quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Mazelas da Humanidade: Lindsay Lohan
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Mazelas da Humanidade: Paris Hilton
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
TETÉIA DA SEMANA
Kelly MacdonaldAs Chagas do Progressista: Juno
l. Como não se pode abraçar um filme, sugiro duas coisas: esperem o lançamento em DVD para ficarem agarrando a caixa do mesmo, ou então surrupiem negativos originais do filme e mandem bala. Abracem, apertem, chamem de seu. Quanto a minha verdade, digo-a para vocês agora, em alto e bom som. A Ellen Page faz esse filme parecer muito melhor do que realmente é. Ou melhor, ela faz esse exercício de nulidade alternativa parecer algo cheio de alma, ao invés do vazio absurdo que existe ali. O Camarada Fundamentalista já tinha dado a dica do meu ódio ao filme. Ele o achou exagerado, muito exagerado. Talvez ele tenha razão. Talvez todos aqueles críticos quarentões-babões que escreveram estarem apaixonados pela personagem Juno tenham toda a razão em se sentirem assim. É fácil entender, considerando o que acontece com o personagem do Jason Bateman (ator principal da série mais superstimada da história da humanidade, Arrested Development) no filme, quando entra em contato com a Juno. Imagino todos esses coroas se colocando no lugar dele, interagindo com uma adolescente descolada, que sabe diferenciar o Punk de 77 do atual (nooooossssaaaaa! como ela é descolada) e que cita um cineasta tão cult e gore como o Dario Argento. Altamente sedutor.E as meninas, então? Putz, no alvo. Digo agora para as garotas que não viram o filme e o virão a fazer em breve: vocês vão sair do cinema babando. "Nossa, agora eu posso reafirmar o meu até então reprimido orgulho de ser mulher! Somos um oásis de força e sensibilidade no meio desse mundo tão cínico e brutal! Girl Power! Opa, Girl Power não, Spice Girls não é nada cult, disfarça". Uma personagem tão, tão, tão, errr, forte como a Juno, irá virar vocês de cabeça para baixo. E ver um bando de marmanjo fraco e beta no filme também ajudará muito vocês se apaixonarem pelo filme. Não quero entrar no mérito da manjadíssima discussão "cacoetes do mundo indie", já que quando vejo um filme pouco me importa o rótulo que tenha por trás dele. O negócio é se o bicho é bom ou não
. No mais, se houver uma continuação (aposto o que vocês quiserem que vai ter), deveriam chamar o Fundamentalista para dirigir ao invés do filho favorito do Ivan Reitman, Jason. Quando eu notei para o Camarada as minhas tentativas de interpretação sobre os corredores que vira e mexe passam no meio das cenas até o final do filme, ele deu uma intepretação tão perfeita que com certeza nem deve ter passado perto das idéias do Jason Reitman e da Diablo Cody, a ex-stripper e atual blogueira que escreveu os argumentos do filme. Tenho certeza que eles colocaram esse artefato no filme por meros efeitos compositivos. A Ellen Page, como já havia comprovado no péssimo X-Men 3 - no qual sobreviveu ao péssimo roteiro e a carnificina promovida pelo diretor Brett Ratner, que resolveu matar 90% dos mutantes naquele filme - é uma atriz realmente talentosa, e faz a personagem ganhar vida no meio de tantos cadáveres. Mas, francamente, nem se o Marlon Brando tivesse colocado peruca e uma barriga postiça, conseguiria salvar esse exercício de auto-indulgência descolada. Juno, minha querida, pare de ficar sambando pelos cantos, bote vergonha nessa cara e vai trampar um pouco, ganhar um dinheirinho, ao invés de ficar engravidando de corredores adolescentes-abobados por aí.
"Nós não devemos ter vergonha dessa barriga postiça, Michael Cera. Você viu o uniforme que me colocaram no final do X-Men? Caçamba....Aquilo era mais apertado que a fome. Agora, qual era o nome mesmo do seu personagem no Arrested Development? George Michael? GEORGE MICHAEL? Rsrsrsrsrsrsrsrsrs." domingo, 10 de fevereiro de 2008
Desejo proibido
Eu tinha um amiguinho imaginário que, por uma confusão terrível de que só mesmo o inconsciente by Freud da gente é capaz, era a cara do Adorno, o Teodoro, aquele da Escola de Frankfurt, internato pra onde os alemães do entreguerras mandavam os filhos, que saíam de lá aos 17 doutorados em Filosofia, mas magrinhos, porque proibiam as crianças de comer chucrute e beber cerveja. Um dos pilares do espírito do colégio era a erradicação total do sorriso no mundo, tão fundamental que era a marca registrada indisfarçável do pensamento e da cara de qualquer um de seus ex-alunos.

A luz.
("My fingertips are holding onto the cracks in our foundation...")
Sintomaticamente, o Adanoninho, como o apelidei, só me aparecia quando eu começava a flertar, mais do que o normal, com o mainstream. Aliás, só de tocar no assunto, pipocava um vultozinho dele aqui e ali, no canto do meu olho, mesmo entre os meus colegas superalternativos, totalmente endossados em seu estilo de vida pelo velho espírito carrancudo da Teoria Crítica. Ultimamente, o nome do flerte é Kate Nash, bijuzinho irlandês que já figurou aqui como Tetéia da Semana, escolha luminosa do Camarada Progressista.
A coisa melhor do mundo é saber que se está sendo enganado, mas deixar, porque é gostoso. Posso te enumerar pelo menos uns três vícios universais que não são senão variações disso: arte, música pop e amor. Agora, posso te citar verbatim a passagem da Minima Moralia em que o Adorno himself condena esse prazer leviano e irresponsável como o riso que acoberta o choro e ranger de dentes da multidão. Pois absolutamente toda vez que, diante da Farsa, você dá de ombros, muito jovialmente, e morde um Big Mac, cai uma bigorna bem grandona na cabeça de um chinezinho oprimido pela ordem do Trabalho.
Prevendo o tom zombeteiro de posts como este, é que Adorno, em vez de reencarnar – gesto crítico dialético contrário a seu materialismo em vida –, totalmente organicamente perpetuou-se em brotos alucinatórios (e não ectoplasmáticos!) na cabeça de jovens universitários incautos como eu, sob a forma de amiguinhos imaginários como o Adanoninho, para me lembrar que até isto é vaidade e há de passar.
As trevas.
Só que outro dia, depois de baixar, quer dizer, comprar um Compact Disc original de Made of Bricks e pagar em dinheiro no caixa da Fnac Paulista, pena que eu perdi a notinha, senão eu te mostrava, passei pro meu mp3 player pra avaliar a sonoridade da artista em outras faixas que não seu hit Foundations, teste que consiste em quanto uma música consegue me fazer sorrir em público esquisitamente, logo pela manhã, apesar do ônibus e metrô lotados que me levam prum serviço que paga mal. Estava mais do que aprovada a menininha.
Só sei que quando, em Skeleton Song, Kate Nash diz que vai acabar com a raça do seu amiguinho esqueleto, no meio de uma gigantesca barulheira, on that delicious British accent, o Adanoninho deu sinal, desceu do ônibus e se enfiou num boteco fedido, cheio da mais renitente e ascética resistência ao glamour hollywoodiano, já que não podia haver na terra cenário mais diverso daquele de Casablanca, em que Bogart amarguradamente mamado ouvia As time goes by. Casablanca, que ninguém, a não ser o Adanoninho, notara que endeusa um bebum agindo que nem fosse sóbrio. Como todos os filmes com o Bogart, você diz maldosamente, mas façamos que não vimos, né?
Desde então, não houve mais aparições do Adanoninho, que antes eram quase diárias. Isso foi há mais de uma semana.
Epílogo – New about me: lia Adorno e ouvia Kate Nash. Im-pu-ne-men-te.
Ô, sim, isso tudo foi um prólogo, porque de Kate Nash mesmo eu não falei nada, reme(n)dando o mal no post seguinte, pois não.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Previsões para o Oscar - Paul Thomas Anderson
Eu sou muito jovem e heterossexual pra ter, ao invés de simular, bom-gosto. No futuro, quando eu for tiozinho, num casamento frustrado ou na solteirice indesejadamente prolongada, aí sim vou dar o devido valor a ouvir Station to Station, a ler Declínio e Queda e a assisir a Irma, la Douce. Por enquanto, eu sou indie. E entre as constantes hesitações, que me fazem duvidar seriamente da minha capacidade crítica e intelectual, como o Marcel de (e esfrego na tua cara o engodo só mais uma vezinha) À sombra das raparigas em flor, blogo, reunindo em torno da persona que agora você sabe por que difusa do Camarada Fundamentalista um fã-clube que não ousa dizer o nome.
Mas Sangue Negro (There Will be Blood, 2007) estréia 16 de fevereiro por aqui. O novo filme do Paul Thomas Anderson é favorito ao Oscar, considerado por muitos melhor que o prodigioso No Country for Old Men, dos irmãos Coen. Mas como é a PTA feature, há muito a ser descontado daí, vai por mim. Relembrando sua filmografia em conjunto, a impressão mais forte que eu tenho é de um cinema campy e muito glamour estudadamente blasé.

Stand-up de Tom Cruise em Magnolia (1999): "Então, um sujeito chegou pra mim no Planet Hollywood e me perguntou se eu era cientólogo, e eu respondi que sim. Daí, ele falou que também era, e só aí eu vi que estava falando com o John Travolta." (Risos.)
Mas é um cinema de sensações, já ouvi dizer. Sensações com o William H. Macy, no entanto, o que passa bem a idéia do constante anticlímax (ai, essa linguagem sem vergonha de ser involuntariamente ambígua) que a gente experimenta, por exemplo, em Magnolia, que entra pra lista dos filmes-quase, porque é cheio de coisinhas que não deixam a gente se envolver com todas aquelas personagens, a não ser que você nunca tenha visto na vida, ou tenha visto mas não prestado atenção, uma pessoa de verdade frustrada ou sofrendo. Sem dúvida, o maior obstáculo entre nós e os personagens e seus dramas é o próprio PTA, cuja sensibilidade dramática se formou com canções pop de três ou quatro minutos, como em parte ele já confessou atribuindo à música sua principal fonte de inspiração. Muita Aimee Mann, então.
William H. Macy cercado de pessoas que, como eu, não dão a mínima pra ele.
"And the rain is coming, oooooh..."
Antes que você proteste contra o que acredita ser preconceito meu, deixa eu colocar assim. Tem a música, tem a literatura, tem o teatro e tem também o cinema. Música é música. E na música tem às vezes letra, que é parecido com poesia, que é literatura. E teatro tem literatura também. Tem. Só tem. Porque literatura é literatura. Teatro nasceu com música. Então, tem música no teatro. Tem. Só tem. Porque teatro é teatro. E música é música. Mas teatro e cinema são bem parecidos, mais que música e teatro. No cinema, também tem música. Tem. E tem literatura, menos que no teatro. Mas também só tem. Porque cinema é cinema. O que leva a gente a concluir que: 1) música é música, 2) literatura é literatura, 3) teatro é teatro e 4) cinema é cinema. E essa forma de exposição é quirky que nem um filme do PTA, e por isso me dá raiva, mas tem gente que adora.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Fomos ao Cinema ver Desejo e Reparação
es diferentes (nome do álbum mais sensacional do Pulp, banda do bardo Jarvis Cocker, e que resume bem o espírito inglês desde... bem, desde sempre). Talvez Joe Wright tenha se dado conta de que algo estaria muito errado, parado. Era hora de ousar, beber da mesma fonte, porém mostrando truquezinhos novos para a patuléia parar de tirar um ronco. A coisa acabou saindo melhor do que a encomenda, felizmente. Wright pegou um intricado livro de seu compatriota Ian McEwan chamado Atonement (palavrinha que significa reparação) e foi para as cabeças. A história versa sobre duas irmãs de uma família abastada vivendo numa bela casa de campo inglesa em 1936, apenas três anos antes da Segunda Guerra. A mais jovem, Briony (interpretada nessa fase pela Saorsie Ronan), tenta montar uma peça para saudar a volta do seu irmão mais velho, e a mais velha, Cecilia (Keira Knightley is in the house) acaba de voltar da universidade e se vê lidando com seus sentimentos em relação ao filho da governanta da casa, Robbie (James McAvoy, o escocês gente boa do Último Rei da Escócia). Briony, embora bem mais jovem, nutre uma paixonite secreta por Robbie. O problema é que Briony, ainda jovem e arrogante, mostra-se, embora não abertamente, envergonhada por nutrir sentimentos por um rapaz fora de seu círculo social. Falamos então de um panorama propício para um bloqueio emocional, talvez? Que somado com puros sentimentos de ciúmes por ver Robbie e Cecilia juntos, teria feito Briony, em dois momentos cruciais do filme, interpretar equivocadamente momentos de interações entre Cecilia e Robbie, tomando o rapaz, gentilíssimo e educado, estupidamente como um predador sexual. O filme mostra as duas cenas primeiro com o ponto de vista da garota, para depois mostrar então os mesmíssimos acontecimentos com a perspectiva de Robbie e Cecilia, como eles realmente aconteceram.Quando um crime ocorre na mansão, Briony se mostra tão condicionada que não pensa duas vezes em afirmar que viu Robbie cometê-lo, o que acaba desgraçando a vida do rapaz e sepultando as chances de um relacionamento entre ele e sua irmã. Toda essa primeira parte do filme transcorre de maneira lenta e contemplativa, refletindo inteligentemente o ritmo da vida de todos aqueles seres, nobres ou não, cujas existências passavam naturalmente por aquela gig
ante casa de campo. Depois da prisão de Robbie, o filme fecha um longo corte com um close-up no rosto de Briony, talvez tomando ciência pela primeira vez do alcance do seu ato. Então, o filme nos leva direto para a Segunda Guerra. Toda a calma da primeira parte é sepultada, e o caos e carnificina do conflito acabam refletindo a turbulência interna dos personagens, tendo de ao mesmo tempo sobreviver e lidar com as cicatrizes dos acontecimentos anteriores. Robbie se juntou ao exército inglês e aparece lutando na França, e Cecilia e Briony viraram enfermeiras, ainda que de hospitais diferentes. Cecilia tretou com a família por culpa de Robbie, e Briony, como dito pela própria irmã, virou enfermeira como forma de auto punição. Consumida pela culpa e pela angústia, que faz o seu semblante parecer sempre tenso e carregado (méritos totais para Romola Garai, intérprete de Briony nessa parte do filme), tudo o que quer é reparar (ATONEMENT! ATONEMENT!) a injustiça que cometeu e devolver Robbie e Cecilia aos braços um do outro. Mas a Guerra não entra na história por acaso. O conflito acaba exercendo influência decisiva sobre os acontecimentos, impedindo Briony de alcançar seu intento.
teria de ter ido para a Guerra de qualquer maneira, e a lógica das dinâmicas de relacionamento humanas poderia ter ditado também rumos não desejados para o romance dos dois. Os mesmos problemas teriam permanecido, as diferenças de classe dificilmente seriam acentuadas. A idéia do filme é mostrar que a reparação dada por Briony à história obedece mais a um desejo que todos sentimos e que ela, como espectadora privilegiada, teve a oportunidade de presenciar. Querer sempre que o amor verdadeiro seja aproveitado ao seu máximo, e que a sua luz pudesse inspirar todos em volta a seguir procurando pelo mesmo. O desejo do nome brasileiro se refere ao sentimento que levou Robbie e Cecilia a seguirem lutando até o fim, mesmo no meio do conflito mais brutal da história da humanidade. Soldados mostrados no filme cantando sobre esperanças de reencontrar seus entes amados, cantando sobre lugares melhores que os esperavam no fim daquela loucura e pelos quais valeria ficar em pé ainda. Como a casa de praia da foto de Robbie e da última cena do filme. A reparação existe no mundo dos nossos sonhos. Nos sonhos de Briony, que sentiu culpa por ter influido em algo que parecia ser tão certo, e que para matar a culpa dentro de si, deu o final mais perfeito possivel para essa história. Perfeição. A idéia que o filme e Joe Wright traíram as convenções e a inteligência de seu público é tão burra quanto as interpretações de Briony sobre o que presenciou ainda criança entre sua irmã e o criado da família. O filme exige maturidade, como exigiu de Briony quando comprou sua torturante cena de reparação e redenção. Um filme digno de estar ao lado da obra prima dos Irmãos Coen, indubitavelmente. E, caramba, não é inspirado no blog de uma típica menina peidorrenta yankee que gerou um filme mais sem graça que a fome. Parabéns ao senhor Joe Wright, e esperamos ansiosos pelos seus próximos esforços. segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
TETÉIA DA SEMANA
Romola Garaidomingo, 3 de fevereiro de 2008
Fomos ao cinema ver Onde os fracos não têm vez
Nota: abaixo, não propriamente uma resenha, mas um esboço interpretativo de Onde os fracos não têm vez, que recomendo ser lido depois que se tenha visto o filme. Spoilers? Há também esse risco.
Anton Chigurh (Javier Bardem) é um assassino profissional, contratado para recuperar 2 milhões de dólares, dinheiro de tráfico de droga que o fazendeiro Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra ao se deparar, ao acaso, com o cenário onde jazem os corpos dos traficantes, que aparentemente se mataram no momento de entrega e pagamento da mercadoria. No encalço dos dois, coloca-se o xerife Ed Tom (Tommy Lee Jones).
Na última cena de Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007), Ed Tom, aposentado, conta à sua esposa dois sonhos que teve, num dos quais seu pai aparece guiando-o através da escuridão.
O tema favorito dos irmãos Coen, o da Velha América, articula-se numa dimensão metafísica, na qual o conceito de absurdo é destacado como fator da desagregação que resultará no que a sociedade norte-americana é atualmente.
A tese em jogo é que a razão era suficiente num mundo onde subsistiam os princípios e valores tradicionais, no declínio dos quais aquela perde sua capacidade de compreender a realidade. Esse quadro desesperador é ilustrado pela figura de Ed Tom, cuja racionalidade é convertida num instrumento cego, quando voltado a Anton Chigurh, um assassino cujas motivações escapam a uma compreensão que insista em evocar aqueles valores.
Chigurh é um sinal dos tempos, submetendo-se a uma lógica que paradoxalmente supõe o acaso. É o mesmo que responder a quem pergunta qual o sentido de um mundo sem sentido. O assassino não é, pois, irracional; apenas absorve a irracionalidade como elemento constituinte da realidade.
E, por isso, trata-se de uma figura de transição (do mundo de Ed Tom para o presente), evidenciada nos momentos aterradores em que Chigurh interage com o homem comum, propondo-lhe questões a que este simplesmente tem se furtado desde que o mundo perdeu seu sentido. “Tudo está em jogo”, diz ele naquela que considero a cena mais assustadora do filme.
O fracasso de Ed Tom em compreender Chigurh e sua trajetória é que o impede de sequer alcançá-lo. São como mundos paralelos, que podem senão tangenciar-se. Chigurh existe no mundo de Ed Tom como a escuridão de seu sonho, ou seja, como aquilo a que a razão não tem acesso. No entanto, ele caminha noite adentro, iluminado por seu pai, isto é, pela tradição na qual se estriba sua lucidez.
A tragédia da racionalidade exemplificada pelo xerife é que ela é uma lâmpada apenas para ele. Sua aposentadoria aponta o ocaso da própria lei que, forjada pela tradição, quer julgar homens e crimes que “superaram” ou “ultrapassaram” a tradição.
Não olhe diretamente, ou ele irá atrás de você.
Olhar para Javier Bardem como Anton Chigurh é como olhar para Anthony Hopkins como o dr. Hannibal Lecter, em O silêncio dos inocentes. Não ficamos menos que perplexos, já que o que os sentidos sugerem – a saber, que estamos diante de um homem – tem por objeção o nosso próprio conhecimento precedente da vida.
Compreendendo como distintivo do homem a liberdade, quando é instado pela esposa de Llewelyn a que ele, Chigurh, é que faça a escolha, e não a moeda que carrega, responde: “A moeda e eu chegamos aqui da mesma maneira”. Assim, ao conceder a possibilidade de escolha num jogo de cara-e-coroa, quer ele demonstrar como a vontade nada é diante do acaso, tornando a distinção entre homens e coisas nula. Por isso, ele executa suas vítimas com uma pistola de ar comprimido, usada para abater gado, já que, como diz a velha canção da filosofia, o mesmo é o fim de homens e animais.
A última das três figuras arquetípicas de Onde os fracos não têm vez é Llewelyn Moss, cuja fragilidade e presunção fazem dele representante da perspectiva algo leviana e ingênua com que o homem comum leva a vida. Tentando escapar de Chigurh, senão com sua esperteza e astúcia, quer simplesmente deter o inevitável. Seu sucesso é o sucesso que todos nós podemos ter diante do que nos espera, diria o pregador, ensaiando um spoiler no meio da parábola.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Fomos ao cinema ver Juno
Como uma criança gorducha, que, acompanhando seus pais, vai à casa de um desconhecido e lá vê uma vasilha cheia de um delicioso creme, que sem dúvida deve ser o mais doce dos doces, para ser comido puro, passado no pão ou de qualquer outra forma que sua imaginação e apetite dispuserem. Pois assim foi o Camarada Progressista assistir à pré-estréia de Juno, salivante, perigosamente excitado. E, no entanto, terrível anticlímax, a vasilha estava cheia de gordura hidrogenada, de banha, para ser futuramente convertida em ingrediente de um algum quitute divino: mas as mãos e o coração gordinho do camarada podiam esperá-lo, sua mente gordinha podia supô-lo?
O que é um filme? Cidadão Kane é um filme. O romance da empregada é um filme. E, bem, Juno é um filme. Um filme qualquer. Sabe-se isso quando você conclui que o poderia ter escrito. Mas os críticos têm se desmanchado pela história da garota muito cínica, sarcástica e emancipada, que tem de lidar com o fato de estar grávida aos 16 anos. A conhecida bolha se formou em torno de Juno, diante do qual todos se admiram e passivamente celebram. O senso crítico fica de lado, quando nos tornamos empáticos.
Há séculos as pessoas são cínicas e ácidas. Até na curta história do cinema, é um fenômeno antigo. No entanto, para o grande público (eufemismo da mídia pra patuléia), alguém ser cínico é ainda incrivelmente subversivo. No mínimo, capricho adolescente porque o mundo não é do que jeito que eu queria que fosse e ninguém faz a minha vontade. Tanto que quando você viu um personagem de novela sendo cínico e não morrer em queda de avião ou atropelado, porque, nossa, era o vilão?
Mas aí eles resolveram revolucionar. Colocaram uma menina de 16 anos – 16 anos – protagonizando um filme grávida e cínica. Revolucionário. Cinismo de blogueiro, sim, mas cinismo. E aí é que está a chave para Juno e para a aversão do Camarada Progressista ao filme: Juno é um blog. É o blog da Juno, no qual ela comenta, cheia de sorrisinhos, como engravidou, como foi transar com o namoradinho pouco emancipado dela, como ela está pouco se lixando pra opinião dos outros, tudo muito irônica e independentemente. E que isto fique só aqui entre nós, mas o camarada não gosta de blogs. Um choque, eu sei.
Mas Juno é uma garota. O blog dela tem muito potencial: um dia ela pode ser tão cínica que vão confundi-la com um homem. Mas não agora, porque, além de garota, ela só tem 16. Por isso, ainda é uma indie muito auto-satisfeita, muito condescendente consigo mesma e com seu mundinho. E ela está certa. Só não é certo que façam filme disso, pra gente ir correndo assistir na pré-estréia em sessão da meia-noite.
Um filme que quer ser espirituoso a cada linha do diálogo, com todo o mundo, de cara, desferindo muitas falas cortantes e ácidas, mas que esquece de contar uma história cínica e ácida. O sarcasmo da Juno (que, diga-se de passagem, nunca se aplica a ela mesma) tem, então, uma moldura bem inexpressiva e convencional, mas miguxa, aliás, aparentando uma espécie de prevenção contra conflitos reais e resolvendo uma situação complicada com uma facilidade que pode até ser possível, mas não verossímil. Contraste esse que suponho tenha sido decisivo para arrebatar as audiências. Quer dizer, exceto o Camarada Progressista.
