![]() |
| Julia come |
| Julia reza |
![]() |
| Julia ama |
![]() |
| E eu? Eu já fui, rapá |
![]() |
| Julia come |
| Julia reza |
![]() |
| Julia ama |
![]() |
| E eu? Eu já fui, rapá |
Porque não tem nada que preste passando nos cinemas por aqui enquanto nos EUA estreou ontem The social network, que é o filme mais hypado de todos os tempos. É uma forma de os norte-americanos nos lembrarem constantemente de que somos terceiro mundo que os filmes de lá continuem estreando por aqui com meses de atraso. Alguém vai dizer que antigamente era pior porque os filmes chegavam por aqui não com meses, mas décadas de atraso, mas, pomba, antigamente era ditadura, antigamente era o Capitão Nascimento e as pessoas iriam presas se vissem um filme do Fincher. Aliás, eu vi a entrevista do Wagner Moura no Roda Viva com Marília Gabriela no comando mostrando a força da mulher brasileira e piriripororó. Ele é burro como qualquer outro ator que tente falar a respeito das coisas que existem no mundo em vez de encená-las. Bom ator (ele é) é aquele que é melhor interpretando uma árvore do que falando sobre uma árvore.
Os críticos norte-americanos disseram que The social network capta o espírito da época (queria que tivessem usado zeitgeist pra ver se a palavrinha alemã finalmente caía na boca do povo com a mesma gratuidade que soutien, só divagando). Não é pouca coisa, e seria a segunda vez que o Fincher consegue isso, a primeira com Fight Club nos 1990, que foi a melhor época das nossas vidas. Mas a gente vai ter que esperar até dezembro pra conferir a versão psicopata à Bill Gates que o filme entrega do criador do Facebook e que o próprio naturalmente desmente aonde quer que vá tentando bancar o bom moço. Mas, por exemplo, fiquei sabendo que se você quiser ou tiver, sei lá, de bloquear o Mark Zuckerberg por não sei que motivo idiota, não dá. Nossa! Não dá pra bloquear no Facebook o criador do Facebook! Mas o mais estranho é naturalmente que Zuckerberg, tendo a grana que tem e tendo chegado aonde chegou, ainda tenha um perfil no Facebook. LOSER! No mínimo, endossa a motivação que Sorkin, roteirista do filme, dá para a criação da rede social: dor de cotovelo. Zuckerberg era simplesmente um hacker judeu querendo ascender socialmente junto à aristocracia WASP de Harvard. Mas inadaptação social tem cura: você arranja uma namorada bem bonita, casa com ela, engorda, envelhece e fica bem feio e decadente, descobrindo que esse é o destino natural de todo o mundo, inclusive do casal Jolie-Pitt, que é a realeza e tal. Enfim.
Eu assisti Vincere, então achei que tinha que comentar alguma coisa. É um filme italiano sobre como o Mussolini tinha cabelo por causa do amor, mas então ele deixou de amar e ficou careca. Se bem que é difícil saber se ele amava mesmo Ida Dalser, que é uma personagem do filme, aliás a protagonista, tirando o próprio Mussolini, de quem se pode dizer que é e não é o protagonista do filme. Levando em conta que o título foi tirado de um discurso dele, ele é o protagonista. Mas esse discurso não é feito pelo ator que interpreta o Mussolini, mas pelo próprio Mussolini, numa imagem de arquivo, de modo que, na economia do filme, esse “Vincere”, sendo do próprio Mussolini, não é do filme, que no entanto aproveita a imagem documental, então fica mesmo difícil decidir se o Mussolini é ou não protagonista do filme. Mas o filme se chama Vincere, como eu disse.
Poster do filme, com o busto do Mussolini embaixo aparentemente derrubado, como no filme, talvez simbolicamente derrubado, não sei.
A atriz que interpreta a Ida Dalser não diz "vincere" em nenhum momento, mas na minha opinião ela meio que vincere no final, porque ela sai como que aclamada na última cena em que aparece, e eu não sei se isso foi um spoiler, espero sinceramente que não. E se o Mussolini queria ser o Duce, ela queria ser a esposa do Duce. Isso explica a devoção de pietà que ela nutria pelo ditador antes de ele vir a ser ditador. Daí que a mensagem do filme é que ela teve o que merecia. A cena do sexo acho que foi bem interessante, tirando o sexo, porque sexo só é bom com quem a gente ama, e eu não sei se ele amava mesmo a Ida Dalser. Ele era na verdade um grande amante de si mesmo porque nem olhou pra ela enquanto estavam praticando o sexo. Essa é a minha opinião.
Eu fui ver o filme no Cinesesc, que só tem uma sala, mas que agora está novo e bonito, com um saguão bem bonito, com pinturas de artistas contemporâneos e umas peças móveis, de função lúdica, que as pessoas que frequentam o cinema se sentem na obrigação de tirar de uma tela e colocar na outra, resultando nas combinações mais doidas possíveis, carinha, só vendo. Em resumo, o cinema é 10, a sala é 7, e o filme é 8, beijo pra todo o mundo.
Nessas minhas férias eu fui ao zoológico e vi um leão selvagem e o tratador dele tratando dele. Era peludo e a barriga era toda peludona. O leão também era bem peludo. Só que bem menos. Eu e os meus amigos tiramos várias fotos dos vários animais que tinha lá. Minha tia Ester mandou todo mundo calar a boca, senão a gente não ia ver Eclipse. Então todo mundo calou a boca MESMO. Foi bem comovente.
Meu primo Douglas arranjou um DVD pirata da Origem e a gente se reuniu todo mundo e viu lá na casa dele porque tem uma LCD de 42 polegadas. Tinha tantas explosões que a gente acabou dormindo e o Douglas disse que a gente dormindo no meio do filme era o sexto nível. Eu não ri, não. Aí a gente foi tomar Coca e sorvete. Mas a Coca tava quente e deu vontade de morrer.
Daí eu acordei com a minha mãe dizendo que não era 1999 nem que eu estava na escola. Mas que eu era um blogueiro desempregado. Ela mandou eu pedir desculpas por ter ficado tanto tempo fora. Ela disse que vocês dependem da gente pra parecer inteligentes em mesa de boteco falando de filmes da moda. Desculpae. Vocês passaram um sufoco ae, mas a gente vai compensar.
Poster fodão da cerimônia, com frases famosas do cinema atrás. Pera ai, acho que eu vi algo ali no meio... sim, é ele mesmo, o nosso épico "ESSE É O FILHO DE LUIS-CARLOS-PRESTES!". Só na cuíca, cambada!
Como estou sem saco para colocar fotos dos indicados, deixo aqui para vocês uma ENGRAÇADÍSSIMA foto-montagem do Seu Madruga ganhando o Oscar, que eu achei na net. Ha, ha, ha.
1919-2010
1 O fantástico Senhor Raposo estreou sexta passada por aqui, mas nós já tínhamos visto durante a Mostra numa sessão muito especial porque contou com a presença de Pablo Villaça. Foi preciso controlar meu acompanhante, que teve acessos de tiete. Gostamos muito. A estética e o humor de Wes Anderson encontraram seu lugar na animação. É seu melhor filme desde Os excêntricos Tenenbaums, que vocês devem imaginar que é dos meus favoritos. Uma tarde dessas, assisti o Senhor Raposo uma segunda vez com uma amiga do serviço e ela dormiu a maior parte do filme.
2 Também vi, com a amiga mencionada, Cidadão Boilesen, um filme necessário. Cidadão Boilesen, um filme necessário, é um documentário sobre Henning Boilesen, que dá seu nome a uma rua na zona Oeste da capital e foi presidente da Ultragás nos anos 1960. Era dinamarquês e se mobilizou, junto ao empresariado paulistano, para patrocinar a tortura na época do regime militar. Chegou a participar de sessões muito privativas no clube DOI-Codi, convidado especial do coronel Brilhante Ustra, que também conta sua versão da história. O nome de Sergio CAMARGO CORRÊA também é citado, além, é claro, da Folha de S.Paulo como empenhados patrocinadores da tortura. E muitos outros que não ousam dizer o nome, mas que estão por aí alegres a cantar, como afirma um militar reformado, também entrevistado. Um filme necessário.
3 E ontem mesmo vimos uma sessão tardia de Um namorado para minha esposa, espécie de Se eu fosse você argentino, sem o histrionismo e o mau-gosto que só Daniel Filho e grande elenco podem fazer por você. Noveleiro que é, Daniel Filho não está cometendo nenhum crime, mas dando o que o povo quer. Mas, como eu e você nos achamos mais que povo, fiquemos com o cinema argentino, sensível e contido, mesmo ao mostrar que nuestros hermanos son más bregas que nosostros. Inclusive endosso quem diz que espanhol é só um português ridículo. Pantalones e preguntas é que não me desmentem.
4 E falando em cinema nacional, discutimos os problemas da maior parte da produção atual (e desconfio que da passada, como também da futura) e identificamos uma causa principal, chamada Fator Clóvis Bornay. Trata-se do exagero e da pompa que marcam e que, na maioria das vezes, deformam qualquer expressão cultural no Brasil. Foi descoberto enquanto víamos, aos risos, o trailer de Ouro Negro, filme com Danton Mello sobre a fundação da Petrobras. Siiiiim. O projeto obviamente exigia uma superprodução para a qual, no entanto, faltava orçamento. Resultado: overacting, que na cabeça dos atores brasileiros compensa o déficit épico da mise-em-scène pobretona, e efeitos especiais de Trapalhões, rendendo uma grande sessão de humor involuntário. A estrear.
5 The Conversation, um Coppola de 1974, é provavelmente melhor que Apocalypse Now, mas esse é o tipo de controvérsia que não me interessa criar quando o barco já está afundando. Mas é outro FILMAÇO que assisti nesse interlúdio gostoso longe de vocês. Procurem pela internet, porque não foi lançado nem em VHS, nem em DVD, entrando numa longa lista de títulos essenciais que aguardam a boa vontade das distribuidoras, que precisam lançar antes edições comemorativas de Vovozona para aquecer o mercado, ui.
6 Li também muitos livros, porque os blogs que eu acompanho deixaram de ser atualizados. Aparentemente blogueiros entram em “crise criativa” ou “se cansam do formato”. Tudo se passa como se estivessem escrevendo Anna Karenina. São divas que perderam a hora da pedicure. Recomendo Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, uma novela russa em que muita gente é assassinada e você sente que é o próximo. Das melhores coisas que li. E esta passagem aqui de um texto da jornalista Vanessa Barbara, porque de repente dei pra citar texto de jornalista: “O tempo corria para trás nas aulas de francês do mosteiro São Bento – como se fosse sempre à tarde e nós usássemos chapéus.” Sei lá, posso andar sentimental, mas esse “como se fosse sempre à tarde” me pareceu tão bonito quanto um haicai sem ser. Grato.
Se você for uma pessoa daquelas que jamais ouviu falar em Coco Chanel (que baita Mané você é, hein? Com todo o respeito), e colocar os seus olhos nesta produção francesa, sairá depois dos 115 minutos de projeção achando que a Senhorita Coco era uma chapeleira de quinta, daquelas que vão em lugares de alta classe empurrar as suas criações para as abastadas clientes, e que se apoiava em um punhado de ricaços para se sustentar, e que mesmo depois de se consagrar, era uma infeliz que tinha virado as costas para o que, pelo menos segundo o filme, realmente importa para as mulheres: o amor.
O filme, que deveria, caso fosse uma produção de sucesso, transmitir para o espectador o tamanho da influência da francesinha não só no mundo da moda, mas também em toda a sociedade no século XX, e o seu papel fundamental no que viria depois a ser chamado de emancipação feminina, prefere se concentrar em um dos fatos mais desinteressantes e aborrecidos da vida da estilista, partindo de uma presumpção equivocada a respeito da influência que os eventos tratados no filme tiveram ou teriam tido sobre Chanel. Mas tem dia que parece que é de noite, como diria o meu avô, e o que temos é uma produção cachorrenta, vira-lata, vagaba e safada, que desfila atuações frouxas e sem energia, que em nada são ajudadas pelo roteiro pouco flexível. Audrey Tatou, que lembra vagamente as feições de Coco, tenta trazer alguma energia ao filme, mais peca pela caracterização rígida demais. Os momentos de felicidade vividas pela estilista, principalmente quando “descobre” poder amar também, são traduzidos para a tela por Tatou com um desconforto inquietante, o que revela até uma certa preguiça por parte da nossa Amelie (será que o semblante cada vez mais rígido de Audrey nos filmes é culpa do seu descontentamento por ter sempre que ouvir comparações cretinas com a sua personagem mais famosa, de incautos como eu?), que não encarna Chanel com a mesma energia que Marion Cotillard empregou na sua Edith Piaf.
Chapeleira Louca, antes de Depp
Dizem por aí que o filme é soporífero e pouco elucidativo (termina em 1919, ainda com Coco longe do seu auge criativo, e longe das perrengas encaradas pela estilista na Segunda Guerra) por culpa da estratégia de lançamento, já que promete-se um “Coco Depois de Chanel” para os anos subseqüentes, que revelariam a segunda parte da história. Como não encontrei fatos mais substanciosos sustentando esta tese, acredito que não veremos a segunda parte, já que este filme não foi lá o maior sucesso da França para merecer mais uma produção. E se viesse, caso fosse com o mesmo time incompetente no comando, e com atuações tão esculhambadas como as vistas aqui, que não venha nunca mesmo.
A diretora do filme, Anne Fontaine, que faz aniversário 2 dias depois de mim (15 de Julho, nós poderíamos dar festas nervosas juntos, com uns videogames em rede, Nintendinhos e tudo mais, e uns hamburgeres e suco de Uva pra galera matar a sede), tem créditos ESTONTEANTES no currículo, que inclui filmes como.... e como.... e tem também aquele outro, o....er..... xápralá. Aparentemente o Luc Besson estava ocupado demais para o cargo, o que configura basicamente o cenário ideal para o fim dos tempos.
Coco Antes de Chanel é um dos filmes que mais desrespeita o seu alvo que eu jamais vi, e não por pintar a sua protagonista com cores pouco agradáveis, e sim por ser um filmeco que empalidece perante a inesgotável influência existente na vida de sua personagem. Chego a achar até que Anne Fontaine se ressente da influência de Chanel, já que praticamente joga no lixo as conquistas da mulher, e as poucas que demonstra faz questão de diminuir ao apostar conseguir interpretar a psique do mito, trazendo a estúpida questão do amor perdido à tona. Por isso que eu digo: antes ler sobre a Chanel na Wikipedia do que morrer com 20 pilas vendo essa porcaria.
Amantes é um filme pretensioso, um estudo de personagem lento e reflexivo. O filme peca pelo roteiro pouco inventivo e corajoso, o que acaba jogando a sua trama na vala comum dos dramas românticos, mas merece elogios por não acelerar a sua narrativa e nem descuidar do tratamento dado aos seus personagens. O diretor James Gray ( Pequena Odessa, Os Donos da Noite) merece atenção, embora já esteja no ramo faz um tempinho (Pequena Odessa foi lançado em 94, quando ele tinha apenas 21 anos). No mais, Joaquin Phoenix é um excelente ator, e deveria parar com essas micagens de querer ser rapper e tudo mais e voltar a se concentrar no que sabe fazer, embora tenha dito que esse filme seria o seu último. Deixa de ser moleque, rapá! Os rapazes podem gostar da pior cena do filme, que tenta em um forçado toque de vanguarda européia mostrar ousadia ao revelar os seios desnudos da já milf Gwyneth Platrow (juro pra vocês que eu já tinha esquecido dela), no melhor estilo O Expresso do Oriente. Juro pra vocês, a cena remete a uma das mais famosas daquele filme.
Cedric Klapish, um francês cheio de ginga e malandragem, deu ao mundo dois filmes que são venerados pelos posers e deslumbrados da cena alternativa paulistana: Albergue Espanhol e Bonecas Russas. Tendo viva na memória os momentos tediosos que passei quando assisti a esses filmes, resolvi encarar uma sessão do mais novo engodo do cineasta. Paris é mais uma dolorosa mostra do universo equivocado e pouco interessante criado pelo cineasta, que joga uma trama frouxa e sem qualquer resquício de energia em intermináveis 130 minutos. Contando diversas histórias paralelas, o filme conseguiu a proeza de não me fazer se importar com nenhuma delas. Na verdade, o personagem que mais me causou comoção no filme fui eu mesmo, e o meu sofrimento ao aguardar pacientemente o fim da projeção, com dores no joelho (torci jogando bola ai, doeu pacas, mó tristeza) e tudo mais. Mas no final das contas sai com uma impressão válida ao menos: Juliette Binoche, com gloriosos 45 anos, ainda bota muita garotinha no chinelo.
Nick Cassevetes é filho do mito John Cassevetes. Só por isso, deveria ser cuidadoso e dirigir filmes que fizessem jus ao sobrenome que carrega nas costas. Mas aparentemente o pequeno Nick está pouco se lixando. Uma Prova de Amor é o filme mais manipulador que eu já vi na minha vida. Com cinco minutos de projeção já está querendo levar os seus espectadores (leia-se mulheres) às lágrimas, e segue nessa toada infernal até o seu derradeiro minuto final. A trama por si só já traz o alerta de “perigo: água com açúcar à vista” por toda ela, contando a história de uma família cuja filha mais velha tem leucemia, e que usa a irmã mais nova dela como doadora constante, uma prática absurda e que poderia gerar um interessante drama com explosivos conflitos morais, mas que bizarramente é deixado de lado em nome das lágrimas fáceis. Cameron Diaz já está pronta para a vala comum das quarentonas de Hollywood, e Abigail Breslin consegue fazer a experiência ser menos massacrante com sua graça natural. Assustadoramente, uma das melhores atuações do filme é do canastra-mor Jason Patric. Imagino o velho John, cujos filmes eram marcados por narrativas classudas e corajosas, assistindo a essa porcaria. Ia querer dar uns belos e merecidos croques na cabeça do filho. Por isso que eu digo sempre: jamais tenham filhos.
Hollywood está tomada pelas chamadas bromedies, comédias que mostram grupos de amigos já beirando os 40 anos e que apresentam conflitos de maturidade e dificuldade em aceitarem as responsabilidades da vida, o chamado Arrested Development. Judd Apatow é considerado o pai do gênero, embora eu, Progressista, o filho predileto de Rajneesh, considere o marco zero do gênero o filme Dias Incríveis, de 2003, que foi dirigido pelo Todd Philips e tinha o Vince Vaughn, Will Ferrel e Luke Wilson no elenco. Se Beber não Case também é dirigido por Todd, e foi o sucesso mais inesperado do verão americano, gerando inacreditáveis 250 milhões de dólares nas biheterias, além de ter causado boas impressões nos críticos. A trama é redondinha, apostando em um bem amarrado clima de mistérios e surpresas para arrancar risadas dos espectadores. O maior mérito do filme é não amenizar a sua narrativa em nenhum momento, carregando em um humor rude e corajoso em tempos politicamente corretos. Mas não sei se é uma boa coisa quando o maior mérito de um filme é ele encarar de frente a sua vulgaridade. Teria de pensar sobre isso. Vou passar um mês em um retiro espiritual pensando sobre isso, e trago no fim a resposta para vocês.
Filme que causou comoção quando lançado na gringa, sendo cogitado para o Oscar e tudo mais. Feito em formato de mockumentary (se você não sabe o que é isso, ô burraldo, significa que é um documentário falso. Lembre de produções como Spinal Tap e séries como o The Office, mané), é um dos filmes mais brutalmente energéticos que vi nos últimos tempos. Apostando no climão “realidade nua e crua com favelas e violência”, popularizado pelo coisa nossa Cidade de Deus e visto até me produções como Quem Quer Ser Milionário? nos últimos tempos, é uma fábula sobre o Apartheid sul-africano, mostrando um grupo de alienígenas cuja nave-mãe acabou ficando suspensa no céu de Johannesburgo, e que é discriminado socialmente e legalmente pela sociedade sul-africana, em algo que remete à revoltante situação enfrentada pelos negros nos tristes 30 anos de Apartheid. O diretor Neill Blomkamp é nativo de Johanesburgo, e conta a história lembrando-se dos fatos por ele presenciados em sua infância na cidade, assistindo àquela realidade horrorosa como espectador privilegiado, já que era morador das chamadas zonas brancas (blergh!) da cidade. O formato do filme e a sua sufocante atmosfera (realçada ainda mais pelo formato, que capta a energia da narrativa de maneira eletrizante) são um sopro de ar no combalido universo das ficções científicas do cinema, assolada nos últimos tempos por tramas nada estimulantes e com temas cansados e batidos. Mérito também do diretor na descoberta de Sharlto Copley, amigo de infância que, a pedido do diretor, assumiu o papel principal do filme. Nenhum ator badalado traria o pulso que Copley emprega na sua atuação.
Um dos piores filmes que eu vi em toda a minha vida. Um festival de oligofrenias, obscenidades e dubialidades morais. Se eu fosse ator e lesse um roteiro desses, eu iria me esconder embaixo da cama por meses. Mas aparentemente Gerard Butler e Katherine Heigl (que as meninotas devem conhecer da horrenda série Grey's Anatomy) não têm exatamente muita vergonha na cara, e embarcam nessa bomba com gosto. No mais, Butler achou que estava no set de 300, e atua exatamente da maneira como fez naquele filme homoerótico. Cheguei até a esperar o momento no qual ele gritaria no ouvido de Katherine o famoso “THIS IS SPARTA!”, tal o tom equivocadamente gutural que ele deu para a sua atuação. Já Katherine, que é a cara da Rachel McAdams, é obrigada a desferir alguns dos diálogos mais vulgares jamais conferidos a uma dama em uma produção mainstream hollywoodiana. Mas como eu disse antes, vergonha é pra quem tem, obviamente. Se o Framboesa de Ouro ignorar esse lixo, eu vou ficar meio que bravo.
Filme que, de tão bom, nem foi lançado em circuito no mercado americano. Catherine Zeta-Jones precisa demitir urgentemente o seu agente, e Justin Bartha tem me perseguindo incessantemente, já que o vesguinho (que maldade!) também estava no Se Beber Não Case. Acho que, se eu fosse ele, procuraria não ficar no mesmo espaço que o Michael Douglas por muito tempo. Umas passadas de mão nervosas ai, moro? O moleque conferiu com gosto tudo o que a quarentona e ainda divina Zeta-Jones tem para oferecer. Que coisa... De resto, o filme não é engraçado, não desenvolve os seus personagens suficientemente para que nos importemos com os seus futuros, e aparentemente não sabe como resolver a sua narrativa, apostando em um final preguiçoso para juntar as pontas. Para falar a verdade, eu mal lembro qual foi a história contada pelo filme, tive que fazer um baita esforço mental para conseguir relembrar os detalhes contados pela história. Acho que ninguém envolvido nessa produção deve lembrar de muita coisa também. Se não me falha a memória, era um musical sobre um grupo de coristas na Chicago dos anos 30, que alcançavam a fama de maneira bizarra quando eram presas por algum crime que cometiam, e eram defendidas por um advogado charmoso e que dançava também. Acho que era isso. 
(aka The 209th Post by Camarada Fundamentalista)
Bastardos Inglórios é filme pra quem gosta mesmo de Tarantino. Gostar mesmo de Tarantino tem a ver com baixar as trilhas sonoras dos filmes dele e ser burrão de achar Kill Bill melhor que Pulp Fiction. Já não gostar mesmo de Tarantino deixa ver que Pulp Fiction nem é do Tarantino. Pulp Fiction é bom demais pra ser do Tarantino. Muita gente, inclusive eu, faz campanha pra que Pulp Fiction não seja do Tarantino. Pra que seja do Robert Zemeckis. Ou do Cameron Crowe. Ou do Robert Redford. Ou pra que volte a ser do Danny DeVito. Tudo menos do Tarantino. Pode ser até do Liev Schrieber. Só tira pelamor o nome do Tarantino dos créditos. É que Pulp Fiction criou um mito. Criar mitos é a segunda pior coisa que pode acontecer no mundo do cinema, e acho que da literatura, se eu lesse livros. Só perde pra ressuscitar carreira de astro decadente. Tipo John Travolta ressuscitado em Pulp Fiction graças ao diretor Danny DeVito pra depois produzir A Reconquista, eeeeeeeee. Esse mito se chama Quentin Tarantino.
Mas Bastardos Inglórios pode ser do Tarantino. Faço questão de que todo o mundo saiba que Bastardos Inglórios foi escrito e dirigido por Quentin Tarantino. Porque Bastardos Inglórios tem 150 minutos. Porque Bastardos Inglórios tem uma cena em que a cara do Hitler é metralhada até virar pudim. Porque eu saí do cinema mais preocupado com a cara do Hitler transformada em pudim na base do tiro que com a intertextualidade. Porque teve muito neguinho crítico de cinema que deu cinco estrelas pro filme por causa da homenagem a toda a porcaria da história do cinema. E eu acho muito bom as pessoas homenagearem toda a história do cinema. Mas o cara não pode fazer isso só porque acha que dirigiu Pulp Fiction. Porque quem dirigiu Pulp Fiction foi o Danny DeVito. Aquele gordinho baixinho e careca.
E o problema é que quem gosta mesmo de Tarantino acha que ele é tipo o Messias. A história toda do cinema convergindo nele. E o pior é que o Tarantino acha mesmo que é o Messias. Senão não fazia um filme que faz convergir em si a história toda do cinema de um jeito todo atrapalhado. E todo o mundo acha o Tarantino um cara muito doido. E deve ser mesmo. Mas fazer pudim da cara do Hitler é uma coisa que ainda me choca. Apesar de muita gente me responder na hora que, pô, é um filme do Tarantino. Então tá. Só que eu fico chocado. Mas não com todo o mundo olhando. Fico chocado e quietinho. Pode me chamar de filisteu. Pode me chamar de tonto. E eu acho que alguém devia apresentar o Tarantino a um ser humano de verdade. Não ser humano de filme de luta. Ser humano ninja. Tarantino, esse aqui é o ser humano. Ser humano, esse aqui é o Tarantino. Porque tem gente que morre em Bastardos Inglórios, e a gente não está nem aí, gente que devia morrer com a gente gritando pelamor não mata ele, não mata, ahhhhhhhhhh.
Eu não sou fã do Quentin Tarantino a ponto de achar Kill Bill, os dois volumes, o máximo. Achar Kill Bill, os dois volumes, o máximo é coisa de adolescente que quer ser cineasta quando terminar o Ensino Médio daqui a dois anos. É o sujeito que lê O Guia do Mochileiro das Galáxias hoje, aos 15, e acha o melhor livro do mundo, e vai ler O Guia do Mochileiro das Galáxias aos 45 e ainda vai achar que é o melhor livro do mundo. Porque Kill Bill é bem legal e tudo. Mas é fase. Eu tive a minha. Assobiei a musiquinha. Comprei a caixa The Box Deluxe Sweet Child of Mine Edition. Curti a Uma Thurman. Namorei uma japinha com cara de protagonista de filme de terror japonês e chamava ela de Gogo. Dei até com uma arma mortal na cabeça dela. Comprei um macacão amarelo e um tênis de alpinista amarelo. Fui pra Liberdade atrás da japonesada pra lutar e tudo. Etc, etc. Mas, sei lá, passou.
O filme é tipo meio que a história de uma menina e um cara que tipo persegue e não persegue ela, mas não é nada pessoal. Aí a menina foge, e o cara continua perseguindo outras pessoas enquanto ela não aparece, mas aí quem aparece são os Bastardos Inglórios, que tipo não têm nada a ver com a menina, porque eles nem conhecem ela, e tal, mas o cara meio que conhece os Bastardos, que também perseguem uns caras, no caso os nazistas, e, ah, a menina é judia e tudo. E tem aquela mesma estrutura em capítulos dos dois Kill Bill. Mas mais preguiçosa. Uns enquadramentos classudos. David Bowie. E eu queria que o Tarantino voltasse a ser objetivo como em Cães de Aluguel.
Isso até me lembra de outro dia quando um amigo meu me perguntou sobre o que é que era Kill Bill, que o extraterrestre não tinha visto. Aí eu disse que era tipo meio que uma paródia, mas mais do que isso, de filmes de artes marciais. Mas aí eu vi que dizer que era tipo meio que uma paródia de filmes de artes marciais não convencia muito de assistir o filme como eu queria que ele assistisse. Mesmo que fosse mais do que isso, de filmes de artes marciais. E aí eu continuei falando que tinha uns lances de câmera que ele ia perceber de cara porque o negócio era bem filmado e tudo. E uns enquadramentos e tal por ser bem filmado e tudo. E aí ele se convenceu e disse que veria um dia. E aí eu fiquei satisfeito e aliviado. Nem sei por quê. Acho que não queria parecer burro.
Bastardos é uma sátira de guerra. Isso porque tem o Hitler falando cuspindo meio histérico. Como é uma sátira de guerra, as pessoas vão logo lembrar de Doutor Fantástico. Mas pomba! Doutor Fantástico não foi dirigido pelo Tarantino. E não é qualquer guerra. É a Segunda Guerra Mundial. Mas a verdade é que o Tarantino passa que nem um trator por cima disso. Porque podia ser sobre qualquer guerra. Qualquer coisa. Podia ser sobre a guerra da Indochina. Podia ser sobre a Escola de Sagres. Que dava na mesma. Tudo porque é um filme do Tarantino. Com um carimbo gigante na testa dos atores e nas cenas dizendo Tarantino’s movie. E tem também um gordo que nem dizem que querem que a gente ache que é o Churchill. Mas é. E o Mike Myers na mesma sala com esse gordo que deveria ser o Churchill. O que é muito inverossímil. Porque o Churchill nunca ficaria na mesma sala com alguém como o Mike Myers. O Mike Myers que é o, er, astro decadente da vez a ser ressuscitado. Mas sinceramente acho que não vai rolar. E eu acho que o Tarantino devia logo refilmar Era Uma Vez no Oeste do jeito que o Gus Van Sant refilmou Psicose. Aí ele parava de enfiar Sergio Leone goela abaixo da gente, que é bem legal e tal, mas pô.
Agora meu TOP 5 dos filmes do Danny DeVito:
5. Morra, Smoochy, Morra
4. Matilda
3. Hoffa
2. Pulp Fiction
1. Era Uma Vez no Oeste
Este post sofreu o patrocínio da Monsanto Company.
O que a sabedoria manda fazer? Nunca confessar que se gosta de Los Hermanos gostando-se de Los Hermanos. Não discordar dos amigos em pontos que envolvam paixões virulentas. Afastar-se diante de paixões virulentas. Evitar paixões virulentas. Esconder paixões virulentas.
Mas hoje estou particularmente preocupado com generosidade e com os empecilhos para sua prática. Pois, como todas as outras virtudes, ser generoso não é talento, mas ação. Direto e reto como os bons comunicadores, vou dizer o que penso. Acho que o principal obstáculo para a generosidade é o detalhe. Deter-se nos detalhes.
Em estética, isso é fundamental. Dizem que o gênio está nos detalhes. Obras de arte são invariavelmente um acúmulo absurdo de detalhes, resultado da preocupação maníaca do artista com detalhes. Pensem num quadro. Pensem num livro. Não, O estrangeiro, não. Pensem em A educação sentimental. Remeto-me ao cancioneiro popular: “Quando Deus te desenhou, ele tava namorando”. Escrevam-me suas conclusões.
Mas, moralmente, o detalhe amesquinha. Estranho, não? Não, nem um pouco. Estética e ética são dois ramos do cerumano onde o lóbulo frontal e o dianteiro diferem. Aqui tem um esquema:
Este post sofreu o patrocínio da Monsanto Company.
Woody Allen me ensinou que é possível driblar a percepção de uma pequena multidão se apelarmos para as conhecidas pretensões intelectuais. Retrospectivamente falando, foi o que fi-lo quando citei A educação sentimental em detrimento de O estrangeiro. Se tivesse dito Tolstoi, o efeito diminuiria, porque não o tendo dito supus que sabiam que foi Tolstoi que escreveu A educação sentimental. Formou-se, metaforicamente falando, um pequeno clube, e a chamada cumplicidade autor-leitor foi estabelecida. Agora piscarei meu olho esquerdo, quero que o imaginem: Flaubert, Flaubert, Flaubert.
Mas isso ainda é o detalhe. Cinematograficamente falando, volto a Woody Allen. Dizia eu que ele fez algo que, a título de ilustração, mostra que a estética se fundamenta na ética. É o liame diáfano do raciocínio. Mas ó, atenção, que dá pra entender. Sem um posicionamento ético – testa no chão, tronco num ângulo de 45º em relação ao mesmo chão, pé esquerdo tocando a base da nádega e perna direita recolhida junto ao estômago – que releve o detalhe, qualquer empreendimento estético no sentido de produzir detalhes (já que é essa a natureza estética par excellence) gorará. Sim, senhores, temo que gorará.
Por exemplo Woody Allen ter filmado Manhattan, que é lindo, com Gershwin logo de cara, fotografia p&b maravilhosa e citações eruditas a cada cinco linhas de diálogo (rate fornecido pelo AFI Crazy Nuts Quotations Index). Tudo pra dissimular o fato de que Woody Allen era um judeu baixinho de 42 anos dating uma Mariel Hemingway de 17 anos. Premissa doida do caramba.
(Anatomicamente falando, prevejo dificuldades para entender o que seja a base da nádega. Ora, nada mais que o ponto em que se encontra a dita coxa com a sobredita polpa.)
Mas a audiência vulgo nós bate palmas porque funcionou graças ao fato ético de havermos esquecido detalhes como as conveções sociais sobre beleza, atração sexual e lógica clássica e acreditado na ilusão dramática de que o amor pode tudo. Os filmes do Woody Allen são sobre isso, não são? Quase todos os filmes são. Mas há filmes que falham justamente em embasar detalhes de ordem estética com a ausência de detalhes de ordem ética, compreende? Aqui cumpriria falar de Bastardos Inglórios, que era de fato o meu objetivo. No fundo da coisa toda, estava um filme de Tarantino, este gênio contemporâneo. Convém preambulá-lo.
Muita gente se engana ao dizer que Quentin Tarantino é o exato oposto de Glória Kalil, que, conforme sua descrição pessoal no twitter, é uma “jornalista, empresária e consultora de moda brasileira”, que se dedica “à consultoria de estilo e negócios ligados ao campo da moda e do comportamento”. E, a propósito, a minha descrição é: “um colchonete entre colchonetes”, que na época achei muito espirituosa. E ainda acho. Mas, praticamente falando, Quentin Tarantino e Glória Kalil são praticamente a mesma pessoa quando percebemos que ambos são interessados em estilo. Agora uma palavra sobre estilo.
Clodovil ou Pedro Bial, talvez os dois, não sei ao certo, disse que “O estilo é o homem” ou "O estilo é homem". Se a frase é do Clodovil, tendo à segunda opção. Ora, eles estão estão certos. Porque o estilo é isso aí. Mas o estilo é também a coisa mais perigosa do mundo quando priva o homem daquilo que ele tem de mais precioso: a vontade de construir um mundo melhor. Quer dizer, escrever certo por linhas tortas. Isto é, ser feliz ao lado de quem se ama. Trocando em miúdos, ganhar muito dinheiro e namorar modelos ajudando a comunidade.
O estilo pode ser o homem, mas também pode ser o que mata. E o que mata o homem.
Aos 7 anos, eu já catava lixo na rua pra ter um futuro melhor, cursando Letras e me apaixonando por você (coloque o seu nome aqui:_________). A nossa trajetória é uma história de desafios. A mesma de Tarantino. Nossos pais não nos liam Baudelaire à mesa de jantar. Nós nem tínhamos uma mesa de jantar. Nem posso imaginar mamãe, com sua sensibilidade romântica, fazendo vômito ao ouvir o lirismo da carne putrefeita da amada do Poeta. O saldo de nossa (de)formação é que hoje gostamos de cantar junto. E o critério de Tarantino é um só: fazer filmes que ele gostaria de ver. (Vide lista dos filmes favoritos de Tarantino nos arquivos imundos deste blog.)
É inegável que Tarantino é um exímio. Mas será que ele tem algo a dizer? Pois será que nós mesmos temos algo a dizer e, por que não dizer, a ouvir? Encerro aqui, deixando estas perguntas aos senhores, que espero meditarem com escrúpulos redobrados na clausura de suas cabeças.
Prometem demais pra gente com esse lance todo de amor. Quando é a nossa vez, pra valer, nos decepcionamos pra vida inteira. Divórcios são só o mais comum, mesmo entre aqueles que não aprova(va)m. Trata-se de uma geração terrivelmente mal preparada para se sacrificar, para admitir que a vida não é curtição, Coca-Cola, etc e tal.
Quer dizer, na maior parte do tempo estaremos só tranquilos, depois entediados, aliás muito entediados; e se não estivermos entediados, então será um inferno e estaremos à procura de paz, porque alguém ou alguma coisa nos enche muito o saco, talvez nos atormente mesmo. É, a alternativa será essa, ou tédio, ou perturbação. Mas às vezes felicidade, pura e simples, algum sucesso, aquela sensação de triunfo, que tem de ser ocasional, e depois a morte. As vidas são assim, todas iguais, e pelo que eu sei não mata, ou quase.
Frustrar-se é inevitável, os mais sensíveis se frustram por completo, terminando amargos; e quem diz que não é frustrado, é conformista, talvez cínico, talvez conivente. “O mundo está contra nós” é papo de adolescente, mas que não colobora, isso não.
O amor é das maiores promessas jamais cumpridas. Depois vem trabalho, formando os dois eixos fundamentais da vida; realização profissional, dizem. Quer dizer, depois que você descobre que não devia se casar, porque achava que era uma coisa que não era, e inventa de ter filhos pra “preencher a vida”, volta-se pro serviço, se pode. Às vezes, antes mesmo de se casar, ou em vez de se casar. É uma tentativa válida, alguns conseguem, como sempre existe quem consiga alguma coisa, levando o resto a imaginar que também pode.

O romântico em mim diz que há uma saída, que tem a ver com os idealismos mais inconsequentes, porque desprovidos de cartão de crédito, estabilidade financeira, implicando algum tipo vago de revolução social, não socialista, mas mais puxada pra ação social, tipo aquele desejo fofinho e nem um pouco prático de “ajudar as pessoas”. Se você conseguir transformar esse slogan em algo parecido com uma vida em tempo integral, talvez seja menos frustrado e egocentricamente entediado que a maioria acima descrita. Boa sorte.
E tem que a gente só acha o mundo tão tosco por causa das pessoas nele. Isto é, não são os furacões e terremotos que nos aborrecem, ou câncer, ou crianças nascendo sem braços e outras deficiências, isso tudo a gente aceitaria muito bem. O que torna a vida eventualmente miserável são os outros, que somos nós. Por isso, a conclusão é que a maioria das pessoas está contra nós, que estamos contra as pessoas, pela razão de sempre: por nós mesmos. Yes, that same old song, chap: a tragédia do nosso egoísmo em quantos atos você queira.
Minha tendência é achar que 70% das pessoas são toscas e que as poucas pessoas legais que existem são exatamente aquelas que eu chamo de amigos, com algumas exceções, que reconheço porque sou muito razoável a ponto de saber que nem todo o mundo que presta vai gostar de mim, porque nem todo o mundo combina e então é melhor seguir cada qual o seu caminho. A tosquice das pessoas consistindo não tanto em maldade intencional, ou seja, crueldade, mas ignorância e acomodação diante do sofrimento e do mal com argumentos incrivelmente razoáveis e superficiais. Amém.
1 Descobri que todas as frases que eu escrevo são esquisitinhas, mas tudo bem, que isso é estilo. Eu, como aqueles motoristas que, obrigados pela empresa, colocam um adesivo na traseira do veículo perguntando como estão dirigindo, pergunto: como estou escrevendo? As minhas frases são esquisitinhas mesmo? Ou estou só tendo mais um surto de TOC, se é que é adequado falar em surtos, mas é o que eu sinto.
2 Aí depois eu invento um esquema e me acalmo. A frase – sim, falo como Flaubert, “na frase” – fica ok, e eu descanço até ser novamente tomado de uma desconfiança horrível até do artigo “a”, que não devia ser usado. Logo estarei como Perec, que, segundo ouvi, mergulhou tão fundo naquele experimento de escrever um romance inteiro sem usar a letra “e”, que no francês é onipresente, a ponto de começar a achar que a letra estava perseguindo-o. Sim. Mas vocês já viram a cara do Perec? Explica muita coisa.
3 Mas eu queria mesmo era me sentar e escrever algo bombástico sobre o amor. Queria escrever O Segredo do amor, O Código da Vinci do amor, A Cabana do amor, o Ninguém é de Ninguém do amor. Pessoas no metrô lendo sobre o amor segundo eu. Que contribuição. Que megalomaníaco. Mas minha, er, vida amorosa está parada desde janeiro. Isso não é bom nem ruim. Nesse meio-tempo pessoas muito próximas, que acreditavam no amor, deixaram de acreditar ou pelo menos sossegaram, e outras que não acreditavam, se não passaram a acreditar, pelo menos ficaram bem promíscuas em nome do amor. Quer dizer que todo o mundo continua tateando, literalmente ou não, nos relacionamentos. Eu vos lamento, senhores.
4 A única coisa que nos tem salvado, como sempre, é a amizade. Se em todo o resto nós somos absolutamente desastrosos, o que não chega a ser verdade, pelo menos – o que é muito – temos sido amigos. Se querem uma definição de amor honesta, é isso: amor é amizade, amizade é amor. Um amigo é a expressão do amor desinteressado e incondicional que esperamos dos relacionamentos amorosos, até agora sem sucesso, quase sempre por nossa culpa. CULPA.
5 E essa semana eu vi A Onda, um filme alemão excessivamente esquemático. É um High School Musical sobre as origens e natureza dos regimes fascistas. O problema é que é uma obra de tese. E teses são carnívoras: comprometem desde complexidade psicológica até desenvolvimento dramático. Os personagens não são pessoas, de carne e osso, mas ideias. Eles ilustram pontos. Em vez de se expressar, eles argumentam. Todas as suas palavras e atos são silogismos. Tudo se curva ao esquema. É a única forma de comunicação da tese. E é raso demais. Mas aprendi que é fácil ser Führer. Semana que vem, tento.