sexta-feira, 15 de junho de 2007

Classic Hollywood: Máximas

Algumas verdades sobre os protagonistas da era de ouro hollywoodiana, cortesia do Progressista:

Mágico de Oz foi o primeiro filme psicodélico da história
Scarlett O'Hara era ninfomaníaca
Os filmes infantis da Disney sempre usavam alegorias sexuais como mensagens subliminares
Montgomery Clift era gay
Rock Hudson era gay também
Marlon Brando era bissexual
Ava Gardner também era bi
Vivien Leigh era maníaca-depressiva
Bing Crosby era cachaceiro e descia a porrada nos filhos, tanto que dois deles se suicidaram
Humphrey Bogart também era bebum
Judy Garland então, só não bebia água de privada
Marilyn Monroe dormiu com todos os homens de Hollywood, políticos, mafiosos, e com algumas mulheres também
Yul Brynner tinha vergonha e escondia ser russo, fingindo passar por suíço
James Dean, o "rebelde sem causa", era apenas um pacato filho de fazendeiros
Elizabeth Taylor parou de contar os seus casamentos no trigésimo quinto
Alfred Hitchock odiava atores
James Stewart era racista
Clark Gable era disléxico e homofóbico
Errol Flynn era anti-semita
John Wayne odiava índios, era racista, homofóbico, misógino, anti-semita, desertor e, pior de todas, era republicano
Frances Farmer não teve a sua vingança em Seattle

Depois de tudo isso, ainda têm a coragem de pegar no pé da Lindsay Lohan.

Funeral, do The Arcade Fire (e Lindsay Lohan)

Agora sim, comento Funeral, do The Arcade Fire. Aí, você me diz: “Ah, mas esse disco é velho, e eu já ouvi ele inteirinho; não preciso que você me diga o que esperar.” Aí, eu te respondo: “Egocêntrico! O mundo agora gira ao seu redor, e eu não sabia? Deixa eu curtir essa minha descoberta abortiva, pomba!”

Bom, pra começar, eu fiquei me perguntando por que é que esses caras não estão fazendo sucesso, que nem os Smashing Pumpkins um dia fizeram, com Mellon Collie and the Infinite Sadness, que, apesar de alguns hits de rádio, era, além de duplo, no geral um álbum bem difícil de se escutar. Eu sei que Funeral vendeu bastante, mas bastante pra uma banda indie. Puxa, se eles agradam um séquito tão eclético de chatos famosos, como Chris Martin, Michael Stipe e Bono (que sono... zzzzzzzzzzzzzzz...), mereciam mais do que o sucesso de uma banda indie.

O Camarada Progressista aponta, a propósito da dificuldade de romper com essa relativa obscuridade, o barroquismo. Mas o fato é que, por causa ou apesar desse barroquismo, dá vontade de sair cantando com eles. Você ouve e fica pensando “mas que banda legal!”; e, olha, pelo que eu sei, é nessa locução simplória, boboca mesmo, que se esconde o pote de ouro. Imagina a molecada pelo mundo todo falando “mas que banda legal!”: 3 milhões de cópias vendidas e por aí vai. Mas aí o Progressista vira e me diz assim: “Mas, camarada, isso é você, que é muito refinado e tudo; mas o povo, o povo é tosco!” (Às vezes, ele é muito elitista.) E aí eu respondo: “É, camarada, eu sei disso, eu sei que eu sou muito refinado.”

Um cenário ganha forma em nossa mente, ao longo do conjunto Neighborhood: crianças brincando na neve, enquanto os adultos velam o falecido em casa. E não brincam – ou melhor, cantam – porque ignoram o que está se passando, mas porque, como em muitas culturas, cantar é a melhor forma de enfrentar a morte. Funeral é uma celebração da vida atravessada pela morte: quem disse que a morte é silêncio? No entanto, esta atitude não exclui a melancolia, por isso cabe a paradoxal formulação – festividade melancólica – pra sonoridade da banda. Porque, se eles te chamam pra cantar e os vizinhos pra dançar, é porque a tristeza está presente, a ponto de se tornar desespero.

Mas o que eu mais gosto em Arcade Fire é o caráter postiço deles. Explico: por mais que o som pareça, a gente sabe que não é anos 80. É uma versão elegante pra uma época kitsch, apelando pra outro paradoxo, que talvez possamos resolver respondendo à seguinte pergunta: o barroco é kitsch?

Outra coisa que foi decisiva, pra mim, pra dar o meu restritíssimo selo de qualidade pra banda foram as viradas do álbum. Olha, fazia tempo que eu não ouvia uma virada que não passasse de engodo, de picaretagem: sabe, só pra encher lingüiça e esticar alguma música que ninguém vai ouvir mesmo, porque não é o hit do disco. Une Année sans Lumière e Wake Up, por exemplo, contêm genuínas viradas, coesas, finalizações apoteóticas que, no caso deste álbum, acenam para uma grande catarse.

E, aí, você, muito astuto, me pergunta: “E a Lindsay Lohan, onde é que ela entra nessa história?” Bom, e aqui eu vou ser simplesmente genial, talvez haja nesse elemento postiço do Arcade Fire outra chave para compreender o encantamento que Lindsay exerce sobre nós: como rainha dos anos 80 desencontrada, seu charme é do tipo nostálgico, que, mesmo vestindo-se das cores do presente, sugere uma Idade de Ouro que infelizmente nunca existiu, mas que teimosamente insistimos deslocar para essa década, em que todos os exageros eram desculpados, na verdade, estimulados, porque éramos todos inocentes, infantis e bobos.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Já dizia Francisco Alvim, no seu poemeto:

LUTA LITERÁRIA

Eu é que presto

Hilary Duff: A Hipócrita Nêmesis de Lohan

Uma das disputas mais fantásticas ocorridas nessa primeira década do século deu-se entre as duas queridinhas da Disney na era pós-Britney Spears (sempre considerando a contextualização pós-moderna como parâmetro, logicamente), Hilary Duff e Lindsay Lohan. Uma disputa que fez o mundo perder o fôlego com os seus contornos dignos das mais incríveis histórias de um Garcia Marquez da vida. Duff foi revelada pelo seriado Lizzie McGuire, clássico do fabuloso canal Disney Channel, e depois fez carreira (espaço agora para os engraçadinhos soltarem alguma gracinha) em filmes adolescentes e discos, adivinhem só, para adolescentes.As duas cumpriram uma função estratégica vital dentro da companhia fundada pelo obsessivo-compulsivo Walt Disney: levar a marca para outras audiências além do nicho infantil. Agora, a embalagem vendida pelas princesas pop é o ponto de divergência entre as duas.

Enquanto a Lindsay Lohan mostrou desde o primeiro momento uma clara diferenciação dramática que sempre levou os seus costumeiramente medíocres filmes para um patamar mais digno, e no campo pessoal acabou se entregando a um modo de vida monástico e degradante, transformando-se numa verdadeira junkie girl de comportamento que não faria feio entre os rockstars da vida, Hilary Duff sempre foi um símbolo da América careta e republicana. Não é de se surpreender que a Lindsay seja nova-iorquina e a Duff texana. Com certeza isso foi pensado pelos geniais executivos Disneyanos como estratégia de Marketing para cooptar e ser simpático a maior parcela possível da audiência adolescente. Hilary Duff acabou exemplificando o modelo perfeito da adolescente babona, a princesa que não peca, coloca os valores familiares acima de tudo e fica sempre a espreita esperando a vinda do príncipe encantado para, inevitavelmente, viver uma vida regida pelos valores morais rígidos que são padrão na América de Bush. Lógico que tudo isso sempre no campo da fantasia, já que na vida real todo esse panorama acaba sendo motivo de risos para qualquer cínico desse mundo. Mas Duff persiste sempre com a sua obstinada tarefa de tornar o mundo um lugar mais chato e hipócrita de se viver, com os seus discos horrorosos, sua total falta de aptidão como atriz, o que acaba tornando os seus já ridículos filmes tarefas dignas de arrumar um lugar no céu depois de tamanho sofrimento.

Hoje, as duas são modelos opostos, como se a Hilary fosse uma boneca Barbie vestida com adornos e tomara-que-caias rosas, e a Lindsay fosse uma daquelas bonecas sujas de roupa rasgada e que falam palavrão que se encontram pela Internet. Hipocrisia nojenta.Lembrem-se do episódio do namorado, quando a Hilary Duff (momento Leão Lobo do Progressista) roubou o na época namorado da Lindsay e ainda fez cara de inocente, fazendo aquele ar de "ela é promíscua mesmo, eu sim serei uma namorada de valor pra esse cara". Enquanto isso, Lindsay, quando perguntada sobre o ato cometido por Duff, não fez qualquer crítica a ela, pelo contrário, até elogiou a menina e sua determinação profissional (algo comum na Lindsay, que jamais ataca pessoas que falaram mal dela na imprensa, mas isso é assunto para depois). Aonde mora a dignidade no final das contas? Na verdade suja, porém justa, ou na hipocrisia que vende discos, lota salas de cinema mas acaba jogando para debaixo do tapete um pequeno fator chamado talento? Eu sei bem que fim te espera, Hilary Duff: acabará como a Britney Spears, que surgiu com a princesinha careta republicana e hoje virou esse monstro amorfo de fotos escandalosas, divórcios dispendisiosos e surtos de loucura dignos de uma Blanche Dubois. Máscaras, inertes invólucros da alma.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Seinfeld e Lohan: o caminho da felicidade

Seinfeld é um sintoma. O Muro de Berlim caiu, junto os sonhos da humanidade ruíram. Isso eu já disse. Seinfeld vem logo depois. É o reflexo, uma defesa com que nos arranjamos contra as asperezas do presente. Todos os elementos da personalidade contemporânea desencantada estão ali: o cinismo, a relativização, a leviandade, a ironia, o ceticismo. Isso o Camarada Progressista já disse.

Agora vamos unir essas duas reflexões, em função daquela a quem este mês é dedicado. Para tanto, faço uma pergunta de cuja resposta depende a saúde e, não sendo nem um pouco exagerado, o futuro da senhorita Lohan: pode Lindsay ser cínica?

Sim, eu apelo ao cinismo como tábua de salvação para a menininha. E só como medida emergencial. Minha vontade é de sentá-la diante da televisão para assistirmos juntos duas, três temporadas de Seinfeld de uma vez. Aí, eu pauso e explico pra ela, se for necessário: “Tá vendo, você tem de fazer assim, ser mais assim. Vamos, agora é o episódio do Bubble Boy.”

Gente de bem com a vida – realmente de bem com a vida (e, por favor, atentemos no significado dessa expressão, “de bem com a vida”, isto é, concordar com ela, agradar-se dela, achá-la uma beleza, sair por aí de mãos dadas cantando “We are the Champions” com ela) – não gosta de Seinfeld. É preciso ser minimamente neurótico para se gostar de Seinfeld. Ou melhor, é preciso assumir-se minimamente neurótico. Por sinal, acho que Seinfeld incomoda muita gente justamente por forçar um diagnóstico que eles preferiam continuar ignorando: sim, eu sou neurótico. Outros se irritam com a série porque, sem que eles se dêem conta, aquilo se parece demais com eles. O máximo que dizem, no entanto, é: que monte de bobagem esse programa! Mas há, como eu disse, quem não se encaixe nessas descrições, quem realmente ande de bem com a vida.

O Camarada Moderado, por exemplo. Pra ele a série não desce. É que ele é muito equilibrado, muito moderado. Acaba sendo entediante pra ele ver quatro solteirões novaiorquinos fazendo piada com a possibilidade de um mundo melhor. Mas – e agora eis todo o meu pessimismo, que na verdade considero realismo – um mundo melhor é uma idéia furada. Uma pessoa melhor pode ser. Duas também. Uma comunidade? Mais difícil, mas não impossível. Mas o mundo todo? Não, não acredito em salvação coletiva. Você, nosso leitor, você pode se salvar; na verdade, você já deve estar salvo, fazendo a sua parte, alimentando os pobres, prestando serviços voluntários, procurando ser honesto e correto, lendo este blog. E não porque acha que tem de, mas porque quer fazê-lo. Você é como eu: belo e justo. Mas o mundo todo? Não.

Há quem diga que Lindsay é só uma menina superficial que fica enchendo a cara por causa da vida vazia que leva. Em parte, é verdade. A realidade é como um tijolo com que dão na cabeça dela, e ela só poderia fugir, e quem foge da vida cai no vazio. Um sonho ou fantasia só rendem frutos nobres e prestimosos quando a gente volta pra realidade – justamente onde tais frutos têm valor. Se você permanece no mundo encantado, eles apodrecem. Além de você ser internado, porque ficou maluco ou, como diria um especialista, psicótico.

Mas assim que Lindsay reconhece a realidade, corre à garrafa de cana. E bebe, e cheira, e quer morrer. Como sair disso? Repito: cinismo: “É melhor ter papai e mamãe só de olho na minha grana do que ser órfã. Ser órfão é uma coisa muito triste.” E é melhor ser blasé do que morrer aos 27 anos, idade fatídica entre as celebridades. E nem precisa ficar assim pra sempre. Depois, mais pra frente, quando ela for mais velha e estiver mais conformada e acomodada, como todos ficamos, o cinismo perde a função. Tal como Lola Johnson, personagem que ela interpretou em A Prairie Home Companion, que passa de uma adolescente depressiva a uma yuppie. Eis o caminho da felicidade.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Mês Lindsay Lohan: Confissões de uma Adolescente em Crise

A contagem regressiva continua. Enquanto a nossa querida Lindsay tenta desesperadamente ceder a todos o vícios possíveis e existentes nesse mundo, nós vamos levando em frente o mês em homenagem a ela, mesmo sabendo que uma overdose fatal ou um suícidio podem ocorrer a qualquer momento. Falarei agora do terceiro filme de Lindsay (do segundo, Sexta Feira Muito Louca, falarei mais pra frente), Confissões de uma Adolescente em Crise (Confessions of a Teenage Drama Queen), considerado o pior filme já estrelado por ela. Como os césares romanos, venho aqui para apontar o dedo e dizer: "Injustos! Desvairados!". Logicamente todos perderam o ponto. Confissões era visivelmente uma visão moderna, descolada e adolescente (parece slogan de comercial de Fanta) do classicaço-aço-aço A Malvada (All About Eve), do Joseph L. Mankiewicz e estrelado por aquela atriz que ninguém lembra, uma tal de Bette Davis aí. No clássico de 1950, uma golpista se pretende de ingênua para conquistar a amizade de uma veterana e influente artista, mostrando-se uma presença nociva na vida da mesma ao influir negativamente em todos os aspectos da vida da atriz, tanto profissionalmente quanto socialmente.

No caso do Confissões, Lola, uma mimada adolescente (papel da Lindsay no filme) muda-se para uma nova cidade e colégio e acaba entrando em atrito direto com a garota mais popular da escola, gerando uma disputa também pelo papel numa peça que a escola iria apresentar. O filme acaba colocando a personagem de Lindsay como vítima e a garota popular como vilã. Mas aí começa a genialidade não-implícita do filme. No fim, Lola acaba ganhando o papel, conquistando o Garoto roqueiro pelo qual era apaixonada e a garota popular acaba caindo em desgraça. Oras, mas o final não acabou sendo o mesmo nos dois casos, apenas diferenciando-se a visão dada pelo filme às suas personagens?

Essa é justamente, para os olhares mais atentos, a questão colocada pelo filme: a vaidade feminina e os métodos e atos que elas empregam ou não para dar vazão a esses desejos intensos de reconhecimento e veneração. O filme reflete brilhantemente as mudanças que o movimento feminista dos anos 60 provocaram nas mentes das mulheres. Afinal, Lola tinha chegado numa cidade nova, numa escola nova, que diabos ela tinha de ir querer arrumar confusão com o já estabelecido ambiente do colégio? O filme coloca essa situação sem, vejam bem o truque, que a personagem da Lindsay seja vista como oportunista e interesseira. O que era deixado às claras desde o começo no filme de 1950 é agora transformado em dissimulação, rodeios e manipulações da verdade. Hoje, a ambição feminina não precisa mais ser encontrada em aventureiras fora de sua era tentando-se colocar a frente dos fatos. Ela pode existir e conviver no âmago feminino sem necessariamente denotar uma suposta falta de caráter ou intromissõs indevidas, mas sim como um aspecto inerente ao gênero humano, e que propicia também as mulheres uma busca por um papel melhor na nossa sociedade. Então, quero aplaudir o diretor desse filme (sei lá quem é ele) e a nossa Lindsay, por ter reconhecido nesse papel um potencial que todos deixaram passar. Incautos!

Respondendo ao Moderado

Nas priscas eras desse blog, eu postei um comentário criticando o cinema nacional, para revolta do Moderado, que postou depois acusando-me de não saber realmente o que era o cinema nacional e criticar sem ter conhecimento de causa. Bom, aproveito aqui que ele criticou o Seinfeld para fazer uma pequena Vendetta. Aqui vai, entre aspas:
"Moderado, você realmente entende da série Seinfeld para criticá-la tanto? Você deveria ter escolhido outra temporada para cristo, já que a quarta temporada é considerada a melhor da série, e justamente o ponto de amadurecimeto do show".
Fecha aspas, e eu digo que respeito a sua opinião.
Obs: nunca li o Neil Gaiman, então não posso falar do que não conheço.

Seinfeld e Neil Gaiman: o superendeusamento de certas coisas

Detesto quando as pessoas endeusam certas coisas. Não que eu não faça isso, mas atente aos limites; dificilmente eu vanglorizo demais, apenas falo, que além do meu gosto pessoal, a peça ou série ou obra tem coisas que são excelentes: seja a estética, a originalidade da abordagem, os artistas envolvidos. Enfim, aquilo pode ser chamado de obra de arte, de uma forma geral, já que além do fervor do momento tem caracterísiticas trancendentais. Um dia eu entro na questão destas características, voltemos ao discurso; concluindo, não vejo por que endeusam tanto Seinfeld e Neil Gaiman.

Seinfeld, série da década de 90, com o mote "o melhor sobre nada" mostra as aventuras de quatro amigos que vivem em Nova Yorque. A série tem seus bons momentos, algumas boas idéias, mas vendo hj - por exemplo, a quarta temporada, percebo que a maioria das piadas perderam força, as idéias eram pra aqueles tempos, contudo não deixa de ser uma boa série, mas não acho que seja completamente genial, está bem longe disso. Recomendo assistirem até a oitava temporada dos simpsons, isso é genialidade.

Agora outro deus erguido pelo povo: Neil Gaiman. Grande escritor de quadrinhos, ficou famoso pela revitalização de um personagem da década de 40, o Sandman. Neil deixou tal personagem mais sombrio, na verdade ele recriou o personagem criando junto uma nova mitologia junto dessa repaginação; os perpétuos, entidades que são tão antigas quanto o universo e cada uma representa algo, por ordem: Destino, Morte, Sonho, Desejo, Desespero, Destriução e Delírio( na versãoo em inglês todos começam com "d"). O Sandman , ao pé da letra, acabou sendo o senhor dos sonhos. Ele fez muito sucesso com as aventuras desses personagens. Nego que o escritor inglês seja ruim, mas afirmo que ele é longe de genial; as pessoas que costumam gostar e adorar tal autor só gostam dele, pois ele aproxima os quadrinhos da literatura. Este é o problema: quadrinhos são quadrinhos, literatura é literatura. São mídias, ainda que dialoguem muito, diferentes e se quiser ler quadrinhos pretendo ler algo que seja e tenha o intuito de ser quadrinhos e não outra coisa.

Seinfeld: faltam 3 dias

Seinfeld, a série americana mais bem sucedida de todos os tempos, terá lançada nessa sexta-feira no Brasil varonil a caixa da oitava temporada. Partindo desse fato, gostaria de falar um pouco sobre a série e sobre o efeito que ela provoca em seus admiradores e, por que não, em seus detratores também (como vocês podem ver, eu estou educadinho hoje). É muito fácil construir idéias pré-concebidas que sejam carregadas de negativismos acerca da série. Afinal, se muitas pessoas possuem verdadeira aversão por tudo aquilo que constitui o chamado American Way of Life, imagine quando falamos de uma série que justamente pervertia toda essa situação de costumes com um cinismo dilacerante. A própria natureza da série acabava dando margem para esse tipo de visão: se você tem um show que absorve uma ótica de vida na qual todas as sentimentalidades e emocionalismos baratos acabam sendo motivo de piada, é natural você provocar uma indisposição natural com aqueles que acreditam que o ser humano por si só já está impregnado com esse pessimismo e individualismo e que nada ajuda ver isso ainda jogado na sua face nua e cruamente por 4 solteirões neuróticos novaiorquinos.

Por isso, é normal encontrar pessoas que digam não suportarem o Jerry Seinfeld, não concordando de maneira alguma com os "valores" pregados na série. Mesmo nos EUA, onde os novaiorquinos são vistos como arrogantes pelo resto da nação (isso num páis cujo lema é "sou americano e posso tudo que quiser"), Seinfeld sempre esteve intrinsecamente ligado com essa visão superior e européia passada pela metrópole da Maçã.
E mesmo fatores periféricos, como o surto de ataques racistas cometidos pelo esquisitíssimo ator Michael Richards, o Kramer do show, num clube de comédia, acabam jogando contra a imagem da série. Os detratores Seinfeldianos usaram o episódio para atacar a própria imagem da série, usando de manipulações baratas para evitar separar a persona pública de Michael Richards do seu personagem, e jogando todo o contexto do show dentro das desbaratinações do ator. Tudo isso é um preço que Seinfeld e Larry David, criadores da série, sabiam que iriam acabar pagando. Afinal, é muito mais fácil quando se tem um show como Friends, que mostrava seis amigos bem sucedidos, bonitos, cobiçados vivendo num mundo artificial cujo única problemática residia na complexa questão "quem vai ficar com quem?" nos episódios, mas sempre com mensagens edificantes e finais que ressaltavam que todos aqueles seres de plástico tinham um coração escondido naquela embalagem de promiscuidade e alienação.

Seinfeld sempre escolheu ir para o lado contrário. Tirar humor da verdadeira natureza humana, da nossa mediocridade, da nossa incapacidade para lidar com as questões do cotidiano, do nosso egoísmo disfarçado em sarcasmos e ironias. As armas mais poderosas do homem moderno para lidar com o massacre ao qual somos submetidos. O Fundamentalista fez uma bela analogia ao dizer que a Lindsay Lohan deveria ter sido estrela nos anos 80. Pois Seinfeld chegou e mostrou justamente o nosso espelho no mundo pós-muro de Berlim, aonde todos os erros serão apontados e todas as culpas serão punidas. O inimigo, isso até vir Osama Bin-Laden, era interno.

Com todo esse panorama, é fácil odiar Seinfeld. Mas os detratores sabem a condição primordial para se criticar: evitar ao máximo assistir a série. Pois uma vez que você se empenha nesse empreendimento, bastam dois ou três episódios para você jogar todas as pressuposições para o alto e bater a cabeça na parede de tanto dar risada, não há como resistir por muito tempo. Tanto que, mesmo que provocando aversão na América conservadora, a série foi o maior sucesso da história por lá. Todos no final se renderam ao humor inacreditável da série. Somente podem resistir assistindo o show e ainda criticando a série aqueles obstinados, que acabam apelando para o argumento final: a suposta intelectualização da série. Mas nunca você verá alguém criticar o show pela sua proposta final, fazer as pessoas rirem. Pois nisso, nunca ninguém na humanidade, nem mesmo os bobos da corte da Idade Média, se igualaram ao Seinfeld, Kramer, Elaine e George. Yada, yada, yada.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Lindsay Lohan e os anos 80

Ouvindo The Arcade Fire, comecei a pensar nos anos 80. A sonoridade da banda sem dúvida me remeteu a isso. Minha intenção original era postar um comentário fora de época sobre Funeral, primeiro álbum desses quebequestaneses, mesmo com o Camarada Progressista tendo já entregado, com todo o seu virtuosismo analítico quando se refere à música, um faixa-a-faixa do Neon Bible.

Mas desisti, os pensamentos sobre essa década – para os fins desta reflexão, maravilhosa – me absorveram e, claro, me levaram até Lindsay Lohan. Trata-se do mês dela, portanto nada mais natural.

Os anos 80 deveriam ter sido a década Lindsay Lohan. Ela nasceu para as comédias adolescentes dos anos 80. Ela e John Hughes teriam formado uma parceria lendária do cinema. Lindsay seria rainha absoluta. Molly Ringwald não daria nem pro cheiro!
Para Lindsay, mais do que para qualquer outra pessoa, a queda do Muro de Berlim foi catastrófica. Com ele, lá se iam todas as utopias, inclusive aquelas que sustentavam os anos 80. Em lugar do clima de festividade kitsch que envolvia essa década, seguiu-se cinismo e ceticismo, que, numa onda crescente, nos trouxeram até aqui, até este início de século cujo grande saldo é uma Lindsay junkie. Ela é o tipo de pessoa para quem a perspectiva de que um dia todos serão amigos, abraçando-se felizes numa espécie de Terra do Nunca e se dando as mãos para erguer casas feitas de bolo e chocolate, é fundamental; sem a qual ela desmorona, como podemos testemunhar com grande tristeza.

Ah, estas linhas elegíacas, será que cabem aqui, neste espaço que muitas vezes prima pelos males que acabo de denunciar, tais como o cinismo e a indiferença? Não, não me façam perguntas. Eu me derramei nestas linhas e já começo a me arrepender.