segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

TOP-5: Melhores/Piores filmes do ano

Depois de mais um glorioso empreendimento desse destemido blog, hoje vivemos o último dia do ano e também o fim do mês especial de Natal no Fomos Ao Cinema. Em breve, teceremos considerações sobre o os eventos que tomaram lugar nesse espaço nesse nosso primeiro ano de vida, lembrando momentos já míticos vividos aqui, brigas, alegrias, frustrações, brigas, sucessos, os projetos construídos, brigas, a relação com os nossos caros leitores e também, logicamente, falaremos das brigas que ocorreram por aqui. Mas antes, para fechar o ano com galhardia, publico, honrando o nome do blog, a lista dos melhores e piores filmes lançados em circuito no Brasil em 2007. Já vamos agradecendo, e podem esperar, entraremos de penetras nas suas festas de ano novo. Tem mais champagne pra três aí, Jão?
Melhores filmes lançados em 2007:



5-Zodíaco
Mais um belo momento de David Fincher, um filme obssessivo e inteligente, que conseguiu se sobressair mesmo com uma (na minha opinião) equivocada escolha de elenco. A longa duração do filme é um empecilho apenas para aqueles incapazes de se prenderem a uma boa história e todas suas nuances. É o filme mais contido visualmente de Fincher, sem os virtuosismos que marcaram seus trabalhos anteriores. Aliás, os melhores filmes por ele feitos são aqueles que se prenderam mais a história. Vide O Quarto do Pânico, que é cheio de efeitos e virtuosismos e é uma bela porcaria.



4-Pequena Miss Sunshine
Maior surpresa do ano, o primeiro esforço cinematográfico do casal Jonanthan Dayton e Valerie Farris (que dirigiram duzentos clipe do Smashing Pumpkins anteriormente) foi um esforço de sentimentalismo nada óbvio, ao mesmo tempo que soube brincar com os clichês do senil cinema alternativo americano. E tinha no elenco o Steve Carell, cada vez mais ídolo de dois terços do blog. Se bem que a escolha original para o papel era o Bill Murray... é, não tinha como errar mesmo.




3-Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à AméricaMockumentary que deu um pau no provincianismo dos yankees, mostrando através das interações reais do personagem Borat (criação do comediante inglês Sacha Baron Cohen) com anônimos do interior dos EUA toda a ignorância e complexo de superioridade existente no coração daquele país. E Baron Cohen garantiu o show com seu timing perfeito.





2-O Bom Pastor
Injustiçado thriller de espionagem dirigido pelo ator Robert De Niro, inexplicavelmente deixado de lado por crítica e público (criticaram a longa duração do filme principalmente), é um belo exercício de personagem, e o intricado roteiro garante uma classe que pouco se encontra nos filmes do gênero hoje em dia. Matt Damon provou ser capaz de atuar, ao compor um personagem incapaz de mostrar qualquer tipo de descontrole ou emoções. Sua face no filme é intransponível.






1- O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford
Um filme feito com o espírito da dourada década de 70, época mais brilhante da história da sétima arte. Sem qualquer tipo de pressa ou vontade de colocar os carros na frente dos bois, critica a cultura das celebridades direto da fonte, da primeira de todas, Jesse James, ao mesmo tempo que olha com grande frustração e auto-piedade para a patética saga de Robert Ford, que virou um vilão de primeira categoria apenas por ter enxergado a verdadeira essência de James, ao invés de se conformar e comprar o mito vendido pelo sensacionalismo da época. Sensacionais atuações de Brad Pitt e principalmente de Casey Affleck, a quem deixo mais uma vez o conselho: mude o sobrenome. Você é talentoso demais para carregar essa cruz injusta nas costas.

Menções honrosas: Tropa de Elite, Cartas de Iwo Jima, Filhos da Esperança


Piores filmes lançados em 2007:







5-Babel
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZglobalização,
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZcaleidoscópio humano, ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ Gael Garcia Bernal,
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ mega astros hollywoodianos engajados (essa é sua, Brad Pitt), ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ diretor Mexicano. Aliás, lanço aqui a campanha: DIRETORES MEXICANOS, PEÇAM PRA SAIR!




4-Dreamgirls
Ao invés de comprarem longo a história da Diana Rosse das Supremes, vieram com essa ficção de quinta baseada na história real, mudando os nomes dos personagens e criando músicas novas. O resultado foi desastroso. Trilha de quinta categoria, que em nada honra a categoria das canções das Supremes, ex-participante do American Idol ganhando o Oscar e, apocalypse now, Eddie Murphy sendo indicado para o prêmio, apenas por cantar três musiquinhas toscas durante o filme. Mas nada disso supera a maior das verdades: esse filme é constrangedor. Sério, assisti no cinema e senti-me constrangido, por mim e pelos atores que participaram. Bem que eu achei estranho quando soube que o Jamie Foxx não queria fazer. Vergonhoso.




3- Homem-Aranha 3
Sério: é um dos piores roteiros que já vi na vida. Tem de pegar os incautos que escreveram essa tristeza (para ser mais preciso, Sam Raimi e o seu irmãozinho Ivan Raimi) e encher de porrada. Sam Raimi principalmente, se é pra fazer filme de má vontade, que fique em casa comendo amendoins então. Não dá, os dois primeiros filmes tão dignos e decentes, e aí vem esse lixo pra jogar tudo descarga abaixo. Só não chega ao nível de um Batman e Robin porque Joel Schumacher é imbatível na sua ruindade absoluta. Mas só de eu ter pensado se seria algo possível, só de eu ter imaginado Homem-Aranha 3 do lado daquela "coisa", significa algo muito, muito ruim.



2-Número 23
Jim Carrey, descanse em paz. Acabou. Eu avisei: não se meta com o Joel Schumacher. Deixa ele lá, quieto, dando comida para os seus gatos. Mas não teve jeito. O resultado foi desastroso. Carrey, ator que precisa sempre de um diretor talentoso para segurar seus instintos histriônicos (Peter Weir e Milos Forman que o digam) se viu totalmente solto para entregar uma atuação ridícula, e Schumacher mostrando ter o talento para direção de qualquer calouro ingressando nas faculdades de cinema da vida. Ou seja: nenhum. O cara fez duzentos filmes, trabalhou com alguns dos melhores atores, sempre consegue financiamento para os seus, ahn, digamos, "filmes", e é incapaz de planejar uma só tomada que seja ao menos decente. Sem dúvida, Ed Wood foi um injustiçado.




1-Transformers
Se o Michael Bay tivesse lançado cinco filmes nesse ano, independentemente dos temas, elenco ou outros fatores, os cinco filmes estariam encabeçando nessa lista. Como lançou um só, então é direto para o primeiro lugar. Michael Bay é o maior câncer da história do cinema. E todos os que deixam ele seguir em frente e incentivam a sua carreira(como o senhor Steven Spielberg, produtor desse lixo baseado num horrendo desenho da década de 80) deveriam ser classificados como terroristas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Top 5- Melhores filmes natalinos, Parte 2

1- A Felicidade Não se Compra - 1946
Das mais básicas noções de humanidade e respeito aos nossos semelhantes que comumente são usadas para reger a sociedade, pouco tinha se sobrado no "mundo" que conseguiu resistir à Segunda Guerra Mundial. Hoje, ficamos assombrados vendo a Guerra estúpida do senhor Bush Jr. no Iraque, e nos revoltamos ao ver os resultados trágicos dessa brincadeira do petroleiro de araque do Texas. Imagine então o panorama existente quando se sai de uma Guerra que foi capaz de matar 60 milhões de pessoas. Que viu crianças (mais precisamente dois milhões) serem exterminadas pelo simples fato de existirem, que viu cidades serem expostas aos efeitos devastadores das bombas atômicas. E todas as espécies de coisas feias e degradantes que vieram com aquela Guerra. Tipo, era meio difícil acreditar no gênero humano depois de tamanho açougue. Não existiam motivos para se andar com a cabeça em pé, ou em crer em qualquer sonho de mundo melhor. O momento mais sombrio da história da humanidade, sem dúvida. Pelo menos, isso era o que se pensava. Mas com certeza não era a idéia de um senhor siciliano que imigrou para os EUA na adolescência, e que se tornou um símbolo do cinema. Frank Capra, um homem de chamados. Que quando viu sua pátria adotiva cair de Joelhos pela horrenda crise de 29, fez uma série de filmes que levantou a moral do seu adorado povo. E que não se conformou ao ver a desesperança estampada no rosto dos seus semelhantes depois da carnificina, que ele mesmo testemunhou ao vivo (fez filmes promocionais para o Governo americano durante o conflito). Pegou um arremedo de roteiro que apodrecia nos arquivos de um estúdio, formou sua própria companhia de filmes e fez o filme que acabaria, por mais clichê que isso soe, trazer de volta a confiança nesse troço chamado humanidade. A Felicidade Não se Compra, não só o melhor filme de Natal de todos, mas também um dos melhores filmes de todos os tempos.


Conta a história de um homem desiludido, George Bailey (interpretado pelo James Stewart), que sonha desde a infância em sair da pequena cidade que vive (Bedford Falls, cidade mais famosa do cinema) com a família, que herda o comando do pequeno banco de empréstimos depois da morte do pai e que consegue, mesmo com a ganância de um rico empresário local, ajudar os pobres moradores locais a comprarem suas tão sonhadas casas com empréstimos camaradas. Surdo de um ouvido ao salvar o irmão de um afogamento, acaba não indo para a guerra (enquanto o seu irmão vira um herói condecorado), o que só aumenta seu desconforto com a vida. Então, numa noite de Natal, acaba entrando numa situação aparentemente sem saída, resolve então se suicidar, e é impedido por um anjo, que resolve lhe mostrar como seria a vida na cidadezinha se ele não tivesse nascido. Aí... Bem, não revelarei mais nada. A maneira que Capra constrói a narrativa é brilhante. Seu protagonista passa o filme todo ajudando as pessoas, se opondo aos poderosos locais, mas sem jamais mostrar qualquer tipo de apreço pela sua pacata vida. Nem mesmo nós, os espectadores, percebemos durante o filme o quanto ele fazia pelo seu povo. Golpe de mestre, que acaba fazendo o final ser ainda mais impactante do que já seria. James Stewart, que é considerado por muitos o melhor ator da Classic Hollywood (ao lado do senhor Humphrey Bogart, obviamente), empresta toda a dignidade da sua persona cinematográfica para o personagem, trazendo também um inesperado lado sombrio e desolado para o filme, o que foi surpreendente, considerando que nos filmes pré-guerra Stewart sempre interpretava personagens engraçadinhos e sem maiores dilemas. Ele entendeu direitinho o espírito do filme e da época. O ser humano tinha um lado terrível, mas no final todos nos redimimos através dos nossos semelhantes. Pena que na vida real ele tenha se perdido no meio de um patriotismo irracional, que o tornou capaz até de, em nome do Macarthismo, espionar colegas de profissão, incluindo o próprio Capra (muitos entenderam o Felicidade Não se Compra como uma crítica à ganância dos bancários, algo que na época soava para o governo como um ato comunista), por mais incrível que pareça. Mas ele sempre considerou o filme como o seu favorito, apesar de tudo. A mensagem do filme ajudou o mundo a sair da lama na qual estava atolado, e sua importância é incalculável. Foi eleito pelo AFI, American Film's Institute, na sua lista de 100 filmes mais inspiradores já feitos, como o filme mais inspirador de todos os tempos, figurando em primeiro na lista. Sintomático. O pior momento da nossa história exigiu um filme que estivesse à altura de tamanho estrago. E Capra e o A Felicidade Não se Compra se mostraram aptos para varrer a sombra que pairava sobre o gênero humano para trás. A mensagem do filme pode soar ingênua para alguns no mundo cínico que vivemos hoje. Mas não havia nada de ingênuo ou equivocado nesse filme. Somente o restabelecimento de uma verdade. De que não merecemos perder a confiança uns nos outros por culpa de fascínoras desmiolados. E quer mérito maior do que o filme ter inspirado a sensacional saga De Volta Para o Futuro (a trilogia é baseada na cena na qual James Stewart vê como seria a vida sem ele)? Um Feliz Natal, que nos ilumina até os dias de hoje, logicamente.

Frank Capra, explicando numa entrevista o que gostaria de fazer com a cara do seu cowboy desafeto John Wayne

December 25

Como é Natal, me permiti brindar com champanhe, quer dizer, espumante, porque champanhe mesmo é amarga demais pros paladares aqui de casa. Só que, como eu nunca bebo, um golinho apenas me deixou zonzo e comecei a alucinar. Eu bebo e alucino, pois é. Suspension of disbelief e próspero ano-novo para todos!

Papel Noel com o saco da Dolce & Gabbana, Michael Scott, gerente da Dunder Mifflin Scranton, e Ernest, sentados na sala, assistindo Matrix Reloaded. Não, isso não. Falei que a gente ia assistir Irmã, La Douce. “Mas não é filme natalino”, objetou Ernest. Nem Matrix Reloaded, Ernest.

Cada um curte o Natal como quer, mas principalmente como pode. Mas sabe o que é mais importante? É ter quem a gente ama perto da gente. Natal é isso: as pessoas. Que haja quem pense diferente é algo que me surpreende. Que me choca. Pois é, Michael, pois é.

Mas ele e o Ernest estão, cada um a seu modo, na restrita galeria daqueles que salvaram o Natal. Então, a gente respeita. Papai Noel é que mudou, muito materialista. Tá, isso ele sempre foi; eu é que, criança, não sacava essas coisas. Um sujeito que é pai, mas cuja idéia de relacionamento consiste em aparecer uma vez no ano com um presentinho? Ele ainda tentou comprar o meu amor. Mas nem me conhece: trouxe um box do 24 Horas. “Você gosta de seriados, né?” Nem me conhece. Pelo menos dá pra passar pra frente e faturar algum.

Jack Lemmon, esse sim é ponta firme. Ele e a Shirley MacLaine, antes dela descobrir que era Deus. Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Billy Wilder. Por que o Billy Wilder nunca fez filme de Natal? “Mas ele fez”, interrompe o Ernest. O Ernest, tipo, manja muito de cinema.

Não, quem fez foi o Lubitsch. A Loja da Esquina, com o James Stewart. “Mensagem para você, com o Tom Hanks e a Meg Ryan, era refilmagem desse”, Ernest fez a lição de casa, então. James Stewart, sim, senhor. Salvou o Natal de muita gente. Quantos melancólicos desistiram de um gesto desesperado só por causa de A Felicidade Não se Compra?

“É mesmo”, todos dissemos. Inclusive o Papai Noel. Dissimulado esse velho, sei que nunca viu o filme. A desculpa dele é que é p&b e cansa muito as vistas. As tuas retinas tão fatigadas, né, Noel? “É, isso mesmo”, sonso. Aí eu falei que quem devia de ser o Papai Noel é o James Stewart. Nessa hora, os dois, Papai Noel e Ernest, se queimaram. O Ernest é mó Dwight Schrute do Papai Noel. O clima ia ficando pesado, então o Michael falou que era hora do karaokê.

Ernest nos tempos do College: e era só o começo, Papai Noel ainda ia se gabar de quando faturou o primeiro milhão. "Natal, época de lembranças felizes."

E eu continuei só nos golinhos. Alguém estava mantendo a droga do copo cheio, mas eu nem ligava. Michael deu uma de Scarlett Johansson em Lost in Translation: “Gonna use my arms / Gonna use my legs / Gonna use my style / Gonna use my sidestep / Gonna use my fingers / Gonna use my, my, my / Imagination, oh-ohh”.

“E a namorada?”, perguntaram. Nem sei, gente, nem sei. Eu comecei a achar que os três estavam ali pra forçar um A Christmas Carol muito do atropelado. “Agora eu sou o Scrooge, então?”, eu gritei pra aquela corja, já quebrando uma garrafa de cidra na beirada da mesa e puxando eles pra briga. Ia mal a festa, confesso.

Começaram as acusações. Eles eram tudo uns vendidos. Ernest era o fantasma do Natal Passado; Michael Scott, o do Presente; e o Papai Noel... não, ele não podia ser o do Futuro, afinal, esse era o último ano que eu convidava ele pra passar o Natal aqui em casa. Ano que vem, a janela fechada pra você, Karl. (Também não gosta de quando chamam ele de Karl.) Mas se não era o Papai Noel, quem seria o do Futuro? Falta alguém chegar, então?

“O futuro – Michael, sempre muito conciliador, começou a arrazoar – é a gente que faz, ninguém pode determiná-lo. Nem sob a autoridade do mágico-religioso. E bem sei que todos aqui crêem na magia, principalmente na magia desta época.”

Lá fora, garotões com topetes empastelados de gel gritavam:

“Ah, u-hu-hu-hu-hu! O Natal é nosso! U-hu-hu-hu-hu!”

“Corretores da Bolsa”, Papai Noel reconheceu, espiando pela janela, e acenou pra eles.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Sarah Polley

Atriz canadense. Queridinha dos circuitos independentes, surgiu para o mundo no filme de natal mais, é, digamos, "descolado" já feito, o Vamos Nessa, uma versão junkie-adolescente do Pulp Fiction. O filme, que contava histórias paralelas envolvendo funcionários de um mercadinho que se envolviam em tramas com drogas, mafiosos e tudo aquilo que fez parte das milhares de cópias do filme do Tarantino que infestaram o fim da década passada, acabou se tornando um cult. Polley também teve êxito no filme Madrugada dos Mortos, mas o Vamos Nessa continua sendo o seu melhor momento. O filme é de 1999. Oito anos se passaram. E aí, vai ou não, senhorita Polley?

Top 5- Melhores filmes de Natal

Chegou a hora. Os melhores filmes de Natal, na lista mais sensacional de toda a Net. Se você quiser ter uma noite de Natal perfeita, é só escolher um desses cinco filmes para assistir com a família depois da ceia e partir pro abraço. Se os seus sobrinhos chatos fizerem cara feia e pedirem para sair para tomar umas com o pessoal do prédio, é bem simples: dá uns belos de uns tapas nas fuças dos fedelhos. Em nome do Natal, tudo de perdoa e ninguém é de ferro mesmo. Chega de papo furado, nesse texto coloco os quatro primeiros e depois, em texto separado, falo do melhor filme natalino. É isso aê, do Progressista para a sua família:

5-Férias Frustradas de Natal - 1989
Mais famoso dos filmes da família Griswold, encabeçada pelo mala sem alça do Chevy Chase como o pai oligofrênico sempre enfinando sua prole em planos toscos de férias e situações embaraçosas. Completado pela Beverly D'angelo no clássico papel da mulher que serve para apontar as patetices do marido e pelos filhos absurdamente estereotipados e clichezentos, e cujos atores mudaram em todos os filmes (a filha é interpretada pela quase coisa nossa Juliette Lewis ). Sim, já ouço vocês perguntando, "mas você só desceu a lenha, por qual motivo então colocou esse filme na lista?". Simples: é eficientíssimo no que se propôe e tornou-se um clássico de Natal. Méritos totais para ele, o homem, o mito, a lenda, John Hughes, roteirista do filme e responsável pela empreitada ser tão superior aos outros filmes da série. Chevy Chase consegue inacreditavelmente arrancar risos com sua atuação, e a presença do Randy Quaid na segunda parte do filme como o onipresente primo Eddie (quem já assistiu o filme solo do personagem, feito para a TV dois anos atrás? Pérola trash) acaba marcando pontos, e John Hughes é inimitável na sua rara habilidade de construir os personagens de maneira que nós acabamos abraçando todas as suas idiossincrassias e excessos.. Tá explicado agora? Não? Bom, opinião é que nem... há, deixa pra lá.

4-Gremlins - 1984
Não, eu não coloquei esse aqui por ele ter sido lançado apenas um mês antes do meu nascimento (saiu em Junho de 1984 nos EUA). Seria muita patetice da minha parte. Clássico oitentista, mas um tanto quanto esquecido de uns anos pra cá (a Globo aparentemente esqueceu o filme nas fileiras empoeiradas do Projac), tem toda a estética daquela década que é absolutamente fascinante para muitos e tão odiada para outros. Uma das cenas mais sensacionais da história do cinema é a que os Gremlins ocupam toda a sala de cinema da cidadezinha e começam a fumar, beber, espancar uns aos outros enquanto os mocinhos fogem desesperados. Quem viu sabe que é de chorar. Tempos malucos que não voltam no cinema quadrado de hoje em dia, infelizmente. Sim, o filme se passa numa noite de Natal. O roteiro, acreditem ou não, foi escrito pelo (coloque aqui o seu adjetivo depreciativo favorito) Chris Columbus. Ainda bem que o eficiente diretor Joe Dante estava lá para salvar a pátria.


3-Uma História de Natal - 1983
Excelente filme que acabou virando cult depois do seu lançamento, conta a história de um moleque (o ator mirim Peter Billingsley, que era a cara escarrada do moleque do Jerry Maguire) que quer ganhar uma arma de Natal, mas que quando pede para os adultos o presente, ouve a mesma resposta de todos, de que ele "iria atirar no seu proprio olho" se ganhasse o trabuco. O filme acaba se mostrando no seu decorrer muito mais complexo do que se poderia sugerir no começo. Inacreditavelmente, o filme foi dirigido por Bob Clark, diretor dos dois primeiros Porky's e diretor dos dois piores filmes da história da humanidade, Super Bebês 1 e Super Bebês 2. Quando eu digo "dois piores filmes da humanidade", eu não estou exagerando nem um pouquinho. Por isso, se vê que o Uma História de Natal foi a única bola dentro da carreira do cidadão, que morreu nesse ano.


2-Edward Mãos de Tesoura - 1990
Ninguém dirige fábulas melhor do que o Tim Burton. Incapaz de contar histórias minimamente interessantes quando se arrisca em outros campos, somente mostra todo o seu potencial quando se entrega ao desespero gótico (exceto pelo sensacional Ed Wood, que por ser uma biografia acabou facilitando as coisas para o senhor Burton). E o Natal é a época perfeita para as fábulas Burtonianas, com suas decorações grandiosas e a sensação de isolamento causada pela data. Edward, papel que lançou Johnny Depp ao estrelato, o molecote tímido com tesouras no lugar das mãos (jura, Progressista?) que vive na casa do seu inventor (último papel do grande Vincent Price no cinema) e que acaba virando uma sensação na cidadezinha que vive quando começa a cortar o cabelo das damas locais. Depois, ele se apaixona por uma adolescente filha da coroa revendedora da Avon (aliás, esse filme foi o maior espaço publicitário de uma marca até o famoso caso Fedex-O Naufrágo), interpretada pela Winona Ryder. Aí, coisas feias e tristes acontecem que fazem o pobre Edward ser perseguido, até o final climático, bem do gosto do Tim Burton. Uma bela fábula natalina, dotada com pitadas de humor ácido e observações cínicas e irônicas do american way of life, especialmente do tédio e intolerância que podem existir nas pequenas cidades interioranas. Camadas que se revelam aos poucos nesse grande êxito do senhor Burton.
Qual será o melhor, hein? Hein? HEIN? Esperemos.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Intermezzo natalino

“Neide, meu filho fica só assistindo The Office. Ai, Neide, até aprendi o meu inglês, The Office. Mas então, ele e os meninos, amigo dele, inclusive uma esquisitinha, que teve uns tempos que eu achei que ele tava namorando ela, eu já te falei dela, Neide; eles vieram aqui em casa e passaram a tarde toda, assistindo The Office. É isso que essa molecada acha que é curtir; em vez de sair, tomar um ar, dançar, né? Pouco antes do Natal, a casa uma bagunça. A gente sabe, a molecada não repara nessas coisas, mas é sempre um horror, Neide.

Mas então, Neide, sabe que eu sentei pra ver um pouquinho com eles, o Carlinhos virando os olhos, aí que eu fiz de pirraça, mesmo, Neide. E tinha o chefe, perguntei pra molecada como é que era o nome dele. Michael. Molecada simpática mesmo, tudo esquisitinha, mas simpática. Aí, esse Michael me lembrou aqueles filmes da nossa época, Neide. Sabe, as pessoas de bem com a vida mesmo, sem essa chatice da molecada de hoje em dia. Olha, simpatizei com o homem. Os amigos do Carlinhos tudo viram que eu tava gostando mesmo do filminho, abriram espaço no sofá, e eu fiquei ali com eles, ali no meio. Parecia uma adolescente. É claro que o Carlinhos não gostou, né, Neide. O menino fica constrangido por nada, depois sai bufando, que nem o pai. Que nem o pai, Neide. Os dois brigam com essas minhas loucuras, Neide.

Aí começou um papo entre a molecada, de 'gente que tinha salvado o Natal', e aí falaram de um lá, que eu perguntei quem era, e eles disseram que era o ator principal daquele filme do prédio, que explode tudo. Esses filmes de ação horrorosos, que o Carlinhos e o pai dele ficam assistindo. Duro de Matar, Neide. Lembrei. Mas então, aquele homem desse filme, Duro de Matar, ele é uma graça, meio carequinha, uma graça. Só sei que a molecada tava elegendo ele e um outro lá, mas desse eu não vou lembrar mesmo o nome; só sei que fez um monte de filme, um homem feio, feio. E aí puseram esse Michael no meio, falaram que ele também salvou o Natal. A molecadinha tem um papo esquisito, umas coisas que não têm nada a ver, né, Neide? Que que ‘cê acha, Neide?”

“Tudo nerd.”

“Ai, Neide. E não é mesmo?”

sábado, 22 de dezembro de 2007

Yankee Swap

Final de ano, amigo secreto na firma. A gente tira quem não quer, diz o que não deve; mas abafa. Pra cá, eu reservei coisas menos classe média. Mas quem quiser algo do tipo, vai pro shopping.

Natal, que é o frenesi da classe média, só tem paralelo mesmo com o Carnaval, quando as havaianas ganham muita purpurina e lantejoula, isto é, muito glitter e paetê. Aí, a classe média, muito família, fica acuada, porque toda essa catarse da pobreza e do luxo assusta. O Natal, não; o Natal é tempo de sublimar toda a energia sexual em consumismo. Muito, muito mais bonitinho.

Comigo não é diferente, e eu comprei uns três filmes. Lubitsch, Ford e Capra. E, claro, vou chorar assistindo A felicidade não se compra. Classic Hollywood é tipo o Novo Testamento do pequeno-burguês.

"Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar
E vem comigo dançar, dançar..."

Aliás, tive uma experiência espiritual anteontem, no Fifties, quando um grupo de descolados sentou na mesa ao lado daquela em que estava eu e o Camarada Progressista. Era quase 1 da manhã, então a espiritualidade ia alta. Só sei que comecei a pensar em que tipo de pessoa eu queria ser. Mas você vê, tem coisa mais classe média que epifania numa hamburgueria em Moema? Só faltava eu morder o Onion Burguer, o creme de queijo cair e queimar minha perna, e eu finalmente compreender que o sofrimento e, por tabela, a realidade, é uma ilusão. Dinkin flicka.

***

Preocupar-se com algo é o mesmo que dar importância a algo. Definição que tem o defeito de recorrer a um termo a que também falta a auto-evidência de “pensar”: preocupar-se com algo é pensar em algo. Trata-se de um insight.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Sartre e as cartas de Natal

Recentemente, foram descobertas cartas escritas pelo filósofo existencialista, humanista e marxista Jean-Paul Sartre. Elaboradas pouco antes da morte do escritor, em 1980, eram basicamente saudações natalinas para pessoas que foram importantes na sua vida, já mortas ou não. Podemos notar nos escritos os arrependimentos, dúvidas e considerações sobre eventos fundamentais no século XX. As cartas acabam funcionando como uma espécie de testamento intelectual do filósofo, usando palavras duras e incisivas para clamar pelo seu legado. O Fomos ao Cinema, através de um leve e necessário tráfico de influências dentro de renomadas instituições acadêmicas, teve acesso às últimas palavras do bardo francês, e publica aqui, com exclusividade.


Paris, França, 24 de Dezembro de 1979
Para: Simone de Beauvoir
Minha querida companheira (sei que adora quando me refiro a você dessa maneira). Preciso te dizer algo que ficou preso por muitos anos dentre meus pensamentos e ideologias. Algo que ficava lá no fundo, escondido entre meus latidos ontológicos e metafísicos. Conheço-te fazem bons 56 anos, tempo no qual apoiei todas as tuas causas e ideais. Que bom companheiro teria tido a mesma paciência? Digo, não quis parecer duro ou usar as palavras erradas, mas, convenhamos, havia uma latente histeriana freudiana na sua causa existencialista-feminista. Nunca enxerguei qualquer tipo de consistência teórica ou prática nas suas idéias. E aí, necessariamente, tenho de relacionar tais conclusões ao nosso longuíssismo, extenuante relacionamento afetivo. Aquela coisa de relacionamento moderno, aberto, franco, que tanto escandalizou os nossos iguais. Na minha juventude, quando queria que meus atos espelhassem minhas idéias, comprei todas as suas imposições. Tivemos os dois amantes, jamais experimentamos as bases de um relacionamento convencional, como quando o marido trabalha o dia inteiro para chegar de noite em casa com a mulher fazendo o jantar e os filhos pedindo dinheiro. Hoje, sinto que queria, verdadeiramente, ter experimentado uma espécie de vida como essa... Digo, eu saindo de dia para, usando um exemplo, ir trabalhar na minha revista de leitura, a Les Temps Modernes, e voltando depois com você lá, com o cheiro dos alimentos impregnando seus vestidos baratos, e os filhos rastejando no chão de tacos de madeira do nosso velho loft parisiense. Eu reclamando da sua comida, já que imagino que a razão pela qual você escolheu ser uma filósofa ativista tenha sido sua total ineficiência gastronômica. Somente eu teria o direito de procurar amantes, e você, maluca, procurando evidências das traições nos meus pertences, mas jamais exteriorizando esses sentimentos; quando você saísse de linha e começasse a me pressionar por quaisquer que fossem os motivos, eu quebrando copos na parede, saindo pra tomar umas e voltando, despejando minha cólera de macho bêbado sobre você; meu lado Serge Gainsbourg, roubado e carpado por você e suas baboseiras feministas. Fui eu um homem? Não. Fui eu um rato? Fui eu um capacho? A culpa é sua. Nunca terei coragem de entregar isso, mas pô, tô levão só de ter escrito. Tô de Briks!


Paris, 24 de Dezembro de 1979
Para: Albert Camus
Queria eu começar essa carta dizendo "meu caro companheiro de lutas". Bem que queria. Mas não foi esse o caso, não é? O que deu errado entre nós, meu caro Beto? Digo finalmente que cansei de defender e elogiar você às custas de pancadas da sua parte, e pancadas de outros depois da sua morte. Falei maravilhas do Estrangeiro, não? Agora, quer saber o que eu REALMENTE acho da sua obrinha "existencialista-trash"? Sem o peso das amenidades que vivíamos na minha fase pré-conversão ao marxismo? Simples: uma grande bobagem. O maluco com o sol na cara vira e mete um balacho no árabe lá, a troco de nada. Grande porcaria. E depois, cinquenta páginas com o personagem preso divagando groselhas a respeito da incompreensão e crueldade de julgamento dos homens. Lixo! Você viveu a sua vida para defender uma única idéia: a de que a melhor coisa que se pode fazer é ser um bundão. O mundo caindo na sua cabeça, e você lá, sentado, coçando as partes baixas e matando pobres árabes no meio do caminho. Eu pelo menos escolhi um lado, não? Não quis ficar no meio, sentado no muro babando. Não é uma ironia você ter morrido pelas mãos de terceiros, sendo passageiro no carro daquele seu amigo cachaceiro? Olha aí, que beleza. Meu ateísmo não me impede de dizer que foi uma bela obra de justiça divina. Ler aquele seu livrinho O Homem Revoltado me deixou profundamente triste. Por saber que um fino intelectual com você se deu ao trabalho de perder o seu precioso tempo falando falácias contra mim e os marxistas, ainda que metaforicamente, já que era incapaz de dar nome aos bois, como sempre. Quando os católicos me colocaram no index, ouvi de longe as suas risadas. Até do lado deles era capaz de ficar em nome da sua causa. O ser e o nada, esse era você, Camus. Vejo daqui as luzes de Natal iluminando a cidade luz. Mais um dos meus 73 natais. Com você foram apenas 47, não? A existência precede a essência.


Paris, 24 de Dezembro de 1979
Para: Fidel Castro
Agora sim: fala, companheiro! O sonho da igualdade vive, respirando o leve frescor das praias cubanas! Não esmoreça, meu caro amigo Castro. Eu sei o nome da libertação. O nome do salvador. Daquele que irá reacender as chamas do Marxismo, com tal voluptosidade que não restará outra alternativa ao mundo do capital senão se curvar perante o bem comum. O nome é Mikhail Gorbachev. Logo Chernenko baterá as botas, e o virtuoso Mikhail ascenderá. Com ele no comando da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, poderemos ver de novo a bandeira vermelha tremulando para conquistas heróicas. Você estará logicamente do lado do futuro premier nessa. Espero viver para ver tudo isso acontecer, mas acho difícil. Gorbachev! Mais uma vez: GORBACHEV!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Clássicos Natalinos: O Natal Maluco de Ernest

Você jamais poderá considerar a sua experiência de vida na Terra completa se jamais tiver assistido a um dos filmes do Ernest. O Rei do Cinema em Casa, sessão de filmes vespertina do SBT. Criado em meados da década de 80 pelo ator Jim Varney, que nos deixou em 2000 vitimado por um câncer de pulmão (era um fumante inverterado), aparecendo inicialmente em comerciais de TV, o personagem acabou protagonizando a mais improvável série de filmes da história do cinema, começando em 1986 com o inacreditável O Acampamento do Ernest e terminando em 1998 com o mais inacreditável ainda Ernest vai ao Exército, a série teve mais de 10 exemplares. O mais lendário de todos esses é, sem dúvida, O Natal Maluco de Ernest, lançado em 1989. Custou 6 milhões de dólares e rendeu quatro vezes mais. É dele que falarei, logicamente.
Basicamente, as "tramas" dos filmes do Ernest consistiam em premissas totalmente implausíveis, meros pretextos para criar as situações cômicas dos filmes. Idéia roubada do lendário comediante W.C. Fields, estrela dos anos 30 e 40 e que cujos filmes também dispensavam qualquer tipo de lógica em nome do humor. No caso do Natal Maluco de Ernest, penso que eles chegaram perto da perfeição. Tem de ser muito, mas muito corajoso mesmo, para levar à frente um roteiro desses. Papai Noel (sim, ele, o pobre velhinho) resolve que não quer mais trampar no Natal, e vai até Orlando, na Flórida, lugar no qual mora o sucessor que ele escolheu. Sim, Orlando, Flórida. Não, não é por ser a casa da Disney, produtora dos filmes do Ernest. Mas voltando, as coisas dão erradas, o suposto substituto cria diversos empecilhos, o Papai Noel começa a perder a memória, e sobra então para o Ernest, no filme trabalhando como taxista, salvar o Natal. Sim, o Ernest. Salvar o Natal. Sensacional. Logicamente que todos os fatores que fizeram os filmes do Ernest clássicos supremos do trash estão lá: a atuação inacreditável de Jim Varney, algo para o qual não existem palavras capazes de se descrever; os coadjuvantes saídos direto do elenco do Estranho no Ninho, desprovidos de qualquer tipo de contato com aquela coisa chamada realidade; a direção gloriosamente camp de John Cherry, que dirigiu todos os filmes do Ernest. Considero o personagem uma clara alusão ao então presidente norte-americano Ronald Reagan. Sim. Reagan foi um ator pavoroso dos anos 40 e 50, uma espécie de Ben Affleck da época, desprovido de qualquer tipo de refinamento intelectual ou inteligência (algo fatal, já que atores bons normalmente são indivíduos de maior Q.I. que a média) , mas que pela cara apalermada e pelo jeito simpático e abobalhado acabou agariando a simpatia do público, até a insanidade suprema de ser eleito e reeleito para o cargo de presidente. Os anos 80 foram marcados por uma recessão brutal no país, enquanto Reagan jogava golfe para os jornalistas e fazia piadas com o também abobalhado imperador japonês Hirohito. Ernest foi um tapa na cara bem dado do ignóbil Ronald. Com o advento do Governo Clinton e com o fim da estética oitentista na cultura pop no meio dos anos 90, Ernest acabou perdendo o seu público. Mas pena que Varney tenha morrido justamente em 2000. Ano que um certo presidente também limítrofe assumiu a Casa Branca. Mas não lamentemos o fato de jamais podermos ver um hipotético Ernest vai à Faixa de Gaza. Ele foi para a Prisão, foi para a escola, foi para o acampamento de jovens infratores, foi até para o exército. Mas é do seu Natal que jamais esqueceremos. Em breve, mais memórias dos filmes Ernestianos, pelos outros camaradas, quem sabe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Lauren Graham

Estrela do finado seriado Gilmore Girls (RIP -2000+2007) e famosa também pelo seu papel no sensacional Papai Noel às Avessas (Bad Santa no original), filme já falado nesse mês especial pelo digníssimo e deveras natalino Camarada Moderado. Não deixou de ser surpreendente a mudança , da mãe modernete e linguaruda do seriado para o interesse romântico do Papai Noel boca-suja do Billy Bob Thorton. Um belo choque de realidade, não? Agora que o seriado foi para as cucuias, quem sabe não rola uma continuaçãozinha do filme? Sei lá, temo bastante pela carreira da senhora Graham, as coisas não andam muito fáceis não.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Un souvenir de Noël

Essa é de um Natal há muito, muito tempo, quando eu tinha 11 anos. E eu andava por aí com uma edição pocket de Macbeth, tradução do Manuel Bandeira. Banquo, Banquo, Banquo, eu ficava repetindo, que nome legal.

No meio da noite, só o apito do Homem do Apito, que eu nunca descobri quem era ele, ouvi um barulho, de a quem falta a calha na qual apoiava a botinha esquerda. Era Papai Noel, entregando um Super Nintendo no andar de cima, o décimo, do meu prédio. E o elevador? vão perguntar. O síndico na Praia Grande e o zelador tinha sumido já na antevéspera do feriado.

Papai Noel e a chatinha da Michelle, em 1992.

Todo o mundo da classe sabia que ela era mó piolhenta.

Esperei uns minutinhos, logo ele estava pintando no meu quarto. Não, naquela época não tinha esse perigo de acharem que era pedofilia. Alusões e piadas nesse sentido definitivamente não colavam. Ele levou um susto comigo acordado. Como se nunca tivesse acontecido antes, né, Noel?

– Oi. – eu falei.

– Affff, garoto. Cê devia de tá dormindo. – Papai Noel achando que devia falar assim porque era Terceiro Mundo, o português dele carregado de sotaque que até parecia o Ingmar Bergman recitando Os Lusíadas pra Liv Ullmann (e depois eles se divorciaram).

– Papai Noel, o senhor gosta de Proust? – essa falta de traquejo social das crianças, já vão perguntando se a pessoa gosta de Proust, nem oferece assento, uns bolinhos.

– Que que foi, rapaz? – ele puxou uma cadeira e sentou ali, debaixo da janela, suado; é, eu desconfiei de um habitante do pólo Norte estar suando; parecia pouco europeu. Pólo Norte é Europa? eu me perguntava na minha cabeça de moleque. E eu, adulto, respondo que é, sim.

– Papai Noel, o senhor é filisteu? – nessa hora, o velhinho se irritou de vez. Não falou palavrão, porque acho que o professor dele de português, querendo fazer bonito do mundo lusófono, disse que era uma língua tão nobre que não tinha palavrão. Daí que o Noel começou a falar estrangeiro comigo.

Papai Noel bancando a Wanessa Camargo:

"Ler também é cultura". Não me diga!

Mas aí, bem nessa hora, a minha mãe entrou e espantou ele com a vassoura e me disse pra fechar direito a janela e que logo que amanhecesse ia reclamar na portaria de qualquer um poder ir entrando assim. É coisa dos pais resolverem assunto de criança com um toque kafkiano. E até hoje, eu, na noite de Natal, ainda deixo a janela bem aberta, mas ele nunca mais voltou, nem nunca contribuiu com nenhum volume pra eu completar o ciclo da Busca.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Macaulay Culkin: Nós que aqui estamos por ti esperamos

Os dois natais mais abonados da história ocorreram em 1990 e 1992. Esqueceram de Mim 1 e Esqueceram de Mim 2. Os dois filmes somados ultrapassaram um bilhão de dólares em arrecadação. Um bilhão de dólares. Para fazer o segundo filme, o guri Caulkin levou para a casa (quer dizer, sua família malvada levou) cinco milhões de dólares, com apenas 12 anos de idade. Se corrigirmos esse valor pela inflação, hoje seriam 10 milhões de dólares. Sim, Giovanni Ribisi, você nunca vai ganhar nem metade disso por filme nenhum. Toda essa insanidade poderia ser considerada válida? O que essa série, que teve duas horrendas continuações lançadas direto para vídeo e com outros atores no lugar de Culkin, tinha de tão especial para ter conquistado tamanho êxito de público e ter feito de Culkin o maior astro daquela época? Eu, Camarada Progressista, impregnado pelo espírito natalino vivido pelo blog, venho aqui arriscar minhas tentativas de respostas. Quando o primeiro filme foi lançado, eu tinha apenas seis anos de idade, mas me lembro com clareza da onipresença do filme na mídia e nas discussões das rodinhas de conversas do pré-primário (hoje a molecada discute o Tropa de Elite e diz para os amiguinhos que eles deveriam "pedir para sair, senhor 02". Mas isso é assunto para depois).

Todos nós nos identificavámos com Culkin, o medo maior da infância de se ver sozinho, longe das barras dos pais, de ser abandonado, de estar à deriva perante um mundo cáustico e cruel, e de enxergá-lo por nós mesmos, e não mais com os olhos dos nossos progenitores. E justamente no Natal, data tão cheia de simbologias e cara aos infantos. Logicamente que a história do filme era bobinha, o que piorou ainda mais na continuação, supondo o absurdo que seria os pais deixarem para trás mais uma vez um filho, novamente na época do Natal, ele sendo atacado mais uma vez pelos mesmos meliantes do anterior numa cidade diferente. Pais relapsos, não? Deveriam estar totalmente calejados pelo trauma do primeiro acontecimento. Mas haviam milhões de dólares prontos para serem conquistados, e o negócio foi ir no seguro. O autor do roteiro dos dois filmes e criador de todos os personagens foi John Hughes, icônico diretor de filmes adolescentes dos anos 80, responsável por obras como Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco, entre outros. Se fosse escolher um motivo pelo êxito da série, seria esse. O toque cálido de Hughes se fez presente no primeiro filme. Mesmo com a trama estúpida e banal, e mesmo sabendo que esse filme fora feito para estourar as bancas nas bilheterias ao invés de buscar supostos êxitos artísticos, como acabou fazendo, Hughes lança mão mais uma vez da sua inimitável visão de vida. Ele sempre consegue fazer os espectadores se importarem com os seus personagens, já que olha para eles com uma sensibilidade aguçadíssima, dando tempo para eles resolverem seus conflitos internos e externos, jamais jogando o carro na frente dos bois. Tem um talento nato para cenas de maior intimidade afetiva e psicológica entre personagens, algo que é um calo no pé de diversos roteiristas e diretores famosos, mas que com ele sempre funcionam. Momentos como quando a mãe de Kevin (personagem de Culkin) voltando para buscar o filho numa van de um grupo de polka encabeçado pelo sensacional John Candy refletem essa sensibilidade com perfeição. Um momento pouco lembrado, perdido entre as confusões de Culkin com os ladrões (como eles conseguiram escalar o Joe Pesci para interpretar um deles, e como eles conseguiram convencê-lo a fazer a continuação, será sempre um mi$tério), mas que contêm todas as características que fizeram a justa fama de Hughes. O que matou os dois filmes artisticamente (ugh!) e ao mesmo tempo os fizeram estourar a banca foi a escalação do diretor. O ignóbil Chris Columbus, incompetente de marca maior e autor de alguns dos filmes mais cretinos já feitos (O Homem Bicentenário deveria ter garantido para ele duzentos anos de cadeia na chincha como punição), mas que inegavelmente sabia o que esperava a platéia daquele início da década de 90, tanto que foi autor de outro filme que quebrou recordes de bilheteria na época, o pavoroso Uma Babá Quase Perfeita.

Se o filme tivesse sido dirigido por Hughes, provavelmente não teria feito o mesmo sucesso, já que seu estilo mais sutil e discreto não seria capaz de movimentar as multidões ávidas por algo mais energético e burro. Por isso que, tristemente, Columbus foi necessário. A sua energia estúpida e exagerada , combinada com o olhar melancólico e belo de Hughes, foram mais do que suficientes para o sucesso da empreitada. Macaulay Culkin seguiu a trilha da maioria dos astros infantis, e se afundou em drogas, bebidas, escandalos sexuais (testemunhou a favor de Michael Jackson no escândalo de Neverland), jamais repetindo o mesmo sucesso. Oras, não seria essa sim a bela tragédia natalina, as lembranças de épocas mais gloriosas e vívidas, e a melancolia deprimente e negativa ocasionada pelas reafirmações desses sentimentos? Nós esquecemos de John Hughes, afastado do showbussiness e hoje vivendo nos cafundós do Judas em Connecticut? Não. Esquecemos de Culkin, elo perdido das nossas juventudes? Não, não nos esquecemos. Nos esquecemos de Chris Columbus? Bem que queríamos! Tentamos de todas as maneiras nos esquecer dele, mas sempre há algum produtor pronto para lhe dar novas oportunidades, como na péssima versão cinematográfica do musical Rent, lançado para as moscas no ano passado. Queremos a volta de Hughes. Queremos uma vida menos infeliz para Culkin. Queremos a prisão perpétua para Columbus. Papai Noel, where art thou?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Como John McClane salvou o Natal

O Natal, essa época cinematográfica, suscita vilanias e heroísmos na mesma proporção. É provavelmente a nota solene de que se revestem todas as coisas durante as festas que torna a data particularmente inspiradora de grandes e terríveis ambições, convocando respostas altruístas por parte daqueles que viremos a chamar nossos heróis. Cada ato ganha, então, uma eloqüência singular.

Por isso, tantas explosões, tantos terrorismos de última hora, ameaçando acabar com a mais ocidental das celebrações. De um contexto como esse é que nascem episódios inesquecíveis, momentos que se assomam à mente dos contadores de histórias muito adequadamente iniciados pela épica fórmula “Como fulano salvou o Natal”. Obviamente, não negligenciaremos tais heróis, nos quais, de fato, se deposita o melhor do espírito humano, e de forma tão concentrada que é inevitável que transborde num feito memorável.

E para abrir nossa infelizmente reduzida galeria (por falta de tempo dos colaboradores deste blog), como não poderia deixar de ser – John McClane. Trata-se de uma espécie de Heracles moderno. E, com efeito, supera o semideus, considerando-se que este levou, para realizar os Doze Trabalhos, muito mais tempo do que dispôs McClane, que salvou o Natal, por duas vezes, em apenas algumas horas, e sem qualquer patrocínio divino. (Notem que, curiosamente, quando o cenário não era o Natal, como nas duas seqüencias de 1995 e de 2007, o brilhantismo da série Die Hard se perdeu. O que ilustra a estreita ligação entre o significado desta época e o personagem.)

É, contudo, principalmente a motivação de John McClane que o faz maior que Heracles. Se um é levado a atender os pedidos de Eristeu, rei de Argos, talvez por uma penitência imposta pelo Oráculo de Delfos, ou seja, compulsoriamente; o outro cumpre com sua vocação heróica de maneira completamente altruísta, sob circunstâncias casuais. Isto é, se quisermos denominar acaso o nobre chamado para salvar milhares de vidas inocentes em perigo.

Neste ponto muitos talvez objetem, alegando que se trata de diferentes concepções de herói, inexistindo um termo de comparação suficiente. A estes, respondo que o espírito humano é o mesmo em todo o tempo, apesar de se colorir distintamente e que, se querem um exemplo de sacrifício semelhante ao do herói moderno, mas contemporâneo a Heracles, pensem em Antígona, que caiu em desgraça por amor a seu irmão Polinices. E nem menciono seu pai, Édipo, que, na verdade, agia movido por interesse particular, por orgulho.

Inesquecível!

Heracles obteve, como recompensa do cumprimento de seus Doze Trabalhos, a imortalidade e, assim, ascendeu ao Olimpo. Ora, o Olimpo de John McClane são as nossas mentes e corações, onde ele viverá perpetuamente incensado por nossa gratidão e admiração.

Quando coração era mais importante que músculos.

Nos dias de hoje, quando o obtuso Jack Bauer (que parece agora servir de parâmetro para composição de personagens de filmes de ação, inclusive para o último Die Hard) vem usurpar, em nosso imaginário, o sagrado lugar reservado aos heróis, é mais do que necessário que nos voltemos ao passado, à figura original de John McClane, a fim de recuperar nossos valores e repensar que rumo queremos dar à própria trajetória do gênero humano.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

TETÉIA DA SEMANA

Helena Bonham Carter

Atriz inglesa, musa-mor do maluco de plantão e diretor nas horas vagas Tim Burton, que levou essa história de musa tão a sério que até se casou com ela. Burton é fascinado pelo Natal, sempre trabalhando o lado sombrio e "gótico" da data nos seus filmes. A senhorita Bonham Carter, com seus trejeitos de atriz vitoriana e suas tendências para o burlesco, acaba caindo como uma luva no universo Burtoniano. E ela estava no Clube da Luta. E como estava: sua personagem é vital. Mas aquele era um filme natalino? You tell me.

sábado, 8 de dezembro de 2007

A mulher faz o homem

Neste Natal, tomaram minha masculinidade, e ainda estou em via de resgatá-la. Foi num encontro às cegas. Tá, nem tanto assim: eu já tinha visto a menina. Mas o constrangimento era o mesmo, com você encontrando a pessoa e pensando “onde é que eu estava com a cabeça?”. O encontro às cegas, que é das reminiscências arcaicas mais pronunciadas na atualidade, aponta para um tempo em que as pessoas não tinham escolha, quando o amor não acontecia nos termos e condições democráticos que agora acreditamos imprescindíveis.

Regressivos assim, ela e eu nos dispusemos inconscientemente a uma dança de morte, em que um tentava conquistar a supremacia sobre o outro. Não, não foi com essa clareza de termos que a coisa toda se manifestou pra nós. Na verdade, ainda que vocês não acreditem, eu costumo dar espaço às pessoas, contanto que eu tenha o controle da situação. Em outras palavras, ritualisticamente ocupo a posição masculina, macha. É necessário que eu conceda esse espaço; do contrário, como quando o outro o toma por si próprio, como dessa vez, eu me perco.

E o pior de tudo: ela o fez naturalmente, como se devesse ser assim. E parece que devia mesmo. E eu fiquei confuso e assustado como uma menininha.

Eu simplesmente não sabia o que fazer. E ela era extremamente compreensível com a minha situação, mas ao mesmo tempo não me dava brechas. Porque ela estava, afinal de contas, usurpando a posição macha, agora posso compreendê-lo claramente. Deixem-me caracterizá-la sucintamente, assim vocês concordarão comigo. 1) Ela determinava se sentávamos (e onde sentávamos) ou se andávamos. 2) Ela sugeria os tópicos da conversa e os desenvolvia. 3) Ela falava de questões e momentos difíceis da vida dela já superados. Já superados. 4) Ela citava filmes, peças e músicas que eu desconhecia. 5) Ela não ria dos meus comentários engraçadinhos. 6) Ela era mais prática do que eu.

Agora, da minha parte: 1) eu acatava; 2) eu olhava pra baixo, pra ponta dos sapatos, e chutava pedrinhas; 3) eu gaguejava, perplexo; 4) eu balançava a cabeça concordando, totalmente ignorante; 5) eu me desesperava; 6) eu queria fugir.

Em resumo, ela fez com que eu sentisse completamente dispensável, como uma garota. E ainda piora, pois eu estou em casa, doido pra vê-la novamente, sob o único argumento de que “ela tem uma coisa que eu não sei explicar o que é”. E eu acho que estou a fim. É, eu devo estar a fim. Idiota. Eu me transformei vocês sabem no quê. E eu acho que estou atraído por uma moça porque ela me lembra um vocês sabem o quê. Não que eu tenha alguma coisa contra quem se sinta atraído por vocês sabem o quê, mesmo sendo fundamentalista e tudo, porque o meu fundamentalismo é, nesse sentido, bem limitado.

Presumo que os bons espíritos do Natal, cuja missão é redimir os aparentemente incorrigíveis, querem que eu me arrependa da minha inócua misoginia e do meu machismo auto-indulgente. Camarada Fundamentalista é, afinal, um título comum aos dois gêneros.

Eu preciso que ela me diga algo. Eu não ligo se ela continuar ocupando a posição masculina, contanto que ela me trate com a mesma condescendência e maciez que eu costumava dispensar às mulheres. Na verdade, seria perfeito. É tudo que eu sempre quis – que elas fizessem tudo, porque eu sempre estou tão, tão cansado –, apesar de nunca haver imaginado que isso significasse ter de renunciar, em parte, à minha masculinidade. Mas, também, a gente acaba percebendo que não era tão importante, que dá pra se viver sem. Que é só o estúpido orgulho masculino! E que é o masculino, enfim? Uma convenção! Chocolate, bebês, cuidar do cabelo, fazer as unhas, não é tão ruim assim.

Eu de vestido. Eu de saltos. Eu falando que nem criança. Eu magoado. Eu frágil. (Espero que ela esteja lendo isso.) Eu me fiz de difícil. Eu disse que não estava rolando. Mas é que eu estava inseguro, só porque, no final das contas, ela está no controle. Você está no controle. É um milagre de Natal. Ho, ho, ho.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Especial Natal: Papai Noel às Avessas

O Natal, período de compras, ajudar o próximo e enriquecer o Greenpeace. Como o Natal é legal, sobretudo para os papais-noéis brasileiros: aquela marofa oriunda da tropicalidade e está lá o coitado, suando naquela roupa vermelha.

“Mas os shoppings têm ar-condicionado, né!”, grita alguma menina do fundo da sala.

Sem dúvida. Muitos shoppings de fato têm. Mas shopping de pobre é outro esquema, minha filha, fica lá um duende de roupa verde apertada abanando o bom velhinho (mas cadê os anões?), as vezes nem isso. Papai Noel Brasileiro tinha que ser de chinelo , shorts e uma barba branca bem rala, pois ainda é o bom velhinho, senão vai parecer padre, e bem, padre e criança, ainda com colinho, não dá muito certo.

Enfim lembrando desse maldito calor que nos ronda, por conseqüência, nossa tropicalidade, pensei num filme que vi recentemente: Papai Noel às Avessas ( Bad Santa, 2003).

O filme mostra dois trapaceiros: um, Billy Bob Thornton em sempre sensacional atuação, se fantasia de Noel; o outro, o “comediante” Tony Cox, se fantasia de duende. Assim, ambos costumam trabalhar em grandes lojas de departamentos a fim de roubá-las. Numa dessas lojas de departamento os personagens se deparam: com a crise da parceria bem sucedida até então; a intromissão de um chefe de segurança(Bernie Mac em ótima atuação) e a aproximação de Thornton com um menino gordinho que parece meio retardado. E todos os fatores somados dão o tom para o desfecho.

Na verdade, o longa tanto através do humor corrosivo presente na trama, como na própria atitude e personalidade do protagonista, acaba satirizando o “espírito de natal”; aquele espírito superficial que toma parte das maiorias das pessoas nesse período. Enfim, ponto para o personagem principal que conduz muito bem o longa, sobretudo por causa de sua tropicalidade, que faria o Zé Carioca perder as penas de inveja.

E não sei se Billy Bob Thornton sempre interpreta ele mesmo nos filmes: um cara durão, depravado, safado e de bom coração. Mas sempre quando faz isso é divertido, muito divertido. Ele até parece brasileiro, pela sua tropicalidade inserida na personagem, aí fica fácil imaginar um papai Noel brasileiro., a la Mr. Thornton, lógico.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Especial Natal: Comidas – Parte 1 : A Birosca e as compras na rua 25 de março

Nós do fomos ao cinema, este blog tão acessado pelas massas, decidimos através de um consenso democrático comentar nesse período de natal sobre comida. Além dos presentes, amigo secreto, tio chato, boa ações(como clicar no google adsense alheio), etc... para alguns o natal é a data para encher a pança, é a época que o pessoal come até peru( não consigo lembrar de outra data que eu faça isso).

Por isso, FOMOS AO CINEMA cita certos segredos gastronômicos para os desconhecedores da culinária da metrópole paulista. Hoje é dedicado para as pessoas que gostam de quitutes, aqueles salgados que dão aquela energia antes de uma boa pesquisa de compras na 25 de março ou pra levar escondido no cinemark, logicamente dentro de uma mochila.

Hoje citamos um salgado em particular, até hoje em minhas andanças gastronômicas nunca vi um quitute superior a este, falo dela, a minha querida BIROSCA. A BIROSCA é um salgado acima de qualquer outro, ela é o salgado do mundo ideal transformado em realidade, a Ambrósia da minha juventude, sem exageros o melhor salgado que comi na vida.


Descrição do Quitute:Ela lembra uma fogazza, mas não é frita e sua massa lembra a de uma boa esfiha fechada (e tão macia quanto). Agora parte do segredo: mesmo o salgado sendo assado parece que o recheio é frito. Seus sabores: frango/catupiry, calabreza/catupiry e queijo/presunto. O melhor é o preço: só custa R$ 1,30 cada.

Comentários acerca do Quitute:
“Quem comeu sabe: birosca, o salgado mais perfeito do mundo. (Homem sábio)
“Birosca, salgado perfeito, Idéia mesma de todos os salgados, dádiva fugidia de uma geração displicente, cantar-te-ei, quentinha, gostosa, para sempre desvencilhada de nós, anônimos amorosos teus!” (Outro homem sábio, corria feliz com seu salgado)

Local:
Rua Doutor Luiz Lasanha, 311(encostada na faculdade São Marcos), travessa da Nazaré
Ipiranga- São Paulo

(dúvidas, clique aqui)

Vantagens do Quitute: Ser o melhor salgado do mundo, ser próximo da faculdade de psicologia da São Marcos e ser muito barato

Desvantagens do Quitute: Ser vendido apenas lá(outro lugar que vendia fechou). O lugar que nós chamamos também de Birosca trabalha em um horário esquisito, aconselhamos você chegar lá antes das 9horas da manhã

Notas: Qualidade do Salgado, 10; Localização, 7; Atendimento, 9

NOTA FINAL: 8,7

Antes de fazer sua compras, que tal dar uma passada lá de manhã? Altamente Recomendável !

Godard e o Natal. O Natal e Godard. O Godard + o Natal. Silêncio

Um belo dia, em meados de 1964, Jean-Luc Godard acordou e resolveu que o Natal seria um tema interessante para um filme. O Natal das metáforas socialistas, segundo o francês. Não o Natal gordo e imundo dos yankees. Pensou Jean-Luc: "preciso fazer pelo Natal o que o Pasolini fez pela crucificação de Cristo. Tipo, ele tratou do fim, eu falo do começo, pelo menos do espírito que seguiu até os nossos dias, perdido nos perus dos yankees, minha idéia fixa favorita". Nessa altura, tinha Godard esquecido que o Pasolini era ateu. E que Cristo exercia igual fascínio nos dois por culpa do seu discurso gregário, quase uma antevisão dos ideais comunistas tão violentamente defendido pelos dois. Godard tinha esquecido dessas coisas. Mas como sempre foi um homem de câmeras paradas e idéias na cabeça, foi em frente. O filme se chamou "O Divertido Natal de Godard". Duas idéias definiam o mote do filme: uma, culpar os yankees pela degradação dos valores natalinos. Duas, imaginar Papai Noel como uma espécie de Marx moderno, tentando preservar suas ideologias e ao mesmo tempo tendo de faturar alguns fazendo propaganda. Colocou o Jean-Paul Belmondo como o bom velhinho, com uma bela pança postiça na barriga e um capuz vermelho cobrindo o rosto todo com quatro furos para os olhos, nariz e boca, ao invés do costumeiro gorro. Ao invés do personagem ser chamado no filme pela denominação francesa, Pere Noel, o filme todo ele é chamado de Santa Claus. Depois dos créditos, o filme abre com uma tomada externa de uma gigantesca fábrica com o logo da Coca-Cola, e uma legenda embaixo escrita "Atlanta, EUA". Em seguida, a câmera fixa-se atrás de uma cadeira na qual o Papai Noel está sentado, de frente para uma mesa, mas a visão do traseiro do velhinho nos impede de ver quem está sentado, já que a câmera não se move. Um estranho diálogo se segue, mais ou menos assim:

-Existe uma rejeição muito grande dos produtos americanos na França, estamos perdendo um ótimo mercado por bobeira. Por isso, queremos que você vá lá e faça aquela preza básica, distribua presentes e cocas a rodo para as crianças, que são o nosso alvo principal, já que elas convencem a família a seguir comprando o produto. E com a credibilidade da sua imagem, esperamos conseguir entrar nesse mercado. Sabe como os franceses são, adoram fingir que não gostam da gente, mas quando isso significa a perda de dólares, temos de tomar atitudes.
-Isso vai contra todos os meus valores, e contra todas minhas atribuições. Já tive que mudar a cor das minhas vestimentas e do meu saco de presentes para vermelho, e agora isso?
-Você deveria ter pensado nisso quando vendeu os direitos de exploração da sua marca para a gente por 100 anos. Agora, trate de se mexer e justificar os milhões depositados na sua conta na Finlândia. E pela última vez, as renas também precisam das roupas especiais com o nosso logo. Elas possuem muita visibilidade entre a criançada. Coloque também um nariz vermelho numa delas, e chame-a de Rudolph, nome de um dos criadores da fórmula da Coca. A nossa equipe de marketing garantiu que isso será um sucesso, vai rolar até revistinha em quadrinhos. Agora, se manda daqui e volte com belos números pra cá.
-Ok.

Um desolado papai Noel se levanta da cadeira e sai do recinto. Mesmo assim, não podemos ver quem estava na mesa falando com ele, por culpa das sombras que os envolviam.
Corte, e a câmera vai para uma praça, com uma legenda escrita "Paris" embaixo. Noel está sentado, vestido a caráter e bebendo uma garrafa do que se poderia dizer ser um vinho, pela coloração do líquido. Com o capuz na cara não podemos ver, mas é nítido, pelos seus gestos e sons, que ele está chorando. Segue-se meia hora do filme no qual tudo o que vemos é o pobre Noel vagando solitário pelos becos parisienses, tentando interagir com os locais, resultando em patéticas cenas de escárnio. Em certo momento, ele avista um grupo de moleques fumando cigarros atrás de latas de lixo. Resolve chegar perto deles, e ouvimos um diálogo entrecortado por imagens de coelhos sendo extirpados e procissões típicas da idade média, sempre com o áudio da conversa.

-Molecada, esse negócio de cigarro não está com nada. Vocês sabiam que um dos produtos usados na fórmula da Coca-Cola, como essa garrafa que tenho na mão, é a Cocaína?
-É? E daí?
-Daí que... vocês sabem... cigarro para a cocaína...
-Você é o Papai Noel?
-Sim, sou.
-E você não deveria estar dando presentes para a gente? Tipo, fingindo ser bonzinho, dando conselhos, reclamando da gente estar fumando, e tudo mais?
-Sim, eu deveria.

As crianças riem exageramante, e um dos guris dá um belo pontapé na canela do Noel, que caí no chão. As crianças saem correndo. Noel murmura:

-Está errado. Está tudo errado. Jesus castiga seu pobre servo que se vendeu para o diabo. O que faço? Pago a multa rescisória de 500 milhões de dólares?

Então, surge uma das renas na frente de Noel. Estranho, ele tinha estacionado o trenó num anexo na praça a qual o vimos chorando antes. Sem mover a boca, ouvimos então ela dizer para o bom e marketeiro velhinho:

-És um porco pronto para o abate, escravo do Capital.
-Só me faltava essa, uma rena falando comigo. Minha mente também se volta contra mim?
-Querias o fim da desigualdade. Querias a união dos povos. O que queres agora?
-Eu não tenho culpa! Falo da contradição que existia entre o meu discurso e a realidade. Todos aqueles duendes não trabalhavam de graça. E não tinha mais como ressarcir os desejos de todas as crianças do mundo e ao mesmo tempo pregar os benefícios da luta de classes! Que criem então duendes de puro altruísmo, capazes de trabalharem de sol a sol apenas pelo bem dos seus corações!
-Não conheces a propriedade de facto? Não conheces o poder do laço? Não conheces a pluralidade das regras? A invencível carga do medo? Os direitos de um não podem se sobrepor ao bem maior! Estamos falando de duendes aqui, certo? Anões? Melhor ainda.
-E o meu contrato? O que faço?
-És imune às leis empregatícias norte-americanas. Faça valer a tua luta através da imposição dos bons calotes.
-Falamos da Coca... sabe como é...
-Falamos da luta. É inevitável. Tu tens todas as cartas dos fedelhos deste mundo. És um símbolo. Coca quem?
-Falou, sua rena maluca. Você me convenceu. Me liberto das obrigações capitalistas. Volto a ser o senhor dos martelos e pás e o escambau. Mas vou manter a cor vermelha, mó stile. O que acha?
-Ótimo. Volto para o trenó, e nós nunca conversamos, para o bem dos fatos. Aponte para mim quando passarmos por Barmen, na velha Westphalia.
-Barmen? Não me diga que você...


A rena ficou muda. Noel tentou de todas as maneiras, mas ela não mais falava, tendo então voltado ao seu velho e natural estado irracional. Noel tentou entender se tinha mesmo tido uma conversa daquela ou se tinha sido uma alucinação. Mas era irreversível. A decisão era tomada. Depois, Noel pegou todas as garrafas do saco e as jogou violentamente no Rio Sena, numa bela tomada panorâmica. Corta, e na última cena, um trôpego Papai Noel é visto numa loja de departamentos, com a legenda "New York" embaixo no início da cena, com diversos homens de terno do lado (pelas expressões, podemos notar que se tratavam de advogados) e entretendo as crianças da loja, ouvindo seus pedidos numa fila e depois dando uma garrafinha de Coca de brinde para elas. Corte, e a última cena mostra uma rena morta, caída no meio de um campo de trigo, envolta por poças e poças de sangue, e Godard move a câmera contra ela num delicado zoom, parando somente quando a tela toda é tomada pelo seu olho. Então, uma legenda aparecia embaixo, com os seguintes dizeres: "mas já se tornara impossível distinguir quem era porco, quem era homem". Essa última legenda, que se constituía numa citação-plágio e que não fazia nenhum sentido dentro do filme, transformou-se numa grande fonte de problemas e explicações para Godard. Numa entrevista, um repórter foi fundo na questão:

-A citação Orweliana no final do filme não se constituía de um plágio forçado e desnecessário?
-Não. Se todos deveríamos ser iguais e ter direito às mesmas coisas, então qualquer obra também passa a ser de direito de todos. Eu posso reescrever um livro inteiro famoso, assinar o meu nome e ainda sim estaria certo. Não era plágio, era auto-afirmação.
-Ok. Esse raciocínio vale para você também? Se por acaso um Luc Besson da vida (a entrevista era recente) chegasse e dizesse que iria refilmar O Acossado sem pagar os devidos direitos, declarando estar exercendo uma "auto-afirmação" e colocando o Bruce Willis, a Gisele Bundchen e um monte de táxis envenenados no filme, você aceitaria isso livremente?
-Uhm... qual era o telefone do meu advogado mesmo?


Esse era o Natal para Godard, no final das contas.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Papai Noel negativo

Decidi reformular um Papai Noel só pra mim, dar-lhe medidas que me parecessem as mais adequadas. E confesso que não tive que pensar muito. Eu já andava com alguém na cabeça. A saber: Theodor W. Adorno. Exatamente, Adorno é o meu Papai Noel.

Caramba, eu estava lendo Minima Moralia e, olha, não tem como não se convencer de que ele não está lhe dizendo a verdade, absolutamente toda a verdade. E só por causa do tom. Nessa mesma linha, tem um Benjamin, que é um cara sussa, que fala com você de igual pra igual. Só uma palavra ou outra trai que, bom, ele não curte Coca-Cola assim tão de boa como você. Mas o Adorno... Dramático, me lembra um Isaías. Por sinal, é uma fala bíblica que poderia perfeitamente lhe servir de divisa: “O mundo jaz no Maligno”. O que é o mesmo que afirmar, como ele afirma, que “Não há mais nada de inofensivo”.

"Tchururu, tchururu, tchu..."

Para um Natal desprovido de ilusões, algo que, enfim, tão logo termino de escrever, revela-se um contra-senso, Adorno. Já ouço vocês cantarem “Um frankfurtiano incomoda muita gente / Dois frankfurtianos incomodam, incomodam muito mais”. Mas eu não ligo, porque vocês e eu passaremos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Christmas Time is Here

Estava procurando uma imagem que sintetizasse o Natal, e me ocorreu um filme – The Royal Tenenbaums. Especificamente uma cena. Royal Tenenbaum está tentando se reconciliar com sua filha, Margot Tenenbaum. Ele a leva a uma sorveteria e, como é de seu feitio, lhe diz alguns disparates. Ao fundo, toca Christmas Time is Here, do Vince Guaraldi Trio, música do filme de Natal dos Peanuts, se lhes escapa.

Adultos infantilizados e crianças precoces: não consigo pensar em algo mais natalino que isso. A infantilização dos adultos vocês devem compreender que é obra do consumismo desenfreado. Quanto à precocidade das crianças – bom, acho que ninguém é mais afetado que elas por essa história toda da magia do Natal, quando a boa vontade renasce entre os homens e o melhor de nós vem à tona. As coitadinhas, então, fazem de tudo pra serem boas e se culpam quando – decentes como são – descobrem que não conseguem. Idealizar as crianças desse jeito é só um dos males de se ler muito J. D. Salinger.

TETÉIA DA SEMANA

Beverly D'angelo

Estrela (?) da imortal (??) série de filmes Férias Frustradas. O exemplar mais famoso da série, além do primeiro filme, era o terceiro, Férias Frustradas de Natal. Tendo de aturar o mala-mor Chevy Chase do lado, Beverly pouco pôde fazer além de contornar as caretas e expressões sem graça de seu parceiro de cena. Mas o filme virou um crássico de Natal da Sessão da Tarde (mas não o são todos os filmes que passam nessa sessão? Os caras amam colocar filmes natalinos nessa faixa), e será, logicamente, futuramente dissecado pelos experts desse blog. Fora a série, Beverly se destacou também no... e naquele outro clássico, o... há, teve também aquele baita filme, ganhou Oscar e tudo, o... é, bem, a vida é assim mesmo, fazer o quê. A, tá: ela foi parceira do Al Pacino por mais de vinte anos. Sem jamais se casarem. Al Pacino, que nunca viu um altar na vida. Uhm, deve ter sido um belo de um contrato... cala a boca, Progressista. E o Al Pacino nunca fez nada de interessante quando se trata de Natal. Então, dane-se ele.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Fomos ao cinema ver O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (com carinho)

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, numa versão menos árida pra postagem anterior:

Três razões para se ir ao cinema ver O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford:

  • a fragilidade e hesitação de Casey Affleck, sem os tiques de Giovanni Ribisi.

  • a fantasmagórica cena em que o bando de Jesse James intercepta um trem, logo no início do filme.

  • a estadia dos irmãos Ford na casa de Jesse James, destacando-se novamente a composição de Casey Affleck pra Robert Ford sentado na cadeira, esperando a morte certa.

Fomos ao cinema ver O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Uma obra, se bem sucedida, é do tamanho de suas pretensões. Bem, apesar da ousadia da forma e das afirmações feitas pelo roteiro, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford não é imenso como seu título nem sublime como as paisagens que lhe servem de pano de fundo, porque falta à própria abordagem da figura de Jesse James a grandeza do intemporal. O que está em jogo é uma questão sociológica, que poderia muito bem ser derivada para o universal, mas que acaba circunscrita a um discurso muito familiar a nós, com explicações e conclusões muito contemporâneas.

É irônico que logo Brad Pitt incorpore Jesse James num filme cuja proposta é analisar a fama e o culto das celebridades, ou o mito analisado sob a estética do mito. Que se trate de um épico, ou melhor, que retrate a trajetória de seu protagonista epicamente, só reforça o esvaziamento dessa vida. Aliás, esse esvaziamento é ressentido em todas as personagens e acentuado pelos longos planos e pausas. A aridez e vastidão das paisagens comunica uma desolação que é própria de um mundo sem indivíduos com vontade e desígnio autônomos. Na radiografia de uma celebridade, profundidade psicológica só pode se dar como uma patologia, e Jesse James é um homem atormentado por alucinações, o que o leva a preparar sua morte pelas mãos de Robert Ford, o único personagem com a mesma determinação que ele e, portanto, capaz de enxergar além do mito.

Mês de Natal - Das tradições natalinas aos devaneios Caprianos

Nós não somos Papai Noel, mas gostamos de aproveitar bons clichês para dizer que traremos a vocês belos presentes. Aproveitando o fim do primeiro ano do blog, queremos mostrar toda a nossa gratidão com vocês que acompanharam nesse tempo as loucuras e verdades da vida escritas nesse humilde espaço. Por isso, com as mãos trôpegas e o coração transbordando das legítimas emoções requeridas pelo momento, declaro a abertura oficial do Mês Especial de Natal do Fomos Ao Cinema. Assim como foi feito no já lendário (numa maneira Jesse James de ser) Mês Lindsay Lohan, um mês inteiro com textos abordando toda a mística natalina e o explosivo papel representado por ela na cultura pop.
O otimismo e a simbologia redentora da data, tão explorada por inúmeros filmes, livros e o escambau e que encontram sua melhor representação nas gloriosas obras de um Frank Capra da vida, esse homem que era até um certo ponto ingênuo no seu inverterado otimismo, e pelo qual todos agradeceram de joelhos no pior momento da história da humanidade; os esforços obstinados de um Godard, para quem o Natal significaria o ideal comunista-igualitário representado pela vermelhidão socialista de um Papai Noel da vida, cuja imagem imortalizada para o mundo, do velinho barbudo, bonachão e gordinho, seria nada mais, nada menos, do que uma alegoria com o alemão mais bonzinho e utópico de todos, Karl Marx (e o bônus: seria Engels uma das renas?) ; uma análise completa das cartas de Natal enviadas por Jean Paul Sartre, um homem de idéias, existencialismos e panetones (que baita cozinheira era aquela Simone de Beauvoir!); os filmes de um Ernest, criadores de uma das maiores mitologias natalinas da nossa era (Ernest vai ao Acampamento e o escambau); os melhores filmes de Natal já feitos, e aqueles que nós gonzonicamente juramos pelas suas existências; a solidão que por vezes caracteriza o 25 de Dezembro, exposta pelas trágicas obras de um Tim Allen, o maior comediante de ferramentas da história da humanidade e com uma visão de tal alcance que lhe permite enxergar essa época como o matadouro de todas as esperanças, a antítese Capriana na sua máxima expressão; o Natal tropical, quando tentamos fingir que neva em São Paulo para não ficarmos de fora da festa; e muito, muito mais. Preparem a ceia e reservem três lugares para os Camaradas, lógico, e vê se não economiza nesse tender não, em, jão? It's A Wonderful Life, apesar de todos os pesares.