sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Wim Wenders é cachaceiro, bebum e ninguém dá mais a mínima para os seus filmes. Bu!

Aê, cambada. Depois de semanas no esculacho, estou de volta. O negócio é o seguinte: estou puto da vida com a vinda do alemão cachaceiro e ex-diretor de obras-primas Wim Wenders. Aproveitando a lembrança do Moderado (de volta do mundo dos mortos, depois de muita chinelagem) ai embaixo, gostaria de mandar o Wenders ir enganar trouxas em outra freguesia. Já não bastasse aquelas bandas gringas mastodônticas vindo enganar os otários nessa terra na qual tudo de planta e tudo se dá (opa!) em nome de um punhado de dólares a mais (copyright Sergio Leone), agora diretores falidos também resolveram entrar na lista e nos visitar no feio crepúsculo de suas anteriormente brilhantes carreiras. Primeiro foi o David Lynch pouco tempo atrás, agora é o Wenders. Sério, alguém deu a mínima para os últimos 10 anos da carreira dele? Reciclando idéias, temáticas e personagens, Wenders chegou a tal ponto de irrelevância artística que mesmo veículos conceituados acabam nem noticiando o lançamento dos seus últimos filmes. Wenders veio apresentar na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo o seu mais novo engodo, Palermo Shooting, seu milésimo road movie, esse passado na Itália. Sério.

Garotas que são chegadas num coroa gringo: tremei! Mas um aviso: dizem que o alemão gosta mesmo é de morder a fronha. Mas não se intimidem por isso não.


A única mudança que o alemão pau d'água faz nos seus filmes são as localizações mesmo, pois roteiro mesmo na vida ele escreveu dois (um dos seus road movies, e o outro dos seus filmes de anjos), e os recicla ad infinitum desde então. Lógico que ele realizou belíssimos filmes e outros tantos competentes, mas a fórmula esgotou faz tempo. Toda a manada dos descolados e pseudo-intelectuais se deslocou até a Mostra para verem, serem vistos, aparecer e lamber os ossos jogados pelo alemão, nas entrevistas coletivas e nas sessões (o cidadão assistiu vários filmes na Mostra). Para essa turma de infelizes que infesta os Espaços Unibancos e Cines Bombrils da vida, eu dou é uma bela duma banana. Vou pegar a minha camiseta do Braddock (Chuck Norris, seus tontos) e desfilar nas áreas da Mostra lá na Paulista. Quero ver quem vai ser macho de tirar uma com a minha cara. Já chamo pra porrada! Ah, eu tô maluco! Porrada na Mostra, é pra quem pode, não pra quem quer. No mais, beijos para todos, e eu ainda vou roubar a sua namorada (mulher não manja nada de cinema mesmo, só vão pra acompanhar e falar "que lindo, amor!) enquanto você estiver chorando vendo a última patetaiada do Wenders. Cornão!


Os dois bastiões da Folha de São Paulo: apoiar a cultura e o mau jornalismo


Obs 1: a Mostra dedicou um espaço para Wenders exibir os seus filmes favoritos. Como ele indicou 2 filmes do Yasurijo Ozu, foi uma rara oportunidade para os fãs do cineasta japonês verem um de seus filmes na telona. Mas se fosse assim, que Wenders tivesse mandado lá da gringa a lista por e-mail para os organizadores e eles os exibissem então. Com muita caipirinha, feijoada, paio, todas as papagaiadas que o povo aqui dos trópicos adora.

Obs 2: numa visita a Porto Alegre (recentemente, em agosto) para participar de uma palestra, Wenders protagonizou um momento de hilariante constrangimento. Um timeco de futebol de lá (Interegional, se não me engano) resolveu "homenageá-lo" com uma camisa com o seu nome nas costas e a numeração 10. Wenders foi obrigado a segurar o presente de grego nas mãos, e dar os costumeiros sorrisinhos falsos. Sério, gaúcho é o povo mais babaquento do mundo, mas ai já é demais. Se a passagem de Wenders por São Paulo gerasse momentos tão involuntariamente engraçados como esse, ainda poderíamos justificar a sua vinda. Tipo, o São Paulo Futebol Clube (time que adora esse tipo de pataquada) dando uma camisa para ele escrita "Wim Wenders, agora também um bambi orgulhoso". Para quem duvida, vai aqui embaixo a foto. Despeço-me agora. Bjunda.

Atenção, Wes Anderson: esse será você amanhã. Tá vendo que micão? Quem mandou dar moral pro Seu Jorge?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um texto sem refresco


Um calor absurdo atinge nossa metrópole. Uns dizem que a primavera chegou de vez e outros gostam de ressaltar o período de calor com a famosa conversa de elevador "que calor não?"; deixando os idiotas da obviedade e a retórica de lado, pensei em muitas coisas para postar neste blog no meu período de retiro espiritual forçado, em verdade, até rascunhei uns trechos sobre temas interessantes abrangendo desde música até fenomenologia aplicada ao cinema. Poderia, inclusive, colocar uns trechos desconexos com a finalidade de denotar que não fiquei sem fazer nada, mostrando assim que minha cabeça não é um deserto de idéias, mas quer saber: não vou falar nada, principalmente porque não sei como dizer e justificar as minhas frequentes escapadas e ausências. Posso ter ido para Paris, Texas...




sábado, 11 de outubro de 2008

Se Superman é Clark Kent, Tyler Durden é Tyler Durden

Os nomes que adotamos na internet são todos pseudônimos, só pra constar. E no mundo real nossas identidades permanecem secretas, ainda que, entre si, nos conheçamos e nos freqüentemos, nós que escrevemos, cantamos e posamos para internautas do mundo inteiro. Somos como uma liga da justiça que, em dia de semana, é gente como a gente, que pega ônibus e passa mal se come maionese vencida. Quando nos encontramos pelas ruas de São Paulo, por exemplo, como outro dia em que encontrei Mallu Magalhães no metrô, nos cumprimentamos discretamente, às vezes apenas com um olhar cúmplice.

Eram umas três e meia da tarde, e eu embarquei na estação Ana Rosa, a caminho de..., para me deparar com Mallu, sentada com o violão no colo. Ela quase não conseguiu disfarçar a surpresa e contentamento ao me ver:

- Oi, Camarada Fundamentalista! – um tom de voz quase que alto demais, que ela já diminuiu pela metade ao prosseguir: - Que bom te ver, rsrsrs.

- Bom te ver também, Mallu Magalhães, rsrsrsrsrsrs – respondi, me ajeitando entre um cara enorme, de sobretudo, e uma mulher cheia de sacolas, que me fizeram pensar que Mallu Magalhães era o tipo de pessoa que não segurava sacolas nem mochilas para os outros em ônibus e metrôs, tsc, tsc, tsc. Mas eu sou muito julgador, por isso afastei esse pensamento da cabeça e ia perguntar não sei quê pra ela, quando o trem parou bruscamente, e o cara enorme oscilou como um carvalho golpeado por um guindaste, e me perdoem a eloqüência inesperada da imagem.

"Mallu, que surpresa!"

(Um fã da Mallu que leu a primeira versão deste relato observou que provavelmente ela não se oferecera para segurar as sacolas da mulher das sacolas porque estava com seu inseparável violão no colo, como eu mesmo mencionei. Plausível, mas mantive o original, compensando-o com este adendo, por achar mais honesto registrar minha possível precipitação. Agradeço ;) especialmente, portanto, a Wilson F., o fã, que me garantiu que Mallu Magalhães não só segura bolsas e sacolas, como cede seu assento para idosos, gestantes e deficientes físicos.)

Ô, sim, era naquela época de constantes falhas mecânicas do metrô, que não suportava o aumento excessivo de usuários com a integração metrô-ônibus possibilitada pelo Bilhete Único. O vagão lotado, e quente como é na Linha Verde, já imaginem, porque, não sei se lembram, mas as paradas devido a falhas mecânicas então podiam durar de vinte a trinta minutos, como de fato se deu.

Passados dez minutos, e nada, as pessoas se abanando, bufando e resmungando, como uma purulenta galé de degredados, Mallu e eu tivemos a idéia de salvar o dia, principalmente considerando que havia ali muitos dos internautas que tanto nos amavam em segredo. Demos uma piscadela, e ela já foi tirando o violão da capa. Não foi preciso mais nada para que meia dúzia – dentre os quais, um casalzinho indie e um rapaz com um Dom Casmurro do Estadão nas mãos – a reconhecesse, mas, contidos como são os jovens bem-nascidos, procuraram apenas chegar mais perto, porque sabiam que dali sairia aquele folk gostoso e intimista, ora entranhado, que fez a fama de Mallu Magalhães.

"Essa aqui é pro meu grande rsrs camarada rsrsrsrs, Camarada Fundamentalista."

A pedido meu, que considerava a mais representativa cover de seu repertório e especialmente adequada à ocasião, sem dizer que a de Mallu era a melhor interpretação desde a versão original de Johnny Cash, ela começou a introdução de “Folsom Prison Blues”:

“I hear the train a comin'

It's rolling round the bend

and I ain't seen the sunshine since I don't know when,
I’m stuck in Folsom prison, and time keeps draggin' on
but that train keeps a rollin' on down to San Anton.
When I was just a baby my mama told me:
Son, always be a good boy, don't ever play with guns.
But I shot a man in Reno just to watch him die
When I hear that whistle I hang my head and cry.”

E que olhar era aquele no rostinho de Mallu, da angústia negra de Memphis, da revolta estudantil do Quartier Latin, da sanha assassina das Bolsas em 1997, era o puro espírito maldito! Arrepiado, dizia comigo mesmo que já não estávamos num vagão de metrô entre as estações Paraíso e Brigadeiro, aquilo era a Caverna de Adulão, referência que os leitores versados nas Escrituras não deixarão passar. E continuou, prodigiosa:

“I bet there's rich folks eating in a fancy dining car
they’re probally drinkin' coffee and smoking big cigarrs.
Well I know I had it coming, I know I can’t be free
but those people keep a movin'and that’s what torture means.”

(Muitos blogueiros me perguntam, em congressos de que participo, se a introdução de letras de música, mesmo quando devidamente contextualizadas, como “é o caso de seus posts”, eles contemporizam, se mesmo assim é legítima. A pergunta procede desde que muitos amadores, notadamente miguxinhas não filiadas, fazem disso um expediente gratuito e preguiçoso. Costumo dizer que a subversão fraudulenta de um recurso legítimo depõe, por certo, tão-somente contra o subversivo, como se diz que a lei é boa, nós é que somos corruptos.)

“Well if they'd free me from this prison,
if that railroad train was mine
I bet I'd move just a little further down the line
far from Folsom prison is where I long to stay
and I'd let that lonesome whistle blow my blues away.”

Aquilo era um canto da terra, profundo e verdadeiro apenas como um produto da natureza podia ser. E eu tinha certeza de que todos naquele cubículo haviam transcendido, nem que por quatro minutos, porque quando desembarcaram, minutos mais tarde, na Trianon-Masp e na Consolação, iam com um semblante como que purificado por uma grande fúria finalmente liberada pela voz e violão de Mallu Magalhães. Ela, que também o pressentira, quando nos despedimos no Sumaré, onde ela ia descer, me confessou, renunciando por um instante a sua grande humildade de artista folk:

- E pensar que eu nunca estive em Folsom Prison, rsrsrsrsrsrsrs.

– Nem nós, Mallu, nem nós.

A Arte, e somente a Arte, é capaz de nos unir tanto na miséria aviltante, como na glória excelsa.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Fomos ao Cinema ver Ensaio Sobre a Cegueira




Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.


Camarada Progressista acorda. Camarada Progressista toma café, e liga para o Camarada Fundamentalista.

C.P -Alô. Vamos ver o Ensaio Sobre a Cegueira

C.F. -Vamos. Vamos ver o Ensaio Sobre a Cegueira

C.P. -Vamos chamar aquela amiga que leu o livro e achou bala?

C.F. -Vamos. Vamos chamar aquela amiga que leu livro e achou bala

C.P. -Eu sei a história do livro. Todo mundo fica cego, do nada. A sociedade começa a entrar em colapso, e todos acabam descobrindo -depois de muita sujeira e sacanagem- que o ser humano somente pode aproveitar o relacionamento com os seus semelhantes de uma maneira harmônica e civilizada quando ele não pode enxergá-los, livrando-se assim dos preconceitos e pré-julgamentos em relação aos seus iguais. O negócio segundo o velho batuta é todo mundo colocar uma venda nos olhos e sair amando todo mundo. Bem que eu achava que os cegos sempre tinham muito amor para dar mesmo. O filme deve ser a mesma coisa. Um monte de simbolismos bonitos e ingênuos. O Saramago, velho comuna que é, acredita mesmo nessas bobagens.

C.F. -É verdade.

C.P. -Né?

C.F. -É

C.P -Marca ai, e vamos.

Marcamos, e fomos

Depois do filme:

C.P -Pô, esse filme é uma porcaria

C.F. -É

C.P. -Teríamos aproveitado melhor se tivéssemos visto com uma venda nos olhos. Você sabe, apenas com o áudio, não teríamos de ter aturado o anacronismo Stoneano do Meirelles, ou então a desagradável sensação de ver a nossa cidade usada como um símbolo do colapso da civilização ocidental, da inadequação humana, e de todo o resto.

C.F. -Mas isso não seria deveras metalinguístico?

C.P -Talvez fosse essa a intenção do cara, percebemos que a melhor maneira de entender o espírito do filme fosse vê-lo com os olhos fechados ou obstruídos. Vamos tentar ver o filme de novo dessa maneira? Com uma venda nos olhos?

C.F. -Não, pombas. Isso seria deveras constrangedor. Vai você, que eu fico. Leva a amiga que achou o filme bala.

C.P. -Ela aceitaria a experiência?

C.F. -Não sei. Liga lá. Hi - 5

C.P. -Hi-5



Liguei. Ela não aceitou. Fui então sozinho. Entrei normal na sala de cinema, sussa. Ai, quando as luzes se apagaram, peguei minha venda e coloquei nos olhos. Magia. O filme aconteceu para mim. Emocionante. Jamais havia notado o quanto podemos evoluir como seres humanos quando colocamos uma venda nos olhos. Liguei então para o Fundamentalista


C.P. -Alô

C.F. -Alô

C.P. -Vi o filme com uma venda nos olhos. Transcendi.

C.F. -Você é um idiota.

C.P. -Você diz isso agora. Se ficasse com os olhos fechados, perceberia o quanto uma afirmação dessas pode ser carregada de ódio e pré-julgamentos. Vamos fazer assim: feche os olhos, e eu falarei mais uma vez sobre a experiência que tive, e você verá que a sua reação anterior foi equivocada.

C.F. -Ok. Fechei os olhos.

C.P. -Bom. Vamos tentar de novo. Oi, Fundamentalista, eu assisti de novo o Ensaio Sobre a Cegueira, dessa vez com uma venda nos olhos. Transcendi.

CF. -(Segundos de silêncio depois) Você é um idiota. Nossa, chamar você de idiota com os olhos fechados foi uma experiência única. Transcendi.

C.P. -Bah. Será que eu consigo as 10 pratas que paguei?

C.F. -Não sei. Tente pedir a grana de volta com uma venda nos olhos.

C.P. -Ha ha. Nessas eu já tirava a venda e te mandava uma nas fuças. Mudando de assunto, você viu o casamento da Sandy?

C.F. -Vi. Também tenho acompanhado todas as notícias relacionadas ao casório, lua de mel e tudo mais. Estou gastando um dinheirão com as Contigos da vida. Mas vale a pena. A Sandy é realeza.

C.P. -Digo o mesmo! Será que o cara que ela casou será um bom marido? Qual é o nome dele mesmo? Joca, Jonas, Lúcio, André, Márcio... putz... deu um branco..

C.F. -Não é Ricardo? Ele era daquela grupo meio Hanson com violinos, não era?

C.P. -Era sim. Mas o pai dele fazia parte. Então, era um grupo meio Hanson com violinos e com o pai junto. Mas arrisco dizer que era melhor que o Hanson. Liga pra nossa amiga, ela sabe o nome do carinha, parece que ela acha ele um pão.

C.F. -Ligo sim. E a crise econômica, você tem se informado a respeito?

C.P. -Putz, não... é que, tipo, dá um bode de ler sobre... Mas conta aí pra mim o que está rolando!

C.F. -Estou por fora também. Pena.

C.P. -Pena.
O telefone tocou. Era outra linha.

A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

De como Jewel e eu salvamos a Augusta

Jewel e eu. A Jewel de 95 é um dos meus 14 grandes amores. É uma lista fixa que foi inaugurada muito antes de eu saber que seria uma lista, quando eu vi um dos irmãos Hanson, aquele, e achei que era uma garota, pelo que me lembro, mas isso não vem ao caso.

Depois mais equívocos, quando eu me apaixonei pela Victoria (então) Adams, ainda Posh Spice, por causa de “2 Become 1”, que eu cantava junto, em falsete, apontando com o dedinho que nem ela fazia no clipe.

Mas se é natural sentir atração por um homem, achando que é uma mulher, e mesmo depois de descobrir, não querer acreditar, bem, e gostar de Jewel?

Em Pieces of You, seu debut, ela expôs sua alma dilacerada, ecoando a dor de multidões que comprariam o disco, garantindo um colinho milionário para suas lamentações intermináveis, mas totalmente justificadas. Porque ela não negociaria seus sentimentos para agradar ninguém. Aqui, o paralelo com Marilyn Mason é evidente e inevitável, como muito bem assinalado pelo Wikipedia.

Mas Jewel e eu. Talvez nossa história tenha começado apenas por causa da rua Augusta. Sim, acho que é isso mesmo. Já posso me lembrar...

Jewel de 95.

De como eu desci a Augusta, sentido centro, e provei um pouco do mundo cão. Como descesse a Augusta, sentido centro, muito, muito longe de casa, logo ficou claro pra mim que seria difícil viver o lado Coca-Cola da vida ali. E a coisa só piorou, quando a Bichinha Pobre, perto de mim, disse detestar cinema nacional. Nesse instante, devastado, pela quinta vez naquela semana jurei vingança ao Capital, que fazia do homem proletário, e do proletário consumidor, e do consumidor bichinha, aquela bichinha.

Um menino como eu, criado a leite com pêra, conhecia lugares como a Augusta apenas de ver Amarelo Manga ou Baixio das Bestas. Aliás, assistir Baixio das Bestas é um tipo de obra social.

De como eu me juntei com o dono do Feliciano’s Bar para trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados. Com essas noções de degradação social do cinema brasileiro misturando-se na minha cabeça, é que eu me lembrei do clipe de “Who Will Save Your Soul”, em que a Jewel salvava um bando de excluídos incontinentes num banheiro público só tocando violão. Foi aí que eu tive a idéia de trazê-la pra cá, e então era só ela tocar violão e fazer aquele bando de pederastas e meretrizes mudarem de vida.

Parei pra tomar uma Coca num boteco, eu, um menino criado a leite com pêra, mas que, àquele ponto, já não tinha mais escrúpulo algum. O dono do bar, que era uma espécie de Paul Newman paraibano, chegou-se pro meu lado e disse: – Eu sei o que você tá pensando, que isso aqui não tem jeito. Mas você, um menino criado a leite com pêra, não veio parar aqui por acaso. Não podem imaginar como aquelas palavras me devolveram toda a vontade de mudar o mundo. Puxei na hora um santinho do Glauber Rocha que eu carregava comigo, junto ao peito, e beijei-o.


Terminei a Coca de um só gole e disse àquele clarividente comerciário:

- Eu acho que sei o que fazer, mas preciso da sua ajuda.

- Opa – ele respondeu e bateu o paninho encardido contra o balcão.

Contei então pra ele o meu plano de trazer Jewel pra Augusta. Nessa hora fizemos o Hi-5.

De como eu não tinha idéia de como trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados e acabei desacreditado pelo dono do Feliciano’s Bar. Então, o dono do bar me perguntou como traríamos a “Jiu” e seu violão pra Augusta. Respondi que eu não era um indivíduo particularmente prático. – E não particularmente? – ele me perguntou. Desconversei, falando que uma coisa dessas não acontecia assim, da noite pro dia, a-ham.

De como o acadêmico falha miseravelmente em alcançar o Homem Comum. O problema todo do Homem Comum é esse: a incapacidade de deter-se no plano das idéias, viver uma experiência puramente teórica, por mais paradoxal que pareça. Ele quer ver logo os resultados, quer partir pra ação quando não é hora. E, aliás, quem pode saber qual é a hora? Era o que eu procurava explicar ao dono do bar. Inutilmente.

De como tudo acabou inesperadamente comigo cantando pro dono do Feliciano’s Bar “Who Will Save Your Soul”, porque também ele era um desgraçado. Então, eu comecei a cantar, arriscando inclusive um falsete:

People living their lives for you on TV
They say they're better than you and you agree
He says "Hold my calls from behind those cold brick walls"
Says "Come here boys, there ain't nothing for free"
Another doctor's bill, a lawyer's bill
Another cute cheap thrill
You know you love him if you put in your will
Who will save your soul when it comes to the flower
Who will save your soul after all the lies that you told, boy
Who will save your soul if you won't save your own?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Paul Newman - Uma Retrospectiva

Sábado, a nobre arte da parrudagem sofreu um golpe letal. Paul Newman, ator norte-americano e mito nas horas vagas, morreu de câncer no pulmão, aos 83 anos. Sério, top-4 dos cools da era pós-Classic Hollywood, ao lado dos pouco importantes Marlon Brando, James Dean e Steve McQueen. Basicamente, todo homem que nasceu depois de 1950 tem tentado ser como esses quatro, lógico que falhando todos miseravelmente no final. Mas ao invés de tentarmos ser Paul Newman e aguentar uma saraivada de porradas do George Kennedy e ainda nos mantermos em pé como ele fez no Rebeldia Indomável, que tal admitirmos que somos uns franguinhos, e homenageá-lo, recolhendo-nos à nossa insignificância? Todos em pé, pois agora vem a retrospectiva Paul Newman. Que momento. Que vida. Que Bernie Mac. Er, quer dizer, que Paul Newman.

Gata em Teto de Zinco Quente. No melhor estilo Tennessee Williams, Elizabeth Taylor estava necessitada, e querendo chamego. Newman não. Era quando ele quisesse, na hora que ele quisesse, e com quem ele quisesse. Entenderam? Por isso, Taylor saiu de mãos abanando. Outro homem seria sido tachado de maricas por perder tamanha oportunidade. Newman não. Quem era louco?

Desafio à Corrupção. No filme de Robert Rossen, Newman mostrou que a sinuca, normalmente associada aos tiozinhos cachaceiros e gordos, poderia também ser um troço perigoso. Fast Eddie Nelson jogando legal, o jogo da mesinha e o jogo da vida também. Bolas na caçapa, socos na fuça, e um George C. Scott arregando no final. Apelão? Não. Na cara de Newman vocês não diriam isso.

Rebeldia Indomável. Cool Hand Luke. O sangue e o inferno. Depois desse filme, todo machão começou a querer apanhar e ficar de pé. Para depois ir chorar na cama da mamãezinha. Newman? Ha ha. O inferno era seu velho conhecido. Brad Pitt aprendeu direitinho a lição, como vimos no Clube da Luta. Será, mesmo?

Butch Cassidy. O final, depois imitado no clássico sapatão Thelma e Louise, poderia sugerir uma certa, digamos, atração velada e fatal entre Butch e Sundance Kid, a velha simbologia boiola do oeste e dos cowboys, Brokeback Mountain style. Não, não, não. Na cara de Newman, ninguém nem respiraria pensando tamanho absurdo. Na do Robert Redford são outros quinhentos, o cara tá vivo ainda e sempre fez o tipinho "homem sensível". Lógico que depois, quem fizer isso terá que se ver com Paul na outra dimensão. O risco é de vocês.

Golpe de Mestre. Os incautos sempre imaginam ser esse uma continuação do Butch Cassidy, já que foi feito poucos anos depois e contava com Paul Newman e Robert Redford dirigidos mais uma vez pelo George Roy Hill. Tonhos, o filme se passa na Chicago da década de 30, auge da decadência americana pós-crash de 29. Quem falasse uma bobagem dessas na cara de Newman...

Inferno na Torre. Filme longo, chato e exagerado. Mas os dois protagonistas eram Paul Newman e Steve McQueen. Sério, com esses dois era "bom dia, Senhor" e depois olhar para cima, para aqueles que dessem valor às suas vidas. Eles mandaram os roteiristas escreverem o mesmo número de palavras nos diálogos para os dois, somente para eles poderem disputar de maneira justa quem seria o melhor ator. É parrudagem demais para nós, homens comuns.

Grupo de humor inglês Monty Phyton. Não, Paul Newman não fazia parte dele. Não, ele jamais participou do seriado de televisão, dos filmes ou dos especiais. Não, não se sabe qual era a opinião dele a respeito do grupo. Por que então eles estão aqui? Porque eles eram engraçados pra cacete. Pra dar uma descontraída, sabe como é, o clima anda tenso e triste demais nesse post.

O Veredito. No filme de Sidney Lumet, Newman oferece uma das três atuações de cachaceiros mais lembradas da história do cinema (as outras duas sendo o Ray Milland no Farrapo Humano e o Jack Lemmon no Sonhos do Passado). Não que alguém fosse chamá-lo de pau d'água na cara dele. Diríamos apenas, "nossa, Senhor Newman, eu nunca vi uma atuação tão realista de um alcoólatra! O Senhor foi tão perfeito que até dá pra acreditar que é chegado numa birita na vida real!". Nessa, não ficariam nem os pensamentos na cabeça do infeliz. E cadê a Charlotte Rampling? Era uma coisinha meiga essa atriz.

A Cor do Dinheiro. Continuação forçada do Desafio À Corrupção, 20 anos depois do filme original. Divide com Gangues de Nova Iorque o título de pior filme feito pelo Martin Scorcese. Mas rendeu a Newman seu único Oscar, entre as 10 indicações que recebeu na carreira. A Academia pode ser tudo, menos louca. E Newman tentou ensinar a arte da cooleza e da parrudagem para o Tom Cruise, mas sabe como é, o cara tem que nascer com isso dentro de si. Se não, toca pra cientologia, que é o oposto do cool.

Na Roda da Fortuna! Os Irmãos Coen puderam contar com Newman quase de graça, já que ele era fã dos filmes da dupla. Provavelmente foi a escolha de ator mais acertada na história do cinema. Newman humilha em toda cena que aparece. E ninguém foi louco o bastante para tentar mudar isso. Tim Robbins foi de uma subserviência sábia

Estrada da Perdição, último filme live-action protagonizado por Newman, rendeu também sua última indicação ao Oscar. Mesmo com 76 anos de idade, ainda sim Newman provocava temor nas arcadas dentárias alheias. É pra quem pode, não para quem quer.

Carros. Não, esse não é o Paul Newman vestido de carro vintage. Seria uma posição muito desconfortável para um senhor de 80 anos de idade. Newman apenas emprestou sua voz para o carro ai em cima. Última vez na qual sua voz foi ouvida no cinema, quase cinquenta anos depois do começo de sua carreira. Não que alguém fosse louco de chegar nele e falar, "nossa, véio, ainda está nessa de fazer filmes? Vai pra casa jogar bingo!". Geração após geração aprendia com louvor a lição: com o Paul Newman é sempre bom manter o respeito, conserva os dentes. D2!

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Para finalizar, gostaria de dizer que a persona cool-não-ligo-para-nada-e-se-você-tiver-algum-problema-com-isso-vem-e-fala-na-minha-cara não correspondia ao verdadeiro Paul Newman, que era um notório gentleman e ativo financiador de obras de caridade, ações humanitárias e movimentos de minorias. Não, eu não arreguei pra ele não! Não falem uma coisa dessas! Tá, tá bom, vocês venceram. É que, tipo, vi ontem mais uma vez o Rebeldia Indomável e bateu um medão... Sim, Senhor Newman! O Senhor tem razão, Senhor Newman! Sim, eu sou um moleque idiota, Senhor Newman!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Post com fotos de Ashley Judd

Hoje eu vi, no metrô, um advogado segurando Terra Fria, aquele filme com a Charlize Theron. Sabia que era advogado porque, além do DVD, carregava uns três livros ruins e, o principal, a certa altura da conversa com uma moça ok, ele disse que alguma coisa era improcedente. Nessa hora, eu disse “Ah, tá”.

Aqui uma foto da Ashley Judd, que eu acho um tesouro.

Mas Charlize Theron merece um parágrafo.

Mais de uma vez vieram me falar da beleza de Charlize Theron, dizendo que era ideal etc e tal. Sabe, já tive uma namorada que era a cara dela. Chamava-se Vanessa e tinha cara de esquilo, pelo que eu me lembro. Mas, então. Charlize, filha de Charles e Gerda Theron, nasceu em 7 de agosto de 1975, em Benoni, África do Sul. Uma boa cantada pra se usar com ela é: “Sonhei com você essa noite, neném”.

Mais uma.

Mas de volta. Me preocupou o seguinte: o fato de os advogados de hoje estarem trocando o vade mecum por filmes de tribunal. Eu, por exemplo, já seria bacharel. Essa semana vi Tempo de Matar, só pra constar. Aquele discurso final do Matthew McConaughey é de deixar a gente arrepiado. “Agora imaginem que essa garotinha é branca!” – e lambe o beiço melado de suor e lágrimas. Chocrível!


E aqui outra.

Terra Fria não é tão contundente, principalmente para aqueles que estão acostumados a filmes contundentes. Trata-se de um drama sobre um processo por assédio sexual movido contra uma empresa mineradora de Minnesota, Estados Unidos. (O grifo é do autor, a fim de auxiliar estudantes de Direito que freqüentam este blog.) Nele, Charlize Theron é uma mulher de fibra que aparece às vezes bem esculhambada pra gente não ter dúvida da fibra. :oP

domingo, 28 de setembro de 2008

Ainda os homens do amanhã

Sábado, 14 de fevereiro de 2047. 13h26. Eu estou em apuros, mamãe. Acabei de chegar em Buenos Aires e não me lembro onde mora o tio Val... Ô, sim, lembrei. Tá bem. Te ligo quando chegar lá. Beijo.

14h41. Oi, mamãezinha, cheguei. Estou bem. Tio Val também. A nova cabeça de Gustav Mahler que colocaram nele, apesar do ar severo e das novas mas esperadas fixações com a morte, lhe ficou muito bem. Prefiro-o assim, realmente. A senhora tem de conferir. Tia Marta é que não se conforma; discutem o dia todo porque a cabeça cheira esquisito, e quando brigam, ela começa a gritar “Sinfonia dos Mil, Sinfonia dos Mil!”, e ele quer morrer.

Maman aos 14.

Segunda, 16 de fevereiro de 2047. 20h51. Acabei de voltar do Museu. Ouvimos algumas gravações do que era música há 30, 40 anos. Um horror. Um dos fragmentos, intitulado "Bildam n° 14", devo confessar que era chatíssimo, tinha quatro minutos que pareciam se estender por horas. Tá, o interesse arqueológico, pff. Agora entendo o ditado de que “civilização e energia elétrica são incompatíveis”. Por Diomedes, pensar que já fizeram música com computador. Computador, mamãe! Graças ao bom Calímaco, abandonou-se a guitarra elétrica, a bateria eletrônica e outras obscenidades mais.

Quinta, 19 de fevereiro de 2047. 17h03. Desculpe a demora, é que estive envolvido com a caça a coalas, que se tornaram uma praga nas pradarias. Ah, a senhora sempre me fala de amor. Estou vendo uma moça chamada Helena, muito dócil e prendada. Acho que a arrematarei hoje à noite. Pediram $15 por ela, mas eu não tinha trocado comigo na hora. Mandei reservar. Me deseje sorte, maman.

Me (third from the left) and my mates at... rsrsrsrs Love u guys!

Sábado, 21 de fevereiro de 2047. 11h23. Ô, mamãe querida, estou correndo hoje. Mais tarde, tio Val – que agora insiste em falar alemão, vá bem – vai reger um coro de setecentas crianças carentes entre 21 e 37 anos, todas sem as presas. Lindas. Acredita que ainda não me acostumei com as cebolas daqui, que todos dizem ser as melhores. Ainda me sangra o nariz, mas dizem que é normal. Ah, a tal Helena era uma bela de uma enrascada. Tinha os olhos castanhos, mamãe. Castanhos! Não tinha reparado na hora. Por sorte a senhora que me atendeu era honesta e gentil, e me mostrou devidamente todas as características da moça. Claro, certamente previa devolução futura, sob protestos e reclamações, de que eu não a pouparia. Enfim, ainda espero o amor...

E todo o mundo tem o seu own private dâimon.

sábado, 27 de setembro de 2008

Sweet about me, nothing sweet about me

Quando parece que tudo vai dar errado, começo a pensar na beleza de Claudia Abreu, que é brasileira e atriz, duas coisas que são absolutamente terríveis justamente por poderem ter sido tão boas; provavelmente num outro mundo. E a participação dela no pior e o fato dela continuar sendo tão bonita, meu, acho que sou um romântico.

Fiz um trato com a Martha Suplicy que era o seguinte: se ela não mostrasse a cara durante a campanha ou mesmo depois, votava nela, apesar de tudo. Porque no começo eu estava com essa esperança de que ela não apareceria nenhuma vez. Mas ela descumpriu o nosso trato, desfilando com o surrado tailleur petista e falando que o fato de ser mulher gera preconceito, daí que, se ela se divorcia, então é vagabunda. E eu fiquei sensibilizado nessa hora. Ah, a sociedade paulistana: conservadora e machista. Malufista. E não perde um programa da Hebe.

Ficar sensibilizado por causa de um político – um que é por acaso uma mulher de garra, que diz o que pensa – é como ter pena do Dunga, porque, coitado, o povo brasileiro cobra muito dele. O gênio peripatético do leitor certamente não ignorará como sofismamos no período anterior.

Ser autêntico, dizer o que se pensa. A inversão dos valores. Nietzsche, atacando Sócrates, reclamava que a dialética é uma grosseria; que era indigno argumentar. Mas era ateu. E era também indigno ser ateu. Como não tomar banho ou falar de boca cheia. Richard Dawkins não é o capeta; só alguém que arrota à mesa.

Quando tudo fica feio e ruim, aí tudo fica bonito e legal.

Claudia Abreu civiliza o estilo, pra eu, falando de eleições, envilecê-lo. Sócrates, após ser condenado à morte pelos quinhentos, assim finaliza seu discurso: “Mas agora é hora de partirmos: eu, para morrer; e vocês, para viver. Quem de nós vai para melhor é a todos inaparente, mas não ao deus”. Pois eu queria que nos importasse ser políticos como o era Sócrates: sendo teóricos e, portanto, fazendo da lucidez, que costuma quase sempre vir da reflexão, nossa prática em relação ao cachorro correndo atrás do próprio rabo, a.k.a. mundo das pessoas ser humanas. Porque ser lúcido é olhar o cachorro, e só assim, o que não é um truísmo, porque eu sei que tem muita gente querendo ser o cachorro. (E a forma de dizê-lo é truncada porque precisa.)

Mas também sei que tem gente que defende lucidez no cachorro. Relativistas, é claro. Mas se depois de ouvir os últimos quartetos de Beethoven, ainda continuo achando felicidade em ouvir Gabriella Cilmi cantando “Sweet about me”, como não ser um relativista? Como não justificar posições contraditórias? Mas é culpa da televisão, e de Bergman em DVD. A gente acaba com sensibilidade artística de comercial de desodorante.

Bergman em DVD: o cúmulo da civilização. Em todos os sentidos. Entenda como quiser.

Mas conservadores é que acham bom ser lúcido. Eu acho.

Essa Gabriella Cilmi, ela é um pão. (Isso de dizer que alguém é um pão: só cabe pra quando o dito pão é homem?) E a maquiagem e a produção do clipe induzem o pobre marmanjo à pedofilia sem culpa, disfarçando ainda mais os 16 anos da menina, esses 16 anos de hoje em dia, na base de muita proteína na alimentação. O que faria Sócrates?

Também os homens do amanhã dirão que não sabiam?

E a velha questão se ainda é pedofilia se tem 16. Os que dizem “já” – “se tem 16” – se entregam nessa hora. E como os lamentamos, tsc, tsc, tsc. Mas são os homens do amanhã que hão de decidi-lo, se é, a partir de critérios o mais objetivos possível.

Mas e você, caro leitor, que tem 20 e poucos, poucos... e namora uma colegial, que pensa? Nabokov era Humbert Humbert, como Flaubert Madame Bovary? Ou Lolita? Aliás, Flaubert era Madame Bovary?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sobre o show da Madonna e Lobos

É isso ai, turma. Em Dezembro, a garota material que vive num mundo material virá à terra de Machado e Alencar pela segunda vez, para fazer cinco shows no Rio de Janeiro (onde tem o Corcovado) e em São Paulo (onde tem o Fura-Fila). Que delícia. Para entrar no clima de tamanho acontecimento pop, preparo aqui um guia completo sobre o show, para vocês que querem ir, mas não são familiarizados com o universo da diva cinquentona. Bruaca!

Sobre o show
Os ingressos são mais caros que a fome. As filas para comprá-los são maiores que as de sopão de mendingo. O povinho descolado que se interessa pelo mundo fashion infestará as fileiras do Maracanã e do Bambódromo, ops, Bambineira, er, ops, quer dizer, Morumbambi, er, ups, tá, tá, eu falo o nome correto, Morumbi (mas deveria chamar Vila Sônia, verdadeiro bairro no qual se localiza o estádio do São Paulo Futebol Clube). Definitivamente, não é um show para o povão, tipo a Ivete no maraca. Mas se você for do proletariado e estiver arriscando guardar o salário de cinco meses para poder comprar ingresso para o show, eis algumas informações para você não passar vergonha quando for paquerar aquela menina riquinha de Moema (ou da Tijuca, se você for carioca) no meio do show. As meninas também, logicamente, se quiserem arrumar um riquinho, vão em frente. Sim, é uma excelente oportunidade para os alpinistas sociais finalmente tirarem a barriga da miséria. Show da Madonna, também um evento de cunho sociológico.


Parte do show que será visto no Brasil. Ou, como diria o outro, Madonna brincando de Príncipe Adam.


Sobre os discos da Madonna
O disco lançado nesse ano e sobre o qual toda a turnê está baseada, Hard Candy, é um lixão. Não dá mais para aguentar os Timbs (Timbaland e Justin Timberlake) assombrando todo disco pop lançado nos últimos anos. Chega. Se houver no show mais de duas canções dessa porcaria, vocês já sairão lesados, e deveriam cogitar pedir a devolução da grana. Se houver mais de duas canções do disco anterior, Confessions on a Dance Floor, que também era pior do que bater na mãe, vocês sairão mais lesados ainda, e poderiam cogitar um processo criminal contra a produção do show. Se houver cinco segundos de qualquer canção do antepenúltimo disco, a tragédia grega American Life, vocês deveriam cogitar o suicídio, esse subestimado. É, como se pode ver, a carreira da Madonna anda de vento em popa. Sugestões para a bruacona não sacanear os fãs brazucas e fazer um show minimamente decente: tocar o Like a Prayer inteiro, metade do True Blue, algumas canções do Erotica (mas com sacanagem!), Like a Virgin, Material Girl, Bordeline, Vogue, Ray of Light e, tá, vai, Don't Tell Me, musiquinha graciosa que salvou o Music. E, pelos céus, NENHUMA música do disco mais chato da história da humanidade, Bedtime Stories. Se isso acontecer, quebrem tudo! Sério, taca pipoca na moringa da véia. E dá-lhe coro: BRUACA! BRUACA!


Sobre a carreira cinematográfica da Madonna
Hahahahahahahahahahahahahaha! O Framboesa de Ouro agraciou a nossa diva pop com o título de pior atriz do século XX. Justíssimo. Mas se você quiser se exibir, diga para a mina da Vila Madalena a qual você estiver dando em cima que a Madonna é casada com o Tarantino inglês, o Guy Ritchie. O quê? Eu disse Tarantino inglês? HAHAHAHAHAHAHAHAHA! Eu não me aguento. Um brinde para todos aqueles que acharam Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes uma obra-prima. É, se hoje em dia até privada no meio da Avenida Paulista é considerada arte...


Sobre a amizade dela com o Michael Jackson
Eles foram juntos a uma cerimônia do Oscar em 1991. De mãos dadas e tudo. Ela achou ele esquisito. Ele achou ela velha demais para os, er, digamos, padrões de idade dele. A amizade terminou assim, intensa e breve como uma chuva de verão. Pena.

Não, ele não pegou. Com toda a certeza desse mundo.



Sobre ela e o Prince
Ele ajudou a Madonna a escrever uma canção no Like a Prayer, a bela Love Song. E foi só. Pena.


Sobre ela e a Bjork
A Bjork compôs a canção título do horrendo Bedtime Stories e ajudou na produção de outras faixas (o resto ficou por conta do péssimo produtor Babyface). Mas isso não importa. O que realmente conta é que na época existiram rumores de um possível caso amoroso entre as duas. Cole aqui então sua piada de lesbianismo favorita. Mas ficou nisso apenas. Pena.

Sobre ela e o Elton John
Pouco tempo atrás o Elton John criticou a Madonna, dizendo que ela não cantava ao vivo nos seus shows e sempre fazia uso de playbacks. Disse ainda que por isso ela não mandaria mais cartões de Natal para ele, mas que ele estava pouco se lixando. Depois ele se arrependeu e disse ser um falastrão, e que iria pedir desculpas para ela. Não sabemos se ela aceitou ou não, o que não deixa de ser uma pena.

Sobre ela e a Cabala
Madonna é adepta dessa "religião". Irrelevante. Pena.

Sobre ela e a Gwyneth Paltrow
Eram amigas, mas a amizade terminou porque a Paltrow disse não aguentar o estilo de vida Madonniano, as Cabalas e tudo mais. Sei. Cano alto brabo que acabou mal. Paltrow ficou tão arrasada que apelou para o coxinha-mor, Cris Martin. Dignidade? Necas. Pena.

Sobre o livro infantil que ela escreveu
Pais que comprarem um livro infantil escrito pela Madonna para os seus filhos deveriam levar umas bicudas nos coturnos. Agora, se eles comprarem o outro livro dela, o Sex, para dar uma levantada no casamento, ai eu dou o maior apoio. Melhor do que ir em terapias de casal.

Cala a boca, criançada, que eu tô falando!


Sobre ela e o aquecimento global
A Madonna finge que se preocupa com isso, nós fingimos que achamos a preocupação dela sincera, e todo mundo fica feliz.

Sobre ela e o conflito Israel-Palestina
Não existem informações oficiais sobre a opinião de Madonna em relação a esse conflito.

Sobre ela e o conflito Rússia-Geórgia
Não existem informações oficiais sobre a opinião de Madonna em relação a esse conflito.

Sobre ela e a eleição americana
Madonna é pró-Barack Obama. Pegou mal quando ela mostrou num vídeo na abertura da turnê que vem ao Brasil em dezembro uma montagem com o Obama junto com Gandhi e outros símbolos da paz, e o John McCain junto com Hitler e outros símbolos do mal. É, de sutileza e política a Madonna realmente entende. Por essas e outras que a campanha do Obama anda de mal a pior. Democratas, sempre prontos para jogarem na privada as chances que aparecem.

Sobre Madonna e Lobos
Ela não estava no filme, nem tem qualquer tipo de relação com o Clint Eastwood. Mas ela foi casada com o ator principal. O que me lembra de entrar no último tópico, que é...

Sobre ela e o Sean Penn
Madonna e Sean Penn foram casados por um curto período de tempo nos anos 80. Casamento esse que foi marcado por uma cobertura insana da imprensa, tiros do doidaço Sean em helicópteros de paparazzis no dia do casamento, e agressões físicas de parte a parte (parece que eles adoravam trocar uns tapas). Legal ver o Sean Penn bancar o pacifista hoje, e lembrar que ele adora dar uns tapas em mulheres e atirar por ai. Mas isso ficou no passado, e hoje eles são amigos. São mesmo? Vocês que me dizem.

PORRADA! PORRADA!


Para encerrar, dois Top-5:

Piores músicas da Madonna:
5-Take a Bow
4-Secret
3-Bedtime Stories
2-Frozen
1-American Life


Melhores músicas da Madonna:
5-Live to Tell
4-Ray of Light
3-Open Your Heart
2-Vogue
1-Like a Prayer


Obs: dedico esse texto à minha irmã, que faz aniversário hoje e é fã da Madonna. Come on, Vogue, let your body move to the music!

sábado, 20 de setembro de 2008

Brothers, Casa dos Artistas, Roberto Justus

Silvio Santos é um cara esperto. Poucos não admitem isso, até eu, pra quem pensa que nós nos nutrimos de boa literatura e canal de filmes cult, gosto de zapear bastante pelos canais da televisão aberta, sobretudo quando esqueço a conta da Sky escondida em algum canto. Voltando, o nosso amigo do Sbt é um cara deveras sábio: lembro que muito antes de Big Brother 7 e tramas desenrolando por baixo das cobertas na globo. Nosso Sílvio lançou um "genérico" do grupo holandês, mas com um diferencial: nada de idiotas desconhecidos e gostosas  querendo aparecer, pelo contrário, tínhamos alí velhos conhecidos esquecidos oriundos de besteiróis da década de 80; músicos apagados, atores esquecidos, coquetes já nem tão reluzentes. O sumo de outrora, um sucesso passado agora remixado para as novas gerações e mais: seriam todos como eles realmente são, sem falsas e péssimas interpretações. Se bem me lembro até ser pressionado pela Endemol e a cia do senhor Roberto Marinho, a empreitada de nosso amigo ia muito bem, era divertido também; pois, ainda tinha o senhor de cerimônias bilhonário de outro muitas personalidades interessante, sobretudo o tal do Supla.

Nossa amigão em dos seus momentos mais descontraídos no seu programa dominical

Roberto Justus é um cara com bastante grana. Um homem letrado e já falei que tem bastante dinheiro? Percebendo a atual eclosão dos reality shows resolveu se divertir um pouco aproveitando a tendência. Mostrar os erros e mandar os outros embora da empresa era um hábito corriqueiro de nosso mecena publicitário; cara legal, contudo, nunca tolerou incompetentes, ainda mais nas suas empresas que trabalham com quantias gigantescas de dinheiro; em algum momento percebeu que poderia atuar da mesma maneira em cadeia nacional através de um programa que simulasse suas empreitadas, lógico, sem comprometer seu próprio conglomerado, então o nosso homem de madeixas brancas bem cuidades deixou-se levar pela mass media, mas quem disse que coordenar um programa sobre aprendizes era seu intento? Ele queria música nas suas veis, mostrar todo o seu lirismo, aproveitando da sua imagem na televisão, demostrar seu lirismo exacerbado através da música.

De dois homens endieirados, chegamos, através da musicalidade, em um menos milionário, contudo com a mesma verve para o estrelato: Supla. O amigo cabeludo que nos divertia apaixonado pela garota japonesa enquanto ensaiava seu triunfo nos corredores da Casa dos Artistas, nos divertinho e nós fazendo verter lágrimas modestas. Era aquele que, num futuro próximo, viria a ter seu próprio programa, quiça uma rede de televisão junto com uma agência publicitária.

Do seu álbum com uma publicidade agressiva para os reality shows até o seu próprio programa, quiça a prefeitura em pleitos futuros? o governo?

O Charada Brasileiro enfim deu seus primeiros passos rumo a seu domínio midiático: resolveu juntar as bandas com seu irmão, também de alcunha Suplicy- entretanto mais conhecido como João, e criar um entreterimento digno de final das tardes de sábado. Com o título  criativo de "Brothers" e com o apoio de exibição da Rede TV  conseguiu começar sua grande empreitada nos televisores brasileiros. Sem muita apelação, sem muita crítica social, apenas acompanhado do estilo rock and roll e pitadas de bossa nova. Com a premissa de trazer diversão e interatividade( vc pode conversar com um tal de Betty Net, via chat, nada de telefones e beijinhos pra mamãe) para solavancar o público brasileiro de sua poltrona, resta saber se será de raiva o felicidade... bem wap-bop-loola-Brothers!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Bons tempos onde nossos pais pagavam tão pouco para nossa diversão

Tempos atrás, digo algum tempo atrás, já que não sou tão novo: precisamente em meados da confusa década de 90; entre grunges, mangue beat e o bom e velho michael bay em cada esquina nos divertindo, consigo tirar da memória o pequeno valor que se pagava num cine. Alguém mais lembra?

Banda que influenciou o Nirvana e todos os cabeludos de Seattle

Lembro da lotação concorrida rumo ao Shopping Plaza Sul, afinal lotação estava na moda e era bem barata, coisas pequenas como segurança e bem estar dos passageiros eram deixados de lado em prol da efetividade; gastava-se menos tempo dentro de uma lotação comparado até o tempo de um elevador. Afinal, até a chegada do local de exibição passava-se cinco minutos e gastava R$ 1,60, como na época não existia notas de dois reais assim tudo parecia mais barato.

No cinema em si não existia lugares reservados, numerados, cinemark, multiplex, combos e milhares de salas coladas umas a outras, com sorte tinhamos duas salas com som modesto. Poltronas confortáveis eram bem mais raras. Sentava-se no chão, na frente da tela, se necessário. A pipoca era ruim e os jujubas proliferavam, os esnobes compravam Amandita( com modestos R$ 2,00) e a moça da lojinha com seu mau humor habitual.


Cinema hoje que nos brinda com três películas de arte por apenas R$ 1,00



Os poucos trailers, eram sempre feitos pelo mesmo narrador e ainda assim como conseguiram ser tão bons? O filme que num futuro próximo iria assistir por causa daquele trailer se mostraria uma porcaria que o nosso amigo Bay executaria de maneira mais promissora, mas quando a voz clamava "This summer", pena que no período não podia comprar os ingressos tão antecipados.

No final da sessão as pessoas saiam sem pressa, algumas ficavam para ver mais uma vez, quiça duas, havia tal possibilidade: você pagava menos de cinco reais,caso fosse estudante, e tinha a opção de assistir uma vez mais, se quisesse. No fim, após ver duas reprises daquele lançamento do verão, tinha ainda fôlego para encarar um lanche do grande "MC", finalizando seus gastos em menos de R$ 14 reais, lógico sendo esnobe e pagando uma Amandita para sua namorada.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Wally E - Solidão novamente no cinema

Deveria ter falado sobre Wally E há tempos, verdade. Fui na pré-estreia da animação arrastando minha pobre irmã a tiracolo. Pensei em escrever muitas vezes sobre o filme da Pixar, mas qual seria o tema para "o robozinho que cata lixo"? Consumismo? Capitalismo? Comunicação? A possibilidade de um bom tema sobre o desenho eram muitas, apesar de algumas serem muita punhetação intelectual de terceiros; deixando o filme, o mais importante, no segundo plano.

Dessa vez queria escrever quase que uma resenha atrasada. É, deixar uma informação sobre aquilo que vi e percebi no filme, apenas. Deixar as comparações e todas as intelectualidades de lado, para os post dos meus camaradas espertinhos e mais hábeis com a escrita e com o labor da palavra quase frequente. Sozinho; enfim, eu e uma película animada, apesar de início parecer difícil, pois logo me vi igual o protagonista: desmunido do contacto, mas sem saber qual era o sabor daquele contacto. Resolvi apenas continuar, independente dos resultado: lance de dados e vamos ao filme.

A solidão que denota logo no começo do filme, quando somos apresentados ao cotidiano do robô, é apenas nossa: nenhuma vez ele deixa transparecer que se sinta sozinho, solitário. Ele nem percebe sua solidão, ou semi-solidão, pois tem a presença constante de seu bichinho de estimação: uma barata, talvez a mais imortal de todas. A terra desolada, para ele, é apenas um trabalho, ainda que vejamos com falta de esperança e com certo compadecimento.

A virada no roteiro padrão seria adicionar algum elemento que desequilibrasse o status da situação, clichê e usado em inúmeros filmes de mesma qualidade: um elemento feminino em cena, aquele que dará o impulso ao nosso robozinho; antes de qualquer falação, acho surpreendente como o filme se segura por muito tempo sem nenhum diálogo. O pessoal da Pixar conseguiu acertar nessas cenas, são sensacionais: a narrativa não perde nenhuma vez a mão e temos de volta aqueles filmes mudos acompanhado do piano.

Se a solidão é sentida, até um robô percebe, ela existe. Assim o filme toma seu rumo, onde cada personagem tenta claramente fazer o que acha certo( desde o clone do HAL até o panaca do capitão da nave) e a procura do robô por sua parceira. O filme se desenvolve, ainda que o autor afirme que não é uma alegoria ao consumo, as pontadas são sentidas. Isso porque eu sou um latino-americano; não imagino como foi quando um intelctualóide americano levou seu filho no cinema, lembro de ter pego o saquinho de pipoca e colocado para reciclar.

Como em Kung Fu Panda parece que o desenho foi mais feito para o adultos que para as crianças: em verdade, houve um inversão no esquema do roteiro: antes nas animações as piadas eram destinadas aos adultos, assim poderiam se divertir um pouco. Em Wally E percebe que as piadas, são mais destinadas ao público infantil e também o aspecto de desenho com carater mais infatilizado, mesmo com as revoluções que a tecnologia digital sofreu. Restando a estrutura do roteiro mais adulta, por fim pode-se afirmar que Wally é um filme que os adultos podem levar seus filhos, com certeza as crianças podem até gostar e os pais agora, podem até dizer que gostam de desenhos, pelo menos um.


Um pouco mais?

Entrevista Na Wired

Presto: O curta antes do filme

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Obrigado, mas não fumo.


"Antes todo mundo fumava", disse a mim uma garota na saída da faculdade. Um estalo na minha mente, evento um tanto raro, projetou algumas idéias, outro fator escasso hoje em dia. Meus colegas camaradas concordariam, vendo os filmes do bom e falecido Billy Wilder, ao menos lá, nas terras de Boulevard e cia, havia um grande número de aficionados pelo tabaco

A mocinha fumava, o mocinho fumava, a coquete fumava; uma conversa interessante anuciava-se quando já se pronunciara a fumaça de algum cigarro; se não houvesse cigarros em uma produção em meados da década de 50, colocariam ao menos algum indício, uma pequena mensagem de tabacaria, quiça um diálogo rápido sobre cigarros.

O cigarro figurava como um amigo para horas ruins e solitárias, para começar uma conversa com alguém, para matar o tempo. Poxa, gente legal fumava e dizia boas a respeito: atores, atrizes, pensadores, músicos( todos os jazzistas hipster que posso imaginar), jornalistas célebres e intelectuais. O conceito de maneiro, descolado estava muitas vezes relacionado ao ato de fumar, desde as jazz bands da década de 30 repercutindo na publicidade da época: lembro daqueles ótimos pin-ups do começo da década de 20 e 30 onde apareciam pessoas bonitas e felizes carregando sempre a tiracolo o maço de cigarros e um solto pronto a começar tal benfazeja.

Chesterfield e Camel eram nomes de excelência e deram empregos a desenhistas novatos por longos anos. Logo depois, na década de 60, veio o Tareyton na onda das ótimas publicidades: unindo o cigarro ao prazer, ao momento íntimo. Existia uma cultura tabagista forte que durou da década de 20 até os anos 90. Eventos mais recente são mais fáceis de serem pescados da nossa mente: O bom e velho cowboy da Malboro( que deus o tenha!) e as propagandas descoladas do Free( "seja jovem, seja leve, fume free!").

Não preciso dizer que em algum momento muitos descobriram que o tabaco não fazia muito bem à saúde, apesar das propagandas cheias de grafismos dizer o contrário, nosso amigo cowboy percebeu isso da pior forma; os personagens no cinema pararam de fumar cigarros(mesmo após um noite regada ao sexo), chegou um momento onde nem os vilões mais fumavam(mesmo os de filme noir) e filmes de época feitos hoje em dia também muitas vezes esquecem do bom e velho tabaco. Hoje quando vemos alguém fumando sabemos que a sina do personagem está traçada igual aqueles jovens de filmes de terror que tentavam descobrir o sexo enquanto o serial killer perseguia a moçada com sua serra elétrica: seria aqueles dois jovens que morreriam primeiro, talvez por causa do ferômonios a flor da pele; enfim, o personagem tabagista terá o mesmo triste desfecho, mas não pela serra elétrica, quem sabe ele será o responsável por alguma explosão de um posto de gasolina?

As indústrias tabagistas perderam espaço na televisão, no cinema, no rádio e em todos os lugares que tinham o seu brasão estampado. E não era por causa que utilizavam trabalho semi-escravo em suas plantações( work, work, work!) e sim porque a cada dia que passava algum cientista descobria algum malefício da nicotina, achava metais pesados, achava outra sebstância prejudicial. Até os jornalistas, considerados hi-users, estão começando a deixar o vício; ficando o cigarro apenas entre os saudosos, aqueles que já fumavam, os indies e nos filmes de Jim Jarmusch: seu "Sobre Café e Cigarros" denota levemente a tendência do abandono do fumo, pois nas filmagens mais recentes, daquela coletânea de curtas, muitos nem fumam mais, pior, nem tomam café.

Não faço uma apologia ao tabaco aqui. Só mostrei como o cigarro estava atrelado a uma cultura, a um modo de vida. O mundo não está melhor porque as pessoas fumam menos; trocamos a peça fálica branca, como denomina Freud o cigarro, por outros materiais: Junk-food, drogas ilícitas e o bom velho prozac sendo vendido como se fosse aspirina, quem sabe o Michael Bay não faça um filme espetacular com uma boa atriz e resgate o símbolo do ato de fumar?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Plantão do Progressista - Cavaleiro das Trevas é bombshell!!!

Os fãs do Coringa estão em polvorosa. O Cavaleiro das Trevas (vulgo "mamãe, acho que alguém morreu de overdose na cozinha) é o segundo filme da história a ultrapassar a marca de 500 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias americanas, o primeiro sendo aquele filme do navio lá, que tinha o Leo e a Katinha. Lógico que falamos em valores absolutos, já que em termos relativos a história muda de figura. Mas é um feito, mesmo. Não vai chegar nos 600, algo que só o filme do navio conseguiu. Aliás, o que aconteceu com o mundo em 1998, hein? Toda a humanidade foi ao cinema ver Titanic? 620 milhões de bilheteria doméstica e 2 bilhões de bilheteria em termos mundiais? Insanidade pura! Cadê as molecas Di Capriozetes que construiram isso sozinhas? Estão hoje casadas, velhas, sujas, com filhos catarrentos para criar, apanhando dos maridos cachaceiros e tendo de encarar duplas jornadas pra colocar comida em casa? Isso fica de aviso para vocês, Heath Ledgerzetes. Necrófilas! Pelo menos o Di Caprio está vivaço até hoje, alive and kicking. Ou Don't You Forget About Me? Clube dos Cinco? Gang of Four? Trio? Da-da-da?

Idéias para as fantasias dos seus filhos no próximo Helloween.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Código Hays: 40 anos sem você - Parte 2

O texto a seguir foi liberado para públicos de todas as idades, e eu vou ser sacana e não lembrar vocês dos spoilers que possam existir aí embaixo. Repito, o texto é inofensivo como uma canção do Jonas Brothers. Eu disse Jonas Brothers? "Look me in the eye, say that you love meeeeeeeee"

Trago aqui a segunda parte do texto "Código Hays: 40 anos sem você", imaginando como ficariam filmes contemporâneos se o Código Hays ainda fosse vigente e a pré-censura ainda existisse em Hollywood. As palavras são escassas, mas o sentimento é abundante. Hã?


PULP FICTION

Filmes protagonizados por bandidos não eram permitidos, já que afrontavam frontalmente a moral e os bons costumes. Isso fez James Cagney protagonizar até musicais nos anos 40, ele que era o rei dos filmes de gangsters na era pré-código. Por isso, nada de assassinos protagonizando o filme. Pulp Fiction ia virar um noir épico daqueles, já que o gênero esfumaçado era o mais próximo dos filmes de gangsters que conseguiu-se produzir na Classic Hollywood. Vicent Vega e Marsellus iam virar dois detetives parrudos e pervos, investigando o submundo das drogas em Los Angeles e citando passagens fictícias da bíblia (aparentemente Tarantino se acha tanto que resolveu criar seu próprio verso bíblico)enquanto mandavam os bandidos para aonde jamais deveriam ter saído. A Mia Wallace ia deixar de ser uma mob girl junkie e ia virar uma femme fatalle daquelas, atentando Vega e subvertendo a conduta do nosso herói. As referências à cultura pop, massagens e quarteirões com queijo continuariam lá, já que não seriam necessariamente interceptadas pelo código, por não atentarem contra muita coisa além de direitos de imagem e reputações de casas de bem. E o boxeador do Bruce Willis? Iria se redimir como no filme, mas sem tanta violência, ia ser uma daquelas retomadas de consciência súbitas e baratas que tanto assombravam os roteiristas da era do código. Quanto aos palavrões, esses teriam de sumir. E a cena da dança seria considerada lasciva demais, então em vez do Chucky Berry, Tarantino teria de usar uma música mais lenta e suave. Quem sabe um Wilco, ou um Yo La Tengo? Vega e Wallace dançando ao som de "I'm Trying To Break Your Heart". Sim, ia ser exatamente assim. Não sei se seria necessariamente melhor, mas daria um bom caldo.


É das camaradagens!

MATRIX

Vixe, aqui o bicho pega. Esse negócio da humanidade estar presa num mundo virtual e do pessoal ter de tomar uma pílula para acordar para o mundo real soaria como para os censores? Sim, exatamente como vocês estão pensando: ALEGORIA COMUNISTA! Êêêêêêêêêê!!!! Não,não, não, não, não. Ia ser diferente: Neo se chamaria Andersov, e seria um americano com amnésia morando em Moscou sem saber do seu passado ou de onde veio, com um emprego enfadonho numa das ramificações da máquina estatal Soviética, que um dia recebe a visita de um americano badass chamado Morfeo, que iria lhe mostrar todos os prazeres e delícias do Capitalismo, como as cadeias de fast-food, os filmes do John Waters, o pensamento individual, a liberdade de expressão, as revistas de mulher pelada e tudo mais. Neo e Morfeo seriam perseguidos por um implacável agente duplo da KGB chamado Smith, que teria a mania de chamar Neo pelo seu nome russo, Senhor Andersov. Nós perderíamos as cenas de ação do filme original, já que as leis da física ainda se aplicariam nos dois mundos, mas ao menos poderíamos verter lágrimas e lágrimas com a consagração do ideal americano. E os censores dariam pulos, como faziam toda vez que saia um dos filmes patrióticos do John Wayne. Quando o espirito americano prevalece, a alma se engrandece.

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

Como o Ang Lee não tem a malandragem do Alfred Hitchcock, teríamos sérios problemas. No final das contas, ele teria de colocar uma peruca no Jake Gylenhaal (cujo personagem era obviamente o passivo no filme) alá Quanto Mais Quente Melhor e fazer o filme com um cowboy e uma cowgirl trabalhando juntos na montanha e se apaixonando. Adultério não era proibido pelos censores, então ele poderia focar o choque e o segredo do filme nisso. Mas ele poderia espalhar alguns pequenos protestos. Tipo, dar um nome masculino para a cowgirl, que nem naquele filme chato do início dos anos 90, Três Formas de Amar, ou realçar a estranha preferência da personagem em fazer xixi de pé (obviamente algo feito somente por meio dos diálogos, já que os censores não iriam permitir mostrar ninguém fazendo o número 1 na frente da câmera). Ia ser um lindo diálogo. Há, última coisa: iam proibir o Heath Ledger. Atores deprimidos e potencialmente suicidas eram um problema, vide Montgomery Clift. Um mais positivista - tipo o Ben Affleck-seria o indicado para alegrar os censores. Ia ficar bem legal.



Cadê a peruca? Traz a peruca agora!




CLUBE DA LUTA

A violência era mais aceita em faroestes na época do Código, já que o contexto histórico dos mesmos aliviava as proibições, e cenas de brigas homéricas eram comuns nos filmes de John Ford e Howard Hanks, por exemplo. Obviamente que eram brigas estilizadas e desprovidas de sangue, mas ainda sim eram brigas. Por isso, nada de contexto urbano pós-moderno: Clube da Luta teria de ser um western mesmo. Edward Norton seria um tímido dono de um saloon, sempre pronto para aconselhar e ajudar os cachaçados frequentadores de seu barzinho (o que explicaria a presença do Meat Loaf). Numa típica viagem de trem acabaria conhecendoc um cowboy sangue ruim e destemido chamado Tyler Durden, que o levaria para uma viagem sem volta para o mundo da subversão sulista. Criariam juntos então um Clube da Luta texano, e logo estariam formando uma comunidade fascista de foras-da-lei em choque com as tropas federais. Ao invés do discurso Geração X do filme original, Durden diria as seguintes palavras: "nós somos a escória. Nós somos as párias da Guerra Civil. Nós somos os soldados confederados yankees esquecidos, e nós estamos muito putos!". A reviravolta final seria preservada, já que o uso de transtornos psicológicos não era proibido na era do Código (vide Uma Rua Chamada Pecado). Quem viu o Brad Pitt como Jesse James ia adorar. Seria muito belo.



É claro que você se gosta. Quem não gostaria?


SILÊNCIO DOS INOCENTES

Hannibal não poderia mais ser canibal. Nem uma simples menção nominal do fato poderia ser feita. Até o nome Hannibal teria de ser trocado, pois remeteria diretamente à obra literária. Por isso, Jonathan Demme teria de trabalhar firme nos traços subtextuais do roteiro. Ao invés de Hannibal, poderia colocar um nome tipo "Humanizer" ou "Maneater'. Talvez um diálogo na base do "você já se perguntou como ficaria na base da pimenta do reino?" aqui e um "hoje você está no ponto" ali, entre o Anthony Hopkins e a Jodie Foster, pudesse fornecer mais pistas. E, obviamente, os crimes de Hanniball e do serial killer seriam apenas mencionados, jamais mostrados in loco. Por isso, a cada dois segundos do filme algum personagem teria de repetir que "o Hannibal é mal, pega um, pega geral" e "ele é muito mal mesmo, olhou torto morreu", para delinear toda a maldade do nosso psiquiatra canibal favorito. E a Jodie Foster? Sem problemas, seu jeitão "smart girl" era bem aceito na época do Código, vide Jean Arthur e outras. Mas ia ter de cuidar da imagem, ficar um pouquinho mais feminina, ter um namorado e tudo mais. Uma investigadora solteira e de voz grossa? Sapatão!

OS SUSPEITOS

O final teria de ser mudado. O detetive descobriria a trapaça antes do Kevin Spacey se mandar. Ai ele falaria: "Nossa, você foi muito esperto, me manipulou e quase conseguiu ser solto e fugir, o que me faria ser a piada da corporação por anos. Mas como você sabe, a polícia e o sistema funcionam, o bem sempre vencerá o mal, e eu acabei conseguindo descobrir a tempo a verdade. Por isso, reconheço a sua inteligência, mas você precisa admitir que não é páreo para o sistema penal norte-americano. E que o bem é mais forte que o mal. E que a América não é lugar para meliantes subversivos, e sim para famílias felizes, trabalhadores contentes, donas-de-casa exultantes e crianças felizes como pinto no lixo. Uma bela propaganda de pasta de dente, essa é a América, Verbal Kint. E viva a América."

INDEPENDENCE DAY

Alguém precisa chegar no Rolland Emmerich e dizer o seguinte: "querido Rolando Emérico, eu sei que você não é muito inteligente ou esperto, e que jamais teria descoberto isso por si próprio, e que você não tem muitos amigos que gostassem de você a ponto de te contarem isso, mas, tipo, o Código Hays foi extinto 40 anos atrás. Você não precisa fazer filmes com lições morais babaquentas ou estúpidas defesas patrióticas e puxa-saquentas dos EUA. Aliás, você é alemão, não é? Sério, a Segunda Guerra já não foi sofrimento demais para o mundo? Você não acha que é um castigo grande demais para nós suportarmos? Ok, ok, eu também acho que o seu suicídio seria uma boa idéia. Pode ir em frente, não conto pra ninguém."

TITANIC

Kate Winslet não poderia ficar pelada. Nudez era palavrão para os censores, mas nudez de gordinhas seria um crime indesculpável. Diriam os censores que " se eu quissesse ver gordura, ia no açougue da esquina, pombas!". De resto, sem problemas, se bem que um ou outro membro dos censores poderia implicar com o Di Caprio. " Esse ai parece que gosta de morder a fronha e jogar água pra fora da bacia...". Mas ia ficar por isso mesmo, já que em todos os filmes lançados com o Montgomery Clift eles falavam a mesma coisa.

"On a dark desert highway, cool wind in my hair"

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Código Hays: 40 anos sem você - Parte 1

Atenção: o texto a seguir faz uso de linguagem altamente inapropriada e chula, degradação de valores morais, deturpação da ética e dos bons costumes, glorificação da violência, um certo fascismo cultural e citações frequentes ao uso de drogas e outras substâncias de consumo ilícito. Ah, quase ia esquecendo: também podem haver spoilers, que é a palavra inglesa que identifica a revelação de pontos importantes ou do final das tramas de filmes. De livros também, mas não trataremos de literatura aqui. Bom, mas quem sabe um dia? Nas palavras de Groucho Marx: "cada vez que alguém liga a televisão perto de mim, eu vou para outra sala e abro um livro". Mas o que eu quis dizer com essa citação? Seria certo querer levantar uma batidíssima discussão sobre os malefícios da exposição em massa aos programas de TV em detrimento dos livros? Vocês sabiam que eu fiz um vestibular uma vez cujo tema da redação era exatamente esse? Hein? Hein? Tirei 7,5! Tá bom ou quer mais? Se eu passei? Mistério.

Vocês, assim como eu, devem se maravilhar cada vez que assistem a um filme da Classic Hollywood. O glamour, a galhardia, a classe e a elegância de toda uma era. Mas vocês também devem estranhar a linguagem polida, as cenas de amor resumidas a meras bitocas, os flertes inocentes, a violência estilizada e over, a ausência completa do vermelho do sangue, a inexistência dos palavrões... sim, vocês se perguntam: "mas não é possível, esse Humphrey Bogart sempre anda com a escória nos seus filmes, e o maior xingamento que ele é capaz de proferir é o inofensivo "infernos"? E o James Stewart? Será que passou a vida toda sem jamais usar qualquer profanidade no seu vocabulário? E o Cary Grant, jamais chamou uma das suas pretendentes nos seus filmes de gostosa, pedaço de mal caminho, ou coisa parecida? E os homossexuais, não existiam na primeira metade do século? Eles são uma invenção da Era de Aquário? Nem vou para o lado das mulheres! Juro que não vou! Aparentemente os figurinistas da época não conheciam a palavra decote. Sim, meus amigos, tudo isso deve deixar vocês com uma pulga atrás da orelha. Afinal, o mundo era tão sujo quanto o é nos nossos dias, Segunda Guerra que nos diga. Mas calma que o buraco é mais embaixo.
Resumindo: na década de 20 o cinema mudo estava descabando, com estrelas morrendo de overdoses, assassinatos, alcoólatras, casos de estupro (Fatty Arbuckle) e filmes mostrando cenas de orgia, mulheres nuas, abortos e tudo aquilo que deixava a extrema-direita norte-americana de cabelo em pé na época. Então nos anos 30 foi promulgada a criação do Código Hays, regido pelo sistema de estúdios e que consistia na pré-censura dos filmes , todos avaliados por uma comissão julgadora. Os diretores e roteiristas tiveram de sambar para driblar o Código por longos 38 anos, até a sua extinção, em 1968, quando foi substituído pelo sistema de classificação (maiores de13, 15 e 18 anos) que vigora até hoje, e que deu liberdade total para os filmes terem o que bem quisessem seus diretores, roteiristas e produtores. E como estamos em 2008, já vão quarenta anos do fim do código. Diretores como Hitchcock, Billy Wilder, Ernst Lubitsch, John Ford e Howard Hanks produziram alguns dos melhores filmes de todos os tempos driblando com maestria a ditadura do código. Mas eu fico aqui imaginando como seriam as tramas de filmes clássicos se o Código não existisse, e tudo fosse liberado como o é hoje em dia. Por isso, vou tentar aqui reproduzir para vocês hipoteticamente como ficariam os grandes filmes da época. A quem ficar ofendido: tente lutar pela criação do Código Hays da internet. Esse Progressista vulgar ia dançar bonito. Na semana que vem publico a parte dois, na qual tentarei imaginar como ficariam filmes modernos como Pulp Fiction e Clube da Luta, entre outros, sob a égide do Código. Isso é, se não formos censurados até lá. Esperemos.

CASABLANCA
Se Casablanca fosse feito sem ter de respeitar as vigorosas leis do código, Bogart jamais teria deixado a Ingrid Bergman fugir com o manezão herói da resistência nazista. Nada de "nós sempre teremos Paris". Bogart ia mandar um belo "nós sempre teremos essas duas balas que eu vou mandar na cachola de vocês", e ia tirar um três oitão do bolso e estourar a cabeça dos dois. Depois, o comandante de polícia francês interpretado pelo Claude Rains - que o filme apenas sugere pelos seus modos ser homossexual- chegaria para consolar Bogart, e daria então uma leve passada de mão nele, soltando um "você sempre poderá ter a homossexualidade". Os dois então dariam as mãos, e Claude viraria para os seus comandados, soltando o "prendam os suspeitos de sempre", ao que Bogart complementaria com um "isso é uma coisa bem Verbal Kint, Claudinho!". Risinhos e carícias, os dois entrariam então no avião e o filme veria então o seu the end. Ficaria bem melhor, não é?

Uhm, já entendi...


FESTIM DIABÓLICO
O filme é famoso por mostrar um suposto casal de amigos recebendo convidados para uma festa, enquanto um baú no meio da sala guardava o cadáver de um homem morto pelos dois no começo do filme. Hitchcock não faz qualquer menção para a óbvia homossexualidade dos dois, deixando para os espectadores interpretarem por si próprios. Mas e sem o Código Hays? Vixe, os convidados nem bem estariam chegando, e os dois já estariam lambendo os beiços. O professor interpretado pelo James Stewart soltaria piadas a cada dois segundos, no melhor estilo " em casa de viado, todo espeto é de pau" e tudo mais. No final, sua homofobia seria punida com uma violentíssima cena de assassinato, e então presenciaríamos a primeira cena de canibalismo do cinema. Perderíamos a clássica tomada final com os três esperando a polícia, mas temos de admitir que nada é melhor do que uma boa cena de canibalismo. Seria, sim, um avanço importante para a sétima arte. E ficaria bem melhor também.

A MALVADA
Sério, sem o Código Hays esse filme teria a maior concentração de "you bitch!" da história do cinema. Ia ser um a cada dois segundos. E obviamente, a lascividade da personagem da Anne Bexter iria então poder ser exaltada em toda a sua glória. O filme teria então a exata dose de decadência vulgar clamada pelo roteiro. Uma ceninha de lesbianismo entre a Bettie Davis e a Baxter, no melhor estilo "entre tapas e beijos"? Acho que rolaria. Eu acho que assim ficaria melhor.

"Are you talkin to me, bitch? Want to get some?"


A FELICIDADE NÃO SE COMPRA
James Stewart ia encher os seus filhos e a mulher de porrada na cena anterior à sua ida para a ponte. Nas cenas de brigas no bar, ia ser um festival de palavrões também. A atmosfera do filme ia ser bem South Park, com os habitantes da cidadezinha de Bedford Falls soltando blasfêmias e profanidades a cada dois segundos. E na cena final, Stewart ia pegar todo o dinheiro juntado pelos habitantes da cidade e ia fugir com a família para o norte, dando uma bela banana para os caipiras. Sim, o Código Hays também exigia finais felizes e edificantes para os filmes. Mas sem ele... Seria melhor.

RASTROS DE ÓDIO
O adultério apenas levemente sugerido pelo filme no início seria mostrado em todas suas cores para os espectadores, e o personagem de John Wayne iria no final matar mesmo a personagem da Natalie Wood, como ele disse que faria durante todo o filme. Antes de morrer, Natalie ainda teria tempo de soltar um "eu posso ser um lixo comanche, mas tô na moda!". Wayne, desvairado, soltaria uma rajada de balas em cima dela e do mané que tentou protegê-la e que nos atormentou com cenas secundárias inúteis durante todo o filme. Cenas essas que foram frutos do próprio Código, já que serviam para amansar o tom da narrativa, e se não fosse por ele, John Ford jamais as teria colocado no filme. A morte dos dois seria então a verdadeira redenção. Ia ser uma cena um tanto como cruel, já que Wayne tinha duzentos metros de altura e Natalie era diminuta, mas o choque ia ser real. E não haveria redenção para o personagem de Wayne, que seguiria sendo o racista safado do começo do filme. Melhoraria bastante, mesmo.

Nessa, Wayne já mandava dois balaços.


...E O VENTO LEVOU
Sério, se a Scarlett O'Hara já era uma perva mesmo com o Código, imaginem como ela seria sem a ação dele? Uma dominatrix de fazer a Sharon Stone no Instinto Selvagem parecer a Dorothy do Mágico de Oz. Ficaria muito, muito, mas muito mesmo, melhor. Falando em Mágico de Oz...

MÁGICO DE OZ
O mais simples de todos. Toda a parte passada em colorido no filme, com a Dorothy em Oz, teria uma explicação. Seria apenas resultado de uma viagem daquelas em LSD dela com os seus amigos caipiras-junkies do Kansas. Doidona, ela teria imaginado todo esse mundo colorido, cheio de Homens de Lata, Espantalhos falantes e Leões medrosos, e no final, com o efeito do ácido passado, ela acordaria achando que tudo tinha sido fruto do furacão. Mas a tomada final ia mostrar o comprimido psicodélico, indicando a verdade. Que melhora seria essa.
Semana que vem, a parte 2.