sábado, 2 de fevereiro de 2008

Fomos ao cinema ver Juno

Como uma criança gorducha, que, acompanhando seus pais, vai à casa de um desconhecido e lá vê uma vasilha cheia de um delicioso creme, que sem dúvida deve ser o mais doce dos doces, para ser comido puro, passado no pão ou de qualquer outra forma que sua imaginação e apetite dispuserem. Pois assim foi o Camarada Progressista assistir à pré-estréia de Juno, salivante, perigosamente excitado. E, no entanto, terrível anticlímax, a vasilha estava cheia de gordura hidrogenada, de banha, para ser futuramente convertida em ingrediente de um algum quitute divino: mas as mãos e o coração gordinho do camarada podiam esperá-lo, sua mente gordinha podia supô-lo?

O que é um filme? Cidadão Kane é um filme. O romance da empregada é um filme. E, bem, Juno é um filme. Um filme qualquer. Sabe-se isso quando você conclui que o poderia ter escrito. Mas os críticos têm se desmanchado pela história da garota muito cínica, sarcástica e emancipada, que tem de lidar com o fato de estar grávida aos 16 anos. A conhecida bolha se formou em torno de Juno, diante do qual todos se admiram e passivamente celebram. O senso crítico fica de lado, quando nos tornamos empáticos.

Há séculos as pessoas são cínicas e ácidas. Até na curta história do cinema, é um fenômeno antigo. No entanto, para o grande público (eufemismo da mídia pra patuléia), alguém ser cínico é ainda incrivelmente subversivo. No mínimo, capricho adolescente porque o mundo não é do que jeito que eu queria que fosse e ninguém faz a minha vontade. Tanto que quando você viu um personagem de novela sendo cínico e não morrer em queda de avião ou atropelado, porque, nossa, era o vilão?

Mas aí eles resolveram revolucionar. Colocaram uma menina de 16 anos – 16 anos – protagonizando um filme grávida e cínica. Revolucionário. Cinismo de blogueiro, sim, mas cinismo. E aí é que está a chave para Juno e para a aversão do Camarada Progressista ao filme: Juno é um blog. É o blog da Juno, no qual ela comenta, cheia de sorrisinhos, como engravidou, como foi transar com o namoradinho pouco emancipado dela, como ela está pouco se lixando pra opinião dos outros, tudo muito irônica e independentemente. E que isto fique só aqui entre nós, mas o camarada não gosta de blogs. Um choque, eu sei.


Juno: "Camarada Progressista,... talk to the hand!"

Mas Juno é uma garota. O blog dela tem muito potencial: um dia ela pode ser tão cínica que vão confundi-la com um homem. Mas não agora, porque, além de garota, ela só tem 16. Por isso, ainda é uma indie muito auto-satisfeita, muito condescendente consigo mesma e com seu mundinho. E ela está certa. Só não é certo que façam filme disso, pra gente ir correndo assistir na pré-estréia em sessão da meia-noite.

Um filme que quer ser espirituoso a cada linha do diálogo, com todo o mundo, de cara, desferindo muitas falas cortantes e ácidas, mas que esquece de contar uma história cínica e ácida. O sarcasmo da Juno (que, diga-se de passagem, nunca se aplica a ela mesma) tem, então, uma moldura bem inexpressiva e convencional, mas miguxa, aliás, aparentando uma espécie de prevenção contra conflitos reais e resolvendo uma situação complicada com uma facilidade que pode até ser possível, mas não verossímil. Contraste esse que suponho tenha sido decisivo para arrebatar as audiências. Quer dizer, exceto o Camarada Progressista.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Também fui pobre e desconhecido

Ainda estou aguardando a minha vez, pois, como você deve ter lido por aí, o filme independente do momento, Juno, foi roteirizado por uma blogueira, que nem nóis, que ficou famosa sendo blogueira. Aí, incrédulo, você me fala que isso só acontece nos EUA, mas vem cá, é... talk to the hand!

O nome da tal é Brook Busey-Hunt, ou Diablo Cody, que, se eu fosse cafajeste, mencionaria que é plenamente pegável. Mas sem sexismo por hora. E você vive falando que eu deveria escrever alguma coisa, tipo um roteiro pro Wolf Maya rodar um filme horrível com o Gianecchini.

Mas você me esnoba por que eu assisto filme na Globo; e a tecla SAP serve pra quê, então? E, além disso, só a Globo pra resgatar grandes sucessos do cinema como Por um fio, do Joel Schumacher, com o Colin Farrell dando tudo de si como ator. O filme é ele, e ele é um chorão irritante. Lembra o Alexandre, o filho de Amon cheio de biquinhos, conquistando a Ásia num chororô sem fim? Mas ali eu desculpo, porque com o Jared Leto de amante, é razão suficiente, e até pra mais, até pra cortar os pulsos. Era do personagem, então.

Joel Schumacher é mestre nessas coisas e bota o Colin Farrell numa cabine telefônica e faz disso um filme, cheio de closes. Me chamasse, e eu escrevia coisa muito melhor. Tipo: o Colin Farrell tem um caso com a Katie Holmes; o Tom Cruise fica sabendo e, em vez de pedir divórcio, mandar matar o Farrell ou puxar o chorão prum duelo, tenta convertê-lo pra cientologia, porque, diz ele, assim o problema fica resolvido, porque o adultério é uma fraqueza da mente dos três, que só precisam mentalizar que não rolou nada.

Colin Farrell não aceita porque não quer desagradar a mãe, que é metodista, então o Tom Cruise começa a vociferar, até parecer que a cabeça dele vai explodir. Nessa hora chega o Terry Gilliam, e o filme acaba inesperadamente. Esse final é bem Monty Python, eu sei.

Chora agora, ri depois.

O que mais me impressiona no Joel Schumacher, no entanto, é o moralismo dele. É, o cara tem coragem de filmar um Batman campy, mas é moralista. Por um fio e Um dia de fúria são ambos pregações sobre como as pessoas não ligam pro sentimento das outras, snif, snif. Isto é, versam sobre a alienação e individualismo da vida nos grandes centros urbanos, etc, etc. Tipo Kubrick, obcecado com o tema da desumanização, certo?

Só que enquanto o Kubrick absorveu esse processo como um elemento estético, resultando em filmes que filisteus como Stephen King simplesmente consideram frios, Schumacher bota uma mão na cintura e a outra na testa e diz, melancólico-indignada, “Vocês me dão nojo!”, ou “Que falta de amor!” e faz beicinho. Mas até o moralismo nas mãos do Schumacher fica campy, com o Jack Bauer conseguindo tornar o Colin Farrell uma pessoa melhor na base do “Pede pra sair!”. A única coisa que eu posso concluir é que o Joel Schumacher é brasileiro, e ninguém sabia.

As palavras desacompanhadas...




Sozinho, estado lastimável na urbania cotidiana: "não, não posso dar um abraço virtual, não é a mesma coisa"; "numa festa onde as pessoas pulam, se divertem, não acontecia o mesmo comigo".




Em ambos os casos: numa festa abarrotada e na vida virtual, sintomas de solidão podem aparecer, sintomas de incomunicabilidade evidente, de uma forma ou outra aquilo se agrava, pode se agravar. Como conviver bem com isso?

Imagine então: um sistema real de solidão, onde o calor humano existente só seja aquele vindo de você mesmo, existem casos ficcionais exemplares: Robison Crusoé; Conde de Monte Cristo; no meio audiovisual, o Naúfrago. A arte trata desse tema há muito tempo, é verdade. A solidão evidente, a física, é tratada há muito tempo na cultura geral, nem preciso dizer daquela que é somente pessoal, íntima.

São coisas que nos confundem, que nos oprimem, que nos desorientam. Perdemos as razões das coisas, somos imprudentes. A solidão hoje toma forma e denota muitos problemas, vemos nas cidades grandes, aquelas cheias de pessoas, a impessoalidade, a formalidade costumam ser artífices dela. E armam bem a rede, tomam prumo, nem percebemos e fomos todos capturados e solirariamente acreditamos que a internet romperá as barreiras, já tentou conversar por msn e por telefone e percebeu a diferença? Ou mesmo ao vivo, nem uma realidade a base de holografia substituirá o contacto, mas essa não é a questão que busco aqui.

Fui ver o filme "Eu sou a lenda", estrelado por Will Smith. Tal filme, tirando as cenas de ação do final, trata basicamente disto: solidão. Não precisa mais detalhes, o resumo é esse, nas horas do filme, vemos apenas o protagonista e seu cachorro nas maiorias das cenas, intercaladas por cenas predecessoras que levaram ao estado atual da cidade do protagonista. Ou seja, temos aí somente a solidão e suas justificativas, apesar do ator ser quem é, ele surpreende, pense: não é fácil atuar sozinho durante quase um filme inteiro. Altamente recomendável.

Ainda que não seja sensacional, o filme me fez refletir: estava sozinho em casa, pensando um monte de coisas ao mesmo tempo: O filme, a morte do ator que faz o curinga, James Dean. Liguei para o camarada fundamentalista, esbocei tais idéias, ele fez um adendo:

"Não se esqueça do Phoenix, não se esqueça dele"

Sorri e desliguei o telefone, a morte de River Phoenix, por ingestão excessiva de barbitúricos. Traça aí um estranho coincidência com Heath Ledger, de causas mortis ainda confusa. Chegamos na vida de jovens talentos cujas mortes emergiram no auge da carreira. Merdas acontecem, o mundo é realmente estranho. Daí temos lendas, posso citar outros mais que sucederam da mesma situação, todos tão lendários quanto: atores e atrizes se perdaram nesse mundo de drogas e afins, mas essa não é a questão, a solidão era o que queria abordar, a solidão de um lenda, as lendas caminham sozinhas, mas sei que o novo Batman vai render uma boa bilheteria, triste infortúnio para arrecadação de bilheteria, mundo estranho.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Gabriela Spanic

Atriz venezuelana, imortalizada ao atuar na colossal novela mexicana A Usurpadora, sucessão no SBT no final da década passada, antes do Sílvio Santos ficar gagá e mudar a programação da emissora a cada cinco segundos. Se nós considerarmos, vamos ver, Cidadão Kane como o maior êxito da linguagem de dramaturgia transposta para vídeo, tanto em termos de cinema quanto de televisão, as novelas mexicanas estariam juntas com os filmes do Michael Bay do outro lado da moeda. Mas, ao contrário dos filmes de Bay, as novelas mexicanas conseguem proporcionar belíssimas risadas, ao desconsiderar desde o início qualquer tipo de sutileza em termos de roteiros e interpretações e partir logo para o dramalhão, com épicas histórias de drama, vinganças e amores impossiveís. A máxima do "é tão ruim que chega a ser bom" vale. No caso da Usurpadora, quem já ousou assistir algum capítulo sabe bem o que fez a novela ser um dos maiores êxitos da história da Televisa, a Globo Mexicana, lançando a Gabriela Spanic ao estrelato. Fez tanto sucesso por aqui também que quando ela veio para o Brasil, levantou a audiência de todos os programas do SBT que visitou. A saga das irmãs gêmeas separadas no nascimento, com uma se tornando bondosa e pobre e a outra rica e malvada é uma aula de como não ter vergonha alguma daquela palavra chamada maniqueísmo. Pô, pra quê complicar, enfiar complexidade e profundidade nos seus personagens, se você pode partir pra ignorância e deixar tudo às claras desde o começo? Quem é bonzinho é bonzinho e não tem defeitos, e quem é mal é pior do que bater na mãe, oras! Nem todo mundo pode ser o Tennessee Williams não, pô! "O quê, eu não sou filha de Dom Carlos Eduardo da Veiga? NÃÃÃÃAÃÃÃÕOOOOOOO!!!!!!!".

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

E aqui deixamos de ser blasé

O sol brilhou frio sobre nossas manhãs na última terça-feira. Briony Tallis correu, abraçando um maço de folhas de papel totalmente preenchidas com uma letra miúda, para me mostrar sua nova incursão literária. Eu estava do lado de fora, tentando consertar uma velha bicicleta, como se eu fosse capaz de fazê-lo. Juntamente com um sopro gelado e súbito de ar, Briony chegou. Estava visivelmente eufórica. Notando-o, fiz-me indiferente, apenas para provocá-la, e continuei com meus cálculos e movimentos inúteis sobre um mecanismo cujo nome ignorava. Muito previsível, ela me gritou. "Ora, Briony, o que foi?"

Neste momento, fomos interrompidos. Era o Camarada Progressista. Heath Ledger havia morrido. O camarada e eu éramos apaixonados por cinema, e aqui evito usar o termo “cinéfilo”, pois não quero que com ele venha o preconceito que aqueles que se denominam cinéfilos demonstram por ocorrências como a morte absurda e inesperada de Heath Ledger, por reunir elementos que a aproximam mais do mundo das celebridades que do bom cinema. E, neste sentido, um cinéfilo é muito característico, já que ele se prende a algum momento passado, como o dos musicais dos anos 1940, afirmando que ali o cinema atingira seu auge como forma e, por conseqüência, reduzindo todo o resto, principalmente a produção contemporânea, a expressões minguadas de pseudo-arte. Aqui, eu deveria dizer “eu lamento por vocês”, mas não, porque não lamento.

Eu não vou defender a arte ou pregar em nome dela. Antes, quero afirmar este fenômeno que vivemos, a cultura (de massas). Alguém irromperá na platéia e dirá “Godard disse que a cultura é inimiga da arte”. Ah, mas Godard disse tantas coisas. E não se trata disso, ainda que acima eu tenha procedido a uma espécie de auto-justificação. Heath Ledger morreu. Nenhum de seus filmes me chamava particularmente a atenção. No entanto, era um ator jovem e talentoso: a descrição mais gasta ainda vale para demonstrar que, no caso, transcendemos a discussão cinematográfica, forçados à discussão existencial.

Cogita-se suicídio. A família desmente. Como o Camarada Progressista me dizia, logo surgirão dezenas de fatos que em tudo indicavam uma personalidade errática e suicida de alguém que jamais satisfizera, com seu comportamento, ao espírito sanguinário dos paparazzi. Aliás, uma dessas explicações mirabolantes já se pronuciaram, como ainda o camarada me informava: o envolvimento com o personagem do Coringa, um de seus dois últimos trabalhos, já concluído, levaram-no a encher a mente de “pensamentos psicopáticos”. Como eu duvidaria disso?

Seja como for, um rapaz de 28 anos está morto. A tragédia disso é muito evidente para nós, que prezamos tanto a juventude; ainda mais a juventude bem-sucedida. E muito provavelmente de forma acidental, tornando tudo muito mais absurdo. Mas, enfim, agora, quando olhamos para uma foto do ator, ficamos é com uma sensação de vazio enorme, como se afinal fôssemos muito próximos dele e a nossa perda fosse real. De fato, talvez tenhamos perdido algo, que não sei bem especificar. Toda vez que morre alguém de quem soubemos mais do que o primeiro nome, acontece isso. E a sensação de vazio é real, apesar da menção a ela ser clichê.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Oscar 2008: Indicações

É, cambada, não teve jeito mesmo. A Academia ignorou o filme do moleque do Bom Retiro, e O Ano Que Os Meus Pais Saíram de Férias não foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas temos que manter a cabeça erguida, já que no ano que vem veremos o Tropa de Elite ser o primeiro filme não falado em inglês a ser o vencedor do Oscar de melhor filme. Viajei? É claro que não. Cês acham que os velhinhos da Academia serão loucos de contrariar o Capitão Nascimento? E como o Oscar é válido apenas para filmes lançados em circuito nos EUA, e o Tropa será lançado por lá em meados desse ano, o negócio vai ficar feio. E também tem a dor de cabeça deles não terem dado nenhum prêmio para o Cidade de Deus, considerado por muitos o melhor filme da década de 00 até agora. Como o gênero "tráfico-de-favela-carioca" está tomando o lugar das sagas de mafiosos na preferência dos críticos, então podemos esperar muito. Mesmo se o Tropa tivesse sido o representante brasileiro na categoria de filme estrangeiro, não teria tido chances, já que os eleitores dessa categoria são diferentes dos das outras, um bando de velhos babões que adoram filmes com lições de valores familiares. Um Capitão Nascimento teria sido muito para eles. Mas no ano que vem não escapa, e como diz a bela música do Tihuana, agora o bicho vai pegar.
CAO HAMBURGER, PEDE PRA SAIR! PEDE!

Indicações aos prêmios principais e comentários:
Melhor filme:
Conduta de Risco (Michael Clayton) - Elogiado filme de estréia do roteirista dos filmes do Jason Bourne (Identidade, Supremacia e Ultimato Bourne), Toni Gilroy. George Clooney interpreta um advogado bonzão envolvido num caso de proporções dantescas. Vai ganhar? É lógico que não. Então pra quê perder tempo falando? Vocês que me dizem.
Desejo e Reparação (Atonement) - É batata: todo ano, a Academia enfia um filme britânico de época entre os indicados a melhor filme. Deve ser o sotaque, talvez. Esse esforço do diretor Joe Wright fez bela carreira de prêmios nos festivais, tem belos truques narrativos, mas vai sair de mãos vazias. Explico: o diretor não foi indicado. E em apenas duas ocasiões na história do Oscar, o prêmio de melhor filme foi para uma película a qual o seu diretor não tinha sido indicado (uma delas em 89, quando o soporífero Conduzindo Miss Daisy foi premiado, mesmo com o seu diretor Bruce Beresford ignorado). E nem a Keira Knightley foi indicada. É, foi só pela lembrança mesmo...
Juno (Juno) - Esse cumpre o papel que foi desempenhado primeiramente pelo Pulp Fiction e nas últimas edições pelo Encontros e Desencontros, Sideways e Pequena Miss Sunshine: representar o circuito alternativo. Tipo, a Academia dizendo, "ei, continuem aí, fazendo esses belos filmes, quem sabe um dia não chega a vez de vocês, ao invés de se conformarem com um roteiro original aqui e um ator coadjuvante ali". Chances de ganhar? As mesmas do Corinthians ganhar a Libertadores desse ano. Ou seja, zero. Pelo menos, fizeram justiça à nossa querida Ellen Paige. TETÉIA! TETÉIA!
Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Men) - Agora sim, entra um favorito. Alardeado como melhor filme dos ~irmãos Coen desde Fargo, unanimidade entre os críticos, pode representar finalmente a glória suprema para os irmãos. E eu que pensei, depois de ver uma sessão de meia noite do horrendo Matadores de Velhinha com o estimado Moderado, que a carreira deles tinha acabado. Mea Culpa?
Sangue Negro (There Will Be Blood) - Imaginem um filme de 158 minutos. Agora, imaginem que os primeiros 15 minutos desse filme transcorrem sem diálogo algum. Agora, imaginem que esse filme não se chama 2001 - Uma Odisséia no Espaço e que o seu diretor não se chama Stanley Kubrick. Paul Thomas Anderson arriscou nessa, e pelo jeito se saiu bem com a história de um homem lutando para enriquecer no início da indústria petrolífera yankee. Daniel Day Lewis resolveu parar de ser engraxate na Irlanda para trampar um pouquinho. Bom para nós. Muito bom.
Melhor Diretor:
Tony Lelroy - Conduta de Risco: Ganhou na loteria, se tornando um dos raros diretores a serem indicados logo no seu primeiro filme. Seu próximo filme será sobre uma dupla de espiões interpretados pelo Clive Owen e pela Julia Roberts. É, já vi que o cara se amarra numa espionagem. Bocejos.
Jason Reitman - Juno: Filho do diretor Ivan Reitman, rei das comédias oitentistas (fez Os Caça-Fantasmas, Um Tira no Jardim de Infância entre outros). Imagine o bode do cara. Rala por duzentos anos em Hollywood, fazendo um monte de filmes (uns bons, outros abomináveis como o horrendo Júnior) sem nunca ter passado nem perto do Oscar, ai vem o seu fedelho e já no seu segundo filme importante é indicado. É a sina da vida, fazer o quê.
Julian Schnabel - O Escafandro e a Borboleta- Por favor, alguém liga pro cidadão e avisa que ele foi indicado pelo seu filminho francês (embora ele seja americano). Liguem lá, vai! Não custa nada, pô! Até hoje não ligaram pro John Singleton para avisar que ele tinha sido indicado pelo Donos Da Rua. Não repetiremos o erro, por favor.
Joel e Ethan Coen - Onde os Fracos Não Têm Vez - A Academia finalmente acertou. Depois de ter indicado somente o Joel para melhor diretor pelo Fargo em 96 por problemas trabalhistas, agora indicou os dois irmãos, que nunca custa relembrar, não são siameses. Quer dizer, vai saber, né... Dessa vez eles levam. Aposto o que quiser com vocês, eles vão ganhar. Arizona Nunca Mais, finalmente.
Paul Thomas Anderson - Sangue Negro: Pronto, seu mala! Foi indicado finalmente. Dá pra parar de encher o saco de todo mundo agora? Seus filmes são muito bons, mas você é um porre, hein? Custava ter deixado o Burt Reynolds falar nas coletivas de divulgação do Boogie Nights? Teria te evitado uma bela duma surra, com certeza. E vai perder pros Coen, jão.
Melhor Ator:
Daniel Day-Lewis - Sangue Negro: Podiam evitar desperdícios e já dar o prêmio para ele agora. Todo mundo sabe que é dele a estatueta. Vai se igualar ao seleto grupo de atores com dois prêmios principais, ao lado dos Marlons Brandos, Spencers Tracys e Tom Hanks da vida (ganhou seu primeiro Oscar no Meu Pé Esquerdo, longínquos 19 anos atrás). A não ser que fiquem com pena do Tommy Lee Jones... Aliás...
Tommy Lee Jones - No Vale das Sombras: Surpreendente não foi a sua indicação em si, mas ela ter vindo pelo filme do maleta do Paul Haggis, ao invés de sua atuação no Onde Os Fracos Não Têm Vez. A Academia medrou, apenas na primeira década da cerimônia, década de 30, ocorreram casos de um ator ou atriz receberem duas indicações por filmes diferentes na categoria de melhor ator/atriz, algo que ocorreu com Ronald Colman, Maurice Chavalier e Greta Garbo, entre outros. Lógico que isso era facilitado por na época 10 nomes serem indicados na categoria, ao invés dos costumeiros cinco que perduram dos anos 40 até os dias de hoje( depois disso, ocorreram apenas indicações para um ator por filmes diferentes no mesmo ano para a categoria principal e de coadjuvante, o que aconteceu nesse ano com a Cate Blanchett como veremos depois). Será que vão ter dorzinha de consciência e dar pro Tommy Lee o que é o Day-Lewis por direito? No Country For Old Men.
Viggo Mortensen - Senhores do Crime: Lembram da minha lista de atores mais insuportáveis, que tinha dez nomes? Bom, se eu tivesse colocado um décimo primeiro, teria sido esse. Indicado pelo filme do David Cronenberg, outro que deve ter cansado de esperar ser lembrado apenas pelos roteiros e já deve ter encomendado o seu suicídio. Se ele ganhar, eu cuspo no chão. Cuspo mesmo.
George Clooney - Conduta de Risco: Um belo dia, a Academia acordou e resolveu acreditar que o George Clooney é um excelente ator. Outra indicação para ele, então. Que sempre interpreta a si mesmo em todo santo filme que faz, seja sendo um espião, um advogado ou um golpista com um monte de homens do lado (11, 12 e depois 13). Humphrey Bogart fazia o mesmo, diriam alguns. Nessa, eu já emendava com uma muqueta no meio das fuças. Dobrem a lingúa quando pronunciarem o nome de Bogart, seus jões!
Johnny Depp - Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet: Pronto, virou esculhambação. Essa nem o Depp esperava. Aliás, vamos fazer um favor para o Johnny? Vamos contar para ele que o Tim Burton não é o único diretor de cinema que existe no mundo? Há, tá, ele conhece outro, o Gore Verbinski. Nossa, tinha me esquecido, que diretores para se trabalhar, né não?

Melhor Atriz:

Cate Blanchett - Elizabeth: A Era de Ouro - Dez anos depois de ser indicada pelo Elizabeth, Cate Blanchett marca de novo, na continuação daquele filme. Inexplicável, já que o filme é um lixo e Blanchett apenas repete os maneirismos de dez anos atrás. A Academia foi absurdamente generosa com ela esse ano, já que nem essa nem a outra indicação que ela ganhou (que comentarei em seguida) eram previstas.

Julie Christie - Longe Dela: O quê, a Julie Christie tá viva ainda? Aonde?

Laura Linney - The Savages (sem título em português ainda, o que indica a bela carreira que fará nos nossos cinemas): Parece que a Laura Linney tem sorte quando faz filmes nos quais suas personagens dividem a cena com um irmão problemático. Sua outra indicação para melhor atriz (foi indicada também para coadjuvante pelo Kinsey) foi pelo filme Você Pode Contar Comigo, quando contracenou com o Mark Ruffallo (argh), e agora é indicada por um filme no qual divide a cena com um irmão interpretado pelo Philip Seymour Hoffman. Se eu fosse ela, só fazia filmes nesse estilo, quem sabe um dia ela chega na Meryl Streep em número de indicações.

Marion Cotillard- Piaf – Um Hino ao Amor: esse filme ficou em cartaz por meses nos cinemas de arte da Avenida Paulista, sem ninguém dar a mínima. Agora, a atriz francesa que interpretou a Edith Piaf no filme é indicada. Custava vocês terem dado mais atenção ao filme? Custava? Agora vão lá, correr atrás do tempo perdido.

Ellen Page - Juno: Vamos lá, todos juntos: TETÉIA! TE-TÉ-I-A! Não falei, pô? Kitty Pryde, quem te viu, que te vê, hein?

Melhor Ator Coadjuvante:

Hal Horbrook - Na Natureza Selvagem: Ator de 265 anos, conseguiu ser indicado por um filme dirigido pelo Sean Penn. O bom velhinho não merece apenas o Oscar, merece também um belo dum Nobel da Paz. Aguentar o mala-mor (quando eu digo que o Sean Penn é o mala-mor, eu quero dizer que ele é O MALA-MOR, de verdade) é para poucos e bons e puros de coração.

Javier Bardem - Onde os Fracos Não Têm Vez: Já é dele o prêmio. Fazer o quê, o espanhol é bom mesmo.

Tom Wilkinson - Conduta de Risco: A Academia gostou mesmo desse filme, hein? Eu nunca vou entender tanta puxação de saco em cima do Tom Wilkinson. Maldito Ou Tudo ou Nada, que lançou esse inglês mala nas raias do estrelato.

Philip Seymour Hoffman - Jogos do Poder: roubou a cena do Tom Hanks nesse filme do Mike Nichols, o que nem chega a ser grande mérito, já que ultimamente o senhor Hanks tem tirado belas sonecas nas películas que protagoniza. Cadê a alma, caramba? O Tom Hanks arte, o Tom Hanks moleque? Mas o Seymour Hoffman é o único que pode tirar o prêmio do Javier Bardem, então respeitemos.

Casey Affleck - O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford (ufa) - Como esperado, a Academia vergonhosamente preteriu esse filme, indicando-o apenas para categorias técnicas e nessa. Mais um grande filme chutado. Mas o Casey Affleck, se houver justiça, deveria ser o ganhador, já que humilha em toda cena que aparece. Preciso zoar o Ben Affleck e seus dez anos de carreira e Framboesas de Ouro enquanto seu irmão mais novo logo no seu quinto filme já vai para as cabeças? Como dito no caso Reitman: a vida é assim mesmo. O talento que falta em alguns sobra naqueles tão próximos de nós.

Melhor Atriz Coadjuvante:

Amy Ryan -Medo da Verdade: indicada pelo filme dirigido pelo Ben Affleck. Como contracenou com o Casey Affleck, já dá para imaginar de quem realmente é o mérito dessa indicação.

Cate Blanchett -Não Estou Lá: Cinco pessoas interpretaram o Bob Dylan (inclusive o Heath Ledger, sniff) nesse filme maluco, e apenas a Cate foi indicada. Foi merecido? Sim, a interpretação dela está sensacional. Mas não dá pra engolir a outra indicação dela. Injustificável.

Ruby Dee- O Gângster: Veteraníssima atriz (seu primeiro trabalho é de 1939!), indicada pelo justamente ignorado filme do Ridley Scott. Não vai ganhar, já que normalmente a categoria de atriz coadjuvante é reservada para atrizes iniciantes. Eu se fosse ela, nem ia na festa, ficava em casa comendo bolinhos e assistindo E O Vento Levou pela enésima vez.

Saoirse Ronan- Desejo e Reparação: Humilhou a Keira Knightley nessa. Ficou chato mesmo. Tem apenas 13 anos de idade, será que repetiria a façanha alcançada pela Tatum O'Neal e pela Anna Paquin, que foram premiadas nessa categoria ainda crianças? É provável.

Tilda Swinton-Conduta de Risco: se tem uma atriz que não fede nem cheira, é essa. Tá sempre lá, nos Constantines e Crônicas de Nárnia da vida, mas se você bobear, nem nota a presença dela. Mas como a Academia adorou esse filme, então teremos de aturar.


Outras categorias: vai no Google e digita: "indicações Oscar 2008", ou então, "2008 Oscar Nominations". Melindrou, né?

Heath Ledger: What?

Eu estou abismado. Heath Ledger, o ator australiano indicado ao Oscar pelo Brokeback Mountain e que estará na continuação do Batman como o novo Coringa (já tinha filmado todas as cenas) morreu de overdose em Nova Iorque ontem. 29 anos, caçamba! Vai virar mito? River Phoenix 2? Veremos, mas que eu estou, digamos, chocado, eu estou. Obviamente, todos por essas bandas se lembrarão dele pelo filme que virou símbolo da "geração Orkut", 10 Coisas que Eu Odeio Em Você, versão comédia-romântica-aborrescente da peça de Shakespeare, A Megera Domada. A cena na qual ele interrompe um ensaio de cheerleaders da sua pretendente romântica no filme (a personagem da Julia Stiles) para cantar I Can't Take My Eyes Off You é antológica. Aliás, aquele filme é lembrado como tendo, ao lado do Segundas Intenções, um patamar acima das comédias românticas que infestaram o mundo no fim da década de 90 e começo dessa, muito por causa do elenco, já que o tempo provou que Heath Ledger e Julia Stiles eram atores com maiores pretensões do que os Freddies Prinzes Jrs. da vida. Pelo menos até o dia de ontem. Eu sei, bem tristão mesmo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Mary Lynn Rajskub


Atriz e comediante americana, mais conhecida por interpretar a agente anti-terrorista Chloe O’Brian na série 24 Horas. Ela entrou na terceira temporada para fazer apenas uma participação especial, mas agradou tanto os freaks do show que acabou sendo efetivada, e hoje é o segundo maior salário da série e também segunda em número de episódios, perdendo nos dois quesitos apenas para você sabe quem. Sim, num show no qual Jack Bauer sai atirando em qualquer criancinha que vê pela frente em nome do Tio Sam, Mary Lynn injeta um pouco de, digamos, humanidade numa atmosfera tão árida. Será que a fraca sexta temporada fará os produtores darem um belo de um chutão no Kiefer Sutherland e fazerem da Mary Lyon a protagonista de facto do bagulho todo? É lógico que não, mas esperem cada vez mais proeminência da ex-comediante de stand-ups dentro do mundo do senhor Bauer. Há, uma última coisa: ela estava no Pequena Miss Sunshine, numa participação pequena, porém deveras marcante. Não falei pra vocês que só faltou o Bill Murray para aquilo ser perfeito?

Oscar 2008: aviso

Amanhã não percam, as indicações do Oscar de 2008, comentadas com toda a real jogada na cara, sem as palavrinhas de efeito dos críticos babões. A coisa vai ficar feia por aqui. E ai se a Angelina Jolie for indicada. O único prêmio que ela merece na vida é o de lábios supremus. E também a comemoração pela indicação do filme tupiniquim O Ano em que meus pais saíram de férias (esqueci de ligar o caps lock no resto). Será? Aguardem.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Falta pouco, Moderado

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias está entre os 10 concorrentes finais para a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O que significa que o tão amado filme do nosso Camarada está com um pé e meio na maior festa do cinema (ou pelo andar da greve dos roteiristas, a maior e mais glamourosa entrevista coletiva do mundo). Cao Hamburger oscarizado? O que o andrógino Nino do Castelo Rá-Tim-Bum diria disso? O quê, andrógino?