quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Salingerianas: a queda de Owen Wilson

Semana passada, o ator estadunidense Owen Wilson, protagonista de filmes como Anaconda (blargh!), Bater e Correr, Starsky e Hutch e Penetras-Bons de Bico, cometeu uma tentativa frustrada de suicídio ao cortar o pulso e tomar uma dose elevada de remédios e pílulas. Socorrido a tempo, acabou se safando da morte. Tal ato chocou profundamente os fãs do ator, já que a sua persona cinematográfica sempre se constituiu de seres imaturos, ingênuos e engraçados, os famosos "de bem com a vida", como se diz no jargão. Por isso, os fãs demoraram para absorver a idéia de que aquele cara, que sempre se mostrava tão, como poderia dizer, relax nas telas, poderia chegar a tamanho ato de desespero na vida real. Esse acontecimento surpreendente trouxe-me lembranças de um grande filme do começo dessa década. E esse filme, sua criação e seus personagens podem, sim, trazer elucidações à respeito do extremado ato tomado por Wilson semana passada.

Mas vamos ao filme. Os Excêntricos Tenenbaums, fruto de mais uma parceria do diretor Wes Anderson com o Owen Wilson. Os dois, como já tinam feito nos dois filmes anteriores de Anderson, Pura Adrenalina e Rushmore - Três é Demais, escreveram o roteiro em conjunto. A história versa sobre uma família absurdamente disfuncional de intelectuais e prodígios. O pai é um advogado malandro, auspicioso, separado há muito tempo da esposa, mas que, ao se ver afundado em dívidas e despejado do Hotel aonde morava, resolve tentar conquistar de novo seus filhos e sua esposa, apenas para conseguir arranjar um teto de novo. Os filhos, todos atormentados e sufocantemente instrospectivos, vêem com reticência a volta do pai. . O filme é claramente inspirado na saga da família Glass, personagens criados por J.D. Salinger, escritor americano e também autor do colossal O Apanhador no Campo de Centeio. A história dos Glasses se desenvolve em diversos contos e livros. O filho mais velho no filme, interpretado por Luke Wilson, um tenista que nutre uma paixão excentricamente dolorosa pela sua irmã mais nova, que é adotada e casada, é um sujeito afável e gentil, sendo único que acaba aceitando a volta do pai sem maiores conflitos. Ao descobrir as aventuras amorosas da irmã, e saber que ela tem um caso com seu melhor amigo, um escritor chamado Eli Cash (interpretado por... sim, Owen Wilson), ele acaba tentando o suicídio, sem obter êxito, ou apenas usando o seu ato para uma tentativa desesperada de chamar a atenção da família para os seus problemas. A irmã adotada, interpretada pela Gwyneth Paltrow, é uma dramaturga que enfrenta uma crise de depressão no seu casamento, fruto de sua inedaquação perante o mundo, algo que somente piora quando o pai volta a conviver com a família, já que ele não perde a oportunidade de ressaltar que ela não é do seu sangue, mesmo que de forma não intencional. Na família Glass de Sallinger, eram sete irmãos, todos também prodígios. O mais velho, Seymour Glass, era descrito como sendo um sujeito calmo, amável, o mais tranquilo de todos os irmãos, e o favorito de seus pais. Pois ele comete suícidio numa das histórias, devastando a família. A irmã mais nova dos Glass, Franny, é uma jovem universitária que enfrenta uma violenta crise de identidade ao ler um livro religioso, e também mostra um avisão absurdamente crítica e ácida frente o mundo e as pessoas. Apesar das diferenças, a referência é clara.

Assim como os Glass, os Tenenbaums são gênios que, por não conseguirem canalizar tamanho potencial para coisas não-destrutivas, acabam dilacerando todo o mundo que os cerca, uma sinalização clara de falta de maturidade. Owen Wilson (agora começam as suposições absurdas) deve ser um fã de Sallinger, e o seu personagem no filme,o escritor, imagino eu que seja, ao mesmo tempo, uma homenagem à Sallinger e uma amostra do vazio que Wilson deva sentir, por ser um artista amado pelo seu público, mas que não sente isso como algo saudável. A inadequação e a total aversão aos valores falsos e deturpados da sociedade, fatores sempre mostrados pelos personagens de Sallinger, devem vir frontalmente de acordo com os sentimentos dele. Por isso, a sua tentativa de suicídio não me surpreende. Não que apenas o fato de alguém ler Salliger seja prova irrefutável de qualquer coisa. Mas Owen Wilson mostrou no seu roteiro justamente indicado ao Oscar que é um homem que se preocupa com questões existenciais fundamentais. E a velha e perigosa combinação, sujeito problemático que acaba encontrando alívio em interpretações errôneas e equivocadas de grandes clássicos da literatura, e com um empurrão da depressão e das drogas acaba levando esses questionamentos existenciais ao seu nível mais extremo e trágico, a solução mais burra e simples: o suicídio. Agora, eu já sei o que vocês vão dizer: e aquela cena no Penetras Bons de Bico, que o personagem dele acaba lendo um livro cujo título era "como evitar o suicídio", logo depois de uma desilusão amorosa? E os rumores que ele teria se suicidado pelo fim do seu romance com a atriz Kate Hudson? Essa não seria uma triste coincidência? A resposta é: não.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A inutil tentativa de limitar a si mesmo ou epopéoa do camarada

Passei muito tempo esperando as coisas, desde a infância é uma das minhas mais fortes características. É senhoras e senhores, sou moderado desde os meus tempos juvenis; seja a menina com meu beijo prometido, os colegas na porta da escola, um amigo na catraca do mêtro. Além da conhecida paciência que acabou me tomando de assalto(um assalto leve, próximo de uma punga), foi a capacidade de não se estressar muito com os incovenientes freqüentes do dia-dia urbano. Se fosse pra chegar atrasado eu prefiria não me aborrecer e deixar que fosse atrasado.

Mas minha espera, de uma forma geral, acarretou vários problemas para minha formação. Aqui quero salientar é a incapacidade de me definir por completo. Como sempre fui sossegado com as coisas e nunca dediquei um tempo pra me formar e saber certos limites pessoais, trazendo indefinições pra toda as coisas que executo: escrevendo, pensando, em ações onde pudesse deixar minha marca: escrevia o meu nome na lousa com a mão direita; com a esquerda, apagava o que começara.

E na escrita, sobretudo nesse blog começou a ficar claro a situação. Os outros dois camaradas tem suas identidades bem definidas, sejam elas chatas ou ruins, inteligentes ou engraçadas. Por contraste consegui realmente perceber se eu quero continuar a fazer parte desse panteão de bons escritores ou me recolher. E justamente por fazer um contra-peso neles, por cosequência no próprio mecanismo do blog, decidi continuar, alem de ser bem divertido. Só tenho que escrever um pouco mais, mostrar para todos a minha anarquia, assumir minha loucura e falta de preparo. Só isso, talvez vcs tenham que me agüentar, então espero que segurem!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Cláudia Leite

É isso aê, patuléia! Preparem os batuques, refinem os agogôs, comprem os melhores abadás e fiquem prontos: Axé is in the house! Cláudia Leite, vocalista ditosa e graciosa da apocalíptica e catastrófica e praguenta banda Babado Novo. Eu poderia dizer que a Cláudia é uma Ivete Sangalo mais simpática e emocional, sem a mesma empáfia e falsa humildade da nojenta e onipresente cantora baiana (a Cláudia é carioca). Mas até aí, normal. O problema é que, quando falamos em axé, não podemos achar inocentes: todos são culpados. Não existe ritmo mais insuportável nessa terra de meu Deus. Eu prefiro ouvir duzentos discos de polka seguidos amarrados do que ter de aguentar cinco minutos de uma "canção" dessa porcaria. Mas a Cláudia é tão simpática, que fica até chato tentar jogá-la aos leões. Ou talvez seja apenas o velho charme feminino, tirando a racionalidade dos homens e fazendo-os suportar todo tipo de porcaria em nome da velha sedução. A sua entrada no rol das Tetéias atendeu a um pedido pessoal de um dos camaradas, cujo nome não entregarei por não achar isso FUNDAMENTAL para a questão, se é que vocês me entendem. Babado Novo, hein, camarada? Uhm.....

domingo, 2 de setembro de 2007

Não me digam que não falei dos anos 80 - Parte 1

Durante todo essa experimentação estilística que passamos e passsaremos no labor deste blog, nesse período de quase seis meses, sempre deixei claro que não sou muito defensor da década de 80, ainda se tratando do período que nasci e também os dois outros camaradas. Cheguei até a denominar de era da escuridão, de década perdida e outros adjetivos negativos.

Como as noites escuras tem sempre a lua como acompanhante solitária, sobretudo para exercer sua marca e sua grande beleza, a década perdida tem suas qualidades, e não falo isso somente por causa do surgimento dos três camaradas que despontarão ao mundo como dínamos. Pois sim, seu brilho se estende por outras áreas, tem até um pedaço na música, quem diria. É nessa seção que quero salientar.

A dificuldade pra lembrar, musicalmente falando, me assusta. Consigo associar a coisas ruins da infância, sobretudo quando eu chorava. Pensar, pra mim, que os anos 80 não se resumiam só a Balão Mágico e Cabeça Dinossauro, verdade, demorou um tempo. Tive que conhecer mais da música internacional, e pra piorar, no começo desse calvário musical fui cada vez mais achando que deveriam embala-lo e jogar no espaço, ad eternum; se necessário proibir no mundo todo de citar qualquer coisa relacionada a música do período. Oitent.., num menor sinal, chibata!

Na procura do Graal tropecei em algumas bandas interessantes, devo dizer, decisivas para as gerações posteriores: Public Enemy, Beastie Boys, Talking Heads, Minutemen. Decidi comentar das últimas, pois as primeiras eu já era iniciado indiretamente, ou seja, elas já permeavam aquilo que costumava ouvir enquanto Talking Heads e Minutemen abriram caminhos para eu poder entrar em contato com o que se produz hoje e, logicamente, ter base para poder criticar duramente os atuais músicos.

Minutemen é uma das bandas que fazia parte do cenário punk-rock/hardcore dos anos 80, até aí existiam bandas do punk-rock saindo pelo ladrão das gravadoras estadunidenses, mas não como esta banda californiana. As marés, o surf, a latinidade acabou refletindo na música feita pelo trio de San Pedro: viradas, mudanças de ritmo e de estilo( a música começa como um rock e termina como jazz; só os intrumentos, um a um, solando e depois todos voltando para o tema), a capacidade técnica do trio impressiona e a sensibilidade fez o Minutemen não se prender a rótulos e ao terrível estigma da época, em pouco mais de cinco anos deixaram sua marca influenciando Fugazi e, até mesmo, o Red Hot Chilly Peppers. O único pesar foi que a banda acabou quando o guitarrista morreu em 85. Pena.

Já Talking Heads está na virada dos anos 70/80, na verdade no final dos setenta e alcançou sua maturidade musical nos anos 80, ainda que prefire o album Talking Heads 77. Uma banda liderada pelo genial David Byrne não poderia ser ruim, eles pegam boas coisas que tiveram nos anos 60/70, como James Brown, Funkadelic, Fella Kutti e colocam misturadas no rock que faziam: desde ska, pop, ritmos africanos, como o já citado funk. As colagens e as fusões soam melodiosas e as vezes brega pra mostrar que são dos anos 80, lógico. Mas um brega completamente apaixonante e que gruda no ouvido, brega-punk-rock, fica dificil de imaginar? Aquele jeito, influenciou como a maioria das bandas pós-rock iam tocar e tocam. E vc se pega ouvindo talking heads, pois cada vez mais que ouve mais quer ouvir. Além de ser bom dá um vontade de dançar na luz da lua, com licença..

sábado, 1 de setembro de 2007

Cinema- Estréias da Semana

Paranoia - Diretor: D.J. Caruso; Elenco: Shia LaBeouf, Sarah Roemer, Carrie-Anne Moss
Filme que homenageia uma certa película dos anos 50, um filminho bem fraquinho, suspense de quinta categoria, um tal de Janela Indiscreta aí, não sei se vocês conhecem .A premissa é idêntica. No original, um fotógrafo quebrava a perna e, tendo de passar um tempo de molho em casa pra se recuperar, adquiria o gosto de bibilhotar com um binóculo a vida dos vizinhos, até suspeitar que um morador do prédio da frente poderia ter matado sua esposa. Nesse, um moleque problemático fica de prisão domiciliar no verão, também começa a espionar os seus vizinhos e também desconfia de um assassinato. Só que esse filme é mil vezes melhor que aquela produção de 1954. Afinal, o D.J. Caruso, diretor do fabuloso thriller Roubando Vidas (grande momento na carreira da Angelina Jolie), é muito superior aquele diretor inglês que não manjava nada de suspense, o tal de Alfred Hitchcock. O Shia LaBeouf, com 20 anos na cara, é muito melhor que o James Stewart, e a Sara Roemer coloca a Grace Kelly no chinelo.Aliás, deixe-me fazer um adendo: Grace quem? Parabéns aos produtores que tiveram essa brilhante idéia, realmente o mundo precisava de uma versão do Janela Indiscreta para miguxos.

Cidade dos Homens- Direção: Paulo Morelli;Elenco: Douglas Silva, Darlan Cunha
Versão para o cinema da série da rede Globo que reaproveitava o contexto do filme Cidade de Deus, contando da história de dois jovens amigos tentando sobreviver em meio ao mundo brutal do tráfico que assola os morros cariocas (ficou bem Globo Reporter essa descrição). Tem gente por aí dizendo que o filme acerta mais que o Cidade de Deus por mostrar a contribuição das classes mais altas do Rio para a violência nos morros. Bobagem, nem é possível comparar a qualidade narrativa e técnica dos dois filmes, já que o Fernando Meirelles é apenas o produtor aqui, assim como no seriado.. De resto, aquilo tudo que já estamos cansados de saber, mais uma tentativa de se fazer um retrato de uma situação que provavelmente tenderá a piorar cada vez mais. Por isso, como dizem por aí, a melhor saída pro Brasil é o aeroporto.

Licença para Casar - Diretor: Ken Kwapis; Elenco: Robin Williams, John Krasinski, Mandy Moore
Pro fundo do poço, e cavando! Bela tentativa, Robin Williams. Uma comédia romântica batidíssima, que recicla conceitos de duzentos filmes que nem eram tão bons assim. Eu tenho uma opinião muito juramentada sobre ele. É bem simples: o Robin Williams não é engraçado. De maneira alguma. Suas melhores atuações sempre se deram em papéis mais sérios. O seu histerismo é caso para ser estudado por comissões psiquiátricas, não para ser apreciado por amantes do humor. Quando se mete a fazer papéis mais sérios, e quando pega diretores competentes pelo caminho, aí sim temos o seu melhor, como nos Sociedade dos Poetas Mortos e Pescador de Ilusões da vida. Nesse filmeco, ainda temos que aturar os trejeitos e caras de tédio da chatíssima Mandy Moore, a versão comportada e sem talento da Lindsay Lohan (ué, não era a Hillary Duff?). Nem o John Krasinski, que atua na sensacional versão americana da série The Office, salva o barco. Passe longe desse lixo, com todas as suas forças.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Camarada Fundamentalista e as mulheres: caindo do cavalo

Quando eu vejo Coração de Cavaleiro (A Knight’s Tale), torço que nem uma menininha pra que o mocinho vença no final e dê uma boa lição naquele vilão malvado. E, ai, como eu sofro, até parece que há alguma chance real do mocinho não se dar bem. Mas eu tenho toda a razão pra agir assim, pois foi pra isso que fizeram esse filme: foi pra isso que transformaram a Idade Média em cenário pra um Dez Coisas que Eu Odeio em Você do amor cortês, inclusive com o mesmo Heath Ledger que havia protagonizado o original. Sabe, o Heath Ledger, o vaqueiro afásico e trans-viado (tsc, tsc, tsc...) de Brokenback Mountain?

Mas, então, só que eu mesmo, que achava que Coração de Cavaleiro era só entretenimento miguxo, fui na contramão do propósito do filme e achei uma das caracterizações mais objetivas e fidedignas do gênero feminino que eu já vi na minha vida. O que, pra nós, quer dizer mais uma lição essencial do Camarada Fundamentalista sobre as mulheres.

Estou falando da Lady Jocelyn (Shannyn Sossamon, um genuíno nome havaiano), é claro. Pra vocês que assistiram ao filme, mas não estão associando o nome à pessoa, trata-se da donzela cujo coração e partes adjacentes o nobre e bravo Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland (Ennis del Mar, quer dizer, Heath Ledger) se desdobra para conquistar. E é a esse trabalho que o amor lhe impõe que quero me ater, nessas considerações muito oportunas. Mais especificamente, às reações de Lady Jocelyn a certa altura do relacionamento; de fato, no momento decisivo, em que Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland finalmente dá prova, e definitiva, de seu amor pela jovem.

Acontece o seguinte. Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland pisou na bola com a menina (como todo homem cedo ou tarde pisa) e, pra remediar a situação, diz que vai ganhar cada uma das disputas do torneio de justa por ela. Ah, e aqui começa o calvário do homem – quando ele está por baixo, e quando ela está por cima, e ela sempre quer ficar por cima, porque ela sempre se faz de vítima, e porque ela, afinal de contas, tem algo que ele quer (e que, pelo menos supostamente, naquela época, era guardado atéééééé depois do casamento: imaginem, pois, o poder das mulheres de então; bobas as de hoje, que já vão entregando o ouro, de primeira). Então, Jocelyn, aproveitando-se do fato de que ele está comendo na mão dela, lhe pede justamente aquilo que não só ele, mas todo homem, mais valoriza, sua masculinidade. Sim, Camarada X, cedo ou tarde, as crescentes exigências dela acabarão inevitavelmente incidindo sobre o seu bem mais precioso, que até então você julgava inalienável: sua masculinidade. Ela pode tirar isso de você e não hesitará em fazê-lo, seja forçando-o a usar gola alta ou, como no caso de Lady Jocelyn, pedindo ao Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland que perca o torneio. É, que ele perca. Ah, a pérfida, sabendo do orgulho de Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland, para quem perder era, como para todo homem, no mínimo desonroso, lhe pede que perca, a fim de provar o seu amor por ela.

E ele, ingênuo, tolo, idiota, como todos nós, homens, somos, ainda que num primeiro momento relute, obviamente aceita a exigência. Como todos nós, ele se rende a ela e a suas romantizações cruéis e desumanas. Daí, o que se segue, em ritmo de videoclipe, é a série de derrotas e violências a que ele se submete sob o olhar satisfeito (e tímida e ternamente sádico) de Jocelyn, que, afinal, tem certeza de que Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland a ama. Ah, perva. E aqui está o momento genial de um filme tão despretensioso: na caracterização de Lady Jocelyn, fruindo sua vitória, sua castração do ser amado: ela sorri gostosamente. E ainda que vire o rosto nos momentos em que a lança explode contra o peito ou contra o elmo de Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland, fazendo-o cair do cavalo violentamente, ah, ela jamais deixa de sorrir, plenamente realizada.

Ah, Camarada X, jamais o cinema, nem mesmo com Bergman, foi tão fundo no que a alma feminina tem de mais infantil, e que elas costumam chamar de romantismo. E nós, psicólogos astutos e implacáveis que somos, sabemos como as crianças podem ser cruéis, como podem humilhar e fazer sofrer, e que esse “romantismo” é na verdade a defesa (e, de certo modo, todo instrumento de defesa é igualmente um instrumento de ataque, de contra-ataque) mais dura e perniciosa das mulheres contra os homens. Sim, não nego que as mulheres sofram os homens, que possam se ver à mercê da brutalidade masculina (ah, sinto que escrevo um libelo contra toda a forma de opressão, dissimulada ou manifesta...). Mas, justamente porque reconheço a ameaça representada pelos homens, não posso ignorar que as mulheres revidam, isto é, que se entregam à violência e destruição do próximo, e com armas terríveis, absolutamente terríveis.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Melhor Diretor Vivo: Quem ocupará o trono de Bergman?

Nesse último mês, o mundo do cinema perdeu, quase que de uma vez, dois mitos: Michelangelo Antonioni, diretor dos classicáços Depois Daquele Beijo e Profissão: Repórter, e o espetacular Ingmar Bergman. As duas mortes reacenderam uma velha questão: quem seria o melhor diretor vivo, já que Bergman, que detinha quase que por unanimidade o título, nos deixou. Esses dias li um ranking de um site americano (não guardei o link, podem me bater), que fez um apanhado dos melhores de todos os tempos, e cometeu estultices inacreditáveis, como colocar o Luis Bunuel na trigésima sétima posição, o Kurosawa em décimo primeiro, atrás do David Fincher, que é um excelente diretor, mas que ainda precisa correr muito pra poder chegar nesse nível. Mas a pior de todas foi a colocação do Federico Fellini: sexagésimo sétimo. Isso mesmo. Ai não dá, é pra cuspir na cara do cidadão que me faz um negócio deles. Mas voltando ao assunto do dia, melhor diretor vivo. Eu me arrisco aqui a fazer uma tentativa, com a cara e a coragem, pelo bem de nossos leitores. Quer dizer, coitados...
O time dos sonhos dos diretores, o olimpo dentro do qual os aspirantes procuram lutar para um dia chegar, consiste nos seguintes nomes (sem ordem de importância): Alfred Hitchcock, Orson Welles, Stanley Kubrick, John Ford, François Truffaut, Francis Ford Coppola, Jean-Luc Godard, Federico Fellini, Píer Paolo Pasolini, Akira Kurosawa, Martin Scorcese, David Lean, Robert Altman, Luis Bunuel, Krzysztof Kieslowski e Ingmar Bergman. Desses todos, apenas três continuam em pé, como diriam vulgarmente, vivinhos da silva: Godard, Scorcese e Coppolla. Então, você pensaria assim: pronto, um dos três é o eleito, correto? Mas a questão é mais complexa, jão. Farei um breve apanhado de outros postulantes ao titulo, e no final, darei o veredicto final.
Roman Polanski: esse é de responsa. Bebê de Rosemary, Chinatown, Tess, filmes de classe estoanteante (não gosto do Pianista). Mas o que danou o cidadão foi ele não poder mais pisar nos Estados Unidos depois do processo por assédio sexual que sofreu em 1977. Tendo que financiar os seus filmes na Europa por conta própria, perdeu grandes oportunidades e acabou ficando pra trás. Mas é um grande diretor, sem dúvida alguma.
Werner Herzog: alemão doido de pedra, mas extremamente talentoso, Herzog é um diretor de insights, de idéias e realizações fulminantes e incisivas. Lembra, pelo gosto por conceitos polêmicos e inteligentes, o mítico italiano Pasolini. Filmes como Aguirre, Fitzcarraldo, Nosferatu e O Homem Urso provam o seu talento, mas os seus detratores reclamam da simplicidade técnica e cênica de seus filmes, já que ele normalmente usa pessoas comuns para interpretarem papéis nos seus filmes. Tudo bobagem, já que Herzog tem concepções de cinema que não precisam fazer uso dessas ferramentas.
Lars Vor Trier: Essa foi piada, desculpem. E os insones de todo mundo agradecem. Voltamos com a nossa programação normal.
Peter Weir: diretor australiano, autor de grandes filmes como Picnic na Montanha Misteriosa, A Testemunha, A Costa do Mosquito, Sociedade dos Poetas Mortos, Truman Show e Mestre dos Mares. É um excelente diretor, talvez o melhor dos convencionais,digo, dos que não costumam escrever seus roteiros. Mas ele raramente falhou (Green Card talvez?), sempre consegue fazer milagres com os scripts que recebe e fazer o nome de vários roteiristas com os quais trabalhou.
Fernando Meirelles: Domésticas, Cidade de Deus e Jardineiro Fiel. Poderá vir a ser, mas ainda falta chão, embora sejam todos bons filmes (Cidade de Deus é sensacional)
Milos Forman: sabem qual o problema do Milos Forman? Ter virado, depois do Amadeus, diretor de biografias. Nunca fez um filme ruim na vida, mas limitou demais seu campo de ação com isso. Uma pena, quem viu O Estranho no Ninho sabe que o cara tem classe.
Joel e Ethan Coen: excelentes, mas como são duas pessoas (é o que dizem) não poderiam ser eleitos como “o” melhor diretor. Coitados.
Sofia Coppola: papai Francis não deixaria. Espera ele morrer, ai quem sabe...
David Fincher: seria um sério candidato, se não tivesse cometido o horrendo O Quarto do Pânico. Que porcaria foi aquela? E Jared Leto não dá, pô!
John Waters: esse é mito. Hairspray? Pink Flamingos? Cry Baby? Mamãe É De Morte? Isso é trash, isso é amor pelo cinema, por toda uma cultura! Estamos contigo, Waters , you're the man! (Coincidência ou não,é a cara escarrada do Buscemi. Só podia ser)
Steven Spielberg: acharam que eu ia esquecer dele, né? Talvez o diretor com o melhor senso de ritmo do cinema. Já fez todos os tipos de filmes, e sempre se sai com obras absurdamente eficientes em sua proposta, divertir a audiência com um mínimo de inteligência. Mesmo se desconsiderarmos seus clássicos, como E.T., Caçadores da Arca Perdida, Tubarão, Lista de Schindler e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, e lembrássemos apenas de obras menos famosas suas, como A Cor Púrpura, Império do Sol e Minority Report, poderíamos colocá-lo tranquilamente nessa lista. Os problemas: medo de se aprofundar em temáticas mais profundas e adultas (hesitou tremendamente em dirigir o Lista de Schindler) e uma inexplicável obsessão pelas relações entre pais e filhos, mesmo naqueles filmes que claramente não pedem por isso. Momentos bregas e distoantes foram gerados em nome dessa obsessão.

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Agora, os três citados lá em cima:
Martin Scorcese: Scorcese é um diretor de extremo talento. Seus movimentos refinados de câmera lembram nos momentos mais inspirados um Kubrick, o que é algo gigantesco. E suas histórias, sempre ousadas e brutalmente honestas, criaram momentos inesquecíveis. Mas nos últimos anos, Martin andou jogando demais para os críticos em nome do tão sonhado Oscar, e por isso perdeu pontos comigo. Mas Taxi Driver, Touro Indomável e Bons Companheiros já humilham qualquer um.
Francis Ford Coppola: Poderoso Chefão, a trilogia, e Apocalypse Now. Pronto. Essas belezinhas nos levam a esquecer bobagens como Cotton Club, Peggy Sue (que tem seus defensores), Drácula, e o horroroso Jack. Do Poderoso Chefão para o Jack, passando por muitas drogas, ego-trips e dinheiros jogados no lixo. Mas o cara fez aquelas maravilhas, então estará eternamente perdoado.

Jean-Luc Godard: Último remanescente da época de ouro da nouvelle-vague, Godard (que é o ser que aparece na foto lá em cima, fazendo pose de mau) é o alvo favorito daqueles que criticam o suposto "cabecismo" do cinema europeu. Lógico que filmes nos quais ele faz o favor de passar 100 minutos sem mover a câmera do lugar apenas indo de cena para cena não ajudam muito. Godard é um diretor que se perdeu quando, em algum momento dos anos 60, resolveu tentar fazer filmes engajados e supostamente "relevantes" politicamente. A maionese desandou, e depois de uns bons 20 anos, parou e começou a fazer experimentos excruciantemente chatos. Mas lembrem-se do Acossado. E do A Chinesa, talve? Alphaville? Pô, não diminuemos a importância de um homem por trinta anos de devaneios!

Veredicto: o melhor diretor vivo chama-se JOHN WATERS, o filho favorito de Baltimore. O que, você achou que o bagulho era sério? Um moleque de 23 anos querer decidir um negócio desses? Vão perguntar lá pro Roger Ebert, ele tem um programa de TV e eu não tenho.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O que eu aprendi com a MTV

Quem mandou eu assistir MTV, afinal de contas? Depois fico reclamando, e sem razão, já que a culpa é minha mesmo. Porque, por exemplo, não bastasse assistir, ainda por cima dou ouvidos às recomendações da "casa". Sabe, aquelas vinculadas em vinhetas, durante os comerciais. Bem feito, filisteu.

A última que me aprontaram, quer dizer, que me aprontei a mim mesmo, foi a de uns finlandeses (?), chamados Husky Rescue. Tipo, estava um dia de boa na frente da TV e apareceu a carinha anêmica da vocalista num vestidinho de renda barato. Como eu tenho uma queda por vozinhas doces e melodiosas nos vocais, fui na deles. Dei uma conferida e, pra encurtar a história, era uma droga.

Quase 8 minutos para fazer o download completo de umas duas musiquinhas. E do HD para o mp3 player. Haja trabalho, e pra nada. O mal só não foi maior porque agora o transformo em bem, aqui, pra vocês. Como? Pois não é que consegui, a partir dessa frustrante experiência (ai, ai), chegar a mais uma das minhas eficientes e práticas classificações, que hão de nos orientar nesse terreno escorregadio e sutilíssimo do certo e errado na música? Bom, creio que deva ser dito, com todas as palavras e sem rodeios, que, afinal, existe música boa e ruim, e que correspondem, respectivamente, a duas, e somente duas, categorias:

1) aquela que dá pra ouvir quando a gente está sem fazer nada; que depois, até leva a gente a se trancar no quarto, quietinho, sem ninguém pra perturbar; e que, enfim, transforma a música numa experiência ritualística. Por sinal, hoje em dia a gente ouve tanta música ruim porque já não sabe ouvir música. Quer dizer, eu, por exemplo, quase só ouço música indo pro trabalho ou voltando da faculdade, tudo no busão. Ou seja, bem coisa de proletário. E, convenhamos, se música é arte, ouvir música, e direitinho, é necessariamente aristocrático: quer dizer, é um luxo e exige um momento OCIOSO especialmente reservado pra isso. Não essas acomodações, esse superaproveitamento do tempo, bem benjaminiano, que faz da música trilha sonora de busão lotado. E dá-lhe R&B.
2) e aquela que só dá pra ouvir se você estiver fazendo alguma outra coisa além de ouvir música. Vulgo trilha sonora. (Nota: há trilhas sonoras que transcendem essa triste condição de permanente complementariedade de uma atividade mais importante. Exemplos? Não lembro de nenhum agora.) O advento do walkman foi, aliás, fundamental pro estabelecimento definitivo desse tipo de música. Reflexo dos dias apressados que vivemos e da subseqüente incapacidade crescente de se concentrar em algo, da fragmentariedade do conhecimento nessa era da informação. Vixe, quando a gente começa a falar assim, tem que tomar cuidado, que os teóricos da comunicação começam a se ajuntar em volta da perna da gente, que nem cachorro querendo comida. Exemplos: U2, que, como costuma dizer o Camarada Progressista, é especialista em música pra se ouvir enquanto a gente lava louça; essa turminha do Husky Rescue, cantando as vantagens do campo sobre a cidade, bem caipiras assim; e música de balada em geral, né, minha gente?

TETÉIA DA SEMANA

Leandra Leal

Filha da atriz Ângela Leal e atriz de teatro e televisão, Leandra tem aprontado poucas e boas no showbussiness tupiniquim. Conhecida pela sua seletividade na escolha de papéis, chegando até a dirigir curtas-metragens, Leandra Leal acabou experimentando um pouco daquilo que John Steinbeck chamaria de vinhas da ira durante as gravações da horrenda novela Páginas da Vida, que (para nosso alívio) acabou no começo do ano. Como sua personagem tinha como única função ter de se relacionar com o fantasma da protagonista, ela começou a desancar o autor da novela, Manoel Carlos, em entrevistas, além de zoar novelas anteriores da Globo. Mas não ficou somente por aí. Leandra escrevia num blog com um pseudônimo(uhm... isso me soa familiar...), e num post no meio da novela, zoou impiedosamente sua colega Danielle Winits, dizendo que ela estava parecendo o Willy Wonka na novela. Sensacional. Isso que eu chamo de coleguismo. Quando descobriram que o blog era dela, logicamente as coisas ficaram feias, com Winits criticando Leandra por falar mal de novelas e ao mesmo tempo ser paga para atuar numa delas. Logicamente ela está certa, é uma contradição, mas o problema é que, para quem lembra, é impossível discordar da Leandra: a personagem da Winits realmente parecia o Wonka, só faltava os óculos e os umpa-loompas. Desbocada!

sábado, 25 de agosto de 2007

Eu não falei dos simpsons

O tempo foi passando e acabei esquecendo de comentar do filme do Simpsons, talvez, como disse o progressista, acabei encarando mesmo como um episódio estendido. Um excelente episódio, daqueles da fase aurea que durou entre oito a dez anos, mais ou menos até 98-99. Não que as temporadas mais recentes sejam de todo mal, estas ainda assim continuam sendo muito superior a maioria das séries que passam na televisão, tanto aberta como a por assinatura.

Sinto que a maioria das críticas são porque hoje em dia nossa familia mais adorada na televisão esteja mais nos conformes do conservadorismo do canal cujo o programa é exibido. De início concordo, sim, perdeu uma das maiores qualidades que tinha, mas manteve outras: A universalidade; nessa Simpsons se mantém a milhas de qualquer programa televisivo mundial, dessa universalidade veio os a consagração como ícone mundial, seja na China ou no Brasil a maioria das pessoas tiveram um chaveiro do Bart, mesmo que não tivesse assistido um único capítulo sequer. Daí sua permanência na televisão até hoje, não é mais uma série, é um ícone cultural mundial.

As personas que compõe uma família, as situações que a familía se envolvem, as relações entre si: Simpsons mostra tudo isso de forma bonita e universal, sem ser piegas ou exagerada. Encotramos essa características em grandes obras do intelecto humano, grandes obras literárias, do cinema , da dramaturgia e da arte sequencial. E não só universal para várias etnias, mas também para todas as idades, mas essa análise fica para outro texto