domingo, 15 de julho de 2007

Cinema: Estréias da Semana

Harry Potter e a Ordem de Fênix; Diretor: David Yates; Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupért Grint e todos os atores ingleses vivos ou mortos, se bobear até o Laurence Olivier aparece nesse filme
Há, meu Cristo, dai-me forças. Quinto ataque cinematográfico da série mais tonha da história da Literatura moderna. Cinco filmes, caramba! O Diretor da vez é o David Yates, com experiência em seriados de TV e poucos filmes no currículo. Bom, melhor que o Cris Columbus, diretor dos 2 primeiros longas, com certeza ele é, mas aí é chutar cachorro morto. Essa é a película mais sombria da série, o Potter passa maus bocados no filme, com bruxos malvados e ordens pervas ameaçando a paz em Hogwarths e... não, não, recuso-me a pronunciar os nomes da tosca mitologia da série. Vamos todos ajudar a J.K. Rowling (ela até que é uma coroa ajeitada, daqui a pouco pode até virar Tetéia se bobear) a ficar alguns bilhões de dólares mais rica, se é que é possível uma coisa assim. O que realmente me deixa esperançoso é saber que mais dois filmes e essa tortura terá o fim, e nunca mais teremos de saber do bruxo mais chato desse mundo. Tá acabando, pessoal!

Outros filmes: todo mundo vai ver o Harry Potter, então não falarei dos outros filmes imporantíssimos que estreiarão. Pra vocês terem uma idéia, o maior destaque além do filme do Potter é um filme-documentário com o mala-mor, chato de plantão e tropicalista fracassado Tom Zé. Aí fica difícil.

Obs: agradeço os cumprimentos do Fundamentalista, tocado estou com tamanha homenagem, e aproveito pra dizer que escolherei uma bela foto quando for o seu aniversário, em Janeiro. Ops, escapou...

sábado, 14 de julho de 2007

Parabéns, Camarada Progressista!

Era uma vez um camarada que era, tipo, progressista.

E um dia ele cresceu e começou a escrever num blog que foi ficando cada vez mais famoso, até virar um site, depois um portal, depois uma revista, depois uma megacorporação, que incluia, entre outras coisas, uma franquia de cinemas Vamos ao Cinema, isto é, Let's Go Theathers.

E o nome desse camarada era Camarada Progressista, que fez aniversário em 13 de julho, e para quem você ainda não deu os parabéns.

Então, só pra variar, largue as pedras, dê um tempo e passe por aqui pra dizer um singelo:

Feliz Aniversário!

quinta-feira, 12 de julho de 2007

"Conhece-te a ti mesmo" com o Camarada Fundamentalista

De volta às minhas classificações totalmente reducionistas e arbitrárias, mas, por isso mesmo, eficientes e incrivelmente práticas, todas as 6 bilhões de pessoas que vivem sobre a face da Terra se reduzem a três, e somente três, tipos de indivíduo, a saber:

1) Aquele para quem o problema está no mundo, e não nele.

2) Aquele para quem o problema está nele, e não no mundo.

3) Aquele que nunca pensou no assunto.

Para a minha breve, brevíssima exposição, tomarei como base esse que é o livro de todos os (metidos a) chatos e críticos da humanidade, e de todos os que não encontraram seu lugar no mundo e essa ladainha toda: O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Por sinal, sempre que eu não tiver o que dizer, vou dar uma de Mark Chapman e pregar um pouco sobre o Apanhador.

Ora, o primeiro grupo é o dos chatos, dos cricris. Eu me incluo entre eles. Essas pessoas lêem O Apanhador no Campo de Centeio e pensam: “É, esse Holden Caufield tem razão: o mundo está cheio de imbecis”. É claro que esse grupo se subdivide entre aqueles que aborrecem as pessoas porque, na verdade, esperam demais delas e, portanto, no fundo, no fundo, querem mesmo é ser amigos de todo o mundo, e aqueles que aborrecem as pessoas simplesmente porque as desprezam. Esses últimos são raros, e nem mesmo sei se existem. Ambos os subgrupos, de qualquer forma, têm a mesma e única característica: meter o pau em tudo e em todos.

O segundo grupo é o dos sensíveis, dos bundões. “Se ao menos eu pudesse ser mais aberto, mais divertido; se eu relaxasse, mudasse um pouco, acho que as coisas seriam melhores, e as pessoas gostariam mais de mim.” – note que os infelizes nem mesmo citam o livro, ainda que estejam partindo de sua leitura pra entrar (de novo) numa crise que eu gosto de chamar de Crise da Culpa Universal. Aliás, qualquer coisa é motivo pra essa gente se afundar nessa conversinha. E senta, que lá vem história. Como diria o Camarada Progressista que, vejam só, se insere nesse grupo, ainda que disfarce muito bem por aqui: fuja!

E, finalmente, o terceiro e último grupo, que é o dos inconseqüentes, dos burros, dos bocós, dos cabeças ocas, e por aí vai. Para eles simplesmente não há problema algum. Em geral, você encontra essa gente olhando para o nada, com a boca aberta, babando. Alguns agitam nervosamente a cabeça e os braços quando te encontram, e gritam, gritam muito. São efusivos, felizes, dançantes, saltitantes. Outros, mais calculados, se contêm e disfarçam. Até se fazem passar por gente preocupada, ética, espiritual. Mas basta você conversar – ou melhor, tentar, pois com os tais descobre-se que o diálogo é uma prática bem mais fina e complexa do que em geral se pensa –, para ver que o infeliz nem está ouvindo o que você diz. Ora, eis aí uma coisinha nem um pouco ética, que, portanto, tampouco denota espiritualidade, já que esta – espera-se – diz respeito, em algum sentido, ao outro, seja lá o que ou quem seja esse outro. Esses, se pegam pra ler o Apanhador, depois de quatro, cinco páginas, já dizem: “Ai, que chato esse cara (Holden), fica reclamando de tudo: ele é muito crítico!”, como se ser crítico fosse um defeito. Seja ou não no sentido de “chato”. Mas é claro que eu falo como um membro do primeiro grupo, me desculpem. Ou melhor, como meu adolescente chato interior, pertencente ao primeiro grupo.

Essa classificação é parte de meus esforços para apresentar soluções alternativas viáveis de autoconhecimento para aqueles que até hoje o têm buscado no zodíaco e fontes afins.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Panamericano: Guia... Completo?

Sexta-Feira começa o Panamericano no Rio de Janeiro, competição mais inútil e estúpida do calendário esportivo mundial, se considerarmos que as Olimpíadas sempre ocorrem um ano depois dessa competição e que em Continentes como a Europa não existem competições esportivas de caráter geral como essa. Além disso, normalmente as principais potências esportivas do Continente, EUA, Canadá e Cuba, mandam equipes reservas ou sem sua força total para as disputas. Um verdadeiro fim de feira, que serviu somente para torrar o dinheiro público, como sempre, aliás, já que os nossos políticos trabalham somente para arranjar desculpas para saquear os cofres públicos em benefício próprio. Mas tudo bem, o Rio de Janeiro está somente no meio de uma Guerra Civil, com a polícia fazendo sutis operações de combate ao tráfico sempre com dezenas de mortos como efeito colateral. Tudo bem tranquilo mesmo. Um belo presságio a competição começar numa sexta-feira 13. Bem, para deixar vocês no clima (pareço repórter do Globo Esporte falando) aqui vai um guia com os principais esportes do Pan pra vocês, sedentários leitores desse blog (e pelo número de posts que andam tendo aqui, ou a falta dos mesmos, sedentários Camaradas também. Vixe, sacaniei). Aqui vai, Guia do Pan 2007:

Vôlei: esporte mais chato para se assistir na TV. Nem Bocha é tão maçante quanto essa droga. Já que o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, é um partidário entusiasmado da modalidade, ela é sempre agraciada com populdas verbas federais, e os jogadores da Seleção ganham um salário bem mais alto que o de colegas de outros esportes, tudo as custas do trouxa, er, quer dizer, do contribuinte. É a raça e a luta dos garotos do Bernardinho, pessoal...
Basquete: Até que vai, é legalzinho, mas o nível técnico numa competição dessas será ridículo, os americanos virão com o time Z, alguns brasileiros que jogam na NBA não virão também, os argentinos campeões olímpicos não virão com os titulares. Fuja das partidas como se fosse a Dengue.
Futebol: o Brasil disputará a competição com a seleção Sub-17. Precisa dizer algo mais? Sim, precisa: fuja dessa porcaria também
Ginástica Olímpica: a loser Daiane Dos Santos fez o famoso doce, ameaçando não participar. Ninguém deu a menor bola, mas misteriosamente, dois dias antes do início, ela voltou atrás e confirmou presença. Tão repentinamente...
Tênis: Preparem-se para partidas empolgantes entre o ducentésimo trigésimo quarto colocado do ranking contra o quatrocentésimo quinquagésimo sexto. O que mata é saber que nem com o nível tecnico ridículo da competição o Gustavo Kuerten, ex-tenista em atividade, conseguirá algo mais além de uma eliminação na segunda rodada classificatória. E viva a mediocridade.
Natação: desde que o mala Gustavo Borges se aposentou, sofremos com a falta de alguém pra levar o país nas costas na competição. Mas como não teremos nenhum tipo de fenômeno na competição, a delegação brasileira pode levar umas medalinhas e enganar os incautos, para nas Olimpíadas ano que vem vermos gloriosas décimas quintas colocações para cima. E viva a mediocridade, again.
Atletismo: talvez a única chance de termos uma emoçãozinha nesse esculhambado Pan, já que existe uma chance remota dos EUA e Canadá trazerem bons atletas para a disputa. Da parte brasileira, aquilo de sempre: medalhas a rodo, que não provarão porcaria nenhuma, já que os melhores atletas das respectivas competições não estarão aqui. Como em todas as modalidades, alias.

Outros esportes: é, eu adoraria falar sobre esportes fabulosos como Baseball, Pelota Basca, Esgrima (tinha um maluco no Colégio onde eu e os camaradas estudávamos que praticava esse esporte, o cara se achava O esportista da paróquia, mala sem alça), Tênis de Mesa, Luta Romana, Nado Sincronizado entre outros, mas não posso, pois preciso treinar, vou participar da competição de livre associação entre dedos e botões. É uma modalidade nova, que é mais ou menos assim: quando qualquer um dos duzentos canais que irão passar o Pan começarem a mostrar qualquer competição, eu mando ver no botão e mudo da porcaria do canal. Sai desse corpo que não te pertence, macumba dos infernos! AQUI É CORINTHIANS, PÔ!


terça-feira, 10 de julho de 2007

Dez Melhores Filmes, Década de 80, Parte Dois

5- Amadeus (Amadeus, EUA, 1984), 160 minutos – Diretor: Milos Forman; Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce
A década de 80 foi negra para o Oscar. Já criticado normalmente pela predileção eventual por filmes de maior apelo com o público em detrimento daqueles de maior mérito artístico, naquela bela e maluca década viu-se os maiores absurdos cometidos pela Academia. Filmes meia-bomba como Entre Dois Amores, Gandhi, O Último Imperador, Conduzindo Miss Daisy e, principalmente, o horrendo Rain Man (dói só de lembrar) foram laureados com o prêmio de Melhor Filme. O único filme naquela década agraciado com o prêmio máximo da Academia que realmente presta e único também a contar nessa lista elaborada por mim é esse aqui, Amadeus, ganhador da estatueta em 1985. Baseado na peça de Peter Shaffer, que também escreveu o roteiro do filme, fator vital para o sucesso do mesmo, o filme conta a biografia do mítico compositor Amadeus Mozart interpretado com brutal eficiência pelo sumido (nunca mais ninguém soube dele, coitado) Tom Hulce. A história é contada do ponto de vista do rancoroso e amargurado compositor Antonio Salieri, interpretado pelo F. Murray Abraham, naquela que é uma das maiores intepretações da história do Cinema. Aproveitando o belo potencial do personagem, um compositor medíocre que não consegue aceitar que um garoto tão despreendido e relativamente inconseqüente como Mozart tenha um talento tão assombroso para compor, Abraham encarna toda a dor do personagem e consegue fazer o espectador não odiar aquele ser patético, cujo amor pela música é tão grande que o leva as portas da loucura. Mais do que merecidamente, levou o Oscar de melhor ator. Milos Forman, excelente diretor tcheco que tinha realizado 7 anos antes o lendário Estranho no Ninho, realiza mais um trabalho soberbo, conduzindo o filme com rara elegância, destacando inteligentemente a trilha sonora e os cenários como reflexos das situações emocionais dos personagens, criando sempre atmosferas calmas e vívidas quando Mozart está em destaque, e ressaltando tons mais escuros e composições mais soturnas quando Salieri é o centro. Foi o único acerto na Academia em toda uma década, mas também, se eles ignorassem Amadeus, aí o negócio ia ser chutar o balde e sair indicando os Conans e Rambos da vida mesmo, se é pra esculhambrar, vamos fazer com estilo então...

4-Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, Alemanha, 1987), 127 minutos – Diretor: Wim Wenders; Elenco: Bruno Ganz, Otto Santer, Solveng Dommartin, Peter Falk
O maior crime da humanidade foi cometido em 1998, quando estúpidos produtores americanos resolveram refilmar essa obra-prima do Wim Wenders, cometendo o pavoroso Cidade dos Anjos, que colocou o careteiro e canastrão de plantão do Nicolas Cage para entortar boca e grunhir juras de amor com a Meg Ryan num filmeco água com açúcar que serviu somente para aumentar a minha descrença na humanidade. Quem esses pervos acham que são? Mas o consolo é que nem esses açougueiros conseguiram apagar a classe desse grande trabalho de Wenders, diretor talentosíssimo mas que tem a mania de querer ajudar os amigos, como quando dirigiu aquele filme com o roteiro do mala mor Bono Vox, o Hotel de Um Milhão de Dólares. No caso desse filme de 1987, que aproveita o cadáver do comunismo e a eminente destruição do Muro de Berlim para, através dos olhos de dois anjos que não podem se comunicar com os humanos nem serem vistos ou ouvidos por eles, mostrar todo o desalento e desencanto vivenciados pelos habitantes da cidade. Os anjos, Damiel, interpretado pelo Bruno Ganz (que depois viria a interpretar o anticristo e coisa ruim Hitler no recente filme A Queda), e Cassiel, interpretado por Otto Sander, podem somente trazer conforto e carinho para as pessoas, nunca influir nos atos delas, como quando um deles tenta confortar um jovem prestes a cometer o suicídio, não conseguindo impedir o ato do rapaz, mas conseguindo trazer um momento de paz para ele simplesmente por, de maneira absolutamente sensorial, ouvir os lamentos do rapaz, abraçando-o e dando um pouco de alívio para ele. A alegoria que o filme faz com a vida dos alemães no mundo pós-Segunda Guerra é clara, uma sensação de desconforto constante, de inadequação, de vazio, como se a eles não permitido celebrar a vida, somente viverem consternados e reprimidos como pena a pagar pelas loucuras de um homem. Os anjos representariam a esperança escondida no coração dessas pessoas, e quando Damiel começa a se sentir insatisfeito por não poder compartilhar seus sentimentos de maneira real com elas, sentir todas as sensações experimentadas por elas, vontade que atinge o ápice quando ele se apaixona por uma trapezista e começa desesperadamente a querer transformar-se num humano, é impossível não entendermos essa vontade e luta de Damiel como uma representação da insatisfação de todos os berlinenses e, por conseqüência, de todos os Alemães, e a vontade de derrubar um muro de valor muito mais ideológico do que meros tijolos um em cima do outro. Wenders tem um estilo lento de desenvolver suas histórias, concentrando-se sempre nas reações e interações entre seus personagens, algo que habitualmente gera resultados sublimes, já que quem quer correr para contar algo não acredita na força do que tem para dizer ao seu público.

3- Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, EUA, 1987), 116 minutos – Diretor: Stanley Kubrick; Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vicente D’Onofrio
Não consigo entender certas convenções dos críticos. Esse filme é considerado, ao lado do De Olhos Bem Fechados, como a mais fraca das obras dirigidas pelo Stanley Kubrick (considerando logicamente que, por parâmetro, o pior filme do Kubrick é melhor que 99% dos filmes já feitos). Até aí, tudo bem. Mas os argumentos apresentados pelos incautos é que irritam demasiadamente. Falam que o Kubrick perdeu o trem da história e chegou atrasado, já que Apocalypse Now e Platoon tinham vindo antes e retratado a Guerra do Vietnã já, e que por isso o seu filme seria fora do contexto. Grande porcaria. Se filme bom fosse aquele que se antecipasse aos seus pares, então o World Trade Center, lixo lançado pelo Oliver Stone e primeiro filme que tratou dos atentados de 11/09, seria uma obra-prima. Situacionismo não significa nada em termos de alcance artístico, a velha história do efeito versus o conteúdo daquilo que se pretende como filme de arte. E esse filme, como todo esforço Kubrickiano, é um genial estudo dos lados mais obscuros do homem, a famosa desumanização, tema que era obsessão para o mestre. No caso, Kubrick observa atentamente os passos do soldado Joker (apelido do personagem pelo seu estilo sarcástico de humor, o nome verdadeiro dele jamais é revelado pelo filme) , interpretado pelo Matthew Modine, desde seu cruel treinamento com um sádico instrutor militar até suas experiências já no campo de Guerra no Vietnã. No começo da sua experiência na Ásia ele acaba escrevendo sobre a Guerra para a agência de notícias militar norte americana, sempre tentando disfarçar as eminentes perdas da campanha americana e o progressivo caos enfrentado pelas forças armadas, tentando com seus textos elevar a moral dos recrutas estadunidenses usando de metáforas e omissões de informações. Até o momento em que ele é mandado para o fronte para acompanhar uma missão, conhecendo de perto os horrores da Guerra e o efeito por ela causados naqueles soldados extenuados e perdidos, e, como não poderia deixar de ser, no próprio Joker, que cega a usar a teoria Jungniana de dualismo do homem, bem e mal vivendo num mesmo indivíduo, para justificar para si mesmo aquilo tudo. A mensagem de Kubrick é um tapa na cara: somente podemos aceitar uma Guerra quando reconhecemos que ela serve para nutrir o lado psicótico dos homens, para representar o mal que carregamos dentro de nós, e nunca como ação realmente válida e justa para resolver qualquer tipo de conflito. Não há heroísmo, não existe abnegação, luta ou ombriedade, somente homens patéticos (não somos todos nós?) conhecendo e entrando em contato com tudo aquilo de pior que as suas mentes poderiam gerar, e a primeira parte do filme com o treinamento exemplifica os esforços do governo americano para despertar esse lado sádico nos recrutas, criando soldados prontos para matarem sem questionar e com o mínimo de culpa possível, o que, bem sabem os estrategistas, é a chave para se ganhar uma guerra. O final do filme, com os soldados americanos marchando cantando uma música do clube do Mickey Mouse de cunho patriótico, é uma imagem tão poderosamente cínica, considerando que os EUA perderam a Guerra no final, que sozinha acaba tendo um efeito crítico muito mais eficiente que todos os filmes feitos pelo Oliver Stone falando sobre o assunto. Contra a sutileza e voracidade do cinismo Kubrickiano, não existiam, nem existirão jamais concorrentes.

2- Touro Indomável (Raging Bull, EUA, 1980), 130 minutos – Diretor: Martin Scorcese; Elenco: Robert De Niro, Joe Pesci, Cathy Moriarty
Eu não vou perdoar nunca o Martin Scorcese. As três concessões desesperadas feitas por ele para abocanhar um Oscar, Gangues de Nova York, O Aviador e Os Infiltrados, o último no caso finalmente dando o prêmio para ele, quase fizeram todo o respeito que eu nutria pelo diretor ir água abaixo. Lógico que não são filmes ruins (hã... bem...deixa pra lá), mas são obras que destoam na carreira dele quase que de maneira grotesca. Agora que finalmente deram pra ele o prêmio, e justamente pelo que deve ter sido o seu pior filme, Os Infiltrados, quem sabe ele não relaxa e volta de uma vez a produzir filmes que façam jus ao seu talento? Lembro-me dos dias que Martin produzia filmes que escolhiam, corajosamente, observar o comportamento de personagens com claras predisposições sociopatas, seres sem qualquer tipo de adequação ao meio social que viviam, mas que, através da visão precisa do diretor, conseguiam dentro das suas lógicas torpes encontrar alguma espécie de redenção, sendo a violência o catalisador de todo o processo de tortura enfrentado pelos personagens. A culpa católica, o efeito que os pecados podem ter na vida e na mente de um homem, e a expiação através do sangue, sempre usado como metáfora em suas películas. No caso do Touro Indomável, que contava a biografia do pugilista Jake de La Motta, sua lenta ascensão até o título de campeão mundial dos pesos Meio-Pesados, e seus problemas enfrentados pelo temperamento impulsivo e auto-destrutivo, sua rebeldia contra a ordem estabelecida no boxe, e os inevitáveis reflexos na sua vida pessoal, quando suspeita de um caso amoroso entre a sua mulher e seu irmão, que o leva a praticar rompantes de violência que o isolam de todos. Robert De Niro foi o primeiro a se interessar pelo projeto, lendo a biografia de Jake e convencendo Martin Scorcese a dirigir um filme baseado no livro. Martin viu uma bela oportunidade para contar uma história que tudo tinha a ver com o mundo dos seus personagens, e que até representou uma curiosa semelhança com sua vida pessoal na época, já que depois do fracasso do musical New York, New York (quem mandou ficar amiguinho da Liza Minnelli?) ele estava se afundando cada vez mais nas drogas, vendo na procura por redenção do boxeador um belo contraponto com o momento que vivia. No caso, um talentoso boxeador que não consegue compreender o mundo que o cerca, nem se relacionar com as pessoas ao seu redor, mesmo aquelas que ele ama. A interpretação de De Niro é assombrosa. Sua obsessão por reproduzir com excelência todas as nuances do boxeador o fez engordar 27 quilos para retratar a decadência do personagem, e as lutas mostradas no filme foram todas autênticas, De Niro não quis usar golpes coreografados e foi pro pau de verdade, todas as feridas no rosto dele eram reais. Tamanha dedicação gerou uma perfomance que virou referência para todos os atores, que até hoje, quando dedicam-se inteiramente para compor um personagem, dizem que fizeram o “processo De Niro”. A narrativa lenta e gradual de Scorcese capta brutalmente toda a fúria e inadequação do personagem, e a medida que a fúria de Jake cresce durante a projeção, a câmera e a fotografia ficam mais claustrofóbicas, isolando Jake cada vez mais aos olhos do espectador. Um filme maravilhoso, sem dúvida a melhor película com esportes em primeiro plano já feita, e uma lembrança do que foi Martin Scorcese um dia, um diretor autoral e sem medo de contar histórias que podiam ferir o gosto dos mais sensíveis. Não esse Scorcese bunda mole que tão tristemente temos de aturar refilmando filmezinhos policiais vagabundos pra ganhar um prêmio que nada significa em termos de reconhecimento artístico. VENDIDO!

1- Paris, Texas (Paris, Texas, 1984, EUA-Alemanha), 147 minutos – Diretor: Wim Wenders; Elenco: Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Dean Stockwell
O filme abre com um homem de aparência quase fantasmagórica, esquálido e imundo, bebendo uma garrafa de água numa paisagem desértica no interior americano. Quando acaba de beber a água, ele corre em direção ao horizonte, e a câmera permanece estática, sem movimento algum, observando aquela figura patética desaparecer na cálida imensidão desértica. Pronto. Já na primeira cena, Wim Wenders nos mostra uma rima poética brilhante, estabelecendo, sem qualquer palavra ou movimento, a situação desesperadora de um homem perdido, totalmente alienado do mundo, sem nem ao menos saber quem é, a condição mais baixa que alguém poderia atingir. A partir da cena, o filme começa, lenta e categoricamente, a desvendar os mistérios que envolvem aquele homem, quem ele é e o que levou a tamanha situação. Tudo se revela a partir do momento que o irmão o encontra, depois de muito procurar, o homem se chama Travis Henderson, tinha uma esposa e um filho, o casamento começou a desmoronar, até que a mulher um dia sai de casa num briga e ele, sem qualquer tipo de explicação, resolve desaparecer, vagando até chegar no estado triste que se encontrava no começo do filme. A obsessão que Travis mostra no decorrer do filme com um lugar no qual os seus pais teriam um terreno e para onde ele gostaria de ir, numa cidade chamada Paris, no interior do Texas, é um inteligente jogo metafórico: o irmão ao ouvir o relato de Travis pensa se tratar da capital da França. No caso, a busca e obsessão em encontrar essa cidadezinha reflete a própria vontade de se ver junto da sua família de novo, filho e mulher, sendo que a Paris francesa seria um retrato ideal da vida que ele gostaria de levar junto deles, mas a Paris texana, árida, inóspita e perdida no meio do nada, revela-se o reflexo verdadeiro do que acabou se transformando a vida de Travis. O filho dele viveu com o irmão e a mulher, já que a mãe também fugiu. Depois de reencontrá-lo, Travis e o filho decidem, contra a vontade do irmão e da esposa, que tinham cuidado do menino por tanto tempo e se apegado com ele, procurar a mãe, numa clara referência feita por Wenders a força que existe nos laços entre pais e filhos, que seriam mais fortes do que variáveis frias como tempo e distância. Eventualmente a encontram, numa aparição exuberantemente bela de Nastassja Kinski, gerando momentos sublimes, sempre filmados com sobriedade e inteligência por Wenders. O final do filme, que poderia ser encarado como frustrante por alguns, na verdade acaba engrandecendo ainda mais o filme, já que evita saídas obvias e encontra-se firmemente de acordo com a narrativa e tom da obra. A fotografia do filme é exuberante, um trabalho perfeito do cinematógrafo Robby Muller, e todos os atores, em especial Harry Dean Stanton, retratando a lenta redenção do personagem com muita categoria, oferecem perfomances memoráveis. Inacreditavelmente, anão indicaram o filme para nenhuma categoria no Oscar de 1985, mais uma vergonha a perseguir a Academia para todo sempre. Mas a Palma de Ouro em Cannes fez justiça para esse filme, maior momento do cinema na década de 80.

Melhores filmes, Década de 80: Interlúdio

A década de 80 jamais é lembrada quando queremos falar de referências de bom gosto. Normalmente associamos a época com figurinos ridículos, cabelos com laquê, aeróbicas, bandas como os Menudos e o A-Ha e filmes de ação dos Schwarzeneggers e Rambos da vida. Fazendo minha lista dos melhores filmes, fiquei impressionado ao lembrar de quantos filmes bons foram feitos na época. Para minha surpresa, mais até que nos ans 90, época subestimada demais. Vou deixar aqui tudo claro para vocês, fazendo justiça para os excelentes filmes que não entraram na lista e explicando a ausencia de alguns queridinhos da mídia:
Menções Honrosas:
Sociedade dos Poetas Mortos, Homem Elefante, A Testemunha, Duro de Matar (maior filme de ação de todos os tempos), Broadway Danny Rose, A Rosa Púrpura do Cairo, Crimes e Pecados, Ran (do Akira Kurosawa), Monthy Phyton e o Sentido da Vida, Cinema Paradiso, Isso é Spinal Tap, todos os filmes dirigidos pelo John Hughes , e, para meu total desalento, De Volta Para o Futuro (nunca vou me perdoar por ter deixado de fora. ME PERDOE, MCFLY!).
Filmes que não entrariam mesmo por serem ruins
Platoon (Oliver Stone, Vietnã, ZZZZZZZZZZZZZZZZZ), Gandhi (um milhão de figurantes e três horas e meia de sono), Beijo da Mulher Aranha, Rain Man (esse eu guardei para os dez piores da década), O Último Imperador (a último chatice de Bertolucci), Nascido em 4 de Julho (Oliver Stone, Vietnã, ZZZZZZZZZZZ Dois, a missão), Carruagens de Fogo (alguém chegou até o final dessa porcaria?).

segunda-feira, 9 de julho de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Kristen Bell


Mais conhecida por interpretar a aprendiz de detetive Veronica Mars na série cult... peraê, deixa eu lembrar o nome do seriado... ha, sim, isso mesmo, Veronica Mars. Kristen é provavelmente o maior incentivo para a legião de fãs do show. Lógico que quando você pergunta para um deles, ouve respostas como "é uma série inteligente, quase um Twin Peaks sem anões". Sei. Com apenas 1,55 de altura (o que por si só mataria o argumento citado em cima. Maldade, tô brincando!), Kristen consegue realmente fazer os espectadores acreditaram que aquela loirinha seria capaz de ser mais esperta que uma cidade inteira. Não tem nada a ver com o fato dela ser canceriana. Não mesmo, cancerianos são seres barulhentos e sem classe.

domingo, 8 de julho de 2007

Manual Prático do indie pinguim - Parte 3: Caixa de sobrevivência do indie pinguim/O que ouvir atualmente

Depois de acusar(moderamente) o camarada progressista de indie, lembrei que deveria continuar minha série para aquelas pessoas desesperadas que adoraram a primeira parte desse manual, incluindo aí nosso camarada. Continuando na vertente musical, mas agora em álbuns que foram lançados recentemente( do começo dos anos 2000 até hoje) e que tenham vertente válida para os indies de hoje em dia, pois tenho uma preocupação sociológica com essa empreitada.

Indie hoje em dia ouve bastante coisa e não só indie rock, pensei nisso e resolvi abranger outros estilos, sempre pode ter uma garota(o) a quem se aproximar e se surpreender com seu ecletismo musical. Mas sempre preocupado com a palavra alternativo, não precisa ser indie mas precisava ser meio desconhecido. Poderia ser até uma visão mercadológica e de produção alternativa, ok vamos lá!


1) Shades Of Blue - Madlib - 2003 - hip-hop alternativo com toques de jazz
Descobri tal se
r mais por acidente do que qualquer outra coisa. Estava baixando música(faço muito isso) e resolvi ariscar, quem diria que ouviria até hoje e consideraria um dos melhores álbuns que já ouvi?Coisas da vida.

Shades of Blue parte do seguinte conceito: pegar um apanhado de gravações do famoso estúdio Blue Notes(famoso pelas gravações de jazz) e samplear e transformar em hip-hop suave e delicioso de ouvir. Recomendo atenção auditiva em duas faixas: Footprints, feita por Wayne Shorter; a composição de Gene Harris, que era The Look of Slim, foi remixada e tornou-se Slim's Return.

Madlib só por esse álbum já poderia ser chamado de promissor, ainda é um expetacular produtor musical. Se fosse só isso, tem mais, ele resolveu criar heterônimos musicais e produzir tais discos( resta saber se ele leu Fernando Pessoa, não é?). Os discos do seus heterônimos musicais diferem em estilo e até gênero musical do próprio autor, nessa brincadeira ele criou uma banda, Yesterday New Quintet, onde o próprio compôs as musicas, no estúdio tocou todos os intrumentos e ainda produziu o disco. Continua produzindo e produzindo muito, dizem as más línguas(www.pitchforkmedia.com) que ele dorme e vive no estúdio, para se ter uma idéia sua discografia tem 2,2 GB e começou a lançar albuns em 2000. Minha mãe falava que tem gente que não sabe brincar e eu não acreditava. Em suma, se você estiver ouvindo DangerDoom, Quasimoto, Madvillian, Yesterday New Quintet na verdade todo aquele trabalho musical foi arquitetado por um exército de um homem só: Madlib.


2)Nadadenovo - Mombojó - 2004 - "novo maguebeat", pop, samba, rock
Tudo novidade: assim que encarei esse álbum, no começo você acha parecido com os finados Los(loser?) Hermanos, sobretudo pela forma de cantar do vocalista, entretanto começa perceber a sonoridade e as viagen da banda: a experimentação dentro do rock( que faria qualquer StereoLab cair no chão de inveja); a fusão rock e samba em Deixe-se Acreditar; a flauta tranversal em Nem Parece que teima em ficar dançando em cima da harmonia; a transição bem executada entre as faixas Discurso Burocrático e A Missa; a própria A Missa que alterna samba, rock pesado e, seria, um hip-hop? Enfim tal álbum é bem executado, com faixas belas e feitas por músicos que na época tinham 20 e poucos anos, nem precisa mais de motivos pra ouvir. Mas tem, os dois albuns, em versão integral, da banda estão disponíveis para baixar no site da banda(www.mombojo.com.br). Só não entendo uma coisa: pra quê chamar de manguebeat? Só por que é do mesmo estado? Isso eu fiquei sem entender.


3)Unsolved - Karate - 2000 - indie rock com pitadas de jazz
Me apresentaram tal banda, falei: "Interessante...". Resolvi pesquisar e acabei me apaixonando. Nada de experimentações ousadas, harmonias complicadas, conceitos brilhantes e inovadores. Esse album viveria bem se não estivesse existido a musica concreta, não faria muita diferença. Simplesmente som bem executado, bonito, com letras boas.

Tal banda foi formada por músicos formados em uma faculdade de musica pouco conhecida que estudou "normais" como Miles Davis. Se conheceram lá e montaram a banda e resolveram formar uma banda de verdade de indie rock e que banda devo dizer.

Como sempre acabo vertendo pro lado do jazz, acabei escolhendo o álbum que tem mais elementos desse gênero. De uma forma geral todos os álbuns são bons, pena que a banda acabou.


4) Por Pouco - Mundo Livre S/A - 2000 - manguebeat
Uma banda mais antiga, mas que cresceu mais depois do seus primeiros cds. Hoje em dia acho que perderam denovo a mão. Fred 04(líder da banda) tornou-se mais um protestante político atual do que músico. Bem, vamos nos ater ao cd.

O álbum Por Pouco mostra uma maturidade da banda Mundo Livre e mostra também o caminho musical que tal banda escolheu e este caminho difere das outras bandas precurssoras do manguebeat, como Mestre Ambrósio e Nação Zumbi. A primeira busca um resgate das tradições nordestinas enquanto a segunda, mesmo após a morte do líder e cara do próprio movimento, procura atingir uma veia pop criando música de qualidade. Ao mesmo tempo Mundo Livre, como música de protesto, sempre buscou um meio termo e parece que nesse album atingiu o apíce estético. Atenção especial pra descontrução musical que fazem na versão deles de Garota de Ipanema; a letra de Mistério do Samba; a faixa título Por Pouco com sua harmonia genial e a inclusão de violinos aumenta mais a genialidade dessa música.


5)Amputechure - The Mars Volta - 2006 - indie rock, rock progressivo, pós-rock
O guitarrista da banda At the Drive-in(não precisa saber e nem ouvir isso) resolveu tomar vergonha na cara e formar uma banda de verdade. Resultado: esse álbum e mais alguns. Elementos do rock progressivo e sem a masturbação musical que o gênero ficou conhecido, com as latinades do tal guitarrista( Omar Rodriguez definitivamente não é sueco), recomendado também ouvir seus projetos solos.





Pra finalizar, leitores, agora vcs terão mais álbuns pra ouvir, mas lembre-se, tentem ser superciais e vagos, como fui agora.

sábado, 7 de julho de 2007

Mas que nada (Ou Camarada Progressista, Jorge Ben e a minha brasilidade inconfessa)

Dante teve por guia, em sua jornada pelo Inferno e pelo Purgatório, seu mestre Virgílio. O Camarada Progressista é o meu Virgílio quando se trata de música. É ele quem me diz se estou me afastando da luz, em direção das trevas, quando ouço Amy Winehouse, Bettie Serveert ou High School Musical.

Mas, apesar de seu espírito nobilíssimo, Virgílio não pôde acompanhar Dante no Paraíso. Não podia adentrar no Empíreo. Morreu pagão, ignorante da Luz verdadeira. Assim também o Camarada Progressista. Como vocês mesmos puderam comprovar, através de textos muito sagazes, seu conhecimento musical é indiscutível, bem como sua sensibilidade, experimentada e autônoma. Entretanto, há certas coisas que seu espírito não penetrou, verdades a que não teve acesso.

Jorge Ben (Jor), no caso. Meu Virgílio reconhece a genialidade do músico. Ouve A Tábua de Esmeralda e, como qualquer crítico isento e agudo, diz que é das coisas mais altas de que Jorge Ben foi capaz. Pois é. Musicalmente, é isso.

Mas aí eu, lado a lado com ele, às margens do Aqueronte, canto baixinho, querendo porventura afastar da mente (impossível!) os terríveis gemidos dos que padecem eternamente por terem se excedido na audição a experimentalismos sem fim: “Mas que nada, / Sai da minha frente que eu quero passar...”. E, então, meu mestre se volta pra mim e diz: “Devo confessar-te que detesto ‘Mas que nada’ ”. Inicialmente desfalecido, depois indignado, tomo coragem e lhe retruco: “Pois, mestre, nisto te enganas; na verdade, nisto te mostras completamente ignorante. (Meu coração palpitante.) Sei que me dirás que não passo de um fã chato do tipo Samba Esquema Novo, mas não importa. Se for necessário, me assumo como tal. Pois não ignoro A Tábua de Esmeralda; entretanto, não posso deixar de assinalar que Samba Esquema Novo é a quintessência do que é Jorge Ben (Jor). Mais: do que é a brasilidade segundo Jorge Ben (Jor)”.

O Camarada Progressista não é reconhecido por seu profundo vínculo com Pindorama e as coisas de Pindorama. Se possui, em si, algum traço ufanista, tem-no dissimulado muito bem até hoje a mim e ao Camarada Moderado. Por isso, não pode ele entender que ouvir Jorge Ben (Jor) é o máximo de brasilidade a que alguém pode chegar. Que em Jorge Ben (Jor) seja lá o que signifique ser brasileiro encontra sua expressão mais acabada e transparente. Que seu lirismo vai mais fundo que toda a sociologia por aqui ensaiada. E que só esse lirismo abrange ao mesmo tempo a indigência e a leviandade (ou descontração) que marcam o Brasil tanto na escala individual quanto coletiva. E que nenhuma Tropicália sequer arranhou. Na verdade, perto de Jorge Ben (Jor), o resto dos tropicalistas não passam de um carnaval veneziano. E, enfim, que foi na sobriedade e economia de um Samba Esquema Novo e pares que isso se manifestou originalmente.

Jorge Ben (Jor) é toda a noção que eu posso ter do que é ser brasileiro. Nele se resume todo o meu nacionalismo (é isso mesmo, também eu guardo cá comigo algum nacionalismo). E aí eu, excepcionalmente humilde e reverente, me vejo diante de uma grande descoberta: “Hoje, superei meu mestre”.

Cinema: Estréias da Semana

Com o fim do mês Lindsay Lohan (há, Lindsay..) volta a seção estréias da semana, com as costumeiras análises porcas, rasas e rasteiras dos filmes que entram em cartaz, mas que servem para ir direto ao ponto: ou é ruim ou não é, jão, sem embromação! Poupe os seus dólares ouvindo os conselhos do Progressista. Ou então me mande pra aquele lugar e vá por sua conta e risco. Acha que eu vou ficar ofendido? Lembrando que entre hoje e amanhã publico os cinco primeiros na lista de melhores filmes dos anos 80. Pois bem, aqui vai. Filmes que estréiaram no Brasil Sexta-Feira, 6 de Julho:

Ratatouille - Diretor: Brad Bird; Vozes: Patton Oswalt, Ian Holm, Brad Garret e Janeane Garofalo
Mais um filme bonitinho da Pixar, dessa vez com um Ratinho gorduchinho, sujinho e (como não poderia deixar de ser) bontinho, que ajuda um jovem cozinheiro com aspirações de Chef a subir na vida com suas habilidades culinárias, tudo isso tendo Paris como cenário. Lindinho, fofinho, espertinho, inteligentizinho, todos adjetivozinhos que caracterizam os filmezinhos da Pixar. Como todos amam os filmes da produtora do "revolucionário" Steve Jobs, cidadão que não tem interesse algum em dinheiro apesar das megapropagandas da Apple e da avalanche de produtos infantis lançados dos filmes da Pixar (é, eu também acredito no Papai Noel), vocês não ouviram de mim que filmes com ratos habilidosos na arte de cozinhar e preparar pratos não tem lá muito apelo com crianças, adultos ou qualquer tipo de público (o filme teve o pior retorno financeiro na estréia entre todos os filmes da Pixar). Não vou dizer para você fugir, apenas digo que você deve ir ao cinema com um sorrisinho pronto e reaçõezinhas que façam jus a esse filminho tão fofinho e espertinho. Mas todo mundo adora... o burro sou eu mesmo.

Paris, Te Amo - Diretores (essa vai demorar, tomando um ar, lá vai): Bruno Podalydès, Alfonso Cuarón, Walter Salles, Daniela Thomas, Sylvain Chomet, Gérard Depardieu, Alexander Payne, Olivier Assayas, Wes Craven (argh!), Tom Tykwer, Joel Coen, Ethan Coen; Elenco: Catalina Sandino Moreno, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Ludivine Sagnier, Maggie Gyllenhaal, Bob Hoskins, Natalie Portman, Elijah Wood, Gaspard Ulliel, e STEVE BUSCEMI
Esse filme é o Simplesmente Amor made in France, com vários diretores, entre eles Alexander Payne (Sideways), Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança), Irmãos Coen (precisa falar?), e até, acredite se quiser, Wes Craven (argh de novo! Wes Craven? Faltou o Kevin Williamson só), mostrando suas visões e olhares sobre a cidade Luz, usando histórias de amor como plano de fundo. Descartável, se não fosse por um detalhe: num dos segmentos, temos a presença dele, o homem, o ator, o mito, o quinquagésimo terceiro maior astro da história do cinema segundo a revista Empire, Steve Buscemi. Só para ver Steve the man, corra ao cinema mais próximo, já!

Pelo menos uma luz na escuridão

Hoje tive vontade de escrever sobre fatos gerais, tornar o blog menos opinativo/reflexivo e mais informativo, de uma maneira indireta. Em nossas reuniões de pauta decidimos meio que deixar em segundo plano coisas de duração precoce, algo que se aproximasse do jornalismo feito hoje em dia, sobretudo.

Sim poderíamos escrever sobre assuntos do momento, como fizemos várias vezes, mas sempre com viés que questionasse tais coisas; ao trazer os fatos também pudéssemos mostrar nossa opinião clara e sincera, bem, pelo menos nossa opinião e quem sabe se divertir com isso ou, no mínimo, fazer o leitor esboçar um sorriso.

Mas posso escrever sobre qualquer coisa desde que tenha opinião formada? Acho que não, o “tudo” no topo, aproveitando um dos primeiros textos do camarada fundamentalista no começo, também mente; como o título do blog, afirmado nesse tal texto do fundamentalista(recomendo ler, divertido).

E não só isso, as próprias coisas que podemos falar, será que temos compromisso com isso? A verdade?Por que nos dias de hj, tudo parece tão mutável, inclusive aquilo que se ouve nos jornais; os políticos se envolvem hora com a polícia ora com a política; fatos são desmentidos em segundos. E mesmo assim podemos opinar sobre algo Parece que sim, o cinema e arte ainda são terrenos menos escorregadios e sempre podemos falar de nós mesmos.

Ainda podemos escrever sobre grandes fatos , e aproveitar e acompanha-los de fato, pois assim serão realmente fatos, e de graça, vc leitor, ganhará uma opinião com direito a sorriso de canto de lábio.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Sem muitas justificativas

Não, não vou falar da minha ausência, não interessa. Posso dizer que tive obrigações e preguiça para postar, só isso. E também na minha ausência fui acusado pelo fundamentalista, só li agora, realmente estava sem tempo. Digo-te, pena mas quem cala nem sempre concorda, as vezes ele vai embora e espera as coisas voltarem a um estado mais normal. E sempre gostei mais da Hilary Duff mesmo

entre Murray e Sandler

Lembrando que é o mês camarada progressista, resolvi falar de um dos filmes que esse garoto miguxão mais gosta: Encontros e Desencontros, vulgo Lost in Translation para os íntimos. E, já que sou o egocêntico da turma, comparar com um dos filme que mais gosto, Embriagado de Amor( Punch Drunk Love). A escolha de tal filme foi baseada em duas justificativas: a primeira, os filmes tratam do mesmo assunto, o relacionamento de duas pessoas, sobretudo; segundo, seguindo as palavras do grande mestre Tolstoí, ou seja, falar da sua aldeia e assim almejar o universal, resolvi falar da minha aldeia pessoal e a do meu amigo miguxão.

Vamos a sinopse das duas películas. Encontros e Desencontros narra a história de uma celebridade americana( Bill Murray) que vai ao Japão e acaba conhecendo uma garota(Scarlet Johansson) no hotel em que os dois estão hospedados, a partir disso começam a conviver um com outro. Embriagado de Amor é o seguinte: Barry Egan (Adam Sandler) é um pequeno empresário que passa por dificuldades financeiras. Tendo sido criado ao lado de 7 irmãs, a infância de Barry foi difícil e repleta de abusos, deixando-o com medo de amar. Até que entra em sua vida Lena Leonard (Emily Watson), uma misteriosa mulher por quem Barry se apaixona, daí o filme se desenrola.

No relacionamento de duas pessoas e na escolha de um comediante para protagonista masculino residem as semelhanças dos filme, deixando estas premissas os filmes se distanciam promovendo um diferente desfecho e ambos desfechos satisfatórios.

O filme com Bill Murray apresenta um estado blasê em todo o filme: os enquadramentos, os planos sequências, as cenas, a fotografia, as personagens, os diálogos. Uma letargia que percorre todo filme, mesmo nos momentos mais felizes está presente. Como se fosse uma desorientação dos personagens principais perante aquele ambiente estranho a eles e também indecifrável, a apatia do filme fosse uma defesa dos personagens que contagia o filme também e que justifica bem o título; as personagens estão perdidas, todas, sejam elas ricas, mais velhas, mais novas, não importa. E as impede de tomar qualquer decisão ariscada e mudanças radicais.

Enquanto outro filme trata justamente disso: das loucuras que as pessoas fazem, sobretudo quando se está apaixonado. O filme apoiado em telas maravilhosa, enquadramentos geniais, planos sequências(apreciem quando o carro de Barry é atingido e a câmera gira) e um trilha coerente expõe um narrativa que ora parece um musical ora longa da Disney , isso sem o protagonista cantar uma música. Parece o estado que Barry, o personagem, vai chegando, e isto transmitido muito bem pela câmera como pelas atuações de Adam e Emily, falando neles é interessante como tais personagens tão problemáticos podem realmente formar um casal, um casal coerente e que vc acaba torcendo, mesmo sendo clichê e que hoje os finais felizes sejam tão raro. O efeito fábula é justificado, jpa que o filme faz alusão a história de Punch, personagem que tem lutar com o demônio pela alma da amada.

Eu não sei se o camarada progressista é um reprimido(será que ele gosta de tira fotos dos próprios pés?) e eu sou um romântico com problemas psicológicos(já quebrei alguma janela, devo dizer), mas estes filme dão um panorama dos nossos gostos. Enquanto eu sou da escola que o cinema é a arte dos sentidos, um filme deve ser sentido, as pessoas devem sair do filme impressionadas, de alguma maneira. O camarada é indie, me perdi mas era isso que queria falar: o camarada progressista é indie.



Estou de volta, para infelicidade da nação

Voltei, deixei as coisas de lado, vulgo trabalho e resolvi voltar, em embalagem moderna e mais nova. Fiz, inclusive, a barba, podem ficar lisonjeados; trabalho em casa, não preciso de cuidados com a aparência, vcs tem que ficar lisojeados, senão eu vou embora. Não magoado, talvez um pouco. Mas como as ondas do mar eu volto, ainda que nem sempre na mesma intensidade.

Camarada moderado ouvindo: Te convidei para o samba, Domenico +2

O Dez Melhores Filmes, Década de 80, Parte Um

Sem mais nem menos, seco como os ventos do outono, trago aqui os dez melhores filmes dos anos 80, na minha opinião, Camarada Progressista, e que não necessariamente reflete a opinião dos outros Camaradas. Aqui vai a primeira parte, depois publico os cinco primeiros:
10- O Iluminado (The Shining, EUA, 1980), 119 minutos– Diretor: Stanley Kubrick; Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd
Depois de cometer alguns dos filmes mais desafiadores já proporcionados pela sétima arte, elevando o debate sobre as possibilidades que um filme poderia atingir e o nível de exigência dado aos seus espectadores, Stanley Kubrick entrou na década de 80 assombrado pelo relativo fracasso financeiro do seu longa anterior, o genial Barry Lydon, longo e lento demais para a patuléia despreparada. Magoado (coitado), resolveu chutar o balde: como o filme Carrie tinha sido um sucessão em 77, leu os livros do Stephen King, escolheu aquele que achava ser o melhorzinho e resolveu ir para galera. Mas quando se trata de um Kubrick, não seria possível esperar um filme de terror comum, com gritos, sustos baratos, truques de trilha sonora e mocinhas com roupas mínimas e vilões estúpidos e rasos. Kubrick jogou tudo isso no lixo e concentrou-se naquilo que realmente lhe interessava: investigar a natureza humana, nosso lado mais obscuro e nossa capacidade de, em determinadas condições ou ambientes, dar vazão a comportamentos totalmente anti-sociais. No caso, um pai de família frustrado que, vendo-se no meio de uma situação de isolamento brutal, sufocado pelo tédio, pelo silêncio e pela opressão psicológica causada pela neve, usada como reflexo da crescente loucura do personagem, além de influências sobrenaturais de possíveis fantasmas do Hotel, resolve jogar todas as decepções e frustrações nas costas do filho e da mulher, atacando-os em algumas das seqüências mais aterrorizantes da história do cinema. Tudo isso com a inimtável classe Kubrickiana. Stephen King odiou o filme. É claro, como ele poderia gostar de um filme que transformava o seu lixo habitual em arte? Bom mesmo é a bomba do Apanhador de Sonhos, que ele vendeu por um dólar os direitos. Cala a boca King, por favor.

9-Veludo Azul (Blue Velvet, ,EUA, 1986), 120 minutos – Diretor: David Lynch; Elenco: Isabella Rossellini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper
David Lynch sempre nutriu um grande amor pelo grotesco. Mas ao invés de tornar-se um diretor preferencialmente trash, como um Peter Jackson no início da carreira, um Dino de Laurentis (produtor desse filme) da vida, sempre quis dar um verniz de classe aos seus filmes, preferindo apostar no surrealismo, numa atmosfera climática que dá aos seus filmes impressões de sonhos, de situações fora do alcance dos espectadores, como se assistíssemos um espetáculo fragmentado e tivéssemos de juntar todas as peças. Vindo na época do fracasso Duna, que quase enterrou a sua vida profissional, Lynch resolveu fazer um filme que fosse de acordo com as suas pretensões intelectuais e pessoais, um projeto que mostrasse ao público que aquele diretor de Duna era a verdade um pau mandado respondendo a executivos estúpidos e um rockstar pretensioso e vazio (Sting, muito prazer). No caso, uma história que expusesse a sua fascinação pelo ambiente interiorano norte-americano, já que ele, nativo do remoto estado de Montana, tinha verdadeira obsessão pela aparência pacata e lúdica desses lugares, mas que também jogasse com outra fascinação sua: a morbidez que pode existir num lugar tão pacato, a verdade por detrás de tanta hipocrisia e submissão. Na história, Jeffrey, um universitário de volta para casa depois de muito tempo e interpretado pelo Kyle MacLachlan, habituê nos projetos do diretor, descobre, ao caminhar para o lar, uma orelha jogada no chão. Os desdobramentos dessa descoberta acabam jogando Jeffrey num mundo de obscenidades, podridões, fêmeas fatais e perversões, tudo isso no coração de uma cidadezinha inócua americana. O diretor conta a história usando uma atmosfera neo-noir e fazendo-se valer de toques ácidos de humor, usados para retratar a incredulidade de Jeffrey com tudo aquilo que vivenciava. Destaque para Isabella Rossellini, perfeita como a mulher misteriosa e ao torno da qual desenrolam-se todos os mistérios da história, e para Dennis Hopper como o assassino psicótico que persegue o herói. Um grande momento na excelente carreira de Lynch, que voltaria ao tema “o que se esconde por detrás dos ambientes interioranos norte-americanos” na série cult Twin Peaks.

8-Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, EUA, 1986), 103 minutos; Diretor: Woody Allen; Elenco: Mia Farrow, Dianne Wiest, Michael Caine, Woody Allen
Woody Allen. Tava demorando. Eis um cara que, assim como um Michael Jackson, deixa pouco espaço para as pessoas defenderem. Sua predileção por filhas adotadas de ex-esposas não são exatamente um exemplo de comportamento. Mas, quando tratamos da obra por ele construída, não podemos deixar de mostrar admiração e respeito. Mesmo com uma carreira toda centrada num tipo de personagem, num único tipo de cenário e sempre com estruturas narrativas idênticas, mesmo com tudo isso ele sempre conseguiu tirar filmes sensacionais da cartola. Hannah e Suas Irmãs é o seu segundo melhor filme (Annie Hall imbatível), e trata com delicadeza e sensibilidade ímpar um assunto delicado, infidelidade e traições dentro de uma família. Tirar humor e acidez de algo assim é coisa para poucos e bons, e Allen com certeza seria o cara para fazer isso. Hannah, personagem de Mia Farrow, é uma atriz de sucesso com pouco tempo para a sua vida pessoal vê ao mesmo tempo o seu marido, Elliot (Michael Caine), apaixonar-se por uma de suas irmãs, Lee (Bárbara Hershey) e o seu ex, Mickey (o próprio Woody Allen), neurótico hipocondríaco amedrontado com a possibilidade de uma doença real, relembrar o seu casamento com ela e os seus encontros com outra irmã de Hannah, Holly (Dianne Wiest), viciada em cocaína. O filme concentra-se em três arcos narrativos, Hannah, Mickey e, no final, Holly, sem nunca soar disperso ou episódico. O filme guarda alguns dos diálogos mais sensacionais já vistos, algo comum na carreira de Allen, mas que aqui encontram um de seus momentos mais definitivos, destacando-se o momento que Mickey resolve procurar aconselhamento religioso para enfrentar melhor a sua “eminente” condição de doente terminal. Uma história que teria tudo para gerar dramalhões nas mãos de pessoas menos talentosas, mas que Woody Allen, um verdadeiro artesão na arte de criar roteiros, transforma num exercício de observação e humor como poucas vezes vimos no cinema.

7-Brazil (Brazil, EUA, 1985), 131 minutos; Diretor: Terry Gilliam; Elenco: Robert De Niro, Jonathan Price, Ian Holm
Abre a cortina do passado! Tira a mãe preta do serrado! Bota o rei congo no congado! Ê, Ary Barroso, quando é que você imaginou que a sua fabulosa Aquarela do Brasil inspiraria, sozinha, um filmaço como esse Brazil, do genial Terry Gilliam? Fascinado pela melancolia e classe exalada pela composição de Ary, Gilliam resolveu, por incrível que pareça, fazer um filme todo que passasse ao seu espectador a mesma sensação que ele sentia quando ouvia a música, a sensação de sonho que ela proporcionava a ele. Por isso o nome do filme, e eu acho que os desavisados deviam ter achado na época que o Terry teria feito uma pornochanchada com o David Cardoso no papel de um garanhão. Não, tolos incautos, o filme é um pesadelo futurista que trata de uma sociedade Totalitarista baseada na burocracia e na submissão dos seus habitantes, e centra a sua narrativa no personagem Sam Lowry (Jonathan Price, excelente), um solitário funcionário burocrata de baixo escalão que, oprimido pelo tedioso emprego e pela intromissão absurda do governo na vida dos cidadães, sempre tenta escapar para um mundo de fantasias românticas por ele criadas. O filme é claramente uma crítica as sociedades totalitárias que sugam a personalidade das pessoas, transformando-as em ferramentas para a expansão e propagação dos valores pregados pelo governo. O roteiro intrigante e inteligente, inspirado pelo clássico livro 1984 de George Orwell, é ajudado pelo apuro técnico da direção de Gilliam, com um belo trabalho de fotografia e cenários, sempre acentuando o clima de opressão vivido por Sam. Contando também com um excelente elenco de apoio (incluindo Robert De Niro, que na época era ainda um ator de verdade e não essa paródia dos dias atuais. Ele aliás brigou sempre com Gilliam nas filmagens, e os dois juraram nunca mais trabalhar um com o outro, muito feio), Brazil não foi um sucesso retumbante, mas virou um dos filmes de maior culto pelos fãs de cinema, obtendo hoje um reconhecimento que faz jus a classe do filme.

6- Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, Suécia, 1982), 188 minutos – Diretor: Ingmar Bergman; Elenco: Pernilla Allwin, Bertil Guve
Originalmente um filme concebido para a TV sueca de 312 minutos, depois foi adaptado e virou uma película de 188 minutos. Último filme dirigido por Bergman, que depois se dedicou ao Teatro e a escrever roteiros para a TV somente, e hoje curte uma bela aposentadoria na Suécia (vocês queriam o quê, pô? Ele tem 88 anos de idade, caramba!), obteve 4 Oscars, um dos maiores números já conseguidos por um filme estrangeiro, além de indicações a melhor Diretor e Roteiro para Bergman. No começo de sua carreira, a principal motivação de Bergman era fazer filmes que usassem de alegorias fantásticas e religiosas para fotografar o vazio da existência no homem e sua inerte procura por algo mais na vida. Depois, com o passar dos anos, acabou realizando obras que tratavam de problemas familiares, como a falta de comunicação entre os membros e os dilemas e conflitos por eles enfrentados. No caso do Fanny e Alexander, que conta a história de dois irmãos (as crianças do título) que perdem o pai e vêem a mãe criando laços com o Bispo local, casando-se com ele e mudando com eles para a sua casa, para então jogá-los numa assustadora situação de opressão e submissão, já que o Bispo transforma praticamente a mulher e os filhos em prisioneiros, vivendo sobre rígidas condutas morais e sem qualquer tipo de liberdade, até que uma família amiga resolve intervir para ajudá-los, então criando forças para eles conseguirem, por meios drásticos, saírem dessa situação desesperadora. Bergman, talvez o melhor diretor de atores da história, tira de todos os atores performances apaixonadas e únicas, especialmente do casal de irmãos, que transmitem espetacularmente ao espectador todo o desespero por eles vividos quando estão sob a chancela do Bispo. O Bispo é inspirado no próprio pai de Bergman, um Pastor luterano agressivo e dominador, que impunha a Bergman uma educação extremamente rígida e conservadora. Mas o olhar crítico que demonstrava quando tratava da religião, algo que sempre foi uma marca do diretor, jamais foi direcionado para as doutrinas religiosas em si, mas sim para aqueles que fazem uso delas para, por meio de distorções e livres interpretações das palavras, dominar e submeter os seus semelhantes. A crítica de Bergman sempre foi para os indivíduos que distorciam os ensinamentos religiosos, como no Sétimo Selo nas cenas que criticavam o clima de terror instaurado pelo Catolicismo na Idade Média. Bergman fez um milhão de filmes sensacionais, mas Fanny e Alexander talvez tenha sido o seu projeto mais pessoal, o que faz dele, por si só, um belo momento do cinema

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Por Quem os Sinos Dobram

Tenho uma sensação torrencialmente clara na minha mente. Sinto que, toda vez que for escrever um texto para o blog, acabarei, uma hora ou outra, fazendo alguma referência a Lindsay Lohan, por pura força de hábito, tanto ao escrever, quanto situando ela no meio do texto que estiver elaborando. Lógico que esse medo (se é que poderia-se chamar assim) é infundado, afinal estaria me subestimando se achasse que seria incapaz de poder separar situações e contextos dentro do tempo (o Camarada Fundamentalista nunca terá esse problema, pois para ele o passado é coisa de cavalo açoitado. Acho que já falei isso, né?). Mas a mente, há, essa gozadora nata, sempre pronta para jogar na nossa cara todas as nossas limitações e estultices, acaba ela criando um fantasma, grande o suficiente para me fazer temer por uma possível situação de insanidade literária, que acometeu tantos mestres do ofício das palavras, como um Hemingway da vida, vencido e derrotado pelas paranóias que saíram o mundo ficcional criado por ele e juntaram-se aos pensamentos turvos de um já normalmente corrompido depressivo.

Dizem vocês, como ele ousa usar um Ernest Hemingway para tentar contextualizar os seus medos banais e ridículos, um blogueiro achando que tem na Lindsay Lohan um fantasma literário, como se os seus textos fossem algo além de lixo virtual para corpos sem faces divertirem-se superficialmente por alguns segundos? E se esse raciocínio que eu criei para tentar exemplificar um suposto pensamento de vocês em relação a mim ao me verem citando o Ernest Hemingway ficou longo demais, vocês provavelmente devem estar dizendo que eu fugi do assunto que estava tratando para fazer uso de joguinhos retóricos com o intuito peverso de confundir e alienar vocês, tirando a atenção do núcleo real do problema. Provavelmente deve ser verdade mesmo.

Então, voltando ao ponto inicial, eu acho que terei de passar por toda uma reeducação para poder escrever aqui sem nem relacionar os temas dos meus escritos com a Lindsay Lohan, provavelmente terei até de passar num psiquiatra da vida para livrar-me desse direcionamento automático da mente. Um fantasminha ruivo a me afrontar, como se dizesse para mim: "quer dizer que vocês me jogaram num canto qualquer para nunca mais nem olharem para mim? Não era eu a estrela das suas palavras majestosas? O que fizeram de mim agora? Um retrato como o de Dorian Gray, a se corroer e diluir dentro da ação inexorável do tempo? Justo eu, ó, pobrezinha de mim, que nem maldades sou capaz de fazer?". Cala a boca, assombração perva dos infernos! Afaste-te desta mente sã, leve para longe o teu espectro fantasmagórico e as tuas frontes romanescas para outros perdidos que tão vilmente cairão sobrepujados por ti! É o que eu digo para mim. Eis, então, que tiro de uma afirmação subjetiva um clamor por uma verdade que, seja esse o caso por mim desejado, não mais estará lá.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Mês Camarada Progressista...

Este mês o Camarada Progressista também faz anos. Não só a Lindsay. Decidi por minha conta fazer uma retrospectiva sobre a trajetória desse jovem brilhante que tem estado com a gente, encantando a todos com sua alegria e acidez juvenis. Até 13 de julho, data de seu aniversário, compartilharei lembranças, anedotas e curiosidades sobre esse grande miguxão. Trata-se de um Mês Camarada Progressista? Não, nosso egocentrismo a três (ou dois, ops!) não chegaria a tanto. É apenas aquela coisa da família, entendem?
Por exemplo, saibam que ele é um solteiro pretensamente convicto. Mas ha, ha, ha, nós sabemos que isso não existe, não é, camaradas (agora, já chamo vocês de camaradas: afinal, há tanto que estamos juntos!)? Pois, então, é claro que ele anda à procura; na verdade, à espreita. E à espreita de quê? Bom, de uma moça gentil, que saiba escutar (ah, oh, que fina arte essa - a de escutar o próximo! Exige tanta inteligência, tanta sofisticação - e inatas! Onde a encontrar em dias como esses?) e que - minha nossa, que extravagante! - entenda o que ele diz. Tem certeza de que ele realmente procura uma mulher? Ha, ha, ha! Oh, queridas, vocês sabem que estou apenas brincando: eu as venero, mulheres! Além disso, essa gracinha deve ter bons conhecimentos em cultura pop e dentição perfeita.
Candidatas - e insisto em que sejam candidatAs - e os demais que queiram expressar toda a sua afeição pelo Camarada Progressista, nos escrevam e/ou deixem comentários dizendo: Nós amamos o Camarada Progressista!

TETÉIA DA SEMANA

Amy Winehouse
Cantora inglesa de 22 anos, atingindo finalmente as massas com o sucessão Rehab. Chegada num bom destilado de álcool e com verdadeira adoração pela vida boêmia (adora escrever músicas sobre o assunto, a famosa síndrome de Nelson Gonçalves). É também famosa pela recente perda de um dente causada por uma queda na qual, adivinhem adivinhem, ela estava bebaça. Por culpa dos excessos, virou temporariamente uma limpa-trilhos, mil e um ou coisa que o valha. Como um dos camaradas perdeu recentemente uma parte de um de seus dentes acidentalmente (não vou falar que fui eu), aqui vai a nossa solidarização: Amy, vá no melhor dentista de Londres e acabe com esse problema, por favor. Porque, tipo assim, os manos tão querendo levar ela para uma clínica de reabilitação, mas ela não vai, vai, vai.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Dias de Lohan e Rosas: El'Atto Finale

Hoje, 2 de Julho de 2007, dia do aniversário de 21 anos de Lindsay Lohan, encerramos o mês dedicado a ela no Fomos ao Cinema. Foi uma tarefa que exigiu rara abnegação dos integrantes desse blog. Nós, no terceiro mês de existência, já nos prestamos a empreender tão instigante tarefa. Como tomamos a decisão de dedicar um mês todo para a Junkie Girl? Como fizemos para conseguir encontrar temas para textos durante longuíssimos 33 dias (foram dois dias a mais devido ao aniversário dela)? Sinceramente, não existem respostas que possam satisfazer perguntas tão complexas. Porém, posso dizer para vocês que nunca convalecemos perante os obstáculos que se impunham na nossa frente, nem pensamos em momento algum em dar para trás e desistirmos dos nossos propósitos. Queríamos, com ardor, provar para todos que essa jovem nova iorquina é dona de um talento tão raro, tão incomum, tão não usual, que acabou com o tempo sendo sugado pelas próprias convenções de uma indústria que exige de jovens imberbes comportamentos de veteranos, que exige de adolescentes mal saídos de uma escola que saibam lidar com a invasão maciça de privacidade e a exposição total a um público ávido por notícias e manchetes que possam satisfazer as nossas demandas imediatas de factóides e escândalos, como que exigindo daqueles artistas que colocamos no topo um comportamento excêntrico, inconstante e desesperador, para tão e somente nos vermos saciados da nossa fome de entreternimento rápida e fugaz.

Por isso, temos as Paris Hiltons da vida, sempre com atos novos para entreter as nossas medíocres vidas cotidianas. O talento virou conversa de saudosistas melancólicos. Nesse panorama desolador, vemos nela, Lindsay Dee Lohan, uma verdadeira personagem de um Mad Max da vida (bela referência). Depositamos nela, uma menina cada vez mais desesperada e entregue aos vícios, toda a esperança por um futuro mais classudo. Como o personagem do Mel Gibson naquela porcaria de filme, um anti-herói boca suja que acabava virando a última esperança da humanidade, Lindsay carrega junto de si um fardo, pesado demais para se levar. Um fardo que cobra exigências muito altas. Que transforma aqueles que o carregam em pálidas lembranças do que foram ou do que poderiam ser um dia.

Mas que, depois de entregues às tempestades revoltosas, depois de ceder e cair em abismos vertiginosos, ainda sim podemos acordar em lencóis de linho e dizermos, surpresos e febrilmente espantados, que tudo foi somente um doce pesadelo, e, felizmente, estamos de volta ao querido Kansas (What?). Nós, camaradas do Fomos ao Cinema, vimos o futuro. E nele, Lindsay Lohan reinava com seu talento fulguroso e seu brilho inebriante, uma estrela colocada junto de lendas como Audrey Hepburn, Katherine Hepburn e Bette Davis. Se essa visão será um devaneio a propiciar risadas para todos os incautos, ou se for no fim justificada e plenamente realizada, somente o tempo irá dizer. Mas nesse grande Delorean chamado destino, caem aqueles que não têm envergadura, e ficam em pé, altivos e imponentes, os que tem dentro de si as ardentes chamas do talento. O Fomos ao Cinema agradece a todos os que estiveram juntos de nós nesse momento único do blog e diz que isso foi somente o começo. Muito Obrigado.

AVISOS

Hoje, aniversário da Lindsay Lohan, encerra-se o mês dedicado a ela no blog. Por culpa disso, a sessão Tetéia da Semana será publicada amanhã excepcionalmente, Terça, ao invés da Segunda, seu dia habitual.