terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Top 5- Melhores filmes natalinos, Parte 2

1- A Felicidade Não se Compra - 1946
Das mais básicas noções de humanidade e respeito aos nossos semelhantes que comumente são usadas para reger a sociedade, pouco tinha se sobrado no "mundo" que conseguiu resistir à Segunda Guerra Mundial. Hoje, ficamos assombrados vendo a Guerra estúpida do senhor Bush Jr. no Iraque, e nos revoltamos ao ver os resultados trágicos dessa brincadeira do petroleiro de araque do Texas. Imagine então o panorama existente quando se sai de uma Guerra que foi capaz de matar 60 milhões de pessoas. Que viu crianças (mais precisamente dois milhões) serem exterminadas pelo simples fato de existirem, que viu cidades serem expostas aos efeitos devastadores das bombas atômicas. E todas as espécies de coisas feias e degradantes que vieram com aquela Guerra. Tipo, era meio difícil acreditar no gênero humano depois de tamanho açougue. Não existiam motivos para se andar com a cabeça em pé, ou em crer em qualquer sonho de mundo melhor. O momento mais sombrio da história da humanidade, sem dúvida. Pelo menos, isso era o que se pensava. Mas com certeza não era a idéia de um senhor siciliano que imigrou para os EUA na adolescência, e que se tornou um símbolo do cinema. Frank Capra, um homem de chamados. Que quando viu sua pátria adotiva cair de Joelhos pela horrenda crise de 29, fez uma série de filmes que levantou a moral do seu adorado povo. E que não se conformou ao ver a desesperança estampada no rosto dos seus semelhantes depois da carnificina, que ele mesmo testemunhou ao vivo (fez filmes promocionais para o Governo americano durante o conflito). Pegou um arremedo de roteiro que apodrecia nos arquivos de um estúdio, formou sua própria companhia de filmes e fez o filme que acabaria, por mais clichê que isso soe, trazer de volta a confiança nesse troço chamado humanidade. A Felicidade Não se Compra, não só o melhor filme de Natal de todos, mas também um dos melhores filmes de todos os tempos.


Conta a história de um homem desiludido, George Bailey (interpretado pelo James Stewart), que sonha desde a infância em sair da pequena cidade que vive (Bedford Falls, cidade mais famosa do cinema) com a família, que herda o comando do pequeno banco de empréstimos depois da morte do pai e que consegue, mesmo com a ganância de um rico empresário local, ajudar os pobres moradores locais a comprarem suas tão sonhadas casas com empréstimos camaradas. Surdo de um ouvido ao salvar o irmão de um afogamento, acaba não indo para a guerra (enquanto o seu irmão vira um herói condecorado), o que só aumenta seu desconforto com a vida. Então, numa noite de Natal, acaba entrando numa situação aparentemente sem saída, resolve então se suicidar, e é impedido por um anjo, que resolve lhe mostrar como seria a vida na cidadezinha se ele não tivesse nascido. Aí... Bem, não revelarei mais nada. A maneira que Capra constrói a narrativa é brilhante. Seu protagonista passa o filme todo ajudando as pessoas, se opondo aos poderosos locais, mas sem jamais mostrar qualquer tipo de apreço pela sua pacata vida. Nem mesmo nós, os espectadores, percebemos durante o filme o quanto ele fazia pelo seu povo. Golpe de mestre, que acaba fazendo o final ser ainda mais impactante do que já seria. James Stewart, que é considerado por muitos o melhor ator da Classic Hollywood (ao lado do senhor Humphrey Bogart, obviamente), empresta toda a dignidade da sua persona cinematográfica para o personagem, trazendo também um inesperado lado sombrio e desolado para o filme, o que foi surpreendente, considerando que nos filmes pré-guerra Stewart sempre interpretava personagens engraçadinhos e sem maiores dilemas. Ele entendeu direitinho o espírito do filme e da época. O ser humano tinha um lado terrível, mas no final todos nos redimimos através dos nossos semelhantes. Pena que na vida real ele tenha se perdido no meio de um patriotismo irracional, que o tornou capaz até de, em nome do Macarthismo, espionar colegas de profissão, incluindo o próprio Capra (muitos entenderam o Felicidade Não se Compra como uma crítica à ganância dos bancários, algo que na época soava para o governo como um ato comunista), por mais incrível que pareça. Mas ele sempre considerou o filme como o seu favorito, apesar de tudo. A mensagem do filme ajudou o mundo a sair da lama na qual estava atolado, e sua importância é incalculável. Foi eleito pelo AFI, American Film's Institute, na sua lista de 100 filmes mais inspiradores já feitos, como o filme mais inspirador de todos os tempos, figurando em primeiro na lista. Sintomático. O pior momento da nossa história exigiu um filme que estivesse à altura de tamanho estrago. E Capra e o A Felicidade Não se Compra se mostraram aptos para varrer a sombra que pairava sobre o gênero humano para trás. A mensagem do filme pode soar ingênua para alguns no mundo cínico que vivemos hoje. Mas não havia nada de ingênuo ou equivocado nesse filme. Somente o restabelecimento de uma verdade. De que não merecemos perder a confiança uns nos outros por culpa de fascínoras desmiolados. E quer mérito maior do que o filme ter inspirado a sensacional saga De Volta Para o Futuro (a trilogia é baseada na cena na qual James Stewart vê como seria a vida sem ele)? Um Feliz Natal, que nos ilumina até os dias de hoje, logicamente.

Frank Capra, explicando numa entrevista o que gostaria de fazer com a cara do seu cowboy desafeto John Wayne

December 25

Como é Natal, me permiti brindar com champanhe, quer dizer, espumante, porque champanhe mesmo é amarga demais pros paladares aqui de casa. Só que, como eu nunca bebo, um golinho apenas me deixou zonzo e comecei a alucinar. Eu bebo e alucino, pois é. Suspension of disbelief e próspero ano-novo para todos!

Papel Noel com o saco da Dolce & Gabbana, Michael Scott, gerente da Dunder Mifflin Scranton, e Ernest, sentados na sala, assistindo Matrix Reloaded. Não, isso não. Falei que a gente ia assistir Irmã, La Douce. “Mas não é filme natalino”, objetou Ernest. Nem Matrix Reloaded, Ernest.

Cada um curte o Natal como quer, mas principalmente como pode. Mas sabe o que é mais importante? É ter quem a gente ama perto da gente. Natal é isso: as pessoas. Que haja quem pense diferente é algo que me surpreende. Que me choca. Pois é, Michael, pois é.

Mas ele e o Ernest estão, cada um a seu modo, na restrita galeria daqueles que salvaram o Natal. Então, a gente respeita. Papai Noel é que mudou, muito materialista. Tá, isso ele sempre foi; eu é que, criança, não sacava essas coisas. Um sujeito que é pai, mas cuja idéia de relacionamento consiste em aparecer uma vez no ano com um presentinho? Ele ainda tentou comprar o meu amor. Mas nem me conhece: trouxe um box do 24 Horas. “Você gosta de seriados, né?” Nem me conhece. Pelo menos dá pra passar pra frente e faturar algum.

Jack Lemmon, esse sim é ponta firme. Ele e a Shirley MacLaine, antes dela descobrir que era Deus. Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Billy Wilder. Por que o Billy Wilder nunca fez filme de Natal? “Mas ele fez”, interrompe o Ernest. O Ernest, tipo, manja muito de cinema.

Não, quem fez foi o Lubitsch. A Loja da Esquina, com o James Stewart. “Mensagem para você, com o Tom Hanks e a Meg Ryan, era refilmagem desse”, Ernest fez a lição de casa, então. James Stewart, sim, senhor. Salvou o Natal de muita gente. Quantos melancólicos desistiram de um gesto desesperado só por causa de A Felicidade Não se Compra?

“É mesmo”, todos dissemos. Inclusive o Papai Noel. Dissimulado esse velho, sei que nunca viu o filme. A desculpa dele é que é p&b e cansa muito as vistas. As tuas retinas tão fatigadas, né, Noel? “É, isso mesmo”, sonso. Aí eu falei que quem devia de ser o Papai Noel é o James Stewart. Nessa hora, os dois, Papai Noel e Ernest, se queimaram. O Ernest é mó Dwight Schrute do Papai Noel. O clima ia ficando pesado, então o Michael falou que era hora do karaokê.

Ernest nos tempos do College: e era só o começo, Papai Noel ainda ia se gabar de quando faturou o primeiro milhão. "Natal, época de lembranças felizes."

E eu continuei só nos golinhos. Alguém estava mantendo a droga do copo cheio, mas eu nem ligava. Michael deu uma de Scarlett Johansson em Lost in Translation: “Gonna use my arms / Gonna use my legs / Gonna use my style / Gonna use my sidestep / Gonna use my fingers / Gonna use my, my, my / Imagination, oh-ohh”.

“E a namorada?”, perguntaram. Nem sei, gente, nem sei. Eu comecei a achar que os três estavam ali pra forçar um A Christmas Carol muito do atropelado. “Agora eu sou o Scrooge, então?”, eu gritei pra aquela corja, já quebrando uma garrafa de cidra na beirada da mesa e puxando eles pra briga. Ia mal a festa, confesso.

Começaram as acusações. Eles eram tudo uns vendidos. Ernest era o fantasma do Natal Passado; Michael Scott, o do Presente; e o Papai Noel... não, ele não podia ser o do Futuro, afinal, esse era o último ano que eu convidava ele pra passar o Natal aqui em casa. Ano que vem, a janela fechada pra você, Karl. (Também não gosta de quando chamam ele de Karl.) Mas se não era o Papai Noel, quem seria o do Futuro? Falta alguém chegar, então?

“O futuro – Michael, sempre muito conciliador, começou a arrazoar – é a gente que faz, ninguém pode determiná-lo. Nem sob a autoridade do mágico-religioso. E bem sei que todos aqui crêem na magia, principalmente na magia desta época.”

Lá fora, garotões com topetes empastelados de gel gritavam:

“Ah, u-hu-hu-hu-hu! O Natal é nosso! U-hu-hu-hu-hu!”

“Corretores da Bolsa”, Papai Noel reconheceu, espiando pela janela, e acenou pra eles.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Sarah Polley

Atriz canadense. Queridinha dos circuitos independentes, surgiu para o mundo no filme de natal mais, é, digamos, "descolado" já feito, o Vamos Nessa, uma versão junkie-adolescente do Pulp Fiction. O filme, que contava histórias paralelas envolvendo funcionários de um mercadinho que se envolviam em tramas com drogas, mafiosos e tudo aquilo que fez parte das milhares de cópias do filme do Tarantino que infestaram o fim da década passada, acabou se tornando um cult. Polley também teve êxito no filme Madrugada dos Mortos, mas o Vamos Nessa continua sendo o seu melhor momento. O filme é de 1999. Oito anos se passaram. E aí, vai ou não, senhorita Polley?

Top 5- Melhores filmes de Natal

Chegou a hora. Os melhores filmes de Natal, na lista mais sensacional de toda a Net. Se você quiser ter uma noite de Natal perfeita, é só escolher um desses cinco filmes para assistir com a família depois da ceia e partir pro abraço. Se os seus sobrinhos chatos fizerem cara feia e pedirem para sair para tomar umas com o pessoal do prédio, é bem simples: dá uns belos de uns tapas nas fuças dos fedelhos. Em nome do Natal, tudo de perdoa e ninguém é de ferro mesmo. Chega de papo furado, nesse texto coloco os quatro primeiros e depois, em texto separado, falo do melhor filme natalino. É isso aê, do Progressista para a sua família:

5-Férias Frustradas de Natal - 1989
Mais famoso dos filmes da família Griswold, encabeçada pelo mala sem alça do Chevy Chase como o pai oligofrênico sempre enfinando sua prole em planos toscos de férias e situações embaraçosas. Completado pela Beverly D'angelo no clássico papel da mulher que serve para apontar as patetices do marido e pelos filhos absurdamente estereotipados e clichezentos, e cujos atores mudaram em todos os filmes (a filha é interpretada pela quase coisa nossa Juliette Lewis ). Sim, já ouço vocês perguntando, "mas você só desceu a lenha, por qual motivo então colocou esse filme na lista?". Simples: é eficientíssimo no que se propôe e tornou-se um clássico de Natal. Méritos totais para ele, o homem, o mito, a lenda, John Hughes, roteirista do filme e responsável pela empreitada ser tão superior aos outros filmes da série. Chevy Chase consegue inacreditavelmente arrancar risos com sua atuação, e a presença do Randy Quaid na segunda parte do filme como o onipresente primo Eddie (quem já assistiu o filme solo do personagem, feito para a TV dois anos atrás? Pérola trash) acaba marcando pontos, e John Hughes é inimitável na sua rara habilidade de construir os personagens de maneira que nós acabamos abraçando todas as suas idiossincrassias e excessos.. Tá explicado agora? Não? Bom, opinião é que nem... há, deixa pra lá.

4-Gremlins - 1984
Não, eu não coloquei esse aqui por ele ter sido lançado apenas um mês antes do meu nascimento (saiu em Junho de 1984 nos EUA). Seria muita patetice da minha parte. Clássico oitentista, mas um tanto quanto esquecido de uns anos pra cá (a Globo aparentemente esqueceu o filme nas fileiras empoeiradas do Projac), tem toda a estética daquela década que é absolutamente fascinante para muitos e tão odiada para outros. Uma das cenas mais sensacionais da história do cinema é a que os Gremlins ocupam toda a sala de cinema da cidadezinha e começam a fumar, beber, espancar uns aos outros enquanto os mocinhos fogem desesperados. Quem viu sabe que é de chorar. Tempos malucos que não voltam no cinema quadrado de hoje em dia, infelizmente. Sim, o filme se passa numa noite de Natal. O roteiro, acreditem ou não, foi escrito pelo (coloque aqui o seu adjetivo depreciativo favorito) Chris Columbus. Ainda bem que o eficiente diretor Joe Dante estava lá para salvar a pátria.


3-Uma História de Natal - 1983
Excelente filme que acabou virando cult depois do seu lançamento, conta a história de um moleque (o ator mirim Peter Billingsley, que era a cara escarrada do moleque do Jerry Maguire) que quer ganhar uma arma de Natal, mas que quando pede para os adultos o presente, ouve a mesma resposta de todos, de que ele "iria atirar no seu proprio olho" se ganhasse o trabuco. O filme acaba se mostrando no seu decorrer muito mais complexo do que se poderia sugerir no começo. Inacreditavelmente, o filme foi dirigido por Bob Clark, diretor dos dois primeiros Porky's e diretor dos dois piores filmes da história da humanidade, Super Bebês 1 e Super Bebês 2. Quando eu digo "dois piores filmes da humanidade", eu não estou exagerando nem um pouquinho. Por isso, se vê que o Uma História de Natal foi a única bola dentro da carreira do cidadão, que morreu nesse ano.


2-Edward Mãos de Tesoura - 1990
Ninguém dirige fábulas melhor do que o Tim Burton. Incapaz de contar histórias minimamente interessantes quando se arrisca em outros campos, somente mostra todo o seu potencial quando se entrega ao desespero gótico (exceto pelo sensacional Ed Wood, que por ser uma biografia acabou facilitando as coisas para o senhor Burton). E o Natal é a época perfeita para as fábulas Burtonianas, com suas decorações grandiosas e a sensação de isolamento causada pela data. Edward, papel que lançou Johnny Depp ao estrelato, o molecote tímido com tesouras no lugar das mãos (jura, Progressista?) que vive na casa do seu inventor (último papel do grande Vincent Price no cinema) e que acaba virando uma sensação na cidadezinha que vive quando começa a cortar o cabelo das damas locais. Depois, ele se apaixona por uma adolescente filha da coroa revendedora da Avon (aliás, esse filme foi o maior espaço publicitário de uma marca até o famoso caso Fedex-O Naufrágo), interpretada pela Winona Ryder. Aí, coisas feias e tristes acontecem que fazem o pobre Edward ser perseguido, até o final climático, bem do gosto do Tim Burton. Uma bela fábula natalina, dotada com pitadas de humor ácido e observações cínicas e irônicas do american way of life, especialmente do tédio e intolerância que podem existir nas pequenas cidades interioranas. Camadas que se revelam aos poucos nesse grande êxito do senhor Burton.
Qual será o melhor, hein? Hein? HEIN? Esperemos.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Intermezzo natalino

“Neide, meu filho fica só assistindo The Office. Ai, Neide, até aprendi o meu inglês, The Office. Mas então, ele e os meninos, amigo dele, inclusive uma esquisitinha, que teve uns tempos que eu achei que ele tava namorando ela, eu já te falei dela, Neide; eles vieram aqui em casa e passaram a tarde toda, assistindo The Office. É isso que essa molecada acha que é curtir; em vez de sair, tomar um ar, dançar, né? Pouco antes do Natal, a casa uma bagunça. A gente sabe, a molecada não repara nessas coisas, mas é sempre um horror, Neide.

Mas então, Neide, sabe que eu sentei pra ver um pouquinho com eles, o Carlinhos virando os olhos, aí que eu fiz de pirraça, mesmo, Neide. E tinha o chefe, perguntei pra molecada como é que era o nome dele. Michael. Molecada simpática mesmo, tudo esquisitinha, mas simpática. Aí, esse Michael me lembrou aqueles filmes da nossa época, Neide. Sabe, as pessoas de bem com a vida mesmo, sem essa chatice da molecada de hoje em dia. Olha, simpatizei com o homem. Os amigos do Carlinhos tudo viram que eu tava gostando mesmo do filminho, abriram espaço no sofá, e eu fiquei ali com eles, ali no meio. Parecia uma adolescente. É claro que o Carlinhos não gostou, né, Neide. O menino fica constrangido por nada, depois sai bufando, que nem o pai. Que nem o pai, Neide. Os dois brigam com essas minhas loucuras, Neide.

Aí começou um papo entre a molecada, de 'gente que tinha salvado o Natal', e aí falaram de um lá, que eu perguntei quem era, e eles disseram que era o ator principal daquele filme do prédio, que explode tudo. Esses filmes de ação horrorosos, que o Carlinhos e o pai dele ficam assistindo. Duro de Matar, Neide. Lembrei. Mas então, aquele homem desse filme, Duro de Matar, ele é uma graça, meio carequinha, uma graça. Só sei que a molecada tava elegendo ele e um outro lá, mas desse eu não vou lembrar mesmo o nome; só sei que fez um monte de filme, um homem feio, feio. E aí puseram esse Michael no meio, falaram que ele também salvou o Natal. A molecadinha tem um papo esquisito, umas coisas que não têm nada a ver, né, Neide? Que que ‘cê acha, Neide?”

“Tudo nerd.”

“Ai, Neide. E não é mesmo?”

sábado, 22 de dezembro de 2007

Yankee Swap

Final de ano, amigo secreto na firma. A gente tira quem não quer, diz o que não deve; mas abafa. Pra cá, eu reservei coisas menos classe média. Mas quem quiser algo do tipo, vai pro shopping.

Natal, que é o frenesi da classe média, só tem paralelo mesmo com o Carnaval, quando as havaianas ganham muita purpurina e lantejoula, isto é, muito glitter e paetê. Aí, a classe média, muito família, fica acuada, porque toda essa catarse da pobreza e do luxo assusta. O Natal, não; o Natal é tempo de sublimar toda a energia sexual em consumismo. Muito, muito mais bonitinho.

Comigo não é diferente, e eu comprei uns três filmes. Lubitsch, Ford e Capra. E, claro, vou chorar assistindo A felicidade não se compra. Classic Hollywood é tipo o Novo Testamento do pequeno-burguês.

"Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar
E vem comigo dançar, dançar..."

Aliás, tive uma experiência espiritual anteontem, no Fifties, quando um grupo de descolados sentou na mesa ao lado daquela em que estava eu e o Camarada Progressista. Era quase 1 da manhã, então a espiritualidade ia alta. Só sei que comecei a pensar em que tipo de pessoa eu queria ser. Mas você vê, tem coisa mais classe média que epifania numa hamburgueria em Moema? Só faltava eu morder o Onion Burguer, o creme de queijo cair e queimar minha perna, e eu finalmente compreender que o sofrimento e, por tabela, a realidade, é uma ilusão. Dinkin flicka.

***

Preocupar-se com algo é o mesmo que dar importância a algo. Definição que tem o defeito de recorrer a um termo a que também falta a auto-evidência de “pensar”: preocupar-se com algo é pensar em algo. Trata-se de um insight.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Sartre e as cartas de Natal

Recentemente, foram descobertas cartas escritas pelo filósofo existencialista, humanista e marxista Jean-Paul Sartre. Elaboradas pouco antes da morte do escritor, em 1980, eram basicamente saudações natalinas para pessoas que foram importantes na sua vida, já mortas ou não. Podemos notar nos escritos os arrependimentos, dúvidas e considerações sobre eventos fundamentais no século XX. As cartas acabam funcionando como uma espécie de testamento intelectual do filósofo, usando palavras duras e incisivas para clamar pelo seu legado. O Fomos ao Cinema, através de um leve e necessário tráfico de influências dentro de renomadas instituições acadêmicas, teve acesso às últimas palavras do bardo francês, e publica aqui, com exclusividade.


Paris, França, 24 de Dezembro de 1979
Para: Simone de Beauvoir
Minha querida companheira (sei que adora quando me refiro a você dessa maneira). Preciso te dizer algo que ficou preso por muitos anos dentre meus pensamentos e ideologias. Algo que ficava lá no fundo, escondido entre meus latidos ontológicos e metafísicos. Conheço-te fazem bons 56 anos, tempo no qual apoiei todas as tuas causas e ideais. Que bom companheiro teria tido a mesma paciência? Digo, não quis parecer duro ou usar as palavras erradas, mas, convenhamos, havia uma latente histeriana freudiana na sua causa existencialista-feminista. Nunca enxerguei qualquer tipo de consistência teórica ou prática nas suas idéias. E aí, necessariamente, tenho de relacionar tais conclusões ao nosso longuíssismo, extenuante relacionamento afetivo. Aquela coisa de relacionamento moderno, aberto, franco, que tanto escandalizou os nossos iguais. Na minha juventude, quando queria que meus atos espelhassem minhas idéias, comprei todas as suas imposições. Tivemos os dois amantes, jamais experimentamos as bases de um relacionamento convencional, como quando o marido trabalha o dia inteiro para chegar de noite em casa com a mulher fazendo o jantar e os filhos pedindo dinheiro. Hoje, sinto que queria, verdadeiramente, ter experimentado uma espécie de vida como essa... Digo, eu saindo de dia para, usando um exemplo, ir trabalhar na minha revista de leitura, a Les Temps Modernes, e voltando depois com você lá, com o cheiro dos alimentos impregnando seus vestidos baratos, e os filhos rastejando no chão de tacos de madeira do nosso velho loft parisiense. Eu reclamando da sua comida, já que imagino que a razão pela qual você escolheu ser uma filósofa ativista tenha sido sua total ineficiência gastronômica. Somente eu teria o direito de procurar amantes, e você, maluca, procurando evidências das traições nos meus pertences, mas jamais exteriorizando esses sentimentos; quando você saísse de linha e começasse a me pressionar por quaisquer que fossem os motivos, eu quebrando copos na parede, saindo pra tomar umas e voltando, despejando minha cólera de macho bêbado sobre você; meu lado Serge Gainsbourg, roubado e carpado por você e suas baboseiras feministas. Fui eu um homem? Não. Fui eu um rato? Fui eu um capacho? A culpa é sua. Nunca terei coragem de entregar isso, mas pô, tô levão só de ter escrito. Tô de Briks!


Paris, 24 de Dezembro de 1979
Para: Albert Camus
Queria eu começar essa carta dizendo "meu caro companheiro de lutas". Bem que queria. Mas não foi esse o caso, não é? O que deu errado entre nós, meu caro Beto? Digo finalmente que cansei de defender e elogiar você às custas de pancadas da sua parte, e pancadas de outros depois da sua morte. Falei maravilhas do Estrangeiro, não? Agora, quer saber o que eu REALMENTE acho da sua obrinha "existencialista-trash"? Sem o peso das amenidades que vivíamos na minha fase pré-conversão ao marxismo? Simples: uma grande bobagem. O maluco com o sol na cara vira e mete um balacho no árabe lá, a troco de nada. Grande porcaria. E depois, cinquenta páginas com o personagem preso divagando groselhas a respeito da incompreensão e crueldade de julgamento dos homens. Lixo! Você viveu a sua vida para defender uma única idéia: a de que a melhor coisa que se pode fazer é ser um bundão. O mundo caindo na sua cabeça, e você lá, sentado, coçando as partes baixas e matando pobres árabes no meio do caminho. Eu pelo menos escolhi um lado, não? Não quis ficar no meio, sentado no muro babando. Não é uma ironia você ter morrido pelas mãos de terceiros, sendo passageiro no carro daquele seu amigo cachaceiro? Olha aí, que beleza. Meu ateísmo não me impede de dizer que foi uma bela obra de justiça divina. Ler aquele seu livrinho O Homem Revoltado me deixou profundamente triste. Por saber que um fino intelectual com você se deu ao trabalho de perder o seu precioso tempo falando falácias contra mim e os marxistas, ainda que metaforicamente, já que era incapaz de dar nome aos bois, como sempre. Quando os católicos me colocaram no index, ouvi de longe as suas risadas. Até do lado deles era capaz de ficar em nome da sua causa. O ser e o nada, esse era você, Camus. Vejo daqui as luzes de Natal iluminando a cidade luz. Mais um dos meus 73 natais. Com você foram apenas 47, não? A existência precede a essência.


Paris, 24 de Dezembro de 1979
Para: Fidel Castro
Agora sim: fala, companheiro! O sonho da igualdade vive, respirando o leve frescor das praias cubanas! Não esmoreça, meu caro amigo Castro. Eu sei o nome da libertação. O nome do salvador. Daquele que irá reacender as chamas do Marxismo, com tal voluptosidade que não restará outra alternativa ao mundo do capital senão se curvar perante o bem comum. O nome é Mikhail Gorbachev. Logo Chernenko baterá as botas, e o virtuoso Mikhail ascenderá. Com ele no comando da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, poderemos ver de novo a bandeira vermelha tremulando para conquistas heróicas. Você estará logicamente do lado do futuro premier nessa. Espero viver para ver tudo isso acontecer, mas acho difícil. Gorbachev! Mais uma vez: GORBACHEV!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Clássicos Natalinos: O Natal Maluco de Ernest

Você jamais poderá considerar a sua experiência de vida na Terra completa se jamais tiver assistido a um dos filmes do Ernest. O Rei do Cinema em Casa, sessão de filmes vespertina do SBT. Criado em meados da década de 80 pelo ator Jim Varney, que nos deixou em 2000 vitimado por um câncer de pulmão (era um fumante inverterado), aparecendo inicialmente em comerciais de TV, o personagem acabou protagonizando a mais improvável série de filmes da história do cinema, começando em 1986 com o inacreditável O Acampamento do Ernest e terminando em 1998 com o mais inacreditável ainda Ernest vai ao Exército, a série teve mais de 10 exemplares. O mais lendário de todos esses é, sem dúvida, O Natal Maluco de Ernest, lançado em 1989. Custou 6 milhões de dólares e rendeu quatro vezes mais. É dele que falarei, logicamente.
Basicamente, as "tramas" dos filmes do Ernest consistiam em premissas totalmente implausíveis, meros pretextos para criar as situações cômicas dos filmes. Idéia roubada do lendário comediante W.C. Fields, estrela dos anos 30 e 40 e que cujos filmes também dispensavam qualquer tipo de lógica em nome do humor. No caso do Natal Maluco de Ernest, penso que eles chegaram perto da perfeição. Tem de ser muito, mas muito corajoso mesmo, para levar à frente um roteiro desses. Papai Noel (sim, ele, o pobre velhinho) resolve que não quer mais trampar no Natal, e vai até Orlando, na Flórida, lugar no qual mora o sucessor que ele escolheu. Sim, Orlando, Flórida. Não, não é por ser a casa da Disney, produtora dos filmes do Ernest. Mas voltando, as coisas dão erradas, o suposto substituto cria diversos empecilhos, o Papai Noel começa a perder a memória, e sobra então para o Ernest, no filme trabalhando como taxista, salvar o Natal. Sim, o Ernest. Salvar o Natal. Sensacional. Logicamente que todos os fatores que fizeram os filmes do Ernest clássicos supremos do trash estão lá: a atuação inacreditável de Jim Varney, algo para o qual não existem palavras capazes de se descrever; os coadjuvantes saídos direto do elenco do Estranho no Ninho, desprovidos de qualquer tipo de contato com aquela coisa chamada realidade; a direção gloriosamente camp de John Cherry, que dirigiu todos os filmes do Ernest. Considero o personagem uma clara alusão ao então presidente norte-americano Ronald Reagan. Sim. Reagan foi um ator pavoroso dos anos 40 e 50, uma espécie de Ben Affleck da época, desprovido de qualquer tipo de refinamento intelectual ou inteligência (algo fatal, já que atores bons normalmente são indivíduos de maior Q.I. que a média) , mas que pela cara apalermada e pelo jeito simpático e abobalhado acabou agariando a simpatia do público, até a insanidade suprema de ser eleito e reeleito para o cargo de presidente. Os anos 80 foram marcados por uma recessão brutal no país, enquanto Reagan jogava golfe para os jornalistas e fazia piadas com o também abobalhado imperador japonês Hirohito. Ernest foi um tapa na cara bem dado do ignóbil Ronald. Com o advento do Governo Clinton e com o fim da estética oitentista na cultura pop no meio dos anos 90, Ernest acabou perdendo o seu público. Mas pena que Varney tenha morrido justamente em 2000. Ano que um certo presidente também limítrofe assumiu a Casa Branca. Mas não lamentemos o fato de jamais podermos ver um hipotético Ernest vai à Faixa de Gaza. Ele foi para a Prisão, foi para a escola, foi para o acampamento de jovens infratores, foi até para o exército. Mas é do seu Natal que jamais esqueceremos. Em breve, mais memórias dos filmes Ernestianos, pelos outros camaradas, quem sabe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Lauren Graham

Estrela do finado seriado Gilmore Girls (RIP -2000+2007) e famosa também pelo seu papel no sensacional Papai Noel às Avessas (Bad Santa no original), filme já falado nesse mês especial pelo digníssimo e deveras natalino Camarada Moderado. Não deixou de ser surpreendente a mudança , da mãe modernete e linguaruda do seriado para o interesse romântico do Papai Noel boca-suja do Billy Bob Thorton. Um belo choque de realidade, não? Agora que o seriado foi para as cucuias, quem sabe não rola uma continuaçãozinha do filme? Sei lá, temo bastante pela carreira da senhora Graham, as coisas não andam muito fáceis não.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Un souvenir de Noël

Essa é de um Natal há muito, muito tempo, quando eu tinha 11 anos. E eu andava por aí com uma edição pocket de Macbeth, tradução do Manuel Bandeira. Banquo, Banquo, Banquo, eu ficava repetindo, que nome legal.

No meio da noite, só o apito do Homem do Apito, que eu nunca descobri quem era ele, ouvi um barulho, de a quem falta a calha na qual apoiava a botinha esquerda. Era Papai Noel, entregando um Super Nintendo no andar de cima, o décimo, do meu prédio. E o elevador? vão perguntar. O síndico na Praia Grande e o zelador tinha sumido já na antevéspera do feriado.

Papai Noel e a chatinha da Michelle, em 1992.

Todo o mundo da classe sabia que ela era mó piolhenta.

Esperei uns minutinhos, logo ele estava pintando no meu quarto. Não, naquela época não tinha esse perigo de acharem que era pedofilia. Alusões e piadas nesse sentido definitivamente não colavam. Ele levou um susto comigo acordado. Como se nunca tivesse acontecido antes, né, Noel?

– Oi. – eu falei.

– Affff, garoto. Cê devia de tá dormindo. – Papai Noel achando que devia falar assim porque era Terceiro Mundo, o português dele carregado de sotaque que até parecia o Ingmar Bergman recitando Os Lusíadas pra Liv Ullmann (e depois eles se divorciaram).

– Papai Noel, o senhor gosta de Proust? – essa falta de traquejo social das crianças, já vão perguntando se a pessoa gosta de Proust, nem oferece assento, uns bolinhos.

– Que que foi, rapaz? – ele puxou uma cadeira e sentou ali, debaixo da janela, suado; é, eu desconfiei de um habitante do pólo Norte estar suando; parecia pouco europeu. Pólo Norte é Europa? eu me perguntava na minha cabeça de moleque. E eu, adulto, respondo que é, sim.

– Papai Noel, o senhor é filisteu? – nessa hora, o velhinho se irritou de vez. Não falou palavrão, porque acho que o professor dele de português, querendo fazer bonito do mundo lusófono, disse que era uma língua tão nobre que não tinha palavrão. Daí que o Noel começou a falar estrangeiro comigo.

Papai Noel bancando a Wanessa Camargo:

"Ler também é cultura". Não me diga!

Mas aí, bem nessa hora, a minha mãe entrou e espantou ele com a vassoura e me disse pra fechar direito a janela e que logo que amanhecesse ia reclamar na portaria de qualquer um poder ir entrando assim. É coisa dos pais resolverem assunto de criança com um toque kafkiano. E até hoje, eu, na noite de Natal, ainda deixo a janela bem aberta, mas ele nunca mais voltou, nem nunca contribuiu com nenhum volume pra eu completar o ciclo da Busca.