sábado, 8 de dezembro de 2007

A mulher faz o homem

Neste Natal, tomaram minha masculinidade, e ainda estou em via de resgatá-la. Foi num encontro às cegas. Tá, nem tanto assim: eu já tinha visto a menina. Mas o constrangimento era o mesmo, com você encontrando a pessoa e pensando “onde é que eu estava com a cabeça?”. O encontro às cegas, que é das reminiscências arcaicas mais pronunciadas na atualidade, aponta para um tempo em que as pessoas não tinham escolha, quando o amor não acontecia nos termos e condições democráticos que agora acreditamos imprescindíveis.

Regressivos assim, ela e eu nos dispusemos inconscientemente a uma dança de morte, em que um tentava conquistar a supremacia sobre o outro. Não, não foi com essa clareza de termos que a coisa toda se manifestou pra nós. Na verdade, ainda que vocês não acreditem, eu costumo dar espaço às pessoas, contanto que eu tenha o controle da situação. Em outras palavras, ritualisticamente ocupo a posição masculina, macha. É necessário que eu conceda esse espaço; do contrário, como quando o outro o toma por si próprio, como dessa vez, eu me perco.

E o pior de tudo: ela o fez naturalmente, como se devesse ser assim. E parece que devia mesmo. E eu fiquei confuso e assustado como uma menininha.

Eu simplesmente não sabia o que fazer. E ela era extremamente compreensível com a minha situação, mas ao mesmo tempo não me dava brechas. Porque ela estava, afinal de contas, usurpando a posição macha, agora posso compreendê-lo claramente. Deixem-me caracterizá-la sucintamente, assim vocês concordarão comigo. 1) Ela determinava se sentávamos (e onde sentávamos) ou se andávamos. 2) Ela sugeria os tópicos da conversa e os desenvolvia. 3) Ela falava de questões e momentos difíceis da vida dela já superados. Já superados. 4) Ela citava filmes, peças e músicas que eu desconhecia. 5) Ela não ria dos meus comentários engraçadinhos. 6) Ela era mais prática do que eu.

Agora, da minha parte: 1) eu acatava; 2) eu olhava pra baixo, pra ponta dos sapatos, e chutava pedrinhas; 3) eu gaguejava, perplexo; 4) eu balançava a cabeça concordando, totalmente ignorante; 5) eu me desesperava; 6) eu queria fugir.

Em resumo, ela fez com que eu sentisse completamente dispensável, como uma garota. E ainda piora, pois eu estou em casa, doido pra vê-la novamente, sob o único argumento de que “ela tem uma coisa que eu não sei explicar o que é”. E eu acho que estou a fim. É, eu devo estar a fim. Idiota. Eu me transformei vocês sabem no quê. E eu acho que estou atraído por uma moça porque ela me lembra um vocês sabem o quê. Não que eu tenha alguma coisa contra quem se sinta atraído por vocês sabem o quê, mesmo sendo fundamentalista e tudo, porque o meu fundamentalismo é, nesse sentido, bem limitado.

Presumo que os bons espíritos do Natal, cuja missão é redimir os aparentemente incorrigíveis, querem que eu me arrependa da minha inócua misoginia e do meu machismo auto-indulgente. Camarada Fundamentalista é, afinal, um título comum aos dois gêneros.

Eu preciso que ela me diga algo. Eu não ligo se ela continuar ocupando a posição masculina, contanto que ela me trate com a mesma condescendência e maciez que eu costumava dispensar às mulheres. Na verdade, seria perfeito. É tudo que eu sempre quis – que elas fizessem tudo, porque eu sempre estou tão, tão cansado –, apesar de nunca haver imaginado que isso significasse ter de renunciar, em parte, à minha masculinidade. Mas, também, a gente acaba percebendo que não era tão importante, que dá pra se viver sem. Que é só o estúpido orgulho masculino! E que é o masculino, enfim? Uma convenção! Chocolate, bebês, cuidar do cabelo, fazer as unhas, não é tão ruim assim.

Eu de vestido. Eu de saltos. Eu falando que nem criança. Eu magoado. Eu frágil. (Espero que ela esteja lendo isso.) Eu me fiz de difícil. Eu disse que não estava rolando. Mas é que eu estava inseguro, só porque, no final das contas, ela está no controle. Você está no controle. É um milagre de Natal. Ho, ho, ho.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Especial Natal: Papai Noel às Avessas

O Natal, período de compras, ajudar o próximo e enriquecer o Greenpeace. Como o Natal é legal, sobretudo para os papais-noéis brasileiros: aquela marofa oriunda da tropicalidade e está lá o coitado, suando naquela roupa vermelha.

“Mas os shoppings têm ar-condicionado, né!”, grita alguma menina do fundo da sala.

Sem dúvida. Muitos shoppings de fato têm. Mas shopping de pobre é outro esquema, minha filha, fica lá um duende de roupa verde apertada abanando o bom velhinho (mas cadê os anões?), as vezes nem isso. Papai Noel Brasileiro tinha que ser de chinelo , shorts e uma barba branca bem rala, pois ainda é o bom velhinho, senão vai parecer padre, e bem, padre e criança, ainda com colinho, não dá muito certo.

Enfim lembrando desse maldito calor que nos ronda, por conseqüência, nossa tropicalidade, pensei num filme que vi recentemente: Papai Noel às Avessas ( Bad Santa, 2003).

O filme mostra dois trapaceiros: um, Billy Bob Thornton em sempre sensacional atuação, se fantasia de Noel; o outro, o “comediante” Tony Cox, se fantasia de duende. Assim, ambos costumam trabalhar em grandes lojas de departamentos a fim de roubá-las. Numa dessas lojas de departamento os personagens se deparam: com a crise da parceria bem sucedida até então; a intromissão de um chefe de segurança(Bernie Mac em ótima atuação) e a aproximação de Thornton com um menino gordinho que parece meio retardado. E todos os fatores somados dão o tom para o desfecho.

Na verdade, o longa tanto através do humor corrosivo presente na trama, como na própria atitude e personalidade do protagonista, acaba satirizando o “espírito de natal”; aquele espírito superficial que toma parte das maiorias das pessoas nesse período. Enfim, ponto para o personagem principal que conduz muito bem o longa, sobretudo por causa de sua tropicalidade, que faria o Zé Carioca perder as penas de inveja.

E não sei se Billy Bob Thornton sempre interpreta ele mesmo nos filmes: um cara durão, depravado, safado e de bom coração. Mas sempre quando faz isso é divertido, muito divertido. Ele até parece brasileiro, pela sua tropicalidade inserida na personagem, aí fica fácil imaginar um papai Noel brasileiro., a la Mr. Thornton, lógico.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Especial Natal: Comidas – Parte 1 : A Birosca e as compras na rua 25 de março

Nós do fomos ao cinema, este blog tão acessado pelas massas, decidimos através de um consenso democrático comentar nesse período de natal sobre comida. Além dos presentes, amigo secreto, tio chato, boa ações(como clicar no google adsense alheio), etc... para alguns o natal é a data para encher a pança, é a época que o pessoal come até peru( não consigo lembrar de outra data que eu faça isso).

Por isso, FOMOS AO CINEMA cita certos segredos gastronômicos para os desconhecedores da culinária da metrópole paulista. Hoje é dedicado para as pessoas que gostam de quitutes, aqueles salgados que dão aquela energia antes de uma boa pesquisa de compras na 25 de março ou pra levar escondido no cinemark, logicamente dentro de uma mochila.

Hoje citamos um salgado em particular, até hoje em minhas andanças gastronômicas nunca vi um quitute superior a este, falo dela, a minha querida BIROSCA. A BIROSCA é um salgado acima de qualquer outro, ela é o salgado do mundo ideal transformado em realidade, a Ambrósia da minha juventude, sem exageros o melhor salgado que comi na vida.


Descrição do Quitute:Ela lembra uma fogazza, mas não é frita e sua massa lembra a de uma boa esfiha fechada (e tão macia quanto). Agora parte do segredo: mesmo o salgado sendo assado parece que o recheio é frito. Seus sabores: frango/catupiry, calabreza/catupiry e queijo/presunto. O melhor é o preço: só custa R$ 1,30 cada.

Comentários acerca do Quitute:
“Quem comeu sabe: birosca, o salgado mais perfeito do mundo. (Homem sábio)
“Birosca, salgado perfeito, Idéia mesma de todos os salgados, dádiva fugidia de uma geração displicente, cantar-te-ei, quentinha, gostosa, para sempre desvencilhada de nós, anônimos amorosos teus!” (Outro homem sábio, corria feliz com seu salgado)

Local:
Rua Doutor Luiz Lasanha, 311(encostada na faculdade São Marcos), travessa da Nazaré
Ipiranga- São Paulo

(dúvidas, clique aqui)

Vantagens do Quitute: Ser o melhor salgado do mundo, ser próximo da faculdade de psicologia da São Marcos e ser muito barato

Desvantagens do Quitute: Ser vendido apenas lá(outro lugar que vendia fechou). O lugar que nós chamamos também de Birosca trabalha em um horário esquisito, aconselhamos você chegar lá antes das 9horas da manhã

Notas: Qualidade do Salgado, 10; Localização, 7; Atendimento, 9

NOTA FINAL: 8,7

Antes de fazer sua compras, que tal dar uma passada lá de manhã? Altamente Recomendável !

Godard e o Natal. O Natal e Godard. O Godard + o Natal. Silêncio

Um belo dia, em meados de 1964, Jean-Luc Godard acordou e resolveu que o Natal seria um tema interessante para um filme. O Natal das metáforas socialistas, segundo o francês. Não o Natal gordo e imundo dos yankees. Pensou Jean-Luc: "preciso fazer pelo Natal o que o Pasolini fez pela crucificação de Cristo. Tipo, ele tratou do fim, eu falo do começo, pelo menos do espírito que seguiu até os nossos dias, perdido nos perus dos yankees, minha idéia fixa favorita". Nessa altura, tinha Godard esquecido que o Pasolini era ateu. E que Cristo exercia igual fascínio nos dois por culpa do seu discurso gregário, quase uma antevisão dos ideais comunistas tão violentamente defendido pelos dois. Godard tinha esquecido dessas coisas. Mas como sempre foi um homem de câmeras paradas e idéias na cabeça, foi em frente. O filme se chamou "O Divertido Natal de Godard". Duas idéias definiam o mote do filme: uma, culpar os yankees pela degradação dos valores natalinos. Duas, imaginar Papai Noel como uma espécie de Marx moderno, tentando preservar suas ideologias e ao mesmo tempo tendo de faturar alguns fazendo propaganda. Colocou o Jean-Paul Belmondo como o bom velhinho, com uma bela pança postiça na barriga e um capuz vermelho cobrindo o rosto todo com quatro furos para os olhos, nariz e boca, ao invés do costumeiro gorro. Ao invés do personagem ser chamado no filme pela denominação francesa, Pere Noel, o filme todo ele é chamado de Santa Claus. Depois dos créditos, o filme abre com uma tomada externa de uma gigantesca fábrica com o logo da Coca-Cola, e uma legenda embaixo escrita "Atlanta, EUA". Em seguida, a câmera fixa-se atrás de uma cadeira na qual o Papai Noel está sentado, de frente para uma mesa, mas a visão do traseiro do velhinho nos impede de ver quem está sentado, já que a câmera não se move. Um estranho diálogo se segue, mais ou menos assim:

-Existe uma rejeição muito grande dos produtos americanos na França, estamos perdendo um ótimo mercado por bobeira. Por isso, queremos que você vá lá e faça aquela preza básica, distribua presentes e cocas a rodo para as crianças, que são o nosso alvo principal, já que elas convencem a família a seguir comprando o produto. E com a credibilidade da sua imagem, esperamos conseguir entrar nesse mercado. Sabe como os franceses são, adoram fingir que não gostam da gente, mas quando isso significa a perda de dólares, temos de tomar atitudes.
-Isso vai contra todos os meus valores, e contra todas minhas atribuições. Já tive que mudar a cor das minhas vestimentas e do meu saco de presentes para vermelho, e agora isso?
-Você deveria ter pensado nisso quando vendeu os direitos de exploração da sua marca para a gente por 100 anos. Agora, trate de se mexer e justificar os milhões depositados na sua conta na Finlândia. E pela última vez, as renas também precisam das roupas especiais com o nosso logo. Elas possuem muita visibilidade entre a criançada. Coloque também um nariz vermelho numa delas, e chame-a de Rudolph, nome de um dos criadores da fórmula da Coca. A nossa equipe de marketing garantiu que isso será um sucesso, vai rolar até revistinha em quadrinhos. Agora, se manda daqui e volte com belos números pra cá.
-Ok.

Um desolado papai Noel se levanta da cadeira e sai do recinto. Mesmo assim, não podemos ver quem estava na mesa falando com ele, por culpa das sombras que os envolviam.
Corte, e a câmera vai para uma praça, com uma legenda escrita "Paris" embaixo. Noel está sentado, vestido a caráter e bebendo uma garrafa do que se poderia dizer ser um vinho, pela coloração do líquido. Com o capuz na cara não podemos ver, mas é nítido, pelos seus gestos e sons, que ele está chorando. Segue-se meia hora do filme no qual tudo o que vemos é o pobre Noel vagando solitário pelos becos parisienses, tentando interagir com os locais, resultando em patéticas cenas de escárnio. Em certo momento, ele avista um grupo de moleques fumando cigarros atrás de latas de lixo. Resolve chegar perto deles, e ouvimos um diálogo entrecortado por imagens de coelhos sendo extirpados e procissões típicas da idade média, sempre com o áudio da conversa.

-Molecada, esse negócio de cigarro não está com nada. Vocês sabiam que um dos produtos usados na fórmula da Coca-Cola, como essa garrafa que tenho na mão, é a Cocaína?
-É? E daí?
-Daí que... vocês sabem... cigarro para a cocaína...
-Você é o Papai Noel?
-Sim, sou.
-E você não deveria estar dando presentes para a gente? Tipo, fingindo ser bonzinho, dando conselhos, reclamando da gente estar fumando, e tudo mais?
-Sim, eu deveria.

As crianças riem exageramante, e um dos guris dá um belo pontapé na canela do Noel, que caí no chão. As crianças saem correndo. Noel murmura:

-Está errado. Está tudo errado. Jesus castiga seu pobre servo que se vendeu para o diabo. O que faço? Pago a multa rescisória de 500 milhões de dólares?

Então, surge uma das renas na frente de Noel. Estranho, ele tinha estacionado o trenó num anexo na praça a qual o vimos chorando antes. Sem mover a boca, ouvimos então ela dizer para o bom e marketeiro velhinho:

-És um porco pronto para o abate, escravo do Capital.
-Só me faltava essa, uma rena falando comigo. Minha mente também se volta contra mim?
-Querias o fim da desigualdade. Querias a união dos povos. O que queres agora?
-Eu não tenho culpa! Falo da contradição que existia entre o meu discurso e a realidade. Todos aqueles duendes não trabalhavam de graça. E não tinha mais como ressarcir os desejos de todas as crianças do mundo e ao mesmo tempo pregar os benefícios da luta de classes! Que criem então duendes de puro altruísmo, capazes de trabalharem de sol a sol apenas pelo bem dos seus corações!
-Não conheces a propriedade de facto? Não conheces o poder do laço? Não conheces a pluralidade das regras? A invencível carga do medo? Os direitos de um não podem se sobrepor ao bem maior! Estamos falando de duendes aqui, certo? Anões? Melhor ainda.
-E o meu contrato? O que faço?
-És imune às leis empregatícias norte-americanas. Faça valer a tua luta através da imposição dos bons calotes.
-Falamos da Coca... sabe como é...
-Falamos da luta. É inevitável. Tu tens todas as cartas dos fedelhos deste mundo. És um símbolo. Coca quem?
-Falou, sua rena maluca. Você me convenceu. Me liberto das obrigações capitalistas. Volto a ser o senhor dos martelos e pás e o escambau. Mas vou manter a cor vermelha, mó stile. O que acha?
-Ótimo. Volto para o trenó, e nós nunca conversamos, para o bem dos fatos. Aponte para mim quando passarmos por Barmen, na velha Westphalia.
-Barmen? Não me diga que você...


A rena ficou muda. Noel tentou de todas as maneiras, mas ela não mais falava, tendo então voltado ao seu velho e natural estado irracional. Noel tentou entender se tinha mesmo tido uma conversa daquela ou se tinha sido uma alucinação. Mas era irreversível. A decisão era tomada. Depois, Noel pegou todas as garrafas do saco e as jogou violentamente no Rio Sena, numa bela tomada panorâmica. Corta, e na última cena, um trôpego Papai Noel é visto numa loja de departamentos, com a legenda "New York" embaixo no início da cena, com diversos homens de terno do lado (pelas expressões, podemos notar que se tratavam de advogados) e entretendo as crianças da loja, ouvindo seus pedidos numa fila e depois dando uma garrafinha de Coca de brinde para elas. Corte, e a última cena mostra uma rena morta, caída no meio de um campo de trigo, envolta por poças e poças de sangue, e Godard move a câmera contra ela num delicado zoom, parando somente quando a tela toda é tomada pelo seu olho. Então, uma legenda aparecia embaixo, com os seguintes dizeres: "mas já se tornara impossível distinguir quem era porco, quem era homem". Essa última legenda, que se constituía numa citação-plágio e que não fazia nenhum sentido dentro do filme, transformou-se numa grande fonte de problemas e explicações para Godard. Numa entrevista, um repórter foi fundo na questão:

-A citação Orweliana no final do filme não se constituía de um plágio forçado e desnecessário?
-Não. Se todos deveríamos ser iguais e ter direito às mesmas coisas, então qualquer obra também passa a ser de direito de todos. Eu posso reescrever um livro inteiro famoso, assinar o meu nome e ainda sim estaria certo. Não era plágio, era auto-afirmação.
-Ok. Esse raciocínio vale para você também? Se por acaso um Luc Besson da vida (a entrevista era recente) chegasse e dizesse que iria refilmar O Acossado sem pagar os devidos direitos, declarando estar exercendo uma "auto-afirmação" e colocando o Bruce Willis, a Gisele Bundchen e um monte de táxis envenenados no filme, você aceitaria isso livremente?
-Uhm... qual era o telefone do meu advogado mesmo?


Esse era o Natal para Godard, no final das contas.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Papai Noel negativo

Decidi reformular um Papai Noel só pra mim, dar-lhe medidas que me parecessem as mais adequadas. E confesso que não tive que pensar muito. Eu já andava com alguém na cabeça. A saber: Theodor W. Adorno. Exatamente, Adorno é o meu Papai Noel.

Caramba, eu estava lendo Minima Moralia e, olha, não tem como não se convencer de que ele não está lhe dizendo a verdade, absolutamente toda a verdade. E só por causa do tom. Nessa mesma linha, tem um Benjamin, que é um cara sussa, que fala com você de igual pra igual. Só uma palavra ou outra trai que, bom, ele não curte Coca-Cola assim tão de boa como você. Mas o Adorno... Dramático, me lembra um Isaías. Por sinal, é uma fala bíblica que poderia perfeitamente lhe servir de divisa: “O mundo jaz no Maligno”. O que é o mesmo que afirmar, como ele afirma, que “Não há mais nada de inofensivo”.

"Tchururu, tchururu, tchu..."

Para um Natal desprovido de ilusões, algo que, enfim, tão logo termino de escrever, revela-se um contra-senso, Adorno. Já ouço vocês cantarem “Um frankfurtiano incomoda muita gente / Dois frankfurtianos incomodam, incomodam muito mais”. Mas eu não ligo, porque vocês e eu passaremos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Christmas Time is Here

Estava procurando uma imagem que sintetizasse o Natal, e me ocorreu um filme – The Royal Tenenbaums. Especificamente uma cena. Royal Tenenbaum está tentando se reconciliar com sua filha, Margot Tenenbaum. Ele a leva a uma sorveteria e, como é de seu feitio, lhe diz alguns disparates. Ao fundo, toca Christmas Time is Here, do Vince Guaraldi Trio, música do filme de Natal dos Peanuts, se lhes escapa.

Adultos infantilizados e crianças precoces: não consigo pensar em algo mais natalino que isso. A infantilização dos adultos vocês devem compreender que é obra do consumismo desenfreado. Quanto à precocidade das crianças – bom, acho que ninguém é mais afetado que elas por essa história toda da magia do Natal, quando a boa vontade renasce entre os homens e o melhor de nós vem à tona. As coitadinhas, então, fazem de tudo pra serem boas e se culpam quando – decentes como são – descobrem que não conseguem. Idealizar as crianças desse jeito é só um dos males de se ler muito J. D. Salinger.

TETÉIA DA SEMANA

Beverly D'angelo

Estrela (?) da imortal (??) série de filmes Férias Frustradas. O exemplar mais famoso da série, além do primeiro filme, era o terceiro, Férias Frustradas de Natal. Tendo de aturar o mala-mor Chevy Chase do lado, Beverly pouco pôde fazer além de contornar as caretas e expressões sem graça de seu parceiro de cena. Mas o filme virou um crássico de Natal da Sessão da Tarde (mas não o são todos os filmes que passam nessa sessão? Os caras amam colocar filmes natalinos nessa faixa), e será, logicamente, futuramente dissecado pelos experts desse blog. Fora a série, Beverly se destacou também no... e naquele outro clássico, o... há, teve também aquele baita filme, ganhou Oscar e tudo, o... é, bem, a vida é assim mesmo, fazer o quê. A, tá: ela foi parceira do Al Pacino por mais de vinte anos. Sem jamais se casarem. Al Pacino, que nunca viu um altar na vida. Uhm, deve ter sido um belo de um contrato... cala a boca, Progressista. E o Al Pacino nunca fez nada de interessante quando se trata de Natal. Então, dane-se ele.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Fomos ao cinema ver O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (com carinho)

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, numa versão menos árida pra postagem anterior:

Três razões para se ir ao cinema ver O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford:

  • a fragilidade e hesitação de Casey Affleck, sem os tiques de Giovanni Ribisi.

  • a fantasmagórica cena em que o bando de Jesse James intercepta um trem, logo no início do filme.

  • a estadia dos irmãos Ford na casa de Jesse James, destacando-se novamente a composição de Casey Affleck pra Robert Ford sentado na cadeira, esperando a morte certa.

Fomos ao cinema ver O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Uma obra, se bem sucedida, é do tamanho de suas pretensões. Bem, apesar da ousadia da forma e das afirmações feitas pelo roteiro, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford não é imenso como seu título nem sublime como as paisagens que lhe servem de pano de fundo, porque falta à própria abordagem da figura de Jesse James a grandeza do intemporal. O que está em jogo é uma questão sociológica, que poderia muito bem ser derivada para o universal, mas que acaba circunscrita a um discurso muito familiar a nós, com explicações e conclusões muito contemporâneas.

É irônico que logo Brad Pitt incorpore Jesse James num filme cuja proposta é analisar a fama e o culto das celebridades, ou o mito analisado sob a estética do mito. Que se trate de um épico, ou melhor, que retrate a trajetória de seu protagonista epicamente, só reforça o esvaziamento dessa vida. Aliás, esse esvaziamento é ressentido em todas as personagens e acentuado pelos longos planos e pausas. A aridez e vastidão das paisagens comunica uma desolação que é própria de um mundo sem indivíduos com vontade e desígnio autônomos. Na radiografia de uma celebridade, profundidade psicológica só pode se dar como uma patologia, e Jesse James é um homem atormentado por alucinações, o que o leva a preparar sua morte pelas mãos de Robert Ford, o único personagem com a mesma determinação que ele e, portanto, capaz de enxergar além do mito.

Mês de Natal - Das tradições natalinas aos devaneios Caprianos

Nós não somos Papai Noel, mas gostamos de aproveitar bons clichês para dizer que traremos a vocês belos presentes. Aproveitando o fim do primeiro ano do blog, queremos mostrar toda a nossa gratidão com vocês que acompanharam nesse tempo as loucuras e verdades da vida escritas nesse humilde espaço. Por isso, com as mãos trôpegas e o coração transbordando das legítimas emoções requeridas pelo momento, declaro a abertura oficial do Mês Especial de Natal do Fomos Ao Cinema. Assim como foi feito no já lendário (numa maneira Jesse James de ser) Mês Lindsay Lohan, um mês inteiro com textos abordando toda a mística natalina e o explosivo papel representado por ela na cultura pop.
O otimismo e a simbologia redentora da data, tão explorada por inúmeros filmes, livros e o escambau e que encontram sua melhor representação nas gloriosas obras de um Frank Capra da vida, esse homem que era até um certo ponto ingênuo no seu inverterado otimismo, e pelo qual todos agradeceram de joelhos no pior momento da história da humanidade; os esforços obstinados de um Godard, para quem o Natal significaria o ideal comunista-igualitário representado pela vermelhidão socialista de um Papai Noel da vida, cuja imagem imortalizada para o mundo, do velinho barbudo, bonachão e gordinho, seria nada mais, nada menos, do que uma alegoria com o alemão mais bonzinho e utópico de todos, Karl Marx (e o bônus: seria Engels uma das renas?) ; uma análise completa das cartas de Natal enviadas por Jean Paul Sartre, um homem de idéias, existencialismos e panetones (que baita cozinheira era aquela Simone de Beauvoir!); os filmes de um Ernest, criadores de uma das maiores mitologias natalinas da nossa era (Ernest vai ao Acampamento e o escambau); os melhores filmes de Natal já feitos, e aqueles que nós gonzonicamente juramos pelas suas existências; a solidão que por vezes caracteriza o 25 de Dezembro, exposta pelas trágicas obras de um Tim Allen, o maior comediante de ferramentas da história da humanidade e com uma visão de tal alcance que lhe permite enxergar essa época como o matadouro de todas as esperanças, a antítese Capriana na sua máxima expressão; o Natal tropical, quando tentamos fingir que neva em São Paulo para não ficarmos de fora da festa; e muito, muito mais. Preparem a ceia e reservem três lugares para os Camaradas, lógico, e vê se não economiza nesse tender não, em, jão? It's A Wonderful Life, apesar de todos os pesares.