sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Fala que eu te escuto

Cinco coisas que eu gosto e que me deixam mal diante de gente cínica wannabe, universitários leitores de Clarice Lispector e o populacho blasé em geral, aleatoriamente listadas:

  • o vídeo do filtro solar;
  • Terra dos Homens, de Antoine Saint-Exupéry;
  • Melhor é Impossível (e entre os meus 10 mais);
  • balanços sobre a vida aos vinte e poucos anos, com questionamentos precoces sobre se eu me tornei um homem de caráter, em conversas estilo filme do Win Wenders, com longas pausas meditativas e, principalmente, paciência do interlocutor com as mesmas, mas em enquadramentos à Edward Hooper frustrados por uma mesa cheia de adolescentes que estudam no Dante Aleghieri, tirando fotos uns dos outros com o celular;
  • minas paty.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Tem o Pelé e tem o Edson

Porque a obra, mesmo não sendo muito inteligente, é sempre mais inteligente que o autor:

“Quem é o capitão Nascimento no filme? É um sujeito que dedicou sua vida à tropa de elite. Passou sua vida justificando para si mesmo a violência que perpetra nas favelas. Ele está vendo que a dedicação que teve foi equivocada e não se sustenta numa sociedade civilizada. O filme mostra isso, apresentando o personagem com síndrome de pânico, que não consegue sustentar a realidade na qual apostou ou conciliar uma vida em família com a mulher e o filho, é um personagem angustiado”.

(José Padilha, diretor de Tropa de Elite.)

Burro. Capitão Nascimento não tem conflito nenhum. Fora ter de ouvir a ladainha da esposa, não há outro motivo pra ele querer largar o BOPE.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Traduções do Progressista

É isso aê, cambada. Para aqueles que não conseguem nem dizer hello na língua de Shakespeare, que querem desesperadamente compreender o significado das suas canções favoritas sem ter de apelar para aquele amigo mala que carrega livros de RPG embaixo do braço e acha o máximo citar despudoramente por aí expressões como "mana", "nível de dano" e o escambau, aqui vou eu, humilde e anglicano Camarada Progressista, ensinar o caminho das pedras. Para começar, traduzo a melhor música da década 00. Mr. Brightside, do The Killers, inclusive dando meus pitacos nos versos, pra elucidar melhor os pontos duvidosos com toda a classe do mundo. Não precisa agradecer, estamos aqui ao seu dispor mesmo (mas não abusa não, jão).

The Killers - Mr. Brightside

I'm coming out of my cage
And I’ve been doing just fine
Gotta gotta gotta be down
Because I want it all
It started out with a kiss
How did it end up like this
It was only a kiss, it was only a kiss
Now I’m falling asleep
And she’s calling a cab
While he’s having a smoke
And she’s taking a drag
Now they’re going to bed
And my stomach is sick
And it’s all in my head
But she’s touching his—chest
Now, he takes off her dress
Now, let me go
I just can’t look its killing me
And taking control
Jealousy, turning saints into the sea
Swimming through sick lullabies
Choking on your alibis
But it’s just the price I pay
Destiny is calling me
Open up my eager eyes
Cause I’m Mr Brightside
I never...(Repeat it 245 times)

Os Matadores - Mano Lado Bão

Eu estou saindo da minha cela, prisão, gaiola, use a palavra de sua preferência, todas usadas como metáforas para aprisionamentos psicológicos, logicamente
E eu estava me saindo muito bem
Tenho, tenho, tenho de ir com tudo
Por que eu quero o bagulho todo
Tudo começou com um beijo
Como é que foi terminar desse jeito?
Foi somente um beijo, foi somente um beijo
Agora eu tô caindo de sono
E tipo, ela tá chamado um taxi aí
Enquanto o maluquinho puxa um fuminho
E ela toma um ar básico, sabe como é
Agora, tipo, tirem os menores da sala: eles estão indo para a caminha fazer coisa feia
E o meu estômago está ardendo, tipo enjoado, saca?
E está tudo na minha cabeça
Mas ela está tocando o peito do jão agora
Ok, agora fica pesado: ele tira o vestido dela (safado)
Agora, deixe-me ir embora
Eu não posso olhar o bagulho não, está me matando por dentro
E tomando o controle

(agora vai pro refrão. Tomando fôlego, ai vai:)

Ciumento, transformando santos em mares, oceanos e outras metáforas aquáticas (corno)
Nadando por entre canções de ninar doentias (corno)
Engasgado com os seus alibis (corno)
Mas, pô meu, esse é o preço que se paga, tá ligado? (corno)
O Destino clama por mim(corno)
Abrindo os meus olhos ávidos (corno)
Por que eu sou o Mano Lado Bão (CORNO!)

Eu nunca... (repetir o bagulho 245 vezes. Qual a idéia por trás da repetição dessa sentença incompleta? Simples. Mais ou menos, é como se ele dissesse que "eu nunca imaginei que você seria capaz de colocar um par de chifres na minha cabeça, logo você que para mim era a verdadeira divindade.)
Há, sim, esqueci de falar só mais uma coisinha: CORNO!

Pronto. Lindo mesmo. Mais em breve, rapaziada esperta e boa de praia (?????).

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Cláudia Abreu

Atriz carioca. É, brincando, a melhor atriz da sua geração, conseguindo elevar o nível de qualquer porcaria que participa. Entre suas façanhas, destaco quando ela fez o David Hasselhoff tupiniquim Reynaldo Gianecchini conseguir elogios por sua interpretação na novela Belíssima. Contracenando com a Cláudia, o cidadão acabou se coçando e conseguiu entregar uma perfomance que pelo menos não nos causava náuseas. Ele deveria doar metade dos seus salários e cachês para a senhora Abreu por toda a eternidade por isso. Mas o momento mais sensacional da sua carreira foi no final da minissérie Anos Rebeldes, quando sua personagem, Heloísa, é morta num tiroteio. Top-5 dos maiores momentos da história da nossa TV. Pena que a Cláudia é discreta e muito seletiva nas suas escolhas de projetos. Temos que aturar incautas sem a metade do seu talento nas novelas e filmes tupiniquins da vida, e tendo que se contentar com doses homeopáticas dela apenas. Mas qualquer diretor esperto sabe: quer parecer mais talentoso do que realmente é? Chama a Cláudia Abreu e coloca ela nos seus projetos o máximo que puder. Não é verdade, Sílvio de Abreu?

sábado, 10 de novembro de 2007

Ed Wood's fiction: Uma história de sucesso

Joe Fratelli e Rihanna se casaram em Las Vegas, como nos filmes. Também, com esses nomes, não podia ser diferente. Joe Fratelli não perdeu tempo e tratou de fazer um filho em Rihanna, que, apesar de ser coxa, era uma beleza.

Moravam em Marsilac, São Paulo. Rihanna era manicura e Joe Fratelli vivia de biscates. Um dia, acabou se metendo em negócios espúrios. Chorando, disse pros coxinha que um primo dele tinha arranjado o serviço e que ele não sabia o que é que tinha na caçamba. Como não adiantou o da cerveja, tomou cacetada pra ficar esperto. Por falta de provas, foi liberado e saiu contando vantagem pra rapaziada.

O moleque nasceu. Rihanna sorriu pra Fratelli, que fez uma churrascada olímpica pra comemorar, e naquele momento eles achavam que eram as pessoas mais felizes do mundo inteiro. Isso até descobrirem que o moleque era a cara do Escobar, truta firmezinha do futebol de quarta-feira. Como Fratelli era escocês, o fato da criança não ser cabeluda só piorou o lado de Rihanna.

Sem dizer que o lance todo era incrivelmente noveleiro, mas pré-Projac, o que Rihanna, muito dissimulada, fez notar. Fratelli não entendeu, como sempre, a espirituosidade da adúltera e meteu a mão na cara da safada pra ela largar de ser besta.

A vizinhança, silvícolas corrompidos pelo homem branco e agora prisioneiros do vício da maconha e do YouTube, munidos de um celular com uma câmera de 3.0 megapixels, filmaram e fizeram upload da coisa toda. Assim, Fratelli acabou atrás das grades novamente; só que, agora, com 3000 acessos de prova que ele tinha realmente sentado a mão na cara da mulher. E pior: foi cair justo nas mãos dos mesmos policiais corruptos (frustrados por terem sido transferidos pra uma delegacia da mulher) que o tinham soltado muito a contragosto da outra vez e que aproveitaram pra compensar nessa.

Liberta do opressor, Rihanna deixou o filho - que batizaram de Elvis da Conceição - com a mãe e, com o dinheiro da venda da caminhonete de Joe Fratelli, se mandou pros States. Lá foi descoberta por Timbaland, que a viu contar sua trajetória de sofrimento e superação na Oprah.

Hoje, ela metaforiza sua emancipação em canções intimistas que falam de guarda-chuvas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ed Wood's fiction: Try a little tenderness

Olive Hoover tem nove anos de idade e quer vencer o Pequena Miss Sunshine, um concurso de beleza infantil organizado pelo cineasta indie Gus Van Sant no interior da Califórnia. Para realizar o sonho da baixinha, os Hoover (pai, mãe, irmão, tio gay suicida e avô junkie) topam participar de um reality show da MTV, As Quebradeiras. As Quebradeiras são seis minas superbaladeiras e cheias de atitude que vão ensinar o verdadeiro significado da felicidade para a família Hoover.

No inicío, muita curtição, muita pegação, mas uma surpresa bem desagradável está por vir. Quando, após ser preso numa ação comandada pelo Capitão Nascimento numa balada em Campinas, o vovô morre, de causas desconhecidas, Dwayne, desiludido, desiste de entrar pro Bope e acaba surtando. Sensibilizadas, as Quebradeiras o levam pra pular da tirolesa. Mas Dwayne interpreta mal a boa vontade de Erika, força uns amassos, e o clima fica pesado. Mas tudo volta ao normal quando Larissa pergunta o que quer dizer “polidactilia”, e ninguém sabe responder, daí todo o mundo cai na gargalhada.

Nesse meio-tempo, Olive aprende um ou dois truques com Vanessa para se dar bem na passarela. Mas a coisa fica realmente divertida quando J. T. LeRoy, convidado por Gus Van Sant para ser um dos jurados da competição, vem cumprimentar a pequena Olive e lhe dizer que realmente não importa quem vence, mas o que o ser humano é em seu interior. As meninas insistem, e ele aceita bater uma foto sem os óculos escuros. Mas, arrependido, toma a câmera da mão de Vanessa, e daí a confusão. Olive começa a chorar, o que deixa as Quebradeiras furiosas. Vendo a situação engrossar pro seu lado, LeRoy sai correndo, mas tropeça, cai de boca e quebra o nariz.

Apesar do processo movido pelo escritor, a temporada termina em alto astral, com todo o mundo cantando Try a Little Tenderness, do velho Otis Redding, puxada pela Camile, no caminho de volta pra casa. Vocês conhecem a letra?

“[This is for you] Ooh she may be weary
And them young girls they do get weary
Wearing that same old shaggy dress
But when they get weary
[You gotta] try a little tenderness


[Tell you, might not believe it, but]
You know she's waiting
Just anticipating
The thing that she'll never, never, possess, no, no
But while [all the time] she's without it
Go to her and try just a little bit of tenderness


[That’s all you gentlemen gotta do]
Oh, but its one thing
It might be a bit sentimental yeah, yeah
She has – her greaves and care
But the soft words [they] are spoken so gentle
But, oh, that makes it, makes it easier to bear, yeah


You wont regret it
No, no,
Them young girls they don’t forget it
[Cause] Love is their whole, whole happiness Yes, yes, yeah
And it’s all so easy
Come on and try
Try a little tenderness
Yeah try
Just keep on trying


You've got to love her
Squeeze her
Don't tease her Make love [Get to her]
Hold her tight
Just, just try a little tenderness
That’s all you gotta do
You’ve gotta hold her tight


One more time
You’ve got to love her hold her
Don't tease her
Never leave her
Make love to her
Hold her, man


Try a little tenderness
[Just one time] God have mercy now”

Heroes, The Office e a greve dos roteiristas

O bicho tá pegando na gringolândia. Os roteiristas de Hollywood entraram em greve, pela primeira vez desde 1988, quando uma greve de proporções semelhantes teve efeitos drásticos nas produções cinematográficas e televisivas. Basicamente, daquela vez a paralisação durou cinco meses, e os estúdios e canais de tv resolveram chutar o balde e contratar cada vez mais e mais roteiristas baratinhos, o que baixou drasticamente o nível das produções. Agora, justamente no momento que as séries americanas vivenciavam o seu momento mais criativo desde a popularização dos televisores na década de 50, vem essa paralisação e joga um balde de água fria. O medo de todos, é que essa greve gere um impasse igual ao que ocorreu em 88, e que os chefões do entreternimento tomem as mesmas atitudes daquela vez, o que seria mortal para as ambições artísticas dos projetos existentes. Ou seja, o nível iria cair lá embaixo, mais uma vez. No começo, fiquei animado quando soube que a horrenda, ridícula e absurda série Heroes poderia ter o final da sua segunda temporada abruptamente mudado para dezembro. Seria maravilhoso. Adoraria ver os Heroes freaks chorando ao ver sua sériezinha de quinta indo praticamente para o limbo por culpa de uma greve. Mas nem tudo o que reluz é ouro.

Pouco depois de saber esse notícia do Heroes, descubro que a sensacional versão americana da série The Office também será brutalmente prejudicada. O problema é que muitos atores do elenco também são roteiristas, escrevendo diversos episódios da série, e todos aderiram em massa à greve. O ator principal, Steve Carell, resolveu ser solidário aos seus colegas e não apareceu para gravar no primeiro dia da greve, nem nos subsequentes. Ou seja, a quarta temporada da série está seriamente ameaçada, já que apenas dois capitulos estão prontos para essas semanas pós-greve, o que significa que logo terão de colocar reprises no ar. E se o fim dessa paralisação for o mesmo da de 19 anos atrás, provavelmente a série como um todo também poderá estar seriamente ameaçada. Um absurdo. Estavam querendo até criar um The Office 2, com outros atores, tamanho o culto criado à série (idéia estúpida, mas que dá uma idéia boa da excelência da série. Grande Ricky Gervais). Os Seinfeldmaníacos, que estavam finalmente conseguindo suprir sua demanda de séries cômicas inteligentes, já podem voltar a se preocupar seriamente. Já a série mais subestimada da história da humanidade, Lost, essa tem esperança ainda, já que a temporada começa apenas em fevereiro e já existem oito episódios gravados. Ou seja, os insuportáveis Lostmaníacos (que perdem em chatura apenas para os Heroes freaks) ainda podem esperar com alguma folga o fim dessa greve sem terem de ver sua série favorita virar um Esquadrão Classe A da vida. Nós do blog iremos acompanhar o desenrolar dessa história toda e relatar tudo para vocês? Não sei. Talvez eu fique empolgado com essa idéia e resolva fazer uma greve contra o Fundamentalista e o Moderado, esses opressores do proletariado e serventes do capitalismo brutal!

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Isobel Campbell

Ex-integrante da banda indie Belle & Sebastian, que fez um baita barulho no início da década, e hoje empreendendo uma digna carreira solo. Isobel entrou na banda depois de um breve romance com o fundador, Stuart Murdoch, e participou da banda desde o início das atividades, em 1996 (tinha parcos 20 anos na época) até 2002, quando saiu por motivos pessoais, formando uma outra banda chamada Gentle Waves que durou dois discos, e depois, ai sim, produzindo discos solos, inclusive lançado um álbum com o cachaceiro mor do grunge Mark Lanegan, ex-Screaming Threes e membro honorário do Queens of The Stone Age. Ela chegou a vir para o Brasil com o Belle & Sebastian, lembro dela até no programa do mala do Jô Soares entrevistando a banda, e ela quieta, com a famosa cara de "como fala esse gordo chato!". Ela era, junto com os dois Stuarts, Murdoch e Davis (esse também saiu da banda recentemente) a porta-voz da banda. Pena que hoje em dia, sem Isobel e Davis, ninguém se lembra mais que o Belle & Sebastian existe. Mas da senhorita Campbell, não nos esquecemos. Como poderíamos?

Woody Allen, Godard e o American Pie

Existem filmes que literalmente nos chamam de burros. Na cara dura mesmo. Tipo, apontam o dedo e falam: "vai lá jão, quero ver você assistir o bagulho e não sair babando oligofrenicamente depois". Lógico que não ajuda nada quando você assiste o negócio nas altas horas da madrugada e um tanto quanto sonado. Funciona bem quando se vê um American Pie da vida, cujas piadas já vem com tradução simultânea e ajuste imediato para todos os tipos de mentes e estados físicos e psicológicos. Tipo naquele filme maluco do Roger Vadim, Barbarella, quando a Jane Fonda chegava no planeta e os maluquinhos falavam uma língua que ela não entendia, e ela simplesmente apertava um botão no pulso e pronto, lá iam eles falar um inglês perfeitíssimo, com direito a impecáveis sotaques britânicos em alguns casos (por essas e outras que considero o Vadim lado a lado com o mito Ed Wood, mas isso é outro papo). Nos American Pies da vida, quando o cara solta um pum (o que ocorre a cada cinco segundos no filme) você já sabe, por mais sono que tenha ou mais chumbado que esteja, que é hora de dar uma risada, só pra manter o status quo. Rá, rá, rá. Tipo, "eu não sou intelectualóide, e não me recusarei a rir desse pum, pois isso me faria descer ao nível daqueles imbecis que assistem festivais do Godard nos cines universitários da vida e ainda batem a cabeça de felicidade". Opa, eu citei o nome Godard na última sentença? Pronto, cheguei no assunto principal. Não, não é o Godard. Quer dizer, não majoritamente. É mais a idéia toda que existe por trás dos filmes dele. O negócio é que outro dia aí, assistia televisão em outra madrugada insone, quando ao passar por um canal de filmes Cult (um doce pra quem adivinhar qual) vejo que eles exibiam um filme de 1987, dirigido pelo Jean-Luc Godard e com o Woody Allen e a Molly Ringwald, musa-mor dos anos 80, ao menos para os teenagers espinhudos. Todas essas informações (tirando logicamente a descrição da Senhorita Ringwald, embora ache que seria muito engraçado se eles agregassem essas groselhas nos resumos, tipo quando fosse um filme do Tom Cruise, "elenco: Tom "Cientologia freak" Cruise) eu encontrei quando apertei a tecla que mostra o resumo dos programas em exibição, um pequeno luxo de muita valia, principalmente para quem num passado não muito distante tinha que enfiar bombril na antena para assistir o bagulho. Tempos modernos. Enfim, o filme chamava Rei Lear, obviamente calcado na peça do Shakeaspeare. Não me lembrava de tal película na carreira do Godard, nem que o Woody Allen estava envolvido (ele que odeia atuar em filmes de outros diretores) e muito menos que a Molly Ringwald estivesse no meio. Tamanha loucura nem chega perto do que era esse filme. Sem dúvida alguma, a coisa mais insana que eu já assisti em toda a minha vida. Tudo aquilo que falam de mal do Godard podia ser comprovado nesse exercício de agonia travestido de cinema. A tão achincalhada fase eighties do Jean-Luc.


Basicamente, o filme conta uma história passada num mundo no qual o acidente nuclear de Chernobyl (que tinha acontecido pouco tempo antes do filme ser feito) tinha tido efeitos quase apocalípticos, e toda a história da arte tinha sido perdida. Então um cidadão chamado William Shakespeare Quinto resolve tentar fazer algo para resgatar parte dessa história, e chegando num resort (?) acaba, apenas por presenciar os fatos lá ocorridos, lembrando de todos os diálogos da peça Rei Lear. Fatos esses que envolvem um chefe da Máfia e sua filha oportunamente chamada Cordelia (interpretada pela Molly Ringwald), um professor chamado Jean-Luc Godard (interpretado pelo próprio), que fica xerocando sua própria mão o filme todo (sem motivo aparente), quatro globins humanóides que ficam atormentando Cordelia, e um cavalheiro deveras fidalgo sem função alguma no filme e cuja namorada (interpretada pela Julie Delpy, tinha me esquecido dela) fica constantemente invisível. Sim. Invisível. Ai, o Shakespeare Quinto resolve fazer um filme com a peça, e manda o negócio para Nova Iorque, para um tal de Senhor Alien (agora sim, interpretado pelo Woody Allen) editar. A trama por si já seria o suficiente para mandar o Godard e todos os envolvidos para os melhores hospícios da Normandia. Mas a execução do negócio é que acaba dando aquela sensação de que a loucura é um troço subestimado. Os personagens jamais olham uns para os outros. Todos falam como se estivessem fazendo monólogos, discursos, não existem conversas propriamente ditas. Sempre olhando para o alto, para o lado, para o chão, para qualquer lugar que não a cara dos outros personagens. A câmera, como de praxe em diversos filmes do Godard, jamais se move. Inúmeras vezes durante o filme, mesmo quando personagens falavam alguma coisa, o áudio era interrompido por berros insanos de gaivotas voando na cena no momento. É, gaivotas. Umas duzentas vezes durante o filme. Não que fosse desagradável ver algum personagem que estivesse falando alguma bobagem sobre a contemporaneidade do Shakespeare sendo interrompido pelo barulho das gaivotas. Sem dúvida, foram os momentos mais agradáveis do filme.
Todos sabemos que o Woody Allen é um grande fã da nouvelle vague, e que deve ter sido uma honra para ele atuar num filme de um dos seus ídolos. Mas, cá entre nós, justamente o Woody Allen, que sempre demonstrou nos seus filmes, livros e rotinas de comédia uma maneira brilhante de falar de alta cultura com bom humor e sem cabecismos, participar de um troço insano desses, somente a idolatria para justificar. Já a Molly Ringwald, essa deve ter se achado a principal beneficiada com a empreitada. Afinal, na época ela vivia dando entrevistas dizendo-se cansada do mundinho do John Hughes, e querendo expandir seus horizontes de atuação para não ficar presa naquele universo adolescente. Perdeu, patricinha. Tanto fez que nunca mais se livrará do estigma. Godard nenhum foi capaz de trazer o antídoto para o doce mundo do senhor Hughes. Eu aguento esses negócios na boa, adoro brigar com filmes que tentam zoar com a minha cara, se bobear eu poderia até chamar essa película para a porrada, dar uns belos cascudos nela, quebrar o seu nariz e coisa e tal. Nada me atinge. E vamos lá, todos sabemos que o negócio do Godard eram os "conceitos". Os seus filmes depois de uma época viraram teses. Época essa que dura mais ou menos até os dias de hoje, precisamente. Enredo, personagens, diálogos, câmeras que, por Cristo, se movem durante o filme. Coisas que deixaram os filmes do Godard fazem uns bons trinta anos. Citei o American Pie no começo para exemplificar uma idéia. A de que filmes como esse e o Rei Lear do Godard são exercícios de cinema diametricamente opostos, um chamando o espectador de anta, mas tentando explicar tudo direitinho para que ele possa prestigiar o bagulho e trazer as sonhadas verdinhas depois, e o outro já usando a burrice do pobre espectador como pressuposição, nem se dando ao trabalho de tentar demonstrar coisa alguma. No meio desses dois extremos é que jazem as verdadeiras pérolas da sétima arte. O que hoje em dia significaria o quê, os filmes do Paul Thomas Anderson? Ué, o que o Adam Sandler tava fazendo naquele filme do maluquinho que ficava embriagado de amor então?

sábado, 3 de novembro de 2007

Camarada Fundamentalista escorregando no tomate

As pessoas não acreditam que eu sou romântico, elas riem quando eu digo que sou carinhoso. Pra ser sincero, não entendo por que tanto ceticismo a meu respeito. É o fundamentalismo? É o esnobismo fake? Ou só porque eu escrevo que não gosto de fã do Chico Buarque?

Chega uma hora em que todo homem cede e admite que é fraco, de alguma maneira fraco. Acho que a minha vez chegou. Porque vocês aprenderam muito de mim. Vocês ouviram muitas coisas a respeito do amor e das mulheres, coisas que por força do medo, da ignorância ou da má-fé das pessoas costumam ser caladas. Mas mesmo um mestre como eu, um Sócrates no amor, mais cedo ou mais tarde, há que se confessar limitado, possivelmente ignorante. Até mesmo, estúpido. Mas qual seria a minha estupidez no amor, a minha estupidez acerca das mulheres? Eu vou lhes contar.

Tem a ver com Edward Hopper. Vocês sabem, aquele pintor norte-americano, que, por causa de Paris, Texas, do Win Wenders, acabou caindo nas graças da molecadinha. Eu podia me gabar, dizendo que já gostava de Edward Hopper antes de ter assistido Paris, Texas. Mas seria medíocre, seria desnecessário; além do mais, gostar de Edward Hopper, pelo que eu sei, não é lá muito highbrow.

De qualquer forma, é a pintura de Hopper que alimenta as minhas maiores ilusões em relação às mulheres. Daquelas ilusões que fazem John Wayne corar. Contemplar uma de suas telas me faz suspender, momentânea e inadvertidamente, minha misoginia aguçada, criada a leite e ovos. Talvez eu devesse parar por aqui. Já me expus o bastante. Mas não, prossigamos.

Outro dia eu estava olhando pra New York Movie (1939).

E comecei a imaginar que talvez esta moça gostasse de assistir Charlie Brown, não porque o Snoopy era uma gracinha; que talvez ela já tivesse visto Persona mais vezes do que eu, mas sem essa história de se identificar com a Elisabeth ou com a Alma, uma distinção extremamente duvidosa; que talvez ela só gostasse de sentar num banco de praça e ver as nuvens e as pessoas passarem. Mas aí, quando você começa a tecer idílios em bancos de praça, que fica até parecendo poema do Manuel Bandeira, é que a coisa tá feia; aí, você sabe que está perdendo o juízo, que está querendo ser lírico, quando não tem um pingo de lírica no seu coeficiente de gênio. E o contra-senso se revela como tal: uma mulher que seria, tipo, um homem. E aí eu achei que a coisa tava ficando muito esquisita, parei e fui assistir as Quebradeiras, na MTV.