quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Educativo, apenas:

Mas deixa eu me mostrar antes que as festas venham a me constranger a ser bonzinho, abandonar o estilo arrevesado e passar a escrever como jornalista, isto é, murchinho e acessível, com listas de lugares aonde você pode ir comprar os ingredientes pra uma ceia de Natal bem baratinha e gostosa.

O Word é tão inteligente que sabe o que quer dizer “capitulo”. Tanto que quando eu, que sou bem mais simplesinho que o programa, quero dizer “capítulo”, mas me esqueço de acentuar a proparoxítona, ele fica quietinho, imaginando que eu na verdade quisesse dizer que capitulei. E capitulei mesmo.

A seguir, cenas do próximo capítulo:

Em que tento lhes explicar por que Igor Stravinsky é absolutamente necessário para entender quem somos.



Aqui temos o primeiro link (ah, os precedentes que abro) do YouTube deste blog (porque aprecio pioneirismos), sob protestos apaixonados de todos quantos sempre nos viram como um blog arte, praticamente artesanal e resistente a modinhas, com nojo de Orkut e tudo. Mas descobri o prazer de ver concertos e balés pelo YouTube. E o link é necessário e justificável, uma vez que nenhum de vocês, saudáveis e filistinos, sentirá o mínimo interesse por ver um balé que inaugurou a música moderna, sabe, David Bowie, pós-punk, Britpop.

Trata-se da tentativa pelo The Joffrey Ballet de reconstituir a estréia da Sagração, com coreografia de Nijinsky e cenários de Stravinsky.

A Sagração da Primavera é a música da catástrofe que no ano seguinte se iniciaria com a Primeira Guerra Mundial e que até hoje não terminou, porque finalmente compreendemos, graças a Stravinsky e ao século XX, que a civilização é um adiamento cada vez menos eficaz e convincente de um fim prometido desde o início.

O balé de Stravinsky é a imagem exata do legado do século XX à história subseqüente. A saber, a consciência da catástrofe e um sentido histórico que não é senão uma escatologia. Já não podemos ignorar que sempre estivemos e que sempre estaremos a caminho do desastre. Não é pessimismo, contudo. Pessimista seria dizer que as coisas já foram melhores. É necessário dar ouvidos a Benjamin e rejeitar progresso e decadência, conceitos que se implicam. O que existe é a miséria na qual temos vivido muito bem. Mas que ainda é miséria. E a ruína completa é sempre iminente.

Sensibilidade moderna, de que todo artista deve ser dotado para de fato ser um artista, é isso. E por isso todo político honesto, por mais inteligente que fosse, seria burro: ele quer mudar o mundo, ele acha que pode. Que é só uma hipótese o tempo verbal empregado deixa claro.

Mas não existe redenção. Neste ponto, discordo de Benjamin. Redenção é algo anistórico. Significaria, de fato, o tão falado fim da história. Jesus descendo em glória com seus anjos para julgar a humanidade.

Aliás, o Richard Dawkins que me ler certamente me lançará em rosto o inconfessado estofo cristão dessas considerações. XP



E aos quarenta e cinco do segundo tempo, enfim a beleza. Não, não Hilary Hahn.

Aqui, puro impressionismo meu. Em seu Concerto para violino #1, Prokofiev manifesta o embate entre a emoção intelectualizada, tipicamente moderna, e o arrebatamento senão pela retomada da tradição melódica popular, freqüentemente folclórica.

O segundo movimento disseca essa tradição, cuja melodia é mutilada, servindo suas partes a um procedimento comum aos modernos. Trata-se de destacar o detalhe e torná-lo maior que o todo, provocando o efeito do grotesco recorrente nas obras. Operação que é responsável pelo caráter intelectual da poética moderna. Tanto que a concessão ao belo clássico, o belo por excelência, ocorre apenas a custo de uma elaboração que o argumente. Na peça de Prokofiev surge senão aos dois minutos do último movimento, sob muitas ressalvas. Daí esta definição: É moderno tudo que se veja obrigado a justificar a beleza.

Mais um pouco de arte, agora:


Aqui temos um palhaço fumando num café. É um quadro de Hopper de um palhaço fumando num café. Próximo slide.


Sim. Podemos ver que Yeats tinha mesmo, além do nome, cara de literato. Um homem com essa fisionomia certamente haveria de consolar velhotas com poemas imortais.




Por fim, Vanessa Carlton ao vivo, “A Thousand Miles”, que é absolutamente emocionante, absolutamente apaixonante.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O que ando lendo - Um pouco de quadrinhos

Há tempos que não falo de quadrinhos nesse espaço. Lembro de promessas não cumpridas, resenhas fracassadas, enfim, todos meus projetos de tornar este blog talvez algo que se comprometesse mais com o universo da arte sequencial.

Deixando as mágoas pessoais de lado, consegui, depois de muito esforço, escolher alguns
quadrinhos bem curiosos que ando lendo. Algo de bom gosto, na pior, pelo menos, meu gosto.

Planetary - De Warren Ellis e John Cassaday
Imagine um quadrinho onde os protagonista estão a procura da história secreta do mundo, essa busca é realizada por seres com algumas habilidades sobre-humanas e tais seres, no decorrer da saga, se deparam com situações que remetem a vários elementos da cultura pop do século vinte: de personagens de histórias pulps, teorias de física surreais até personagens bem conhecidos. Inclusive, os vilões da trama, são inspirados no Quarteto Fantástico.

Apresentados os clichês e um pouco da trama pode-se imediatamente pensar que dessa história não se tirará muita coisa, nada muito interessante. Pelo contrário, Ellis é competente no andamento da narrativa: cada elemento da grande trama é apresentando cuidadosamente, lembra um jogo de xadrez onde o embate final dos protagonistas contra os Quatros(os personagens inspirados no Quarteto que são os grandes vilões) é, num dado momento, eminente, e como tal, anucia-se como grande motor do enredo e o desfecho da obra.

Planetary foi publicado por duas editoras no Brasil: a Devir publicou dois encadernados que ainda estão em circulação e abrange os 12 primeiros números. O resto do material foi publicado pela Pixel na sua revista mensal Pixel Magazine até a número 14 da mesma revista.

DMZ - De Brian Wood e Ricardo Burchielli
A Colômbia enfrenta uma guerra civil; as Farcs e o governo vigente travam uma batalha espaço por espaço, uma batalha minuciosa pelo território colombiano e o mais importante nele: os civis que tentam levar um vida normal em meio ao caos da situação bélica.

Agora vamos aumentar esse exemplo; transportando uma guerra civil para o coração do Estados Unidos da América e a Ilha de Manhattan como uma zona desmilitarizada, palco das ações da trama. Temos de um lado os exércitos do Estados Unidos; de outro, os Exércitos Livres, uma milícia que funciona como uma idéia e não apresenta um centro passível de ser aniquilado pelo exército americano, contudo o avanço da milícia foi barrada em New Jersey. No centro desse impasse temos uma ilha de Manhattan habitada por 400.000 pessoas que ficaram depois da evacuação da ilha.

Matthew Roth, aspirante a jornalista, se depara com esse universo caótico e devido a eventos acidentais será a fonte de notícias para aqueles que ainda são americanos. O autor, inclusive, trabalha muito bem com o cotidiano das pessoas que tentam sobreviver em DMZ; um ponto forte da obra: ao mesmo tempo que somos apresentados a lugares que conhecemos(pelo menos em fotos) completamente modificados, a civilização yankee que conhecemos modificada pela guerra parecendo um terra de ninguém de fazer inveja a muitos filmes apocalípticos; ele traça a evolução do próprio protagonista durante o percurso, pois ele é obrigado a tomar decisões éticas e morais muito difíceis para sobreviver e continuar escrevendo as notícias sobre DMZ.

DMZ é publicado pela Pixel na Revista Pixel Media.

Y: The Last Man - De Brian K. Vaughan e Pia Guerra
Os seres com cromossomo Y foram exterminadas da face da Terra. Além de quase 50% da população humana estar extinta, muitos cargos e funções vitais para a sobrevivência da humanidade eram redutos quase exclusivo dos homens. Contudo, e para infelicidade de algumas mulheres, sobrou um ser do sexo masculinio: Yorick Brown. Na verdade dois, ele e seu macaco de estimação Ampersand.

Por enquanto, pelo menos o que foi publicado pela Pixel na sua pérola Pixel Media, temos Yorrick, auxiliado pela única agente mulher da Culper Ring afim de tornar possível a reabitação dos homens na Terra enquanto é perseguido pelas amazonas(sim, elas tiraram um dos seios) e também por outras radicais(que permanecem com os gêmeos intactos).

Uma conclusão, se possível.
Além do espaço de publicação comum, pelo menos aqui, esses quadrinhos compartilham um mesmo universo de referências; trabalhando com elementos da cultura pop de maneira coesa. Não só colocando referência atuais como construindo outras através desse processo. Os autores são pessoas bastante modernosas, inclusive eles tem blogs pessoais e até, pasmem, twitter. Quem sabe após dar um olhada, nem que seja via pdf ou jpeg nesses quadrinhos, quem sabe se não vai encher o saco dos autores com perguntas específicas sobre episódios particulares? Isso me lembra outra referência e uma outra história em quadrinhos, mas esta fica para outro post.

Um pouco mais, talvez?

sábado, 8 de novembro de 2008

Barack Obama: Discurso da vitória

Discurso da vitória do senador Barack Obama, proferido esta semana, em Chicago, Illinois.

Neste fim de semana, esta nação [This nation] fez uma de suas mais importantes escolhas. Tinha diante de si a tarefa de dizer que tipo de país é este. A tarefa de decidir, de uma vez por todas, que tipo de país quer ser. E esta escolha, que definirá não só o futuro deste povo, mas o futuro de todos os povos, esta escolha foi feita. E como me alegro em dizer que não poderia ter sido mais sensata nem mais brilhante.

"High Schooool..."

High School Musical 3 – Ano da Formatura bateu Jogos Mortais V nas bilheterias. Quando o primeiro episódio de Jogos Mortais foi lançado, em 2004, creio que todos se lembram do tamanho da comoção que causou. Naquela época, era impensável o que hoje testemunhamos: que a esperança e o otimismo de High School Musical levasse mais pessoas ao cinema que a desesperança e o pessismismo de Jogos Mortais.

Que a vontade de mudar [change] nossas vidas triunfasse sobre nossa culpa e nosso medo. Que a doce mensagem de que devemos ser nós mesmos e de que, só assim, seremos felizes fosse, afinal, mais eloqüente que todos os nossos acusadores, que diziam que não éramos capazes de ser melhores. Que não poderíamos mudar [change].

Porque o sucesso da série Jogos Mortais é senão mais uma prova de que este país era prisioneiro da culpa e do medo. De que estávamos tão confusos e desesperados a ponto de aceitar a ajuda de qualquer um. De que simplesmente não conseguíamos nos libertar dos erros que havíamos cometido. Jigsaw representa nossa enorme culpa e a necessidade que tínhamos de nos punir. Estávamos envergonhados de ser quem éramos. Estávamos envergonhados de ser americanos.

Mas se erramos, estamos arrependidos. Se nos enganamos, finalmente o reconhecemos. Porque somos americanos. Somos um povo que, por mais enganos que tenha cometido, jamais perdeu de vista a liberdade e a justiça como objetivos. E hoje finalmente nos reconciliamos com estes valores. Deixamos a culpa e o lamento para trás. É hora de agir. É hora de mudar [change] as coisas. Porque esse é o tipo de país que somos, um lugar onde ainda existe perdão para todos.

Jigsaw, não precisamos mais de suas lições. Não somos mais as pessoas que um dia precisaram de suas lições. Jigsaw, dispensamos seus métodos, sua tortura e seu moralismo. Esta nação tem uma nova consciência e, portanto, novos professores. Finalmente percebemos que não é por violência e coação que corrigiremos nossas falhas e superaremos nossas limitações. Não, a única maneira de conquistarmos tudo aquilo que sempre sonhamos é ouvir a mensagem de High School Musical.

Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad representam a América que decidimos ser quando fomos ao cinema ver High School Musical 3 – Ano da Formatura. Uma América em que as diferenças já não podem mais nos separar. Uma América em que os sonhos são respeitados e realizados. De fato, uma América que é feita justamente destes sonhos. A única América que sempre existiu.

Minhas filhas Sasha e Malia são fãs de High School Musical. Um dia, quando elas assistiam ao filme pela décima vez – eu tinha de colocar o DVD para elas, por isso sei que foram dez vezes, eu contei –, perguntei do que elas mais gostavam em High School Musical. E sabem o que elas me responderam? Não eram as músicas, as coreografias, Zac Efron ou o cabelo de Ashley Tisdale. Elas me disseram que gostavam das pessoas. E eu perguntei “como assim, das pessoas?”. E Sasha se apressou em explicar que gostava do modo como as pessoas eram felizes, porque não tinham medo de ser quem eram.

Nós, pais, nos comovemos com qualquer coisa que nossos filhos fazem ou dizem, porque sabemos que não são bobagens. Mas naquele momento eu fiquei comovido não como pai, mas como ser humano. Minhas filhas haviam entendido a mensagem de High School Musical. Uma mensagem que eu demorei anos para compreender.

Vocês já ouviram falar da minha busca por uma identidade. E de como, confuso e irresponsável, eu me envolvi com drogas, na juventude. Mas minhas filhas, ali sentadas do meu lado no sofá, vendo um filme da Disney, tinham a oportunidade de aprender uma lição que havia me custado tantos erros, tanto sofrimento. Por isso, reconheço, por experiência própria, a importância e a verdade da mensagem de High School Musical.

Precisamos ser quem somos, porque somos grandes, somos capazes, somos melhores. Sim, nós podemos [Yes we can].

Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad demonstram a coragem que nós teremos de demonstrar de agora em diante para assumir todos os riscos e sacrifícios que a realização de nossos maiores e mais belos sonhos exige. Neste terceiro episódio da série, os personagens vão se formar. É o momento da passagem da vida escolar para a vida adulta. É o inevitável processo de amadurecimento, no qual nós também nos encontramos e no qual – agora eu vejo – finalmente avançamos.

Não é a graça de Vanessa Hutchens, irresistível como a de Ginger Rogers, nem o charme de Zac Efron, comparável ao de Gene Kelly, que nos levaram aos cinemas; mas a mensagem de que, sim, nós podemos [yes we can].

Com Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad, nós também amadurecemos. Nós também vencemos nossos medos e realizamos nossos sonhos. Já não precisamos ter vergonha de ser quem somos e querer o que queremos, porque hoje sabemos que estamos no caminho certo. Porque, sim, nós podemos [yes we can].

Obrigado. Que Deus os abençoe. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América.

Tradução: Camarada Fundamentalista.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Nosso amigo, o Azeredo

Querendo ou não, em algum momento, num blog, alguém resolve dar uns escapadelas e arriscar uns pitacos na esfera política. Não que nossos compadres eleitos mereçam nenhum destaque, pois muitas vezes suas ações repercutem em qualquer outra esfera, ora, quando fazem seu trabalho e não são muito apoiados nem por aqueles que colocaram os indivíduos no poder. Por ventura as discussões acaloradas de futebol são timidamente substituídas pela boa e velha política, sobretudo quando estamos em período eleitoral.

As eleições já acabaram, como o termíno é recente, as luzes ainda estão muito forte nas repartições públicas, assim podemos acompanhar mais de perto não só o novo político eleito, vamos mais fundo: tanto na memória, como na história. Enfim, procuramos aquele velho camarada que votamos em eleições anteriores, aqueles que ainda estão nos seus respectivos cargos.

Tenho um cara que admiro muito, lá no Senado, verdade. Seu nome é Reinado Azeredo(PSDB): gente boa, altivo, sempre preocupado em não andar com a nova corja de governantes que assola nossa terra brasilis. Enfim, acho o cara bem boa praça. Mas muita gente não gosta muito dele, na verdade por causa de duas leis dele que estão aparecendo recentemente na grande mídia.

A primeira é a famigerada substituta a PLC 89/2003: a lei que pune cibercrimes e derivados. Derivados aí se inclui fansubber e todos aqueles preocupados em disseminar a horrível pirataria, pois sei que aquele que copia o cd na sua casa é o mesmo que produz a pirataria em larga escala, ainda mais este mesmo é o vilão que é associado com o tráfico de drogas, sei porque vi tudo na propaganda da televisão. A lei sofreu umas mudanças, pena, mas ainda é a lei que muitos de nós estavam esperando, ora, eu pelo menos, assim a internet fica mais segura e sem esses pedófilos!

A segunda leva de críticas é sobre o projeto encabeçado pela conterrânea de partido de Azeredo: Marisa Serrano(PSDB), cujo esboço do projeto é do nosso amigo; o projeto pretende unificar as carterinhas escolares, em âmbito nacional, e ir além: coibir os usos das carterinhas nos feriados e fins de semanas. E essa restrição abrange também os idosos. Outra boa proposta, pois sabemos que a pirataria de carterinha acontece diante de nossos olhos, quiça os responsáveis costumam ser os mesmos que traficam drogas e falsificam programas de computador. Provavelmente deva existir muitos idosos que falsificam com este cartel do mal e assim os verdadeiros idosos, já que são aposentados, poderão desfrutar sossegados seus filmes, em dias de semana, acompanhados dos adolescentes que matam aula, pois muitas das escolas públicas tem péssimas grades curriculares.


"O que se espera é que haja uma redução do preço dos ingressos", diz o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), autor do projeto

Azeredo não deve ter pensando em nada disso, mas suas propostas de leis são realistas e simples: eliminar a maldade de dentro de certos homis.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Eu te Amo, Kevin Smith

Saiu recentemente na gringa o mais novo filme do genial diretor americano Kevin Smith, Zack and Miri Make a Porno. Saudado como uma volta à velha forma do diretor pelos críticos e fãs de plantão, o filme marca uma suposta nova fase na carreira de Smith, que poderia ser chamada (sem que ninguém nos ouça) de era "Ben Affleck-free". Smith resolveu desassociar de vez, na cara dura, a sua imagem da do seu amigo queixudo, e pelo jeito já colheu os frutos por isso. Certíssimo. Melhor mesmo Mas o que realmente me motiva a escrever sobre o gorducho é a sua lista de filmes favoritos, revelada no site Rotten Tomatoes (link aqui). Proponho aqui para vocês um exercício então. Vamos pegar os cinco filmes mencionados por ele como fundamentais na sua vida e analisar a influência deles na obra do cidadão. Sim, veremos como podemos encontrar o impacto desses filmes em obras-primas como O Balconista, Barrados no Shopping, Procurando Amy, O Império do Besteirol Contra-ataca, entre outros.


Chamego puro

A Última Tentação de Cristo
Essa influência é perfeitamente palpável. Afinal estamos falando do homem que produziu Dogma, o filme de cunho religioso mais importante de todos os tempos, e que coloca esse A Última Tentação de Cristo no chinelo. Imagino que Smith tenha citado o filminho do Scorcese apenas por uma relação de causa-efeito, já que sem o Cristo imaginado por Scorcese nesse filme pobre, jamais poderíamos ter desfrutado o banquete trazido por Smith em Dogma. E, cá entre nós, quem nasce para Martin Scorcese jamais poderá ser um Kevin Smith. Mas a lembrança é válida.


Faça a Coisa Certa
Na sua análise do filme, Smith comenta as similaridades de Faça a Coisa Certa com a sua obra-prima O Balconista, dizendo que os dois filmes se passam em um dia, num mesmo quarteirão e em uma cidade específica. Nada mais justo. Afinal, Faça a Coisa Certa causou uma leve brisa no mundo cinematográfico quando lançado, mas nada perto do furacão avassalador trazido pelo filme de Smith. Não pode-se querer que um filme que trata das tensões raciais que infestam os EUA e dirigido por um cineasta pouco conhecido como Spike Lee tenha o mesmo impacto de um outro que mostra dois funcionários vagabas e nerdescos de uma loja de conveniência discutindo sobre Star Wars e quadrinhos. Mas a influência aqui também se mostra palpável.


JFK - A Pergunta que não Quer Calar
É notório o peso político nos filmes de Smith. Seus filmes traçam de maneira brilhante um panorama minucioso e gloriosamente polêmico da política americana contemporânea. Qualquer realização sua merece não somente ser colocada do lado do filme de Oliver Stone, como também de outras obras clássicas como Todos os Homens do Presidente, Sob o Domínio do Mal, Maratona da Morte e Missing. Esperamos ansiosamente um libelo a Barack Obama, de preferência com muitas piadas com maconha (perfeitamente identificáveis com os liberais democratas). Seria plenamente palpável.


Tubarão
Os filmes de Smith são conhecidos, como já vimos aqui, pelas brilhantes alegorias religiosas e pelo ativismo social e peso político que exalam. Mas o fato dele citar o Tubarão como um dos seus cinco filmes favoritos nos lembra de outro fator importante na sua obra, sempre presente nos seus filmes, que é o suspense constante. Smith sabe como poucos criar um clima exasperante de tensão. Percebemos essa influência de maneira (UEBA!) mais palpável no grande épico romântico de Smith, Procurando Amy. Como todos sabem, no filme de Steven Spielberg o bicho aparece apenas no final do filme, com Spielberg trabalhando todo o clima apenas em cima da expectativa causada pela presença ou não do tubarãozinho. No Procurando Amy, vemos o mesmo cenário com resultados muito mais eficientes. Ben Affleck é assolado pelas lembranças de sua paixão por uma sapatona, e a sua presença em todo o filme se dá apenas no campo das memórias, como um fantasma assombrando a vida do nosso herói. Brilhante. Alguma alegoria complexa de Smith entre tubarões e lésbicas? Deve ter, com certeza, de uma maneira palpável.




Mó cara de sapata tem esse Tubarão, né não? Zagueiro do Bangu!



O Homem que Não Vendeu a sua Alma
Acho que reside aqui, verdadeiramente, o filme de maior impacto na obra de Kevin Smith. Explico, bebês. O Homem que Não Vendeu a sua Alma é um dos filmes mais classudos da história do cinema. Daqueles que merecem ter o seu roteiro envolvido em capas de veludo e tudo mais. Ter Paul Scofield e Robert Shaw humilhando todos os atores do mundo também ajudava bastante. Além do filme se dar ao luxo de ter um Orson Welles como um dos conspiradores. Orson Welles. Sério. Agora, voltemos ao universo de Smith. Se vocês pudessem pensar em apenas uma palavra que definisse o espírito dos filmes do diretor, qual viria às suas mentes? Sim, como eu bem imaginei: classe. A linguagem talhada, milimetricamente construída, a riqueza dos diálogos, a ausência de palavrões chulos, as atuações eletrizantemente elegantes... E se Kevin não pode ter um Welles, se dá ao luxo de trazer um Ben Affleck para as equações (quer dizer, pelo menos até pouco tempo atrás...). É IMPOSSÍVEL assistir a qualquer filme de Smith e não sentir a influência do filme dirigido por Fred Zinemann (outro que não chega aos pés de Smith) neles. Palpável.

Jay e Silent Bob

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Wim Wenders é cachaceiro, bebum e ninguém dá mais a mínima para os seus filmes. Bu!

Aê, cambada. Depois de semanas no esculacho, estou de volta. O negócio é o seguinte: estou puto da vida com a vinda do alemão cachaceiro e ex-diretor de obras-primas Wim Wenders. Aproveitando a lembrança do Moderado (de volta do mundo dos mortos, depois de muita chinelagem) ai embaixo, gostaria de mandar o Wenders ir enganar trouxas em outra freguesia. Já não bastasse aquelas bandas gringas mastodônticas vindo enganar os otários nessa terra na qual tudo de planta e tudo se dá (opa!) em nome de um punhado de dólares a mais (copyright Sergio Leone), agora diretores falidos também resolveram entrar na lista e nos visitar no feio crepúsculo de suas anteriormente brilhantes carreiras. Primeiro foi o David Lynch pouco tempo atrás, agora é o Wenders. Sério, alguém deu a mínima para os últimos 10 anos da carreira dele? Reciclando idéias, temáticas e personagens, Wenders chegou a tal ponto de irrelevância artística que mesmo veículos conceituados acabam nem noticiando o lançamento dos seus últimos filmes. Wenders veio apresentar na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo o seu mais novo engodo, Palermo Shooting, seu milésimo road movie, esse passado na Itália. Sério.

Garotas que são chegadas num coroa gringo: tremei! Mas um aviso: dizem que o alemão gosta mesmo é de morder a fronha. Mas não se intimidem por isso não.


A única mudança que o alemão pau d'água faz nos seus filmes são as localizações mesmo, pois roteiro mesmo na vida ele escreveu dois (um dos seus road movies, e o outro dos seus filmes de anjos), e os recicla ad infinitum desde então. Lógico que ele realizou belíssimos filmes e outros tantos competentes, mas a fórmula esgotou faz tempo. Toda a manada dos descolados e pseudo-intelectuais se deslocou até a Mostra para verem, serem vistos, aparecer e lamber os ossos jogados pelo alemão, nas entrevistas coletivas e nas sessões (o cidadão assistiu vários filmes na Mostra). Para essa turma de infelizes que infesta os Espaços Unibancos e Cines Bombrils da vida, eu dou é uma bela duma banana. Vou pegar a minha camiseta do Braddock (Chuck Norris, seus tontos) e desfilar nas áreas da Mostra lá na Paulista. Quero ver quem vai ser macho de tirar uma com a minha cara. Já chamo pra porrada! Ah, eu tô maluco! Porrada na Mostra, é pra quem pode, não pra quem quer. No mais, beijos para todos, e eu ainda vou roubar a sua namorada (mulher não manja nada de cinema mesmo, só vão pra acompanhar e falar "que lindo, amor!) enquanto você estiver chorando vendo a última patetaiada do Wenders. Cornão!


Os dois bastiões da Folha de São Paulo: apoiar a cultura e o mau jornalismo


Obs 1: a Mostra dedicou um espaço para Wenders exibir os seus filmes favoritos. Como ele indicou 2 filmes do Yasurijo Ozu, foi uma rara oportunidade para os fãs do cineasta japonês verem um de seus filmes na telona. Mas se fosse assim, que Wenders tivesse mandado lá da gringa a lista por e-mail para os organizadores e eles os exibissem então. Com muita caipirinha, feijoada, paio, todas as papagaiadas que o povo aqui dos trópicos adora.

Obs 2: numa visita a Porto Alegre (recentemente, em agosto) para participar de uma palestra, Wenders protagonizou um momento de hilariante constrangimento. Um timeco de futebol de lá (Interegional, se não me engano) resolveu "homenageá-lo" com uma camisa com o seu nome nas costas e a numeração 10. Wenders foi obrigado a segurar o presente de grego nas mãos, e dar os costumeiros sorrisinhos falsos. Sério, gaúcho é o povo mais babaquento do mundo, mas ai já é demais. Se a passagem de Wenders por São Paulo gerasse momentos tão involuntariamente engraçados como esse, ainda poderíamos justificar a sua vinda. Tipo, o São Paulo Futebol Clube (time que adora esse tipo de pataquada) dando uma camisa para ele escrita "Wim Wenders, agora também um bambi orgulhoso". Para quem duvida, vai aqui embaixo a foto. Despeço-me agora. Bjunda.

Atenção, Wes Anderson: esse será você amanhã. Tá vendo que micão? Quem mandou dar moral pro Seu Jorge?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um texto sem refresco


Um calor absurdo atinge nossa metrópole. Uns dizem que a primavera chegou de vez e outros gostam de ressaltar o período de calor com a famosa conversa de elevador "que calor não?"; deixando os idiotas da obviedade e a retórica de lado, pensei em muitas coisas para postar neste blog no meu período de retiro espiritual forçado, em verdade, até rascunhei uns trechos sobre temas interessantes abrangendo desde música até fenomenologia aplicada ao cinema. Poderia, inclusive, colocar uns trechos desconexos com a finalidade de denotar que não fiquei sem fazer nada, mostrando assim que minha cabeça não é um deserto de idéias, mas quer saber: não vou falar nada, principalmente porque não sei como dizer e justificar as minhas frequentes escapadas e ausências. Posso ter ido para Paris, Texas...




sábado, 11 de outubro de 2008

Se Superman é Clark Kent, Tyler Durden é Tyler Durden

Os nomes que adotamos na internet são todos pseudônimos, só pra constar. E no mundo real nossas identidades permanecem secretas, ainda que, entre si, nos conheçamos e nos freqüentemos, nós que escrevemos, cantamos e posamos para internautas do mundo inteiro. Somos como uma liga da justiça que, em dia de semana, é gente como a gente, que pega ônibus e passa mal se come maionese vencida. Quando nos encontramos pelas ruas de São Paulo, por exemplo, como outro dia em que encontrei Mallu Magalhães no metrô, nos cumprimentamos discretamente, às vezes apenas com um olhar cúmplice.

Eram umas três e meia da tarde, e eu embarquei na estação Ana Rosa, a caminho de..., para me deparar com Mallu, sentada com o violão no colo. Ela quase não conseguiu disfarçar a surpresa e contentamento ao me ver:

- Oi, Camarada Fundamentalista! – um tom de voz quase que alto demais, que ela já diminuiu pela metade ao prosseguir: - Que bom te ver, rsrsrs.

- Bom te ver também, Mallu Magalhães, rsrsrsrsrsrs – respondi, me ajeitando entre um cara enorme, de sobretudo, e uma mulher cheia de sacolas, que me fizeram pensar que Mallu Magalhães era o tipo de pessoa que não segurava sacolas nem mochilas para os outros em ônibus e metrôs, tsc, tsc, tsc. Mas eu sou muito julgador, por isso afastei esse pensamento da cabeça e ia perguntar não sei quê pra ela, quando o trem parou bruscamente, e o cara enorme oscilou como um carvalho golpeado por um guindaste, e me perdoem a eloqüência inesperada da imagem.

"Mallu, que surpresa!"

(Um fã da Mallu que leu a primeira versão deste relato observou que provavelmente ela não se oferecera para segurar as sacolas da mulher das sacolas porque estava com seu inseparável violão no colo, como eu mesmo mencionei. Plausível, mas mantive o original, compensando-o com este adendo, por achar mais honesto registrar minha possível precipitação. Agradeço ;) especialmente, portanto, a Wilson F., o fã, que me garantiu que Mallu Magalhães não só segura bolsas e sacolas, como cede seu assento para idosos, gestantes e deficientes físicos.)

Ô, sim, era naquela época de constantes falhas mecânicas do metrô, que não suportava o aumento excessivo de usuários com a integração metrô-ônibus possibilitada pelo Bilhete Único. O vagão lotado, e quente como é na Linha Verde, já imaginem, porque, não sei se lembram, mas as paradas devido a falhas mecânicas então podiam durar de vinte a trinta minutos, como de fato se deu.

Passados dez minutos, e nada, as pessoas se abanando, bufando e resmungando, como uma purulenta galé de degredados, Mallu e eu tivemos a idéia de salvar o dia, principalmente considerando que havia ali muitos dos internautas que tanto nos amavam em segredo. Demos uma piscadela, e ela já foi tirando o violão da capa. Não foi preciso mais nada para que meia dúzia – dentre os quais, um casalzinho indie e um rapaz com um Dom Casmurro do Estadão nas mãos – a reconhecesse, mas, contidos como são os jovens bem-nascidos, procuraram apenas chegar mais perto, porque sabiam que dali sairia aquele folk gostoso e intimista, ora entranhado, que fez a fama de Mallu Magalhães.

"Essa aqui é pro meu grande rsrs camarada rsrsrsrs, Camarada Fundamentalista."

A pedido meu, que considerava a mais representativa cover de seu repertório e especialmente adequada à ocasião, sem dizer que a de Mallu era a melhor interpretação desde a versão original de Johnny Cash, ela começou a introdução de “Folsom Prison Blues”:

“I hear the train a comin'

It's rolling round the bend

and I ain't seen the sunshine since I don't know when,
I’m stuck in Folsom prison, and time keeps draggin' on
but that train keeps a rollin' on down to San Anton.
When I was just a baby my mama told me:
Son, always be a good boy, don't ever play with guns.
But I shot a man in Reno just to watch him die
When I hear that whistle I hang my head and cry.”

E que olhar era aquele no rostinho de Mallu, da angústia negra de Memphis, da revolta estudantil do Quartier Latin, da sanha assassina das Bolsas em 1997, era o puro espírito maldito! Arrepiado, dizia comigo mesmo que já não estávamos num vagão de metrô entre as estações Paraíso e Brigadeiro, aquilo era a Caverna de Adulão, referência que os leitores versados nas Escrituras não deixarão passar. E continuou, prodigiosa:

“I bet there's rich folks eating in a fancy dining car
they’re probally drinkin' coffee and smoking big cigarrs.
Well I know I had it coming, I know I can’t be free
but those people keep a movin'and that’s what torture means.”

(Muitos blogueiros me perguntam, em congressos de que participo, se a introdução de letras de música, mesmo quando devidamente contextualizadas, como “é o caso de seus posts”, eles contemporizam, se mesmo assim é legítima. A pergunta procede desde que muitos amadores, notadamente miguxinhas não filiadas, fazem disso um expediente gratuito e preguiçoso. Costumo dizer que a subversão fraudulenta de um recurso legítimo depõe, por certo, tão-somente contra o subversivo, como se diz que a lei é boa, nós é que somos corruptos.)

“Well if they'd free me from this prison,
if that railroad train was mine
I bet I'd move just a little further down the line
far from Folsom prison is where I long to stay
and I'd let that lonesome whistle blow my blues away.”

Aquilo era um canto da terra, profundo e verdadeiro apenas como um produto da natureza podia ser. E eu tinha certeza de que todos naquele cubículo haviam transcendido, nem que por quatro minutos, porque quando desembarcaram, minutos mais tarde, na Trianon-Masp e na Consolação, iam com um semblante como que purificado por uma grande fúria finalmente liberada pela voz e violão de Mallu Magalhães. Ela, que também o pressentira, quando nos despedimos no Sumaré, onde ela ia descer, me confessou, renunciando por um instante a sua grande humildade de artista folk:

- E pensar que eu nunca estive em Folsom Prison, rsrsrsrsrsrsrs.

– Nem nós, Mallu, nem nós.

A Arte, e somente a Arte, é capaz de nos unir tanto na miséria aviltante, como na glória excelsa.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Fomos ao Cinema ver Ensaio Sobre a Cegueira




Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.


Camarada Progressista acorda. Camarada Progressista toma café, e liga para o Camarada Fundamentalista.

C.P -Alô. Vamos ver o Ensaio Sobre a Cegueira

C.F. -Vamos. Vamos ver o Ensaio Sobre a Cegueira

C.P. -Vamos chamar aquela amiga que leu o livro e achou bala?

C.F. -Vamos. Vamos chamar aquela amiga que leu livro e achou bala

C.P. -Eu sei a história do livro. Todo mundo fica cego, do nada. A sociedade começa a entrar em colapso, e todos acabam descobrindo -depois de muita sujeira e sacanagem- que o ser humano somente pode aproveitar o relacionamento com os seus semelhantes de uma maneira harmônica e civilizada quando ele não pode enxergá-los, livrando-se assim dos preconceitos e pré-julgamentos em relação aos seus iguais. O negócio segundo o velho batuta é todo mundo colocar uma venda nos olhos e sair amando todo mundo. Bem que eu achava que os cegos sempre tinham muito amor para dar mesmo. O filme deve ser a mesma coisa. Um monte de simbolismos bonitos e ingênuos. O Saramago, velho comuna que é, acredita mesmo nessas bobagens.

C.F. -É verdade.

C.P. -Né?

C.F. -É

C.P -Marca ai, e vamos.

Marcamos, e fomos

Depois do filme:

C.P -Pô, esse filme é uma porcaria

C.F. -É

C.P. -Teríamos aproveitado melhor se tivéssemos visto com uma venda nos olhos. Você sabe, apenas com o áudio, não teríamos de ter aturado o anacronismo Stoneano do Meirelles, ou então a desagradável sensação de ver a nossa cidade usada como um símbolo do colapso da civilização ocidental, da inadequação humana, e de todo o resto.

C.F. -Mas isso não seria deveras metalinguístico?

C.P -Talvez fosse essa a intenção do cara, percebemos que a melhor maneira de entender o espírito do filme fosse vê-lo com os olhos fechados ou obstruídos. Vamos tentar ver o filme de novo dessa maneira? Com uma venda nos olhos?

C.F. -Não, pombas. Isso seria deveras constrangedor. Vai você, que eu fico. Leva a amiga que achou o filme bala.

C.P. -Ela aceitaria a experiência?

C.F. -Não sei. Liga lá. Hi - 5

C.P. -Hi-5



Liguei. Ela não aceitou. Fui então sozinho. Entrei normal na sala de cinema, sussa. Ai, quando as luzes se apagaram, peguei minha venda e coloquei nos olhos. Magia. O filme aconteceu para mim. Emocionante. Jamais havia notado o quanto podemos evoluir como seres humanos quando colocamos uma venda nos olhos. Liguei então para o Fundamentalista


C.P. -Alô

C.F. -Alô

C.P. -Vi o filme com uma venda nos olhos. Transcendi.

C.F. -Você é um idiota.

C.P. -Você diz isso agora. Se ficasse com os olhos fechados, perceberia o quanto uma afirmação dessas pode ser carregada de ódio e pré-julgamentos. Vamos fazer assim: feche os olhos, e eu falarei mais uma vez sobre a experiência que tive, e você verá que a sua reação anterior foi equivocada.

C.F. -Ok. Fechei os olhos.

C.P. -Bom. Vamos tentar de novo. Oi, Fundamentalista, eu assisti de novo o Ensaio Sobre a Cegueira, dessa vez com uma venda nos olhos. Transcendi.

CF. -(Segundos de silêncio depois) Você é um idiota. Nossa, chamar você de idiota com os olhos fechados foi uma experiência única. Transcendi.

C.P. -Bah. Será que eu consigo as 10 pratas que paguei?

C.F. -Não sei. Tente pedir a grana de volta com uma venda nos olhos.

C.P. -Ha ha. Nessas eu já tirava a venda e te mandava uma nas fuças. Mudando de assunto, você viu o casamento da Sandy?

C.F. -Vi. Também tenho acompanhado todas as notícias relacionadas ao casório, lua de mel e tudo mais. Estou gastando um dinheirão com as Contigos da vida. Mas vale a pena. A Sandy é realeza.

C.P. -Digo o mesmo! Será que o cara que ela casou será um bom marido? Qual é o nome dele mesmo? Joca, Jonas, Lúcio, André, Márcio... putz... deu um branco..

C.F. -Não é Ricardo? Ele era daquela grupo meio Hanson com violinos, não era?

C.P. -Era sim. Mas o pai dele fazia parte. Então, era um grupo meio Hanson com violinos e com o pai junto. Mas arrisco dizer que era melhor que o Hanson. Liga pra nossa amiga, ela sabe o nome do carinha, parece que ela acha ele um pão.

C.F. -Ligo sim. E a crise econômica, você tem se informado a respeito?

C.P. -Putz, não... é que, tipo, dá um bode de ler sobre... Mas conta aí pra mim o que está rolando!

C.F. -Estou por fora também. Pena.

C.P. -Pena.
O telefone tocou. Era outra linha.

A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

De como Jewel e eu salvamos a Augusta

Jewel e eu. A Jewel de 95 é um dos meus 14 grandes amores. É uma lista fixa que foi inaugurada muito antes de eu saber que seria uma lista, quando eu vi um dos irmãos Hanson, aquele, e achei que era uma garota, pelo que me lembro, mas isso não vem ao caso.

Depois mais equívocos, quando eu me apaixonei pela Victoria (então) Adams, ainda Posh Spice, por causa de “2 Become 1”, que eu cantava junto, em falsete, apontando com o dedinho que nem ela fazia no clipe.

Mas se é natural sentir atração por um homem, achando que é uma mulher, e mesmo depois de descobrir, não querer acreditar, bem, e gostar de Jewel?

Em Pieces of You, seu debut, ela expôs sua alma dilacerada, ecoando a dor de multidões que comprariam o disco, garantindo um colinho milionário para suas lamentações intermináveis, mas totalmente justificadas. Porque ela não negociaria seus sentimentos para agradar ninguém. Aqui, o paralelo com Marilyn Mason é evidente e inevitável, como muito bem assinalado pelo Wikipedia.

Mas Jewel e eu. Talvez nossa história tenha começado apenas por causa da rua Augusta. Sim, acho que é isso mesmo. Já posso me lembrar...

Jewel de 95.

De como eu desci a Augusta, sentido centro, e provei um pouco do mundo cão. Como descesse a Augusta, sentido centro, muito, muito longe de casa, logo ficou claro pra mim que seria difícil viver o lado Coca-Cola da vida ali. E a coisa só piorou, quando a Bichinha Pobre, perto de mim, disse detestar cinema nacional. Nesse instante, devastado, pela quinta vez naquela semana jurei vingança ao Capital, que fazia do homem proletário, e do proletário consumidor, e do consumidor bichinha, aquela bichinha.

Um menino como eu, criado a leite com pêra, conhecia lugares como a Augusta apenas de ver Amarelo Manga ou Baixio das Bestas. Aliás, assistir Baixio das Bestas é um tipo de obra social.

De como eu me juntei com o dono do Feliciano’s Bar para trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados. Com essas noções de degradação social do cinema brasileiro misturando-se na minha cabeça, é que eu me lembrei do clipe de “Who Will Save Your Soul”, em que a Jewel salvava um bando de excluídos incontinentes num banheiro público só tocando violão. Foi aí que eu tive a idéia de trazê-la pra cá, e então era só ela tocar violão e fazer aquele bando de pederastas e meretrizes mudarem de vida.

Parei pra tomar uma Coca num boteco, eu, um menino criado a leite com pêra, mas que, àquele ponto, já não tinha mais escrúpulo algum. O dono do bar, que era uma espécie de Paul Newman paraibano, chegou-se pro meu lado e disse: – Eu sei o que você tá pensando, que isso aqui não tem jeito. Mas você, um menino criado a leite com pêra, não veio parar aqui por acaso. Não podem imaginar como aquelas palavras me devolveram toda a vontade de mudar o mundo. Puxei na hora um santinho do Glauber Rocha que eu carregava comigo, junto ao peito, e beijei-o.


Terminei a Coca de um só gole e disse àquele clarividente comerciário:

- Eu acho que sei o que fazer, mas preciso da sua ajuda.

- Opa – ele respondeu e bateu o paninho encardido contra o balcão.

Contei então pra ele o meu plano de trazer Jewel pra Augusta. Nessa hora fizemos o Hi-5.

De como eu não tinha idéia de como trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados e acabei desacreditado pelo dono do Feliciano’s Bar. Então, o dono do bar me perguntou como traríamos a “Jiu” e seu violão pra Augusta. Respondi que eu não era um indivíduo particularmente prático. – E não particularmente? – ele me perguntou. Desconversei, falando que uma coisa dessas não acontecia assim, da noite pro dia, a-ham.

De como o acadêmico falha miseravelmente em alcançar o Homem Comum. O problema todo do Homem Comum é esse: a incapacidade de deter-se no plano das idéias, viver uma experiência puramente teórica, por mais paradoxal que pareça. Ele quer ver logo os resultados, quer partir pra ação quando não é hora. E, aliás, quem pode saber qual é a hora? Era o que eu procurava explicar ao dono do bar. Inutilmente.

De como tudo acabou inesperadamente comigo cantando pro dono do Feliciano’s Bar “Who Will Save Your Soul”, porque também ele era um desgraçado. Então, eu comecei a cantar, arriscando inclusive um falsete:

People living their lives for you on TV
They say they're better than you and you agree
He says "Hold my calls from behind those cold brick walls"
Says "Come here boys, there ain't nothing for free"
Another doctor's bill, a lawyer's bill
Another cute cheap thrill
You know you love him if you put in your will
Who will save your soul when it comes to the flower
Who will save your soul after all the lies that you told, boy
Who will save your soul if you won't save your own?