domingo, 19 de agosto de 2007

Fluorescent Adolescent, do Arctic Monkeys (o clipe, não a música)

Os videoclipes acabaram com a nossa geração. Principalmente com a capacidade da nossa geração de contar uma história. Quer dizer, não é que acabaram. Na verdade, eles apenas refletem, confirmam uma idéia muito cara ao circo acadêmico: a de que nossa experiência é fragmentária, de que a vida já não é totalidade, pois a totalidade (da vida) se perdeu quando se descartou o mito. Pois, nos videoclipes, o que vemos, com raras exceções, é justamente um recorte episódico da vida.

Por isso, eu devia, para alardear minha desaprovação disso, já que eu sou um sujeito que não nego totalidade à vida – como um bom fundamentalista, as coisas, pra mim, fazem sentido; portanto, a minha vida tem um sentido –, proscrever a simples menção dos videoclipes em meus textos. Só que não vai ser assim, né? Pois se eu vim com essa ladainha toda, é porque ia acabar falando de videoclipes, sim, e vocês já estavam sacando desde o início.

Daí que eu estava vendo o videoclipe do Arctic Monkeys, da música Fluorescent Adolescent. E eu não sei se vocês sacaram (e se não sacaram, finjam que é assim, pros efeitos desta postagem), mas a idéia é chupada de Laranja Mecânica. Duas gangues quebrando o pau, em câmera lenta, só que uma das gangues é composta por palhaços. Ou seja, o mesmo contraste visual entre máscara e ação no clássico kubrickiano. E, como certa linha crítica não hesitaria em sentenciar, se é chupado de Kubrick, então é genial. Portanto, Fluorescent Adolescent é ge-ni-al.

E o melhor de um videoclipe é justamente a liberdade que oferece ao diretor. Uma vez que letra de música não precisa fazer sentido se os arranjos são bons, o único cuidado que se deve ter em relação às imagens escolhidas é com uma vaga semelhança entre o tom delas e o da melodia e, se for o caso, com uma ainda mais vaga alusão a algum elemento constante nos versos sem pé nem cabeça que enchem o cancioneiro pop. Em Fluorescent Adolescent, por exemplo, se não me engano, a letra dos rapazinhos ingleses trata da disparidade entre os sonhos que a gente tinha pra vida adulta e no que esta veio a se transformar de fato. E se não me engano, de como alguém que o fulano conhecia caiu na vida. Hermenêutica ousada essa minha? Nem tanto.

Pois então, em vez de mostrar a amiga (digamos que seja amiga) de infância rodando bolsinha na esquina, botam uns marmanjos vestidos de palhaço dando uma de Sopranos e, de quebra, ganham a crítica com referências a Kubrick e o escambau. Apesar de que máfia e palhaços têm tudo a ver. Pois, e desculpem os highbrow que porventura vêm aqui nos acusar das nossas imprecisões e superinterpretações, mas Pagliacci, lado a lado com Cavalleria Rusticana (mais uma razão pra serem encenadas juntas), é ópera de mafioso. Da última nem se fala... Não acreditam? Vão ver Poderoso Chefão 3.

Ah, sim, e no final, quando o palhaço pega o isqueiro e se livra da ameaça motorizada, chupado, chupado de Karma Police, do Radiozzzzzz Head. Mas, daí, é ruim, daí, não é nem um pouco ge-ni-al. Porque é Radiozzzzz Head, e não Kubrick.

sábado, 18 de agosto de 2007

Buscemi e Macy: o caso Fargo

Eu assisti ao Fargo pela milésima vez esses dias, num dos canais a cabo da vida. Esse é o filme mais famoso dos Irmãos Coen, Joel e Ethan, e abocanhou bela carreira em premiações internacionais no já longínquo ano de 1996, chegando até mesmo a receber uma indicação ao Oscar de melhor filme. Não é o meu favorito deles (o eleito vocês saberão quando eu fizer o meu ranking de filmes dos irmãos Coen, sou chato mesmo), mas é, sem dúvida alguma, um grande filme. O elenco reúne dois atores que poderiam muito bem exemplificar toda a cena alternativa dos anos 90, o William H. Macy e o Steve Buscemi.
Macy teve nesse filme o momento definitivo de sua carreira, dando um salto que o levou a ser sempre considerado para grandes produções, o que permanece até hoje. Já Buscemi, por outro lado, apenas teve em Fargo uma afirmação de seu talento, que foi revelado ao mundo no primeiro filme do Quentin Tarantino, Cães de Aluguel. Bom, essas são as flores da história toda. Eu nutro uma profunda ojeriza por Macy, ator que me irrita demasiadamente, e faz parte, ao lado do Jared Leto, do Giovanni Ribisi e do Robert Duvall, do quarteto de atores que me faz pensar dez vezes se vale a pena assistir filmes que tenham no seu elenco um deles. Mas voltemos ao Fargo. Macy interpretou no filme o marido falido que, desesperado, resolve armar um plano para conseguir dinheiro, contratando dois criminosos para sequestrarem a sua própria esposa, forçando o seu rico sogro a pagar o resgate, dividindo o dinheiro abocanhado com os dois bandidos. Buscemi interpretou um dos criminosos, o que protagoniza os momentos mais agudos do filme. O personagem de Steve Buscemi foi criado pelos irmãos Coen já com ele em mente desde os esboços iniciais do roteiro. Ou seja, foi feito sobre medida para o ator. Espertos esses imãos Coen. Já William H. Macy, esse não teve a mesma sorte, pelo menos não inicialmente.

O roteiro chegou nas mãos dele, e ele sentiu que o personagem do marido poderia ser o papel de uma vida toda. Ficou desesperado, entrou em contato com os Coen pedindo para ser escalado, mas eles sutilmente recusaram, dizendo não terem ele em mente para o projeto. Macy não se deu por vencido. Voou para Nova York, onde a pré-produção estava sendo realizada, para implorar pelo papel. Depois de muito atormentar a paciência dos irmãos, finalmente eles se cansaram de tanta encheção e deram o tão sonhado papel para Macy. Resultado: o filme foi lançado, tornou-se um sucesso arrasador de crítica e, desgraçadamente, rendeu para Macy a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Já o Steve Buscemi, esse ficou a ver navios, sem indicação nenhuma. Uma injustiça inconcebível. Um absurdo, mais uma vez Buscemi era marginalizado pela academia, enquanto o insípido Macy garantia sua indicação. Notem que o personagem dele era o protagonista do filme, e ele foi indicado na categoria de coadjuvante, sina de uma carreira na qual jamais deixará de ser um intérprete sempre ofuscado por colegas de maior presença. Meu consolo foi ele ter perdido o prêmio, do qual era o favorito segundo as bolsas de apostas da época, para o péssimo Cuba Gooding Jr, que mesmo fazendo de tudo para estragar o Jerry Maguire, não conseguiu e ainda levou a estatueta pra casa. Bem feito para o Macy, perdeu o prêmio para uma frase, "Show me the money". Assistir o Fargo depois de tanto tempo não mudou em nada minhas convicções: esse filme é fruto da categoria dos Coen e do talento da Frances McDormand (que justamente ganhou o Oscar de melhor atriz) e dele, o homem, o mito, a lenda do underground, Steve Buscemi. William H. Macy, you sucks!

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Top 5: Simpsons

Hoje estréia o filme dos Simpsons, cambada! Estão animados? Não? Bom, acho que é uma bela hora para, aproveitando essa premissa, fazer um ranking com os meus cinco personagens favoritos no desenho, excluindo logicamente os membros da família, já que o Homer Simpson é absolutamente hors concours, na minha opinião formando uma trinca com o Hamlet e o Holden Caulfield como melhores personagens da história da ficção tendo seus nomes começados com a letra H. Agora, vou parar com a embromação e trazer gloriosamente pra vocês, cinco melhores personagens dos Simpsons, na minha opinião, o que logicamente não reflete necessariamente a opinião dos outros dois camaradas:


5- Lionel Hutz
Advogado golpista e alcoólatra, garantiu nas primeiras sete temporadas momentos sensacionais, como no episódio em que liga para o David Crosby para pedir conselhos para largar o vício de beber e que aparece sem calças no tribunal (esse momento é de bater a cabeça de tanto dar risada). Pena que, com a morte do comediante Phil Hartman em 1998, a produção tenha, em homenagem a Phil que dublava o personagem, retirado Hutz do desenho em definitivo (outro personagem dublado por Hartman, o também hilário Troy McClure, também foi retirado do desenho). Uma homenagem justa, mas que nos privou de um personagem hilário e que inteligentemente representava a imagem que temos dos advogados como um todo (calma, estudantes de Direito, tô só brincando, viu? Golpistas...)

4-Hans Moleman
Com a aparência de um idoso com dificuldades para andar mas que ,como descoberto num episódio, tem apenas 30 e poucos anos de idade tendo destruido sua aparencia com a bebida, Hans Moleman é um dos refúgios do non-sense no show. Suas aparições jamais fazem parte de momentos mais sérios no desenho, já que ele sempre aparece em situações absurdas, como quando a família Simpson o usa para substiuir o filho Bart, que estava morando na casa do Senhor Burns. O final desse episódio, com Hans aparecendo na sala da família vestido como o Bart com um skate na mão e falando com gírias, e o Homer beija sua careca dizendo que era como beijar um amendoim e incentivando a família a fazer o mesmo, é daqueles que somente se descrevendo para se acreditar. Absolutamente hilariante. Sempre envolvido em acidentes violentos e colocado em situações de inacreditável risco, Hans é o saco de pancadas favorito do show, já que suas reações sempre consternadas garantem o saco de risadas, mesmo agora com a decadência da qualidade da série.

3- Ned Flanders
Esse corre o risco de logo virar verbete nas encicoplédias britânicas da vida. Sempre que nos defrontamos com algum vizinho mala, chato e certinho, acabamos livremente o associando com o nome Ned Flanders. Confessem, vocês nunca apontaram pra ninguém e disseram: "olha lá o Ned Flanders, com a sua vidinha perfeita"? Logicamente um personagem frontalmente e propositalmente oposto ao Homer Simpson, reunindo todas as qualidades que faltam no último, Ned é a realização do ditado "o quintal do vizinho é sempre mais bem cuidado que o nosso". Religioso fervoroso, altruísta, sempre pronto pra abrir mão do que é seu pelos outros, paciente até o extremo, incapaz de atos violentos ou egoístas, Ned é alvo de um ódio mortal por parte de Homer, que em diversos episódios demonstrou reações violentíssimas e desproporcionais com Ned. Pena que depois que a Fox assumiu de vez os fervores republicanos, as chagas de Homer contra Ned tenham diminuído exponencialmente. Mais possibilidades hilariantes para o show perdidas pelo conservadorismo ganancioso de seus produtores.

2- Barney Gumble
Esse é até covardia falar. Ícone dos cachaceiros de todo o mundo, Barney Gumble é um patético e absolutamente hilário personagem. Um dos poucos personagens a aparecer desde o longínquo primeiro episódio do desenho, em 1989, sempre em avançado estado etílico (pelo menos até determinado ponto do desenho, que falarei depois), mas com o comportamento apalermado e dócil, longe da agressividade comum aos alcoólatras, Barney é sempre colocado em situações constrangedoras por conta de sua constante embriaguez. Nas últimas temporadas, o personagem se livrou do vício entrando na reabilitação, obviamente uma ordem, digamos, "lá de cima" da Fox. Deixa eu dizer uma coisa pro Murdoch e pros gênios que controlam o canal como se fosse um curral da administração do Bush: todos os estragos que os Simpsons poderiam provocar na imagem e no comportamento dos estadunidenses já foram feitos. Vamos parar com a babaquice e colocar o desenho de volta aos trilhos, ou acabar logo com tudo de uma vez e salvar a honra do show.

1- Krusty, o Palhaço
O Matt Groening deve ter severos traumas de infância relacionados com palhaços. Krusty, palhaço que é um astro da TV e ídolo-mor do Bart Simpson, é a destruição completa do ideal infantil. É tudo aquilo que não se espera quando falamos de palhaços que apresentam programas para crianças. Ou então, verdadeiramente, é um compêndio da realidade. Estelionatário, viciado em apostas, bebidas, cigarros, sexo, mulheres, com sérios transtornos de raiva, Krusty é depois do Homer o personagem mais hilário dos Simpsons. Sem brincadeira, todo episódio protagonizado por ele é de chorar de dar risada, e suas pontas nos episódios são sempre sensacionais. Não tem como errar, se o episódio tem alguns segundos ou é inteiramente protagonizado por ele, então é de se conferir. Um personagem que não se importa em fumar no ar apresentando um programa infantil cheio de crianças na platéia só pode ser hilário mesmo. Eu acho que o Krusty é uma amostra da velha noção que diz que os comediantes são pessoas amargas, tristes e solitárias, sempre propensos a cair em vícios e tentações. A velha questão humana, de ter que provocar risos e alegrias nas pessoas, mesmo em momentos que não temos qualquer tipo de clima para isso, o que provoca em cima desses homens um fardo pesadíssimo de se carregar. Muitos até acabam criando dificuldades imensas para diferenciar a vida pessoal de seus personagens e rotinas de humor, como um escape da mente, o que acontece no show, pode ver que sempre que o Krusty está no ar e comete algum desatino, como xingar alguém ou grunhir impropérios, imediatamente ele se vira pra câmera e faz alguma careta ou palhaçada. Krusty é um resumo brilhante feito por Groening dessas características, e é uma amostra mais uma vez do cuidado que ele teve para construir todos os personagens do show.

É isso, em breve, falarei mais sobre os Simpsons, o bagulho não demora não.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Bem, falei que não ia falar, mas...

Eu falei que não ia falar mas não deu. Antes de explicar eu tenho uma teoria, isso uma teoria que envolve a menina Lohan, ela mesma, tão falada e discutida em nosso blog tempos atrás. Volto a discutir por dois motivos: primeiro, eu fui o único que nunca citou a menina, por isso seria interessante fazer agora que já esfriou o momento de estrelato dela, pelo menos no nosso blog; segundo, ela continua aí, na sua perambulação violenta pelo mundo que vivemos, ora, então tomemos cuidado.

Dentre suas inúmeras infrações habituais - pois sim, estamos falando de uma mulher no volante, há um número excessivo que deixaria qualquer protagonista de GTA para trás, incluindo aí as multas por excesso de velocidade. Podemos citar, para ilustrar, a recente ação judicial movida contra Lohan por perseguição de carro, quem está acusando a nossa garota , olhem o nome como parece saído direto de San Andreas do GTA, é Trace Rice cuja mãe trabalhava para atriz como assessora que tentava escapar das garras da Senhorita Lindsay e já tinha se demitido do seu cargo, pobre senhora, achava que após parar de servir a mimada não teria de suportar mais suas loucuras, ledo engano. Num frenesi, Lohan pegou seu carro e começou a perseguir o carro da sua ex-subordinada, além disso ela foi presa com posse de drogas, e sim, estava embriagada.

Dentre esses incidentes freqüentes da nossa adorada, pensei se talvez ela não estaria tentando fazer um “happening” ou, numa situação mais nerd, um “live” de GTA. Como o protagonista do jogo ela sempre está embriagada ou sobre efeitos de drogas, além de dirigindo um carro em alta velocidade, seja roubado ou não. Na verdade ela está se divertindo com isso, na verdade ela faz isso pois tem um espírito contestador e artístico. Ela, diferente de todos nós, vê a frente mesmo dentro de um carro em alta velocidade e drogada. E vem mostrar para todos que estamos errados, como eu estava.Me perdoe, senhorita, só não me persiga pelo meu erro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Duro de Matar 4.0 ou os vilões megalomaníacos estadunidenses

Já que esse é um blog que versa sobre cinema, resolvi escrever e comentar sobre um filme que vi recentemente, fui ver o filme com outros camaradas, não esses que escrevem junto comigo no blog, mas também camaradas de mesma índole, inclusive conhecidos dos camaradas do blog.

Fui ver um filme de ação, sou o que mais gosta dentre os camaradas, um bom filme de ação nesses tempos atuais são bem raros, daqueles que você não consegue tirar os olhos da tela.

Em geral um bom filme de ação é uma das vertentes da teoria que o cinema é uma arte de impacto visual e auditivo, você deve surpreender a platéia e ela deve sair impressionada com o filme, o cinema não deve ser um discurso que versa sobre o cinema em si, mas que conta um história com impacto, de alguma forma as pessoas tem que sair impressionadas, de alguma forma. Enfim, fui assistir a duro de matar, o novo, e devo dizer que em aspectos gerais é um filme bem executado, cumpre a função de bom cinema pipoca de ação, pecando apenas num aspecto: o vilão. Saudade de Alan Rickman ("O" vilão da série) e Jeremy Irons, deu um pouco de saudade.

O vilão não é de todo mal, contudo ele se enquadra naquela classificação dos vilões megalomaníacos da série de tv do Batman, aquela dos anos sessenta, cujo vilões preocupados em discursar ao mocinho sobre a justificativas das suas atitudes acabam sempre perdendo justamente por essa mania. E o pior que todos os vilões costumam ser solitários pois são rodeados por capangas idiotas e nada articulados, então sempre quando ele encontra o protagonista, vulgo o mocinho, ele percebe uma oportunidade para alguém compreender a grandiosidade do seu estragema.

Proponho a seguinte solução para os vilões das futuras gerações: aprendam ventriloquismo. Ora, após aperfeiçoarem nessa difícil arte, poderão adquirir um boneco ou uma meia improvisada como boneco para poderem contar seus planos e até seus segredos mais obscuros. Alguém pode argumentar falando que existe um vilão do Batman que é um boneco de ventriloquismo, contudo o vilão é o boneco e ele acha seu manipulador um idiota.

Camarada Fundamentalista e as mulheres: do contexto favorável

Sempre procurando refinar minha sólida e já comprovada sabedoria acerca das mulheres, conversando com o Camarada Progressista, consegui definir mais claramente uma intuição que eu já tinha de que o interesse amoroso de uma mulher é decisivamente atrelado a um contexto. Para que as mulheres se interessem por você, caríssimo Camarada X, faz-se necessário um contexto social favorável. E não me refiro somente aos losers, por favor. Mesmo os garanhões e galinhas faturam segundo este mesmo princípio; afinal, trata-se de um traço fundamental do que são as mulheres, da – segundo o reto vocabulário da tradição ontológica ocidental – qüididade da mulher.

Vejamos agora se podemos dar alguma inteligibilidade a isso, dizendo como é esse “contexto social favorável”. De maneira muito simples e sucinta, funciona como a velha lei da oferta e da demanda: elas precisam querer o que você tem a oferecer. Então, Camarada X, pense no que você tem a oferecer. E trate de ser o mais isento, lúcido e sincero possível neste ponto, deixando de lado tanto a autodepreciação como a superestimação. Algo você tem a oferecer, e não é tudo. Depois, pense em onde estão as mulheres que se interessam pelas características positivas assinaladas. É, pois, de capital importância que se estabeleça uma correspondência clara entre tais características e o ambiente social sugerido, porque é daí, enfim, que obviamente resultará um “contexto social favorável”.

Exemplifiquemos, para que a linguagem conceitual, dando ares de pura teoria, não maquie a natureza totalmente prática dessas palavras. E exemplifiquemos com um clássico: o professor que desperta os suspiros de suas alunas. Quer “contexto social favorável” mais favorável? Dando aula, o indivíduo – se for bom professor, é claro – pode expressar muitas de suas mais afrodisíacas qualidades: senso de humor, capacidade de influenciar e seduzir outras pessoas. Todas estas, qualidades que se resumem a somente uma: inteligência. Pois assim é o reino animal: os que não contam com força (leia-se “poder”, “músculos”, “dinheiro”, etc, etc), se arranjem com a inteligência. E as menininhas, condicionadas pelo ambiente escolar, se acham predispostas a se deixar envolver pelos encantamentos do charmoso professor.

E o caso dos garanhões e galinhas? Como havia dito, o princípio é o mesmo, tanto para eles, quanto para o professor. De fato, garanhões e galinhas já praticam há muito tempo, desde que começaram a existir garanhões e galinhas sobre a face da terra, o que eu estou lhes ensinando. E o fazem instintivamente. Primeiro, definem claramente o tipo de mulher que procuram (geralmente uma que seja “fácil”, como se costuma dizer, tirando eu, é claro, porque sou muito respeitoso). Depois, se dirigem aos lugares onde supõem ou sabem que vão encontrar tais mulheres (bares, baladas, casamentos, funerais, cursos de Psicologia...). E, finalmente, aplicam o papo e a abordagem esperada por elas.

E se tornam, ao ver das mulheres, cafajestes única e exclusivamente por simularem as características que apresentam. E raramente simulam com competência: isto é, as mulheres é que gostam de bancar as trouxas... ai, me desculpem, é só um espasmo sexista. Mas verdade é que, no caso das mulheres que vão na desses canastras que andam por aí aos montes, elas realmente estão procurando o que eles estão indiretamente (e sem encenação nenhuma) oferecendo. Através da conversinha fiada, que não engana ninguém, com que eles chegam, demonstram os sem-vergonha, atrevidos, sacanas que são. E, aí, bom, aí, elas, que estão atrás de um sujeito viril – e, querendo ou não, o cafajeste é viril –, compram. É por isso que o Machismo Clássico (que só falha por generalizar, já que tudo nessa vida tem sua exceção) diz que mulher gosta de apanhar.

Mais do que uma tática, Camarada X, esta exposição do “contexto social favorável” é uma constatação comportamental, até com uns tons muito peculiares de biologia e, por isso mesmo, deterministas, como não poderia deixar de ser. (Ah, a foto acima é de Pablo Picasso, em seu estúdio, com Brigitte Bardot, em 1958.)

TETÉIA DA SEMANA

Kirsten Dunst
Atriz norte-americana de 25 anos, que surgiu ao mundo no filme Entrevista Com Vampiro, no qual contracenava com o Brad Pitt e com o Tom "Cientology Rules" Cruise. Quando fez o filme, tinha apenas 11 anos de idade. Incrivelmente, Kirsten conseguiu seguir sua carreira com passos graduais e firmes, escapando da famosa "síndrome dos astros adolescentes" que acometeu tantos e tantas jovens starletes Hollywoodianas. Fez filmes de excelente respaldo crítico, como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Virgens Suicidas e Maria Antonieta, e também encheu os bolsos interpretando a garota favorita do Peter Parker, Mary Jane, nos três Homens-Aranhas já lançados. Falta agora tentar arrancar uma indicaçãozinha ao Oscar, que pelo jeito não passou nem perto dela em todos esses anos de carreira. Deve ser a maldição do Aranha, já que o Tobey Maguire também nunca foi agraciado.

sábado, 11 de agosto de 2007

Cinema - Estréias da Semana

Depois da ausência da semana passada, provocada por uma fortíssima gripe (vamo lá, finjam que vocês acreditam nisso), volta as estréias. Depois não diz que eu não avisei.

Primo Basílio - Diretor: Daniel Filho; Elenco: Fábio Assunção, Debora Fallabella, Reynaldo Gianechinni
Todos os defeitos do cinema nacional podem ser evidenciados quando assistimos alguma película dirigida pelo pau pra toda obra Daniel Filho. Típico caso de diretor de novela que não sabe de maneira alguma diferenciar os veículos pelo quais lança seus trabalhos (como bem fala o Fundamentalista no seu texto sobre Bergman, o cinema exige outro tipo de aproximação de seus diretores). Nesse caso, é impossível evitar o clima de novelão que ele adota para contar pela milésima vez a história do clássico livro do Eça de Queiroz. A ação é transposta para os anos 50 sem qualquer motivo aparente, talvez para ter uma prerrogativa para lançar na tela tórridas e exageradas cenas de sexo, sei lá... Filmeco que, obviamente, não faz jus à obra original, e embora tenhamos a competente atriz Debora Fallabella tentando salvar a pátria aqui e acolá, acaba sendo afundado pelos seus atores, o insosso Fábio Assunção e o David Hasselhoff tupiniquim, Reynaldo Gianechinni, absurdamente inexpressivo como sempre. Em vez de prestigiar esse lixo, leia o livro e se divirta com todo o cinismo do Eça, que você vai se divertir muito mais.

Escorregando Para a Glória - Diretores: Josh Gordon e Will Speck; Elenco: Will Ferrel, Jon Heder
Comédia de segunda que foi um sucesso inesperado nos States, já que não era o principal lançamento do Will Ferrel no ano. Aposta tudo no talento cômico de Ferrel e do Jon Heder, mais conhecido pelo superestimado Napoleon Dynamite. A "trama" do filme versa sobre dois patinadores rivais que depois de serem expulsos das Olimpíadas de Inverno por má conduta precisam trabalhar juntos para competir novamente. É, muito animador mesmo, ver o Ferrel dando seus berros insuportáveis num filme sobre patinação do gelo. Fuja dessa bomba e assista a biografia da Tonya Harding, aquela maluca que fez um plano com o namorado pra matar a sua principal competidora no esporte em 1992, que você ganha mais. Bota lá no E!, no Mundo, qualquer um desses canais que com certeza estará passando.


Sem Reservas - Diretor: Scott Hicks; Elenco: Catherine Zeta-Jones, Aaron Eckhart
O quê? Uma comédia romântica sobre dois chefs que acabam tendo de trabalhar juntos num badalado restaurAnte de Nova York e que depois de se hostilizarem no começo acabam descobrindo que se amam no final e ficam juntos, felizes para sempre? Sério: quantas vezes você já viu esse filme? Duzentas e cinquenta vezes? Existe uma comédia romântica nesse mundo, das que foram feitas depois do estouro do Harry e Sally nos anos 80, que vale a pena, e ela se chama Jerry Maguire. O resto, lixo. E com o Aaron Eckhart? Meu Deus, será que não existia nenhuma opção melhor que esse careteiro de marca maior? Ator que propiciou no horrendo filme Dália Negra a pior atuação da história da humanidade, desde o surgimento da tragédia grega? Pobre Zeta-Jones, faz tempo que ela não faz um filme que realmente tenha qualquer relevância, se continuar assim terá logo de estrelar um Instinto Selvagem 3 com o marido Michael Douglas de cadeira de rodas e marca-passos. E assim caminha a mediocridade...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Bergman, o quarto (rei) mago

Filmes cujo roteiro tem por base uma peça teatral são geralmente recheados de falatório. Pensem em Closer, por exemplo: parece que Clive Owen e cia. nunca mais vão calar a boca. E quando não estão falando, tem aquele carinha repetindo sem parar que não consegue tirar os olhos da mina (é, finge que é uma mina mesmo). Esfregam na cara da gente parágrafos e parágrafos de diálogos espertinhos e afiados. E a gente sai do cinema pensando que filme inteligente acabou de ver e até se sentindo, a gente mesmo, inteligente por ver um filme assim. E, de fato, é o principal efeito que uma produção como Closer visa provocar nos espectadores. O principal e único, às vezes chego a pensar (mas só às vezes). Como uma conversa entre dois indivíduos muito perspicazes que ficam se exercitando em piadinhas oblíquas e herméticas que ninguém mais, a não ser eles, entende.

Só que, diferente do que parece, nem é esse o ponto que eu quero demonstrar. O que me interessa é Ingmar Bergman, que faleceu, e eu fiquei sem dizer nada. Closer era só uma desculpa ou passo para ilustrar uma das tantas qualidades do cineasta, a qual eu gostaria de destacar e, assim, prestar minha tardia - pra vocês, é claro - homenagem. Pois Bergman veio para o cinema do teatro. E ao longo de sua vida, ao lado do cinema, o teatro sempre foi sua grande paixão, da qual nunca se afastou, escrevendo e dirigindo. Isso todo o mundo leu em biografias as mais variadas e vagabundas, tipo, daquelas de verso de DVD.

Mas nessa passagem do teatro para o cinema, iniciada como revisor de roteiros e depois roteirista, Bergman soube reconhecer e respeitar as especifidades de cada expressão artística. E, em vez de encher a tela de falatórios sem fim, privilegiou a essência do que é o cinema, ao fazer as imagens falarem por si só através do silêncio. E quando suas personagens falavam, o que a câmera mostrava (os close-ups tão peculiares) acabava sobrepondo-se, como seu maior trunfo retórico, ao próprio conteúdo do dircurso.
Bergman, no entanto, era um chato; ou melhor, seu cinema era chatíssimo. Porque ele era bem bacanundo, ele como pessoa humana, entendem? Mas Bergman é morto. Então, Bergman era pop: isto é, dos "cineastas difíceis", sabe, aqueles em que nem adianta chegar chegando, que não rola de jeito nenhum; em comparação a estes, ele era plenamente assistível. Filmes como O Sétimo Selo, A Fonte da Donzela e Fanny e Alexander são muito acessíveis. Pelo menos, quando a gente não sofre de preguiça cerebral crônica, concessão que já se fez por aí, dado que é um caso comum. Mas eu, se fosse prefeito, ou presidente, ou se trabalhasse na alfândega, ou então se fosse um Imortal, aí tinha que todo o mundo assistir Bergman; e ai de quem não gostasse - eu botava pra ouvir horas e horas de música instrumental zzzzzzzzzz... pra ver se aprendia a deixar de ser filisteu. Filisteu não; é tonto mesmo. Mas aí é eu, e eu sou bom demais pra isso aqui.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Curtas: Resenhas de Cds

Tava devendo uma resenha sobre o último álbum lançado pelo Arctic Monkeys. Como não é nenhuma maravilha, vou aproveitar e fazer resenhas rapidíssimas sobre discos lançados no último ano e meio, sem qualquer justificativa aparente. Como diria o mito Amaury Jr., " é o mundo musical em revista".

Arctic Monkeys - Favourite Worst Nightmare: Disco que começa arrasador com a pega-pra-capá Brianstorm, mas que não segura o rojão nas outras faixas, fazendo mal uso de belas frases de guitarra e de uma eficiente cozinha. Uma decepção, mas perdoável se considerarmos a pouca idade dos integrantes. O rótulo de novo Nirvana e a cobertura maciça dada pela mídia musical britânica acabaram sendo fardos pesados demais para a banda carregar. Mas eles foram realmente ingênuos: deveriam ter feito todas as faixas do álbum soarem como a Brianstorm, e a vitória estaria garantida.
Faixas recomendáveis: Brianstorm, Fluorescent Adolescent



Bloc Party - A Weekend in The City: A proposta limitada prende demais a banda, que é obviamente talentosa, mas que pelo jeito nunca conseguirá sair daquele esquemão "pós-punk sem sintetizadores". O disco anterior, Silent Alarm, é muito superior, e projetava uma carreira promissora para a banda, mas esse inerte segundo álbum acaba lançando invitáveis sombras sobre o que pode-se esperar do Bloc Party em sua carreira. A homossexualidade do vocalista Kele Ukereke acaba sendo a principal fonte de letras para o disco, o que, se fosse usado com parcimônia, poderia render canções memoráveis, mas que aqui acaba soando cansativo depois de um tempo. Agora é esperar para ver aonde esses londrinos caminharão.
Faixas recomendáveis: Wating For The 7:18, Hunting for Witches



The Killers- Sam's Town: e o século já tem a sua banda mais subestimada. Sequencia do sucessão Hot Fuss, que emplacou a sensacional Mr. Brightside, é um disco bem menos convencional e mais difícil que o anterior, não apelando para refrões fáceis e caminhos de fácil digestão. Todos criticaram o clima meio Bruce Springsteeniano do disco, o que é uma bobagem. Se o Oasis imita os Beatles, todo mundo elogia (não se iludam, eu adoro o Oasis, apenas usei essa comparação para elucidar o meu ponto). Espero que eles não sucumbam ao semi-fracasso do disco e continuem nesse bom caminho.
Faixas recomendáveis: o disco todo, larga de preguiça e ouve direito o bagulho



Red Hot Chili Peppers - Stadium Arcadium: imaginem um álbum duplo com 28 músicas. Imaginaram?Agora, imaginem que dessas quilométricas 28 canções, apenas 2 sejam realmente boas. Eu disse duas. Em termos percentuais, apenas 7% do disco se salva. Um feito que somente os Peppers poderiam alcançar, lançando um disco horroroso com status de obra-prima. Tentaram soar mais ambiciosos e quebraram a cara, já que o Anthony Kieds é um letrista fraquíssimo, e toda a virtuosidade da banda é disperdiçada em músicas soporíferas e sem qualquer tipo de inspiração. O que sobra são jams intermináveis entre os integrantes permeadas com letras sobre bobagens que em momento algum formam uma melodia mais do que decente. Agora, aprenderam a lição: só servem para lançar baladinhas inssossas, já que estão velhos demais para produzirem funks arrasa quarteirões como os que tinham no clássico Blood Sugar Sex Magic.
Faixas recomendáveis: Desecration Smile, Dani Calfornia (embora roube descaradamente o início da Sweet Home Alabama).


Interpol - Our Love to Admire: E o fantasma do Ian Curtis continua assombrando essa banda nova-iorquina. Mas não existe problema algum em querer soar como o Joy Division; agora, esteja sempre a altura de tamanho desafio. O que infelizmente não vale para o Interpol, que embora tenha nesse disco belas canções como Wrecking Ball e Lighthouse, fica a anos-luz de reproduzir a densidade psicológica e os climas gloriosamente opressivos da banda inglesa. Tá na hora do Interpol buscar outro caminho, para não comer poeira e ficar definitivamente para trás na implacável indústria musical.
Faixas recomendáveis: Wrecking Ball, Lighthouse, Pioneer To The Falls




Pearl Jam- Pearl Jam: Disco datado de uma banda totalmente fora de seu tempo, que vive somente para saciar a fome dos vampiros grunges que sobreviveram aos funerais do Kurt Cobain e do Layne Stanley. Depois de lançarem vários discos amorfos e sem personalidade, tentaram agora fazer algo mais energético, que resgatasse a antiga vitalidade, mas que soa apenas patético, já que todos nós estamos carecas de saber que o Bush é mal e que a Guerra não presta, mas ganhar dinheiro fazendo músicas versando sobre anacronismos políticos é perfeitamente aceitável. O fim chegou faz tempo, e a banda vai passar mais vergonha até se tocar finalmente disso.
Faixas recomendáveis: a melhorzinha, Parachutes. O resto, sem comentários


Fall Out Boy - Infinite on High: A banda emo mais famosa do mundo lança mais um disco para entupir os i-pods dos adolescentes espinhudos e baforentos. Aliás, tenho certeza que o surgimento das bandas emos nos anos 2000 foi obra do maquiavélico Steve Jobs num plano audacioso e sagaz para vender i-pods para os incautos e imberbes. E dá-lhe reclamações sobre a gostosona da sala que não liga para os losers, amores mal resolvidos e esse mundo malvado e pervo que não entende os fofos emos. Lixo.
Faixas recomendáveis: a melhor parte do disco é quando acaba a última faixa e tem alguns segundos de silêncio. Um alívio perante tamanhos minutos de tortura.



Bjork - Volta: Finalmente, a talentosa islandesa deu um tempo. Depois de lancar dois discos mais experimentais, Vespertine e Medúlla, que já tinham sido antecedidos pelo fraco Selmasongs, trilha do insuportável filme Dançando na Escuridão, a Bjork resolveu parir uma obra mais orgânica, que nos remete levemente aos gloriosos dias dos discos Debut, Post e Homogenic. Lógico que, em se tratando de um disco Bjorkiano, seria impossível evitar momentos mais, digamos, excêntricos, como na ótima faixa Innocence. Mas tudo feito nitidamente para trazer o público mais convencional que afastou-se da islandesa com os últimos trabalhos experimentais. A produção do onisciente e onipresente Timbaland não compromente aqui, já que a Bjork é, ao contrario dos Timberlakes e Nellys Furtados da vida, uma compositora de visão que jamais deixaria-se levar totalmente por produtores, somente utilizando seus talentos para complementar possíveis idéias suas.
Faixas recomendáveis: Earth Intruders, Innocence, Vertebrae by Vertebrae

Por enquanto, é isso. Logo, volto para falar de lançamentos nacionais. Como vocês podem imaginar, será um verdadeiro show de horrores.