terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Fomos ao cinema ver Encantada

Sala Disney do Cinemark, aquela com o Mickey mandando o Pluto desligar o celular. Então, isso pra assistir Encantada. Eu afundava na poltrona toda a vez que via uma pochete se aproximando, acompanhada da esposa entediada e/ou eufórica, e a criança acima do peso. Mencionei que é um filme da Disney? Porque é. Uma coisa que vocês vão querer lembrar, assim evitarão muitos mal-entendidos e falsas expectativas.

Pois foi bem divertiduxo, em alguns momentos até espirituoso. Com exceção dos vinte minutos finais, que me deram a impressão de que o roteirista estava cheio de escrever, então amarrou vários elementos de contos de fadas, como lhe vieram à cabeça, e pronto, o negócio estava feito. Depois foi pra casa assistir Grey’s Anatomy com a mãe.

Entre outras coisas, eu sempre quis ser figurante de filme da Disney. Figurante dançarino. Vivem em conflito o meu figurante dançarino interior e o meu intelectual interior. Tento resolver o impasse por aqui, blogando. Mas vocês vêem, que prova maior da decadência cultural dos nossos dias: trinta anos atrás, alguém desejaria ser figurante de An American in Paris, Singin’ in the Rain; mas eu, eu fico com Encantada.

Ai, ratinho, você fala? Ah, mas isso é tãããããão pós-moderno!

E eu ainda estou com That’s How You Know na cabeça, Amy Adams e os backing vocals rastafaris. O que poderia comprometer o meu julgamento, se eu fosse menos cínico que a maioria das pessoas pra quem o filme foi feito: platéias que já não engolem musicais, eu acho. Tanto que estão até representadas na tela pelo Patrick Dempsey, que faz as vezes de galã cético em relação ao amor. Acho que ele devia levar um pouco desse cinismo pra Grey’s Anatomy. Atenuaria o tom boboca-vislumbrado da série.

Então, você tem a Amy Adams e o Patrick Dempsey, astros de segundo escalão, num filme da Disney. Eu só não sei direito distinguir a madrasta desenho animado da Susan Sarandon. As más línguas dizem que o desenho animado faz menos careta. Seja como for, eu me diverti horrores.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Ellen Page

Atriz americana, todos devem se lembrar dela nos filmes dos X-Men, interpretando a garota mutante psíquica espertinha Kitty Pride, que no final do terceiro filme, depois do farsante, ops, diretor Brett Rattner ter matado metade do elenco principal, acaba tendo de se juntar aos mutantes mais experientes (leia-se Wolverine) para descer a porrada nos partidários do Magneto. É dada como certa a sua indicação para o Oscar de melhor atriz desse ano pelo filme Juno, no qual interpreta uma adolescente enfrentando uma gravidez não planejada. Já ganhou e foi indicada para uma penca de prêmios, então não será nada surpreendente ver a moleca mutante ganhando o Oscar. Quem sabe ela não pega a estatueta e dá na cabeça do Senhor Rattner, por ter a colocado no meio do fogo cruzado? Magneto move pontes com a mente, jão!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Premier monde etc.

A França em ebulição, e eu não ia aproveitar? Alguns fatos:

Sarkozy, como Balzac, atribuiu-se a partícula: doravante, Nicolas de Sarkozy.

Proibiram o cigarro na França. Para fazer valer a lei, volta a guilhotina. Tabagismo e decapitação, sem dúvida o Brasil nunca vai ser primeiro mundo. Falta-nos radicalismo, literalidade. Literalidade que só a guilhotina pode proporcionar à consciência de um povo. Aqui, dizíamos "cabeças vão rolar", e nunca tivemos idéia do que isso significava; hoje, dizemos "democracia", que permanece tão obscuro quanto "humor inteligente". Acreditem, ser irônico é já ser antibrasileiro.

Carla Bruni era modelo, mas é difícil achar boas fotos dela no Google. Nem dela, nem da Elisha Cuthbert, que sempre posa pra fotos que um blog família como este nunca publicaria. Tá, o que é que a Elisha Cuthbert tem a ver com os franceses? Nada. Mas pior a Jenna Fischer, e é com ela que eu encerro o post:

A cada Jim Halpert sua Pam Beesly.

Idílio?

Sobremesa e verdade

As ceias de Natal e Ano Novo me levaram a reforçar certas convicções.

Vamos falar a verdade: flocos é o melhor sabor de sorvete, por suas qualidades muito sutis: especialmente pelo fino contraste das raspas de chocolate. Muito, muito sofisticado. Creme é delicioso, mas over: de vez em quando, você se permite, mas já sabendo que o risco de vexame é grande. Baunilha é mais contido, por outro lado. E chocolate, bom, chocolate é a prova cabal do filistinismo numa pessoa, é para os desprovidos de espírito. Mesmo um chocólatra, isto é, principalmente um chocólatra há de convir que se trata de uma adaptação muito pobre para sorvetes isso que a gente chama sabor chocolate. Como um bom livro que resultou num filme medíocre. Chocolate é uma coisa, e sorvete é outra.

Mas e morango? Vou dizer pra vocês o que é que eu penso de quem toma sorvete de morango por opção: tudo mulherzinha. Homem que toma sorvete de morango não fica só no sorvete de morango. Morango. Até o nome entrega. E nem me venham falar de napolitano: que grosseria! É o mesmo que celebração ecumênica, com o babalorixá e o pastor luterano de mãos dadas abençoando a multidão. Muito politicamente correto, mas burro, burro, burro.

Retrospectiva 2007 - Fomos ao Cinema

Eu não suporto retrospectivas. Quando os canais de tv, jornais e sites de internet resolvem apelar para esse artifício para preencher as suas programações vazias de Janeiro (todo mundo de férias, sabe como é), fico fulo da vida. Então o que diabos estou fazendo aqui assinando um texto que tem como título justamente tão odiada palavrinha? Eu não tenho a menor idéia. Quer dizer, não vamos nos enganar: o quintal dos outros é sempre mais limpo que o nosso. Aí, cê pega essa frase, inverte, e aí explica bem o meu comportamento aparentemente incoerente. Pareceu confuso? Lógico que pareceu. Mas eu vou é cortar esse papinho brabo, e ir direto ao que realmente interessa: relembrar quatro fatos marcantes do nosso primeiro ano de atividade, desde o início de blog, no já longínquo mês de Abril de 2007.

Mês Lindsay Lohan


Como profetas do apocalipse, dedicamos um mês inteiro para a maior periguete do mundo contemporâneo. Textos, crônicas, resenhas de todos os filmes feitos por ela, nada ficou de fora, sempre com o nosso olhar crítico, imparcial e insento. Das party girls, Lindsay é a maior, e como ela vai capotar logo, então já fizemos a nossa parte. Seria como se nós tivéssemos um blog em 1962 e fizéssemos (reparem no uso indiscriminado do Pretérito Imperfeito do Subjuntivo) um mês inteiro dedicado à Marylin Monroe antes da morte dela. Celebremos os vivos ainda vivos, e não os mortos toda e inteiramente mortos!


Greve da USP e as Tretas Moderado/Fundamentalista X Reinaldo Azevedo

Dois estudantes beneméritos da Universidade de São Paulo, os Camaradas Moderado e Fundamentalista se deixaram tomar pelas chagas da verdade e resolveram meter a real no colunista mais tarja preta do hemisfério sul, Reinaldo Azevedo, o Diogo Mainardi sem talento, quando o incauto resolveu chamar os estudantes públicos e grevistas de "vagabundos" e "neomaoístas". O Fundamentalista deixou o senhor Azevedo tão melindrado, que o mesmo convocou seu exército de nerds republicanos para ofendê-lo, por meio de comentários nos seus posts(o blog do cidadão é moderado e o cidadão pode-se dar ao luxo de escolher os comentários que vão ao ar, um exemplo de democracia). Um verdadeiro baile no fantoche da Veja, sem dúvida.

Seinfeld e as Tretas Moderado X Fundamentalista/Progressista

Uma guerra civil ameaçou tomar conta do até então Suiçamente neutro blog. Depois de um texto meu falando sobre a chegada do box da oitava temporada da série criada por Jerry Seinfeld e Larry David, uma reação em cadeia de pura cólera se deu início, com ataques e ironias de ambos os lados, e que duram até os dias de hoje. Basicamente, eu e o Fundamentalista somos fãs da série, enquanto que o Moderado a abomina incondicionalmente, já que ele acha que a série é coisa de indies imbecilóides, e que o humor do show não se adequa ao seu estilo de humor. A treta foi tão grande que uniu até dois desafetos declarados, como eu e o Fundamentalista.´E também gerou outras discórdias, como quando o Moderado acusou os dois outros camaradas de não seguirem suas dicas. De toda a discussão e de todas as brigas, pouco se resolveu, já que aparentemente nenhum dos lados cederá em momento algum. O que nos restaria? Ignorar o assunto ou seguirmos com as trocas de farpas? Enterrar algo assim não diz respeito à imaculada tradição de combatividade dos camaradas. Por isso, esperem muita treta para esse ano ainda. E prevejo mais um motivo de discórdia em vista: Michael Scott e companhia. Aguardem.

Mês de Natal
Outro mês temático, acabou sendo um completo e profundo estudo dos efeitos da celebração do nascimento de Cristo e seus efeitos dentro da cultura Pop. Filmes, estudos sociológicos-filosóficos e odes aos efeitos que a data cria nos, sobe trilha, corações humanos. Falamos de Ernest, Capra, Sartre e Dwight Schrute, homens que um dia trabalharem por natais mais dignos e humanos para os seus iguais. Estudamos a solidão humana, o assombro de pais em relação ao comportamento errático de seus filhos, a miséria e as sombras que pairam nesse momento que gera tanta reflexão e desalento para os menos afortunados. O que mais poderia se esperar? Um fim grandioso para esse nosso já lendário primeiro ano.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Kate Nash

Cantora inglesa, primeira tetéia do novo ano que se inicia nesse blog que odeia clichês (principalmente aquele Progressista lá). Bombando nas rádios inglesas com a bela Foundations (um nome nada usual para canções de amor pops) e escrevendo todas as músicas de seu primeiro disco, Made of Bricks, tem tudo para dar um belo de um pé na bunda das bagaceiras Amy Winehouse e Lily Allen das paradas (tem apenas 20 anos de idade). Como elas vão capotar logo, então veremos a senhorita Nash dominando todo o bagulho. Quer dizer, até ela ir pára os States e ser chamada para uma baladinha com a Lindsay Lohan... opa, quer dizer, isso já aconteceu. Fazer o quê, né?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

TOP-5: Melhores/Piores filmes do ano

Depois de mais um glorioso empreendimento desse destemido blog, hoje vivemos o último dia do ano e também o fim do mês especial de Natal no Fomos Ao Cinema. Em breve, teceremos considerações sobre o os eventos que tomaram lugar nesse espaço nesse nosso primeiro ano de vida, lembrando momentos já míticos vividos aqui, brigas, alegrias, frustrações, brigas, sucessos, os projetos construídos, brigas, a relação com os nossos caros leitores e também, logicamente, falaremos das brigas que ocorreram por aqui. Mas antes, para fechar o ano com galhardia, publico, honrando o nome do blog, a lista dos melhores e piores filmes lançados em circuito no Brasil em 2007. Já vamos agradecendo, e podem esperar, entraremos de penetras nas suas festas de ano novo. Tem mais champagne pra três aí, Jão?
Melhores filmes lançados em 2007:



5-Zodíaco
Mais um belo momento de David Fincher, um filme obssessivo e inteligente, que conseguiu se sobressair mesmo com uma (na minha opinião) equivocada escolha de elenco. A longa duração do filme é um empecilho apenas para aqueles incapazes de se prenderem a uma boa história e todas suas nuances. É o filme mais contido visualmente de Fincher, sem os virtuosismos que marcaram seus trabalhos anteriores. Aliás, os melhores filmes por ele feitos são aqueles que se prenderam mais a história. Vide O Quarto do Pânico, que é cheio de efeitos e virtuosismos e é uma bela porcaria.



4-Pequena Miss Sunshine
Maior surpresa do ano, o primeiro esforço cinematográfico do casal Jonanthan Dayton e Valerie Farris (que dirigiram duzentos clipe do Smashing Pumpkins anteriormente) foi um esforço de sentimentalismo nada óbvio, ao mesmo tempo que soube brincar com os clichês do senil cinema alternativo americano. E tinha no elenco o Steve Carell, cada vez mais ídolo de dois terços do blog. Se bem que a escolha original para o papel era o Bill Murray... é, não tinha como errar mesmo.




3-Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à AméricaMockumentary que deu um pau no provincianismo dos yankees, mostrando através das interações reais do personagem Borat (criação do comediante inglês Sacha Baron Cohen) com anônimos do interior dos EUA toda a ignorância e complexo de superioridade existente no coração daquele país. E Baron Cohen garantiu o show com seu timing perfeito.





2-O Bom Pastor
Injustiçado thriller de espionagem dirigido pelo ator Robert De Niro, inexplicavelmente deixado de lado por crítica e público (criticaram a longa duração do filme principalmente), é um belo exercício de personagem, e o intricado roteiro garante uma classe que pouco se encontra nos filmes do gênero hoje em dia. Matt Damon provou ser capaz de atuar, ao compor um personagem incapaz de mostrar qualquer tipo de descontrole ou emoções. Sua face no filme é intransponível.






1- O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford
Um filme feito com o espírito da dourada década de 70, época mais brilhante da história da sétima arte. Sem qualquer tipo de pressa ou vontade de colocar os carros na frente dos bois, critica a cultura das celebridades direto da fonte, da primeira de todas, Jesse James, ao mesmo tempo que olha com grande frustração e auto-piedade para a patética saga de Robert Ford, que virou um vilão de primeira categoria apenas por ter enxergado a verdadeira essência de James, ao invés de se conformar e comprar o mito vendido pelo sensacionalismo da época. Sensacionais atuações de Brad Pitt e principalmente de Casey Affleck, a quem deixo mais uma vez o conselho: mude o sobrenome. Você é talentoso demais para carregar essa cruz injusta nas costas.

Menções honrosas: Tropa de Elite, Cartas de Iwo Jima, Filhos da Esperança


Piores filmes lançados em 2007:







5-Babel
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZglobalização,
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZcaleidoscópio humano, ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ Gael Garcia Bernal,
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ mega astros hollywoodianos engajados (essa é sua, Brad Pitt), ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ diretor Mexicano. Aliás, lanço aqui a campanha: DIRETORES MEXICANOS, PEÇAM PRA SAIR!




4-Dreamgirls
Ao invés de comprarem longo a história da Diana Rosse das Supremes, vieram com essa ficção de quinta baseada na história real, mudando os nomes dos personagens e criando músicas novas. O resultado foi desastroso. Trilha de quinta categoria, que em nada honra a categoria das canções das Supremes, ex-participante do American Idol ganhando o Oscar e, apocalypse now, Eddie Murphy sendo indicado para o prêmio, apenas por cantar três musiquinhas toscas durante o filme. Mas nada disso supera a maior das verdades: esse filme é constrangedor. Sério, assisti no cinema e senti-me constrangido, por mim e pelos atores que participaram. Bem que eu achei estranho quando soube que o Jamie Foxx não queria fazer. Vergonhoso.




3- Homem-Aranha 3
Sério: é um dos piores roteiros que já vi na vida. Tem de pegar os incautos que escreveram essa tristeza (para ser mais preciso, Sam Raimi e o seu irmãozinho Ivan Raimi) e encher de porrada. Sam Raimi principalmente, se é pra fazer filme de má vontade, que fique em casa comendo amendoins então. Não dá, os dois primeiros filmes tão dignos e decentes, e aí vem esse lixo pra jogar tudo descarga abaixo. Só não chega ao nível de um Batman e Robin porque Joel Schumacher é imbatível na sua ruindade absoluta. Mas só de eu ter pensado se seria algo possível, só de eu ter imaginado Homem-Aranha 3 do lado daquela "coisa", significa algo muito, muito ruim.



2-Número 23
Jim Carrey, descanse em paz. Acabou. Eu avisei: não se meta com o Joel Schumacher. Deixa ele lá, quieto, dando comida para os seus gatos. Mas não teve jeito. O resultado foi desastroso. Carrey, ator que precisa sempre de um diretor talentoso para segurar seus instintos histriônicos (Peter Weir e Milos Forman que o digam) se viu totalmente solto para entregar uma atuação ridícula, e Schumacher mostrando ter o talento para direção de qualquer calouro ingressando nas faculdades de cinema da vida. Ou seja: nenhum. O cara fez duzentos filmes, trabalhou com alguns dos melhores atores, sempre consegue financiamento para os seus, ahn, digamos, "filmes", e é incapaz de planejar uma só tomada que seja ao menos decente. Sem dúvida, Ed Wood foi um injustiçado.




1-Transformers
Se o Michael Bay tivesse lançado cinco filmes nesse ano, independentemente dos temas, elenco ou outros fatores, os cinco filmes estariam encabeçando nessa lista. Como lançou um só, então é direto para o primeiro lugar. Michael Bay é o maior câncer da história do cinema. E todos os que deixam ele seguir em frente e incentivam a sua carreira(como o senhor Steven Spielberg, produtor desse lixo baseado num horrendo desenho da década de 80) deveriam ser classificados como terroristas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Top 5- Melhores filmes natalinos, Parte 2

1- A Felicidade Não se Compra - 1946
Das mais básicas noções de humanidade e respeito aos nossos semelhantes que comumente são usadas para reger a sociedade, pouco tinha se sobrado no "mundo" que conseguiu resistir à Segunda Guerra Mundial. Hoje, ficamos assombrados vendo a Guerra estúpida do senhor Bush Jr. no Iraque, e nos revoltamos ao ver os resultados trágicos dessa brincadeira do petroleiro de araque do Texas. Imagine então o panorama existente quando se sai de uma Guerra que foi capaz de matar 60 milhões de pessoas. Que viu crianças (mais precisamente dois milhões) serem exterminadas pelo simples fato de existirem, que viu cidades serem expostas aos efeitos devastadores das bombas atômicas. E todas as espécies de coisas feias e degradantes que vieram com aquela Guerra. Tipo, era meio difícil acreditar no gênero humano depois de tamanho açougue. Não existiam motivos para se andar com a cabeça em pé, ou em crer em qualquer sonho de mundo melhor. O momento mais sombrio da história da humanidade, sem dúvida. Pelo menos, isso era o que se pensava. Mas com certeza não era a idéia de um senhor siciliano que imigrou para os EUA na adolescência, e que se tornou um símbolo do cinema. Frank Capra, um homem de chamados. Que quando viu sua pátria adotiva cair de Joelhos pela horrenda crise de 29, fez uma série de filmes que levantou a moral do seu adorado povo. E que não se conformou ao ver a desesperança estampada no rosto dos seus semelhantes depois da carnificina, que ele mesmo testemunhou ao vivo (fez filmes promocionais para o Governo americano durante o conflito). Pegou um arremedo de roteiro que apodrecia nos arquivos de um estúdio, formou sua própria companhia de filmes e fez o filme que acabaria, por mais clichê que isso soe, trazer de volta a confiança nesse troço chamado humanidade. A Felicidade Não se Compra, não só o melhor filme de Natal de todos, mas também um dos melhores filmes de todos os tempos.


Conta a história de um homem desiludido, George Bailey (interpretado pelo James Stewart), que sonha desde a infância em sair da pequena cidade que vive (Bedford Falls, cidade mais famosa do cinema) com a família, que herda o comando do pequeno banco de empréstimos depois da morte do pai e que consegue, mesmo com a ganância de um rico empresário local, ajudar os pobres moradores locais a comprarem suas tão sonhadas casas com empréstimos camaradas. Surdo de um ouvido ao salvar o irmão de um afogamento, acaba não indo para a guerra (enquanto o seu irmão vira um herói condecorado), o que só aumenta seu desconforto com a vida. Então, numa noite de Natal, acaba entrando numa situação aparentemente sem saída, resolve então se suicidar, e é impedido por um anjo, que resolve lhe mostrar como seria a vida na cidadezinha se ele não tivesse nascido. Aí... Bem, não revelarei mais nada. A maneira que Capra constrói a narrativa é brilhante. Seu protagonista passa o filme todo ajudando as pessoas, se opondo aos poderosos locais, mas sem jamais mostrar qualquer tipo de apreço pela sua pacata vida. Nem mesmo nós, os espectadores, percebemos durante o filme o quanto ele fazia pelo seu povo. Golpe de mestre, que acaba fazendo o final ser ainda mais impactante do que já seria. James Stewart, que é considerado por muitos o melhor ator da Classic Hollywood (ao lado do senhor Humphrey Bogart, obviamente), empresta toda a dignidade da sua persona cinematográfica para o personagem, trazendo também um inesperado lado sombrio e desolado para o filme, o que foi surpreendente, considerando que nos filmes pré-guerra Stewart sempre interpretava personagens engraçadinhos e sem maiores dilemas. Ele entendeu direitinho o espírito do filme e da época. O ser humano tinha um lado terrível, mas no final todos nos redimimos através dos nossos semelhantes. Pena que na vida real ele tenha se perdido no meio de um patriotismo irracional, que o tornou capaz até de, em nome do Macarthismo, espionar colegas de profissão, incluindo o próprio Capra (muitos entenderam o Felicidade Não se Compra como uma crítica à ganância dos bancários, algo que na época soava para o governo como um ato comunista), por mais incrível que pareça. Mas ele sempre considerou o filme como o seu favorito, apesar de tudo. A mensagem do filme ajudou o mundo a sair da lama na qual estava atolado, e sua importância é incalculável. Foi eleito pelo AFI, American Film's Institute, na sua lista de 100 filmes mais inspiradores já feitos, como o filme mais inspirador de todos os tempos, figurando em primeiro na lista. Sintomático. O pior momento da nossa história exigiu um filme que estivesse à altura de tamanho estrago. E Capra e o A Felicidade Não se Compra se mostraram aptos para varrer a sombra que pairava sobre o gênero humano para trás. A mensagem do filme pode soar ingênua para alguns no mundo cínico que vivemos hoje. Mas não havia nada de ingênuo ou equivocado nesse filme. Somente o restabelecimento de uma verdade. De que não merecemos perder a confiança uns nos outros por culpa de fascínoras desmiolados. E quer mérito maior do que o filme ter inspirado a sensacional saga De Volta Para o Futuro (a trilogia é baseada na cena na qual James Stewart vê como seria a vida sem ele)? Um Feliz Natal, que nos ilumina até os dias de hoje, logicamente.

Frank Capra, explicando numa entrevista o que gostaria de fazer com a cara do seu cowboy desafeto John Wayne

December 25

Como é Natal, me permiti brindar com champanhe, quer dizer, espumante, porque champanhe mesmo é amarga demais pros paladares aqui de casa. Só que, como eu nunca bebo, um golinho apenas me deixou zonzo e comecei a alucinar. Eu bebo e alucino, pois é. Suspension of disbelief e próspero ano-novo para todos!

Papel Noel com o saco da Dolce & Gabbana, Michael Scott, gerente da Dunder Mifflin Scranton, e Ernest, sentados na sala, assistindo Matrix Reloaded. Não, isso não. Falei que a gente ia assistir Irmã, La Douce. “Mas não é filme natalino”, objetou Ernest. Nem Matrix Reloaded, Ernest.

Cada um curte o Natal como quer, mas principalmente como pode. Mas sabe o que é mais importante? É ter quem a gente ama perto da gente. Natal é isso: as pessoas. Que haja quem pense diferente é algo que me surpreende. Que me choca. Pois é, Michael, pois é.

Mas ele e o Ernest estão, cada um a seu modo, na restrita galeria daqueles que salvaram o Natal. Então, a gente respeita. Papai Noel é que mudou, muito materialista. Tá, isso ele sempre foi; eu é que, criança, não sacava essas coisas. Um sujeito que é pai, mas cuja idéia de relacionamento consiste em aparecer uma vez no ano com um presentinho? Ele ainda tentou comprar o meu amor. Mas nem me conhece: trouxe um box do 24 Horas. “Você gosta de seriados, né?” Nem me conhece. Pelo menos dá pra passar pra frente e faturar algum.

Jack Lemmon, esse sim é ponta firme. Ele e a Shirley MacLaine, antes dela descobrir que era Deus. Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Billy Wilder. Por que o Billy Wilder nunca fez filme de Natal? “Mas ele fez”, interrompe o Ernest. O Ernest, tipo, manja muito de cinema.

Não, quem fez foi o Lubitsch. A Loja da Esquina, com o James Stewart. “Mensagem para você, com o Tom Hanks e a Meg Ryan, era refilmagem desse”, Ernest fez a lição de casa, então. James Stewart, sim, senhor. Salvou o Natal de muita gente. Quantos melancólicos desistiram de um gesto desesperado só por causa de A Felicidade Não se Compra?

“É mesmo”, todos dissemos. Inclusive o Papai Noel. Dissimulado esse velho, sei que nunca viu o filme. A desculpa dele é que é p&b e cansa muito as vistas. As tuas retinas tão fatigadas, né, Noel? “É, isso mesmo”, sonso. Aí eu falei que quem devia de ser o Papai Noel é o James Stewart. Nessa hora, os dois, Papai Noel e Ernest, se queimaram. O Ernest é mó Dwight Schrute do Papai Noel. O clima ia ficando pesado, então o Michael falou que era hora do karaokê.

Ernest nos tempos do College: e era só o começo, Papai Noel ainda ia se gabar de quando faturou o primeiro milhão. "Natal, época de lembranças felizes."

E eu continuei só nos golinhos. Alguém estava mantendo a droga do copo cheio, mas eu nem ligava. Michael deu uma de Scarlett Johansson em Lost in Translation: “Gonna use my arms / Gonna use my legs / Gonna use my style / Gonna use my sidestep / Gonna use my fingers / Gonna use my, my, my / Imagination, oh-ohh”.

“E a namorada?”, perguntaram. Nem sei, gente, nem sei. Eu comecei a achar que os três estavam ali pra forçar um A Christmas Carol muito do atropelado. “Agora eu sou o Scrooge, então?”, eu gritei pra aquela corja, já quebrando uma garrafa de cidra na beirada da mesa e puxando eles pra briga. Ia mal a festa, confesso.

Começaram as acusações. Eles eram tudo uns vendidos. Ernest era o fantasma do Natal Passado; Michael Scott, o do Presente; e o Papai Noel... não, ele não podia ser o do Futuro, afinal, esse era o último ano que eu convidava ele pra passar o Natal aqui em casa. Ano que vem, a janela fechada pra você, Karl. (Também não gosta de quando chamam ele de Karl.) Mas se não era o Papai Noel, quem seria o do Futuro? Falta alguém chegar, então?

“O futuro – Michael, sempre muito conciliador, começou a arrazoar – é a gente que faz, ninguém pode determiná-lo. Nem sob a autoridade do mágico-religioso. E bem sei que todos aqui crêem na magia, principalmente na magia desta época.”

Lá fora, garotões com topetes empastelados de gel gritavam:

“Ah, u-hu-hu-hu-hu! O Natal é nosso! U-hu-hu-hu-hu!”

“Corretores da Bolsa”, Papai Noel reconheceu, espiando pela janela, e acenou pra eles.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Sarah Polley

Atriz canadense. Queridinha dos circuitos independentes, surgiu para o mundo no filme de natal mais, é, digamos, "descolado" já feito, o Vamos Nessa, uma versão junkie-adolescente do Pulp Fiction. O filme, que contava histórias paralelas envolvendo funcionários de um mercadinho que se envolviam em tramas com drogas, mafiosos e tudo aquilo que fez parte das milhares de cópias do filme do Tarantino que infestaram o fim da década passada, acabou se tornando um cult. Polley também teve êxito no filme Madrugada dos Mortos, mas o Vamos Nessa continua sendo o seu melhor momento. O filme é de 1999. Oito anos se passaram. E aí, vai ou não, senhorita Polley?