sábado, 22 de dezembro de 2007

Yankee Swap

Final de ano, amigo secreto na firma. A gente tira quem não quer, diz o que não deve; mas abafa. Pra cá, eu reservei coisas menos classe média. Mas quem quiser algo do tipo, vai pro shopping.

Natal, que é o frenesi da classe média, só tem paralelo mesmo com o Carnaval, quando as havaianas ganham muita purpurina e lantejoula, isto é, muito glitter e paetê. Aí, a classe média, muito família, fica acuada, porque toda essa catarse da pobreza e do luxo assusta. O Natal, não; o Natal é tempo de sublimar toda a energia sexual em consumismo. Muito, muito mais bonitinho.

Comigo não é diferente, e eu comprei uns três filmes. Lubitsch, Ford e Capra. E, claro, vou chorar assistindo A felicidade não se compra. Classic Hollywood é tipo o Novo Testamento do pequeno-burguês.

"Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar
E vem comigo dançar, dançar..."

Aliás, tive uma experiência espiritual anteontem, no Fifties, quando um grupo de descolados sentou na mesa ao lado daquela em que estava eu e o Camarada Progressista. Era quase 1 da manhã, então a espiritualidade ia alta. Só sei que comecei a pensar em que tipo de pessoa eu queria ser. Mas você vê, tem coisa mais classe média que epifania numa hamburgueria em Moema? Só faltava eu morder o Onion Burguer, o creme de queijo cair e queimar minha perna, e eu finalmente compreender que o sofrimento e, por tabela, a realidade, é uma ilusão. Dinkin flicka.

***

Preocupar-se com algo é o mesmo que dar importância a algo. Definição que tem o defeito de recorrer a um termo a que também falta a auto-evidência de “pensar”: preocupar-se com algo é pensar em algo. Trata-se de um insight.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Sartre e as cartas de Natal

Recentemente, foram descobertas cartas escritas pelo filósofo existencialista, humanista e marxista Jean-Paul Sartre. Elaboradas pouco antes da morte do escritor, em 1980, eram basicamente saudações natalinas para pessoas que foram importantes na sua vida, já mortas ou não. Podemos notar nos escritos os arrependimentos, dúvidas e considerações sobre eventos fundamentais no século XX. As cartas acabam funcionando como uma espécie de testamento intelectual do filósofo, usando palavras duras e incisivas para clamar pelo seu legado. O Fomos ao Cinema, através de um leve e necessário tráfico de influências dentro de renomadas instituições acadêmicas, teve acesso às últimas palavras do bardo francês, e publica aqui, com exclusividade.


Paris, França, 24 de Dezembro de 1979
Para: Simone de Beauvoir
Minha querida companheira (sei que adora quando me refiro a você dessa maneira). Preciso te dizer algo que ficou preso por muitos anos dentre meus pensamentos e ideologias. Algo que ficava lá no fundo, escondido entre meus latidos ontológicos e metafísicos. Conheço-te fazem bons 56 anos, tempo no qual apoiei todas as tuas causas e ideais. Que bom companheiro teria tido a mesma paciência? Digo, não quis parecer duro ou usar as palavras erradas, mas, convenhamos, havia uma latente histeriana freudiana na sua causa existencialista-feminista. Nunca enxerguei qualquer tipo de consistência teórica ou prática nas suas idéias. E aí, necessariamente, tenho de relacionar tais conclusões ao nosso longuíssismo, extenuante relacionamento afetivo. Aquela coisa de relacionamento moderno, aberto, franco, que tanto escandalizou os nossos iguais. Na minha juventude, quando queria que meus atos espelhassem minhas idéias, comprei todas as suas imposições. Tivemos os dois amantes, jamais experimentamos as bases de um relacionamento convencional, como quando o marido trabalha o dia inteiro para chegar de noite em casa com a mulher fazendo o jantar e os filhos pedindo dinheiro. Hoje, sinto que queria, verdadeiramente, ter experimentado uma espécie de vida como essa... Digo, eu saindo de dia para, usando um exemplo, ir trabalhar na minha revista de leitura, a Les Temps Modernes, e voltando depois com você lá, com o cheiro dos alimentos impregnando seus vestidos baratos, e os filhos rastejando no chão de tacos de madeira do nosso velho loft parisiense. Eu reclamando da sua comida, já que imagino que a razão pela qual você escolheu ser uma filósofa ativista tenha sido sua total ineficiência gastronômica. Somente eu teria o direito de procurar amantes, e você, maluca, procurando evidências das traições nos meus pertences, mas jamais exteriorizando esses sentimentos; quando você saísse de linha e começasse a me pressionar por quaisquer que fossem os motivos, eu quebrando copos na parede, saindo pra tomar umas e voltando, despejando minha cólera de macho bêbado sobre você; meu lado Serge Gainsbourg, roubado e carpado por você e suas baboseiras feministas. Fui eu um homem? Não. Fui eu um rato? Fui eu um capacho? A culpa é sua. Nunca terei coragem de entregar isso, mas pô, tô levão só de ter escrito. Tô de Briks!


Paris, 24 de Dezembro de 1979
Para: Albert Camus
Queria eu começar essa carta dizendo "meu caro companheiro de lutas". Bem que queria. Mas não foi esse o caso, não é? O que deu errado entre nós, meu caro Beto? Digo finalmente que cansei de defender e elogiar você às custas de pancadas da sua parte, e pancadas de outros depois da sua morte. Falei maravilhas do Estrangeiro, não? Agora, quer saber o que eu REALMENTE acho da sua obrinha "existencialista-trash"? Sem o peso das amenidades que vivíamos na minha fase pré-conversão ao marxismo? Simples: uma grande bobagem. O maluco com o sol na cara vira e mete um balacho no árabe lá, a troco de nada. Grande porcaria. E depois, cinquenta páginas com o personagem preso divagando groselhas a respeito da incompreensão e crueldade de julgamento dos homens. Lixo! Você viveu a sua vida para defender uma única idéia: a de que a melhor coisa que se pode fazer é ser um bundão. O mundo caindo na sua cabeça, e você lá, sentado, coçando as partes baixas e matando pobres árabes no meio do caminho. Eu pelo menos escolhi um lado, não? Não quis ficar no meio, sentado no muro babando. Não é uma ironia você ter morrido pelas mãos de terceiros, sendo passageiro no carro daquele seu amigo cachaceiro? Olha aí, que beleza. Meu ateísmo não me impede de dizer que foi uma bela obra de justiça divina. Ler aquele seu livrinho O Homem Revoltado me deixou profundamente triste. Por saber que um fino intelectual com você se deu ao trabalho de perder o seu precioso tempo falando falácias contra mim e os marxistas, ainda que metaforicamente, já que era incapaz de dar nome aos bois, como sempre. Quando os católicos me colocaram no index, ouvi de longe as suas risadas. Até do lado deles era capaz de ficar em nome da sua causa. O ser e o nada, esse era você, Camus. Vejo daqui as luzes de Natal iluminando a cidade luz. Mais um dos meus 73 natais. Com você foram apenas 47, não? A existência precede a essência.


Paris, 24 de Dezembro de 1979
Para: Fidel Castro
Agora sim: fala, companheiro! O sonho da igualdade vive, respirando o leve frescor das praias cubanas! Não esmoreça, meu caro amigo Castro. Eu sei o nome da libertação. O nome do salvador. Daquele que irá reacender as chamas do Marxismo, com tal voluptosidade que não restará outra alternativa ao mundo do capital senão se curvar perante o bem comum. O nome é Mikhail Gorbachev. Logo Chernenko baterá as botas, e o virtuoso Mikhail ascenderá. Com ele no comando da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, poderemos ver de novo a bandeira vermelha tremulando para conquistas heróicas. Você estará logicamente do lado do futuro premier nessa. Espero viver para ver tudo isso acontecer, mas acho difícil. Gorbachev! Mais uma vez: GORBACHEV!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Clássicos Natalinos: O Natal Maluco de Ernest

Você jamais poderá considerar a sua experiência de vida na Terra completa se jamais tiver assistido a um dos filmes do Ernest. O Rei do Cinema em Casa, sessão de filmes vespertina do SBT. Criado em meados da década de 80 pelo ator Jim Varney, que nos deixou em 2000 vitimado por um câncer de pulmão (era um fumante inverterado), aparecendo inicialmente em comerciais de TV, o personagem acabou protagonizando a mais improvável série de filmes da história do cinema, começando em 1986 com o inacreditável O Acampamento do Ernest e terminando em 1998 com o mais inacreditável ainda Ernest vai ao Exército, a série teve mais de 10 exemplares. O mais lendário de todos esses é, sem dúvida, O Natal Maluco de Ernest, lançado em 1989. Custou 6 milhões de dólares e rendeu quatro vezes mais. É dele que falarei, logicamente.
Basicamente, as "tramas" dos filmes do Ernest consistiam em premissas totalmente implausíveis, meros pretextos para criar as situações cômicas dos filmes. Idéia roubada do lendário comediante W.C. Fields, estrela dos anos 30 e 40 e que cujos filmes também dispensavam qualquer tipo de lógica em nome do humor. No caso do Natal Maluco de Ernest, penso que eles chegaram perto da perfeição. Tem de ser muito, mas muito corajoso mesmo, para levar à frente um roteiro desses. Papai Noel (sim, ele, o pobre velhinho) resolve que não quer mais trampar no Natal, e vai até Orlando, na Flórida, lugar no qual mora o sucessor que ele escolheu. Sim, Orlando, Flórida. Não, não é por ser a casa da Disney, produtora dos filmes do Ernest. Mas voltando, as coisas dão erradas, o suposto substituto cria diversos empecilhos, o Papai Noel começa a perder a memória, e sobra então para o Ernest, no filme trabalhando como taxista, salvar o Natal. Sim, o Ernest. Salvar o Natal. Sensacional. Logicamente que todos os fatores que fizeram os filmes do Ernest clássicos supremos do trash estão lá: a atuação inacreditável de Jim Varney, algo para o qual não existem palavras capazes de se descrever; os coadjuvantes saídos direto do elenco do Estranho no Ninho, desprovidos de qualquer tipo de contato com aquela coisa chamada realidade; a direção gloriosamente camp de John Cherry, que dirigiu todos os filmes do Ernest. Considero o personagem uma clara alusão ao então presidente norte-americano Ronald Reagan. Sim. Reagan foi um ator pavoroso dos anos 40 e 50, uma espécie de Ben Affleck da época, desprovido de qualquer tipo de refinamento intelectual ou inteligência (algo fatal, já que atores bons normalmente são indivíduos de maior Q.I. que a média) , mas que pela cara apalermada e pelo jeito simpático e abobalhado acabou agariando a simpatia do público, até a insanidade suprema de ser eleito e reeleito para o cargo de presidente. Os anos 80 foram marcados por uma recessão brutal no país, enquanto Reagan jogava golfe para os jornalistas e fazia piadas com o também abobalhado imperador japonês Hirohito. Ernest foi um tapa na cara bem dado do ignóbil Ronald. Com o advento do Governo Clinton e com o fim da estética oitentista na cultura pop no meio dos anos 90, Ernest acabou perdendo o seu público. Mas pena que Varney tenha morrido justamente em 2000. Ano que um certo presidente também limítrofe assumiu a Casa Branca. Mas não lamentemos o fato de jamais podermos ver um hipotético Ernest vai à Faixa de Gaza. Ele foi para a Prisão, foi para a escola, foi para o acampamento de jovens infratores, foi até para o exército. Mas é do seu Natal que jamais esqueceremos. Em breve, mais memórias dos filmes Ernestianos, pelos outros camaradas, quem sabe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Lauren Graham

Estrela do finado seriado Gilmore Girls (RIP -2000+2007) e famosa também pelo seu papel no sensacional Papai Noel às Avessas (Bad Santa no original), filme já falado nesse mês especial pelo digníssimo e deveras natalino Camarada Moderado. Não deixou de ser surpreendente a mudança , da mãe modernete e linguaruda do seriado para o interesse romântico do Papai Noel boca-suja do Billy Bob Thorton. Um belo choque de realidade, não? Agora que o seriado foi para as cucuias, quem sabe não rola uma continuaçãozinha do filme? Sei lá, temo bastante pela carreira da senhora Graham, as coisas não andam muito fáceis não.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Un souvenir de Noël

Essa é de um Natal há muito, muito tempo, quando eu tinha 11 anos. E eu andava por aí com uma edição pocket de Macbeth, tradução do Manuel Bandeira. Banquo, Banquo, Banquo, eu ficava repetindo, que nome legal.

No meio da noite, só o apito do Homem do Apito, que eu nunca descobri quem era ele, ouvi um barulho, de a quem falta a calha na qual apoiava a botinha esquerda. Era Papai Noel, entregando um Super Nintendo no andar de cima, o décimo, do meu prédio. E o elevador? vão perguntar. O síndico na Praia Grande e o zelador tinha sumido já na antevéspera do feriado.

Papai Noel e a chatinha da Michelle, em 1992.

Todo o mundo da classe sabia que ela era mó piolhenta.

Esperei uns minutinhos, logo ele estava pintando no meu quarto. Não, naquela época não tinha esse perigo de acharem que era pedofilia. Alusões e piadas nesse sentido definitivamente não colavam. Ele levou um susto comigo acordado. Como se nunca tivesse acontecido antes, né, Noel?

– Oi. – eu falei.

– Affff, garoto. Cê devia de tá dormindo. – Papai Noel achando que devia falar assim porque era Terceiro Mundo, o português dele carregado de sotaque que até parecia o Ingmar Bergman recitando Os Lusíadas pra Liv Ullmann (e depois eles se divorciaram).

– Papai Noel, o senhor gosta de Proust? – essa falta de traquejo social das crianças, já vão perguntando se a pessoa gosta de Proust, nem oferece assento, uns bolinhos.

– Que que foi, rapaz? – ele puxou uma cadeira e sentou ali, debaixo da janela, suado; é, eu desconfiei de um habitante do pólo Norte estar suando; parecia pouco europeu. Pólo Norte é Europa? eu me perguntava na minha cabeça de moleque. E eu, adulto, respondo que é, sim.

– Papai Noel, o senhor é filisteu? – nessa hora, o velhinho se irritou de vez. Não falou palavrão, porque acho que o professor dele de português, querendo fazer bonito do mundo lusófono, disse que era uma língua tão nobre que não tinha palavrão. Daí que o Noel começou a falar estrangeiro comigo.

Papai Noel bancando a Wanessa Camargo:

"Ler também é cultura". Não me diga!

Mas aí, bem nessa hora, a minha mãe entrou e espantou ele com a vassoura e me disse pra fechar direito a janela e que logo que amanhecesse ia reclamar na portaria de qualquer um poder ir entrando assim. É coisa dos pais resolverem assunto de criança com um toque kafkiano. E até hoje, eu, na noite de Natal, ainda deixo a janela bem aberta, mas ele nunca mais voltou, nem nunca contribuiu com nenhum volume pra eu completar o ciclo da Busca.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Macaulay Culkin: Nós que aqui estamos por ti esperamos

Os dois natais mais abonados da história ocorreram em 1990 e 1992. Esqueceram de Mim 1 e Esqueceram de Mim 2. Os dois filmes somados ultrapassaram um bilhão de dólares em arrecadação. Um bilhão de dólares. Para fazer o segundo filme, o guri Caulkin levou para a casa (quer dizer, sua família malvada levou) cinco milhões de dólares, com apenas 12 anos de idade. Se corrigirmos esse valor pela inflação, hoje seriam 10 milhões de dólares. Sim, Giovanni Ribisi, você nunca vai ganhar nem metade disso por filme nenhum. Toda essa insanidade poderia ser considerada válida? O que essa série, que teve duas horrendas continuações lançadas direto para vídeo e com outros atores no lugar de Culkin, tinha de tão especial para ter conquistado tamanho êxito de público e ter feito de Culkin o maior astro daquela época? Eu, Camarada Progressista, impregnado pelo espírito natalino vivido pelo blog, venho aqui arriscar minhas tentativas de respostas. Quando o primeiro filme foi lançado, eu tinha apenas seis anos de idade, mas me lembro com clareza da onipresença do filme na mídia e nas discussões das rodinhas de conversas do pré-primário (hoje a molecada discute o Tropa de Elite e diz para os amiguinhos que eles deveriam "pedir para sair, senhor 02". Mas isso é assunto para depois).

Todos nós nos identificavámos com Culkin, o medo maior da infância de se ver sozinho, longe das barras dos pais, de ser abandonado, de estar à deriva perante um mundo cáustico e cruel, e de enxergá-lo por nós mesmos, e não mais com os olhos dos nossos progenitores. E justamente no Natal, data tão cheia de simbologias e cara aos infantos. Logicamente que a história do filme era bobinha, o que piorou ainda mais na continuação, supondo o absurdo que seria os pais deixarem para trás mais uma vez um filho, novamente na época do Natal, ele sendo atacado mais uma vez pelos mesmos meliantes do anterior numa cidade diferente. Pais relapsos, não? Deveriam estar totalmente calejados pelo trauma do primeiro acontecimento. Mas haviam milhões de dólares prontos para serem conquistados, e o negócio foi ir no seguro. O autor do roteiro dos dois filmes e criador de todos os personagens foi John Hughes, icônico diretor de filmes adolescentes dos anos 80, responsável por obras como Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco, entre outros. Se fosse escolher um motivo pelo êxito da série, seria esse. O toque cálido de Hughes se fez presente no primeiro filme. Mesmo com a trama estúpida e banal, e mesmo sabendo que esse filme fora feito para estourar as bancas nas bilheterias ao invés de buscar supostos êxitos artísticos, como acabou fazendo, Hughes lança mão mais uma vez da sua inimitável visão de vida. Ele sempre consegue fazer os espectadores se importarem com os seus personagens, já que olha para eles com uma sensibilidade aguçadíssima, dando tempo para eles resolverem seus conflitos internos e externos, jamais jogando o carro na frente dos bois. Tem um talento nato para cenas de maior intimidade afetiva e psicológica entre personagens, algo que é um calo no pé de diversos roteiristas e diretores famosos, mas que com ele sempre funcionam. Momentos como quando a mãe de Kevin (personagem de Culkin) voltando para buscar o filho numa van de um grupo de polka encabeçado pelo sensacional John Candy refletem essa sensibilidade com perfeição. Um momento pouco lembrado, perdido entre as confusões de Culkin com os ladrões (como eles conseguiram escalar o Joe Pesci para interpretar um deles, e como eles conseguiram convencê-lo a fazer a continuação, será sempre um mi$tério), mas que contêm todas as características que fizeram a justa fama de Hughes. O que matou os dois filmes artisticamente (ugh!) e ao mesmo tempo os fizeram estourar a banca foi a escalação do diretor. O ignóbil Chris Columbus, incompetente de marca maior e autor de alguns dos filmes mais cretinos já feitos (O Homem Bicentenário deveria ter garantido para ele duzentos anos de cadeia na chincha como punição), mas que inegavelmente sabia o que esperava a platéia daquele início da década de 90, tanto que foi autor de outro filme que quebrou recordes de bilheteria na época, o pavoroso Uma Babá Quase Perfeita.

Se o filme tivesse sido dirigido por Hughes, provavelmente não teria feito o mesmo sucesso, já que seu estilo mais sutil e discreto não seria capaz de movimentar as multidões ávidas por algo mais energético e burro. Por isso que, tristemente, Columbus foi necessário. A sua energia estúpida e exagerada , combinada com o olhar melancólico e belo de Hughes, foram mais do que suficientes para o sucesso da empreitada. Macaulay Culkin seguiu a trilha da maioria dos astros infantis, e se afundou em drogas, bebidas, escandalos sexuais (testemunhou a favor de Michael Jackson no escândalo de Neverland), jamais repetindo o mesmo sucesso. Oras, não seria essa sim a bela tragédia natalina, as lembranças de épocas mais gloriosas e vívidas, e a melancolia deprimente e negativa ocasionada pelas reafirmações desses sentimentos? Nós esquecemos de John Hughes, afastado do showbussiness e hoje vivendo nos cafundós do Judas em Connecticut? Não. Esquecemos de Culkin, elo perdido das nossas juventudes? Não, não nos esquecemos. Nos esquecemos de Chris Columbus? Bem que queríamos! Tentamos de todas as maneiras nos esquecer dele, mas sempre há algum produtor pronto para lhe dar novas oportunidades, como na péssima versão cinematográfica do musical Rent, lançado para as moscas no ano passado. Queremos a volta de Hughes. Queremos uma vida menos infeliz para Culkin. Queremos a prisão perpétua para Columbus. Papai Noel, where art thou?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Como John McClane salvou o Natal

O Natal, essa época cinematográfica, suscita vilanias e heroísmos na mesma proporção. É provavelmente a nota solene de que se revestem todas as coisas durante as festas que torna a data particularmente inspiradora de grandes e terríveis ambições, convocando respostas altruístas por parte daqueles que viremos a chamar nossos heróis. Cada ato ganha, então, uma eloqüência singular.

Por isso, tantas explosões, tantos terrorismos de última hora, ameaçando acabar com a mais ocidental das celebrações. De um contexto como esse é que nascem episódios inesquecíveis, momentos que se assomam à mente dos contadores de histórias muito adequadamente iniciados pela épica fórmula “Como fulano salvou o Natal”. Obviamente, não negligenciaremos tais heróis, nos quais, de fato, se deposita o melhor do espírito humano, e de forma tão concentrada que é inevitável que transborde num feito memorável.

E para abrir nossa infelizmente reduzida galeria (por falta de tempo dos colaboradores deste blog), como não poderia deixar de ser – John McClane. Trata-se de uma espécie de Heracles moderno. E, com efeito, supera o semideus, considerando-se que este levou, para realizar os Doze Trabalhos, muito mais tempo do que dispôs McClane, que salvou o Natal, por duas vezes, em apenas algumas horas, e sem qualquer patrocínio divino. (Notem que, curiosamente, quando o cenário não era o Natal, como nas duas seqüencias de 1995 e de 2007, o brilhantismo da série Die Hard se perdeu. O que ilustra a estreita ligação entre o significado desta época e o personagem.)

É, contudo, principalmente a motivação de John McClane que o faz maior que Heracles. Se um é levado a atender os pedidos de Eristeu, rei de Argos, talvez por uma penitência imposta pelo Oráculo de Delfos, ou seja, compulsoriamente; o outro cumpre com sua vocação heróica de maneira completamente altruísta, sob circunstâncias casuais. Isto é, se quisermos denominar acaso o nobre chamado para salvar milhares de vidas inocentes em perigo.

Neste ponto muitos talvez objetem, alegando que se trata de diferentes concepções de herói, inexistindo um termo de comparação suficiente. A estes, respondo que o espírito humano é o mesmo em todo o tempo, apesar de se colorir distintamente e que, se querem um exemplo de sacrifício semelhante ao do herói moderno, mas contemporâneo a Heracles, pensem em Antígona, que caiu em desgraça por amor a seu irmão Polinices. E nem menciono seu pai, Édipo, que, na verdade, agia movido por interesse particular, por orgulho.

Inesquecível!

Heracles obteve, como recompensa do cumprimento de seus Doze Trabalhos, a imortalidade e, assim, ascendeu ao Olimpo. Ora, o Olimpo de John McClane são as nossas mentes e corações, onde ele viverá perpetuamente incensado por nossa gratidão e admiração.

Quando coração era mais importante que músculos.

Nos dias de hoje, quando o obtuso Jack Bauer (que parece agora servir de parâmetro para composição de personagens de filmes de ação, inclusive para o último Die Hard) vem usurpar, em nosso imaginário, o sagrado lugar reservado aos heróis, é mais do que necessário que nos voltemos ao passado, à figura original de John McClane, a fim de recuperar nossos valores e repensar que rumo queremos dar à própria trajetória do gênero humano.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Helena Bonham Carter

Atriz inglesa, musa-mor do maluco de plantão e diretor nas horas vagas Tim Burton, que levou essa história de musa tão a sério que até se casou com ela. Burton é fascinado pelo Natal, sempre trabalhando o lado sombrio e "gótico" da data nos seus filmes. A senhorita Bonham Carter, com seus trejeitos de atriz vitoriana e suas tendências para o burlesco, acaba caindo como uma luva no universo Burtoniano. E ela estava no Clube da Luta. E como estava: sua personagem é vital. Mas aquele era um filme natalino? You tell me.

sábado, 8 de dezembro de 2007

A mulher faz o homem

Neste Natal, tomaram minha masculinidade, e ainda estou em via de resgatá-la. Foi num encontro às cegas. Tá, nem tanto assim: eu já tinha visto a menina. Mas o constrangimento era o mesmo, com você encontrando a pessoa e pensando “onde é que eu estava com a cabeça?”. O encontro às cegas, que é das reminiscências arcaicas mais pronunciadas na atualidade, aponta para um tempo em que as pessoas não tinham escolha, quando o amor não acontecia nos termos e condições democráticos que agora acreditamos imprescindíveis.

Regressivos assim, ela e eu nos dispusemos inconscientemente a uma dança de morte, em que um tentava conquistar a supremacia sobre o outro. Não, não foi com essa clareza de termos que a coisa toda se manifestou pra nós. Na verdade, ainda que vocês não acreditem, eu costumo dar espaço às pessoas, contanto que eu tenha o controle da situação. Em outras palavras, ritualisticamente ocupo a posição masculina, macha. É necessário que eu conceda esse espaço; do contrário, como quando o outro o toma por si próprio, como dessa vez, eu me perco.

E o pior de tudo: ela o fez naturalmente, como se devesse ser assim. E parece que devia mesmo. E eu fiquei confuso e assustado como uma menininha.

Eu simplesmente não sabia o que fazer. E ela era extremamente compreensível com a minha situação, mas ao mesmo tempo não me dava brechas. Porque ela estava, afinal de contas, usurpando a posição macha, agora posso compreendê-lo claramente. Deixem-me caracterizá-la sucintamente, assim vocês concordarão comigo. 1) Ela determinava se sentávamos (e onde sentávamos) ou se andávamos. 2) Ela sugeria os tópicos da conversa e os desenvolvia. 3) Ela falava de questões e momentos difíceis da vida dela já superados. Já superados. 4) Ela citava filmes, peças e músicas que eu desconhecia. 5) Ela não ria dos meus comentários engraçadinhos. 6) Ela era mais prática do que eu.

Agora, da minha parte: 1) eu acatava; 2) eu olhava pra baixo, pra ponta dos sapatos, e chutava pedrinhas; 3) eu gaguejava, perplexo; 4) eu balançava a cabeça concordando, totalmente ignorante; 5) eu me desesperava; 6) eu queria fugir.

Em resumo, ela fez com que eu sentisse completamente dispensável, como uma garota. E ainda piora, pois eu estou em casa, doido pra vê-la novamente, sob o único argumento de que “ela tem uma coisa que eu não sei explicar o que é”. E eu acho que estou a fim. É, eu devo estar a fim. Idiota. Eu me transformei vocês sabem no quê. E eu acho que estou atraído por uma moça porque ela me lembra um vocês sabem o quê. Não que eu tenha alguma coisa contra quem se sinta atraído por vocês sabem o quê, mesmo sendo fundamentalista e tudo, porque o meu fundamentalismo é, nesse sentido, bem limitado.

Presumo que os bons espíritos do Natal, cuja missão é redimir os aparentemente incorrigíveis, querem que eu me arrependa da minha inócua misoginia e do meu machismo auto-indulgente. Camarada Fundamentalista é, afinal, um título comum aos dois gêneros.

Eu preciso que ela me diga algo. Eu não ligo se ela continuar ocupando a posição masculina, contanto que ela me trate com a mesma condescendência e maciez que eu costumava dispensar às mulheres. Na verdade, seria perfeito. É tudo que eu sempre quis – que elas fizessem tudo, porque eu sempre estou tão, tão cansado –, apesar de nunca haver imaginado que isso significasse ter de renunciar, em parte, à minha masculinidade. Mas, também, a gente acaba percebendo que não era tão importante, que dá pra se viver sem. Que é só o estúpido orgulho masculino! E que é o masculino, enfim? Uma convenção! Chocolate, bebês, cuidar do cabelo, fazer as unhas, não é tão ruim assim.

Eu de vestido. Eu de saltos. Eu falando que nem criança. Eu magoado. Eu frágil. (Espero que ela esteja lendo isso.) Eu me fiz de difícil. Eu disse que não estava rolando. Mas é que eu estava inseguro, só porque, no final das contas, ela está no controle. Você está no controle. É um milagre de Natal. Ho, ho, ho.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Especial Natal: Papai Noel às Avessas

O Natal, período de compras, ajudar o próximo e enriquecer o Greenpeace. Como o Natal é legal, sobretudo para os papais-noéis brasileiros: aquela marofa oriunda da tropicalidade e está lá o coitado, suando naquela roupa vermelha.

“Mas os shoppings têm ar-condicionado, né!”, grita alguma menina do fundo da sala.

Sem dúvida. Muitos shoppings de fato têm. Mas shopping de pobre é outro esquema, minha filha, fica lá um duende de roupa verde apertada abanando o bom velhinho (mas cadê os anões?), as vezes nem isso. Papai Noel Brasileiro tinha que ser de chinelo , shorts e uma barba branca bem rala, pois ainda é o bom velhinho, senão vai parecer padre, e bem, padre e criança, ainda com colinho, não dá muito certo.

Enfim lembrando desse maldito calor que nos ronda, por conseqüência, nossa tropicalidade, pensei num filme que vi recentemente: Papai Noel às Avessas ( Bad Santa, 2003).

O filme mostra dois trapaceiros: um, Billy Bob Thornton em sempre sensacional atuação, se fantasia de Noel; o outro, o “comediante” Tony Cox, se fantasia de duende. Assim, ambos costumam trabalhar em grandes lojas de departamentos a fim de roubá-las. Numa dessas lojas de departamento os personagens se deparam: com a crise da parceria bem sucedida até então; a intromissão de um chefe de segurança(Bernie Mac em ótima atuação) e a aproximação de Thornton com um menino gordinho que parece meio retardado. E todos os fatores somados dão o tom para o desfecho.

Na verdade, o longa tanto através do humor corrosivo presente na trama, como na própria atitude e personalidade do protagonista, acaba satirizando o “espírito de natal”; aquele espírito superficial que toma parte das maiorias das pessoas nesse período. Enfim, ponto para o personagem principal que conduz muito bem o longa, sobretudo por causa de sua tropicalidade, que faria o Zé Carioca perder as penas de inveja.

E não sei se Billy Bob Thornton sempre interpreta ele mesmo nos filmes: um cara durão, depravado, safado e de bom coração. Mas sempre quando faz isso é divertido, muito divertido. Ele até parece brasileiro, pela sua tropicalidade inserida na personagem, aí fica fácil imaginar um papai Noel brasileiro., a la Mr. Thornton, lógico.