
Segunda Foto: Palhaço francês



Segunda Foto: Palhaço francês


bastante coisa que vou colocando aos poucos, da maneira que vou adentrando nessa coisa de arte sequencial. Enfim, gostaria de comentar sobre "Mister X", obra de Dean Morter e Paul Rivoche. O resumo da pendenga: homem projeta uma cidadela retro-futurista onde perambula por ela analisando como a cidade influencia as pessoas. Além disso há uma pitada de noir: crimes acontecem, tramas complexas e "Mister X" busca salvar sua cidade,as pessoas que vivem nela e talvez a si mesmo nesse processo. Um personagem em busca de redenção e sua obra. Conceito interessante.Sob as bênçãos do Código Hays, uma deliciosa comedy of remarriage:
Quando o Amor Vem a Caráter.
Estrelando Katharine Hepburn como Mulher-Aranha,


Cary Grant como C.K. Dexter Haven.


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E participação especial de Gary Cooper como o Reverendo.

(Filadélfia, 1940. Sala de estar sudoeste da mansão dos Lord. Ao fundo, uma grande janela que revela o jardim. Trace Lord, ou Mulher-Aranha, de pé, bem atrás da poltrona onde está sentado o Homem do Campo de Força Invisível, com os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido empilhados sobre o colo, mostrando como ele é erudito e tudo.)
Homem do Campo de Força Invisível: O velho Lord já sabe que você é uma mutante do mal, Trace?
Mulher-Aranha: É claro que não. Se soubesse, eu não teria o controle das empresas. Seria um escândalo para ele se descobrissem que eu, sua filhinha amada, sou uma mutante com os poderes e a força de uma aranha.
HCFI: Não sei até quando você vai conseguir sustentar essa farsa, minha querida. De qualquer forma, pode contar sempre comigo. Desde a primeira vez que eu te vi, eu quis te encher de beijo. E não vou te deixar na mão, não.
MA: (Beija-o) Obrigada, eu sei que sempre vou poder contar contigo, Homem do Campo de Força Invisível. Mas o que me preocupa mesmo é Dexter, que talvez queira impedir nosso casamento.
HCFI: C.K. Dexter Haven pode até ser seu primeiro marido, mas não tem mais direitos sobre você, desde que o bom juiz do Estado da Filadélfia lhe concedeu o divórcio. Com ou sem a preciosa ajuda do Hipnótico, a decisão não poderia ter sido outra, afinal, ele enfiou a mão na tua cara.
(Entra o Hipnótico.)
Hipnótico: Os dois pombinhos falavam de mim quando deveriam estar falando do casamento? (Cumprimenta Trace e o Homem do Campo de Força Invisível)
MA: Ah, Hipnótico, falávamos de como você nos ajudou no julgamento com seus olhos hipnóticos poderosíssimos.
Hipnótico: É mesmo. Mas a verdade é que nos arriscamos muito no tribunal. Mesmo meus poderes de hipnose sendo incríveis e devastadores, quase me pegaram naquele dia. É claro que se não houvesse outros mutantes do mal ali, ninguém teria desconfiado. Uma grande concentração de superpoderes se formou dentro da sala, desencadeando muitos efeitos colaterais terríveis. Mas tudo correu bem, graças ao bom Deus. (Senta-se) Mas e o casamento?
HCFI: Os convites foram enviados ontem, não é, querida?
MA: Sim. E é claro que Dexter não foi convidado. Nem ele nem seus mutantes criados em laboratório, muito diferentes de nós, que nos tornamos mutantes depois da explosão da usina nuclear. Foi quando meu relacionamento com Dexter começou a se desgastar. Não conseguimos lidar com o fato de eu ser uma mutante e ter estes enormes poderes. Não foi nada fácil. Eu, uma aranha, uma mulher. Uma mulher-aranha. (Com olhar melancólico) Com os poderes e a força de uma aranha. Insaciável, mas solitária como uma aranha em sua teia de desejo.
HCFI: (Volta-se para Trace) Mas agora você tem eu do seu lado. (Para o Hipnótico) A aranha é realmente uma criatura fascinante. São mais de 40.000 espécies diferentes. É um erro comum acharem que elas são insetos, mas, diferentes dos insetos, que possuem seis patas, as aranhas possuem oito patas. Além disso, elas produzem uma teia muito poderosa, cinco vezes mais forte que o aço.
O elenco de estrelas de Quando o Amor Vem a Caráter.
(Entra C.K. Dexter Haven, acompanhado da Coisinha Fofa, sua assistente na revista Spy.)
C.K. Dexter Haven: Vejo que a galera do mal está toda reunida.
MA: Não venha com seus sarcasmos, Dexter. Estávamos até agora entre amigos, até você chegar.
C.K. Dexter Haven: Por favor, desde quando éramos casados, eu temia ser picado por essa aranha ou por qualquer um desses mutantes horríveis. Não queria ser infectado. Podia ser um vírus, como a dengue ou a lequitospirose. Seja gentil pelo menos uma vez.
MA: Está bem. O que o traz aqui, Dexter?
C.K. Dexter Haven: Esta é Coisinha Fofa, eu a conheci em minha viagem à Itália. Ela estuda as Artes.
Coisinha Fofa: As Artes me interessam muito.
HCFI: Qual das Artes mais te interessa, senhorita Fofa?
Coisinha Fofa: Ah, todas as Artes me interessam muito. O Dexter aqui, ele sempre fala que detesta cinema, mas eu adoro ver filmes, muitos filmes.
HCFI: Pois Fomos Ao Cinema ontem mesmo. (Para Trace) Que filme vimos, querida?
MA: Não vamos aborrecer os convidados com nossas miudezas cotidianas. (Caminha em direção ao gramofone) Vocês já ouviram essa nova banda, Siouxsie and the Banshees? Parece que tem um ex-padre na formação. Particularmente acho o teclado em “Kiss Them For Me” sublime. Querem ouvir um pouco?
C.K. Dexter Haven: Agora me lembro por que costumava enfiar a mão na tua cara.
(Furiosa, Trace se transforma em Mulher-Aranha. Duas de suas patas gigantescas atravessam a parede do jardim. Avança sobre Dexter Haven.)
Coisinha Fofa: Mas eu adoraria.
HCFI: (Limpando os escombros do terno) Não se exalte, querida. Vamos, não quero ter que apelar aos poderes de hipnose do Hipnótico. Coloque a música para que todos possamos ouvir.
MA: (Para Dexter Haven) Pelo menos, sua amiguinha tem mais educação que você. (Para Coisinha Fofa) Querida, você é mais um casinho do Dexter ou uma de suas mutantes de laboratório a serviço dos desígnios de um louco?
Coisinha Fofa: Imagina, nem superpoderes eu tenho. Na verdade, estou aqui por sua causa, Mulher-Aranha.
Hipnótico: (À parte) Hum, será que vai rolar um beijinho? He, he, he.
C.K. Dexter Haven: (Assustado) Olhe o que você vai dizer, Coisinha Fofa.
Coisinha Fofa: (Maliciosa) O que foi, Dexter? Não quer que eles saibam que eu trabalho pra Polícia Especial dos Estados Unidos?
C.K. Dexter Haven: Não, que você trabalha comigo na revista Spy. (Dando-se conta do que ela acaba de dizer, fica confuso) Mas o que você disse? Polícia Especial dos Estados Unidos?
HCFI: A mesma que caça mutantes do mal como eu e minha querida Trace. Ora, ora.
MA: Como você pôde, Dexter? Trazer esta mulher aqui? Mas que golpe sujo!
C.K. Dexter Haven: Mas Coisinha Fofa trabalhava comigo na revista Spy. Eu não sabia que ela era uma polícia disfarçada.
Coisinha Fofa: Exatamente. Disfarçada. Agente Especial Coisinha Fofa, da Polícia Especial dos Estados Unidos. Vocês estão todos detidos.
MA: Hipnótico, use seus poderes de hipnose sobre ela e nos salve mais uma vez com suas fantásticas habilidades!
Hipnótico: Pode deixar. (Para Coisinha Fofa, desafiador) Quero ver você resistir aos meus poderes hipnóticos, benzinho!
(Coisinha Fofa saca o revólver e o aponta para o Hipnótico.)
HCFI: Vamos ver se suas balas podem atravessar o meu campo de força invisível, senhorita Fofa.
(Coisinha Fofa dispara. Mas as balas se chocam contra o campo de força invisível.)
MA: Vou prendê-la com a minha poderosa teia cinco vezes mais forte que o aço. Ela não conseguirá se soltar.
(Mulher-Aranha lança sua teia. Coisinha Fofa fica completamente imobilizada.)
Hipnótico: Vou agora hipnotizá-la e fazer com que ela esqueça que nos conheceu e que somos mutantes do mal vivendo como aristocratas no grande e próspero Estado da Filadélfia.
HCFI: Faça isso, Hipnótico.
(Hipnótico sai, carregando Coisinha Fofa nos braços.)
C.K. Dexter Haven: (Angustiado) Eu sinto muito por tudo isso. Eu só queria me vingar de você, Trace, por você ter se divorciado de mim, porque eu não tinha superpoderes como o Homem do Campo de Força Invisível, que pode criar terríveis campos de força invisíveis e nos proteger de balas de revolverês. Por isso vim aqui fazer uma matéria para a revista Spy sobre o seu casamento.
MA: Mas Dexter, você é mesmo um bobo. Eu não me separei de você por você não ter superpoderes. Você é que não conseguia lidar com o fato de eu possuir esses incríveis superpoderes. Dexter, na verdade, eu ainda te amo. (Recolhe suas gigantescas pernas de aranha)
C.K. Dexter Haven: Eu também te amo, Trace Lord. (Beijam-se)
MA: (Para Homem do Campo de Força Invisível) Ô, meu querido Homem do Campo de Força Invisível, nós não podemos nos casar. Eu ainda amo o Dexter.
HCFI: Acho que eu sempre soube disso, mas só esperava ter mais tempo para conquistar seu coração e fazê-la esquecer de C.K. Dexter Haven.
(Hipnótico volta acompanhado de Coisinha Fofa restabelecida, mas visivelmente confusa, e do Reverendo.)
Hipnótico: Achei melhor trazer o Reverendo.
Coisinha Fofa: Quem são todos vocês?
HCFI: Não se preocupe, querida. Meu nome é Camarada Fundamentalista, e você está entre amigos. Com certeza nenhum deles um mutante abominável. (Todos riem) Agora, tratemos de começar essa cerimônia. (Para Trace) A noiva não se importa de casar em roupa de dia de semana?
MA: De jeito nenhum. Tudo o que me importa é poder passar o resto da minha vida com este homem maravilhoso.
HCFI: E o noivo?
C.K. Dexter Haven: (Para Trace) Por que me importaria, se você está absolutamente linda?
Reverendo: Bem, se todos estão portanto de acordo, vamos começar.
Hipnótico: Um momento, Reverendo. (Para o Homem do Campo de Força Invisível) E você, camarada? Temos aqui a senhorita Fofa, afinal de contas?
HCFI: O que acha, senhorita Fofa?
Coisinha Fofa: (Hesitante) Bem... mas é claro!
Hipnótico: Do contrário, eu dava um jeito, afinal eu tenho poderes de hipnose. (Todos riem)
Fim.
Fade out. Créditos.
Rockferry (2008) é o primeiro álbum da cantora galesa Duffy, sensação entre a imprensa internacional. “Comprei” ontem e já o ouvi umas três vezes. De recepção muito fácil, aliás. Com excelente produção e uma sonoridade deliciosa que nos remete à encantadora vida dos mendigos, Duffy realmente tem uma voz “mais branca” que a de Amy Winehouse, a quem é naturalmente comparada. A batida é também mais suave, com uma levada bem característica desse pessoalzinho que revira lixo atrás de restos de comida e assim tira a barriga da miséria.
Baladenha de mindingo.
Eu me vi encapuzado numa noite fria, caminhando pelas ruas ainda molhadas pela chuva e vendo o rosto da minha amada nas vitrines, nos outdoors, em toda a parte. Quando, de repente, um mendigo me estende a mão, mas eu digo que não tenho nada e sigo adiante, transtornado, com as mãos no bolso. Mas então surge outro mendigo, e depois outro, e depois mais outro. Num instante, estou cercado por uma multidão de mendigos com as mãos estendidas em minha direção, e eu tentando me desvencilhar deles. É quando começa a tocar “Stepping Stone”, quarta faixa de Rockferry.

Os mendigos que dançavam na minha análise impressionista de Rockferry.
Todos nós cantamos. Rola uma coreografia básica, e começa a circular um fuminho pra rapaziada relaxar. E na última faixa, “Distant Dreamer”, já tá todo mundo bem doido. Jogando os braços pro alto, daqui pra lá, de lá pra cá, a gente canta “I'm a dreamer / A distant dreamer / Dreaming for hope / From today”, antes da polícia vir e dispersar a gente na base da porrada. Bem bonito.
Esse espírito gregário se traduz principalmente na voz de Duffy, que seduz tanto o povo das ruas como engravatados querendo chegar logo em casa. O lirismo soul, falando de amores mal curados, completa o pacote aquecendo os corações solitários debaixo dos trapos enxovalhados.
Vale por uma obra social. Recomendado.
Ante as ruas desertas, Frank era levado embora. It turned out so right, for Strangers in the Night


Mes amis, ainda na esperança de civilizá-los, quero compartilhar mais uma teoria muito fina que acabei de conceber. Diagnostiquei, para horror da comunidade médica, que negligenciou fenômeno tão gritante, mais um complexo, que ora chamo complexo de Orfeu, para preservar a tradição freudiana de se remeter à vigorosa potencialidade simbólica do mito, apesar de Freud ser um filisteu. Adiante.
Camarada Fundamentalista demonstrando, por meio de fotos, como o complexo de Orfeu prejudica nas práticas esportivas.
Conhecem a história de Orfeu e Eurídice? Creio que não. De todo modo, facilitarei para vocês. Diz a Wikipédia: apaixonados, Orfeu e Eurídice se casam. No entanto, em razão de sua grande beleza, Eurídice começa a ser assediada por Aristeu, apicultor (profissão em voga naquela época), cujos favores são por ela recusados, o que o leva a persegui-la. Fugindo dele, Eurídice tropeça numa serpente, é mordida e morre. Em desespero, Orfeu toma sua lira e desce aos infernos para trazer sua amada de volta. Nesse meio-tempo, terá ele de convencer Caronte, o barqueiro, a conduzi-lo pelo rio Estige; enfrentar Cérbero, o cão de três cabeças; e, finalmente, apelar junto a Hades pela vida de Eurídice. Perséfone, esposa do deus, intercede em favor de Orfeu, e Hades se compadece. Sob uma condição, entretanto: ao longo de todo o caminho de volta, Orfeu irá à frente de Eurídice, sem poder, em momento algum, olhar para trás. Mas, quase ao fim do trajeto, para se certificar de que Hades não o enganara, Orfeu se vira. No mesmo instante, o fantasma de Eurídice dissipa-se na escuridão. Bravo.

Toni Garrido e Patrícia França no filme de Carlos Diegues, Orfeu (1999).
Mes amis, o que eu chamo de complexo de Orfeu integra a própria constituição da masculinidade dos homens decentes, incluindo os cafajestes de bom coração, como as mulheres crêem existir, porque não é o momento para derrubarmos falsos ídolos. Trata-se de um complexo de salvador, quando o indivíduo pretende que sua parceira (efetiva ou em potencial) corre algum perigo e que ele é responsável por protegê-la. Observem que o fenômeno é estreitamente ligado ao já exaustivamente assinalado papel de protetor que primitivamente o macho exerce em relação à fêmea. No entanto, enfatizamos a diferença, sendo o complexo de Orfeu uma especialização, ou refinamento. Uma especialização das sociedades complexas, em que o perigo quase sempre não é real. Mas não nos adiantemos.
Para que fique claro, preparei uma pequena lista de sete filmes que exemplificam o fenômeno. Espero que vocês tenham visto todos, pois não vou incluir sinopses para os ignorantões.
Como disse, e creio ser essa a característica distintiva do complexo, o suposto perigo a que está submetida a mulher, no caso, Eurídice, é em grande parte construído na mente do homem, no caso, Orfeu.
Eurídice costuma ser indiferente ou mesmo resistente à salvação, como em Au Hasard Balthazar. No final do filme, Marie foge das únicas pessoas que lhe quiseram bem em toda a sua trajetória auto-destrutiva. Infelizmente, nesta singela obra-prima de Bresson, Orfeu é um bundão.
Orfeu e Eurídice, de Bresson.
Convidei uma feminista, perspectiva a mais distinta possível da minha, para assistir comigo a cada um dos filmes, a fim de referendar a isenção das minhas observações. Coçando o queixo peludo, ela assentiu. Ao final das sete sessões, realizadas ao longo de uma semana, tendo eu feito minhas considerações, concluímos ambos o seguinte:
“A mulher precisa ser salva.”
“O homem é o salvador da mulher.”
Foi o que a filmografia selecionada propunha e o que o complexo de Orfeu por mim identificado circunscrevia com a elegância peculiar às teorias geniais. O complexo de salvador responde ao príncipe encantado que as mulheres fantasiam. São tolices complementares.
***

Superestimado: como se James Stewart pudesse com duas Kim Novak, pff!
Em Vertigo, de Hitchcock, e Solyaris, de Tarkovski, vamos encontrar a mulher morta e seu duplo, introduzido como uma segunda chance para Orfeu. No entanto, em ambos os casos, o duplo se mostra falho em substituir a original, e a insistência nessa última constitui um estado doentio, com conseqüências trágicas, ainda que libertadoras. Embora eu sempre tenha preferido Judy Barton, claro que sem a sombra verde, por favor, a Madeleine Elster, muito governanta alemã pro meu gosto.
Há que se salvar Eurídice de muitas coisas, inclusive da confusão mental. Para tanto, em Hiroshima, mon Amour, Orfeu torna-se terapeuta e faz sua Eurídice elaborar indefinidamente, até que se tenha libertado da amargura do passado. A breguice enrustidíssima dos franceses, isto é, de Duras e Resnais. Se filme de nouvelle vague tivesse final, diria que, aqui, Orfeu foi bem-sucedido.
Eis agora um filme que ameaçou derrubar completamente o conceito do complexo de Orfeu, que a princípio admitia exclusivamente a devoção de Orfeu a Eurídice. Com Rocco e i suoi Fratelli, percebi que Eurídice não é o elemento nuclear da fabulação que o complexo engendra, óóó, engendra. Antes, ela é só uma peça da constante aspiração humana ao Ideal.
A fantasia corre independentemente de Eurídice, que é uma resposta idealizada a uma existência confusa, sem perspectivas; a mulher é tomada como um escape e ao mesmo tempo como uma promessa de ventura, como a Sylvia, de La Dolce Vita. Na cena mais célebre do filme, na Fontana di Trevi, Marcello Mastroianni faz juras de amor a uma mulher que não entende uma só palavra do que ele diz. Nessa mesma linha, temos o protagonista de La Prima Notte di Quiete, de Valerio Zurlini, interpretado por Alain Delon, um professor que se apaixona por uma aluna na qual ele enxerga um ideal de pureza, contra todas as probabilidades. Nhami, nhami.
Ah, perva mia! Perva mia!
A propósito do filme de Zurlini, fica também claro que Orfeu é um idealista sem ideologias. Não raro acontece de ser um cético, próximo ao niilismo, como é o personagem de Alain Delon, ainda que a contragosto. Pois céticos são freqüentemente senão idealistas radicais, e niilistas invariavelmente se refugiam na estética. Acreditam na Beleza. E como lhes é fácil, principalmente para os desgostosos, ir da Beleza à Pureza, ao Bom, e daí ao Transcendente, o que secretamente buscavam. Mas noto que já bocejam, meus beócios leitores.
Assim, em Rocco e i suoi Fratelli, as obrigações familiares ficam à frente de Nadia, que é inutilmente sacrificada por Rocco em lugar do irmão canalha, Simone. Porque o anseio de se fazer salvador é constantemente indiferente a quem será salvo. E há quem ache justo colocar a família acima da justiça. Deixo que vocês mesmos o julguem, meus caros.
Annie Girardot e Alain "Filhinho-da-Mamãe" Delon.
Pretender que a mulher precise ser salva é uma forma de se tornar merecedor do Ideal que ela representa. Mas, melancólico epílogo, o desejo de salvá-la não se concilia com o desejo de possui-la. Como o mito e os casos – sim, os filmes são casos – mostram, Orfeu sempre fracassa. Por isso, quero encerrar com aquele que considero o anti-Orfeu, na medida em que não fracassou: Rick, de Casablanca. A ética do “Sempre teremos Paris” nos diz que, para merecer o Ideal, é preciso renunciar a ele. Nossa.
Batman - O Cavaleiro das Trevas ; Dirigido pelo Christopher Nolan e estrelado pelo Cristian Bale e Heath Ledger (in memorian)
Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian; Diretor: Andrew Adamson; Estrelado pelo Liam Neeson como o leão e a Tilda Swinton como a bruxa má, muito má mesmo. E um bando de crianças também.
Sex and the City: O Filme - Diretor: como se importasse alguma coisa. Estrelado pelo nariz da Sarah Jessica Parker e as outras três lá do seriado.
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal - Diretor: Steven Spielberg (dãh); Estrelado pelo Harrison Ford (dãh) e por um monte de coadjuvantes caríssimos e dispendiososSede blogueiro. Ok. Ouvi e fui, e comigo reuni mais dois. Mas vieram as multidões, ecléticas, filistinas, fãs de Charlie Brown Jr. E veio Maiara. E vocês se juntaram.
Fora o exibicionismo, também um inconfessado desejo comunista de juntar as galeras nos levou a ser blogueiros. Porque as pessoas, também pra ser blogueiras, são “levadas” por algo. Messiânico.

Rocco e i suoi fratelli. Nadia, perdizione dei camerati.
E eu amo muito tudo isso. Maiara, leitores, Let’s, Anônimo, que a gente fica dizendo Anônimo mesmo, muita coletividade na quebrada. Porque o chamado é para todos. E vocês e nós cumprimos.
Desculpa, acabei de ver O Evangelho Segundo São Mateus, do Pasolini.
As vozes de vocês, as nossas vozes, elas se juntaram. E daí uma flor, uma dor. Conjunto. Agrego.
Desculpa, deixei escapar um concretismo. Perdão mesmo. Mas só pra vocês verem se eu fosse aluno de Letras tentando ser literário.
Mas tem um sentimento, tenho de explicá-lo. [Camarada Fundamentalista explica sentimento.] Vou citar o Apanhador. Cito.
“Só sei mesmo é que sinto uma espécie de saudade de todo o mundo que entra na estória. Até do safado do Stradlater e do Ackley, por exemplo. Acho que sinto falta até do filho da mãe do Maurice. É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo.”
Hehehe, é nóis. ... E num é?
Camarada Progressista conclui: Maiara, Let’s, Anônimo, vocês leitores, qual o nome daquele sambinha que toca toda vez que Jesus cura alguém no filme do Pasolini? Quero como música-tema nossa. Da nossa unidade.