segunda-feira, 28 de abril de 2008

Fomos ao cinema ver Três Vezes Amor

Fiquei pensando, pensando muito nisso, que talvez o Bill Clinton seja muito sexy, mas que eu, na minha cegueira republicana, mesmo eu não sendo republicano – porque, ora, nem norte-americano eu sou –, não consigo enxergá-lo, pena. Mas democratas são mesmo um tipo de gente peculiar, que, até na cama com a namorada, começa a se questionar se isso contribui em alguma coisa para a manutenção dos direitos civis ou para a promoção da igualdade racial na América. E fazem inclusive comédias românticas com o Bill Clinton de interesse romântico, afinal, Hollywood está tomada pelo partido. Morra, Di Caprio!

Bill Clinton: a garota certa no partido certo.

Mas esse Ryan Reynolds, que protagoniza Três Vezes Amor (Definitely, Maybe), que estreou sexta-feira última nos cinemas, daria um bom Holden Caulfield, se fosse mais novo e não tivesse feito Blade. Volta ao Apanhador, veja lá que o garoto tinha um e oitenta e cinco e que agia como os caras altos geralmente agem, sempre com medo de esbarrar nas coisas ou machucar as pessoas. Isso é fundamental na composição da personagem, essa gentileza desajeitada.

"Ai, Ryan, que Cole Porter, que nada: "I've Got a Crush on You" é do Gershwin, seu burraldo!"

Rachel Weisz – cara, o que eu acho da Rachel Weisz? essa mina é muito ambígua, às vezes até esquisita ela é, às vezes esplêndida, poxa, esplêndida – é uma das três vezes do título em português, que (novidade) se equivocou, porque deveria ser “Quatro Vezes Amor”, pois esqueceram do Bill Clinton, ou seja, do mais importante. Bill Clinton é a Inalcançável, o Ideal, do qual Ryan Reynolds acaba abrindo mão, para tentar ser feliz com substitutas sofríveis, como visto na vida real.

Mas a Rachel Weisz faz a personagem má, de quem a filha do Ryan Reynolds não gosta, a Abigail Breslin, a Pequena Miss Sunshine, dããããã, porque Rachel Weisz é tipo uma mulher alfa, que coloca a carreira em primeiro lugar e brinca com os homens; então, má, porque quer ser um homem, aquela perva.

E a Isla Fisher, que o Word aqui em casa insiste pra que eu escreve Islã Fisher, então tá, é a judia muçulmana bonita, esperta, inteligente e bacana, que por isso mesmo, apesar de verossimilmente construída, é claro que não existe, ora.

"Então..., desculpa, mas eu esqueci o seu nome de novo."

E a outra eu esqueci o nome, porque é pra gente esquecer o nome dela mesmo: é a sem-sal, sabe, aquele tipo que serve de figurante na vida da gente, porque precisa.

Ah, o filme é bom.

sábado, 26 de abril de 2008

Woody, blogueiro

“Somos todos coadjuvantes de Woody Allen.”

(As pessoas.)

"Tal como o capital, ele só busca a si mesmo."

(Crítico marxista sobre Woody Allen.)

O problema com Woody Allen, com seus filmes: ele é muito suburbano, isto é, muito judeu. Se eu fosse judeu, seria só judeu; nunca muito judeu. Mas se eu morasse em Nova York, também sentiria esse prazer exagerado em ser suburbano.

Poderosa Afrodite não é ruim. É um filme do Woody Allen com a Mira Sorvino. O que eu acho da Mira Sorvino? Faz uns três anos que eu tento achar alguma coisa dela, inclusive se eu acho ela bonita; mas, vou te dizer, tá difícil chegar a alguma conclusão.

Woody Allen é um cineasta tal que faz um coro trágico virar um número de stand-up comedy. Muito, muito suburbano.

(Se Woody Allen fizesse uma adaptação de Édipo Rei, seria assim: Édipo desistindo de levar adiante as investigações, e a peste dizimando Tebas inteira, só por causa da chantagem emocional de Jocasta. Não mostrariam as pessoas morrendo, e é óbvio que o Woody Allen seria o Édipo, que fugiria com a Jocasta pra, sei lá, a Ásia Menor, onde criariam algum tipo de bicho que se criava por lá. A Jocasta seria, hmm, [suspension of disbelief] a Monica Bellucci.)

A mulher do Poderosa Afrodite com o Woody Allen.

Existe uma virtude em Woody Allen que é tão evidente que transparece na própria forma de ele compor uma cena, o que é surpreendente, já que não se trata de uma virtude estética, mas moral, virtude-virtude: generosidade. Todo o mundo tem direito de ser como é. Mas o engraçado é que todo o mundo escolhe ser do jeito que mais convém à promoção do próprio Woody Allen, fim último e indireto de sua própria generosidade. Daí que todo filme dele seja só uma desculpa pra ele faturar alguém. Isto é, ele faz o que todo homem faz, só que, em vez de dissimular sua motivação primária para ser um artista (como Fellini, Bergman, Antonioni), ele a esteticiza.

Mulher com Woody Allen.

Todos são incrivelmente respeitosos com ele, cheios de dedos. Em Poderosa Afrodite, Helena Bonham-Carter, que faz o papel de Esposa da Woody Allen, diz assim: “Mr. Allen, aguarde aqui com nosso filho, enquanto eu vou buscar as fraldas: muitíssimo grata.” Afinal, é o Woody Allen.

As pessoas falando sem parar, Mira Sorvino apanhando do namorado, mas tudo bem, porque acontece, e é até bom que aconteça, pra ela acabar na cama com o Woody Allen, afinal foi pra isso que fizeram o filme. Tudo muito bonachão. Resisto a atribuir a razão disso ao fato de ele ser sagitariano.

Só sei que, depois de ver o filme, eu queria que as pessoas sofressem mais, queria ver alguém chorando, desesperado, porque terminou com o namorado, porque está com cárie, sabe, gente mais expressionista, com emoções mais “mulherzinha”, real life.

quinta-feira, 24 de abril de 2008



Max Brod traiu seu amigo e trouxe as metarmofoses à literatura. Como tal Brod prometera fazer aquilo que atemorizava Kafka: ser homem e botar fogo naqueles diários de bichinha. Franz morreu e Brod, tal como Pandora e sua curiosidade, liberou os escritos do amigo. Uma traição que nos trouxe algum ganho.





As mulheres traíram o homem. Prometeram protegê-lo, sobretudo de si mesmo. Mas sempre quando me aventuro na cozinha, reino selvagem e mítico, vejo que aquela comida sobre o fogão é de minha autoria e provalvelmente serei também o responsável pela limpeza da cozinha, além de lavar os pratos. Onde estaria aquela mulher que deveria me proteger daquelas louças sujas da cozinha? Minha amada já está na cama, ela nem sabe fritar um ovo e provalvelmente está usando aquele sutien bege.






NO SEX FOR YOU TODAY. Em letras garrafais em cada pedaço da cama. Se a década de sessenta trouxe a última e grande liberação feminina depois do espartilho: a queima dos sutiens. Preste atenção, as fotos que daqueles protestos da liberação feminina mostram sempre roupa íntima em chamas da cor bege. Não seria para menos, vc nunca imagina a modelo da Victoria Secret com o modelito bege, me desculpem os masoquistas. O bege é o anti-liberal, o contrário do proposto dos anos 60.






Hoje usa-se roupa de homem e é castradora, onde estará aquela mulher liberal e com pontos fortes femininos que me dê apoio? O sutien bege é presente, atrás da camisa de risca de giz. Ainda está lá segurando todas elas, paciência.



domingo, 20 de abril de 2008

Fomos ao cinema ver Apenas uma Vez

Eu não gosto dos americanos. E não, não tem nada a ver com Bush, imperialismo e a opressão dos povos. Os povos que tratem de arranjar trabalho, fazer MBA e ter um caso com a secretária. Eu não gosto dos americanos porque eles desistiram de ser americanos, andam com remorso e por isso se envolvem em ativismo. Todo o mundo é ativista nos EUA. Se a Penelope Cruz com aquele sotaque horrível dela quisesse se passar por nativa, em plena Times Square, era só levantar um cartaz dizendo “Salvem as baleias”, pra citar um hit, porque há opções mais underground, como “Planejamento familiar”.

Desistiram de ser americanos desde que acabou a Classic Hollywood, se você for ver. Aliás, quem mais sofreu com o ativismo foi o cinema. Como se tivéssemos passado da Ilíada diretamente para a desconstrução e fragmentaridade do livro daquele seu vizinho sobre o cara que corta as unhas do pé se questionando sobre Suicídio, Injustiça Social e Linguagem, tudo caixa alta no texto.

O ativismo no cinema é responsável pela exaltação dos losers. Só é legítimo, relevante, cool quem filma losers. Losers no shopping, losers assaltando bancos; losers no trabalho, mas principalmente desempregados, porque “é mais real”; e losers diante dos conflitos gerados pela diversidade étnico-cultural e pela intolerância, pra ganhar o Oscar.

* * *

Pior que a desgraça atravessou o oceano. Apenas uma Vez (Once, 2006) é esse filme independente, de baixo orçamento, que ecoa, no Velho Mundo, o declínio do norte-americano babaca orgulhoso de si, em favor do norte-americano babaca envergonhado de suas ações de americano babaca orgulhoso de si. Só que o filme é irlandês, então é como se os losers falassem de si mesmos como se fosse de outras pessoas, porque estão seguindo o modelo opressor-arrependido dos ianques de fazer cinema independente. Esquizofrênico.

Play it again, Sam. (And this time I really said it.)

Once é também uma desculpa para dois músicos fracassados, mas de bom coração, ganharem um Oscar for Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Song. Em resumo. Porque, desenvolvendo, seria um musical, um musical moderno, como as resenhas a respeito sugeriram, esquecendo talvez propositalmente que “musical moderno” é o mesmo que videoclipe.

E aqui começa a minha agonia. Porque clipe é clipe, e filme é filme. Quando o diretor-equilibrista-trapezista quer fazer filme e música, geralmente, ficam os dois medíocres. Câmera que abre, se afastando da personagem, que, toda suspirante, fica olhando pela janela, é coisa de clipe. Personagem caminhando pela rua, à noite e de roupão, enquanto canta canções de amor à Belle & Sebastian, também.

O triunfo da emoção – assim mesmo, “emoção”, sem especificar qual – inevitavelmente implica maquiagem borrada, vexame, vergonha. Tudo o que mexer com o seu coração, e não for arritmia ou sopro, não pode prestar. C’est avec les beaux sentimens qu’on fait de la mauvaise literature. Et de le mauvais quelque chose. Enfim, não precisa assistir ao filme. Baixe a trilha sonora. Markéta Irglová cantando “If You Want Me” contém em si todo o encanto dessa gente que compra geladeira à prestação, mas ama com um coração puro e sincero.


A sinopse? Dois cidadãos da União Européia, unidos pelo amor à música, apaixonam-se, infelizmente estando já comprometidos com a política econômica interna de seus respectivos países.

O triunfo dos suburbanos. É então um tanto belo ser suburbano, uma beleza singela, mas frágil, constantemente ameaçada pelo fim do seguro-desemprego ou pelo cerco da imigração. A classe média sempre tão auto-indulgente, se querendo a si mesma como é, como está, obrigando-nos a pagar para assistir a filmes que se passam no Terceiro Mundo, filmes exóticos, filmes com imigrantes e/ou refugiados do Leste Europeu. Porque são convenções atuais do cinema que: Paris não seja mais romântica, mas excludente, um “caldeirão de tensões étnico-culturais”; e que filmar a Europa é filmar o Leste Europeu. Como se o cinema, cheio de culpa, tivesse criado o Leste Europeu. E não criou?

Adorno venceu; o que, pra ele, por causa das condições determinadas pelo trabalho and all that stuff, equivale a perder. Mulherzinha, nunca se satisfaz.

(E para onde eles vão, carregam consigo o espírito singelo e a dignidade de seu filme. A música interrompendo Markéta Irglová resume tudo, e os românticos não o ignorarão.)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Da maldade

Nada como uma tragédia suburbana envolvendo uma criança para despertar o que há de pior nas pessoas. Tipo pipoqueiros na frente da casa dos Nardoni. Onde há um pipoqueiro, há muita, mas muita maldade. Só pensar um pouco. Por exemplo, em portão de colégio, que, you know, blogueiro, foi a pior época da sua vida, quando os moleques viam em filme americano os atletas do high school fazendo cuecão atômico e achavam engraçado e vinham experimentar em você. Não conseguiam, mas assim mesmo doía muito. E filme americano com adolescentes: muita maldade com um pipoqueiro no cantinho da tela, e às vezes, só porque ele é muito dissimulado e não quer que descubram que foi ele quem matou os 6 bilhões de judeus lá, alguém derruba ele, em alguma perseguição qualquer, e voa pipoca pra tudo quanto é lado.

Marcello fracassa em ser um blogueiro sério. No banco de trás, Paparazzo apelando.

Mas tinha um cara no colégio, que o Camarada Progressista também conheceu, que contava pra gente, durante aula vaga, que namorava uma pipoqueira, que trabalhava em frente do Senai onde ele estudava. E ela era bem mais velha que ele, tinha uns trinta. Fico pensando nisso e, bom, se pode haver algo mais perverso e inimigo de todas as coisas boas no mundo que um pipoqueiro é uma pipoqueira. Todo o mundo sabe que, pior que o diabo, só a mulher dele, porque é ela que cozinha. As pessoas não dão a devida atenção a esse detalhe, porque geralmente não se acham “muito ligadas à comida”, como se de repente todo o mundo comesse restos e nem notasse que tem a cabeça de um rato no meio da salada, mas a perspectiva de que, quando chegar em casa, vão estar te esperando com uma refeição, além de muito nutritiva, deliciosa e quentinha, bom, só isso explica porque os homens são tão menos frustrados que as mulheres.

À parte a exposição da dinâmica doméstica do Príncipe das Trevas, hão de convir que essa história das pessoas estarem indie-guinadas acaba virando desculpa pra elas serem escroques sem culpa ou punição, como elas gostariam muito de ser todo o tempo. E elas se esquecem de que quem fura fila - como elas - pode no mesmo dia matar alguém, porque a linha do crime que leva do banal ao hediondo é a única e a mesma. Se não acredita em mim, vai ver Tropa de Elite, se ainda não viu. Porque se o tal do José Padilha dirigiu aquilo, pode esperar por coisa muito pior, e eu sei que você achava que eu ia dizer outra coisa, a-ham.

Investigações concluíram: matou porque era escorpiana.

As pessoas estão sensibilizadas, estão colocando fotos da menina Isabella no álbum de fotos do orkut e escrevendo "luto" embaixo, muito, muito esquisito. Até eu ligar a televisão, e um sociólogo me explicar que é uma forma da sociedade exorcizar o fantasma sempre iminente da barbárie, dando uma nota sentimental e familiar a um caso que só tem se divulgado em sua faceta de brutalidade. Porque os gregos, para lidar com o horror da existência, criaram a tragédia, enquanto a gente picha muro com dizeres de ódio e come pipoca. Mas eu sei que é tudo culpa do pipoqueiro. Nós não queremos você aqui, pipoqueiro!

1 ano e 1 dia e alguns tiros

Esse blog foi criado em 16/04/2007, faz um ano já; ontem assopramos velhinhas e bebemos champange numa comemoração de gala no Fiesp, tal a importância do momento. Todos vestidos a carater, na verdade parecendo pinguins amestrados, mas tudo bem.

Mantendo o tema, ressalto uma retrospectiva, daquela data tão importante pra comunidade blogueira, oras, nós, camaradas nascemos nesse dia. Por isso seria interessante um retrospecto, ou seja, continuar a labuta dos meus colegas para esta tão importante data.

Massacre na Virginia Tech: um coreano matou seus coleguinhas da faculdade e depois se suicidou. 33 mortos e 21 feridos.

Helicoptéro da PM cai e mata seis: acidente que provocou a morte de seis pessoas no Espírito Santo

Essas foram as primeiras notícias que consegui busca através do grão mestre Google daquele dia. Seria melhor ter a notícia "Camaradas criam blog Fomos ao cinema", espero que aconteça isso conforme os anos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

16/04/2007 - 16/04/2008

Há 81 anos nascia, na Baviera, Joseph Alois Ratzinger, e, não fosse isso suficientemente auspicioso, também há 119, em Londres, Charles Spencer Chaplin Jr., apontando certamente a heterogeneidade congênita deste blog, que se quis tantas coisas, inclusive antro de venenosas, quando seus camaradas eram, muito pelo contrário, miguxas fofuxinhas.

E um balanço seria inevitável, quisesse eu acrescentar aos anteriores mais um gesto burocrático-gregário, que, amontoados, nos levaram até aqui. Somos, de qualquer forma, responsáveis pelos maiores desmazelos da inteligência desde que Xenofonte quis ele mesmo dar sua versão da história à vida de seu mestre Sócrates.

O blogueiro quando jovem.

Talvez se eu o mascarasse, dando-lhe características de normas do estilo, fosse possível validar a idéia de um balanço. Como se, usando de seu direito de discurso, sugerido pelos convidados unicamente para que dele muito cortesmente o aniversariante declinasse, este, ao contrário, começasse uma longa retrospectiva de sua vida, cheia de autocongratulações e trechos correspondentes aos maus bocados que passei. Com todo o mundo só querendo dançar, dançar, dançar.

O mundo só é tão ruim e as pessoas tão bregas, porque a maior parte do tempo – tipo, nos momentos realmente decisivos e tal – ninguém pensa pra fazer as coisas, apesar de alegarem exatamente o contrário por aí, a turma do “não se reprima”, que são justamente aqueles que mais se reprimem, e num sentido ruim. E por isso o cinema nacional, e hoje em dia maldizer o cinema nacional, não porque o cinema nacional já não dê mais motivo para isso, mas porque ficou démodé.

Ser do bem é um problema pra quem escreve, porque pra escrever bem tem que ser mau. E debochar. Debochar de velhinho cego de cadeira de rodas. Mas a gente é do bem. Eu sei, eu sei, quem, escrevendo, parece do mal, só parece, porque escrever é escrever, e ser é ser. Hmm. Só que às vezes, e o às vezes é o mais importante, porque o mais sincero, às vezes eu acho, eu sei que esse pessoal que não gosta de cinema nacional é malvadão mesmo. Mas não o tipo de malvadão que suja as mãos, mas que no máximo coloca o pé pra idoso tropeçar e, ai, que engraçado.

Ser mau.

Ser mau, debochar, não facilitar pro leitor, jamais escrever sob o efeito da novidade, tipo “nossa, que legal isso que eu acabei de descobrir”, sob pena de soar bocó. Mas soa bocó quem é bocó. Quem acha que ser malicioso é necessariamente fazer piada de sacanagem, apesar de que na maioria das vezes é isso mesmo.

Mas “ser mau, debochar, etc” equivale a escrever bem. E bate direitinho com o que eu li esses dias, que tem que ser gay pra escrever bem, mesmo que você não seja. E ser mau nem é ser mau; é mais, segundo a assepsia da moça que é “legal, não estou te dando mole”, ser politicamente incorreto, tirar a máscara e exorcizar o que vai por debaixo da peruca e do pó de arroz.

O leitor, uma alma sensível, é obviamente quem mais sofre, e diz “Ó céus, ignomínia, ignomínia!”, e caí desfalecido sobre o canapé. As menininhas do “ai, credo” também. Por sorte, não é este o caso. Porque a gente é do bem. Tanto que, quando eu penso no blogueiro malvadão que me faz rir, me vem a cara do Marco Maciel na cabeça, enquanto a gente é mais o Kassab abraçando o povo na inauguração do Expresso Tiradentes ou mandando algum descontente pro inferno. Muito coração, coração demais.

Pra ser mau: ser de direita, gay, rico, virginiano, morar em Porto Alegre e não, definitivamente não querer um mundo melhor. Ah, e trabalhar na Globo.

És o nosso estandarte; és tu, Fomos ao Cinema, eterno baluarte!

Hoje é o aniversário desse blog. Sabe aqueles bares do centro que se orgulham em ostentar na entrada placas com dizeres como "servimos você a mais de duzentos anos"? Sim, nós já estamos caminhando para isso. Lógico que não somos embriagantes como um bom uísque, ou gordurosos e suculentos como aquela porção de pastéizinhos, mas, pô, não deixa de ser algo realmente divertido. O blog deve-se muito mais aos esforços dos Camaradas Moderado e Fundamentalista, que vinham alimentando juntos a idéia de construírem um espaço para destacar suas visões sobre a vida, o mundo pop, jazz (alguém pelo menos tinha prometido, esperamos até hoje), quadrinhos, música e, olhem só, vejam vocês, cinema.


O olhar aguçado dos Camaradas, sempre observadores natos do cotidiano


Um dia, numa conversa de MSN numa daquelas noites tediosas e inúteis, os dois resolveram tirar as idéias do campo teórico e efetivamente colocá-las em prática, criando então o blog. Madrugada do dia 16 de Abril de 2007. Me mandaram um convite imediatamente (estava online no dia, não estava com sono, sabe como é), e eu aceitei. Com o tempo, os três foram seguindo caminhos bem distintos. O Moderado (quando ele posta, logicamente, o que necessita o alinhamento de todos os planetas e alguns satélites mais) é o cara cool, sofisticado, dândi, um verdadeiro amante profissional, o alfa que traz a galera pra pensar e refletir sobre a tropicalidade. Sim, vocês já pensaram sobre a nossa tropicalidade ultimamente? Vocês deveriam ler mais o Moderado, então. O Fundamentalista é o virtuose. O nosso Keith Moon. Não, ele não sai pelado atropelando motoristas por aí. Mas seu brilhantismo é notório. Alguém segura esse moleque! E eu, bom... É, eu estou aí também. Gostaria de mostrar para vocês como foi a conversa épica de MSN, na qual Moderado e Fundamentalista decidiram criar o blog. Eu roubei o histórico, e mostro pra vocês aqui. Foi assim:


Moderado entra online
E ai, vamos criar o blog?

Fundamentalista:
Vamos!

Moderado:
Qual vai ser o nome?

Fundamentalista:
Fomos ao.... Fomos ao...

Moderado:
Cinema?

Fundamentalista:
Pô, abalou Bangu! É isso ai, Fomos ao Cinema!

Moderado:
Abalou Bangu? Bom, mudando de assunto: e quanto aos nossos nicknames no blog? Iremos usar nossos nomes verdadeiros, ou alcunhas, como Teddy Boy Marino?

Fundamentalista:
Não, seremos os Camaradas, e eu serei o Fundamentalista.

Moderado
E eu o Moderado.

Fundamentalista
E o nosso amigo maleta lá, hein?

Moderado:
Ele vai ser o Progressista.

Fundamentalista
Legal! Tá decidido então.

Moderado
Valeu! E você reparou, que nós estávamos com os nicks que viriam a ser os nomes que escolhemos pro blog? Que coincidência, né?

Fundamentalista
Não reparei.

Moderado
Er...

Fundamentalista
(Desenho de um smiley tomando banho)

Moderado fica offline



E assim foi. Revelador, assim como quando Da Vinci desenhava sua Santa Ceia. Lindo mesmo. E para finalizar, deixem eu finalmente revelar o nome dos três Camaradas. Eu, Progressista, sou o



é o Fundamentalista. Finalmente, revelei o segredo do blog! Feliz Aniversário, Fomos ao Cinema!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

TETÉIA DA SEMANA: EPÍLOGO

Quarta-feira é dia de festa no blog, com o nosso primeiro aniversário. Sim, a festa vai ser de arromba, um verdadeiro rega-bofe de fazer essas festinhas do Amaury Jr. (simplesmente um luxo!) corarem de vergonha. Jet-Set é isso ai. Mas, deixa eu falar sério com vocês por um instante. Muda a tônica, Dj, diria o mito Sérgio Mallandro. Tomei uma decisão realmente dolorosa : no more Tetéia da Semana. Resolvi acabar com a sessão mais tradicional das Segundas-Feiras depois da Tela Quente.

A sessão, que estreiou exatamente uma semana depois do início do blog, com a cantora inglesa Lilly Allen ocupando o espaço que viria a ser compartilhado com outras 46 mulheres (foram 52 semanas de posts, mas a Lindsay Lohan ocupou 4 vezes o espaço no seu mês especial, em Junho), chega hoje ao seu derradeiro post. Tomei essa decisão por achar que a sessão já cumpriu o seu papel no blog. Nesse ano inteiro, pudemos construir um belo panorama das mulheres que provocam a nossa admiração por trazerem algo realmente válido e relevante para o cenário pop contemporâneo. Mulheres que trazem graça, inteligência e elegância para um mundo um tanto quanto aborrecido quanto esse que encaramos hoje em dia.

Nem sempre foram escolhas perfeitas (me arrependo amargamente de 4 delas, mas não confesso nem sobre tortura quais são), mas saibam que sempre tentamos entregar escolhas realmente interessantes para vocês. A última Tetéia, que será revelada no final desse post, foi escolhida por ser o modelo que me veio na mente quando revelei ao Camarada Fundamentalista a idéia da sessão, a mulher que personificou (uhm, dica grátis ai) o verdadeiro espírito que as Tetéias deveriam exalar, ainda que cada uma à sua maneira. A única cujo nome poderia ser escolhido como substituto para a sessão, e ainda sim todos pegariam a idéia das Tetéias no ato. Mas antes de revelar, gostaria de trazer um rápido olhar sobre as outras figuras, vivas ou mortas, que poderiam pleitear o da nossa última Tetéia, e que ocuparam ou ocupam um lugar marcante no imaginário pop, mas que ainda sim não puderam superar a nossa escolhida. É importante lembrar que a última Tetéia vai fugir da regra que marcou a sessão, já que não escolhíamos (salvas raríssimas exceções) por opção celebridades óbvias demais, como as Britneys da vida . E também preciso dizer que criaremos novas sessões para ocupar o lugar da Tetéia. Sem mais delongas, ai vai. No final do texto, a última tetéia.

Mortas


Marilyn Monroe
É uma das cinco personalidades mais importantes do Século XX, sem dúvida alguma, mas era toda sex appeal. Um sex appeal devastador e inigualável, mas tão e somente o sex appeal. Toda a sua substância era puramente física, todo o resto sendo apenas um oco constrangedor. Em nenhum momento vocês leram eu escrever a palavra “vulgar” aqui. Putz, agora deu pra ver. E ela deve muito para o Billy Wilder, que teve a idéia da mítica cena na calçada do metrô de Nova York no O Pecado Mora do Lado. E ao Hugh Heffner, logicamente. E ao Andy Warhol também? Ai não, ela não deve nada pro tcheco maluco. É outro ideal, importantíssimo, mas bem diferente.





Ingrid Bergman
Tinha toda a classe do mundo, dentro e fora das telas, e protagonizou a história de amor mais importante do cinema, mas não tem o “star power” da nossa escolhida. O Yul Brynner disse uma vez que ela era “forte que nem um cavalo”. Que careca desbocado!







Grace Kelly
O Mika e o mundo inteiro concordam que ela é uma unanimidade. Ouso dizer que de todas nessa lista, ela seria a que mais próximo poderia ter chegado da nossa escolhida. Mas traiu o mundo pop ao ir morar com o príncipe mala em Mônaco. Deu um belo talk to the hand para todos os seus fãs. Isso não se faz!







Greta Garbo
Um mito, mas por demais auto-centrada para poder merecer o posto da nossa Tetéia. Humildade (logicamente sem exageros) também é sinal de classe. E também era muito mistério pro gosto do pobre. O que tinha de ficar se escondendo pelos cantos, hein? Feio, bem feio.





Vivas, mas nem tanto (ups!)





Sophia Loren
Um nome fortíssimo, mas que, pelo menos a mim, sempre soará como sendo a Monica Bellucci da sua era. Obviamente mais talentosa, mas que ocupava um papel (imerecidamente) limitado dentro do contexto de sua época.





Brigitte Bardot
Maleta sem alça. Ver ela dando vexames e sendo presa em nome de causas ambientais não é exatamente o que eu chamo de “discrição”. E foi casada com o sujeito mais vulgar do mundo, Roger Vadim. Ela, a Jane Fonda e aCatherine Deneuve seriam eliminadas automaticamente somente por terem dado danda trela pra esse sujeito (patético vê-lãs de mãos dadas no enterro do cidadão, anos atrás).





Alive and Kicking (vivaças)


Sharon Stone
“A minha carreira por uma cruzada de pernas”. Como muitos tonhos pensariam nela sem hesitar como maior tetéia de todas, tive de incluí-la aqui. Sadismo puro (opa, isso é com ela mesmo, vide o inclassificável Instinto Selvagem 2).





Britney Spears
É a celebridade viva mais famosa do mundo. Não sou eu que digo isso, é o Google, que sempre a declara como campeã absoluta de buscas no site. Se houvesse uma ‘Tetéia da Semana especial- starletes de manicômio”, quem sabe. Ela e a Frances Farmer, juntinhas. Seria lindo.





Scarlett Johansson
Os blogs amam ela. Tem um baita apelo, está por todas as partes, mas não convenceu realmente como atriz. Na única vez que encaixou com perfeição num papel, no belo filme Encontros e Desencontros, interpretou uma garota mais vulnerável e menos irritadiça, e nunca mais repetiu uma escolha parecida, sempre optando por interpretar as femme fatales que claramente não passam nem perto da sua real personalidade. Você não é devoradora de homens não, Scarlett!


Natalie Portman
Pra mim, sem dúvida a maior Tetéia viva, nunca foi para a sessão apenas por ser uma escolha dolorosamente óbvia. Foi seriamente considerada quando pensamos em fazer a última com uma celebridade ainda viva (o que sempre foi feito na sessão,), mas foi descartada quando decidimos quebrar a regra para fazer uma justiça poética. Mas fica aqui a nossa lembrança, uma pequena homenagem para ela, um prêmio de consolação por ter chegado tão perto. É como dizia a músiquinha: I can’t take my eeeeeyyyyyyeeeeeeessssss of. you!


Bom, é chegada a hora então. Rufem os tambores. Preparem os agogôs. Liguem os amplificadores. Aqui vai, a última Tetéia da Semana do Fomos ao Cinema, com direito ao título em cima e tudo, sabe como é, tradição é tradição.

TETÉIA DA SEMANA

Audrey Hepburn
Não poderia ser outra. Era ela que eu tinha em mente, quando revelei ao estimado Fundamentalista a idéia da sessão. Por isso, nada mais justo que ela seja eleita a última Tetéia da Semana. Hepburn foi a personificação da classe e elegância em todos os aspectos de sua vida. Hoje é o maior ícone fashion, tendo sua imagem e estilo usados à exaustão por estilistas e grifes de todo o mundo. Foi uma atriz extremamente talentosa, indicada cinco vezes ao Oscar (ganhou o prêmio na sua primeira indicação, pelo filme A Princesa e o Plebeu). Para se ter uma idéia, ela fez 23 filmes em toda a sua carreira apenas, o que confere um índice altíssimo de indicações. Sua conduta na vida pessoal refletia toda a classe que mostrava nos filmes, algo raro entre as estrelas de qualquer era. Nascida em Bruxelas, filha de um banqueiro inglês e de mãe holandesa, Audrey era ainda adolescente quando explodiu a Segunda Guerra Mundial. Sem hesitar, alistou-se como enfermeira voluntária num hospital na Holanda, aonde morava com a mãe.

Sim, vejam só o paradoxo, enquanto um falastrão como o John Wayne ficou bem longe do conflito, recusando-se covardemente a se alistar, Audrey, que talvez seja o maior símbolo da famosa suavidade feminina, não hesitou em ajudar as pessoas num momento horrendamente crítico, mesmo lhe custando ter de presenciar todo tipo de atrocidades. Não quis fazer o filme O Diário de Anne Frank por culpa de todas as memórias horrendas que o filme poderia trazer de volta (ela seria a escolha natural, já que viveu de perto a guerra na Holanda). Casou-se duas vezes, com os dois casamentos durando curiosamente o mesmo tempo (14 anos cada um), e sempre mostrando em entrevistas um profundo pesar pelo fim dos dois, culpando-se de maneira compulsiva por não ter conseguido levá-los até o fim. Os 23 filmes que ela fez, um número baixíssimo, devem-se às tentativas dela de passar tempo com sua família, principalmente no segundo, quando chegou a ficar quase uma década sem atuar Era a primeira escolha para o papel da mãe no Exorcista, mas somente faria o filme se ele fosse filmado em Roma, aonde morava com os filhos, e o papel acabou indo para a Ellen Bursthyn. Não quis se casar mais depois do fim do segundo, em respeito aos seus filhos e ao seu ex-marido também, atitude de rara, olhem só, veja, vocês, rara classe.

Tornou-se embaixadora da Unicef para países da África e América Latina nos anos 80, e ao contrário das Angelinas Jolies da vida, que levam legiões de repórteres e adotam filhos a torto e a direito por pura propaganda, sempre adotou um ativismo bem mais discreto e eficiente também, efetivamente viajando para nações carentes e alertando o mundo sobre os problemas existentes. Uma história exemplifica bem o que ela representava. Seu último filme foi o Além da Eternidade, um filme que Spielberg fez no final dos anos 80 com o Richard Dreyfuss. Ela interpretou um anjo, que recebia o personagem de Dreyfuss no céu, naquela que é disparada a melhor cena daquele filme (que era bem fraquinho, um dos raros filmes insípidos de Spielberg). Quando Spielberg foi escalar o elenco, na hora de decidir quem interpretaria o anjo ele olhou para a produção e os atores, e no mesmo segundo disse: “eu só consigo pensar em uma pessoa: Audrey Hepburn”. Então, ele conseguiu convecê-la a sair de um retiro que já durava oito anos dos filmes para fazer esse último papel. Quatro anos depois, Audrey morreria de câncer. A classe ficou, mais forte do que nunca. E podemos dizer que, finalmente, a Tetéia da Semana está em casa. Que final singelo.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Em defesa de Arthur Schopenhauer, ou: The Junkie Philosofy's Diaries

Eu sou o maior fã do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, mais conhecido como Schopenhauer parrudo, da parte sul do condado de São Paulo, Alabama. Não, ninguém gosta mais do alemão Teddy Bear do que eu. Considerando a história da filosofia como um todo, Arthurzinho seria o equivalente dentro desse universo das famosas frases de para-choques de caminhão, dizendo verdades toscas e cruas na cara dos incautos, sem se utilizar de palavras bonitinhas ou conceitos e teorias trabalhadas de maneira exaustiva. Ele não era nenhuma lady, essa é a verdade.
Eu era assim.

Nem Nietzche, que mesmo quando viajava ainda mantinha uma certa finess, nem Kant, que era exato como as calculadoras funcionais daquele seu colega mala que faz engenharia civil nas universidades pagou-passou da vida, não passavam nem perto do estilo "falei, e dane-se" dele (logicamente quando tratamos da escola alemã; lembremos que os filósofos iluministas eram todos uns príncipes, formosos, altivos E cortejadores). Sim, ele criou conceitos importantíssimos que influenciariam diversas gerações de pretensos metafísicos, mas basta ler qualquer estudo dele para ver que suas palavras eram duras como socos no meio das fuças. Nem mesmo sua obra-prima, O Mundo Como Vontade e Representação, aliviava o tom. Aposto que ele devia encher a cara nas tavernas da vida na sua fétida Danzig natal, cantando bebaço e desfilando impropérios contra as myladys alemães que ele tanto depreciava. Sim, ele tinha gravíssimos problemas com o sexo oposto. Seu estudo sobre as mulheres até hoje é lembrado com carinho pelas feministas que queimavam sutiãs na revolução sexual.

Pô, quem lê aquilo de maneira séria, só pode chegar a mesma conclusão que eu cheguei: o cara era um baita dum gozador. É de bater a cabeça de tanto dar risada. Um festival de barbaridades escritas da maneira mais natural possível, como se estivesse descrevendo um passeio num parque, ou coisa que o valha. Nietzche faz a gente rir? Não, não faz. No máximo nos dá perspectivas interessantíssimas sobre a nossa existência, e pistas realmente válidas sobre o papel do homem no mundo, mas, pô, cadê a diversão? Cadê o quarteirão com queijo saturado e as batatas-fritas no óleo, caçamba? Cadê o Tears For Fears? O Corinthians campeão do Brasileiro de 90, cheio de pernas-de-pau raçudos contra o estiloso e nietzcheniano São Paulo Futebol Clube de Telê Santana e Raí? Joga a verdade na minha cara, Arthur! E mulheres, pô, um pouco de senso de humor, né? Vocês REALMENTE acham que ele estava falando sério quando dissertava sobre vocês? Hein? O quê, ele estava? Nossa, que misógino-machista-recalcado-frustrado, hein? Bú pra você, Schopenhauer!


E fiquei assim. O mundo como vontade e terríveis, assombrosos, horrendos penteados

David Hume, nós que cá estamos, por ti esperamos.