terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Oscar 2009 - Os Favoritos

É isso ai, cambada. A temporada do Oscar já começou. O anúncio das indicações ao Globo de Ouro na semana passada já deram uma prévia dos filmes que provavelmente dominarão a premiação da estatueta bunduda. Como o Fomos ao Cinema tem acesso irrestrito aos círculos de influência Hollywoodianos, além de podermos sempre usar o poder da força e da tortura para conseguirmos certas informações, podemos nos dar ao luxo de vir aqui e dar em primeira mão para vocês a relação de filmes favoritos à estatueta mais cobiçada do cinema. Putz, eu disse "estatueta mais cobiçada do cinema'? Clichês dão um bode do cacete. Mas vamos aos filmes, então.

O Curioso Caso de Benjamin Button - Dirigido por David Fincher (yeah!), estrelado pelo Brad Pitt e a Cate Blanchet
Data prevista de estréia no Brasil: 16 de Janeiro de 2009

A crítica gringa aponta o filme como favorito ao Globo de Ouro, o que por consequência o faz também o principal pleiteador ao Oscar. Dito como um Forrest Gump mais intimista e bem menos ingênuo (o roteirista dos dois filmes é o mesmo, Eric Roth), o que faz todo o sentido quando notamos que Fincher é o Robert Zemeckis da nossa era. Os dois dividem o mesmo brilhantismo técnico, mas o pessimismo cínico de Fincher anda de mãos dadas com a época em que vivemos, em contraponto ao otimismo tipicamente oitentista de Zemeckis. Baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald (o malandrão que escreveu O Grande Gatsby, seus jões!), o filme provavelmente fará finalmente justiça a Brad Pitt e Fincher, que já mereciam faz um bom tempo um reconhecimento que fizesse jus aos seus talentos. Mas como Fincher provoca uma estranha ojeriza na Academia, estou desde já prevendo uma cena dantesca na premiação, tipo um certo diretor enganador, que fez coisas do calibre de Splash-Uma Sereia em Minha Vida e Código Da Vinci, e de cujo filme eu falarei ai embaixo, ganhando o prêmio e deixando o diretor do Clube da Luta chupando o dedo mais uma vez. Esperemos então a estréia do filme, em meados de Janeiro. Mas eu já vou avisando: se a Academia ignorar o Fincher mais uma vez, as coisas vão ficar feias. E se ignorarem ele em favor daquele palhaço do Mente Brilhante cujo nome deve ser evitado, ai então eu vou mandar algumas pernas serem quebradas. Mafiosi style.


Apenas um Sonho - Dirigido pelo Sam Mendes, estrelado pelo Leonardo di Caprio e a Kate Winslet
Data prevista de estréia no Brasil: 30 de Janeiro de 2009

Eu acho incrível. Nós estamos em 2008, e ainda tem gente nesse mundo que acredita no Sam Mendes. Vocês não foram ao cinema (copyrights by Comrades ltda) ver o horroroso Soldado Anônimo? Sério, se aquilo não era um final de carreira, então me digam o que é. E, cá entre nós, sem ninguém ouvir: Beleza Americana não era nada mais além de um bom filme. Como Mendes provavelmente não confiava mais o próprio taco, resolveu aproveitar o aniversário de 10 anos do filme mais chato da história, Titanic, e reunir o Leonardo Di Caprio e a Kate Winslet (sua mulher na vida real) pela primeira vez em um filme desde a breguice do James Cameron. Não contente, chamou ainda a Kathy Bates para a festinha. Só faltou mesmo o Billy Zane e a múmia da Gloria Stuart. Para acabar de vez com a discussão, comunico um fato sobre o roteiro do filme. Ele é baseado num livro do Richard Yates. Ou, em uma versão que eu prefiro mais, Richard "eu queria ser que nem o Tennessee Williams e escrever um monte de peças que virassem filmes de sucesso para eu encher os burros de dinheiro, mas era um chato de galocha e tive que me contentar com os livros mesmo, e só agora, quando eu já fui dessa para melhor faz tempo, que eles resolveram fazer um filme importante com algum livro meu" Yates. É, não deu. Lembram do pai da Elaine no Seinfeld, um escritor assustadoramente mala que faz o Jerry e o George Constanza darem no pé de medo? O sujeito era baseado no Richard Yates, cuja filha o Larry David namorou e acabou passando por um momento parecido quando teve de conhecê-lo. Era um sujeito bem sensível, mesmo. Eu sei, fiz uma digressão brava aqui. Mas eu a achei DEVERAS necessária. YADA, YADA, YADA.


Frost/Nixon - Dirigido pelo Ron Howard - Dirigido pelo Ron Howard - Dirigido pelo Ron Howard - Dirigido pelo Ron Howarrrrrrrrrddddddddddddddd#55#2@3@32#2#23@3@3 - estrelado pelo Frank Langella e o Martin Sheen
Data prevista de estréia no Brasil: 20 de Fevereiro de 2009

Esse filme é dirigido pelo Ron Howard. Repito: esse filme é dirigido pelo Ron Howard. Mais uma vez: esse filme é dirigido pelo Ron Howard. Se você não entendeu: esse filme é dirigido pelo Ron Howard. Ron Howard dirigiu esse filme. Esse filme foi dirigido pelo Ron Howard. Ninguém pode gastar um centavo sequer pagando para assistir qualquer coisa filmada pelo Ron Howard. Ron Howard = lixo. Ok, ok, deixando a paranóia lavagem cerebral-style de lado, devo notar que esse filme refaz as entrevistas dadas pelo ex-presidente-republicano-defunto-norte-americano Richard Nixon ao apresentador de talk-show inglês David Frost, no período imediatamente pós-escândalo de Watergate. A atuação do veterano Frank Langella como Nixon tem sido elogiadíssima, e provavelmente garantirá uma indicação ao Oscar para o velhinho batuta, mas ai lembramos do que o Anthony Hopkins fez no Nixon do Oliver Stone, e com certeza ficará difícil esquecer das comparações. Mas embora o filme esteja sendo elogiadíssimo e tenha grandes chances de indicações, ainda sim preciso relembrar uma coisa para vocês: esse filme é dirigido pelo Ron Howard. Ron "Splash-Uma Sereia em Minha Vida" Howard. Ron "Luta pela Esperança" Howard. Ron "ED TV" Howard. Ron "Código Da Vinci" Howard. Ron "Cocoon Howard". Ron "Willow - Terra da Fantasia" Howard. Sim, eu poderia ficar até amanhã só nisso. E se alguém ai falar que Mente Brilhante é um bom filme, vai ter que falar na minha cara também. Eu tenho 1,90 de altura. A escolha é de vocês.


The Reader - Dirigido pelo Ron How... ops, errei, quer dizer, dirigido pelo Stephen Daldry e estrelado pelo Ralph Fiennes e um montão de alemães.
Data prevista de estréia no Brasil: 6 de Fevereiro de 2009

A vida é miserável. Mas perto dos filmes do Stephen Daldry, ela vira uma festa. Sério. Quem não se constrangeu assistindo ao inacreditável Billy Elliot? Quem não puxou um belo ronco durante o As Horas? Vamos admitir uma coisa: todo ano a Academia coloca entre os indicados um filme de época passado na Europa. Isso é fato. Esse filme se passa na Alemanha pós-Segunda Guerra, e conta a história do reencontro de um casalzinho que passou anos separado, ele um estudante de direito e ela se defendendo de um caso de crime de guerra. ZZZZZZZZZZZZZZ. Sim, você já viu esse filme um bilhão de vezes. Mas deve ser engraçado ver o Ralph Fiennes, que já passa bem longe de ser um jovem, interpretando um estudante. Mas é um filme de época europeu, com uma reconstituição de época impecável, figurinos milimetricamente modelados, e toda aquela pataquada. Eu quero a vanguarda européia de volta! Volta, Bunuel! Putz, eu disse vanguarda européia? Alguém ai me dá um soco na cara, vai.

Gran Torino - Dirigido pelo Clint Eastwood e estrelado pelo próprio e os lábios da Angelina Jolie.
Data prevista de estréia: 6 de Fevereiro de 2009

Em um belo dia, no início dos anos 2000, a Academia acordou e resolveu acreditar que o Clint Eastwood era um baita diretor. Depois disso, nada foi o mesmo. Qualquer peido que o velho solta já ganha duzentas indicações depois. Ok, ok, Sobre Meninos e Lobos era uma bagunça, mas tinha o seu impacto, o Menina de Ouro era um filme certinho, o Cartas de Iwo Jima era um tocante filme de guerra, mas vamos parar por aqui, né? O Globo de Ouro ignorou o filme, dando apenas uma indicação para a trilha sonora, mas não vamos nos iludir. É bem provável que o filme seja lembrado pela Academia, sim, como vem sendo ventilado na imprensa gringa. Veremos, quando o filme estreiar por aqui, se todo o hype é válido. Mas eu ainda acho que tudo vai na conta da bocuda da Jolie.

Slumdog Millionaire - Dirigido pelo Danny Boyle, e com um monte de simpaticíssimos indianos no elenco
Data prevista de estréia no Brasil: não existe uma ainda. Parabéns às nossas distribuidoras, desde já.

Ok. Vamos deixar bem claro uma coisa. Assim como todo ano a Academia indica um filme de época europeu, eles também adquiriram, depois do Pulp Fiction, o hábito de reservar uma indicaçãozinha sempre para um filme independente. Parece que a vaga nesse ano é de um diretor velho conhecido nosso, que começou fazendo barulho com o Trainspotting e que até hoje não mostrou ainda para que veio. Sim, Danny Boyle is in the house. A não ser que vocês tenham achado os dois Extermínios, o Sunshine, o A Praia e o Por Uma Vida Menos Ordinária (argh!) belos filmes. Ok, eram divertidos e tudo mais, mas sempre faltava alguma coisa (ou muita, mas muita coisa mesmo, nos casos do A Praia e do Por uma Vida Menos Ordinária) para qualificá-los como algo além de uma diversão acima da média. Parece que agora, com esse filme feito na Índia, ele finalmente conseguiu. O filme tem sido elogiado pra valer, e é dito até como superior aos outros candidatos. Como não existe uma data prevista de estréia ainda no Brasil, a única chance é o filme ser mesmo indicado para um monte de Oscars para o filme entrar em circuito. Fazer o quê. Torçam ai. Melhor do que torcer para o Ron Howard. Eu disse Ron Howard? Ron Howard é ruim. Ron Howard é uma enganação. Os filmes do Ron Howard fedem. A filha do Ron Howard é bonitinha. Mas ninguém pode casar com ela, pois o legado horrendo da família Howard não pode ser transmitido. Não casem com a Bryce Dallas, seus especuladores ricos do cacete.

Milk - Dirigido pelo Gus Van Sant e estrelado pelo Sean Penn
Data prevista de estréia no Brasil: 6 de Fevereiro de 2009

Gus Van Sant andou pisando na bola depois do bom Elefante, lançado em 2003. Lançou o horroroso Últimos Dias (Michael Pitt como um falso Kurt Cobain? Não, obrigado), o desapercebido Paranoid Park, e ficou por isso mesmo. Agora, volta aparentemente à boa forma com o assunto que mais domina: opressão aos gays. Sean Penn está um ARRASO como o primeiro político abertamente gay dos EUA, que acaba sendo morto depois de muita discriminação. Nossa, que uó, santa! Esse filme é um luxo. Abalou Bangu, Van Sant! Não, isso está errado. Falemos sério agora. Esse é um filme que vem sendo muito elogiado, com um enredo de imenso impacto e com uma atuação que já vem sendo marcada como "definitiva" em termos de excelência da parte do Sean Penn. Eu sempre dizia que esse cara era uma coisa, mona... ui!


Cavaleiro das Trevas - Precisa mesmo dizer?
Data prevista de estréia: já foi faz tempo, Jão! Julho, lembra?

Muita gente boa tem apostado que a Academia dará um lugar entre os indicados a melhor filme para o filme do Coringa. Mas como o Globo de Ouro lembrou apenas do Heath Ledger, dando mais indicações até para o Trovão Tropical (filme mais hilário do ano, mesmo hilário sendo um adjetivo cretino), fica a dúvida. Mas a Academia deve estar vendo no filme do Nolan uma grande oportunidade de audiência. Como a última edição conseguiu ser a menos assistida da história, fica aqui a lembrança. Dizem que o Batman faz uma participação especial nesse filme, mas não sei se isso é verdade. Ok, ok, já parei.

Ron Howard 666. Ron Howard tem um pacto com o capeta. Os filmes do Ron Howard são piores do que a Peste Bubônica. Os filmes do Ron Howard nos lembram que coisas como a Bomba Atômica e a Segunda Guerra Mundial não foram tão ruins assim. Ron Howard não toma banho. Ron Howard era ofuscado pelo Fonzie no Happy Days. Ron Howard acabou com a carreira do Russel Crowe, e agora está tentando acabar com a do Tom Hanks também. Ron Howard é quando o cinema se transforma em algo muito, muito errado. Ron Howard. Ron Howard. Ron Howard.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Buscemi & Proust Investigações

Steve Buscemi e Marcel Proust são dois detetives muito atrapalhados que vivem se metendo em altas confusões. Um dia cruza o caminho deles uma mulher que vai deixar os detetives fora de órbita: Elisha Cuthbert. Essa gata de arrasar está numa grande enrascada com bandidões superperigosos, e esses dois malucos vão ter que ajudá-la e ainda por cima salvar a própria pele.

Buscemi & Proust Investigações: foto promocional para jornais (Proust tingiu só pro anúncio).

Manhã chuvosa. No escritório Buscemi & Proust Investigações, Marcel Proust sentado em sua escrivaninha, com fones de ouvido, cantava “Disorder”, do Joy Division: “I’ve got the spirit, but lose the feeling”, quando chega Steve Buscemi, com uma cara horrível. “FEELING, FEELING, FEELING, FEELING, FEEEEEELING!”

- Pomba, Marcel! Vê se faz alguma coisa. Estive a manhã toda tratando de negócios, e você aqui sem fazer nada! – Proust ouve quieto, os olhos baços como naquelas fotografias dele blasé; Steve vai tirando o casaco e o chapéu de detetive, e depois vai até a garrafa de café: - Pomba, nem o café você fez!?

Tirando os fones, Proust responde:

– É que eu ando mó triste. Além disso, acho que finalmente cheguei àquela intuição artística de que te falo, através da qual vou poder amarrar todos os eventos da minha vida até aqui numa obra imortal de sete volumes que ninguém irá ler – olhos brilhantes, mas estranhamente ainda baços.

- Que ninguém irá ler. Pô, você ainda insiste com essa história de escrever? E como é que ficam os negócios? Estive conversando com Mr. T durante quase duas horas. Duas horas! Tá aqui o relatório que eu rascunhei. – Buscemi, exasperado, joga sobre a escrivaninha de Proust uma pasta amarelada; dentro, apenas uma folha, que Proust lê em voz alta:

“Mr. T, née Theodor Wiesengrund Adorno, não gostou das recentes declarações. Encontrei ele num bar sujo da Baixa Augusta, porque ele queria me dizer que ia pegar quem andou falando mal dele. Ele me mandou dizer: “EU VOU TE PEGAR!”. Quer a nossa ajuda pra apanhar os comédia que andaram falando mal dele.”

Apesar dos garranchos, a leitura fluiu, mas Proust pensou consigo mesmo que Buscemi escrevia muito mal. – Tá, e aí, por onde a gente começa? – respondeu Proust, canceriano, afetando iniciativa e prontidão inexistentes.

- A gente começa por algum lugar quando você tirar a sua bunda daí, parar de ouvir Joy Division e fizer uns telefonemas.
– Mas é que Joy Division me inspira; além disso, você sabe que eu odeio telefone, eu me atrapalho todo.
– Pomba, Marcel, você é detetive!

Foi então que, no meio de mais uma discussão dos dois grandes detetives, a porta do escritório se abriu e entrou a delícia suprema dos fãs de 24 Horas, Jack Ba..., quer dizer, Elisha Cuthbert. Esse é aquele momento em que a câmera corta para os detetives: um olha apalermado, no caso Buscemi; e o outro, mais dissimulado, finge indiferença, no caso Proust, que nesta história não é gay.

Eis a expressão de Buscemi:

Eis Elisha Cuthbert no escritório da Buscemi & Proust Investigações:

Com olhar malicioso, mas num tom inocente, a beldade fala:

- Detetives Steve Buscemi – dirige-se a Buscemi – e Marcel Proust – dirige-se a Proust –, preciso da ajuda dos senhores.
- Por favor, sente-se – Buscemi oferece sua cadeira, que ele arrasta de trás da mesa, e se senta na mesa. – Pode falar. Quer beber algo? Infelizmente não temos café – diz enfaticamente, virando-se para Proust, que entende a indireta e se encolhe bem bunda-mole na cadeira. – Mas pode falar, senhorita...
- Cuthbert, Elisha Cuthbert. Não, muito obrigada – ela responde, doce, doce, e os detetives suspiram bem bichas paradoxalmente por serem bem machos.
- Vou direto ao assunto, detetives. Eu paguei pra escreverem um “artigo” bem ofensivo contra Mr. T. Sei que ele já os procurou.
- CASO ENCERRADO! – grita Proust.
- Você é um idiota – Buscemi fala por todos nós. – Por favor, prossiga, senhorita.

Ela se ajeita na cadeira, tirando um lenço da bolsa, enquanto lágrimas começam a rolar pela pele jovem e lisa de seu lindo e resplandecente rosto. A seda do leço roçando de leve a face branca e pura, apenas as lágrimas delicadas se interpondo ao tecido amarrotado em suas mãozinhas de anjo enluvadas. Ai, ai.

- Mr. T disse que ia me ajudar num momento muito difícil da minha vida. Eu acabei me apaixonando por ele. No começo, ele realmente me ajudou. Mas depois, quando ele começou a fazer sucesso com Esquadrão Classe A, me deixou de lado, esquecendo todas as suas promessas.
- Maldito! – interrompe Proust, sinceramente comovido e alterado.
- Com toda certeza, Marcel, com toda certeza – completa Buscemi. – Nós vamos dar um jeito nisso, senhorita Cuthbert.
- Eu estava sozinha, perdida. Fiquei arrasada. Então, me vinguei. Paguei um moleque pra escrever umas bobagens contra Mr. T, mas a situação, como os senhores vêem, saiu do controle. Ele deixou claro para seus capangas que, palavras dele, “acabaria com a raça de quem quer que fosse o responsável pela produção do falso, ainda que o chiste, mesmo sofrível, seja em si mesmo portador do conteúdo crítico responsável por retirar o véu da coisa”, e partiu a mesa em duas com seu braço poderoso.

Foi então que Mr. T apareceu, o ébano luzidio de seus braços poderosos à mostra.

– Que palhaçada pré-crítica é essa! O gesto atraiçoador movido de homem para homem como pressuposto universal do assassínio!

- Ãããããhhhhh??? - perplexidade geral.

Foto (Elisha Cuthbert perplexa):

Antes de continuar, uma foto de Mr. T durante seu exílio nos EUA, em 1944:


- Não, peraí - me interrompe Buscemi. Então, todos dizem:

- Pô, Fundamentalista, aí já é demais!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Notas sobre notas

Adorno não faz minha cabeça, nem como antagonista. Antes de tudo Adorno é um chato, agora ele tá morto, infelizmente ele fora chato antes de morto, esta situação seria mais aceitável caso ocorresse o contrário: quando há morte somos condescendentes ao defunto, mesmo ele sendo chato, pois morto ele está.

Excluindo as possibilidades de alguém ser chato depois de morto(diga que isso não existe para a máfia e profissionais do ramo), volto aqui para deixar de lado todo essa dialética negativa, herança hegeliano que Adorno leva na bagagem, essa mala que o fundamentalista tanto adora. Ora, no lugar que vamos não precisamos de tanta bagagem assim, meus caros leitores, não, a bagagem que necessitam está já dentro de vocês.

E não sou nenhum Capitão Planeta ou assecla de uma filosofia de auto-ajuda. Digo que até poderia, pois parece que filosofia é tanto futebol como arte é culinária, não é? As coisas se misturam, e Kant agora me dá um tapa na cara quando digo essa frase: "As coisas se misturam". Flap!(barulho de um tapa de um alemão). Verdade, deixei meu imperativo categórico de lado, mas tenho um? Nunca disse isso, enfim, abandonando outra vertente do pensamento clássico alemon e toda as repercussão e influência que Emmanuel deu ao ciclo cibernético e derivados, resta-nos um membro, nosso amigo Hurserl.

Agora volto a minha premissa do segundo parágrafo: pra que diabos você precisa saber algo sobre "Notas de Literatura"? Adorno fala que a pontuação textual aproxima o léxico da música, parabéns, qualquer analfabeto com um pouco de ensino perceberia isso( escrevendo bem menos já que aprendera a escrever faz pouco tempo), como já abandonei o velho Theodor e não é possível se falar de filosofia sem incluir um germânico nos autos; no meu time o capitão seria o bom e velho Husserl, Edmund. Pronto. Está escalado.

Husserl, Walter Benjamin, Flusser, Goethe, Heidegger. Mais alguns e coloco o Sarte para dar os petardos nos penâltis, já disse, filosofia é futebol, agora grite gol, mas antes saia desse torre de marfim e sem usar o maldito elevador.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Pythonesque

Lista honesta das minhas realizações mais importantes e não necessariamente incomparáveis:

Fiz quatro semestres de Grego lá na Universidade sem estudar direito e nunca fechei com menos de 8, porque os professores adiantavam o nosso lado; sei o que é um genitivo absoluto, sei o que é um caso de atração inversa; mas não sei identificá-los num texto desconhecido. Traduzi Isócrates, Górgias, meia dúzia de versos da Odisséia, mas gosto mesmo é de ler Adorno, e não sei alemão, que é fichinha perto de Grego, que se escreve caixa alta mesmo, apesar de haver coisa bem mais difícil, tipo Sânscrito. Sim, Sânscrito: tremei, filisteus.

Fiz a Universidade lá.

Leio Adorno e abraçaria a Teoria Crítica de todo o coração, se não tivesse um poucochinho de bom-senso, aquela coisa mais mal-distribuída do mundo. Mas Adorno é bom porque é difícil de ler, então faz crescer cabelo, exceto nele. Minima Moralia é meu livro de cabeceira quando eu esqueço de ser cristão.

A Carol, minha namorada burra, sempre me pergunta por que eu gosto de coisas chatas. Coisas chatas como filosofia.

As pessoas me perguntam por que eu sempre cito Adorno. Hmm..., porque ele é o mais chato dos chatos.

“O problema do conhecimento é o Édipo do pensamento moderno.”

Mas as modelos sempre me perguntam por que eu gosto de coisas chatas. Coisas chatas.

As coisas não podem ser divertidas. Se forem, algo está errado. Ser divertido é o erro. Daí a modernidade.

Sempre me perguntam de eu citar tanto Adorno. Ora, porque ele é meu inimigo. Ele é o meu superego descartado. Ele é bom, e eu sou mau.

Toda vez que alguém dá razão ao Adorno, cai morto um executivo no mundo. Por isso, todos juntos – “Adorno estava certo”. Ai, que subversivo que eu sou. E depois dizem que ninguém mais luta contra o Sistema, isso, aquele programa da Fernanda Young, com o Selton Mello e o Chiquinho Scarpa, cancelado, pena, pena.

Fernanda Young come cocô e não toma banho. Pronto, falei.

Pra que falar (e mal) de Fernanda Young, meu Deus?

Sempre preferi Filosofia, porque meu coração é feito de sal, mas tenho quedas eventuais para Literatura, durante as quais me tranco no banheiro com O Vermelho e o Negro, e eu sei que essa separação estanque é dose, mas explica bem.

Adoro Grande Sertão: Veredas, que li no ônibus, na linha Rio Pequeno-Ipiranga, os motoristas estão de prova e podem testemunhar sobre o rapaz com o livro grosso na mão; e adoro, porque é das maiores aventuras que eu já li, uma Ilíada em português arrevesado, e é emocionante; e acho o Zé Bebelo o personagem mais, er, legal de todos, mas não estou em busca da brasilidade perdida, não gosto de Chico e não participo de saraus concretistas.

E pulo da cadeira toda a vez que toca as Bachianas Brasileiras na Tupi FM. O brilho, a pompa, a grandeza absolutamente irrefletida, burra: o Brasil em música. Eu curto. Villa-Lobos foi gênio.

Faz uns quatro anos que estou em busca do belo estilo. O belo estilo é como uma panela mágica que fazia sopa pra alimentar uma família pobre de uma cartilha minha de quando eu tinha acho que 10 anos.

O belo estilo também fica bem em fotos de família, com melissas e carne vermelha.

Acho o teclado de “Kiss them for me”, do Siouxsie and the Banshees, uma coisa da ordem do sublime.

O problema das mulheres bonitas é que elas não são só bonitas. Elas insistem em querer ser algo mais. Ouviram falar do algo mais e da necessidade do algo mais e não sossegaram desde então. Algumas querem ser inclusive inteligentes, imaginando que o algo mais é ser inteligente. É um absurdo, um terrível engano. Se eu encontrar o cretino que começou com essa história do algo mais, juro que mato.

"Carácolis, esse post não faz sentido. Que blog ruim!"

Outra distribuidora à Continental apareceu no mercado com um monte de títulos do Ozu até então indisponíveis. O meu protesto, agora. O meu protesto é naturalmente contra o preço: R$44,90. Quarenta e quatro reais e noventa centavos por uma capa cujo, pff, projeto gráfico perde pra mim no Word Art. Quarenta e quatro reais e noventa centavos por legendas revisadas pelo Camarada Disléxico. Agora eu começo a gritar “QUARENTA E QUATRO REAIS E NOVENTA CENTAVOS!”:

- QUARENTA E QUATRO REAIS E NOVENTA CENTAVOS!

- Com licença, senhor. Algum problema?

- Quem é você?

- Eu sou um guardinha qualquer passando casualmente que ouviu o senhor gritando. Algum problema?

- Na verdade, sim. Na verdade, agora são dois. Primeiro que R$44,90 é caro demais pra um DVD da Continental; e segundo, que é inverossímel um guardinha me parar para saber se eu tenho algum problema. Aqui não é a Inglaterra.

- Nesse caso, o senhor está sugerindo que minha validade ôntica deveria ser abjudicada?

- Se o senhor coloca nesses termos..., sim.

- Naturalmente, posso colocar nesses termos e em muitos outros, desde que os esclareçamos previamente. Acho melhor chamarmos Martin.

- Quem?

- Martin.

- Mas quem seria esse Martin?

- Ele é meu primo e FILÓSOFO ALEMÃO.

- Não, peraí. Não precisamos envolver um FILÓSOFO ALEMÃO nisso, não é pra tanto.

- Senhor, devo dizer que, antes de guardinha cuja individuação ontológica é contestável, sou um homem. E minha honra foi maculada, o que exige retratação imediata.

- Nesse caso, eu também chamo Martin.

- Então, eu chamo Martin e Theodor.

- Então, eu chamo Martin e Gwyneth.

- Mulher não pode.

- Gwyneth não é nome de mulher.

O primo Martin em Sussex.

(Intermezzo. O senhor Heidegger, Martin, que podemos ver junto à entrada de uma rica residência no condado de Sussex (desde que ingleses geralmente moram em Sussex), toca a campainha e espera, checando papéis dentro de uma pasta preta. Um cavalheiro abre a porta; vejamos – sim, trata-se do senhor Martin, Chris.

Heidegger, Martin, pergunta a Martin, Chris:

- É o senhor Martin? Chris Martin?

- Sim. Pois não?

- Muito prazer, senhor Martin. Sou Martin Heidegger. O senhor me concederia alguns minutos? Tenho algo a dizer que certamente lhe interessará.

Nisso, a senhora Martin, a.k.a. Gwyneth Paltrow, grita lá de dentro: - Quem é?

- Martin Heidegger, querida – responde o músico, submisso.

- O nazista?

- Não, o filósofo alemão – envergonhado, volta-se para Heidegger: - Desculpe minha esposa, senhor Heidegger. Mas é interrompido novamente por Gwyneth: - Isso mesmo. Ele era nazista.

Chris Martin, muito embaraçado, continua desculpando-se a Martin Heidegger, que procura tranqüilizá-lo:

- Não é nada. É um erro comum.

- Entre, por favor.

Os dois cavalheiros se dirigem para a sala, e Martin, Chris, convida Heidegger, Martin, a sentar-se no sofá fofo que a senhora Martin acabara de adquirir. Simpático, o filósofo comenta: - Muito confortável este sofá.

- Obrigado, senhor Heidegger. Gostaria de beber algo?

- Suco de goiaba, por favor.

- Querida, poderia nos trazer uma jarra de suco de goiaba?

A senhora Martin vem da cozinha receber o convidado: - Olá, sou Gwyneth Paltrow. Martin Heidegger levanta-se e a cumprimenta.

- Além do suco, o senhor gostaria de mais alguma coisa?

- Não, muito obrigado – ela sorri e se vai.

- Mas o senhor dizia... – retoma Chris Martin.

Fim do Intermezzo.)

- É, sim. Gwyneth é nome de mulher.

- É nada. É nome de coisa. Tipo, uma sacola de gwyneths.

- Ah, é? Bom, então além do Martin e Theodor, eu chamo o Schlegel.

- Se você acha que isso vai adiantar, então eu chamo o Owen Wilson. Sempre quis chamar o Owen Wilson pra alguma coisa.

(...)

- Tá, são onze contra onze. Os seus onze FILÓSOFOS ALEMÃES contra os meus onze.

***

Pessoal, esta situação é meramente ficcional, e eu e esse guardinha somos apenas personagens de um post de blog chumbrega. Mas estamos aqui para conscientizá-lo do perigo das chamadas pretensões intelectuais. No fundo, no fundo as pessoas gostam mesmo é de futebol. Isso explica por que a ignorância é a maior multinacional do mundo, como dizia o Chacrinha. Não usem drogas, não fumem maconha, não leiam Nick Hornby, a vida passa depressa. E camisinha sempre.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Gênio de Michael Bay - Parte 1 - A Rocha e Antígona


Uma direção sempre genial. De filme a filme Michael Bay nos brinda com explosões cataclísmicas, estética maravilhosa, roteiros bens costurados, direção de atores sempre eficiente. Enfim, grandes obras de arte que humilhariam até os nossos velhos amigos helenos barbudinhos. E é justamente aonde nosso grande diretor tira as idéias para suas melhores peças cinematográficas; afirmo, pois, foi onde o garoto Benjamin passou suas tardes no gramado da sua casa: lendo. Da costa ensolarada da Califórnia todos seus amiguinhos divertiam-se na praia enquanto ele transitava sua mente pelas maiores peças clássicas gregas e justamente Antígona foi a influência de sua primeira obra de destaque: A Rocha( The Rock [1996]).

Logo no início a trama prende o espectador, não se sabe o que acontece direito, nem mesmo o que vê, mas já se anucia a ação que vingará mais breve onde as duas frentes se digladiarão: a primeira vem através de militares insatisfeitos, chefiado pelo sempre expressivo Ed Harris, pois muito deles não recebem todas as glórias que merecem, pior, alguns nem são enterrados como americanos já que estavam em missões secretas; a outra representa o governorepresentantes, oriundos dessa parte temos uma missiva composta de Nicholas Cage e "o ex-james bond" Sean Connery: o novato idealista e o velho sábio. O esquema composto por estas duas frentes representa a dicotomia indivíduo/coletivo onde Bay sempre demostra que bebeu da fonte de Sófocles: enquanto Antígona/Ed Harris defende os direitos individuais clamando justiça e do outro lado temos Creonte/Sean Connery afim de assegurar sua sobrevivência e o status quo.


O filme elimina todas as bobagens que contêm as tragédias gregas, optando por uma ação desenfreada e diálogos espertos e rápidos; uma mistura do melhor de John Woo com Quentin Tarantino, mas mantém a principal característica das tragédias gregas, ora o bom e velho banho de sangue quando o desfecho se vislumbra. Uma discussão acalorada, e por sinal, muito condizente com militares desobedientes ocasiona a vitória inesperada de um velho espião e um jovem cdf do FBI contra o melhor das forças armadas. Assim sem nenhum erro de continuidade e um roteiro bem costurado. Benjamin Bay eleva a já velha dramaturgia grega trazendo a atmosfera helênica para o pragmatismo americano, mas com certa sutileza que pouco se percebe tal relação

sábado, 29 de novembro de 2008

Elementos para uma História do High-five

[Prólogo à História do High-five entre os Povos do Ocidente, circa este sábado, à tarde.]

Dentre tantos que já pensaram em escrever sobre tantos assuntos que há, jamais houve quem se interessasse por escrever uma história do High-five, tendo eu pesquisado muito e nada encontrado, o que muito me surpreendeu, se não chocou de fato. Porque o High-five é coisa que precede em valor e importância a muitas outras a respeito das quais, no entanto, muitos livros já foram escritos por homens nobres. Foi pensando nisso que decidi escrever esta história do High-five entre os povos do Ocidente porque, se não há livros, não se poderá ler a respeito de assunto algum, seja lá como for. E porque grandes homens praticaram este High-five em momentos que agora e sempre serão lembrados pelo benefício que trouxeram aos homens, uma história do High-five é a história dos homens que o fizeram para que sem o High-five o mundo não afundasse em discórdia e mexerico. Mesmo havendo quem torcesse o High-five e dele fizesse veículo da injustiça e da opressão, porque o que é bom foi feito mal para que o mal fosse muito pior do que é e se mostrasse sumamente mau, como as escrituras dizem. Mas o High-five, todos o sempre souberam desde que há na terra homens, é paz, justiça, amor, fraternidade, união, igualdade, dancinha, liberdade, e porque é tudo isso é que resolvi escrever e assim garantir que jamais outra vez o High-five seja usurpado pelos homens ímpios que há aos montes.

E para que esta história do High-five seja devidamente composta, achei por bem visitar todos os locais onde o High-five foi feito em momentos decisivos, conforme me fosse possível, e quando não, procurei documentos e testemunhos de outros que porventura testificassem quem e por que fez o High-five em qualquer circunstância que me parecesse importante que o tivessem feito, e dessa maneira conferir por mim mesmo a veracidade do High-five. E é nesse grande espírito que é o do High-five que dou fé de que o que aqui vai escrito não é só verdade, como também não mente, e se o faz, é por engano meu; e por isso peço que quem o note o corrija, porque isto me será bem, e não mal, para que o High-five seja conhecido como deve ser, não só aqui, mas em toda a parte em que é feito, e mesmo onde não o é, para que assim passe a ser, e faça o seu bem conforme é.

***


Também o High-five pode ser vítima da institucionalização, esfacelando-se seu espírito de celebração democrático e fraterno. A alegoria imperial nazifascista, tirada diretamente à mente do Führer, sabidamente fascinado pela Antiguidade Clássica, apropriou-se do já apropriado High-five romano. O nazifascismo só se beneficiou em sua mística com o ancestral apelo do cumprimento, cuja origem é incerta, remontando à Palestina abraâmica.


Churchill era adepto do hoje ultrapassado High-two, de natureza aristocrática (note-se que não há contato físico). Não podia imaginar ele que o High-two seria descaracterizado justamente pelo movimento hippie. Imagem oportuna para lembrar que o estabelecimento do High-five contemporaneamente não se fez sem a concorrência de um sem-número de gestos a que, embora exercendo perfeitamente seu papel comunicativo, falta a energia e riqueza simbólica do que se tornaria uma postura face à vida, transcendendo o mero cumprimento.


A recuperação do pequeno Timmie sem dúvida alguma não seria possível sem o suporte terapêutico do High-five, como a comunidade médica vem experimentando com sucesso cada vez maior entre os mais diversos pacientes.

Nesta ilustração extraída de um manual de medicina, ensina-se como fazer o High-five corretamente, de modo a não lesionar qualquer músculo ou prejudicar a coluna, obtendo um efeito eufórico pleno.

A grande influência do High-five sobre a cultura pop. Neste episódio de Seinfeld o High-five é recontextualizado e apresentado como sinal de parvoíce, imbelicidade, inépcia, obtusidade. Era a consagração do personagem David Puddy, intepretado por Patrick Warburton. Nada mais afinado com o espírito democrático e aberto do High-five que a sátira social inteligente.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Mallu Magalhães e Marcelo Camelo - Uma Farsa em dois atos

Folsom Prison Blues

Ato Um: Samba a Dois

Mallu Magalhães chega em casa. Marcelo Camelo está sentado no sofá, ouvindo um disco velho do Weezer no último volume. Mallu não reconhece a banda, mas nota a sonoridade pesada e as melodias babaquentas. Curiosa, resolve perguntar:

Mallu Magalhães: -Ouvindo rockinho, hein, amor? E a sua procura pelas raízes da música popular brasileira? Achei que você estivesse em outra.

Marcelo Camelo: -Faço o melhor do que sou capaz, só para viver em paz

M.M: -Essa capinha azul... nossa, é o blue album, do Weezer! Quando esse disco saiu, eu tinha dois anos de idade, né? Eu realmente estou estranhando, achei que você tivesse amadurecido essa coisa emepebista dentro de si, que tivesse deixado a sua fase ska-roqueira no passado, mas pelo jeito, está tendo um ataque de nostalgia, né?

M.C.: -O mal vai ter fim, e no final assim calado, eu sei que vou ser coroado rei de mim.

M.M: -Ah? Bebeu de novo, amor? Se o meu pai souber... já foi difícil convencer ele que seria uma boa idéia namorar um barbudão com o dobro da minha idade e sem muito gosto para banhos e outras ferramentas de higiene pessoal, mas isso ainda... Olha, eu sei que o seu álbum solo está sendo malhado, o meu elogiado e o do Amarante com o cara dos Strokes também, mas isso não é motivo para desespero. Não é porque você se enfiou nessa persona "compositor quietamente angustiado das bossas-ressaquentas-contemporãneas" que significa que está num beco sem saída. Entende?

M.C.: -Dá-me luz, ó Deus do tempo, dá-me luz.

M.M. -Eu estou te entediando com essa conversa, né? Eu sei que não sou muito madura. Mas olha, se você quiser, eu posso fazer uns desenhos nossos! É, seria legal, desenhar eu e você barbudos, com pêlos em baixo dos braços, essas coisas que fazem a sua cabeça! O que você acha?

M.C.: -Tiro sarro só pra ver se eu consigo despertar o seu amor. Deixa estar.

M.M.: -Ah, eu sabia, amor! Você estava apenas de brinks! Olha, deixa eu pegar o meu violãozinho, você ai com o seu, ai você desliga esse disco feio, que nós vamos compor juntinhos! Já tenho um teminha, mesmo sabendo que você não gosta de compor em inglês, seria algo como "My Beard Love"! O que você acha da idéia?

M.C.: -Eu que nunca amei ninguém, pude, então, enfim, amar! Vai!

M.M.: -Está me mandando embora, môr? Quer saber de uma coisa? Cansei! Fica com a sua melancolia roqueira, que eu vou embora! Fui!


É de lágrima



Ato 2: Tchubaruba

Marcelo Camelo está sentado na varanda de casa, esperando notícias. Enfim, depois de uma espera angustiante, o telefone toca.

Marcelo Camelo: -Olá, amor! Desculpe pelo meu comportamento naquele dia, estava de pá virada. Olha, eu adoraria passar ai na sua casa, se você e os seus pais não se importassem, logicamente. E ai, posso?

Mallu Magalhães: -If you come over i will say tchubaruba

M.C.: -Ok, já entendi, você está se vingando de mim. Isso não é uma atitude madura. Sei que você tem apenas 16 anos, mas espero ensinar você sobre certos aspectos no seu comportamento que denotam uma clara e sensível falha emocional. Vamos crescer juntos?

M.M.: -Well i have to try again. Say papapapapaaaa, for you to understand.

M.C.: -Ok, eu estou bem hoje. Estou muito paciente, com um astral muito bom. Por isso, sinto que tenho toda a neutralidade e calma para poder voltar a dizer que, sim, estou muito incomodado com esse seu comportamento. Nós não podemos responder a comportamentos errõneos daqueles que amamos com uma sublimação tão desproposital. Entende?

M.M.: Old, old sissy, tries, tries, tries, i know he can't.

M.C.: -OK, agora chega! Já deu, mina! Eu era um Los Hermanos, eu apanhei do Chorão, mas eu sou macho! Se o seu pai não te educou, é a minha vez, moleca! Respeite a minha barba! Fala comigo, MORENA! Fala comigo! Diz pra mim, diz! Moleca malvada! Sem criancices, se não faço contigo o que o Dado fez com a Luana!

M.M: -Uhm...Me tá subindo uma coragem... levantar minha bandeira, de tão simples tecelagem.

M.C.: -TALK TO THE HAND!


Dromedário cala. Pena.

Obs: Esse texto é dedicado aos proletariados do sul. Viva o Rio Grande. Viva.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Educativo, apenas:

Mas deixa eu me mostrar antes que as festas venham a me constranger a ser bonzinho, abandonar o estilo arrevesado e passar a escrever como jornalista, isto é, murchinho e acessível, com listas de lugares aonde você pode ir comprar os ingredientes pra uma ceia de Natal bem baratinha e gostosa.

O Word é tão inteligente que sabe o que quer dizer “capitulo”. Tanto que quando eu, que sou bem mais simplesinho que o programa, quero dizer “capítulo”, mas me esqueço de acentuar a proparoxítona, ele fica quietinho, imaginando que eu na verdade quisesse dizer que capitulei. E capitulei mesmo.

A seguir, cenas do próximo capítulo:

Em que tento lhes explicar por que Igor Stravinsky é absolutamente necessário para entender quem somos.



Aqui temos o primeiro link (ah, os precedentes que abro) do YouTube deste blog (porque aprecio pioneirismos), sob protestos apaixonados de todos quantos sempre nos viram como um blog arte, praticamente artesanal e resistente a modinhas, com nojo de Orkut e tudo. Mas descobri o prazer de ver concertos e balés pelo YouTube. E o link é necessário e justificável, uma vez que nenhum de vocês, saudáveis e filistinos, sentirá o mínimo interesse por ver um balé que inaugurou a música moderna, sabe, David Bowie, pós-punk, Britpop.

Trata-se da tentativa pelo The Joffrey Ballet de reconstituir a estréia da Sagração, com coreografia de Nijinsky e cenários de Stravinsky.

A Sagração da Primavera é a música da catástrofe que no ano seguinte se iniciaria com a Primeira Guerra Mundial e que até hoje não terminou, porque finalmente compreendemos, graças a Stravinsky e ao século XX, que a civilização é um adiamento cada vez menos eficaz e convincente de um fim prometido desde o início.

O balé de Stravinsky é a imagem exata do legado do século XX à história subseqüente. A saber, a consciência da catástrofe e um sentido histórico que não é senão uma escatologia. Já não podemos ignorar que sempre estivemos e que sempre estaremos a caminho do desastre. Não é pessimismo, contudo. Pessimista seria dizer que as coisas já foram melhores. É necessário dar ouvidos a Benjamin e rejeitar progresso e decadência, conceitos que se implicam. O que existe é a miséria na qual temos vivido muito bem. Mas que ainda é miséria. E a ruína completa é sempre iminente.

Sensibilidade moderna, de que todo artista deve ser dotado para de fato ser um artista, é isso. E por isso todo político honesto, por mais inteligente que fosse, seria burro: ele quer mudar o mundo, ele acha que pode. Que é só uma hipótese o tempo verbal empregado deixa claro.

Mas não existe redenção. Neste ponto, discordo de Benjamin. Redenção é algo anistórico. Significaria, de fato, o tão falado fim da história. Jesus descendo em glória com seus anjos para julgar a humanidade.

Aliás, o Richard Dawkins que me ler certamente me lançará em rosto o inconfessado estofo cristão dessas considerações. XP



E aos quarenta e cinco do segundo tempo, enfim a beleza. Não, não Hilary Hahn.

Aqui, puro impressionismo meu. Em seu Concerto para violino #1, Prokofiev manifesta o embate entre a emoção intelectualizada, tipicamente moderna, e o arrebatamento senão pela retomada da tradição melódica popular, freqüentemente folclórica.

O segundo movimento disseca essa tradição, cuja melodia é mutilada, servindo suas partes a um procedimento comum aos modernos. Trata-se de destacar o detalhe e torná-lo maior que o todo, provocando o efeito do grotesco recorrente nas obras. Operação que é responsável pelo caráter intelectual da poética moderna. Tanto que a concessão ao belo clássico, o belo por excelência, ocorre apenas a custo de uma elaboração que o argumente. Na peça de Prokofiev surge senão aos dois minutos do último movimento, sob muitas ressalvas. Daí esta definição: É moderno tudo que se veja obrigado a justificar a beleza.

Mais um pouco de arte, agora:


Aqui temos um palhaço fumando num café. É um quadro de Hopper de um palhaço fumando num café. Próximo slide.


Sim. Podemos ver que Yeats tinha mesmo, além do nome, cara de literato. Um homem com essa fisionomia certamente haveria de consolar velhotas com poemas imortais.




Por fim, Vanessa Carlton ao vivo, “A Thousand Miles”, que é absolutamente emocionante, absolutamente apaixonante.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O que ando lendo - Um pouco de quadrinhos

Há tempos que não falo de quadrinhos nesse espaço. Lembro de promessas não cumpridas, resenhas fracassadas, enfim, todos meus projetos de tornar este blog talvez algo que se comprometesse mais com o universo da arte sequencial.

Deixando as mágoas pessoais de lado, consegui, depois de muito esforço, escolher alguns
quadrinhos bem curiosos que ando lendo. Algo de bom gosto, na pior, pelo menos, meu gosto.

Planetary - De Warren Ellis e John Cassaday
Imagine um quadrinho onde os protagonista estão a procura da história secreta do mundo, essa busca é realizada por seres com algumas habilidades sobre-humanas e tais seres, no decorrer da saga, se deparam com situações que remetem a vários elementos da cultura pop do século vinte: de personagens de histórias pulps, teorias de física surreais até personagens bem conhecidos. Inclusive, os vilões da trama, são inspirados no Quarteto Fantástico.

Apresentados os clichês e um pouco da trama pode-se imediatamente pensar que dessa história não se tirará muita coisa, nada muito interessante. Pelo contrário, Ellis é competente no andamento da narrativa: cada elemento da grande trama é apresentando cuidadosamente, lembra um jogo de xadrez onde o embate final dos protagonistas contra os Quatros(os personagens inspirados no Quarteto que são os grandes vilões) é, num dado momento, eminente, e como tal, anucia-se como grande motor do enredo e o desfecho da obra.

Planetary foi publicado por duas editoras no Brasil: a Devir publicou dois encadernados que ainda estão em circulação e abrange os 12 primeiros números. O resto do material foi publicado pela Pixel na sua revista mensal Pixel Magazine até a número 14 da mesma revista.

DMZ - De Brian Wood e Ricardo Burchielli
A Colômbia enfrenta uma guerra civil; as Farcs e o governo vigente travam uma batalha espaço por espaço, uma batalha minuciosa pelo território colombiano e o mais importante nele: os civis que tentam levar um vida normal em meio ao caos da situação bélica.

Agora vamos aumentar esse exemplo; transportando uma guerra civil para o coração do Estados Unidos da América e a Ilha de Manhattan como uma zona desmilitarizada, palco das ações da trama. Temos de um lado os exércitos do Estados Unidos; de outro, os Exércitos Livres, uma milícia que funciona como uma idéia e não apresenta um centro passível de ser aniquilado pelo exército americano, contudo o avanço da milícia foi barrada em New Jersey. No centro desse impasse temos uma ilha de Manhattan habitada por 400.000 pessoas que ficaram depois da evacuação da ilha.

Matthew Roth, aspirante a jornalista, se depara com esse universo caótico e devido a eventos acidentais será a fonte de notícias para aqueles que ainda são americanos. O autor, inclusive, trabalha muito bem com o cotidiano das pessoas que tentam sobreviver em DMZ; um ponto forte da obra: ao mesmo tempo que somos apresentados a lugares que conhecemos(pelo menos em fotos) completamente modificados, a civilização yankee que conhecemos modificada pela guerra parecendo um terra de ninguém de fazer inveja a muitos filmes apocalípticos; ele traça a evolução do próprio protagonista durante o percurso, pois ele é obrigado a tomar decisões éticas e morais muito difíceis para sobreviver e continuar escrevendo as notícias sobre DMZ.

DMZ é publicado pela Pixel na Revista Pixel Media.

Y: The Last Man - De Brian K. Vaughan e Pia Guerra
Os seres com cromossomo Y foram exterminadas da face da Terra. Além de quase 50% da população humana estar extinta, muitos cargos e funções vitais para a sobrevivência da humanidade eram redutos quase exclusivo dos homens. Contudo, e para infelicidade de algumas mulheres, sobrou um ser do sexo masculinio: Yorick Brown. Na verdade dois, ele e seu macaco de estimação Ampersand.

Por enquanto, pelo menos o que foi publicado pela Pixel na sua pérola Pixel Media, temos Yorrick, auxiliado pela única agente mulher da Culper Ring afim de tornar possível a reabitação dos homens na Terra enquanto é perseguido pelas amazonas(sim, elas tiraram um dos seios) e também por outras radicais(que permanecem com os gêmeos intactos).

Uma conclusão, se possível.
Além do espaço de publicação comum, pelo menos aqui, esses quadrinhos compartilham um mesmo universo de referências; trabalhando com elementos da cultura pop de maneira coesa. Não só colocando referência atuais como construindo outras através desse processo. Os autores são pessoas bastante modernosas, inclusive eles tem blogs pessoais e até, pasmem, twitter. Quem sabe após dar um olhada, nem que seja via pdf ou jpeg nesses quadrinhos, quem sabe se não vai encher o saco dos autores com perguntas específicas sobre episódios particulares? Isso me lembra outra referência e uma outra história em quadrinhos, mas esta fica para outro post.

Um pouco mais, talvez?

sábado, 8 de novembro de 2008

Barack Obama: Discurso da vitória

Discurso da vitória do senador Barack Obama, proferido esta semana, em Chicago, Illinois.

Neste fim de semana, esta nação [This nation] fez uma de suas mais importantes escolhas. Tinha diante de si a tarefa de dizer que tipo de país é este. A tarefa de decidir, de uma vez por todas, que tipo de país quer ser. E esta escolha, que definirá não só o futuro deste povo, mas o futuro de todos os povos, esta escolha foi feita. E como me alegro em dizer que não poderia ter sido mais sensata nem mais brilhante.

"High Schooool..."

High School Musical 3 – Ano da Formatura bateu Jogos Mortais V nas bilheterias. Quando o primeiro episódio de Jogos Mortais foi lançado, em 2004, creio que todos se lembram do tamanho da comoção que causou. Naquela época, era impensável o que hoje testemunhamos: que a esperança e o otimismo de High School Musical levasse mais pessoas ao cinema que a desesperança e o pessismismo de Jogos Mortais.

Que a vontade de mudar [change] nossas vidas triunfasse sobre nossa culpa e nosso medo. Que a doce mensagem de que devemos ser nós mesmos e de que, só assim, seremos felizes fosse, afinal, mais eloqüente que todos os nossos acusadores, que diziam que não éramos capazes de ser melhores. Que não poderíamos mudar [change].

Porque o sucesso da série Jogos Mortais é senão mais uma prova de que este país era prisioneiro da culpa e do medo. De que estávamos tão confusos e desesperados a ponto de aceitar a ajuda de qualquer um. De que simplesmente não conseguíamos nos libertar dos erros que havíamos cometido. Jigsaw representa nossa enorme culpa e a necessidade que tínhamos de nos punir. Estávamos envergonhados de ser quem éramos. Estávamos envergonhados de ser americanos.

Mas se erramos, estamos arrependidos. Se nos enganamos, finalmente o reconhecemos. Porque somos americanos. Somos um povo que, por mais enganos que tenha cometido, jamais perdeu de vista a liberdade e a justiça como objetivos. E hoje finalmente nos reconciliamos com estes valores. Deixamos a culpa e o lamento para trás. É hora de agir. É hora de mudar [change] as coisas. Porque esse é o tipo de país que somos, um lugar onde ainda existe perdão para todos.

Jigsaw, não precisamos mais de suas lições. Não somos mais as pessoas que um dia precisaram de suas lições. Jigsaw, dispensamos seus métodos, sua tortura e seu moralismo. Esta nação tem uma nova consciência e, portanto, novos professores. Finalmente percebemos que não é por violência e coação que corrigiremos nossas falhas e superaremos nossas limitações. Não, a única maneira de conquistarmos tudo aquilo que sempre sonhamos é ouvir a mensagem de High School Musical.

Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad representam a América que decidimos ser quando fomos ao cinema ver High School Musical 3 – Ano da Formatura. Uma América em que as diferenças já não podem mais nos separar. Uma América em que os sonhos são respeitados e realizados. De fato, uma América que é feita justamente destes sonhos. A única América que sempre existiu.

Minhas filhas Sasha e Malia são fãs de High School Musical. Um dia, quando elas assistiam ao filme pela décima vez – eu tinha de colocar o DVD para elas, por isso sei que foram dez vezes, eu contei –, perguntei do que elas mais gostavam em High School Musical. E sabem o que elas me responderam? Não eram as músicas, as coreografias, Zac Efron ou o cabelo de Ashley Tisdale. Elas me disseram que gostavam das pessoas. E eu perguntei “como assim, das pessoas?”. E Sasha se apressou em explicar que gostava do modo como as pessoas eram felizes, porque não tinham medo de ser quem eram.

Nós, pais, nos comovemos com qualquer coisa que nossos filhos fazem ou dizem, porque sabemos que não são bobagens. Mas naquele momento eu fiquei comovido não como pai, mas como ser humano. Minhas filhas haviam entendido a mensagem de High School Musical. Uma mensagem que eu demorei anos para compreender.

Vocês já ouviram falar da minha busca por uma identidade. E de como, confuso e irresponsável, eu me envolvi com drogas, na juventude. Mas minhas filhas, ali sentadas do meu lado no sofá, vendo um filme da Disney, tinham a oportunidade de aprender uma lição que havia me custado tantos erros, tanto sofrimento. Por isso, reconheço, por experiência própria, a importância e a verdade da mensagem de High School Musical.

Precisamos ser quem somos, porque somos grandes, somos capazes, somos melhores. Sim, nós podemos [Yes we can].

Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad demonstram a coragem que nós teremos de demonstrar de agora em diante para assumir todos os riscos e sacrifícios que a realização de nossos maiores e mais belos sonhos exige. Neste terceiro episódio da série, os personagens vão se formar. É o momento da passagem da vida escolar para a vida adulta. É o inevitável processo de amadurecimento, no qual nós também nos encontramos e no qual – agora eu vejo – finalmente avançamos.

Não é a graça de Vanessa Hutchens, irresistível como a de Ginger Rogers, nem o charme de Zac Efron, comparável ao de Gene Kelly, que nos levaram aos cinemas; mas a mensagem de que, sim, nós podemos [yes we can].

Com Troy, Gabriella, Sharpay, Ryan e Chad, nós também amadurecemos. Nós também vencemos nossos medos e realizamos nossos sonhos. Já não precisamos ter vergonha de ser quem somos e querer o que queremos, porque hoje sabemos que estamos no caminho certo. Porque, sim, nós podemos [yes we can].

Obrigado. Que Deus os abençoe. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América.

Tradução: Camarada Fundamentalista.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Nosso amigo, o Azeredo

Querendo ou não, em algum momento, num blog, alguém resolve dar uns escapadelas e arriscar uns pitacos na esfera política. Não que nossos compadres eleitos mereçam nenhum destaque, pois muitas vezes suas ações repercutem em qualquer outra esfera, ora, quando fazem seu trabalho e não são muito apoiados nem por aqueles que colocaram os indivíduos no poder. Por ventura as discussões acaloradas de futebol são timidamente substituídas pela boa e velha política, sobretudo quando estamos em período eleitoral.

As eleições já acabaram, como o termíno é recente, as luzes ainda estão muito forte nas repartições públicas, assim podemos acompanhar mais de perto não só o novo político eleito, vamos mais fundo: tanto na memória, como na história. Enfim, procuramos aquele velho camarada que votamos em eleições anteriores, aqueles que ainda estão nos seus respectivos cargos.

Tenho um cara que admiro muito, lá no Senado, verdade. Seu nome é Reinado Azeredo(PSDB): gente boa, altivo, sempre preocupado em não andar com a nova corja de governantes que assola nossa terra brasilis. Enfim, acho o cara bem boa praça. Mas muita gente não gosta muito dele, na verdade por causa de duas leis dele que estão aparecendo recentemente na grande mídia.

A primeira é a famigerada substituta a PLC 89/2003: a lei que pune cibercrimes e derivados. Derivados aí se inclui fansubber e todos aqueles preocupados em disseminar a horrível pirataria, pois sei que aquele que copia o cd na sua casa é o mesmo que produz a pirataria em larga escala, ainda mais este mesmo é o vilão que é associado com o tráfico de drogas, sei porque vi tudo na propaganda da televisão. A lei sofreu umas mudanças, pena, mas ainda é a lei que muitos de nós estavam esperando, ora, eu pelo menos, assim a internet fica mais segura e sem esses pedófilos!

A segunda leva de críticas é sobre o projeto encabeçado pela conterrânea de partido de Azeredo: Marisa Serrano(PSDB), cujo esboço do projeto é do nosso amigo; o projeto pretende unificar as carterinhas escolares, em âmbito nacional, e ir além: coibir os usos das carterinhas nos feriados e fins de semanas. E essa restrição abrange também os idosos. Outra boa proposta, pois sabemos que a pirataria de carterinha acontece diante de nossos olhos, quiça os responsáveis costumam ser os mesmos que traficam drogas e falsificam programas de computador. Provavelmente deva existir muitos idosos que falsificam com este cartel do mal e assim os verdadeiros idosos, já que são aposentados, poderão desfrutar sossegados seus filmes, em dias de semana, acompanhados dos adolescentes que matam aula, pois muitas das escolas públicas tem péssimas grades curriculares.


"O que se espera é que haja uma redução do preço dos ingressos", diz o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), autor do projeto

Azeredo não deve ter pensando em nada disso, mas suas propostas de leis são realistas e simples: eliminar a maldade de dentro de certos homis.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Eu te Amo, Kevin Smith

Saiu recentemente na gringa o mais novo filme do genial diretor americano Kevin Smith, Zack and Miri Make a Porno. Saudado como uma volta à velha forma do diretor pelos críticos e fãs de plantão, o filme marca uma suposta nova fase na carreira de Smith, que poderia ser chamada (sem que ninguém nos ouça) de era "Ben Affleck-free". Smith resolveu desassociar de vez, na cara dura, a sua imagem da do seu amigo queixudo, e pelo jeito já colheu os frutos por isso. Certíssimo. Melhor mesmo Mas o que realmente me motiva a escrever sobre o gorducho é a sua lista de filmes favoritos, revelada no site Rotten Tomatoes (link aqui). Proponho aqui para vocês um exercício então. Vamos pegar os cinco filmes mencionados por ele como fundamentais na sua vida e analisar a influência deles na obra do cidadão. Sim, veremos como podemos encontrar o impacto desses filmes em obras-primas como O Balconista, Barrados no Shopping, Procurando Amy, O Império do Besteirol Contra-ataca, entre outros.


Chamego puro

A Última Tentação de Cristo
Essa influência é perfeitamente palpável. Afinal estamos falando do homem que produziu Dogma, o filme de cunho religioso mais importante de todos os tempos, e que coloca esse A Última Tentação de Cristo no chinelo. Imagino que Smith tenha citado o filminho do Scorcese apenas por uma relação de causa-efeito, já que sem o Cristo imaginado por Scorcese nesse filme pobre, jamais poderíamos ter desfrutado o banquete trazido por Smith em Dogma. E, cá entre nós, quem nasce para Martin Scorcese jamais poderá ser um Kevin Smith. Mas a lembrança é válida.


Faça a Coisa Certa
Na sua análise do filme, Smith comenta as similaridades de Faça a Coisa Certa com a sua obra-prima O Balconista, dizendo que os dois filmes se passam em um dia, num mesmo quarteirão e em uma cidade específica. Nada mais justo. Afinal, Faça a Coisa Certa causou uma leve brisa no mundo cinematográfico quando lançado, mas nada perto do furacão avassalador trazido pelo filme de Smith. Não pode-se querer que um filme que trata das tensões raciais que infestam os EUA e dirigido por um cineasta pouco conhecido como Spike Lee tenha o mesmo impacto de um outro que mostra dois funcionários vagabas e nerdescos de uma loja de conveniência discutindo sobre Star Wars e quadrinhos. Mas a influência aqui também se mostra palpável.


JFK - A Pergunta que não Quer Calar
É notório o peso político nos filmes de Smith. Seus filmes traçam de maneira brilhante um panorama minucioso e gloriosamente polêmico da política americana contemporânea. Qualquer realização sua merece não somente ser colocada do lado do filme de Oliver Stone, como também de outras obras clássicas como Todos os Homens do Presidente, Sob o Domínio do Mal, Maratona da Morte e Missing. Esperamos ansiosamente um libelo a Barack Obama, de preferência com muitas piadas com maconha (perfeitamente identificáveis com os liberais democratas). Seria plenamente palpável.


Tubarão
Os filmes de Smith são conhecidos, como já vimos aqui, pelas brilhantes alegorias religiosas e pelo ativismo social e peso político que exalam. Mas o fato dele citar o Tubarão como um dos seus cinco filmes favoritos nos lembra de outro fator importante na sua obra, sempre presente nos seus filmes, que é o suspense constante. Smith sabe como poucos criar um clima exasperante de tensão. Percebemos essa influência de maneira (UEBA!) mais palpável no grande épico romântico de Smith, Procurando Amy. Como todos sabem, no filme de Steven Spielberg o bicho aparece apenas no final do filme, com Spielberg trabalhando todo o clima apenas em cima da expectativa causada pela presença ou não do tubarãozinho. No Procurando Amy, vemos o mesmo cenário com resultados muito mais eficientes. Ben Affleck é assolado pelas lembranças de sua paixão por uma sapatona, e a sua presença em todo o filme se dá apenas no campo das memórias, como um fantasma assombrando a vida do nosso herói. Brilhante. Alguma alegoria complexa de Smith entre tubarões e lésbicas? Deve ter, com certeza, de uma maneira palpável.




Mó cara de sapata tem esse Tubarão, né não? Zagueiro do Bangu!



O Homem que Não Vendeu a sua Alma
Acho que reside aqui, verdadeiramente, o filme de maior impacto na obra de Kevin Smith. Explico, bebês. O Homem que Não Vendeu a sua Alma é um dos filmes mais classudos da história do cinema. Daqueles que merecem ter o seu roteiro envolvido em capas de veludo e tudo mais. Ter Paul Scofield e Robert Shaw humilhando todos os atores do mundo também ajudava bastante. Além do filme se dar ao luxo de ter um Orson Welles como um dos conspiradores. Orson Welles. Sério. Agora, voltemos ao universo de Smith. Se vocês pudessem pensar em apenas uma palavra que definisse o espírito dos filmes do diretor, qual viria às suas mentes? Sim, como eu bem imaginei: classe. A linguagem talhada, milimetricamente construída, a riqueza dos diálogos, a ausência de palavrões chulos, as atuações eletrizantemente elegantes... E se Kevin não pode ter um Welles, se dá ao luxo de trazer um Ben Affleck para as equações (quer dizer, pelo menos até pouco tempo atrás...). É IMPOSSÍVEL assistir a qualquer filme de Smith e não sentir a influência do filme dirigido por Fred Zinemann (outro que não chega aos pés de Smith) neles. Palpável.

Jay e Silent Bob

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Wim Wenders é cachaceiro, bebum e ninguém dá mais a mínima para os seus filmes. Bu!

Aê, cambada. Depois de semanas no esculacho, estou de volta. O negócio é o seguinte: estou puto da vida com a vinda do alemão cachaceiro e ex-diretor de obras-primas Wim Wenders. Aproveitando a lembrança do Moderado (de volta do mundo dos mortos, depois de muita chinelagem) ai embaixo, gostaria de mandar o Wenders ir enganar trouxas em outra freguesia. Já não bastasse aquelas bandas gringas mastodônticas vindo enganar os otários nessa terra na qual tudo de planta e tudo se dá (opa!) em nome de um punhado de dólares a mais (copyright Sergio Leone), agora diretores falidos também resolveram entrar na lista e nos visitar no feio crepúsculo de suas anteriormente brilhantes carreiras. Primeiro foi o David Lynch pouco tempo atrás, agora é o Wenders. Sério, alguém deu a mínima para os últimos 10 anos da carreira dele? Reciclando idéias, temáticas e personagens, Wenders chegou a tal ponto de irrelevância artística que mesmo veículos conceituados acabam nem noticiando o lançamento dos seus últimos filmes. Wenders veio apresentar na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo o seu mais novo engodo, Palermo Shooting, seu milésimo road movie, esse passado na Itália. Sério.

Garotas que são chegadas num coroa gringo: tremei! Mas um aviso: dizem que o alemão gosta mesmo é de morder a fronha. Mas não se intimidem por isso não.


A única mudança que o alemão pau d'água faz nos seus filmes são as localizações mesmo, pois roteiro mesmo na vida ele escreveu dois (um dos seus road movies, e o outro dos seus filmes de anjos), e os recicla ad infinitum desde então. Lógico que ele realizou belíssimos filmes e outros tantos competentes, mas a fórmula esgotou faz tempo. Toda a manada dos descolados e pseudo-intelectuais se deslocou até a Mostra para verem, serem vistos, aparecer e lamber os ossos jogados pelo alemão, nas entrevistas coletivas e nas sessões (o cidadão assistiu vários filmes na Mostra). Para essa turma de infelizes que infesta os Espaços Unibancos e Cines Bombrils da vida, eu dou é uma bela duma banana. Vou pegar a minha camiseta do Braddock (Chuck Norris, seus tontos) e desfilar nas áreas da Mostra lá na Paulista. Quero ver quem vai ser macho de tirar uma com a minha cara. Já chamo pra porrada! Ah, eu tô maluco! Porrada na Mostra, é pra quem pode, não pra quem quer. No mais, beijos para todos, e eu ainda vou roubar a sua namorada (mulher não manja nada de cinema mesmo, só vão pra acompanhar e falar "que lindo, amor!) enquanto você estiver chorando vendo a última patetaiada do Wenders. Cornão!


Os dois bastiões da Folha de São Paulo: apoiar a cultura e o mau jornalismo


Obs 1: a Mostra dedicou um espaço para Wenders exibir os seus filmes favoritos. Como ele indicou 2 filmes do Yasurijo Ozu, foi uma rara oportunidade para os fãs do cineasta japonês verem um de seus filmes na telona. Mas se fosse assim, que Wenders tivesse mandado lá da gringa a lista por e-mail para os organizadores e eles os exibissem então. Com muita caipirinha, feijoada, paio, todas as papagaiadas que o povo aqui dos trópicos adora.

Obs 2: numa visita a Porto Alegre (recentemente, em agosto) para participar de uma palestra, Wenders protagonizou um momento de hilariante constrangimento. Um timeco de futebol de lá (Interegional, se não me engano) resolveu "homenageá-lo" com uma camisa com o seu nome nas costas e a numeração 10. Wenders foi obrigado a segurar o presente de grego nas mãos, e dar os costumeiros sorrisinhos falsos. Sério, gaúcho é o povo mais babaquento do mundo, mas ai já é demais. Se a passagem de Wenders por São Paulo gerasse momentos tão involuntariamente engraçados como esse, ainda poderíamos justificar a sua vinda. Tipo, o São Paulo Futebol Clube (time que adora esse tipo de pataquada) dando uma camisa para ele escrita "Wim Wenders, agora também um bambi orgulhoso". Para quem duvida, vai aqui embaixo a foto. Despeço-me agora. Bjunda.

Atenção, Wes Anderson: esse será você amanhã. Tá vendo que micão? Quem mandou dar moral pro Seu Jorge?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um texto sem refresco


Um calor absurdo atinge nossa metrópole. Uns dizem que a primavera chegou de vez e outros gostam de ressaltar o período de calor com a famosa conversa de elevador "que calor não?"; deixando os idiotas da obviedade e a retórica de lado, pensei em muitas coisas para postar neste blog no meu período de retiro espiritual forçado, em verdade, até rascunhei uns trechos sobre temas interessantes abrangendo desde música até fenomenologia aplicada ao cinema. Poderia, inclusive, colocar uns trechos desconexos com a finalidade de denotar que não fiquei sem fazer nada, mostrando assim que minha cabeça não é um deserto de idéias, mas quer saber: não vou falar nada, principalmente porque não sei como dizer e justificar as minhas frequentes escapadas e ausências. Posso ter ido para Paris, Texas...




sábado, 11 de outubro de 2008

Se Superman é Clark Kent, Tyler Durden é Tyler Durden

Os nomes que adotamos na internet são todos pseudônimos, só pra constar. E no mundo real nossas identidades permanecem secretas, ainda que, entre si, nos conheçamos e nos freqüentemos, nós que escrevemos, cantamos e posamos para internautas do mundo inteiro. Somos como uma liga da justiça que, em dia de semana, é gente como a gente, que pega ônibus e passa mal se come maionese vencida. Quando nos encontramos pelas ruas de São Paulo, por exemplo, como outro dia em que encontrei Mallu Magalhães no metrô, nos cumprimentamos discretamente, às vezes apenas com um olhar cúmplice.

Eram umas três e meia da tarde, e eu embarquei na estação Ana Rosa, a caminho de..., para me deparar com Mallu, sentada com o violão no colo. Ela quase não conseguiu disfarçar a surpresa e contentamento ao me ver:

- Oi, Camarada Fundamentalista! – um tom de voz quase que alto demais, que ela já diminuiu pela metade ao prosseguir: - Que bom te ver, rsrsrs.

- Bom te ver também, Mallu Magalhães, rsrsrsrsrsrs – respondi, me ajeitando entre um cara enorme, de sobretudo, e uma mulher cheia de sacolas, que me fizeram pensar que Mallu Magalhães era o tipo de pessoa que não segurava sacolas nem mochilas para os outros em ônibus e metrôs, tsc, tsc, tsc. Mas eu sou muito julgador, por isso afastei esse pensamento da cabeça e ia perguntar não sei quê pra ela, quando o trem parou bruscamente, e o cara enorme oscilou como um carvalho golpeado por um guindaste, e me perdoem a eloqüência inesperada da imagem.

"Mallu, que surpresa!"

(Um fã da Mallu que leu a primeira versão deste relato observou que provavelmente ela não se oferecera para segurar as sacolas da mulher das sacolas porque estava com seu inseparável violão no colo, como eu mesmo mencionei. Plausível, mas mantive o original, compensando-o com este adendo, por achar mais honesto registrar minha possível precipitação. Agradeço ;) especialmente, portanto, a Wilson F., o fã, que me garantiu que Mallu Magalhães não só segura bolsas e sacolas, como cede seu assento para idosos, gestantes e deficientes físicos.)

Ô, sim, era naquela época de constantes falhas mecânicas do metrô, que não suportava o aumento excessivo de usuários com a integração metrô-ônibus possibilitada pelo Bilhete Único. O vagão lotado, e quente como é na Linha Verde, já imaginem, porque, não sei se lembram, mas as paradas devido a falhas mecânicas então podiam durar de vinte a trinta minutos, como de fato se deu.

Passados dez minutos, e nada, as pessoas se abanando, bufando e resmungando, como uma purulenta galé de degredados, Mallu e eu tivemos a idéia de salvar o dia, principalmente considerando que havia ali muitos dos internautas que tanto nos amavam em segredo. Demos uma piscadela, e ela já foi tirando o violão da capa. Não foi preciso mais nada para que meia dúzia – dentre os quais, um casalzinho indie e um rapaz com um Dom Casmurro do Estadão nas mãos – a reconhecesse, mas, contidos como são os jovens bem-nascidos, procuraram apenas chegar mais perto, porque sabiam que dali sairia aquele folk gostoso e intimista, ora entranhado, que fez a fama de Mallu Magalhães.

"Essa aqui é pro meu grande rsrs camarada rsrsrsrs, Camarada Fundamentalista."

A pedido meu, que considerava a mais representativa cover de seu repertório e especialmente adequada à ocasião, sem dizer que a de Mallu era a melhor interpretação desde a versão original de Johnny Cash, ela começou a introdução de “Folsom Prison Blues”:

“I hear the train a comin'

It's rolling round the bend

and I ain't seen the sunshine since I don't know when,
I’m stuck in Folsom prison, and time keeps draggin' on
but that train keeps a rollin' on down to San Anton.
When I was just a baby my mama told me:
Son, always be a good boy, don't ever play with guns.
But I shot a man in Reno just to watch him die
When I hear that whistle I hang my head and cry.”

E que olhar era aquele no rostinho de Mallu, da angústia negra de Memphis, da revolta estudantil do Quartier Latin, da sanha assassina das Bolsas em 1997, era o puro espírito maldito! Arrepiado, dizia comigo mesmo que já não estávamos num vagão de metrô entre as estações Paraíso e Brigadeiro, aquilo era a Caverna de Adulão, referência que os leitores versados nas Escrituras não deixarão passar. E continuou, prodigiosa:

“I bet there's rich folks eating in a fancy dining car
they’re probally drinkin' coffee and smoking big cigarrs.
Well I know I had it coming, I know I can’t be free
but those people keep a movin'and that’s what torture means.”

(Muitos blogueiros me perguntam, em congressos de que participo, se a introdução de letras de música, mesmo quando devidamente contextualizadas, como “é o caso de seus posts”, eles contemporizam, se mesmo assim é legítima. A pergunta procede desde que muitos amadores, notadamente miguxinhas não filiadas, fazem disso um expediente gratuito e preguiçoso. Costumo dizer que a subversão fraudulenta de um recurso legítimo depõe, por certo, tão-somente contra o subversivo, como se diz que a lei é boa, nós é que somos corruptos.)

“Well if they'd free me from this prison,
if that railroad train was mine
I bet I'd move just a little further down the line
far from Folsom prison is where I long to stay
and I'd let that lonesome whistle blow my blues away.”

Aquilo era um canto da terra, profundo e verdadeiro apenas como um produto da natureza podia ser. E eu tinha certeza de que todos naquele cubículo haviam transcendido, nem que por quatro minutos, porque quando desembarcaram, minutos mais tarde, na Trianon-Masp e na Consolação, iam com um semblante como que purificado por uma grande fúria finalmente liberada pela voz e violão de Mallu Magalhães. Ela, que também o pressentira, quando nos despedimos no Sumaré, onde ela ia descer, me confessou, renunciando por um instante a sua grande humildade de artista folk:

- E pensar que eu nunca estive em Folsom Prison, rsrsrsrsrsrsrs.

– Nem nós, Mallu, nem nós.

A Arte, e somente a Arte, é capaz de nos unir tanto na miséria aviltante, como na glória excelsa.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Fomos ao Cinema ver Ensaio Sobre a Cegueira




Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.


Camarada Progressista acorda. Camarada Progressista toma café, e liga para o Camarada Fundamentalista.

C.P -Alô. Vamos ver o Ensaio Sobre a Cegueira

C.F. -Vamos. Vamos ver o Ensaio Sobre a Cegueira

C.P. -Vamos chamar aquela amiga que leu o livro e achou bala?

C.F. -Vamos. Vamos chamar aquela amiga que leu livro e achou bala

C.P. -Eu sei a história do livro. Todo mundo fica cego, do nada. A sociedade começa a entrar em colapso, e todos acabam descobrindo -depois de muita sujeira e sacanagem- que o ser humano somente pode aproveitar o relacionamento com os seus semelhantes de uma maneira harmônica e civilizada quando ele não pode enxergá-los, livrando-se assim dos preconceitos e pré-julgamentos em relação aos seus iguais. O negócio segundo o velho batuta é todo mundo colocar uma venda nos olhos e sair amando todo mundo. Bem que eu achava que os cegos sempre tinham muito amor para dar mesmo. O filme deve ser a mesma coisa. Um monte de simbolismos bonitos e ingênuos. O Saramago, velho comuna que é, acredita mesmo nessas bobagens.

C.F. -É verdade.

C.P. -Né?

C.F. -É

C.P -Marca ai, e vamos.

Marcamos, e fomos

Depois do filme:

C.P -Pô, esse filme é uma porcaria

C.F. -É

C.P. -Teríamos aproveitado melhor se tivéssemos visto com uma venda nos olhos. Você sabe, apenas com o áudio, não teríamos de ter aturado o anacronismo Stoneano do Meirelles, ou então a desagradável sensação de ver a nossa cidade usada como um símbolo do colapso da civilização ocidental, da inadequação humana, e de todo o resto.

C.F. -Mas isso não seria deveras metalinguístico?

C.P -Talvez fosse essa a intenção do cara, percebemos que a melhor maneira de entender o espírito do filme fosse vê-lo com os olhos fechados ou obstruídos. Vamos tentar ver o filme de novo dessa maneira? Com uma venda nos olhos?

C.F. -Não, pombas. Isso seria deveras constrangedor. Vai você, que eu fico. Leva a amiga que achou o filme bala.

C.P. -Ela aceitaria a experiência?

C.F. -Não sei. Liga lá. Hi - 5

C.P. -Hi-5



Liguei. Ela não aceitou. Fui então sozinho. Entrei normal na sala de cinema, sussa. Ai, quando as luzes se apagaram, peguei minha venda e coloquei nos olhos. Magia. O filme aconteceu para mim. Emocionante. Jamais havia notado o quanto podemos evoluir como seres humanos quando colocamos uma venda nos olhos. Liguei então para o Fundamentalista


C.P. -Alô

C.F. -Alô

C.P. -Vi o filme com uma venda nos olhos. Transcendi.

C.F. -Você é um idiota.

C.P. -Você diz isso agora. Se ficasse com os olhos fechados, perceberia o quanto uma afirmação dessas pode ser carregada de ódio e pré-julgamentos. Vamos fazer assim: feche os olhos, e eu falarei mais uma vez sobre a experiência que tive, e você verá que a sua reação anterior foi equivocada.

C.F. -Ok. Fechei os olhos.

C.P. -Bom. Vamos tentar de novo. Oi, Fundamentalista, eu assisti de novo o Ensaio Sobre a Cegueira, dessa vez com uma venda nos olhos. Transcendi.

CF. -(Segundos de silêncio depois) Você é um idiota. Nossa, chamar você de idiota com os olhos fechados foi uma experiência única. Transcendi.

C.P. -Bah. Será que eu consigo as 10 pratas que paguei?

C.F. -Não sei. Tente pedir a grana de volta com uma venda nos olhos.

C.P. -Ha ha. Nessas eu já tirava a venda e te mandava uma nas fuças. Mudando de assunto, você viu o casamento da Sandy?

C.F. -Vi. Também tenho acompanhado todas as notícias relacionadas ao casório, lua de mel e tudo mais. Estou gastando um dinheirão com as Contigos da vida. Mas vale a pena. A Sandy é realeza.

C.P. -Digo o mesmo! Será que o cara que ela casou será um bom marido? Qual é o nome dele mesmo? Joca, Jonas, Lúcio, André, Márcio... putz... deu um branco..

C.F. -Não é Ricardo? Ele era daquela grupo meio Hanson com violinos, não era?

C.P. -Era sim. Mas o pai dele fazia parte. Então, era um grupo meio Hanson com violinos e com o pai junto. Mas arrisco dizer que era melhor que o Hanson. Liga pra nossa amiga, ela sabe o nome do carinha, parece que ela acha ele um pão.

C.F. -Ligo sim. E a crise econômica, você tem se informado a respeito?

C.P. -Putz, não... é que, tipo, dá um bode de ler sobre... Mas conta aí pra mim o que está rolando!

C.F. -Estou por fora também. Pena.

C.P. -Pena.
O telefone tocou. Era outra linha.

A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

De como Jewel e eu salvamos a Augusta

Jewel e eu. A Jewel de 95 é um dos meus 14 grandes amores. É uma lista fixa que foi inaugurada muito antes de eu saber que seria uma lista, quando eu vi um dos irmãos Hanson, aquele, e achei que era uma garota, pelo que me lembro, mas isso não vem ao caso.

Depois mais equívocos, quando eu me apaixonei pela Victoria (então) Adams, ainda Posh Spice, por causa de “2 Become 1”, que eu cantava junto, em falsete, apontando com o dedinho que nem ela fazia no clipe.

Mas se é natural sentir atração por um homem, achando que é uma mulher, e mesmo depois de descobrir, não querer acreditar, bem, e gostar de Jewel?

Em Pieces of You, seu debut, ela expôs sua alma dilacerada, ecoando a dor de multidões que comprariam o disco, garantindo um colinho milionário para suas lamentações intermináveis, mas totalmente justificadas. Porque ela não negociaria seus sentimentos para agradar ninguém. Aqui, o paralelo com Marilyn Mason é evidente e inevitável, como muito bem assinalado pelo Wikipedia.

Mas Jewel e eu. Talvez nossa história tenha começado apenas por causa da rua Augusta. Sim, acho que é isso mesmo. Já posso me lembrar...

Jewel de 95.

De como eu desci a Augusta, sentido centro, e provei um pouco do mundo cão. Como descesse a Augusta, sentido centro, muito, muito longe de casa, logo ficou claro pra mim que seria difícil viver o lado Coca-Cola da vida ali. E a coisa só piorou, quando a Bichinha Pobre, perto de mim, disse detestar cinema nacional. Nesse instante, devastado, pela quinta vez naquela semana jurei vingança ao Capital, que fazia do homem proletário, e do proletário consumidor, e do consumidor bichinha, aquela bichinha.

Um menino como eu, criado a leite com pêra, conhecia lugares como a Augusta apenas de ver Amarelo Manga ou Baixio das Bestas. Aliás, assistir Baixio das Bestas é um tipo de obra social.

De como eu me juntei com o dono do Feliciano’s Bar para trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados. Com essas noções de degradação social do cinema brasileiro misturando-se na minha cabeça, é que eu me lembrei do clipe de “Who Will Save Your Soul”, em que a Jewel salvava um bando de excluídos incontinentes num banheiro público só tocando violão. Foi aí que eu tive a idéia de trazê-la pra cá, e então era só ela tocar violão e fazer aquele bando de pederastas e meretrizes mudarem de vida.

Parei pra tomar uma Coca num boteco, eu, um menino criado a leite com pêra, mas que, àquele ponto, já não tinha mais escrúpulo algum. O dono do bar, que era uma espécie de Paul Newman paraibano, chegou-se pro meu lado e disse: – Eu sei o que você tá pensando, que isso aqui não tem jeito. Mas você, um menino criado a leite com pêra, não veio parar aqui por acaso. Não podem imaginar como aquelas palavras me devolveram toda a vontade de mudar o mundo. Puxei na hora um santinho do Glauber Rocha que eu carregava comigo, junto ao peito, e beijei-o.


Terminei a Coca de um só gole e disse àquele clarividente comerciário:

- Eu acho que sei o que fazer, mas preciso da sua ajuda.

- Opa – ele respondeu e bateu o paninho encardido contra o balcão.

Contei então pra ele o meu plano de trazer Jewel pra Augusta. Nessa hora fizemos o Hi-5.

De como eu não tinha idéia de como trazer Jewel pra Augusta e salvar aqueles desgraçados e acabei desacreditado pelo dono do Feliciano’s Bar. Então, o dono do bar me perguntou como traríamos a “Jiu” e seu violão pra Augusta. Respondi que eu não era um indivíduo particularmente prático. – E não particularmente? – ele me perguntou. Desconversei, falando que uma coisa dessas não acontecia assim, da noite pro dia, a-ham.

De como o acadêmico falha miseravelmente em alcançar o Homem Comum. O problema todo do Homem Comum é esse: a incapacidade de deter-se no plano das idéias, viver uma experiência puramente teórica, por mais paradoxal que pareça. Ele quer ver logo os resultados, quer partir pra ação quando não é hora. E, aliás, quem pode saber qual é a hora? Era o que eu procurava explicar ao dono do bar. Inutilmente.

De como tudo acabou inesperadamente comigo cantando pro dono do Feliciano’s Bar “Who Will Save Your Soul”, porque também ele era um desgraçado. Então, eu comecei a cantar, arriscando inclusive um falsete:

People living their lives for you on TV
They say they're better than you and you agree
He says "Hold my calls from behind those cold brick walls"
Says "Come here boys, there ain't nothing for free"
Another doctor's bill, a lawyer's bill
Another cute cheap thrill
You know you love him if you put in your will
Who will save your soul when it comes to the flower
Who will save your soul after all the lies that you told, boy
Who will save your soul if you won't save your own?