segunda-feira, 5 de maio de 2008
Manual Prático do indie pinguim - Parte 5: Ser blogueiro?
Foco.Um indie que se preze tem sempre um blog escondido na manga, de prontidão pra dar a url para um amigo no msn, um conhecido no orkut ou um desconhecido na rua. Indie pinguim tem que ter, na pior das hipóteses, blog, flickr e twitter.
Pensando dessa forma, começo a desfiar aqui alguns conceitos e algumas indicações que acho interessante do universo dos blogs.
Primeiro, acho interessante diferenciar blogueiro de jornalista, são trabalhos com um ponto comum, contudo são visões diferentes, como também métodos de escritas diferentes. Desde a maneira pessoal do texto que sempre parece circundar os blogueiros, da concepção de texto aberto que todos os blogueiros parecem entender: reflexo inconsciente da cibercultura. Logo busquei algo que convergisse sobre tal assunto, na minhas madrugadas de insônia encontrei o blog Descência do indescente , mais especificamente o post sobre dicas para jornalistas que querem ser blogueiros, dicas de manuseio de um blog, na verdade.
Pensei em jornalistas e blogueiros, fica difícil não falar de Pedro Doria, jornalista, blogueiro e o único , além de mim, a colocar o Fomos ao cinema no del.icio.us. Mas dentre todas suas proezas e habilidades, a mais notável é ter descoberto a Bruna Surfistinha.
O Brogui é um portal de blogueiros que apresenta blog famosos no mundo virtual. Uma passada lá é deveras recomendável.
Sedentário e Hiperativo é um dos blogues que mais entro, de carater informativo, recheado de links curiosos e engraçados, não podemos esquecer das teorias das conspirações, parte elementar neste blog competente no que se preza: ser um blog de lazer, com boas dicas de videos do youtube e ainda apresentar conteúdo. Daqueles blogs que vc costuma acessar do trabalho e sempre reza pra ter algum video engraçado ou links interessante que tire da sua monotonia diária.
Para dar um efeito global ao texto, indico o Smashing Magazine, weblog de design, tipografia, webarte, ilustração digital. Enfim, daquelas descobertas tardias e necessárias para todos aqueles que assumem alguma vontade incontrolável de pintar os muros da web. Ponto para os extensos tutoriais de CSS e sempre belas imagens
Pronto, a partir desse esboço, vc, leitor, tem horas de navegação da internet no mundinho dos blogs. Go indies Go!
sábado, 3 de maio de 2008
Aos leitores
Sede blogueiro. Ok. Ouvi e fui, e comigo reuni mais dois. Mas vieram as multidões, ecléticas, filistinas, fãs de Charlie Brown Jr. E veio Maiara. E vocês se juntaram.
Fora o exibicionismo, também um inconfessado desejo comunista de juntar as galeras nos levou a ser blogueiros. Porque as pessoas, também pra ser blogueiras, são “levadas” por algo. Messiânico.

Rocco e i suoi fratelli. Nadia, perdizione dei camerati.
E eu amo muito tudo isso. Maiara, leitores, Let’s, Anônimo, que a gente fica dizendo Anônimo mesmo, muita coletividade na quebrada. Porque o chamado é para todos. E vocês e nós cumprimos.
Desculpa, acabei de ver O Evangelho Segundo São Mateus, do Pasolini.
As vozes de vocês, as nossas vozes, elas se juntaram. E daí uma flor, uma dor. Conjunto. Agrego.
Desculpa, deixei escapar um concretismo. Perdão mesmo. Mas só pra vocês verem se eu fosse aluno de Letras tentando ser literário.
Mas tem um sentimento, tenho de explicá-lo. [Camarada Fundamentalista explica sentimento.] Vou citar o Apanhador. Cito.
“Só sei mesmo é que sinto uma espécie de saudade de todo o mundo que entra na estória. Até do safado do Stradlater e do Ackley, por exemplo. Acho que sinto falta até do filho da mãe do Maurice. É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo.”
Hehehe, é nóis. ... E num é?
Camarada Progressista conclui: Maiara, Let’s, Anônimo, vocês leitores, qual o nome daquele sambinha que toca toda vez que Jesus cura alguém no filme do Pasolini? Quero como música-tema nossa. Da nossa unidade.
terça-feira, 29 de abril de 2008
TOP 5 - Continental
O fim da Guerra Fria, representado simbolicamente pela queda do Muro de Berlim em 1989, e o advento da Internet ,em meados de 1994, acabaram gerando uma nova era nesse mundo tão redondo e inchado no qual vivemos. Sim, a Globalização, que uniu povos e culturas dentro de uma mesma rede de comunicações e negócios. Na parte cultural, essa mudança não poderia passar desapercebida. Um filme nem bem é lançado nos States e já tem fotos e traillers rodando em computadores na Malásia. Ou então em Angola, Suriname, México, Austrália, Canadá, todos esses países ai, que ontem nem energia elétrica tinham, e hoje são potências globais. Dentro desse panorama tão amplo e abrangente, gostaria então de fazer um Top-5 dos melhores filmes já feitos nos seguintes continentes: América Latina, África, Ásia, Oceania e Rússia (antiga Atlântida, depois de ser redescoberta por Jaques Costeau). Não farei com a América do Norte e com as Zoropa, pois esses continentes possuem bons cinemas. É isso mesmo. O quê, a Rússia não é continente? Como é que se fala talk to the hand em russo? Tem algum leitor russo ai? O maluquinho do comercial da operadora de tv a cabo, o tal do Skavurska? Há, ele é apenas um ator careca se passando por russo? Ué, se ele pode fingir ser russo, por quê a Rússia não pode então ser continente, pombas? É grande pra caramba, tem um monte de terra, gelo e o escambau. E as russas, hein? Hein? HEIN?
5-Uma Aventura na África - MartinicaEm 1950, o governo da Martinica resolveu mostrar ao mundo toda a efervescência desse ex-colônia Germânica. Chamaram o único diretor do país, John Huston, e pediram para ele dar um call nas estrelas internacionais Katherine Hepburn e Humphrey Bogart para estrelarem esse belo libelo das savanas Martinicanas. Muitas rainhas, leões, e um toque perfeito de canibalismo fazem desse filme uma obra-prima do cinema de lá, que hoje infelizmente não possui a mesma força. Não é mais combativo.
4-Cleópatra -EgitoO governo egípcio estava chateado. Hollywood não dava a mínima para as lendas dos faraós, preferindo filmar épicos bíblicos e filmes longos e caros sobre a Segunda Guerra. Tristonhos e infelizes, resolveram chutar o pau da barraca, pegando a metade de todo o PIB do país (cinqüenta milhões de dólares na época, que hoje corresponderiam a 300 milhões) e colocando em prática um sonho: filmar a história da mais perva das dominatrixes, Cleopátra, a egípcia enxuta que mexeu a cabeça do tonho do Julio César (interpretado por um ainda jovem Ben Affleck) e virou faraona (é assim que se escreve?) por saber lidar com serpentes e o escambau. Chamaram a maior estrela egípcia da época, Elizabeth Taylor, e o milagre foi feito. Suntuoso, luxuoso, um arraso. As 16 horas de duração do filme em nada diminuem seu impacto ante as platéias da época, e as platéias de hoje, e as platéias de qualquer era, sempre em deleite ao assistirem o filme.
3-Congo -CongoO Governo Congolês enfrentava um dilema pervo em 1995: tinham os mais belos gorilas do mundo, mas não tinham meios de divulga-los para o mundo. Chamaram então o escritor americano Michael Crichton e pediram que ele escrevesse um roteiro delicioso, um noir de rara classe, envolvendo mulheres fatais (a maior estrela congolesa viva, Laura Linney) e gorilas investigadores, que fumavam feito chaminés e davam murros na mesa. Nem Bogart teria feito melhor. O Gorila Keiko foi tão bem nesse filme que acabou sendo chamado para fazer duas belas produções yankees, Free Willy (filme favorito do Boça) e King-Kong, o remake. Delícia!
2-Epidemia - ZaireO vírus Ebola estava dizimando a população do Zaire (que hoje em dia não chama mais Zaire, infelizmente). Enciumados com o sucesso da empreitada do rival Congo no filme que ficou ai em cima na terceira colocação, os Zairenses resolveram chutar também o pau da barraca e produzir um mega-filme sobre o perigo do vírus pervo. Dustin Hoffman, lenda Zairense, foi convocado para estrelar esse filme importantíssimo, interpretando um médico autista às voltas com o vírus pervo e o seu irmão boyzinho, yuppie e cientólogo, um clone do Tom Cruise mais jovem. O filme acabou sendo vital para o fim da ameaça do vírus naquele país, já que todas as pessoas que assistiam e que estavam contaminadas acabavam se curando depois da projeção. Disse Dustin Hoffman na época: “o filme é maravilhoso, e eu curei o vírus. Roots.”.
1- Hotel Ruanda - RuandaFilme que mostrou o genocídio dos judeus da perspectiva de um gerente de um hotel da capital de Ruanda, interpretado pelo astro internacional Don Cheadle. As mazelas do país foram expostas, traçando um belo paralelo com o sofrimento dos judeus na Primeira Guerra de Franz Ferdinand. Cheadle chegou a ligar para o Parlamento Alemão, com boas intenções de amizade, e foi bem recebido. Nas palavras da primeira-ministra Germânica, Margaret Tatcher: “Filmaço. Um êxito em termos de combatividade. Dank, Ruanda, dank“.
5-O Tigre e o Dragão - ChinaFilme lindo, com muita gente voando e cenários belos, e neve, e mulher lutando.
4-O Clã das Adagas Voadoras- China
Filme lindo, com muita gente voando e cenários belos, e neve, e mulher lutando.
3-Kundun - Tibete (embora não tenha ainda sua independência reconhecida pelo governo Chinês)Não é um filme lindo, não tem gente voando nem cenários belos, nem neve, e nem mulher lutando, mas é importantíssimo. Filme mais oriental do diretor italiano Martin Scorcese, conta com rara parrudagem a lenda do Dalai Lama, e dos Dalais Lamas que vieram antes dele, que se chamavam também Dalais Lamas e eram todos herdeiros de Buda. Brad Pitt foi contratado por Buda em pessoa para fazer o filme, e com belas técnicas de maquiagem e uma boa máquina de barbear, ficou carecote e mandou ver no semblante sereno e calmo do Dalai. Alguns criticaram a sua escolha, já que ele é americano e o Dalai Lama tibetano, mas ele disse na época do filme: “eu não sou tibetano, mas sou combativo”. Filme maravilhoso e karmático.
2-Gandhi - ÍndiaDirigido pelo famoso diretor indiano Sir Richard Attenborough e interpretado com maestria pelo maior astro indiano Sir Ben Kingsley, mostra a luta e a vida do maior líder do mundo, Indira Gandhi, e seu manifesto pacífico de não-violência (uma redundância em termos) contra a opressão dos órgãos de imprensa britânicos, e seus ávidos papparazzis. Federico Fellini fez uma ponta, como um fotográfo boa vida, cheio de ginga e malandragem. A cena do funeral de Gandhi (morto numa perseguição de carros com os paparazzis num túnel de Calculta) teve inacreditáveis seis bilhões de figurantes, um recorde, já que superava em muito a população mundial da época. Importante, e combativo.
1-Lawrence da Arábia -ArábiaClássico -épico -mundial- lindo. Enciumados com o sucesso arrasador de Cleópatra, dos vizinhos e rivais africanos, os egípcios, o governo Árabe resolveu trazer a verdade á tona, contando a história do maior faraó de todos, Lawrence da Arábia, que saiu de sua Arábia natal para mostrar para o povo do Egito como é que se fazia. A escolha de Peter O’Toole para interpretar o faráo não pegou legal, mas o sotaque britânico do ator encaixou como uma luva no tom do filme. Depois disso, o grande diretor Árabe Sir David Lean iria para o continente russo, onde filmaria outra obra-prima que estará logo aqui nesse post.
5-Anastácia - RússiaDesenho lindaço, simpático e doce sobre a princesa perdida, Anastacia, que sobreviveu ao massacre bolchevique dos Romanov e foi viver incógnita nas selvas Amazônicas, onde aprendeu com os índios a pintar, desenhar em pedras, caçar com arco -e- flecha e fazer o ritual do acasalemento (o famoso "vamos fazer nenê" indígena, parrudagem da nossa terra de Alencar e Andrade). A Disney russa gastou milhões nesse filme, que mostrou que os soviéticos também podem fazer desenhos lindos, interessados e combativos.
4-Doutor Jivago - Rússia
O diretor árabe Sir David Lean foi para a Rússia em 1964, convidado pelos comunistas, para filmar um épico delicioso sobre o Doutor Jivago, símbolo da resistência monárquica no meio da revolução vermelha, um reconhecimento dos simpáticos comunas ao espírito de luta dos Romanov e asseclas. Omar Sharif, maior ator russo de todos os tempos, foi chamado para interpretar o médico bigodudo, e não decepcionou, entregando um desempenho saudável e impactante. Julie Christie mostrou voluptuosidade e cavalagem como a amante americana de Jivago, e Rod Steiger (favorito do Fundamentalista) voltou a mascar chicletes com categoria. Os 456 minutos do filme são puro desbunde, e combativos.
3-Caçada ao Outubro Vermelho - RússiaCom o fim do comunismo, Boris Yeltsin (o Zeca Pagodinho russo) resolveu mostrar que o seu país tinha deixado de vez para trás o passado vermelho, filmando essa historia explosiva e impactante sobre a cruzada de um agente yankee (Alec Baldwin) contra os pervos da KGB. O clone de Sean Connery feito para o filme 007-From Russia With Love (que estará logo aqui na lista) foi reutilizado para esse filme, com rara galhardia e doçura. Yeltsin foi acusado de traição pelos russos, mas o filme se sustenta pela qualidade do seu roteiro, escrito pelo mítico escritor russo Tom Clancy (autor de Crime e Castigo e Anna Karenina, entre outros).
2- O Rei e Eu -RússiaMaior musical russo de todos os tempos, mostra um hipotético futuro no qual a Rússia seria dominada por um exército de carecas pervos, ao invés dos Comunistas Camaradas de Lenin. Yul Brynner comanda todo o filme com seus passos de guarânia (dança típica da Rússia) e mostra pé-de-valsa ao dançar com a russinha coisa-boa Deborah Kerr. Palavras de Joseph Stalin sobre o filme: “Gostei. Carecas são trabalhadores incansáveis, e eu sou cabeludo. E combativo também. Cheiquir ”.
1-007-From Russia With Love - RússiaOs comunistas estavam putos. Como os filmes ocidentais eram proibidos no país, o comércio de DVDs piratas no mercado negro estava avassalador na década de 60. A série 007 era um sucesso entre os russos, e o governo resolveu então chutar o pau da barraca. Vendeu umas ogivinhas nucleares para o Paquistão e, assim como fizeram os australianos com o Free Willy, filmaram a versão soviética do agente mais britânico de todos os tempos. O apuro foi tanto, que os cientistas russos conseguiram criar um clone perfeito do ator Sean Connery, eliminando logicamente o sotaque escocês. O clone era tão perfeito, que os russos acabariam o emprestando para o governo brasileiro realizar o filme 007 contra o Foguete da morte anos depois (como a série original estava com Roger Moore como protagonista, o governo brasileiro teve de se virar com o clone de Connery mesmo, mas felizmente ninguém notou a diferença). O alto custo do filme infelizmente acabou por jogar a U.R.S.S. na lama, e a produção do país só seria ressuscitada por Yeltsin no já citado Caçada ao Outubro Vermelho. Mas o clássico ficou, mais combativo do que nunca.
4-Jamaica Abaixo de Zero -Jamaica
3- Maria Cheia de Graça - Colômbia
2-Brazil - Brasilsegunda-feira, 28 de abril de 2008
Fomos ao cinema ver Três Vezes Amor
Fiquei pensando, pensando muito nisso, que talvez o Bill Clinton seja muito sexy, mas que eu, na minha cegueira republicana, mesmo eu não sendo republicano – porque, ora, nem norte-americano eu sou –, não consigo enxergá-lo, pena. Mas democratas são mesmo um tipo de gente peculiar, que, até na cama com a namorada, começa a se questionar se isso contribui em alguma coisa para a manutenção dos direitos civis ou para a promoção da igualdade racial na América. E fazem inclusive comédias românticas com o Bill Clinton de interesse romântico, afinal, Hollywood está tomada pelo partido. Morra, Di Caprio!
Bill Clinton: a garota certa no partido certo.
Mas esse Ryan Reynolds, que protagoniza Três Vezes Amor (Definitely, Maybe), que estreou sexta-feira última nos cinemas, daria um bom Holden Caulfield, se fosse mais novo e não tivesse feito Blade. Volta ao Apanhador, veja lá que o garoto tinha um e oitenta e cinco e que agia como os caras altos geralmente agem, sempre com medo de esbarrar nas coisas ou machucar as pessoas. Isso é fundamental na composição da personagem, essa gentileza desajeitada.
"Ai, Ryan, que Cole Porter, que nada: "I've Got a Crush on You" é do Gershwin, seu burraldo!"
Rachel Weisz – cara, o que eu acho da Rachel Weisz? essa mina é muito ambígua, às vezes até esquisita ela é, às vezes esplêndida, poxa, esplêndida – é uma das três vezes do título em português, que (novidade) se equivocou, porque deveria ser “Quatro Vezes Amor”, pois esqueceram do Bill Clinton, ou seja, do mais importante. Bill Clinton é a Inalcançável, o Ideal, do qual Ryan Reynolds acaba abrindo mão, para tentar ser feliz com substitutas sofríveis, como visto na vida real.
Mas a Rachel Weisz faz a personagem má, de quem a filha do Ryan Reynolds não gosta, a Abigail Breslin, a Pequena Miss Sunshine, dããããã, porque Rachel Weisz é tipo uma mulher alfa, que coloca a carreira em primeiro lugar e brinca com os homens; então, má, porque quer ser um homem, aquela perva.
E a Isla Fisher, que o Word aqui em casa insiste pra que eu escreve Islã Fisher, então tá, é a judia muçulmana bonita, esperta, inteligente e bacana, que por isso mesmo, apesar de verossimilmente construída, é claro que não existe, ora.
"Então..., desculpa, mas eu esqueci o seu nome de novo."
E a outra eu esqueci o nome, porque é pra gente esquecer o nome dela mesmo: é a sem-sal, sabe, aquele tipo que serve de figurante na vida da gente, porque precisa.
Ah, o filme é bom.
sábado, 26 de abril de 2008
Woody, blogueiro
“Somos todos coadjuvantes de Woody Allen.”
(As pessoas.)
"Tal como o capital, ele só busca a si mesmo."
(Crítico marxista sobre Woody Allen.)
O problema com Woody Allen, com seus filmes: ele é muito suburbano, isto é, muito judeu. Se eu fosse judeu, seria só judeu; nunca muito judeu. Mas se eu morasse em Nova York, também sentiria esse prazer exagerado em ser suburbano.
Poderosa Afrodite não é ruim. É um filme do Woody Allen com a Mira Sorvino. O que eu acho da Mira Sorvino? Faz uns três anos que eu tento achar alguma coisa dela, inclusive se eu acho ela bonita; mas, vou te dizer, tá difícil chegar a alguma conclusão.
Woody Allen é um cineasta tal que faz um coro trágico virar um número de stand-up comedy. Muito, muito suburbano.
(Se Woody Allen fizesse uma adaptação de Édipo Rei, seria assim: Édipo desistindo de levar adiante as investigações, e a peste dizimando Tebas inteira, só por causa da chantagem emocional de Jocasta. Não mostrariam as pessoas morrendo, e é óbvio que o Woody Allen seria o Édipo, que fugiria com a Jocasta pra, sei lá, a Ásia Menor, onde criariam algum tipo de bicho que se criava por lá. A Jocasta seria, hmm, [suspension of disbelief] a Monica Bellucci.)
A mulher do Poderosa Afrodite com o Woody Allen.
Existe uma virtude em Woody Allen que é tão evidente que transparece na própria forma de ele compor uma cena, o que é surpreendente, já que não se trata de uma virtude estética, mas moral, virtude-virtude: generosidade. Todo o mundo tem direito de ser como é. Mas o engraçado é que todo o mundo escolhe ser do jeito que mais convém à promoção do próprio Woody Allen, fim último e indireto de sua própria generosidade. Daí que todo filme dele seja só uma desculpa pra ele faturar alguém. Isto é, ele faz o que todo homem faz, só que, em vez de dissimular sua motivação primária para ser um artista (como Fellini, Bergman, Antonioni), ele a esteticiza.
Mulher com Woody Allen.
Todos são incrivelmente respeitosos com ele, cheios de dedos. Em Poderosa Afrodite, Helena Bonham-Carter, que faz o papel de Esposa da Woody Allen, diz assim: “Mr. Allen, aguarde aqui com nosso filho, enquanto eu vou buscar as fraldas: muitíssimo grata.” Afinal, é o Woody Allen.
As pessoas falando sem parar, Mira Sorvino apanhando do namorado, mas tudo bem, porque acontece, e é até bom que aconteça, pra ela acabar na cama com o Woody Allen, afinal foi pra isso que fizeram o filme. Tudo muito bonachão. Resisto a atribuir a razão disso ao fato de ele ser sagitariano.
Só sei que, depois de ver o filme, eu queria que as pessoas sofressem mais, queria ver alguém chorando, desesperado, porque terminou com o namorado, porque está com cárie, sabe, gente mais expressionista, com emoções mais “mulherzinha”, real life.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Max Brod traiu seu amigo e trouxe as metarmofoses à literatura. Como tal Brod prometera fazer aquilo que atemorizava Kafka: ser homem e botar fogo naqueles diários de bichinha. Franz morreu e Brod, tal como Pandora e sua curiosidade, liberou os escritos do amigo. Uma traição que nos trouxe algum ganho.
sessenta trouxe a última e grande liberação feminina depois do espartilho: a queima dos sutiens. Preste atenção, as fotos que daqueles protestos da liberação feminina mostram sempre roupa íntima em chamas da cor bege. Não seria para menos, vc nunca imagina a modelo da Victoria Secret com o modelito bege, me desculpem os masoquistas. O bege é o anti-liberal, o contrário do proposto dos anos 60.domingo, 20 de abril de 2008
Fomos ao cinema ver Apenas uma Vez
Eu não gosto dos americanos. E não, não tem nada a ver com Bush, imperialismo e a opressão dos povos. Os povos que tratem de arranjar trabalho, fazer MBA e ter um caso com a secretária. Eu não gosto dos americanos porque eles desistiram de ser americanos, andam com remorso e por isso se envolvem em ativismo. Todo o mundo é ativista nos EUA. Se a Penelope Cruz com aquele sotaque horrível dela quisesse se passar por nativa, em plena Times Square, era só levantar um cartaz dizendo “Salvem as baleias”, pra citar um hit, porque há opções mais underground, como “Planejamento familiar”.
Desistiram de ser americanos desde que acabou a Classic Hollywood, se você for ver. Aliás, quem mais sofreu com o ativismo foi o cinema. Como se tivéssemos passado da Ilíada diretamente para a desconstrução e fragmentaridade do livro daquele seu vizinho sobre o cara que corta as unhas do pé se questionando sobre Suicídio, Injustiça Social e Linguagem, tudo caixa alta no texto.
O ativismo no cinema é responsável pela exaltação dos losers. Só é legítimo, relevante, cool quem filma losers. Losers no shopping, losers assaltando bancos; losers no trabalho, mas principalmente desempregados, porque “é mais real”; e losers diante dos conflitos gerados pela diversidade étnico-cultural e pela intolerância, pra ganhar o Oscar.
* * *
Pior que a desgraça atravessou o oceano. Apenas uma Vez (Once, 2006) é esse filme independente, de baixo orçamento, que ecoa, no Velho Mundo, o declínio do norte-americano babaca orgulhoso de si, em favor do norte-americano babaca envergonhado de suas ações de americano babaca orgulhoso de si. Só que o filme é irlandês, então é como se os losers falassem de si mesmos como se fosse de outras pessoas, porque estão seguindo o modelo opressor-arrependido dos ianques de fazer cinema independente. Esquizofrênico.
Play it again, Sam. (And this time I really said it.)
Once é também uma desculpa para dois músicos fracassados, mas de bom coração, ganharem um Oscar for Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Song. Em resumo. Porque, desenvolvendo, seria um musical, um musical moderno, como as resenhas a respeito sugeriram, esquecendo talvez propositalmente que “musical moderno” é o mesmo que videoclipe.
E aqui começa a minha agonia. Porque clipe é clipe, e filme é filme. Quando o diretor-equilibrista-trapezista quer fazer filme e música, geralmente, ficam os dois medíocres. Câmera que abre, se afastando da personagem, que, toda suspirante, fica olhando pela janela, é coisa de clipe. Personagem caminhando pela rua, à noite e de roupão, enquanto canta canções de amor à Belle & Sebastian, também.
O triunfo da emoção – assim mesmo, “emoção”, sem especificar qual – inevitavelmente implica maquiagem borrada, vexame, vergonha. Tudo o que mexer com o seu coração, e não for arritmia ou sopro, não pode prestar. C’est avec les beaux sentimens qu’on fait de la mauvaise literature. Et de le mauvais quelque chose. Enfim, não precisa assistir ao filme. Baixe a trilha sonora. Markéta Irglová cantando “If You Want Me” contém em si todo o encanto dessa gente que compra geladeira à prestação, mas ama com um coração puro e sincero.
A sinopse? Dois cidadãos da União Européia, unidos pelo amor à música, apaixonam-se, infelizmente estando já comprometidos com a política econômica interna de seus respectivos países.
O triunfo dos suburbanos. É então um tanto belo ser suburbano, uma beleza singela, mas frágil, constantemente ameaçada pelo fim do seguro-desemprego ou pelo cerco da imigração. A classe média sempre tão auto-indulgente, se querendo a si mesma como é, como está, obrigando-nos a pagar para assistir a filmes que se passam no Terceiro Mundo, filmes exóticos, filmes com imigrantes e/ou refugiados do Leste Europeu. Porque são convenções atuais do cinema que: Paris não seja mais romântica, mas excludente, um “caldeirão de tensões étnico-culturais”; e que filmar a Europa é filmar o Leste Europeu. Como se o cinema, cheio de culpa, tivesse criado o Leste Europeu. E não criou?
Adorno venceu; o que, pra ele, por causa das condições determinadas pelo trabalho and all that stuff, equivale a perder. Mulherzinha, nunca se satisfaz.
(E para onde eles vão, carregam consigo o espírito singelo e a dignidade de seu filme. A música interrompendo Markéta Irglová resume tudo, e os românticos não o ignorarão.)
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Da maldade
Nada como uma tragédia suburbana envolvendo uma criança para despertar o que há de pior nas pessoas. Tipo pipoqueiros na frente da casa dos Nardoni. Onde há um pipoqueiro, há muita, mas muita maldade. Só pensar um pouco. Por exemplo, em portão de colégio, que, you know, blogueiro, foi a pior época da sua vida, quando os moleques viam em filme americano os atletas do high school fazendo cuecão atômico e achavam engraçado e vinham experimentar em você. Não conseguiam, mas assim mesmo doía muito. E filme americano com adolescentes: muita maldade com um pipoqueiro no cantinho da tela, e às vezes, só porque ele é muito dissimulado e não quer que descubram que foi ele quem matou os 6 bilhões de judeus lá, alguém derruba ele, em alguma perseguição qualquer, e voa pipoca pra tudo quanto é lado.
Marcello fracassa em ser um blogueiro sério. No banco de trás, Paparazzo apelando. Mas tinha um cara no colégio, que o Camarada Progressista também conheceu, que contava pra gente, durante aula vaga, que namorava uma pipoqueira, que trabalhava em frente do Senai onde ele estudava. E ela era bem mais velha que ele, tinha uns trinta. Fico pensando nisso e, bom, se pode haver algo mais perverso e inimigo de todas as coisas boas no mundo que um pipoqueiro é uma pipoqueira. Todo o mundo sabe que, pior que o diabo, só a mulher dele, porque é ela que cozinha. As pessoas não dão a devida atenção a esse detalhe, porque geralmente não se acham “muito ligadas à comida”, como se de repente todo o mundo comesse restos e nem notasse que tem a cabeça de um rato no meio da salada, mas a perspectiva de que, quando chegar em casa, vão estar te esperando com uma refeição, além de muito nutritiva, deliciosa e quentinha, bom, só isso explica porque os homens são tão menos frustrados que as mulheres.
À parte a exposição da dinâmica doméstica do Príncipe das Trevas, hão de convir que essa história das pessoas estarem indie-guinadas acaba virando desculpa pra elas serem escroques sem culpa ou punição, como elas gostariam muito de ser todo o tempo. E elas se esquecem de que quem fura fila - como elas - pode no mesmo dia matar alguém, porque a linha do crime que leva do banal ao hediondo é a única e a mesma. Se não acredita em mim, vai ver Tropa de Elite, se ainda não viu. Porque se o tal do José Padilha dirigiu aquilo, pode esperar por coisa muito pior, e eu sei que você achava que eu ia dizer outra coisa, a-ham.
Investigações concluíram: matou porque era escorpiana. As pessoas estão sensibilizadas, estão colocando fotos da menina Isabella no álbum de fotos do orkut e escrevendo "luto" embaixo, muito, muito esquisito. Até eu ligar a televisão, e um sociólogo me explicar que é uma forma da sociedade exorcizar o fantasma sempre iminente da barbárie, dando uma nota sentimental e familiar a um caso que só tem se divulgado em sua faceta de brutalidade. Porque os gregos, para lidar com o horror da existência, criaram a tragédia, enquanto a gente picha muro com dizeres de ódio e come pipoca. Mas eu sei que é tudo culpa do pipoqueiro. Nós não queremos você aqui, pipoqueiro!
1 ano e 1 dia e alguns tiros
Mantendo o tema, ressalto uma retrospectiva, daquela data tão importante pra comunidade blogueira, oras, nós, camaradas nascemos nesse dia. Por isso seria interessante um retrospecto, ou seja, continuar a labuta dos meus colegas para esta tão importante data.
Massacre na Virginia Tech: um coreano matou seus coleguinhas da faculdade e depois se suicidou. 33 mortos e 21 feridos.
Helicoptéro da PM cai e mata seis: acidente que provocou a morte de seis pessoas no Espírito Santo
Essas foram as primeiras notícias que consegui busca através do grão mestre Google daquele dia. Seria melhor ter a notícia "Camaradas criam blog Fomos ao cinema", espero que aconteça isso conforme os anos.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
16/04/2007 - 16/04/2008
Há 81 anos nascia, na Baviera, Joseph Alois Ratzinger, e, não fosse isso suficientemente auspicioso, também há 119, em Londres, Charles Spencer Chaplin Jr., apontando certamente a heterogeneidade congênita deste blog, que se quis tantas coisas, inclusive antro de venenosas, quando seus camaradas eram, muito pelo contrário, miguxas fofuxinhas.
E um balanço seria inevitável, quisesse eu acrescentar aos anteriores mais um gesto burocrático-gregário, que, amontoados, nos levaram até aqui. Somos, de qualquer forma, responsáveis pelos maiores desmazelos da inteligência desde que Xenofonte quis ele mesmo dar sua versão da história à vida de seu mestre Sócrates.
O blogueiro quando jovem. Talvez se eu o mascarasse, dando-lhe características de normas do estilo, fosse possível validar a idéia de um balanço. Como se, usando de seu direito de discurso, sugerido pelos convidados unicamente para que dele muito cortesmente o aniversariante declinasse, este, ao contrário, começasse uma longa retrospectiva de sua vida, cheia de autocongratulações e trechos correspondentes aos maus bocados que passei. Com todo o mundo só querendo dançar, dançar, dançar.
O mundo só é tão ruim e as pessoas tão bregas, porque a maior parte do tempo – tipo, nos momentos realmente decisivos e tal – ninguém pensa pra fazer as coisas, apesar de alegarem exatamente o contrário por aí, a turma do “não se reprima”, que são justamente aqueles que mais se reprimem, e num sentido ruim. E por isso o cinema nacional, e hoje em dia maldizer o cinema nacional, não porque o cinema nacional já não dê mais motivo para isso, mas porque ficou démodé.
Ser do bem é um problema pra quem escreve, porque pra escrever bem tem que ser mau. E debochar. Debochar de velhinho cego de cadeira de rodas. Mas a gente é do bem. Eu sei, eu sei, quem, escrevendo, parece do mal, só parece, porque escrever é escrever, e ser é ser. Hmm. Só que às vezes, e o às vezes é o mais importante, porque o mais sincero, às vezes eu acho, eu sei que esse pessoal que não gosta de cinema nacional é malvadão mesmo. Mas não o tipo de malvadão que suja as mãos, mas que no máximo coloca o pé pra idoso tropeçar e, ai, que engraçado.
Ser mau.
Ser mau, debochar, não facilitar pro leitor, jamais escrever sob o efeito da novidade, tipo “nossa, que legal isso que eu acabei de descobrir”, sob pena de soar bocó. Mas soa bocó quem é bocó. Quem acha que ser malicioso é necessariamente fazer piada de sacanagem, apesar de que na maioria das vezes é isso mesmo.
Mas “ser mau, debochar, etc” equivale a escrever bem. E bate direitinho com o que eu li esses dias, que tem que ser gay pra escrever bem, mesmo que você não seja. E ser mau nem é ser mau; é mais, segundo a assepsia da moça que é “legal, não estou te dando mole”, ser politicamente incorreto, tirar a máscara e exorcizar o que vai por debaixo da peruca e do pó de arroz.
O leitor, uma alma sensível, é obviamente quem mais sofre, e diz “Ó céus, ignomínia, ignomínia!”, e caí desfalecido sobre o canapé. As menininhas do “ai, credo” também. Por sorte, não é este o caso. Porque a gente é do bem. Tanto que, quando eu penso no blogueiro malvadão que me faz rir, me vem a cara do Marco Maciel na cabeça, enquanto a gente é mais o Kassab abraçando o povo na inauguração do Expresso Tiradentes ou mandando algum descontente pro inferno. Muito coração, coração demais.
Pra ser mau: ser de direita, gay, rico, virginiano, morar em Porto Alegre e não, definitivamente não querer um mundo melhor. Ah, e trabalhar na Globo.







