quarta-feira, 23 de maio de 2007

Magali, minha grafóloga

Existe uma pessoa a quem sempre peço conselhos, uma pessoa que me serve de apoio nas situações mais complicadas da minha vida: Magali, minha grafóloga.

Há tempos lhe devia esta louvação. Ficava ensaiando como fazê-lo, no entanto, até que me surgiu a idéia mais simples possível: traçar um breve perfil dessa pessoa extraordinária.

Magali se formou em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), em 2005, especializando-se em grafologia, que, se não sabem, é a análise da personalidade pelos traços da escrita. Foi ela a pessoa que me abriu os olhos para o meu egocentrismo, que me desmacarou, por assim dizer. Lembro até hoje dela me falando assim, com a Bic em riste:

- Tá vendo essas iniciais balofas? É que tu é muito cheio de si, malucão! Parece um sapo-boi!

Ela é meio despachada mesmo. Sempre precisei desse tipo de gente perto de mim, incisiva assim. Não importa como eu chegue ao consultório dela, eufórico ou melancólico: com ela não tem meias palavras, ela não muda. É sempre "senta aí, seu sangue-nos-zóio; tá cá a caneta, escreve aí, trinta linha". Depois, ela pega o papel e fala tudinho, exatamente aquilo que eu estava precisando ouvir. É como se me lesse a alma, a danada.

E é um mulherão. Eu falo "ah, doutora, se você fosse mais velha (tem 24), casava com a senhora". Aí, daquele jeitão dela, ela diz: "Se eu fosse mais velha? Então, por que tá me atacando de senhora? Deixa de ser comédia, truta!". Claro que é só brincadeira minha e dela. Ela é muito profissional pra se envolver com um paciente. Mas ela é firmeza, 100%. Mesmo.

Sem palavras pra descrever alguma coisa sobre mim, eu acho

Eu falava pra minha mãe que queria ser artista quando morresse. Ela mandava eu calar a boca, me perseguia e dava um tapa na minha cabeça, pra ver seu eu esquecia essa idéia, ledo engano. Só reafirmou tudo que eu queria,; envelheci, e continuei com algo parecido na cabeça; as coisas mudam, mudam e ainda assim tem o resquício, o cheiro do original. Mas justifico-me agora: esse negócio de artista é pra não acordar cedo todo dia. Ainda faltam algumas décadas, continuo, em alguns dias, não acordando cedo; veremos.

Separações

O equilibrista sabe que se equilibra na corda bamba. O amor talvez seja isso, numa aproximação vulgar. E quando acaba; o final antes do desfecho se divide em fases, é certo.

A primeira é a negação, "nunca", pensa o amante, "isso não pode estar acontecendo".

Logo depois a negociação; fala, que além dos filhos, vai levar a george forman e a churrasqueira. Igual um negociador de refém, a fase necessita de perícia, agora estamos pisando em ovos. Alguns mais sádicos gostam de ameaças, "se vc for embora agora nunca mais vai ver as crianças!". O outro retruca: "Ah ok, vc nunca mais vai ver a novela na Tv de plasma", pelo menos tenta. Tentar seria a segunda palavra atrelada a essa fase, os dois tentam alguma coisa.

Agora chegamos no ápice, o grande movimento: revolta. As partes se xingam, maldições, macumbas; os despachos são bem comuns. Se em enquanto se amavam não se mataram pela intensidade do amor, agora poderão se matar pela intensidade da separação. Destruir o outro, pelo menos roubar a coleção de álbuns de figurinhas do parceiro. Não é muito recomendável afirmar acordos de separação nesse momento, é costumaz acontecer justamente o contrário, as pessoas se matam no tribunal.

Como todo carnaval tem seu fim, já demonstrado pelos Los Hermanos, chega a hora final: a aceitação. Sim, as armas depostas, as bandeiras hasteadas e as trincheiras esquecidas. Os dois até, quando se encontram na rua, ensaiam um aceno, um sorriso. É, o equilibrista sabe que ao cair, seja de propósito ou acidentalmente, a queda em algum momento é esperada.

terça-feira, 22 de maio de 2007

O casamento é uma loteria

Oito, entre dez, casamentos terminam em divórcio, informou-me o Camarada Progressista, sempre muito oportuno, durante uma cerimônia a que fomos convidados.

É o pessimismo do IBGE. O IBGE está dizendo mais ou menos o seguinte: sabe aquele grill George Foreman ou aquela panquequeira Evander Holyfield que você comprou? Foi dinheiro jogado fora: esses dois aí, não dou nem um ano.

O IBGE não chora em casamentos. Não se impressiona se a noiva parece uma vênus, ou um anjo, ou uma princesa. Ele cochicha no seu ouvido: você não devia ter comprado esse grill; pra quê tanta pompa? olha toda essa comida? quanto é que custou esse buffet?

O IBGE também não é místico, não sente que esses vão dar certo. Nem tenta se convencer do contrário, apontando como os dois se olham, como completam a frase um do outro.

George Foreman Grill Família c/ Estufa Transparente GBZ4C Salton: R$ 189,00, no Submarino.

Oito, entre dez. Três, entre quatro. A vida é dureza.


A Fraternidade é vermelha

Estive pensando por esses dias escrever sobre alguns filmes do meu coração, pra me harmonizar tematicamente com o Camarada Progressista, coisa que sempre procuro fazer, já que, freqüentemente, apontam a falta de coesão deste nosso blog.

E que coisa! Coincidentemente, assisti na semana a "A Fraternidade é Vermelha", do Kieslowski, filme citado nos dez mais do referido camarada. Assim que o DVD saltou da bandeja, corri pra registrar minhas maravilhosas e frescas impressões sobre o filme. Mas eis que minha perspicácia usual me chamou a atenção, enquanto eu digitava "A Fra-ter-ni-da-de é... Ver-me-me-me-lhaaaaaaa! Corei.

Ruborizado, me dava conta progressivamente do que, eu, precipitando-me a escrever, ia deixando passar. Vozes me assaltaram imediatamente: "Veja só, não disse que o Camarada Fundamentalista era um vermelho? Petralha! Vá fazer a revolução na casa da tua mãe, esquerdopata!"

Mas, por sorte, o notei. E eu, que sou simpatizante do anarquismo telúrico e do monarquismo cósmico, sim, repito - do anarquismo telúrico e do monarquismo cósmico -, querendo evitar mais mal-entendidos, denuncio quem é o verdadeiro vermelho entre nós:

Camarada Progressista!

Sim, pois é. Até outro dia, dissimulado, se empenhava - com uma aplicação da qual devíamos ter desconfiado - em fazer declarações que o discriminassem muito claramente como um tucano com careca e tudo. Mas era um engano, a disgusting disguise! Porque, no fim, eis que vem introduzir neste blog, subrepticiamente, suas mensagens comunas.

Bem que estranhei que ele, sempre ostentando um americanismo histérico, no que diz respeito à cinematografia - e agora vejo que era tudo, tudo cena -, viesse, do nada, colocar, entre os seus dez mais, um filme francês dirigido por um polonês! Muito União Européia pro meu gosto. Mas o sentido era outro, bem outro. Não era de um europeísmo reprimido. Pior. Era vermelho, e de um maoísmo leninista-trotskista-stalinista asqueroso! Pulha!

Em tempo, em tempo desmascaramos esse pulha! Preparemos, sim, preparemos a fogueira!

segunda-feira, 21 de maio de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Lorena Calábria
Jornalista carioca, teve passagens de sucesso pela extinta Rede Manchete, Globo, MTV, revista Bizz, SBT, Multishow e, principalmente, Tv Cultura, onde apresentou o programa Metrópolis por 4 anos. Hoje, apresenta na Rede Record o programa Domingo Espetacular ao lado do Paulo Henrique Amorim. Ao assistir o programa, é visível o desconforto dos dois, já que trata-se de um clone vagabundo do Fantástico com fascinantes reportagens sobre a vida dos Marsupiais ou blocos inteiros dedicados a cirurgia plástica. Lorena, você poderia fazer mais que isso, não?

domingo, 20 de maio de 2007

Os Melhores Filmes, Década de 90, Parte 2

E agora, abafando o atraso de um dia, finalmente para todos os fãs incondicionais desse blog e aos seus detratores também, aqui mando, com lágrimas no rosto e batidas fulgurantes no meu esquálido coração, os cinco melhores filmes da década de 90, do quinto melhor para o melhor de todos (importante lembrar: na MINHA opinião, mano progressista, e a minha opinião não é necessariamente a mesma dos outros dois camaradas. Deu pra entender agora?). Para vocês, cambada:

5- Jerry Maguire, A Grande Virada - (Jerry Maguire, 1996) - Diretor: Cameron Crowe; Elenco: Tom Cruise, Renee Zellweger, Cuba Gooding Jr.
Eis para vocês, o homem, o chato, a lenda, Thomas Cruise Mapother IV. Desde o indefectível Top Gun, segundo filme mais gay da história (Batman e Robin ainda imbatível), ele nos atormenta com o seu método junkie food de atuação. Na época vindo de dois sucessos estrondosos de bilheteria, A Firma e Entrevista com o Vampiro, Cruise era a maior estrela de Hollywood. Quando aceitou fazer esse filme de menores pretensões, muitos estranharam a decisão. O diretor, Cameron Crowe, tentava desesperadamente mostrar que o sucesso que conseguiu com o seu primeiro filme, Digam o Que Quiserem, não tinha sido obra do acaso depois dos resultados medianos que obteve com o seu segundo filme, Singles. O elenco era formado por ilustríssimos desconhecidos (Winona Ryder chegou a testar para papel que foi de Renee Zellweger, mas foi vetada por parecer ser irmã de Tom Cruise, e não interesse amoroso). Crowe tirou atuações de rara entrega dos seus atores, especialmente de Cuba Gooding Jr., conseguiu tirar um bom trabalho do muitas vezes forçado Cruise e fez um filme pulsante, extraindo beleza e lirismo da garra e do brilho de pessoas comuns passando por momentos de decisão em suas vidas. Parece pouco, mas simplicidade e sinceridade podem proporcionar momentos preciosos para aqueles que quiserem sentir algo ao invés de passar 120 minutos olhando para o alto.

4- Os Doze Macacos - ( Twelve Monkeys, 1995) - Diretor: Terry Gilliam; Elenco: Bruce Willis, Brad Pitt, Madeleine Stowe
Dos membros do Monthy Phyton, Terry Gilliam era o que menos atuava, limitando-se a fazer personagens meramente periféricos nos filmes da trupe. Ele, que era o único americano da turma e desenhista de origem, sempre preferiu atuar no processo de criação, dirigindo junto com Terry Jones o Cálice Sagrado e o Sentido da Vida. Por isso, depois que os Phytons se
separaram, acabou virando um diretor de raro talento, empregando técnicas visuais e de cinematografia que ficaram tão marcantes que viraram marcas registradas dele, como a câmera inclinada e a trilha monocórdica e evitando arranjos orquestrais e as temáticas futuristas. Os Doze Macacos não é o seu melhor filme (a honra vai para o Brazil, de 1986), mas é um exemplar exercício de cinema, um pesadelo científico-futurista com um roteiro coeso e inteligente, atuações firmes de Bruce Willis e Brad Pitt, driblando com categoria as canastrices habituais dos dois atores, e o apuro visual de Gillam na sua melhor forma, agindo como uma espécie de Caravaggio pós-apócalíptico. Um grande momento na bela carreira de Gilliam.

3 - The Commitments, Loucos Pela Fama - (The Commitments, 1991) - Diretor: Alan Parker ; Elenco: Robert Arkins, Michael Aherne, Angeline Ball
Nenhum filme dos anos 90, eu disse NENHUM, proporcionou tanta diversão e despojamento quanto Commitments - Loucos pela Fama. Com um elenco formado por músicos profissionais e com pouca ou nenhuma experiência no cinema, o diretor Alan Parker acabou podendo implementar as suas idéias com mais liberdade (ele dirigiu o fime The Wall, inspirado no disco do Pink Floyd, e nunca se recuperou do trauma de ter que trabalhar com o egocêntrico Roger Waters), deu a segurança necessária para os seus atores, e trabalhando com avidez em cima do bom livro de Roddy Doyle, construiu essa inspirada fábula de um jovem com aspirações de manager tentando montar uma banda de Soul na suburbana e miserável Dublin do começo dos anos 90. Hilário do começo ao fim e com números musicais sensacionais, o filme reviveu a carreira do Wilson Pickett, lançou a moda das bandas de soul de publicitários (o porque dos publicitários terem sido eleitos como rótulos, eu não tenho a menor idéia) e mostrou ao mundo todo o charme do humor irlandês. Esperamos ansiosamente até hoje que lancem aqui nesse fim de mundo o DVD. É duro ver nas lojas edições caprichadas de todas as bombas "estreladas" pelo Adam Sandler e pelo Martin Lawrence e saber que o Commitments nem previsão de lançamento tem. VAMOS MEXER O RABO, DISTRIBUIDORAS DO INFERNO!

2- Pulp Fiction, Tempo de Violência - (Pulp Fiction, 1994) - Diretor: Quentin Tarantino; Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Bruce Willis
Isso não foi um filme. Foi uma hecatombe nuclear. Se você não tivesse assistido Pulp Fiction, você não era um cara legal. Um filme de baixo orçamento que ousou peitar Forrest Gump, infinitamente mais caro, nas premiações da época. Colocou o cinema underground americano no mapa, deu voz a diversos diretores talentosos que não tinham chance de fazer os filmes que queriam, ressucitou John Travolta, lançou o mito Samuel L. Jackson e, principalmente, colocou Quentin Tarantino, ex-vendedor de locadora e diretor do muito elogiado e pouco visto Cães de Aluguel, no topo do cinema, aonde está até hoje. Quando ele elogia algum filme obscuro, os produtores usam o elogio nos cartazes de divulgação dos filmes. Se o Tarantino falou, então é bom, reza a cartilha. Mas, passados 13 anos, toda a euforia, a pergunta que fica é: o filme é tudo isso mesmo? Ou era apenas o filme certo no momento certo? Analisando isoladamente, sem a pressão de ter que determinar se o status que é dado ao filme é válido, Pulp Fiction é um glorioso trabalho de celebração da cultura pop, com um roteiro repleto de diálogos icônicos e sensacionais, personagens marcantes e extremamente bem delineados, elegantes jogos de câmera, narrativa não-linear que, embora não fosse inédita nem fizesse muita diferença na história como um todo, acabou se revelando um diferencial interessantíssímo, além de isolar eficientemente as histórias umas das outras, fortalecendo-as e ressaltando ainda mais as ligações entre elas. E a trilha sonora, que até hoje é lembrada como um dos casamentos mais perfeitos entre um filme e as músicas que nele tocam. Pulp Fiction não foi um acidente, foi a tão esperada volta do cinema autoral, perdido no meio das naves de Star Wars e das fantasias dos Spielbergs da vida.

1- Clube da Luta - (Fight Club, 1999) - Diretor: David Fincher; Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham-Carter
Poucos filmes foram tão incompreendidos na história quanto esse Clube da Luta. Quando saiu, acusaram o filme de David Fincher baseado no livro de Chuck Palahniuk de ser subversivo além de tudo o que podia ser aceitavel na moralista sociedade americana, fascista ao extremo, de mal uso da violência, enfim, encheram tanto o saco que o filme fracassou nas bilheterias. Para piorar, aqui no Brasil, era uma sessão do filme que acontecia quando um maluco entrou armado numa sala de um Shopping de bacanas na Zona Sul de Sampa e matou a tiros cinco pessoas. Pronto, era o que faltava para enterrar o filme de vez, apesar de tudo ter sido uma trágica coincidência. Zica demais para um filme só. Depois de tudo isso, anos se passaram até que finalmente começasse a se dar o valor merecido ao filme, um roteiro primoroso filmado como absurda excelência por Fincher, um ótimo diretor que emula a obsessividade e o preciosismo de sua principal influência, Kubrick, mas que nem sempre consegue fazer filmes bons por não ser o autor dos roteiros que filma e depender sempre de arrumar bons escritores. Nesse caso, ele tirou a sorte grande com o excepcional trabalho de adaptação feito por Jim Uhls e pôde deitar e rolar. Edward Norton, como o narrador (o personagem nunca é nomeado) perdedor que conhece num vôo um maluco anarquista, interpretado com surpreendente brilhantismo por Brad Pitt, e monta junto com ele um Clube no qual homens se reunem para simplesmente darem porrada uns nos outros. Retrato cínico da Geração X agora fazendo parte do mundo corporativo e perdendo-se num sistema que tira dos homens toda a sua individualidade, o filme inteligentemente dá ao espectador a impressão, em determinado momento, de que os personagens teriam saído desse cenário quando, na verdade, estão embarcando em algo tão frustrante e descaracterizante quanto. Ao contrário de tudo o que se disse, a única verdade do filme é: tudo nessa vida pode ser trocado pelo amor de uma garota. Ou não.




sexta-feira, 18 de maio de 2007

Os Melhores Filmes, Década de 90, Parte 1

A década de noventa acabou faz muito tempo já. pra quem não sabe. Mas nós, incorrigíveis saudosistas (excluo dessa afirmação o mano fundamentalista, para quem nostalgia é "coisa de cavalo açoitado"), vamos abrir o baú de recordações cinematográficas e trazer, irrevogavelmente, os dez melhores filmes da década de 90. Nessa primeira parte, a contagem vai do décimo melhor filme para o sexto melhor, e amanhã, os cinco primeiros. Enjoy


10- Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1995 ) - Diretor: Bryan Singer; Elenco: Kevin Spacey, Gabriel Byrne, Chazz Palminteri, Benicio Del Toro, Stephen Baldwin
Começo de 1995. Auge da euforia alternativa provocada primeiramente pelo Nirvana no campo musical e complementada pelo estouro do Pulp Fiction nos cinemas. Nunca o momento tinha sido tão bom para filmes fora do esquemão tentarem alcançar alguma notoriedade. Bryan Singer e Christopher McQuarrie sabiam bem disso. Era agora ou nunca. Pegaram o roteiro que McQuarrie tinha escrito por tres anos, chamaram atores de confiança e outros mais famosos interessados na história que colocava a trama do Rashomon, clássico de Kurosawa que contava a história de um crime usando vários pontos de vista diferentes, no contexto mafioso-crimonoso americano. Com inacreditáveis seis milhões de dólares, finalizaram o projeto, mandaram para Cannes para exibição fora de circuito, e fosse o que Deus quisesse. O resultado, como não poderia deixar de ser outro: críticos atonitos, estarrecidos com o roteiro intricado, a direção classuda de Singer e as intepretações apaixonadas de Palminteri, Byrne e, principalmente, Kevin Spacey, cuja atuação hoje tem status de mítica. Ganhou dois Oscars, roteiro e ator coadjuvante para Spacey, fez bela carreira nos festivais mundo afora e deu ao mundo pop dois nomes a serem citados para sempre: Verbal Kint e Keyser Soze.

9- A Lista de Schindler (The Schindler's List, 1993) - Diretor: Steven Spielberg; Elenco: Liam Neeson, Ralph Fiennes, Ben Kingsley
Esse filme tem gosto de acerto de contas. Spielberg sempre quis fazer um filme sobre a história do Holocausto, para homenagear a sua família, vítima da maluquice nazista. Mas o cidadão sempre teve a estima baixa, e queria que outro diretor dirigisse e ele apenas ficasse na produção. Depois de ouvir negativas de vários diretores, tentou oferecer para o lendário Billy Wilder, que fugiu da Alemanha no começo do nazismo. Wilder recusou, mas consternado com a determinação de Spielberg, convenceu o rapaz a finalmente parar de palhaçada, agir que nem macho e dirigir ele mesmo o filme. Com os brios mexidos, Spielberg deixou a emonice de lado, chamou um grande elenco encabeçado pelo gigante (tem 1,94 de altura) Liam Neeson e contou a história que tanto queria, concentrando-se principalmente no retrato psicológico de um oficial nazista psicótico e explosivamente imprevisível (melhor atuação na carreira do nem sempre eficiente Ralph Fiennes) e encheu os cinemas do mundo de lágrimas com o final um tanto quanto melodramático, mas que em nada tira o brilho do seu trabalho. Depois disso, Spielberg achou que era a última bolacha no pacote, resolveu imitar o maior de todos Stanley Kubrick em todos os seus filmes e quebrou lindamente a cara. Mas uma vez, ele quis ser gente grande e acertou.

8- O Silêncio Dos Inocentes (The Silence Of The Lambs, 1991) - Diretor: Jonathan Demme; Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins
As histórias escritas por Thomas Harris sobre o psiquiatra canibal Hannibal Lecter (oiginalmente nos livros o sobrenome era Lecktor, ele tinha origem lituanesa nas novelas) nunca foram consideradas geniais, obras-primas ou coisas do tipo. O primeiro filme feito com Hannibal, Manhunter, de 86, dirigido pelo Michael Mann e com Brian Cox no papel principal é um filme eficiente, mas nada além disso. Por isso, as expectativas eram pequenas quando anunciou-se um novo filme do canibal, mesmo com a presença da estrela Jodie Foster. Anthony Hopkins na época era apenas um talentoso ator teatral relagado a inexpressivos filmes para a TV. Jonathan Demme era conhecido apenas pelo documentário feito junto da banda cabecóide Talking Heads. Mas, quando o bagulho é pra funcionar, sai de baixo. Denso e nervoso até a medula, o filme aproveitou todo o talento dos seus atores principais. Tanto Foster, interpretanto uma investigadora novata do FBI que exalava determinação e sagacidade, quanto Hopkins, no papel que marcou a sua vida, ofereceram momentos que vivem na memória de todos os cinéfilos, como no sensacional duelo psicológico que acaba gerando o nome do filme. Foi o terceiro filme a ganhar os cinco oscars principais, Filme, Roteiro, Atriz, Ator e Diretor. Nada mal para um filme que todos esperavam ser nada mais além de habitue de locadoras de bairro.

7- A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, 1994) - Diretor: Krzysztof Kieslowski; Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant
Parte final da trilogia feita por Kieslowski usando metaforicamente as três cores da revolução francesa e os seus sentidos equivalentes (os dois primeiros, A Liberdade é Azul de 93, e A Igualdade é Branca, também de 94), A Fraternidade é Vermelha acabou sendo o filme mais conhecido dos três talvez pelo fato de Kielowski ter sido indicado ao Oscar de diretor por ele. Mas a trilogia inteira é sensacional, e esse filme, que conta a história de uma jovem modelo que acaba fazendo amizade com um velho bisbilhoteiro que espiava a vida dos vizinhos com um binóculo, acabou sendo o retrato mais perfeito do cinema sensorial de Kielowski, um final digno para esse talentoso polonês que morreria no ano seguinte ao lançamento do filme.

6- Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994)- Diretor: Frank Darabont; Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman
O Stephen King lançou uns 785 livros na sua carreira toda. Desse total, 90% foram livros de terror, normalmente boas premissas disperdiçadas em clichês toscos e óbvios e um respeito excessivo e bovino as convenções do gênero. Dos 10% restantes, 9,99% falam sobre amizade, metade com as histórias versando sobre um adulto recordando um momento importante de sua infãncia e dos seus amigos, e a outra metade sobre laços de amizade criados em presídios nos anos 30 misturados com pitadas de realismo fantástico.O 0,1% restante é prenchido pelo Apanhador de Sonhos, que junta tudo num caldeirão só para criar um dos momentos mais pavorosos da ficção americana no século 20. Toda essa previsibilidade, quando transformada em filmes, somente conseguiu ser quebrada quando encontrava um diretor bom o suficiente pra chutar as bobagens e excessos de King pro lado e concentrar-se nos esforços de um bom elenco ou em firulas com a câmera (estou falando com voce, De Palma) . Frank Darabont, diretor burocrático e eficiente, como tantos que infestaram os anos noventa, encontrou o seu melhor momento com essa bela história de redenção através da força emergida de uma improvável amizade de um torturado homem que matou a sua esposa e amante com um influente prisioneiro, o filme até hoje mantém um gigantesco séquito de fãs, algo surpreendente considerando que o filme foi um fracasso de bilheteria quando saiu, somente sendo justiçado pelas diversas indicações que recebeu ao Oscar. Um filme que encontra toda a sua força na sua mensagem e na maneira como ele a passa para os espectadores, sem sentimentalismos baratos, mudanças forçadas ou truques narrativos voltados para o melodrama. Algo raro no cinema, em qualquer época para ser verdadeiro.

Eu, ombudsman de mim mesmo

Universidade tem de produzir, sim. Posso ter dado a entender que não pensava assim, fazendo uma apologia chinfrim da ociosidade institucional. Eu sou bem impreciso mesmo. Mas retifico, clareio.

Tem de ganhar o Nobel, sim. Se não ganha, a gente senta pra ver o que é que está acontecendo. É gripe aviária? Vaca louca? Francesismo? E dá-lhe xarope e lactobacilos vivos. Aí, ela vai e ganha um monte de Nobel.

Só que se interpõe uma questão. Produzir em função do Nobel é o mesmo que produzir em função do mercado? Ou: o neoliberalismo, como política educacional, visa a progressos científicos em todas as áreas do conhecimento e, assim, nos conduz ao reconhecimento científico internacional, tanto na Física quanto na Literatura?

FEA e Poli já contam com o patrocínio da iniciativa privada e, por isso, atendem, em sua produção, a demandas e parâmetros certamente aprovados pelo governador Serra e pelo jornalista Reinaldo Azevedo. Ganharam o Nobel? Ganharão? Esperemos.

FFLCH, Física e outras dependem dos 9,57% do ICMS do Estado. A FFLCH, pelo menos, é onde os vermelhos estão todos entrincheirados, aquela corja. Eles ficam escrevendo um monte de tese sobre Safo, neokantismo e positivistas lógicos no gel. Mas ganharam o Nobel? Ou ganharão? Não!

Qual a solução? Acabar com essa História. Que não sobre pedra sobre pedra. Tem gente que diz que literatura, filosofia, essas coisas humanizam a gente, que isso é cultivar o espírito. Ora, tá me cheirando à mística de boteco freqüentado por universitário. Além do mais, pobre não tem espírito: tem estômago. Não é questão de formar "espíritos livres"; por favor, todo o mundo sabe que a academia aboliu há muito tempo essa superstição que é o espírito, e, ainda mais, livre.

Lição básica de economia, na sociedade capitalista, for dummies: dinheiro é capital, ou seja, dinheiro é feito pra ganhar mais dinheiro. Cultura, árvore, coala, criancinha, fica tudo no caminho, às vezes como meio, mas na maioria das vezes como empecilho pra se chegar de um lado, o dinheiro, ao outro, mais dinheiro. Dinheiro não é pra gastar com pessoas, isso é coisa do mais superado e tosco keynesianismo.

Pronto. Obrigado. Quanto é que foi?

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Manual Prático do indie pinguim - Parte 1: Discos de Jazz

Bem esfriemos um pouco o nosso blog( não estamos fugindo Azevedo, nós voltaremos) e trago agora o começo do manual de como se passar por bem entendido sem fazer muito esforço( eu faço isso muito bem); senhoras e senhores, o manual do bem entendido ou indie pinguim.

Jazz: só a palavra já é difícil, imagine pegar quase um século de música e ouvir? Atitude quase impossível, agora vc não precisa passar madrugadas inteiras baixando álbuns de um cara esquisito que toca trompete( só a discografia do Miles Davis tem, por baixo, 30 Gb). Apenas se informe um pouco sobre certos albuns do jazz, algumas pilastras do jazz e você pode sair falando coisa difíceis sobre uma música nada fácil.




1) Kind of Blue (1959) - Miles Davis
O álbum de jazz mais vendido de todos os tempos. Pessoas que não gostam de jazz adoram esse disco e não foi pelo charme do Miles Davis( sem ofensas, Chet Baker). Ele hj, nas fotos era estranho e deveria ser o mesmo na época, mas manjava muito de música. Não foi a toa que ele chamou John Coltrane( Sax tenor), Bill Evans(piano) e Julian "Cannonball" Adderley (Sax Alto). Não, ele não convidou todos para um churrascão e depois um futebol, talvez eles devem ter feito algo semelhante depois da gravação, mas o intuito primordial não foi esse. Voltando, como boa farsa que sou, recomendo ouvir esse disco, mesmo você menino ou menina que gosta de Soweto vai amar esse álbum. Em Kind of Blue ( "Um pouco de tristeza", se fosse traduzido e virasse longa metragem) Miles rompe com o estilo atual, o cool, e instaura algo novo, o jazz modal. Não se assuste, não precisa saber o que são esses estilos de jazz, pouca gente sabe.




2) Time Out(1959, é o que diz o allmusic eu achava que era de 54) - The Dave Brubeck Quartet
Dave e um tal de Paul Desmond( não precisa saber quem é) depois de fazerem um bom tempo de parceria fizeram esse cd magnífico. E muito bom mesmo, ainda considerando que grande parte da banda era branca( com excessão de um negro, pq se não tiver pelo menos um dá azar, em bandas de jazz). Dave no começo da sua carreira sofreu muitos preconceitos por ser branco, da própria familia, sobretudo. O pai(negro) queria que ele fosse médico ao invés de ficar tocando, agradecemos a deus que isso não aconteceu, se bem que ele poderia ter erradicado todas as doenças do mundo( Desmond vai se....)



3) My Favorites Things(1961) - Jonh Coltrane
Ele cresceu, tomou vergonha na cara e resolveu partir pra carreira solo. Esse não é seu primeiro álbum, mas é o mais gostoso de ouvir. Coltrane colocaria qualquer guitarrista no chinelo por causa da sua velocidade fora do comum, dizia que ele era capaz de tocar cem notas por minito, isso em dias de mal humor. Sua música era viva como o fogo, igual sua vida: extigui-se aos 40 anos. E sua carreira também: começou a ganhar notoriedade só com 29 anos, parece que ele sabia que não duraria muito. O album mostrado aqui foi composto e ficou pronto em três dias( maldito gênio!).




4) Mingus Ah Um (1959) - Charles Mingus
Considerado por muitos como o rabugento, a abelhinha operária do jazz. Pois sim, é capaz de ter morrido brigando pelos direitos dos músicos de jazz e dos músicos negros( sim, para variar um jazzista negro). Sem ele talvez os musicos de jazz seriam continuamente explorados(elvis te lembra alguma coisa?) até hj ou apenas teríamos um ótimo musico rabugento a menos. Mas esse disco é muito bom mesmo, gostoso de ouvir, bem feita as composições ( ele era chamado de abelhinha, lembra?) . Tem até um referência ao bird: Charlie Parker(esse abaixo).




5) The Charlie Parker Story [Savoy Jazz](1945) - Charlie Parker
Pra comemorar o fim da guerra mundial a gravadora resolveu lançar esse coletânea
pra encher os bolsos de dinheiro. Um bom disco sem dúvida, tratando-se do Bird não poderia ser diferente. O interessante é a imagem que difere muito das capas dos cds de jazz; alternando sempre entre uma foto do principal músico acompanhado de letreiros grandes ou de uma ilustração no mínimo abstrata. Talvez a ídeia era confundir o Charlie Parker com o papai noel; o velho bonachão está de volta antes do natal e toca sax! Uma ilustração do Charlie Parker tocando seria muito mais agradável, sem dúvida. Outro disco ótimo, recomendado.



Ouça algumas faixas dos discos e já pode xavecar uma menina que goste muito de jazz( me apresente se conhecer) ou quem sabe, fazer o propósito do manual: fingir que gosta, é sempre interessante, veja meu caso.