana tinha instrumentistas medíocres nos seus quadros, e o sucesso das músicas dependia das sacadas melódicas que ele tirava das letras, já que se dependesse do Marcelo Bonfa e do Dado Villa-Lobos, poderia esperar sentado. Por isso, os últimos discos da banda soavam chatíssimos e arrastados, poemas musicados na verdade. Será, do primeiro disco da banda, se beneficiou do frescor de idéias que ainda existia, e com a sua letra que versava sobre um casal (gay? dah!) com tendências a extremismos emocionais, acabou sendo talvez o maior acerto da banda, sem dúvida um grande momento do rock nacional.
2 - "Hoje" - Camisa de Vênus - Batalhões de Estranhos, 1984
Marcelo Nova, compositor, vocalista e faz-tudo na banda, ficou com péssima fama ao estar junto do Raul Seixas na época da sua morte, sendo apontado como o responsável a levar o Raul de volta ao vício de bebidas que acabaria lhe matando. Bobagem, o Raul Seixas era um maluco de carteirinha que sempre foi chegado numa cachaça, independentemente de qualquer influência do Marcelo Nova em cima dele. Quanto a música, um belo pau na mania brasileira de cobrir os problemas do dia a dia com festas e carnavais, foi um belo achado na errática carreira do Nova, que não tem culpa de ser pai da mulher mais feia da história da humanidade, a Penélope Nova. Pô, antes que me xinguem, alguém tinha de ser a mulher mais feia já nascida, não é?
1- "Coração Pirata" - Roupa Nova- Não tenho a menor idéia do disco, deve ser de alguma novela dos anos 80, Salvador da Pátria, Vale Tudo, Mandala...
Eu tento ser sério. Eu tento fazer tudo direitinho. Mas, ai eu acabo sempre me perdendo nas minhas bozonices. E sabe por quê? Por que eu faço por que quero, estou sempre com a razão, mas jamais me desespero, sou dono do meu coração. A, o espelho me disse. Você não mudou.
Marcadores:
Camarada Progressista,
Música
Losers e a sufocação feminina
Ontem, eu estava numa grande livraria no coração da cidade onde moro (para os curiosos, a cidade fica na Latitude -23.5333 e na Longitude -46.6167) . Lia sossegadamente a edição ilustrada do livro O Código Da Vinci (eles poderiam colocar balões nos diálogos dos personagens, ficaria mais fácil e divertido ainda de ler, e dar o subtítulo de "para analfabetos funcionais"), quando notei, numas poltronas que ficam de frente para a parte de livros estrangeiros, algo um tanto quanto constrangedor. Um chato com duzentos livros de arquitetura estava sentado, quando duas meninas chegaram e sentaram nas poltronas do lado. O cara começou a puxar assunto com elas, alguma bobagem sobre pós-modernidade, e as duas, sem qualquer cerimônia, levantaram-se e se mandaram, deixando o cara falando com o vento. Ai você pensa, bom, depois dessa, o mala vai sossegar. Mas não.
Pouco depois, sentou perto dele uma mulher mais velha que as outras duas, mas com belas feições. Ela começou a ler um livro, mas teve de interromper, pois o cara puxou papo com ela também, falando, adivinhem, adivinhem, sim, da porcaria da pós-modernidade e dos livros de arquitetura que ele lia. Ao invés de tentar puxar assunto falando sobre o livro que a mulher lia, simplesmente começou a falar sobre assuntos referentes a ele mesmo. A mulher tentou, educadamente, dar atenção ao chato no começo, mas depois ficou nítido o total desconforto para ela, e no final o cidadão falava, falava e ela nem se dava ao trabalho de olhar pra cara dele.
NÃO É FÁCIL ser mulher, apesar de vocês Losers meterem o pau nelas por não conseguirem a sua atenção. Imagine, você está numa livraria, querendo relaxar do stress do dia a dia, lendo um livro da sua preferencia, e tem que interromper o que está fazendo para, por pura educação, dar atenção para um estranho sem noção e falastrão querendo dar em cima de você falando groselha sobre assuntos que fazem qualquer conversa ser natimorta. Imagino que aquela pobre mulher deva ser importunada frequentemente, em qualquer local ou atividade que esteja ou se proponha a fazer. Imagino ela na fila da padaria, louca pra compar logo os pães farelentos e ir pra casa, e algum chato começar a puxar assunto, a falar sobre a derrota do seu time do coração (acreditem, eu já vi um maluco puxar assunto futebolísticos com intuitos amorosos, certo ele, mulheres adoram futebol). Por isso, eu tenho orgulho de ser um cara feio que nem a fome. Posso ir pra qualquer lugar, sabendo que ninguém vai nem querer chegar perto de mim. Mulheres, eu me convaleço com as suas dores, e juro que nunca irei importuna-lás com bobagens, a não ser, claro, que vocês sejam corintianas e queiram falar sobre a última derrota do Timão...
Pouco depois, sentou perto dele uma mulher mais velha que as outras duas, mas com belas feições. Ela começou a ler um livro, mas teve de interromper, pois o cara puxou papo com ela também, falando, adivinhem, adivinhem, sim, da porcaria da pós-modernidade e dos livros de arquitetura que ele lia. Ao invés de tentar puxar assunto falando sobre o livro que a mulher lia, simplesmente começou a falar sobre assuntos referentes a ele mesmo. A mulher tentou, educadamente, dar atenção ao chato no começo, mas depois ficou nítido o total desconforto para ela, e no final o cidadão falava, falava e ela nem se dava ao trabalho de olhar pra cara dele.
NÃO É FÁCIL ser mulher, apesar de vocês Losers meterem o pau nelas por não conseguirem a sua atenção. Imagine, você está numa livraria, querendo relaxar do stress do dia a dia, lendo um livro da sua preferencia, e tem que interromper o que está fazendo para, por pura educação, dar atenção para um estranho sem noção e falastrão querendo dar em cima de você falando groselha sobre assuntos que fazem qualquer conversa ser natimorta. Imagino que aquela pobre mulher deva ser importunada frequentemente, em qualquer local ou atividade que esteja ou se proponha a fazer. Imagino ela na fila da padaria, louca pra compar logo os pães farelentos e ir pra casa, e algum chato começar a puxar assunto, a falar sobre a derrota do seu time do coração (acreditem, eu já vi um maluco puxar assunto futebolísticos com intuitos amorosos, certo ele, mulheres adoram futebol). Por isso, eu tenho orgulho de ser um cara feio que nem a fome. Posso ir pra qualquer lugar, sabendo que ninguém vai nem querer chegar perto de mim. Mulheres, eu me convaleço com as suas dores, e juro que nunca irei importuna-lás com bobagens, a não ser, claro, que vocês sejam corintianas e queiram falar sobre a última derrota do Timão...
Marcadores:
Camarada Progressista,
Comportamento
Diga que me ama, Veja, diga!
Eu, amante ferido e desesperado, em acessos de amor e ódio:
Políticos não sofrem de baixa auto-estima, por isso dispensam elogios. E o governo não precisa ser defendido nem louvado por seus acertos. Mas o governo precisa ser atacado e denunciado quando falha. Eis o único dever da imprensa.
A imprensa não deve, jamais, se prestar à publicidade de partidos e personalidades políticas. Trata-se de alimentar mitos, de envolver a democracia na propensão sempre latente do povo ao messianismo.
Quando um jornalista congratula um político, pode ter certeza de que não é notícia, mas favor, compadrio.
Políticos não sofrem de baixa auto-estima, por isso dispensam elogios. E o governo não precisa ser defendido nem louvado por seus acertos. Mas o governo precisa ser atacado e denunciado quando falha. Eis o único dever da imprensa.
A imprensa não deve, jamais, se prestar à publicidade de partidos e personalidades políticas. Trata-se de alimentar mitos, de envolver a democracia na propensão sempre latente do povo ao messianismo.
Quando um jornalista congratula um político, pode ter certeza de que não é notícia, mas favor, compadrio.
Marcadores:
Brasil,
Camarada Fundamentalista,
Política
segunda-feira, 14 de maio de 2007
A Veja não me ama, mas eu amo ela
Eu comprei a minha Veja, que é a revista de que eu mais gosto no mundo inteiro. E o dia em que eu compro a Veja é o mais feliz da semana inteira. Vou correndo pra casa lê-la e, depois, na faculdade, eu conto pros meus amigos as coisas legais que eu aprendi, e eles ficam muito impressionados por eu saber tantas coisas do mundo e das atualidades.Mas aí chegou essa semana, e não foi assim, eu não fiquei feliz: eu fiquei triste. E eu fiz tudo do jeito que sempre faço. Só que dessa vez, quando eu fui ler a Veja, eu li que eu, sim, eu era um sanguessuga. É, um sanguessuga! E que eu era do mal, só porque eu estudo na USP.
Mas eu não sou do mal, eu sou do bem; eu quero ser bonzinho - por isso eu leio a Veja! Vou explicar pra vocês, que também são cidadãos de bem.
Pra começar, eu sou filisteu - já disse isso antes -, que nem vocês, quer dizer, quase que nem vocês. Porque, de vez em quando, porque eu tô na USP, fico meio poser e, aí, meio blasé e tudo. É chato, mas é só de vez em quando.
Mas, em nome da sociedade, me marginalizaram, a Veja e um gordinho da Bandeirantes (que não entra na história), num desses programas da tarde em dia de semana. Disseram que eu e os meus colegas filisteus e posers da USP não retornamos nada do que a sociedade, ou seja, vocês, cidadãos de bem, investe na gente. Eles falaram assim, como se, só porque eu entrei na USP, eu já não fosse mais que nem vocês, como se eu não fizesse mais parte da sociedade. Pior, disseram que eu sou filhinho-de-papai.
E eu não sou, não. A minha mãe é a dona Conceição, e o meu pai é o seu Oscar. A gente mora na Vila das Mercês, a gente é de classe média bem, bem baixa, não tem carro, e eu até pouco tempo atrás era estagiário e ganhava 500 paus por mês.
Além disso, a Veja, de que eu gosto tanto, disse que eu não mereço ensino superior de graça porque eu não vou ganhar o Nobel. O Nobel é o índice de produtividade de conhecimento da Veja. Segundo ela, se eu, ganhando 500 reais por mês (quando eu ganhava, porque agora eu estou desempregado), tiver de pagar 800 só de mensalidade da USP totalmente privatizada, aí, sim, eu vou ganhar o Nobel. Vou escrever um livro classudo e ganhar o Nobel.
A Veja é pragmática: ou a universidade produz, ou não vale nada, e a gente fecha ela. Só que, tipo, a Renascença não aconteceu assim, na marra. A Renascença é um negócio que demorou uns quinhentos anos, de muita enrolação, de muita gente sem fazer nada. Isso era humanismo. Mesmo antes da Renascença, ou melhor, pra que eclodisse algo como a Renascença, foi necessário muito humanismo, ou seja, gente coçando o saco o dia inteiro. Sem ócio, não há valores humanistas. O trabalho embrutece o homem, esse trabalho voltado à produção, ao mercado, como é aquele de que a Veja quer saber. Trabalho, nesse sentido, e conhecimento não casam. Eu não tô dizendo que, se patrocinarem a USP e deixarem assim, como está, daqui a uns quinhentos anos, virá a Renascença tupiniquim. Pode ser que venha. Mas o que eu estou dizendo é que tem de haver isso que é a USP, um lugar onde as pessoas vão aprender a ler Homero e Tucídides no grego, independentemente se vai dar pra vender isso no shopping.
Além do mais, parte da USP já é meio que privatizada. E é justamente a parte bem comportada, que nunca entra em greve, que não adere à greve, a parte boa da USP, de que a Veja gosta. E é justamente essa a parte que todo o mundo toma pra dizer que a USP é da elite, e que nóis, que é pobre, a gente não temo acesso.
Mas FEA, Direito, Medicina e Politécnica não são a USP; são uma parcela representativa, mas também muito específica da comunidade. Eu, por exemplo, que sou pobre e burro, eu tô na FFLCH, pra ser professor, que eu sou otário e devia de saber que o Serra não gosta de professor e, por isso, não vai gostar de mim. Nem ele, nem o Lula.
E meritocracia existe, sim, e funciona, como tudo nessa vida, em parte. Mesmo que digam que não; mesmo que haja cotas, mesmo que eles digam que lá na USP os pobre num entra porque não tivero chance. Eu, de novo, sou prova de que isso é mentira. Eu que estudei a vida inteira em escola pública; tudo bem que não trabalhei até os dezoito anos, mas isso, como a maioria dos jovens. Só que, em vez de assistir ao Zorra Total (quer dizer, não toda a semana, ou não inteiro, só um pedaço), eu, que era um chato, ia ler Proust, zzzzzzz, e ia escrever poema boboca sobre como eu era um adolescente boboca e incompreendido. Por isso, eu passei no vestibular e, por isso, não virei um injustiçado do pernicioso sistema socioeconômico vigente. Estudo num prédio inacabado desde a década de 1960, por falta de verbas, e tenho aulas de latim numa sala de 150 alunos, também por falta de verbas, mas não sou nenhum
injustiçado.
injustiçado.Poxa, e, afinal de contas, eu também sou que nem o Lula. Talvez por isso, a Veja de repente não goste de mim, apesar de eu gostar tanto, tanto dela. Mas, por outro lado, vocês, cidadãos de bem, têm de gostar de mim. Eu também vim de baixo. O Lula veio de baixo e chegou à Presidência da República; eu, a USP. A USP é cheia de Lulas. Cidadãos de bem, vocês votaram no Lula, acreditaram nele, então, acreditem em mim também.
Apesar de que eu, eu mesmo, acho que ter partido é falta de caráter. Que postura política, boa mesmo, idônea e justa, é a de Thoreau, que dizia que "o melhor governo é o que absolutamente não governa". O Mainardi mesmo recomendou uma vez a leitura de Thoreau. Portanto, termino eu, recomendando também Thoreau, e, apesar de tudo, como Winston Smith amava o Grande Irmão, amando a Veja, porque ela zela por mim.
Marcadores:
Brasil,
Camarada Fundamentalista,
Política
Assinar:
Postagens (Atom)
