segunda-feira, 31 de março de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Laura Linney

Atriz norte-americana. Apareceu bem dando um pouco de luz ao péssimo filme Congo, em 1995. Depois disso, conseguiu construir uma bela carreira, emprestando sempre seu imenso talento a filmes como O Show de Truman, Conte Comigo, Sobre Meninos e Lobos, Simplesmente Amor (quando contracenou com o cosa-nostra Rodrigo Santoro), Kinsey e A Lula e a Baleia. Foi indicada pela terceira vez ao Oscar nesse ano com o filme A Família Savage (filme visto no Brasil por mim, o Fundamentalista e mais umas sete pessoas, infelizmente). Na fraca adaptação cinematográfica do livro Os Diários de Nanny, lançado ano passado, humilhou a Scarlett Johansson em todas as cenas que contracenevam juntas, fazendo a queridinha dos nerds ficar menor ainda perto do seu talento e conseguindo os únicos elogios reservados para o filme. Está na hora da Academia reconhecer que Linney está um patamar acima de suas colegas e finalmente fazer justiça a essa nova-iorquina, filha de um dramaturgo teatral e que sempre sonhou em atuar nas peças do pai. Logicamente o destino reservou surpresas mais fascinantes para a senhorita Linney.

domingo, 30 de março de 2008

O Belo é o Burro

Ouvindo o Tim Maia da fase racional, fiz a experiência de que o belo não é só burro, mas muito burro.

Quanta bobagem, mas que bonito! O que me lançou à melancólica consciência da nossa condição, clichê filosófico de praxe, porque se deduz daí que, para o homem, a beleza é necessariamente franqueada pelo sacrifício de toda e qualquer inteligência. Tá, sei, muito gentinha isso de ficar se lamentando pela inteligência, esse consolo a que se apela, porque sempre estamos nos sentindo feios (falo por você, como não), como quem é pobre, porém limpinho.

Se disser que está vendo o Universo em Desencanto, te dou uma na orelia.

Mais casos de que inteligência é prescindível e atrapalha, pra expandir o ponto de partida black:

A mulher bonita, em todas as suas variações da beleza exuberante, desde a voluptuosa nojentinha até a bonequinha sem sal.

Bach, outro péssimo letrista. Toda vez que queria versificar a partir de seu pietismo, a congregação se constrangia, contrita. Alguém talvez gostasse de emendar que, nessa mesma linha, tem a ópera em geral, but, well, a própria música é uma coisa burra, se a idéia da gente de inteligência é do tempo da palmatória, a minha é, segundo a qual inteligente e discursivo são indivisíveis, a-ham. Porque expressões como 'fraseado inteligente" ou "melodia inteligente", pra mim, que sou leigo, convenientemente não fazem sentido algum. Assim eu penso por bem da dominação dos que escrevem bem sobre os que não, que, tá, ainda está por vir. Grosseiramente, trata-se de Platão. É nóis.

Todos os filmes chineses com gente voando (aqui eu ia inserir parenteticamente que se trata de uma redundância, mas que piadinha vencida seria, né?). Porque, antes da gente dormir, é um espetáculo visual, etc.

Que mais, que mais?

Ah, e Jackson Pollock, se eu entendesse um poucochinho que seja de pintura.

Agora sim, o Universo em Desencanto.

Mas a Beleza é mesmo superior à Inteligência, ó simbolista, algo a que tenho de dar o braço a torcer, quando me pego cantando, todo alegrinho, da necessidade de se ler o livro e mandando os outros se imunizarem. “Apenas um, apenas um contato irá fazer nossa união legal.” Então, imuniza aí, ô.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Resenhas de Cds - Parte 2

Muitos meses atrás, publiquei um post falando sobre álbuns relevantes que tinham sido lançados no ano passado. Desde aquele texto para cá, muitas novidades foram colocadas à prova para os fãs de música, ol que me faz sentir na obrigação de dar uma geral nos álbums mais importantes. Um update, sim, um update. Para essa galera bonita, simpática, antenada e cada vez mais marombada (é isso aê, exercícios e bomba pra ficar forte ), ai vai as raçudas resenhas do Progressista, esse ser abissal com mania de usar a terceira pessoa para se referir a si próprio (o que denotaria talvez um transtorno de personalidade?).

Radiohead - In Rainbows
Cogitei por muito tempo fazer um texto falando sobre a campanha de divulgação do álbum, a já famosa "quer pagar quanto?", quando a banda resolveu disponibilizar as músicas no seu site, deixando a cargo dos fãs decidir quanto gostariam de pagar pelos downloads, podendo até baixar de graça. O Radiohead não é as Casas Bahia, mas também gosta de agradar o povão. Como faz muito tempo que a banda vive mais de polêmicas idiotas e promoções cabeças-oportunistas (preocupações furadas com o aquecimento global e a pobreza dos países de terceiro mundo, entre outras) do que de música mesmo, resolvi não me dar ao trabalho. Desde o belo OK Computer (longos dez anos atrás) que a banda vem fazendo algo que nem de longe lembra música, com discos pífios que servem somente para agradar críticos e fãs masoquistas. Sim, a banda virou um Godard musical. Sim, isso é um porre. Ver uma banda obviamente talentosa, com um vocalista inteligente (mala, mas inteligente) fazendo discos inaudíveis por pura birra do sucesso. Mas esse novo álbum, In Rainbows, realmente me surpreendeu. Menos caótico que os lixos anteriores (Kid A, Amnesiac e Hail to The Thief) e capaz de momentos realmente interessantes. Três músicas do disco fazem jus à produção da banda antes do período pós-Kid A, Nude, Reckoner e, principalmente, a última faixa, Videotaipe. Um milagre, mas Thom Yorke parece finalmente que pode existir experimentalismos com um mínimo de coerência melódica, e que, pasmem, isso pode resultar em belas canções. Ainda está longe da excelência de um OK Computer, mas o caminho parece estar corrigido. Mas se vacilarem de novo...

Foo Fighters - Echoes, Silence, Patience & Grace
A volta do enganador. Dave Grohl, o Forrest Gump do rock, mais uma vez nos oferece toda a sua inapitdão para o mundo das canções. Os discos que a banda lançou até o insípido There's Nothing Left To Lose (2001) primavam sempre por melodias risonhamente simples e riffs ganchudos e, yeah, pesados. Sim, era bem descerebrado, mas podia ser divertido pacas. Principalmente o The Colour And The Shape. Só que o senhor Grohl começou a sentir vergonha da falta de pretensões de sua banda, que inevitavelmente empalecia perante as comparações com uma banda tão cerebral como era o Nirvana. E aí... Bom, quando menos se espera, é aí que não sai nada mesmo. Depois do horrendo disco duplo In Your Honor , no qual pudemos comprovar o quanto Grohl era falho quando tentava soar mais sério, agora somos bombardeados com mais um atestado inequívoco de incompetência. Dá dó quando se ouve esse novo disco da banda, ver o quanto eles devem ter se esforçado para construir músicas mais complexas, de soluções menos óbvias e temas menos estúpidos, e sentir que eles novamente falharam miseravelmente. Pela milésima vez ele faz uma música em homenagem a Kurt Cobain e atacando a Courtney Love(Let It Die, melhorzinha do disco). Sério, depois vem reclamar quando comparam a sua banda com o Nirvana. De resto, o álbum mais uma vez alterna metade das músicas como pesadas e a outra metade como lentas. Mas é aquela coisa: quando o Foo Fighters que soar pesado e sério ao mesmo tempo, acaba soando como uma daquelas bandas horrendas derivativas do grunge que infestaram o rock nos anos 90, o que não pode, em momento algum, ser um elogio. Riffs jogados a ermo, refrões e melodias pouco inspiradas e terrivelmente cansativas. Um saco, o que é fatal para uma banda como essa. Erase/Replace, The Pretender, Loag Road to Ruin, não se salva uma. Como nos dois primeiros e melhores discos da banda quem tocou bateria foi o próprio Grohl (inegavelmente um bom bateirista), aqueles discos soavam bem mais nervosos que esses novos, culpa do incompetente Taylor Hawkins, incapaz de variar o ritmo de qualquer música que seja. Nas músicas lentas, Grohl tenta soar como Neil Young, e o resultado são canções impossíveis de ser ouvidas mais de uma vez. Sério, dá um bode. Mas o momento mais absurdo mesmo vem com a constragedora Cheer Up Boys (Your Make-Up is Running), tentativa de tirar um sarro dos emos. Patético, principalmente quando lembramos que muitas bandas emos por aí andam tocando melhor que o Foo Fighters. Tiozinho, dá um tempo, vai? Nem vou fazer a velha rotina do "Kurt Cobain deve estar se revirando no túmulo!". Juro que não vou.


My Chemical Romance - The Black Parade
Esse é o melhor disco que poderia sair desse grande balaio de gatos que convencionou-se chamar de "bandas emo". O melhor que os emos poderiam produzir. Simples: se as composições dessas bandas bandeiam para amores frustrados e medos desse mundo pervo e cruel, que tal então chutar o balde e tranformar tudo num belo de um dramalhão de uma vez, bem over e exagerado mesmo? O Queen fez com o hard rock e deu certo, imaginem então isso num mundo tão adequado quanto esse que moram os tristonhos emos? A falta de vergonha na cara da banda chega a ser um alento às vezes. Lógico que ainda é uma porcaria, mas pô, diverte um bocado. Welcome to The Black Parade é a melhor imitação de Bohemian Rhapsody já produzida, Mama é um lamento tão clichezento e exagerado que só podemos aplaudir mesmo(a faixa tem até a Liza Minnelli cantando, só faltou chamarem a Montserrat Caballé) e Teenagers vai fazer a molecada pentelha do seu prédio pogar. Sim, eles vão pogar e colocar delineadores. Prepare-se, a invasão está apenas começando.


White Stripes - Icky Thump
Outro enganador? Sim, pode apostar. Jack White e Meg White (que andou fazendo coisa muito feia por aí) voltam com o seu rock estúpido e minimalista. Depois de dispensar as guitarras no anterior, o melhorzinho da banda Get Behind Me Satan, Jack volta a despejar seus riffs farofentos nos pobres ouvidos dos ouvintes. Junto com a pior bateirista da história da humanidade, logicamente. Eu já vi a Karen Carpenter (ela mesmo, que morreu de bulimia e era vocalista dos, dãh, Carpenters) tocando bateria antes do sucesso, e ela dava de dez nessa ignóbil da Meg White. E, pelos céus, coloca um baixista pra tocar nessa bagaça! De resto, salvam-se no disco com muita boa vontade 300 MPH Torrential Outpour Blues (claramente melhor trabalhada que as outras do disco) e Conquest. De resto, tudo o que nós já ouvimos nos cada vez mais iguais discos da banda (com exceção do já citado GBMS. Talvez White devesse seguir o caminho que mostrou naquele penúltimo disco). O melhor desse lançamento foi que ele retardou o segundo disco do outro projeto do maleta White, o Raconteurs. Perto do Raconteurs, o White Stripes parece o Led Zeppelin.


Lenny Kravitz - It's Time For a Love Revolution
É incrível o quanto o Lenny Kravitz é brega. Sendo a música pesada, lenta, balada, dançante, roqueira, funkeada, não importa como, ele sempre consegue soar dolorosamente brega. Me dei ao trabalho de ouvir esse disco ao saber de elogios feitos para o mesmo, mas como sempre (algo que já era evidenciado pelo título) é um album, sim, isso mesmo, bregão. Seria Lenny o Sidney Magal yankee? Uma cigana aqui e outra acolá e ia ficar igualzinho. As velhas ladainhas ripongas, as mesmas baladas de corar até fã do Chicago, e os rocks que nunca conseguem pegar no breu. Aúnica coisa divertida no disco é contar quantas músicas possuem a palavra love no título. Tem até uma, que consegue ser mais brega que a horrorosa Again (um dos maiores hits dele), apropriadamente chamada Love, Love, Love. Blá, blá, blá. Um dos problemas dele é querer sempre tocar todos os instrumentos nas gravações de seus discos. Alguém precisaria falar que ele não é o Prince. Se montasse uma banda e trabalhasse delegando mais, quem sabe não sairiam coisas mais decentes. E tá vindo muito pro Brasil, logo vamos encontrar ele e as múmias do Deep Purple (banda que faz show todo mês por essas bandas) tomando uma caipirinha nos bares da Augusta.


Britney Spears - Blackout
Críticos de todas as partes elogiaram esse disco. Não consigo entender. Não sabia que cadáveres conseguiam gravar canções. Mais malhada e detonada que boneco de Judas em sábado de aleluia, Britney Spears hoje só serve para aqueles queiram apostar quando ela vai morrer em bolões. Não caiam no conto, o disco é tétrico. Se ele não é o desastre épico que se anunciava, os méritos são todos dos trocentos produtores (entre eles os Clutchs e o Neptunes). Ouvindo as músicas, chegava a duvidar que Britney tivesse cantado em qualquer parte do disco. Devem ter chamado uma sósia, já que a mulher mal consegue se comportar como um ser humano minimamente são, quanto mais trabalhar arduamente em cima de um disco. Quanto à elogiada música Gimme More, o mundo deve estar perdido mesmo. Se essa música for boa, eu me chamo Kevin Federline. Sim, eu quero a guarda dos moleques, Britney!


Jack Johnson - Sleep Through The Static
ZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZ
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ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZ ZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZ
ZZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZ ZZZZZZZZZZZZZ
O quê, alguém chamou aê?

quarta-feira, 26 de março de 2008

Para as massas

1. Mas agora eu também me popularizei, tenho orkut, e você pode me encontrar de havaianas no Largo da Batata, comprando DVD pirata do Calcinha Preta.

2. Marcelo Adnet na MTV: muuuuito engraçado (já fui mais articulado que isso, também). 15 Minutos é um dos novos programas da MTV. É, eu insisto na MTV. Hábito? Capaz. Esse Marcelo Adnet faz tipo um stand up. Sem medo de ser feliz, confesso que gargalho quando ele imita o José Wilker.

Para fazer um yuppie liberar uma grana pro blog, apelei pro vestidinho justo.

3. E onde José Wilker é crítico de cinema e Pedro Bial é poeta, Camarada Fundamentalista é escritor. Logo, logo saí o meu primeiro romance: As fantásticas aventuras de Neide e sua amiga Fatiminha na Terra de Vera Cruz, com prefácio de Diogo Vasconcellos, nosso correspondente em Portugal.

4. Ostentar cultura que a gente não tem sempre foi uma das minhas propostas a nível deste blog. Ter propostas também.

5. E o Rafinha ter ganhado o BBB 8 quer dizer que pelo menos metade do Brasil agora é emo? Medo.

terça-feira, 25 de março de 2008

The not so Good, the Bad & the Ugly

Infelizmente, certas coisas não são transferíveis: entre elas, carteirinha de clube e espírito. Daí que, fim de semana ensolarado, sem poder dar um mergulho na piscina e engolir meio litro de água clorada, você vai ver Onde os Fracos não têm Vez e sai do cinema torcendo o nariz, porque “não tem final”. Filisteu. Te rogo uma praga, hein: tomara que o Michael Bay nunca mais filme uma explosão. Medo.

Bad Boys II (2003), refilmagem de Thelma & Louise dirigida por Michael Bay, com as devidas correções machas no roteiro.

Mas disfarça pelo menos. Cá entre nós, sei que, pra você, final mesmo é o de Thelma & Louise, e até hoje você vende pros outros a groselha do “carpe diem” com aquela cena na cabeça. E no teu profile do orkut resume a tua ética: "ou tudo ou nada", "amigas para sempre", "a vida é pra valer". Porque o filistinismo deixa rastros.

segunda-feira, 24 de março de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Beth Gibbons
Cantora inglesa, vocalista da mítica banda de trip-hop Portishead, que forma ao lado do Nirvana e do Radiohead a trinca de ouro da música na década de noventa (o quê, Prodigy? Habla com la mano!). Depois de lançarem dois discos seminais, Dummy (1994) e o epônimo Portishead (1997), a banda sumiu por longos dez anos, e finalmente anuncia o seu terceiro disco, por enquanto entitulado Thrid, previsto para sair em breve. Obviamente a senhorita Gibbons não ficou parada durante esse longuíssimo hiato, produzindo belos discos solos e vindo até para o Brasil em 2003. Que Beth coloca qualquer cantora de música pop hoje no chinelo, disso não há dúvida. O medo é o Portishead ter perdido o bonde da história, e Beth e seus parceiros de banda Adrian Utley e Geoff Barrow (principal compositor) não fazerem um disco à altura das glórias passadas. Mas, caçamba, do jeito que essa mulher canta, o cara pode colocar atirei o pau no gato (belo exemplo de dodecafonia musical) que ainda sim sai algo digno. Esperemos.

domingo, 23 de março de 2008

Fomos ao Cinema ver A Família Savage

Sorte pura a minha e do Fundamentalista. Conseguimos assistir ao filme A Família Savage (The Savages no original) na única data de pré-estréia nesse feriado, antes do lançamento oficial prometido para semana que vem (se é que eles não adiarão de novo). O filme foi indicado aos Oscars de roteiro original (para a sua roteirista-diretora, Tamara Jenkins) e melhor atriz (Laura Linney, que perdeu para a Marion Cottilard). E fôra elogiadíssimo em sua carreira de festivais no circuito europeu-americano. Segundo filme dirigido por Jenkins (sendo o anterior o pouco visto Os Subúrbios de Beverly Hills, que tinha o Alan Arkin e a Mena Suvari), pelo jeito marca uma virada na vida dessa diretora já quarentona. O roteiro conta a história de dois irmãos (uma dramaturga amadora e o outro professor de artes dramáticas) vivendo em cidades diferentes, marcados por uma infância de abandono (da parte da mãe que foi embora quando eram crianças) e abuso (da parte do pai), e que precisam se reunir para cuidar do mesmíssimo pai que os maltratou na infância, já que o pobre diabo se mostra às vias da demência, sendo despejado depois da morte da madrasta dos irmãos. Sim, já vejo você pensando ai: "família disfuncional? Irmãos separados e distantes se reunindo forçosamente por uma causa maior? Alarme de identificador de clichês do cinema alternativo americano, ativar!". Mas calma, filhão, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O roteiro não é um primor, chega a exagerar nas gracinhas em certos momentos (principalmente no meio do filme), mas acerta ao demonstrar o peso dramático da situação vivida pelos irmãos de uma maneira bem naturalista, evitando ao máximo climas demasiadamente soturnos. E, aí residindo o maior acerto de Jenkins, aposta todas as fichas em dois atores formidáveis, que conseguem construir tão organicamente seus personagens e a interação entre eles, que chega a parecer ser fácil atuar. Laura Linney e Philip Seymour Hoffman, os dois que na minha opinião ocupam facilmente o Top-10 de melhores atores em atividade. Muita sorte de Jenkins, mesmo, ter gente desse gabarito protagonizando seu filme.
Linney é o coração do filme, mostrando uma personagem à beira dos quarenta anos, longe de ter o domínio sobre suas emoções e sobre diversos aspectos na sua vida, mas que ao mesmo tempo nos comove o tempo inteiro com a sua inabalável (e na maioria das vezes desastrada) vontade de criar laços com seu pai e irmão, fazendo de tudo para ter algum peso e importância na vida deles (e seu caso com um homem casado reflete esse lado da sua personalidade). Considerando que Linney sempre se caracterizou por interpretar mulheres classudas e elegantes, marcando presença sempre com a inteligência que exalavam, é admirável ver como ela consegue com categoria fazer uma personagem tão imatura emocionalmente, embora obviamente culta. Realmente, a Marion Cottilard não venceu qualquer uma no Oscar não, tem que comemorar pra sempre esse prêmio (que foi merecido).
Philip Seymour Hoffman, depois de encontrar o Anton Chigurh pela frente. Pelo menos tá vivão. E a Laura Linney tá feliz: não perdeu para a Tilda Swinton. Disse ela: -Cate Blanchett, talk to the hand!
Quanto a Seymour Hoffman, seu personagem era ingrato, com seu racionalismo frio e nenhuma vontade de estabelecer relações mais profundas com sua irmã ou quem quer que fosse, e sua visão cáustica do pai poderia facilmente despertar a ojeriza do público. Mas Hoffman é outro que transborda talento, e consegue apenas com pequenos gestos e sutilezas (como numa bela cena na qual observa o pai na cadeira de rodas sendo arrumado por sua irmã num aeroporto) transmitir toda a dor e vazio da vida daquele homem. O roteiro de Jenkins, se protagonizado por atores menos capacitados, não teria tido tanto êxito. E nós, amanteigados, compramos a história desses dois irmãos quase que alienígenas na vida um do outro, e que acabam no final voltando a serem capazes de acrescentar algo, por menor que seja, nas suas vidas. Não dizia o outro que somente somos válidos como humanos quando fazemos alguma diferença ou importância na vida daqueles que nos são próximos? Linney e Hoffman, mas do que ninguém, sacaram isso com propriedade, e nos proporcionaram belos 117 minutos.

sábado, 22 de março de 2008

7 filmes

Quem disse que ficar em casa é chato? Breviário crítico-metidinho dos últimos filmes que eu vi. Mas falar do que a gente gosta faz o estilo cair vertiginosamente, tipo escrever “cair vertiginosamente”. Você baixa a guarda, larga a pose e fica todo docinho, todo sentimental.

No Calor da Noite: policial bonachão, com Rod Steiger de policial bonachão, as mãos de Sidney Poitier e Sidney Poitier. Muitas risadas e cenas antológicas. Números: Rod Steiger masca o mesmo chiclete 1.475.816 vezes durante os 110 minutos de projeção; e 72 são os confrontos com Sidney Poitier, mas apenas 68 aqueles em que pelo menos um dos dois aprende algo sobre o caráter do outro.

Viver a Vida: HUASHUASHUASHUASHUASH. Mclovin brechtiano.

Godard, em momento de descontração, dança com sua então esposa Anna Karina durante filmagens.

Superbad – É Hoje: Godard. Também brechtiano. Anna Karina massacrada. Mclovin. Leve lenços. You’ll know.

O Boulevard do Crime – Primeira Época: melhor que O Boulevard do Crime – Segunda Época.

O Boulevard do Crime – Segunda Época: Fréderick Lemaitre, Fréderick Lemaitre, Fréderick Lemaitre. E, quando comentá-lo com os amigos chatinhos que gostam e entendem (?) de cinema, choque (mas não se esqueça de fazer cara de Anna Karina) com “É melhor que toda a nouvelle vague junta”. Não me diga!

Memórias do Subdesenvolvimento: o quêêêêêêêêê? Cinema latino-americano que pensa? O quêêêêêêêê? Cinema latino-americano? Você? Não creio. E depois? Garota de Ipanema? Um cantinho e um violão?

A angústia existencial de viver só cercado de mulherão: uma porrada de suspension of disbelief.

O Grito: Antonioni sem medo no coração. Amando muuuuuito. Ladrões de Bicicleta com muita mulher bonita dando mole. E depois querem reduzi-lo ao esteticismo? Talk to the hand! (Andava num impasse: cinema italiano ou francês? Zurlini, Antonioni, Carné, Bresson. Difícil. Mas assistindo O Grito, vi Dorian Gray, essa aí em cima, e, pelamor, como era fácil decidir.)

Eu blogando em cena de filme independente a ser lançado.

Nous Avons été au Cinéma: e quando adaptarem pro cinema a minha história, sobre como eu passei de junkie a blogueiro, well, vou exigir, com cláusula de contrato e tudo, que a Chlöe Sevigny me interprete, tipo a Cate Blanchett interpretando o Bobo Dylan. Pegou mal? E se eu te disser que eu adooooooro David Bowie?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Fomos ao Cinema: o primeiro Jubileu

No dia 16 de Abril de 2007 o Camarada Fundamentalista abria oficialmente o blog Fomos ao Cinema, com o já mítico texto "O Nome do Blog Mente". Completamos então, daqui a um mês, o nosso primeiro aniversário. Um ano, senhoras e senhores. Fomos desencorajados. Fomos intimidados. Cortaram bruscamente nossos carros em avenidas movimentadas. Enviaram cartas e e-mails com ameaças para nossas casas e computadores. Mandaram cabeças de cavalos para nossas camas quando acordávamos. Fomos perseguidos pelas inteligências britânicas, francesas e americanas (essa última soando como uma contradição em termos). Mas, ainda que feridos, continuamos firmes, disparando nossos tirinhos nos pés uns dos outros de vez em quando (tirinhos é muito emo-indie, meu!), mas nada que ameace a caminhada inabalável do nosso blog favorito. Por todo esse mês, iremos fazer belas homenagens à vida, aos camaradas e também, logicamente, aos nossos estimadíssimos leitores. Sim, o Fundamentalista irá dar um belo presente miguxesco para vocês. Um cavalheiro, é o que ele é. Aguardem, sim, aguardem.

Um dos méritos do blog nesse primeiro ano foi conseguir unir famílias disfuncionais, como essa da foto, que deve tanto aos nossos textos que até se antecipou às comemorações. Que é isso gente, não precisava, mesmo.

segunda-feira, 17 de março de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Alicia Keys

Cantora americana. Atingiu o sucesso em 2002, logo com o seu primeiro disco, emplacando o sucessão Fallin. Na época com apenas 22 anos, Alicia se destacou ao se mostrar uma cantora autoral, habilidosa ao piano e também participando ativamente do processo de composição dos seus discos. Algo que era incomum quando vivíamos o fim da era Britney Spears/boy-bands, quando o negócio era cantar músicas grudentas criadas por produtores espertos. O sucesso de Alicia e Norah Jones e o início da derrocada das gravadoras, sufocadas pelo crescimento da internet, acabaram elevando, ainda que indiretamente, o padrão das composições do mundo pop. Hoje, temos as Amys Winehouses e Kates Nashes fazendo música de qualidade para as massas. Agradecemos a Alicia por isso. O seu mais novo disco, As I Am, acabou de ser lançado no Brasil, e a bela música No One já está fazendo estragos por aí. Hoje a concorrência é feroz, mas se depender da qualidade do novo disco, talvez ela possa clamar o seu lugar de cantora jovem mais respeitada do mundo pop. Sempre a achei mais talentosa que sua concorrente Norah, sem tanto medo de ousar e experimentar caminhos novos. Pelo menos sabemos que podemos acordar tranquilos de manhã sem esperarmos ver o seu nome na lista de obituários, como é comum com os fãs da Winehouse. Isso conta, e muito. Estatística, sabe como é.