quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Camarada Fundamentalista penitente

Pior do que blog sobre política, é este blog falando sobre política. E pior do que este blog falando sobre política, sou eu falando neste blog sobre política.
O importante é que eu me arrependi, e eu sei que o perdão existe, mesmo que não venha de você.
***
PS: essa recusa da obra da juventude exclui, por favor, meu apoio à candidatura de Steve Buscemi, que aí não se trata de política, mas de fé. Fé humanista, uma coisa tosca, admito; mas, ainda assim, fé.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Monica Veloso

Amante do ilustríssimo Senador da República, Renan Calheiros. Com a absolvição de Renan, inocentado da acusação de quebra de decoro parlamentar na semana pessada pelos seus companheiros de senado (com letra minúscula mesmo), Monica poderá continuar tendo a escola da sua filhinha paga com o nosso dinheiro. Isso não é lindo? Lúdico, diria eu. Essa é a minha sincera homenagem aos nossos senadores, bastiões da moral e incorruptíveis guardiões da sociedade. Lembrem-se sempre, antes de criticarem os nossos adorados políticos: VOCÊS colocaram eles lá. Que eu saiba, ninguém foi obrigado a votar no senhor Calheiros, ou nos deputados Mauf e Fernando Collor (sim, para os esquecidos, os dois são Deputados Federais eleitos) com uma arma na cabeça. Vocês merecem tudo isso. Chorei de dar risada com a saída Chapliniana do Renan depois da votação. É tanta cara-de-pau, que eu nem sei porque ele não disse de uma vez que tinha aprontado, mas que iria ser absolvido mesmo assim. Nem precisaria ter fingido ser inocente, seu Calheiros! No mais, mais uma vez reintero minhas sinceras gratulações aos nossos senadores e políticos. O pior do Brasil é o brasileiro. E viva a república das bananas.



Obs: irei apanhar do Fundamentalista, que odeia que falemos de política nesse blog. Adendo feito, bom dia para todos.

domingo, 16 de setembro de 2007

Me fala de amor!

"Esquece a política e me fala de amor." Então, tá. Amor é mesmo um assunto bem melhor que política. Se Shakespeare não tivesse falado de amor, o que ele disse de política nem interessaria. De fato, nunca interessou. Embora sempre haja chatos pra dissertarem sobre o "Shakespeare político" e embolsarem títulos junto à Academia, que esta descanse em paz. Porque Shakespeare era um cara esperto, talvez o artista mais esperto do mundo, e eu nem sabia que talento artístico e esperteza andavam juntos. Pra mim, ou se era artista e otário, ou pós-moderno (tsc, tsc, tsc) e esperto. Mas a gente tá aqui, nessa vida, é pra aprender coisa nova até chegar a nossa hora (credo...), né?
Shakespeare ia na onda, pra cair nas graças de quem precisasse cair. E fez o que fez, sendo o preferido dos figurões e agradando às massas. Tipo eu, Shakespeare era igualzinho a mim. Eu, que sou a parte "chata e inteligente" desse blog, assombrando os filisteus e suas namoradinhas com a carranca da alta cultura, à parte os esgares de concessões a Nelly Furtado e college bands. Não acham que com Shakespeare era a mesma coisa? Quando aqueles rapazinhos vinham fazer testes pra sua companhia teatral, não supunham que o seu Shakespeare ia botar eles pra correr citando Plínio, o Velho, com a King James em riste? Que nem eu e vocês.

Mas olha, gente, é bom parar com isso, que eu sou do povão. Não vou falar que sou filisteu, porque gosto de Persona, do Bergman, e o Paulo Coelho não; e uma coisa que a gente aprende nesse caminho acidentado que é o de se garantir uma formação intelectual e artística é que se a gente está divergindo do Paulo Coelho (e por que não dizer também de quem gosta de Drummond irrestritamente...), não tem como não estar andando certo. E olha que numa entrevista, há muito tempo, ele disse que gostava de Dom Quixote. Mas se eu gosto de My hero, do Foo Fighters, o Paulo Coelho também pode gostar de Cervantes, não pode? Apesar de que quando fotografaram a Glória Maria e ele no aeroporto, o bruxo tinha, junto com São Cipriano for dummies, um livro fininho que um aluno de Engenharia amigo meu disse que era Dom Quixote para as crianças, do Monteiro Lobato. Esse meu amigo reconheceu a capa na hora, pois foi o único livro que ele leu inteiro e gostou mesmo. "Que nem o Alckmin", eu falei pra ele. "É", me respondeu, sacudindo a cabeça, bem entusiasmado.

(O Paulo Coelho e a Glória Maria estavam esperando o avião deles pra um lugar do Extremo Oriente onde gravaram o treinamento da Uma Thurman com o Gordon Liu em Kill Bill: Volume 2. Esperaram muito por causa da crise aérea... ai, eu disse que não ia falar de política, caramba! Já chega a piada do Alckmin, que eu nem ia colocar se o engenheiro tivesse sacado.)

Mas foi pra falar de amor que eu postei. E Amor, pra mim, é liberar total o meu jeitinho filisteu de ser, que eu também tenho. Por isso, costumo confundir estar apaixonado com aquilo que eu sinto ouvindo essas bandinhas indie (lá-lá-lá-lá...) que eu tenho aqui, no meu MP3 player, sem ninguém no busão que vai pra facul lotado de fã de Chico Buarque ficar sabendo. Uma definição musical do amor, pois, em tópicos:

1) é como uma banda indie;

2) tem vocal de uma menininha bonita que andava com os esquisitões na época do colégio e, daí, formou uma banda com eles, porque ela era cheia de atitude;

3) as canções são sempre melodiosas, TÊM refrão, e as letras falam de losers encontrando o amor, perdendo o amor, tentando compreender o amor, sendo enganados no amor e - meu Deus, até onde vai a imaginação dessa rapaziada! - enganando no amor, losers enganando no amor.
B-servação: falar do Paulo Coelho é que nem bater em cachorro morto; e nem estou falando da obra do Paulo Coelho, que aí é palhaçada mesmo. Se eu falo dele, da pessoa dele, do mago que ele é, é porque ele foi encrencar com o Bergman, e depois deste morto, e pra mim Bergman é que nem o Corinthians pros corintianos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A MTV e o VMB: uma exibição de atrocidades


Quando a alta cúpula da MTV anunciou, no começo do ano, que o canal iria diminuir drasticamente o espaço dado para os videoclipes na programação, acabando inclusive com o programa Disk MTV, que estava no ar na emissora desde o primeiro dia de exibição, em 1990, criou-se uma comoção estridente entre o público da emissora. O chororô foi geral, mas o canal se manteve irredutível. A justificativa dada, colocando a culpa na internet pela pouca audiência conseguida pelos programas de clipes, foi o motor que manteve essa convicção do canal em pé, apesar dos protestos. Mas quando foi dada essa notícia, apenas uma constatação veio na minha mente. O VMB, Video Music Brasil, que desde a sua criação, em 1995, tornou-se disparado a maior audiência e maior fonte de faturamento do canal. Pois bem. Todas as categorias da premiação tratavam de clipes. Das categorias técnicas até o prêmio mais importante, a escolha da audiência, tudo girava em torno deles. Então, se a MTV anunciava a virtual eliminação dos mesmos da sua programação, , automaticamente também anunciava a extinção da premiação também, já que não existe o menor sentido em premiar clipes numa emissora que dedica uma exígua faixa na sua programação para eles, e que nem programas de paradas têm mais, sendo que o Disk e o Top 20 Brasil (também extinto) eram os maiores termômetros para a premiação. Esse seria o raciocínio lógico. Mas para os padrões da MTV atual, nada precisa ser necessariamente o que parece ser.

PARTE UM: MORTE NATURAL

O canal hoje é um cadáver, alimentando-se de programas horrendos da matriz norte-americana, que correspondem a mais da metade da programação, e produções da própria MTV Brasil que deixam a desejar em todos os níveis de produção e conteúdo que se possa imaginar. A detestável Daniela Ciccarelli, que tem 3 programas na casa, entre eles o abjecto Beija Sapo, é o rosto atual do canal, algo que é absolutamente compreensível, já que ela atende a todas as exigências do público alvo da emissora. O merchandising invasivo e excessivo nos programas é nauseante, é impossível não ligar em qualquer programa do canal e não ser bombardeado com ofertas de torpedos de celulares, refrigerantes, sandálias, cartões de créditos, todo tipo de bobagem que já seria difícil de aturar nos comerciais, também agora bem no meio dos já péssimos programas. Parece aqueles vespertinos de fofocas das Gazetas e Rede TVs da vida, mas com o verniz "cool" e "descolado" da MTV por trás, como que se fosse um selo de qualidade para os adolescentes babões, que só consomem aquilo que lhes induzem. Ao lado da Cicarelli, os outros Vjs não ajudam muito não, com os veteraníssimos Cazé e Marina Person constrangedoramente deslocados, Marcos Mion inócuo como sempre a novata Luísa Michelletti e o "causa perdida" Léo Madeira dando um show de desinformação no péssimo Jornal da MTV, que deveria ser o centro de influência da emissora, mas é somente motivo de escárnio para os verdadeiros fãs de música. Vendo todo esse panorama desolador, é impossível não se lembrar de tempos melhores na emissora, quando para ser Vj era necessário saber exatamente tudo aquilo que estava se falando, e que as apostas da emissora e os programas eram capazes de trazer novidades e discussões realmente relevantes e inquietantes. Tempos de apresentadores como o Gastão Moreira, Fábio Massari, Zeca Camargo e até, pasmem, Thunderbird. A faixa de programas americanos era preenchida com o sensacional desenho Beavis and Butthead, a Liquid Television, o Aeon Flux, entre outros. Nada dos lixos de agora. Tempos nos quais o Lado B, mítico programa de clipes alternativos, tinha uma hora de duração. Que o Gás Total, excelente programa de clipes que passava nas tardes apresentado pelo Gastão, tinha duas horas e meia somente com os Nirvanas e Smashing Pumpkins da vida. Hoje, lambemos os ossos jogados pela cínica e estúpida direção do canal, incapaz de ler corretamente os avisos e oportunidades no meio da maior crise da indústria musical.

PARTE DOIS: MORTE CONSCIENTE

Eu não achava que eles teriam coragem de seguir em frente com isso. Seguindo a fundo no meu pensamento, achava que eles tinha matado a sua galinha dos ovos de ouro. Era o fim do VMB. Mas houve muito de ingenuidade nesse raciocínio. É lógico que a MTV não iria abrir mão do único programa na emissora capaz de gerar repercussão e dinheiro no meio de toda essa crise. Apenas teriam de mudar a roupagem, para absorver a estrutura da programação nova do canal. Ou seja, criar meios de não ter de depender dos clipes para realizar a premiação. Eles conseguiram, lógico. Aboliram todas as premiações por seguimento. Esqueçam categorias como melhor clipe de rock, de pop, de axé, de samba, de rumba, de polka, de mambo, de guarânia e o escambau. Primeiro passo. O segundo, mais forte e impactante: todos os prêmios não mais terão os clipes como alvo, e sim as músicas e os artistas isoladamente. O famoso "molde Grammy"da coisa. Artista do ano, Hit do ano, Show do ano, nada disso tendo a ver com os clipes. Terceiro passo: tchau, categorias técnicas. Nada mais de melhor fotografia, melhor diretor e adjacentes. Essas três decisões diminuíram consideravelmente o número de categorias e, mais profundamente, significaram a total renúncia feita pela MTV à mídia que era o carro chefe do canal e a sua própria razão de existência e moeda de influência: os clipes. Querem que nós compremos que o M da sigla seja referente somente a música em si, e não para a representação em vídeo da mesma, ignorando a cartilha pela qual a emissora rezou nos últimos 17 anos. Truque antigo, velho, como ensinar para um cachorro matreiro a abanar o rabo. Cabe a nós, que admitimos, sim, que a velha MTV fez brotar nos nosso corações (eu sou brega mesmo, jão) o amor pelo rock e pela cultura pop, não comprar essa palhaçada e torcer para que o inevitável fim, que atingirá também a MTV americana, que vive os mesmos problemas da nossa, venha o mais rápido e indolorosamente possível. Se temos o You Tube e a internet toda para, pelas nossas mãos, saciar as mesmas necessidades de consumo e opinião que antes deixávamos preguiçosamente a cargo da nossa querida Eme Tê Vê, por que então temos de lamentar? Foi bom enquanto durou, mas que possamos então apertar o botão que proporcione o fim dessa injustificável agonia. A não ser, lógico, para os masoquistas que adoram ver programas com nomes de mega corporações de refrigerantes promovendo encontros entre o CPM-22 (argh!) e o Babado Novo (urgh!). Mas quem nasce com vocação pra lata de lixo...

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Será que alguém entende?

Já haviam me falado, em poucas coisas costumo ser cético. Era exceção. Diziam que existiam alguns seres masculinos iluminados que, por incrível que pareça, compreendiam as mulheres. Caro leitor, me disseram que existiam tais seres, no imaginário, e bota imaginário, costuma tal afirmação estar presente quando citamos ficção-científicas baratas e certos filmes "hollywoodianos" encabeçado por algum ator galã, ele nem precisaria entender o sexo feminino.

Falo de e para nós, pessoas comuns: aqueles que as mulheres costumam ficar por pena; aqueles que não são muito bonitos, as vezes nem bonitos; aqueles com alguma barriguinha de choop e pelos no peito; aqueles que vivem com pouco dinheiro(alguns até se divertem com isso). Pessoas comuns, é disso que abordo. Se existisse tal ente, queria entrevista-lo, conhece-lo. Pedir umas dicas, quem sabe. Então marquei uma entrevista e pedi para o camarada progressista fazer a reportagem, abaixo, trancrevo um trecho dela.

Camarada Progressista:
então você é capaz de entender as mulheres?
Que Entende as Mulheres: Exatamente
C. P. : Quando começou a entender as mulheres?
Q.E.M. : Faz bastante tempo, na infância. Sabe, fui criado pela minha mãe, meu pai e minha tia que morava com a gente. Podemos considerar que meu adorado papai não era nenhum entusiasta do trabalho e muito menos um abstêmio exemplar. Por fim, sempre acarretava problemas para minha mãe, sempre.
C.P. : Ele batia nela?
Q.E.M. : Quando ainda conseguia levantar o braço ou quando ela não consegui fugir, sim, ele batia. E por muitos anos continuava na mesma, não conseguia entender o porquê da minha mãe não largar ele, já que ela sustentava a casa. Ou mesmo minha tia tentar evitar a situação ou, pelo menos, incentivar minha mãe a fim de deixa-lo.
C.P. : E quando foi entender?
Q.E.M. : Entendi muito bem a situação, e as mulheres de um modo geral, quando peguei meu pai beijando minha tia.
C.P. : Que coisa! Acha que entender as mulheres ajudou vc a lidar melhor com elas?
Q.E.M. : Sim, sem dúvida!
C.P. : E vc acha que com isso ficou mais fácil conquista-las?
Q.E.M. : Nada disso, fofo!
(Camarada Progressista left the building, apressadamente)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Latino: o maior compositor brasileiro


Já caminhávamos para a primeira metade da década de 90. O mundo musical assistia absorto ao crescimento exponencial dos sertanejos e pagodeiros, assolando as frequências musicais e vendendo discos aos borbotões(há, o doce mundo pré-internet...). O rock brasileiro agonizava dolorosamente, e teria sido muito pior se não tivesse o exíguo espaço na mídia proporcionado pela na época recém-inaugurada MTV brasileira, lembrando-se que o alcance da emissora na época era mínimo, o que não melhorava muito a situação dos nossos "roqueiros" (sic) . Nesse cenário, francamente favorável para os compositores populares que soubessem interpretar os anseios musicais de todo um novo público, que queria ser tomado por músicas fáceis, que já viessem no piloto automático, dizendo as palavras mais simples e diretas da maneira que eles queriam ouvir, sem surpresas e sem espaço para questionamentos existenciais mais profundos e ousadias musicais desnecessárias, com os "eu te amo" no lugar certo e os "volta pra mim" também, aparecia o nosso maior hitmaker.

Latino. O pioneiro do funk. O precursor do charm. O compositor de músicas que atingiriam o patamar mais alto que uma canção poderia aspirar alcançar, o de mudar padrões comportamentais e influenciar pessoas. A música que lançou esse carioca da remota cidade de Maria da Graça nos braços do sucesso foi a colossal Me Leva. Com um clima de funk-cabaré de fazer corar um Soft Cell da vida, com versos imortais como "me leva, me leva que eu te quero me leva, me leva que o futuro nos espera", Latino estourou nas paradas de todo o Brasil (momento Eli Corrêa) e colocou o seu nome no hall dos grandes ídolos populares. Com o seu sucesso, Latino abriu as portas para outros artistas do chamado "funk meloso carioca", como os já esquecidos Copacabana Beat e a dupla Claudinho e Buchecha (os Hall & Oates tupiniquins, mas isso é papo pra outro post). Mas depois desse sucesso inacreditável, Latino esmoreceu. Sem emplacar novos hits, foi desaparecendo gradualmente da grande mídia, ficando no limbo por todo o resto da década. Só conseguiria sair desse ostracismo quase que uma década inteira depois. Mas seria uma volta triunfante, um vôo rasante da fênix, ferida e sedenta.

Latino pegou sua mulher na época, Kelly Key, e escreveu um libelo de influência Nabokoviana, tratando da vingança emocional de uma mulher que, quando adolescente, não conseguiu seduzir um homem mais experiente e que agora, já crescida, saboreiava a vingança ao desprezar esse mesmo homem que um dia não tinha se subjugado aos seus caprichos eróticos-juvenis. Baba Baby, o nome da canção. Latino, que deve ser um ávido leitor de Nabokov (e consequentemente, do Dostoievski e do Tolstoi, é tudo ali por perto mesmo), resolveu lançar uma nova e brilhante luz sobre o clássico Lolita: e se o sujeito rejeitasse os avanços da moleca e ela, depois de anos, voltasse e despertasse nele um desejo incontrolável e agora sem as amarras da idade e dos processos penais por pedofilia, mas a garota aproveitasse a situação para empreender uma bela vingancinha, no melhor estilo mulher desprezada? Oras, não seria essa a verdadeira afirmação do ideal feminino, a tênue linha que começa em Eva (para os ateus, em Luzia) e termina na revolução feminista do século XX? Sim, meus amigos. Um insight genial. O sucesso foi estrondoso. Kelly Key saiu das trevas do anonimato para virar uma estrela, e o Latino voltava a colocar suas composições no imaginário popular.
No ano seguinte, Latino se separou da senhorita Key, e resolveu expandir seus talentos para outras freguesias, se é que vocês me entendem. Juntou-se profissionalmente (não existem provas de um relacionamento amoroso entre eles) com a jovem cantora Luka, e escreveu mais uma música que abalaria todas as estruturas do cenário musical brasileiro. Tô Nem Aí. O ideal nilista, a afirmação do indivíduo, o pensamento Nietzcheziano do homem como uma identidade sólida e voltada para a construção do eu e do ego. Latino sentiu que a brutalidade do capitalismo estava sugando toda a individualidade, de uma maneira mais sutil e perversa do que a dos sistemas comunistas-socialistas. Ele não aguentou ver o homem sendo transformado em mais uma máquina, quase um compêndio de sistemas binários e hexadecimais pronto para assumir funções automáticas e efêmeras. Com isso, escreveu essa letra, uma declaração de independência de padrões, rótulos e opiniões alheias. Mais uma vez, Latino entregava ao povo um hit que não só dava calos nos pés, mas sim provocava uma reflexão necessária e, mais importante, fora dos campos de influência inflados e contaminados das universidades e centros de inteligência.


Depois de de dois sucessos que definiram toda uma geração e colocaram o país aos seus pés, Latino poderia ter descansado e contemplado suas criações. Mas não. Homem inquieto, criativo e empreendedor, foi buscar na Romênia, terra de vampiros e empaladores, a inspiração para mais um arrasa-quarteirões. E nasceu uma música furiosa, de mensagem direta e implacavelmente honesta, uma ode às orgias e sexualidades modernas, o homem sem medo do seu ardor sexual, o clamor Nelson Rodrigueano, o sexo como fator de união e congregação: Festa no Apê. O refrão que uniu um país inteiro. Admitimos, finalmente: somos a terra das frivolidades. Carnavais e pecados justificados pela visão de um homem à frente de seu tempo. E pelo terceiro ano seguido, Latino era o dono do país. Depois desses três tiros certeiros, Latino parece ter dado um tempo pra refletir sobre sua posição como músico e artista, no combalido mercado fonográfico tupiniquim. Tenho certeza que ele está, em algum canto do seu amado Rio de Janeiro, planejando a próxima revolução musical. E nós ficamos aqui, ansiosos, aguardando o chamado do nosso mestre de cerimônias favorito. Latino, traga-nos de volta a folia dos seus sons! A atemporidade das suas palavras!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Vanessa Hudgens

Estrela do musical da Disney, High School Musical, mania entre os aborrescentes, ops, adolescentes tupiniquins, que já está no seu segundo empreendimento cinematográfico. Foi protagonista de um escândalo nessa semana, tendo fotos suas como veio ao mundo sendo exibidas pela internet. Nós, como somos um blog elegante e sofisticado, não colocaremos essas fotos, nem daremos links para sites com as mesmas. Mas deixem-me dissertar mais uma vez em cima de uma teoria à respeito do chamado "mundinho Disney", algo que já discuti no mítico mês Lindsay Lohan (há, Lindsay....). Esse mundo de lantejoulas, futilidades e babaquices adolescentes, com garotas virginais e angelicais à espera de um amor corajoso e heróico, capaz de superar todas as amarras do destino e vilões caricaturais que existirem pelo caminho, o famoso complexo de Cinderela, que sufoca os esforços da Disney no que se trata de "programas voltados para o público adolescente". Aí, as estrelas Disneynianas se metem em escândalos a cada cinco segundos, e toda a imagem que esses horrendos programas se esforçam para passar vão para o ralo. Alguém na companhia do falecido Walt irá um dia descobrir que existem diferenças gritantes no produto que se deva oferecer para crianças e adolescentes. E somente então, seremos poupados da gritaria e hipocrisia vinda desses torturantes programas. E dá-lhe cantoria para cima dos incautos. Mas vou parar de dar porradas. E para dar um alento nessa triste semana vivida por ela, digo que Vanessa conseguiu atingir o nível mais alto que uma starlete poderia almejar: a posição de Tetéia da Semana. Parabéns, e pelo amor hein, a tecla delete não está na sua máquina fotográfica só de enfeite não, valeu?

domingo, 9 de setembro de 2007

Tô sabendo!

Camarada X, será que você é tão – bem, vamos dizer assim: humilde quanto eu? Quer dizer, quando alguém (em geral, nitidamente filisteu) te pergunta se você manja de Nietzsche, você é tão escrupuloso que responde que não, só porque AINDA não leu a mais recente tese de doutoramento da Universidade de Freiburg sobre o emprego de Ich na obra do bigodudo, especialmente no Nascimento da Tragédia?

Vejamos: no Inglês você só arranha, mesmo tendo lido Ulysses no original, além de ficar traduzindo todos os dias, antes de dormir, pelo menos uns quatro parágrafos de Finnegans Wake, só pra ver se melhora um pouco sua compreensão das estruturas gramaticais? E do Godardzzzzzz, você viu quase todos os 7.000 filmes (talvez somente 6.780, mais exatamente 6.783), leu pelo menos uns três catataus de semiótica do acossado (lá-lá-lá-lá...), conseguiu explicar pra sua avó (é sempre a avó o paradigma do filisteísmo, coitadinha dela) cada uma das alusões à Sã Doutrina em Je Vous Salue, Marie e, de quebra, com uma análise originalíssima, convenceu a velhota de que Godard estava na verdade é anunciando as Boas Novas, aquele devoto?

Mas, apesar disso tudo, ainda insiste em que Godard você curte, e não vai negar que bastante, mas que, se por acaso sabe alguma coisa do cineasta – e olha que é só em caráter hipotético, por favor –, não é nada mais que senso comum entre quem gosta um pouquinho que seja de cinema?

Camarada, Camarada X, chega de mentiras e de falsa modéstia (e estou me dirigindo também a mim). Chega de hesitar, chega de se esconder. Como um sábio blogueiro já disse, quando você não tiver certeza sobre alguma coisa a seu próprio respeito, sempre assuma a opinião mais megalomaníaca possível. A humildade era pra ser a virtude capital à intelligentsia e ao espírito que supostamente a orienta, o iluminista (ai, que contradição, já que de humilde o Iluminismo não tinha nada); a humildade sempre traria à mente a lembrança do caráter permanentemente provisório e progressivo do conhecimento científico. Mas um Richard Dawkins da vida está aí pra mostrar que isso tudo não passa de groselha.

É hora de pularmos para o outro lado, se quisermos fazer alguma coisa, se quisermos ser grandes e alcançar de uma vez por todas aquele futuro promissor que a professora da escolinha prometia pra mãe da gente. Tipo, se você só descobriu que Night and Day é do Cole Porter porque baixou a trilha sonora de Jumanji inteirinha pelo E-mule, mas alguém um dia mencionar o compositor numa conversa, mesmo que incidentalmente e muito por alto, interrompa-o na hora e conte que você absolutamente a-do-ra Cole Porter, que não tem uma música de que você não goste. E de Glauber Rocha, então! Sabe Gangues de Nova York, aquela câmera girando em torno dos atores enquanto eles partiam pra porrada? Hã, pois é referência a O Deus e o Capeta em Terra de Sol, tá ligado?

sábado, 8 de setembro de 2007

A sabedoria viva do Camarada Fundamentalista

E às vezes eu, que tenho mó verve hegeliana, sento no boteco só pra trocar figurinha com outros filósofos da velha escola. E o que me vai saindo, assim, espontaneamente, anoto no guardanapo e, chegando em casa, me dou conta de que superei La Rochefoucauld brincando.

Abaixo, minhas Reflexões e Máximas casualissíssimas:

Pessoas que têm ou muito ou nenhum dinheiro julgam poder fazer o que quiserem, porque têm ou muito ou nenhum dinheiro: às tais deveria ser negado o direito de ir e vir.
E como confiar em um negócio como a numerologia, que te faz escrever o próprio nome errado, tudo pra atrair “energias positivas”. Quer dizer, escrever certo, agora, dá azar.

Dizem que procuramos no outro o que nos falta: por isso a mulher quer um homem que saiba escutá-la.

Aquele que se gaba de sua descontração está, de fato, exaltando sua estupidez.

Avoado é eufemismo para idiota.

Idiota é eufemismo para fútil.

Fútil não é eufemismo para nada.

Toda a auto-ajuda possível e funcional está baseada nisso – em se sentir bem consigo mesmo: a felicidade é, pois, uma exaltação da falta de caráter.

Nunca conheci um homem de bem com a vida que não jogasse papel de bala na calçada, nem um otimista que pagasse o dinheiro que pediu emprestado.

Máxima infame: o Homem Invisível queria ser visto: aposto que ele nem pensava se tinha um narigão.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Salingerianas: a queda de Owen Wilson

Semana passada, o ator estadunidense Owen Wilson, protagonista de filmes como Anaconda (blargh!), Bater e Correr, Starsky e Hutch e Penetras-Bons de Bico, cometeu uma tentativa frustrada de suicídio ao cortar o pulso e tomar uma dose elevada de remédios e pílulas. Socorrido a tempo, acabou se safando da morte. Tal ato chocou profundamente os fãs do ator, já que a sua persona cinematográfica sempre se constituiu de seres imaturos, ingênuos e engraçados, os famosos "de bem com a vida", como se diz no jargão. Por isso, os fãs demoraram para absorver a idéia de que aquele cara, que sempre se mostrava tão, como poderia dizer, relax nas telas, poderia chegar a tamanho ato de desespero na vida real. Esse acontecimento surpreendente trouxe-me lembranças de um grande filme do começo dessa década. E esse filme, sua criação e seus personagens podem, sim, trazer elucidações à respeito do extremado ato tomado por Wilson semana passada.

Mas vamos ao filme. Os Excêntricos Tenenbaums, fruto de mais uma parceria do diretor Wes Anderson com o Owen Wilson. Os dois, como já tinam feito nos dois filmes anteriores de Anderson, Pura Adrenalina e Rushmore - Três é Demais, escreveram o roteiro em conjunto. A história versa sobre uma família absurdamente disfuncional de intelectuais e prodígios. O pai é um advogado malandro, auspicioso, separado há muito tempo da esposa, mas que, ao se ver afundado em dívidas e despejado do Hotel aonde morava, resolve tentar conquistar de novo seus filhos e sua esposa, apenas para conseguir arranjar um teto de novo. Os filhos, todos atormentados e sufocantemente instrospectivos, vêem com reticência a volta do pai. . O filme é claramente inspirado na saga da família Glass, personagens criados por J.D. Salinger, escritor americano e também autor do colossal O Apanhador no Campo de Centeio. A história dos Glasses se desenvolve em diversos contos e livros. O filho mais velho no filme, interpretado por Luke Wilson, um tenista que nutre uma paixão excentricamente dolorosa pela sua irmã mais nova, que é adotada e casada, é um sujeito afável e gentil, sendo único que acaba aceitando a volta do pai sem maiores conflitos. Ao descobrir as aventuras amorosas da irmã, e saber que ela tem um caso com seu melhor amigo, um escritor chamado Eli Cash (interpretado por... sim, Owen Wilson), ele acaba tentando o suicídio, sem obter êxito, ou apenas usando o seu ato para uma tentativa desesperada de chamar a atenção da família para os seus problemas. A irmã adotada, interpretada pela Gwyneth Paltrow, é uma dramaturga que enfrenta uma crise de depressão no seu casamento, fruto de sua inedaquação perante o mundo, algo que somente piora quando o pai volta a conviver com a família, já que ele não perde a oportunidade de ressaltar que ela não é do seu sangue, mesmo que de forma não intencional. Na família Glass de Sallinger, eram sete irmãos, todos também prodígios. O mais velho, Seymour Glass, era descrito como sendo um sujeito calmo, amável, o mais tranquilo de todos os irmãos, e o favorito de seus pais. Pois ele comete suícidio numa das histórias, devastando a família. A irmã mais nova dos Glass, Franny, é uma jovem universitária que enfrenta uma violenta crise de identidade ao ler um livro religioso, e também mostra um avisão absurdamente crítica e ácida frente o mundo e as pessoas. Apesar das diferenças, a referência é clara.

Assim como os Glass, os Tenenbaums são gênios que, por não conseguirem canalizar tamanho potencial para coisas não-destrutivas, acabam dilacerando todo o mundo que os cerca, uma sinalização clara de falta de maturidade. Owen Wilson (agora começam as suposições absurdas) deve ser um fã de Sallinger, e o seu personagem no filme,o escritor, imagino eu que seja, ao mesmo tempo, uma homenagem à Sallinger e uma amostra do vazio que Wilson deva sentir, por ser um artista amado pelo seu público, mas que não sente isso como algo saudável. A inadequação e a total aversão aos valores falsos e deturpados da sociedade, fatores sempre mostrados pelos personagens de Sallinger, devem vir frontalmente de acordo com os sentimentos dele. Por isso, a sua tentativa de suicídio não me surpreende. Não que apenas o fato de alguém ler Salliger seja prova irrefutável de qualquer coisa. Mas Owen Wilson mostrou no seu roteiro justamente indicado ao Oscar que é um homem que se preocupa com questões existenciais fundamentais. E a velha e perigosa combinação, sujeito problemático que acaba encontrando alívio em interpretações errôneas e equivocadas de grandes clássicos da literatura, e com um empurrão da depressão e das drogas acaba levando esses questionamentos existenciais ao seu nível mais extremo e trágico, a solução mais burra e simples: o suicídio. Agora, eu já sei o que vocês vão dizer: e aquela cena no Penetras Bons de Bico, que o personagem dele acaba lendo um livro cujo título era "como evitar o suicídio", logo depois de uma desilusão amorosa? E os rumores que ele teria se suicidado pelo fim do seu romance com a atriz Kate Hudson? Essa não seria uma triste coincidência? A resposta é: não.