quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Arrested Development (Caindo na Real): O Efeito Juno

Dois personagens vitais no filme Juno, coqueluche recente do cinema alternativo e que já conta com uma comunidade de 5 mil membros do Orkut em meros 5 dias de lançamento no Brasil, foram interpretados por dois atores que interpretaram pai e filho no seriado Arrested Development (Caindo na Real, título dado pela Rede Globo e que, embora tenha perdido o trocadilho do original, não soa tão deslocado), criado por Mitchell Hurwitz e que foi ao ar na Fox de 2003 até 2006. Jason Bateman, que interpretava Michael Bluth, o irmão que tinha de manter a família disfuncional unida depois da prisão do pai, e que no Juno fez o coroa que iria adotar o filho da moleca, mas que medrou ao perceber que o contato com a Juno o fez redescobrir o seu adolescente interior, e todos os sonhos que vinham juntos com ele (bocejos), e o Michael Cera, que interpretava o filho de Jason no seriado, George-Michael Bluth, e que no Juno fez o moleque abobado que engravidava a garota. No filme, em nenhum momento os dois aparecem juntos, talvez propositalmente, para não alimentar a euforia dos fãs da série, que são considerados os mais fiéis entre os fãs de séries cult. A série estreiou na Fox em 2003, para durar apenas duas temporas e meia, lutando contra índices baixíssimos de audiência, mesmo sendo um sucesso absoluto de crítica. A Fox, canal conhecido pela pouca paciência com seus títulos e por sabotar produções em nome da audiência (os chatos que veneram o Arquivo X culpam o canal pela decadência da série), até que teve bastante com essa, talvez apostando no efeito Seinfeld, que também lidou com audiências baixas na duas primeiras temporadas, mas com o boca a boca, acabou explodindo no final da terceira. Mas como os indíces jamais demonstravam qualquer tendência de crescimento, decidiram, acabar com a série na terceira temporada, que teve apenas 13 episódios. O último episódio foi visto por apenas três milhões de pessoas nos EUA, uma das menores audiências de um episódio final para uma série que durou mais de duas temporadas. Mas os fãs jamais se conformaram, e transformaram o show num clássico caso de "seriado maldito/incompreendido". O resultado do barulho feito por eles é de que já é considerada seriamente a hípótese de um filme baseado no show (vi o Jason Bateman falando numa entrevista no tapete vermelho do Oscar no Domingo que tudo está bem encaminhado). Para se ter uma idéia do poder dos fãs, no site IMDB, que é considerado a bíblia do cinema e televisão, e que tem um sistema de notas para filmes e seriados baseados na votação dos usuários-membros, a nota do show é um altíssimo 9.7. Para se ter uma idéia, um filme com uma nota de 7.7 é considerado excelente. O melhor filme avaliado, Poderoso Chefão, tem 9.0. E entre os seriados, os dois que chegam perto são Os Sopranos e Seinfeld, com 9.5 e 9.4, respectivamente. Poderoso Chefão, Os Sopranos e Seinfeld. Trica de deixar qualquer um com as pernas bambas, como diria Bezerra da Silva. Mas os fãs do Arrested Development conseguiram fazer sua série preferida ser o produto de entretenimento melhor avaliado entre tudo o que já foi feito em matéria de cultura cinematográfica e televisiva desde o invento das câmeras. Um exagero de proporções dantescas.

Essa histeria dos fãs foi absolutamente benéfica para o filme Juno. Como o filme conquistou notoriedade através da propaganda boca-a-boca, o séquito do show teve um papel importantíssimo no frisson coletivo, ao ver dois atores fundamentais de sua série favorita nesse filme. Como eu nutro uma ojeriza mortal pelo filme, não posso deixar de culpar o seriado por ter parte nessa palhaçada toda. Analiso agora então, para tentar entender tanta loucura, os prós e contras do show, para enfir dar o meu veredito final. Para quem não viu o seriado e tem curiosidade, a Fox está passando todo dia, 5 e meia da tarde. Mas agora, prós e contras:

Prós:

A edição ágil

Jeffrey Tambor, que interpreta o patriarca da família, George Bluth, que é preso no primeiro episódio e passa quase que a totalidade do show na cadeia. Desde quando fazia o Larry Sanders Show, ele já era sensacional. Rouba toda cena que aparece.
Personagens bem construídos, que geram facilmente empatia com o público.
As famosas piadas subtextuais, que fizeram a fama do show. O único elemento realmente eficiente nos roteiros da série, vi belas sacadas em vários epísódios.

Michael Cera, que funciona muito melhor no seriado do que no Juno. Embora ele se limite a fazer a mesma coisa nos dois, seu ar abobado cai que nem uma luva no Arrested Development. Antes que me perguntem: não, não vi ainda Superbad.

-Vamos lá, foram 53 episódios: em quantos deles o meu figurino não foi o uniforme laranja de presidiário e essa bandana? Economia é isso aí.

Contras:
Mais uma vez, a edição ágil (não raremente, o show exagerava nesse aspecto, criando uma atmosfera exageradamente caótica)
Jason Bateman. Embora o personagem dele seja o clássico exemplo da figura sã e pé no chão cujas reações aos malucos que povoam o show deveriam ser o mote das risadas, falhou ao dar um ar excessivamente sério ao personagem. Como ele era o centro gravitacional do show, não é de se estranhar que os espectadores normais (não os fanáticos) acabassem se cansando. Falhava ao fazer o meio campo, o que ajudou a matar a série. Não digo com isso que esperasse que ele afundasse no cinismo, o que seria errado também, mas apenas que ele deveria ter trabalhado para que a seriedade do personagem também se revelasse com o desenrolar da série como uma grave excentricidade, o que era nítido pelo tom dos roteiros, mas que Jason acabou falhando em transmitir para o público.

Humor: embora o show não procurasse gargalhadas histéricas, assim como o filme que inspirou a série (nas palavras do próprio Jason Bateman), Os Excêntricos Tenenbaums, não eram poucos os episódios que geravam uma série de sorrisos espontâneos nos espectadores, mas nada além disso. Muitas vezes a obviedade do humor do show me deixou espantado.

Número de personagens: eram 9 personagens fixos, durante toda a duração do show. Encaixar histórias de todos esses personagens numa série com episódios de 20 minutos e narrada ainda por cima, seria uma tarefa hérculea. Imaginem Seinfeld tendo de apresentar histórias para 9 personagens, ao invés de 4, todo santo episódio. Aí não dá, nem Shakespeare daria um jeito.

Ron Howard: todos os episódios do seriado foram narrados por ele (a família Bluth era filmada para um documentário na série, assim como no The Office, e o Ron Howard fazia as vezes do narrador do próprio documentário, o que explica a sua aparição no último episódio). A narração emulava o trabalho feito por Alec Baldwin no Tenembaums, que explicava serenamente as intenções dos personagens, ao mesmo tempo em que relembrava eventos anteriores de suas vidas, o que foi seguido à risca pelo seriado. Mas algo não batia. Como os personagens no Tennenbaums tinham uma caracterização dramática, com o humor sendo revelado nas entrelinhas e interações, a narração de Baldwin encaixava com perfeição. Não acho que isso deveria ter sido seguindo num show cujos personagens, embora construídos da mesma maneira, tenham a atmosfera obviamente cômica. Ron Howard (que era o produtor executivo) deveria ter dado outro tom. Do jeito que fez, seu trabalho em nada acrescentava à série, sendo apenas um elemento a mais num show já cheio de excessos. Mas, bem, em se tratando de Ron Howard, eu esperava o quê? Código Da Vinci?"A Mona Lisa? É logo ali!", lembram-se? Loser, com letra maiúscula.

Veredicto: série mais superstimada de todos os tempos. Agradável de se ver, inteligentinha (embora não tão inteligente como acham os fãs), personagens divertiduxos, mas, caçamba, 9.7? Um 8.0 já estaria de belo tamanho, e olhe lá. E mais uma vez, agradeço aos fãs da série pelo Oscar ganho pela Diablo Cody (já posso perguntar: quem?). Parabéns. Muito Barulho por Nada, diria o bardo inglês.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Oscar 2008: Tudo sobre a festa

A primeira cerimônia do Oscar que assisti data de 1991, quando tinha meros 7 anos de idade e implorava aos meus pais que me deixassem ver pelo menos uma parte. Desde aquela longínqua festa até hoje, datam 17 anos. E posso dizer então que, desde aquele dia no qual o insuportável Dança com Lobos foi agraciado, a cerimônia de ontem, que consagrou os Irmãos Coen, foi, disparada, a pior, mesmo para o já tradicional nível altíssimo de chatice que povoa as premiações. A greve dos roteiristas jogou por terra qualquer chance de se ter um evento de nível. Com apenas três semanas para preparar, os manda chuvas da Academia optaram pelo caminho mais simples, fazendo uma cerimônia rápida (3 horas e 17 minutos, para se ter uma idéia, a premiação de 1999 bateu nas 4 horas e 20 minutos) e brutalmente simples. Sério, em alguns momentos, lembrei do VMB, premiação paupérrima da nossa combalida MTV Brasil. Isso não pode, em momento algum, ser um bom sinal. No ano que a festa completava oitenta anos, eles tiveram a pachorra de entregar um negócio feito nas coxas. O "apresentador" (sic), Jon Stewart, poderia ter sido facilmente trocado por uma fita de gravação anunciando os apresentadores. Tá, eu sei, por culpa da greve ele teve apenas onze dias para preparar as piadas, mas o que acontece com o conceito de "improvisação"? O monólogo de abertura dele durou uns, vamos ver, 3 minutos, sem qualquer piada inspirada, sem os vídeos que zoavam os filmes indicados e proporcionavem bons momentos, principalmente quando o Billy Cristal apresentava (tiraram ele da premiação por ele supostamente estar velho para o público mais jovem, uma estultice sem tamanho). Imagino que ele zoaria pacas o Juno, vestindo até uma barriga postiça. Mas, os tempos são outros. Stewart se limitava a fazer o trivial, claramente instruído para não prolongar nada. Fomos poupados de suas insuportáveis piadas políticas, pelo menos. O momento que ele apareceu jogando um Nintendo Wii no palco figurará para sempre entre os momentos mais constrangedores da festa em todos os tempos (aliás, propaganda fácil é isso aí, triste). Para conseguir audiência, colocaram até a Hannah Montana (é assim que se escreve?) para apresentar um prêmio. Para atrair o "público jovem" (esse desconhecido), sacaram? Sim, isso deve ter resolvido. Todos os textos introdutórios dos apresentadores dos prêmios estavam absolutamente fracos, beirando o ridículo em alguns momentos. O único momento engraçado ocorreu quando o James MacAvoy e o Josh Brolin foram apresentar o prêmio de roteiro adaptado, e fugiram do script, dançando e zoando com a cara um do outro. Acho que o fato deles serem atores talentosos facilitou.

Os números musicais das canções indicadas ao prêmio de melhor música foram embaraçosos, de uma pobreza espartana. A Amy Adams cantando sozinha, sem qualquer acompanhamento, a música do filme Encantada (o filme teve 3 canções indicadas, e todas foram interpretadas no palco, haja saco), foi a hora na qual eu lembrei do VMB. Não, nem os diretores da MTV Brasil permitiriam algo tão simplório. Quando o Owen Wilson foi apresentar o prêmio de curta-metragem, achei que seria um bom momento para ele falar sobre sua recente tentavia de suicídio, já que era sua primeira aparição pública depois do fato. Que nada. Limitou-se a falar um texto clichezento sobre a importância dos curtas e anunciar os indicados e o vencedor, tudo com uma cara estranhíssima. Olha, pelo jeito, aquela tentativa não será isolada. Alguém interne o Owen Wilson urgente, por favor. O único momento belo gerado pelo Jon Stewart foi quando o casal de atores do filme Once, Glen Hansard e Marketa Inglova, ganhou o prêmio de melhor canção (venceram as três músicas do Encantada, rárárá. No mais, a música era bem bonita mesmo), e foram agradecer. Apenas o rapaz pôde falar, quando ele terminou o discurso e a Marketa ia para o microfone, a música cortou, abrupta e deselegantemente. Na volta dos comerciais, Stewart pegou a tímida garota pelos braços e a levou para o palco, para ela, enfim, poder agradecer pelo prêmio. Pelo menos educação o Jon Stewart tem, e será que não seria esse o problema? Mas foi um belo momento.

Há alguma dissimulação nos modos tipicamente democratas de Jon Stewart? Não. Somente a bela e cada vez mais perdida gentileza. Agora, as piadas....

No tradicional clipe que lembra e "homenageia" os mortos do ano anterior (o famoso clipe fúnebre), tivemos de ver Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman colocados no meio de um monte de zé-ninguéns, com direito ao mesmo tempo dado para todos os outros incautos. E, logicamente, fecharam o clipe com o Heath Ledger. Sim, todo mundo ficou chocado com a morte dele, mas não existem parâmetros para se comparar a importância de um Bergman e de um Antonioni com a do jovem ator australiano. Terrível. Mas é normal para a Academia, exemplo disso é que Stanley Kubrick e Marlon Brando tiveram direito apenas a finalizarem o clipe no ano que morreram, sem direito a homenagens isoladas, algo dado para um Jack Lemmon, por exemplo, que embora seja um mito (merecidamente), era um notório puxa saco da Academia. Sério, Brando e Kubrick. Fazer o quê. Voltando à cerimônia desse ano, é hora de falar dos prêmios. Seguem aí embaixo comentários sobre os vencedores

Melhor ator coadjuvante: Javier Bardem ganhou, como era esperado. Justíssimo, seu personagem provavelmente entrará para o rol dos maiores vilões do cinema, sem exagero algum, e Bardem é um dos melhores atores do cinema contemporâneo. Mas eu ainda estou com medo do Anton Chigurh. Se eu ver o Bardem na rua, eu atravesso pro outro lado e saio correndo. Sai pra lá, tanque de oxigênio mortal!

Atriz Coadjuvante: Tilda Swinton venceu. Vergonhoso. Ela fez cara de quem não esperava, pareceu surpresa. Eu sei o motivo. Ela mais do que ninguém sabia que sua indicação tinha sido absurda. Terem a coragem de dar o prêmio para ela foi o tiro no pé. Triste. Mais uma atriz medíocre premiada nessa categoria que raramente prima pela justiça e coerência.

Roteiro Adaptado: Onde os Fracos Não tem Vez. Vitória que indicou que seria a noite dos Coen, ganhando a primeira disputa com o Sangue Negro. Vi pela primeira vez os irmãos, e eles são inacreditavelmente tímidos, superando o Charlie Kauffman quando ele foi pegar seu prêmio pelo Brilho Eterno. Mal queriam falar, loucos para saírem logo do palco.


Roteiro Original: Preparem o saco de vômito. Quando eu contar 1, 2, 3: BLAAAAARGGGHHHH!!!!!! Juno ganhou o prêmio. Tivemos de ver a Diablo Cody subir e pegar sua estatueta. Eu achava que o prêmio mais absurdo da história tinha sido o de coadjuvante para a Renée Zellweger pelo Cold Mountain, mas esse supera com honras. Juno é um filme que, quanto mais penso nele, mas vejo o quão revoltantemente medíocre é. Vamos ver se a garota continua enganando os incautos por muito tempo. Lembram quanto durou a Nia Verdalos, depois do Casamento Grego? Dez minutos, e vala do esquecimento pra sempre? Pois é, Diablo Cody, você é a próxima, vai voltar a dançar no queijo logo, logo.

Diablo Cody, mostrando que encara a matança de animais selvagens em nome da moda da mesma maneira que encara a gravidez infantil. "É tudo uma grande brincadeira! Hihihihihi!". Há, era uma imitação de pele? Sei. E tá rindo do quê, Harrison Ford?

Atriz: Marion Cottilard. Um belo momento de clareza na Academia. Aliás, tirando a Tilda Swinton, os outros prêmios de atuação foram justíssimos, como raramente se vê na premiação. Como estou pegando raiva da Ellen Page, por ela ter feito aquela droga do Juno virado coqueluche, fiquei mais contente ainda que o sensacional retrato da cantora francesa Edith Piaf feito pela Marion Cottilard tenha sido agraciado com o prêmio. E a Ellen Page não merecia mesmo, por melhor que tenha sido sua atuação. Falam que a Cottilard disputou palmo a palmo com a Julie Christie, mas eu não acredito. A Julie Christie morreu de frio quando filmava o Doutor Jivago em meados de 66, e com certeza não chegou viva aos nossos dias. In memorian.

Ator: Daniel Day-Lewis. Junta-se ao rol que inclui Spencer Tracy, Fedric March, Gary Cooper, Marlon Brando, Dustin Hoffman, Tom Hanks e Jack Nicholson, como o dos atores com o maior número de prêmios na categoria principal, com duas estatuetas. Um olimpo, ao qual Day-Lewis se junta com toda a justiça. Gerou um momento engraçado, quando foi receber o prêmio da Helen Mirren, se ajoelhou, na pose que fazem aqueles que são condecorados pela rainha Elizabeth como cavalheiros do império britânico, numa referência ao papel dela no filme A Rainha no ano passado. Helen comprou a brincadeira, e com o Oscar que ia dar para o Daniel fingiu condecorar o irlandês. Vão saber improvisar assim lá no inferno!

Diretor: Como eu já havia antecipado (sou humilde, pô!), os irmãos Coen, Joel e Ethan, foram os vencedores. O filme é maravilhoso, mas se a estatueta tivesse ido para o Paul Thomas Anderson, seria justo também. Prêmio que reparou a injustiça de 1996, quando eles, representados pelo Fargo, perderam o prêmio para o péssimo Anthony Minghella com o Paciente Inglês.

Filme: Onde os Fracos Não Têm Vez foi o vencedor. É o melhor filme a ganhar o prêmio desde o Lista de Schindler, na minha opinião (aos que veneram o Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei: talk to the hand!). Mas eu, sinceramente, tinha uma queda maior pelo Sangue Negro. Não me levem a mal, são dois filmes estupendos (adjetivo tipicamente italiano), mas na ponta do lápis, daria os prêmios de direção e filme para o Thomas Anderson. Mas, pelo amor, depois de sermos torturados vendo nulidades como Crash, Chicago, Uma Mente Brilhante ganhando nos últimos anos, e vendo também anos nos quais o melhor que se achou foram filmes eficientes, porém longe de serem brilhantes como o Menina de Ouro (filme que está caindo em esquecimento) e o Os Infiltrados, a vitória do Onde os Fracos não Têm Vez é rendetora. Aliás, vamos falar a verdade aqui: a lista de filmes medíocres premiados como melhores filmes pelo Oscar, em toda a história do prêmio, é gigantesca. Foi muito mais difícil fazer a lista de piores filmes premiados, tamanha era a oferta, do que a dos melhores, para vocês terem uma idéia. O que aumenta ainda mais a importância da vitória do filme dos Coen.


Irmãos Coen, mostrando todo o conforto com os holofotes. Para melhorar, tiveram de subir três vezes no palco. É, talvez fazer o Matador de Velhinhas não tenha sido má idéia então... No Award For Bad Movies

O filme mais premiado na noite foi o Onde os Fracos Não Têm Vez, com apenas 4 estatuetas. O que confirma uma tradição recente da academia, que desde os 11 prêmios dados em 2003 ao Senhor Dos Anéis: blá-blá-blá do Rei, tem dividido muito mais os prêmios entre todos os competidores. O segundo filme mais premiado na noite de ontem? Adivinhem? Sangue Negro? Não, ganhou só 2. Conduta de Risco? Não. Desejo e Reparação? Que nada. O segundo filme mais premiado ontem foi o Ultimato Bourne, com três prêmios. Tá na hora da Academia rever os seus conceitos, urgentemente. De resto, nos vemos no ano que vem. E que tragam de volta o Billy Cristal. Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

TETÉIA DA SEMANA

Marion Cottilard

Atriz francesa, fez história ontem ao se tornar a segunda atriz a vencer o Oscar por um filme falado em língua não-inglesa (a primeira a alcançar tal feito foi a Sophia Loren, na década de 60). A sua perfomance como Edith Piaf no filme que retratou a vida da cantora foi digna de trocentos prêmios mundo afora, e o Oscar, embora surpreendente, foi justíssimo. Realmente não esperava que fossem dar o prêmio para ela. Agora com certeza o passe dela subirá às alturas. Só espero que ela não termine como a Audrey Tatou, aceitando fazer uma atrocidade como Código DaVinci em nome dos dólares. Ron Howard, fique bem longe da francesinha, ok?

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Memória 1990

Memórias. Copa de 94, Romário e Bebeto. O Bebeto fazendo o gesto de embalar seu recém-nascido, e a final decidida nos pênaltis, com o Taffarel transformado em herói nacional e o Itamar Franco ao lado do Dunga erguendo a taça FIFA. E tinha também o Plano Real. A gente era criança e nem suspeitava como a vida era esquisita, como sempre foi, mas não era algo que pudessem explicar pra gente. Dois anos depois, eu assistia Minha vida de cachorro (My so-called life), no SBT, com a Claire Danes antes de estragar a vida dela se envolvendo com o Billy Crudup. Tá lembrado?

(Aliás, quanta coisa as distribuidoras aqui, no Brasil, acharam que devia se chamar Minha vida de cachorro.)

Jordan Catalano e muito mais.

O nexo entre as duas coisas, você pergunta. É que a série foi ao ar nos States em 1994. E, na verdade, outro dia comentaram comigo de um seriado com a Claire Danes adolescente, que só tivera 19 episódios, mas que era muito inteligente e que, até por isso, tinha sido cancelado, não sem virar cult. E eu não associei uma coisa com a outra. Daí, lembrei esses dias, fui pesquisar e descobri que era o Minha vida de cachorro que eu via quando era moleque, antes de ter idade pra me identificar com os dramas adolescentes Seattle-style da série.

Anos Incríveis anos 1990: Kevin Arnold versão feminina e sem-sal, Paul Pfeiffer porto-riquenho e Winnie Cooper que, em vez de ir pra França, vira emo.

E que triste que era, às vezes pesada. Predominava na atmosfera da série uma enorme fragilidade, de gente que não pára de pé, que está sempre prestes a desmoronar. Só pra você ter idéia, o melhor amigo da Claire Danes era hispano e gay, isso em 1994, quando nem bem tinha começado o período de Ilustração da era Clinton. E a personagem da Danes, Angela Chase, era apaixonada pelo Jordan Catalano (nome que deve ressoar na memória das menininhas), interpretado pelo Jared Leto, o que me fez pensar. Pensar que a vida não é como Terminator 2, e a gente não podia saber que o Catalano ia incomodar tanta gente ainda, nem contar com um cyborg do futuro pra eliminar o moleque e evitar maiores estragos. Mas o tempo passou, veio Requiem for a dream, veio Alexandre e finalmente a fase emo, então tá. Quando a gente abre o baú, aparecem essas coisas mesmo.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O clichê por ele mesmo

O problema da mulher é. Jovem leitora, quando você lê um texto que começa com “O problema da mulher é”, o que você faz?

Mas o problema das mulheres é que elas são convencionais, e as que não são estão mais ocupadas em deixar claro como são excêntricas e alternativas, e por isso são um saco. Além disso, provavelmente elas gostam é de mulher. O pensamento da mulher é composto de clichês. Um homem que não diz clichês pra ela é insensível, sem graça, não tem pegada. A pegada é um cara falando o mesmo que o cara ao lado pegando uma menina que pra você, jovem leitora, tá na cara que é piriguete.

Clichê: o uso desta imagem é um clichê.

O romantismo... E quando alguém te fala do romantismo pra explicar qualquer coisa, associando-o às mulheres, hein? Mas o romantismo inteiro, se não é invenção delas, pelo menos se mantém graças à insaciabilidade feminina por clichês. O romantismo do Hegel e o das telemensagens e loucuras de amor. Desde então, é imperativo (e o dedinho se levanta) que sejamos estritamente fiéis a nós mesmos; abandonam-se os ideais artificiosos, porque supostamente falsos. E todos dizem eu te amo.

O uso desta não.

E por isso o meu problema com as mulheres. Minha objeção recorrente. Tudo por causa do chamego, parte fun-da-men-tal de um relacionamento. Qual o valor de um chamego que qualquer uma pode te oferecer, um chamego que a gente vê em novela da Record? Jovem leitora, você sabe o que é isso, ter uma carência dessas insatisfeita? Um homem se isola, se deforma, some; e um dia, reaparece transfigurado em poeta concretista, ou em artista performático, falando de Godard, não sei. Um horror.

E por isso você vai se casar com um cara medíocre, mas que não sumiu. Todas se casam. E quem dera isso fosse praga minha, mas é estatística.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Porque não é que eu tenha me equivocado

Camarada Progressista já falou, já falou. É que eu também quero dar o meu palpite, deixa aí.

Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) é um grande filme, contrariando as minhas expectativas muito legitimamente baseadas na filmografia pregressa do diretor, Paul Thomas Anderson. Então, não venha tirar satisfação comigo me chamando de otário, metidinho, contraditório e sem talento – coisas que eu sei que sou, mas só de vez em quando: quando estou cansado, quando imito alguém que não eu –, se agora eu digo que o filme é o mais importante dos últimos, vejamos, vinte anos, que não foram grande coisa, tá certo, mas com suas exceções, pois sim.

Ca-bum!

O filme já começa de maneira a espantar a audiência relaxada, que gosta de saber sempre o que está acontecendo. O mesmo pessoal, por exemplo, que chiou com o final de Sopranos. Uma paisagem rochosa e um terrível zunido; me lembrou 2001: Uma Odisséia no Espaço, os primatas se ajuntando em torno do misterioso monólito, e um zunido semelhante marcando a expectativa e a iminência de uma grande mudança, uma transformação da própria natureza. E da natureza humana na exploração do meio físico circundante. Exatamente o que transcorre em Sangue Negro: uma transformação radical da natureza humana, dessa vez pelo empreendedorismo norte-americano, representado por Daniel Plainview (interpretado por Daniel Day-Lewis, vocês já ouviram que brilhantemente), em busca de petróleo. Nasce o homem que há de erguer uma nação, e essa cena inicial deixa bem claro o self-made man que é Plainview.

E as críticas sobre o filme têm destacado como central a oposição entre poder religioso e secular, o que está parcialmente correto. Parece-me, no entanto, que a questão evolui da mera oposição para a moralização do poder religioso ironicamente operada pelo secular. A cena final (e não te preocupe, que não vou enfiar um spoiler a essa altura do campeonato) é a mais explícita formulação desse ponto, para a qual, afinal, o filme converge. O pragmatismo que construiu os Estados Unidos é necessariamente moralizador. Os negócios precisam de que as pessoas sejam diretas e honestas. Como de fato é Plainview. Na contramão, ou melhor, como um efeito colateral, o oportunismo de Eli Sunday (competentemente interpretado por Paul Dano). Naturalmente, Plainview, cujo materialismo e ceticismo são reflexos da racionalização indispensável aos empreendedores, há de se opor às mistificações e à hipocrisia de Sunday. O falso profeta desmascarado pelo capitalista inescrupuloso e assassino, quase uma linha de Adorno. Descontando-se muita coisa, como se tem de fazer quando se quer apor a indivíduos reais a categorização dos tipos, Daniel Plainview é uma espécie de anti-herói, na medida da América.

"Brother Daniel, ou dá, ou desce!"

Paul Thomas Anderson amadureceu e se reinventou, deixando de lado os maneirismos irritantes dos filmes anteriores. Mas o selo de qualidade é definitivamente conferido ao filme quando eu penso que os fãs de PTA vão detestar Sangue Negro. Eles não vão admitir, é claro, porque ia pegar mal dizer que não gostaram do evidentemente melhor filme do diretor. Só vai dar pra notar nas ressalvas sutis que eles vão deixar escapar aqui e ali, do tipo "mas Magnolia tem mais coração". E a gente sempre apela pro "coração" quando a coisa é ruim. Nessas horas, eu vou dar um sorriso desse tamanho.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Aquecimento Oscar 2008: Os Melhores

Depois da minha lista os piores filmes entre aqueles que foram vencedores do Oscar de melhor filme, nada mais justo do que falar do outro lado da moeda, os melhores filmes entre os 79 que venceram o prêmio desde a primeira cerimônia, em 1929. Como a excelência desses filmes é óbvia, falarei mais sobre aspectos da premiação no ano da vitória desses filmes. O Oscar nunca primou pela eficiência, então não foram raras as oportunidades nas quais filmes essenciais foram ignorados abruptamente. Diria que isso acontece na frequência de, tipo, todo santo ano? Um dia eles aprendem. Mas a lista é de respeito, jão, checa aí:


5- A Lista de Schindler - Melhor filme de 1993, dirigido por Steven Spielberg
Um dos filmes mais estarrecedores já feitos, foi fundo no estudo dos efeitos da maior carnificina da história da humanidade no comportamento humano. Spielberg surpreendeu pelo brilhante domínio técnico e pela qualidade narrativa, não tentando suavizar o personagem principal, inteligentemente percebendo que isso realçaria ainda mais o feito de Oskar Schindler. De tirar o fôlego, jamais pesando os 200 minutos de projeção, muito pelo contrário. Se você não chorar no final, você não tem coração, certo, jão? Ganhou num ano forte, filmes como O Piano, Vestígios do Dia (classudo drama de James Ivory) e Em Nome do Pai estavam no pário. Falo o último concorrente? Tá, bem baixo, pra ninguém ouvir: O Fugitivo. Já pensaram se esse eficiente, porém convencionalíssimo, filme de ação batesse um filme como A Lista de Schindler? Deve ter sido pela cena do Harrison Ford se jogando no rio. Deve sim.

4- Lawrence da Árabia - Melhor filme de 1962, dirigido por David Lean
Você que assistiu O Gladiador, e saiu falando, "nossa, que filme massa, isso sim é épico!", você devia é levar uns tapas no ouvido pra largar a mão de ser pervo. Se tem um filme que merece tal denominação, é esse. 216 minutos de puro deslumbre, com as tomadas mais belas jamais vistas na história do cinema, Lógico que quando o filme leva a assinatura de um David Lean como diretor, você só pode esperar pura excelência. Aquele ano a disputa valeu por ter o clássico O Sol Nasce Para Todos no páreo, então vocês podem imaginar o suspense que foi aquela premiação, com dois filmes nervosos como esses concorrendo. Igualzinho ao ano retrasado, quando o Crash ganhou do Brokeback Mountain, né não? Emocionante mesmo. Bocejos.

3- O Poderoso Chefão-Parte 2 - Melhor filme de 1974, dirigido por Francis Ford Coppola
Divide com o Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (argh!) a honra de serem as únicas continuações premiadas com a estatueta de melhor filme. Coppola conseguiu uma façanha mesmo. Quando todos achavam que ele ia jogar o nome do primeiro filme no chão com uma improvável continuação, ele veio com essa maravilha debaixo dos braços. Alguns juram que é até melhor do que o primeiro, de tão bom que é o negócio. Uma das melhores atuações da história do cinema, com Al Pacino dando aulas toda vez que aparece na tela. Naquele ano, dois competidores eram fraquíssimos, Lenny (filme inspirado na vida do comediante Lenny Bruce, surpreendentemente dirigido pelo Bob Fosse, mais lembrado pelos musicais que fazia) e, pasmem, Inferno na Torre, um lixo de proporções dantescas. Mas os outros dois competidores tinham envergadura: A Conversação, filmaço também dirigido por Coppola (o filme foi uma das exigências que ele fez para dirigir a continuação do Poderoso Chefão), e também Chinatown. Sim, Chinatown, obra prima do Roman Polanski. Pobre Polanski, deve ter enlouquecido, e fez coisa feia numa festa na casa do Jack Nicholson, e foi o fim. Triste mesmo.

2- Casablanca - Melhor filme de 1943, dirigido por Michael Curtiz
Não há muito o que se falar sobre Casablanca. É meio que sinônimo de cinema, tipo, quando se fala na "magia da sétima arte", automaticamente retomamos na mente a imagem do mito Humphrey Bogart se despedindo da Ingrid Bergman antes de pegar aquele avião. Cena que define o poder que o cinema tem. De resto, é o filme mais coeso já feito. Nenhum personagem fora do lugar, nenhum diálogo que não seja arrebatador. 102 minutos de puro desbunde. Méritos para o excelente diretor húngaro Michael Curtiz, que embora não fosse autoral (na era dos estúdios, diretor era visto como um membro a mais da equipe técnica, o mais importante, logicamente mas nada além disso, sem maiores poderes para influir no destino de seus filmes), tinha um apurado senso de direção, tanto cênico quanto técnico. O elenco excelente (Peter Lorre, Claude Reins, Sidney Greenstreet e Paul Henreid, um verdadeiro olimpo de coadjuvantes). E o Bogart, logicamente, o que faz muita diferença. No ano em que venceu, Casablanca dividiu a indicação para melhor filme com nove películas. Foi o último ano que isso aconteceu, no ano seguinte já foram as cinco indicações que são regra até os dias de hoje. Nenhum dos concorrentes era particularmente memorável, os dois mais famosos eram o Por Quem Os Sinos Dobram, fraca e longuíssima adaptação do livro de Ernest Hemingway, e o Canção para Bernadete. Como o Oscar adora ignorar filmes que se mostrariam vitais depois, respiremos fundo por Casablanca ter escapado da maldição. Ufa.

1- Poderoso Chefão - Melhor filme de 1972, dirigido por Francis Ford Coppola
Um dos maiores filmes da história do cinema, por muito, muito pouco, não foi ignorado, se juntando ao rol da vergonha do Oscar, que inclui os inexplicavelmente preteridos Cidadão Kane, A Doce Vida, Laranja Mecânica, Psicose, Taxi Driver, Touro Indomável, 2001, entre outros. Explico: O Poderoso Chefão foi agraciado com apenas 3 prêmios: roteiro, ator, logicamente (Marlon Brando, que mandou uma atriz fingindo ser índia buscar o prêmio), e filme. Quem fez a limpa naquele ano foi o horrendo musical Cabaret, ganhando 8 prêmios, inclusive o de diretor para o Bob Fosse (em três dos quatro anos que Coppola foi indicado a melhor diretor, o Bob Fosse também foi). Um massacre. A coisa foi tão feia que, na categoria de melhor ator coadjuvante, o filme conseguiu emplacar três competidores (James Caan, Robert Duvall e Al Pacino) e todos foram absurdamente preteridos pelo Joel Grey, que ganhou por -adivinhem, adivinhem- Cabaret. Por um milagre, mas um grande milagre mesmo, os membros da Academia resolveram dar o prêmio principal para o maravilhoso filme de Coppola. Se eles não tivessem tido essa lucidez, provavelmente ninguém levaria mais a sério o Oscar hoje, seria ainda pior do que é, já que os dois principais filmes já feitos, Cidadão Kane e Poderoso Chefão, teriam sido ignorados. Sorte deles.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Fomos ao Cinema ver Sangue Negro

Paul Thomas Anderson, parte um:

Negócio de Risco, 1995: estréia promissora, futuro mais ainda. Era pós- Pulp Fiction somente começando, oportunidades aos borbotões para os realizadores alternativos, e Anderson surgia como grande promessa. Melhor momento, impossível
Boogie Nights, 1997: egos ao alto. Uma overdose de travelings, sequências sem cortes, close-ups secos e abundantes, diálogos inspirados e muita, mas muita, vontade de colocar a carroça na frente dos bois. Querer mostrar todos os truques de uma vez, para ninguém duvidar de nada. Parcimônia, aonde estava você?
Magnolia, 1999: egos no limite. Robert Altman sabia contar várias histórias de diferentes personagens de maneira coesa e sem alienar seu público. Anderson não. Lindo se ver, cheio de simbolismos (chuva de rãs, bíblia e o escambau), mas 180 minutos de muita embalagem para pouco conteúdo. Messiânico, como eram messiânicos os Engenheiros do Hawaii. Péssimo sinal.
Embriagado de Amor, 2001: o começo da mudança. Menor, mais focado e sem as dispersões que tanto irritaram nos dois anteriores. Ainda não era o ideal (Adam Sandler, com toda a boa vontade do mundo, não dá), mas algo parecia estar em movimento.


Paul Thomas Anderson, parte dois:
Depois de Embriagado de Amor, Anderson tirou seis anos para realizar seu próximo projeto. Seis anos que fizeram muita diferença. Era chegada a hora do diretor finalmente usar seu raro talento para fazer filmes que se fizessem sentir sem a mão pesada das realizações anteriores. Depois de achar em Londres um livro de Upton Sinclair chamado Oil, de 1927, Anderson sentiu o potencial da história e sua ressonância nos dias atuais, e resolveu então realizar a sua mais nova película, Sangue Negro (There Will Be Blood no original). Teve em mente apenas um ator para o projeto, o único que ele inteligentemente sentiu ser capaz de refletir as nuances e a tempestuosa natureza do personagem Daniel Plainview. Justamente o ator mais escorregadio e difícil de se contatar de todo o mundo do cinema. Mas, sorte grande, o cara tinha adorado o Embriagado de Amor, e resolveu embarcar a bordo. Sim, Daniel Day-Lewis, mais conhecido como melhor ator em atividade. Então, colocou as mãos na massa e fez um filme cujos arcos em nenhum momento convergem para resoluções convencionais ou definitivas. Das exibições de virtuosismo dadas por Anderson em filmes anteriores, vemos, finalmente, usadas com inteligência. Nunca pulando por cima da história, mas sim sempre complementando estados de espírito, conflitos silenciosos ou explosões dos personagens. A natureza do filme é reflexiva, e o domínio narrativo alcançado por Anderson figura desde já ao lado de grandes obras do passado. Fazia tempo que não via um filme assim. O filme vem sendo bradado como um resgate dos momentos de ouro do cinema americano, vivido em filmes como Chinatown e Taxi Driver, que se negavam a seguir quaisquer tipos de convenções narrativas ou concessões estúpidas. Não se pode adivinhar o desfecho de nenhuma tomada. Não se pode adivinhar os caminhos seguidos pelos personagens. A primeira cena mostra Daniel Plainview, personagem de Day-Lewis, absolutamente isolado no meio do nada, trabalhando num poço de minério no qual acha uma pedra de petróleo, ignorando uma fratura no pé para continuar o trabalho. O filme jamais explica o que levou o personagem a tal isolamento, nem explica a profunda aversão que o personagem sente pelo gênero humano, o que o leva a fingir simpatia com todos ao seu redor em nome apenas da sua vontade de prosperar no negócio petrolífero.


Os dez primeiros minutos sem diálogo mostram o quanto a comunicação para ele não significa nada perto das suas ambições. E é assim até o final. Plainview encara tudo o que faz como concessões em nome do bem maior. Vemos no começo que ele trata afetuosamente o filho de um mineiro que morre numa escavação e que ele adota como se fosse seu. Para então, vermos depois o quão falsa e descartável era aquela afeição toda, dizendo mais à necessidade do personagem de estabelecer um chão do que em realmente bancar uma imagem que não correspondia à realidade. Seu relacionamento com o jovem pastor interpretado por Paul Dano, Eli Sunday, revela sutilmente dicas sobre o seu profundo desgosto. Ele percebe desde o começo que Eli é tão ambicioso quanto ele, e o ambiente no qual eles se encontram, as áridas, miseráveis e paupérrimas áreas petrolíferas no interior da Califórnia do começo do século XX, totalmente desprovido de pessoas com as mesmas "qualidades" dos dois, cria uma estranha e conflituosa empatia entre os dois personagens, que reconhecem mutualmente e silenciosamente as mesmas intenções. Mas ao ver que Eli não tem a mesma transparência, tentando se mostrar para si e para os outros como um ser verdadeiramente predestinado, Daniel se sente exposto indiretamente, tendo de fazer concessões insuportáveis para o seu código de vida para seguir com suas ambições adiante, algo que no decorrer do filme cobraria um preço carissimo. Hoje, a política de George W. Bush usa um verniz de intenções cristãs (Bush sempre diz que age em nome de Cristo) para mascarar suas verdadeiras intenções, os bilionários negócios petrolíferos no oriente médio. Paul Thomas Anderson estuda então, pacientemente, a natureza desses sentimentos que definem praticamente a geopolítica contemporânea. E Plainview, com sua dissimulada simpatia e desprezo pelos seus semelhantes que nutre no seu íntimo, sempre voltado para nutrir seus desejos, sendo fiel apenas a si mesmo, poderia representar o modus operandis das megas corporações que comandam o nosso mundo hoje, voltadas que são para manipular friamente os consumidores. Duas verdades que deixam um gigantesco vácuo emocional no nosso mundo, gerando frustrações que se dissiminam cada vez mais entre os nossos semelhantes. E Daniel Day-Lewis consegue, com imensa habilidade, refletir todo esse vazio, demonstrando todas as facetas desse personagem brutalmente complexo.

Não chora não, Daniel. Eu achei o Gangues de Nova Iorque shaggadelic! Yeah, baby!

Uma cena em especial demonstra o talento colossal do irlandês. Quando em determinado momento Plainview precisar mostrar arrependimento por um ato diante de Eli e dos fiéis da igreja por ele criada, o personagem precisa se ajoelhar humilhantemente e declarar sua culpa aos berros, fervorosamente, sempre forçado por Eli de maneira brusca. Com apenas jogos de olhares e sutis mudanças de expressões, podemos notar que o personagem faz tudo aquilo apenas por conveniência, em nenhum momento mostrando acreditar realmente nas confissões que bradava a plenos pulmões. Só mesmo o Daniel Day-Lewis conseguiria algo assim. Imaginei depois de ver o filme um Ben Affleck fazendo a mesma cena. Tá, eu sei, é que nem comparar o Pelé e o Betão, mas é reconfortante saber que o Thomas Anderson tinha em mente que tal complexidade somente seria realçada com brilhantismo se Day-Lewis aceitasse fazer o filme. Antes, Anderson se achava tanto que se dava ao luxo de enfiar um Adam Sandler na nossa goela. Hoje, ele espera por um Daniel Day-Lewis, e realiza um filme que é, sem dúvida, o merecedor do Oscar, até mais que o brilhante Onde os Fracos Não Têm Vez. Seria essa a verdadeira chuva de rãs de Paul Thomas Anderson, então? Há, tá, tem gente achando que o Juno merece o prêmio na verdade. Aqueles que querem "abraçar" o filme. Se isso acontecer, aí sim que there will be a lot of blood. A lot. I'm finished.

TETÉIA DA SEMANA

Feist

Cantora canadense. Depois de lançar três discos elogiados pela crítica mas de pouca repercussão, finalmente consegue estourar com o sucesso da belíssima 1234, música do seu quarto disco, The Reminder. Na época do grunge, chegou a formar uma banda punk (ela já tem 31 anos e é mais velha que as cantoras da nova safra inglesa, Lilly Allen, Winehouse, Kate Nash e afins), mas aos poucos mudou o seu foco de interesse, a medida que ia amadurecendo (falo aqui que punk é coisa de adolescente? You tell me). O álbum The Reminder é muito bom, mas é nítido que a 1234 é superior às outras composições. Mas nada que não se possa corrigir subsequentemente. A música estourou depois de aparecer num comercial do I-Pod Nano, na Inglaterra e nos EUA. Concluímos então que, apesar da qualidade da canção, o sucesso da cantora deve-se muito ao maior hipócrita da nossa era, Steve Jobs? É claro que não. Um dia a sua máscara cai, chefão da Apple.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Kate Nash: nós, fundamentalistas, aprovamos!

O pop – além de descartável, vendido, descolado, experimental, artístico, etc – pode ser humano, qualidade da qual eu andava meio esquecido até ouvir, como sempre, muito descompromissadamente, Kate Nash. É um termo bem equivocado esse, humano, e que por isso mesmo acabou caindo em desuso, com a decadência do pensamento que o endossava, o humanismo, em lugar do qual seguiu-se o capitalismo, de zoeira o socialismo no meio e depois o capitalismo de novo. Não no mundo, mas na cabeça das pessoas pensantes dos pensamentos.

Esse elemento arcaico em Kate Nash, evocando uma imagem falsa mas bonita que nem só vendo do homem, soa apenas aos ouvidos daqueles que, como eu, ouvem música menos pela qualidade que pela capacidade de sugerir certas sensações muito elaboradas, porque definitivamente associadas a alguma vivência pessoal de difícil apreensão discursiva. O que estou querendo dizer é que, pra mim, ouvir música é uma atividade mnemônica admiravelmente proustiana, a que faltam critérios objetivos que forneçam aos meus juízos a credibilidade da mera recomendação. Trocando em miúdos, provavelmente quando você ouvir Kate Nash, não vai achar nada do que eu disse, porque ou eu, ou você é um tremendo filisteu.

Nash in natura: sardas e muita, muita autenticidade, bro!

À parte o impressionismo, pois, Kate Nash é o melhor dessa nova onda de cantoras-compositoras confessionais, entre as quais figura a similar e chapa Lily Allen, menos bem-humorada que Nash, característica decisiva para conquistar minha simpatia, confusamente relacionada à infinita complacência que devoto a todas as mulheres do mundo, exceto quando flagradas num instante de futilidade gritante.

Quando elas começam a falar euforicamente das confusões e desventuras aparentemente infinitesimais de sua vida, o que exaspera a planificada e rasa sensibilidade masculina é a completa ausência de autopercepção, que as constrangeria a ser minimamente lúdicas em sua exposição. Mas a virtude que a natureza negou ao gênero, parece que os meses que passou engessada em casa proporcionaram a Kate Nash, para compor canções na medida do meu ideal de uma mocinha com senso de humor refinado. Espécies cada vez mais raras, principalmente quando você passa metade do seu dia numa universidade, e brasileira, onde as meninas cumprem a vocação de tietes para com o Chico, e, eu não sei vocês, mas tietagem versão mpb é dose.

Kate Nash me bouleversou. Made of Bricks, seu debut, é inteirinho bacana. Um álbum pop inteirinho bom? Há quanto eu não tinha notícia de algo assim? E bom ser dar sono. Raríssimo. Até a velha ladainha da mulher de malandro de Foundations eu engoli sorrindo, quando o refrão diz “And I know I should let go / But I can’t”. Esse “I can’t” é uma coisa! é sinal de uma sem-vergonhice sem tamanho da parte dela, mas dito como é dito me desarma. Que a pessoa fale bobagem, mas que fale bonitinho, com jeitinho.

Ela é mó legal!

Pra sentar e escrever sobre Kate Nash, eu me debati durante dias, tentando não dizer trivialidades, sem me dar conta de que era simplesmente impossível. Eu já ia me esquecendo de que estava falando de música pop. Música pop, irmão! E música pop é absolutamente trivial. De modo que, claro, Kate Nash é talentosa e divertida, mas continua sendo só uma menininha botando em dia as desventuras amorosas da adolescência. Então é trivial mesmo. Mas honesto também. Por sinal, ela vende bem aquele velho produto da juventude em crise: a autenticidade.

Melodias nem um pouco óbvias, a que eventualmente falta uma produção mais bem acabada, emoldurando aquela voz, aquele sotaque, pelo qual eu tenho um fraco, tenho de te confessar. Mas o mais importante, sem o qual eu nem teria notado como Nash é talentosa e espertinha, fútil como eu sou, é que ela é uma gracinha, o que por si só a coloca anos-luz à frente do chato (leia-se feioso) Bob Dylan na minha cota pessoal de cronistas/trovadores do cotidiano. E você faça o mesmo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Aquecimento Oscar 2008: Os Piores

É isso mesmo, o Oscar 2008 está chegando, 24 de Fevereiro já está aí. Agora que a greve dos roteiristas acabou (finalmente o The Office vai poder voltar), a festa está mais garantida do que nunca. Todos acusam a premiação de ser um engodo, sempre preferindo outros critérios que não os de méritos artísticos. Se você analisar os ganhadores ao prêmio principal, melhor filme, desde a primeira cerimônia em 1929 que premiou o belo filme Asas, verá que, realmente, muita coisa boa foi preterida em favor de filmes que tivessem o famoso "jeitão de Oscar", ou seja, histórias edificantes de superação e dramas épicos capazes de comover grandes audiências. Mas, chega de papo furado. Revelo aqui minha lista dos cinco piores filmes ganhadores do prêmio principal. Sim, desde 1929. Aqui o negócio é completo, Jão. Em breve, os cinco melhores, e reflexões sobre os grandes filmes, cineastas e atores ignorados. Quanta emoção.

5- Oliver! - Melhor filme de 1968, dirigido por Carol Reed
Suporífero musical baseado na história de Oliver Twist, clássico de Charles Dickens, cheio de números constrangedores e nababescos, que em nada engrandecem a obra original. Uma bola fora do bom diretor Carol Reed, autor do excelente O Terceiro Homem, e que perdeu toda a classe e ousadia que marcaram sua primeira fase como diretor em prol de filmes mais babaquinhas, como esse e o anterior Agonia e Êxtase. Mas aquele foi um ano fraco, Oliver concorreu com filmes meia boca como Raquel, Raquel, O Leão de Inverno e Funny Girl e Romeu e Julieta, aquele mesmo, do Franco Zefirelli. Sim. Oliver praticamente marcou o fim da Classic Hollywood, já que os filmes ganhadores depois seguiram uma linha totalmente diferente. Mas o que realmente irrita o mundo desde aquela cerimônia: era o ano de 2001-Uma Odisséia no Espaço, tanto que Kubrick foi indicado a melhor diretor e roteiro, mas o filme levou apenas o prêmio de efeitos especiais e nem indicado a melhor filme foi. Sério, existe alguém nesse mundo que possa ser capaz de falar que Oliver é melhor ou mais importante e relevante que 2001? Foi tudo uma grande piada na verdade, que ninguém pegou até hoje? Há, tá, o filme do Kubrick tem 150 minutos dos quais 120 são em silêncio, enquanto Oliver é cheio de crianças insuportáveis berrando por toda a projeção. Blá, blá, blá, blá.


4-Conduzindo Miss Daisy - Melhor filme de 1989, dirigido por Bruce Beresford
O filme ganhou a estatueta por ter conseguido um milagre: fazer o espectador pegar no sono vendo um filme de apenas 100 minutos. Ganhou do Meu Pé Esquerdo, Campo dos Sonhos e Sociedade dos Poetas Mortos, pasmem. Que tivessem apenas dado o Oscar para a Jessica Tandy, já que queriam tanto homenagear ela por sua carreira, e pronto. Mas não, quiseram ir além e glorificar mais uma vez a mediocridade. A coisa foi tão tosca que o seu diretor, Bruce Beresford, nem indicado na sua categoria foi. Para se ter uma idéia, a melhor coisa desse filme, melhor até que a atuação da Jessica Tandy(cuja "perfomance" se resume a ficar reclamando com o Morgan Freeman o tempo todo), foi o desempenho do Dan Aykroyd, merecidamente lembrado na categoria de melhor coadjuvante. Quando a melhor coisa do seu filme é o Dan Aykroyd, você sabe que a coisa está muito feia. Mais uma vergonha para assombrar a Academia por todo o sempre.


3-Shakespeare Apaixonado - Melhor filme de 1998, dirigido por John Madden
O Shakespeare estava apaixonado. WHO CARES? Outro momento vergonhoso, digno de figurar eternamente nos anais da vergonha do Oscar. Uma comédia romântica de quinta, com o péssimo casal Joseph Fiennes (irmão menos talentoso do Ralph) e Gwyneth Paltrow (o Oscar que ela ganhou é uma piada até hoje, a Fernanda Montenegro devia ter se matado por ter perdido o prêmio para ela) garantido belos bocejos, enquanto que a fraca história - baseada em pontos altamente controversos e discutíveis da vida do bardo inglês, já que não se pode provar os fatos vomitados pelo filme - nunca deixa de ser medíocre. Mas a maior vergonha é uma só: o filme carregará sempre o estigma de ser o único ganhador do Oscar e melhor filme a ter o Ben Affleck no seu elenco. Qualquer pessoa que entenda o mínimo de cinema sabe que quem coloca esse loser no seu elenco está pouco se lixando para a qualidade do mesmo. John Madden, no caso, incompetente de marca maior, que depois fez o trágico Capitão Corelli, um dos piores filmes da década que vivemos. O ano era fraco, os outros concorrentes eram O Resgate do Soldado Ryan (Spielberg ganhou o prêmio de melhor diretor, justamente por um dos seus filmes mais fracos), Elizabeth, e, mil vezes argh, A Vida é Bela (deu calafrios até de lembrar, bati na madeira aqui, Roberto Benigni 666). O prêmio deveria ter ido ou para o Além da Linha Vermelha ou para o Show de Truman, que teve o Peter Weir indicado como melhor diretor.

2- Volta ao Mundo em 80 Dias - melhor filme de 1956, dirigido por Michael Todd
Um dos mais caros, dispendisiosos e insuportáveis exercícios de auto-indulgência da história do cinema. Pegaram o livro do chato do Julio Verne e fizeram uma bagunça em cima. Se você era comediante e estivesse passando na frente da United Artists no momento das filmagens, era chamado pra fazer alguma gracinha no filme. Até o comediante mexicano Cantiflas, inspiração do Roberto Bolanos e famosíssimo na época, foi chamado para fazer o filme. O classudo David Niven faz de tudo para segurar as excruciantes duas horas e quarenta e cinco minutos de projeção, mas é pouco. Dizem que o prêmio foi comprado, já que havia uma caríssima festa em Nova Iorque pronta na mesma noite da cerimônia, o que deixou todos intrigados. Se você (no caso, o produtor e diretor Michael Todd) já torrou milhões para fazer um filme desses e ainda sim gasta mais uma dinherama para comemorar algo que seria conhecido apenas no meio da festa, é por você já saber o resultado antecipadamente. No mais, o prêmio teria ficado em mãos muito mais seguras se tivesse ido para dois outros concorrentes daquele ano, Assim Caminha a Humanidade, clássico de George Stevens, e o Rei e Eu, logicamente. Até os Dez Mandamentos teria merecido mais. Pomposidade por pomposidade, era um filme muito mais impactante.

1-Kramer Vs. Kramer - melhor filme de 1979, dirigido por Robert Benton
A maior piada da história do Oscar. Ganha até de quando o Rocky venceu o Taxi Driver, três anos antes. Aonde eles estavam com a cabeça? Quantas você tem de beber para se achar no direito de dispensar um filme como Apocalipse Now em favor de uma porcaria dessas? Apocalipse Now, pô! Dá para pensar em comparar a envergadura desses dois filmes? Não deu. Nem o Dustin Hoffman conseguiu explicar essa. Você assiste Kramer Vs. Kramer hoje, passados quase trinta anos, e não conseguiria imaginar outro lugar para esse filme do que a implacável e justísisma vala dos esquecidos. Não funciona como drama familiar, não funciona como estudo de personagens, não funciona como nada. Mas ele jamais irá para lá. Pois num belo dia do inverno de 1980, Kramer Vs. Kramer bateu Apocalipse Now na premiação mais importante do cinema. E deu o principal argumento para os inúmeros detratores da premiação mais coxinha do planeta.

Menções "honrosas": Crash- No Limite (vai virar série de TV, o que faz todo o sentido), Como era Verde o Meu Vale (um dos filmes mais fracos de John Ford, infamemente lembrado por ter vencido Cidadão Kane na premiação de 42), Amor, Sublime Amor (musical dolorosamente ingênuo de 62, tratando guerra de gangues como se fosse um passeio no parque), Entre Dois Amores, Gandhi, Rain Man e O Último Imperador (quatro exemplos do quão desastrosa foi a década de 80 para a premiação), Gladiador (épico com e minúsculo) e, logicamente, O Paciente Inglês, tirei até cara ou coroa entre esse e o Oliver para ver quem seria o quinto da lista. Tô brincando, pô! Cara e coroa não, foi tudo nos detalhes minunciosos, certo?

Mazelas da Humanidade: Lindsay Lohan

Mais um típico exercício Progressista de futilidade. Numa entrevista dada para a Folha de São Paulo, o maluco que criou e é o produtor do eterno do prêmio Framboesa de Ouro, John Wilson, disse que se a Lindsay Lohan aparecesse para pegar o seu prêmio de pior atriz na cerimônia que ocorrerá em breve, esse gesto ajudaria a garota a voltar para os trilhos e para as graças do povo. Palavras dele: "se ela aparecesse - sóbria, obviamente- e fizesse um discurso engraçado, poderia reconquistar boa parte da simpatia que despertava antes das besteiras que fez". Além de entregar que o prêmio já é dela, Wilson inteligentemente deu uma dica interessante para aquela que um dia ganhou um mês inteiro do Fomos ao Cinema. Vai lá, Lindsay, fale que nos últimos anos você enterrou sua carreira numa garrafa de vodka, e que daqui pra frente, tudo será diferente.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Mazelas da Humanidade: Paris Hilton

Paris Hilton, descrevendo a sua nova obra-prima cinematográfica, The Nottie and the Hottie, no programa do David Letterman que assisti ontem: "é uma comédia romântica bem engraçada, meio que uma mistura do Quem Vai Ficar com Mary com o American Pie". Seria o fim?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Kelly Macdonald

Atriz escocesa. Surgiu em 1996, com o clássico alternativo Trainspotting, filme do diretor Danny Boyle na qual interpretava a junkie que virava (na lógica insana daquele filme) o interesse amoroso do personagem do Ewan McGregor. Depois da repercussão estrondosa daquele filme, que repercute até os dias de hoje, Kelly passou bons dez anos longe dos holofotes, fazendo papéis de pouca expressão em filmes britânicos. A sorte virou de novo somente faz pouco tempo. No ano retrasado apareceu bem no filme Nanny McPhee-Uma Babá Encantada, no qual foi destaque como coadjuvante da Emma Thompson. Então, foi escalada pelos irmãos Coen para um papel importantíssimo no belo filme Onde os Fracos Não Têm Vez, indicado ao Oscar de melhor filme desse ano. Sua personagem é a única a deixar desconcertado o vilão parrudo do Javier Bardem, Anton Chiguhrn, desde já Top-10 entre os maiores vilões do cinema. Vê-se que a façanha é verdadeira. Espanta ver que essa escocesa de raiz, tão ligada à sua pátria natal por culpa do filme de dez anos atrás, simular um perfeitíssimo sotaque texano, humilhando seus companheiros de Reino Unido, os ingleses Jude Law e Kate Winslet, que foram uma vergonha interpretando personagens do sul yankee no péssimo Todos os Homens do Rei. Talvez a mão precisa dos Coen tenha sido a responsável pela bela perfomance dela, mas ela tem grandes méritos, sem dúvida. Agora, vamos torcer para ela não sumir por mais dez anos, ou então, se isso acontecer, como seria o seu retorno na próxima vez. Talvez interpretando uma cientista nuclear num filme do Michael Bay? Talvez.

As Chagas do Progressista: Juno

Eu odiei Juno. Sim, pode me bater por isso. Fico cada vez mais preocupado ao ver que o filme, antes mesmo de ser lançado em circuito (assisti o filme numa sessão de pré-estréia vazia. Tá bom, vai, era uma sessão de meia-noite), já está na boca dos circuitos da "inteligentzia" paulistana. O mesmo efeito cascata que pegou os yankes e fez o filme render 120 milhões de dólares por lá. Todos dizendo-se apaixonados pela Ellen Page, querendo abraçar o filme e coisa e tal. Como não se pode abraçar um filme, sugiro duas coisas: esperem o lançamento em DVD para ficarem agarrando a caixa do mesmo, ou então surrupiem negativos originais do filme e mandem bala. Abracem, apertem, chamem de seu. Quanto a minha verdade, digo-a para vocês agora, em alto e bom som. A Ellen Page faz esse filme parecer muito melhor do que realmente é. Ou melhor, ela faz esse exercício de nulidade alternativa parecer algo cheio de alma, ao invés do vazio absurdo que existe ali. O Camarada Fundamentalista já tinha dado a dica do meu ódio ao filme. Ele o achou exagerado, muito exagerado. Talvez ele tenha razão. Talvez todos aqueles críticos quarentões-babões que escreveram estarem apaixonados pela personagem Juno tenham toda a razão em se sentirem assim. É fácil entender, considerando o que acontece com o personagem do Jason Bateman (ator principal da série mais superstimada da história da humanidade, Arrested Development) no filme, quando entra em contato com a Juno. Imagino todos esses coroas se colocando no lugar dele, interagindo com uma adolescente descolada, que sabe diferenciar o Punk de 77 do atual (nooooossssaaaaa! como ela é descolada) e que cita um cineasta tão cult e gore como o Dario Argento. Altamente sedutor.

E as meninas, então? Putz, no alvo. Digo agora para as garotas que não viram o filme e o virão a fazer em breve: vocês vão sair do cinema babando. "Nossa, agora eu posso reafirmar o meu até então reprimido orgulho de ser mulher! Somos um oásis de força e sensibilidade no meio desse mundo tão cínico e brutal! Girl Power! Opa, Girl Power não, Spice Girls não é nada cult, disfarça". Uma personagem tão, tão, tão, errr, forte como a Juno, irá virar vocês de cabeça para baixo. E ver um bando de marmanjo fraco e beta no filme também ajudará muito vocês se apaixonarem pelo filme. Não quero entrar no mérito da manjadíssima discussão "cacoetes do mundo indie", já que quando vejo um filme pouco me importa o rótulo que tenha por trás dele. O negócio é se o bicho é bom ou não. No mais, se houver uma continuação (aposto o que vocês quiserem que vai ter), deveriam chamar o Fundamentalista para dirigir ao invés do filho favorito do Ivan Reitman, Jason. Quando eu notei para o Camarada as minhas tentativas de interpretação sobre os corredores que vira e mexe passam no meio das cenas até o final do filme, ele deu uma intepretação tão perfeita que com certeza nem deve ter passado perto das idéias do Jason Reitman e da Diablo Cody, a ex-stripper e atual blogueira que escreveu os argumentos do filme. Tenho certeza que eles colocaram esse artefato no filme por meros efeitos compositivos. A Ellen Page, como já havia comprovado no péssimo X-Men 3 - no qual sobreviveu ao péssimo roteiro e a carnificina promovida pelo diretor Brett Ratner, que resolveu matar 90% dos mutantes naquele filme - é uma atriz realmente talentosa, e faz a personagem ganhar vida no meio de tantos cadáveres. Mas, francamente, nem se o Marlon Brando tivesse colocado peruca e uma barriga postiça, conseguiria salvar esse exercício de auto-indulgência descolada. Juno, minha querida, pare de ficar sambando pelos cantos, bote vergonha nessa cara e vai trampar um pouco, ganhar um dinheirinho, ao invés de ficar engravidando de corredores adolescentes-abobados por aí. "Nós não devemos ter vergonha dessa barriga postiça, Michael Cera. Você viu o uniforme que me colocaram no final do X-Men? Caçamba....Aquilo era mais apertado que a fome. Agora, qual era o nome mesmo do seu personagem no Arrested Development? George Michael? GEORGE MICHAEL? Rsrsrsrsrsrsrsrsrs."

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Desejo proibido

Eu tinha um amiguinho imaginário que, por uma confusão terrível de que só mesmo o inconsciente by Freud da gente é capaz, era a cara do Adorno, o Teodoro, aquele da Escola de Frankfurt, internato pra onde os alemães do entreguerras mandavam os filhos, que saíam de lá aos 17 doutorados em Filosofia, mas magrinhos, porque proibiam as crianças de comer chucrute e beber cerveja. Um dos pilares do espírito do colégio era a erradicação total do sorriso no mundo, tão fundamental que era a marca registrada indisfarçável do pensamento e da cara de qualquer um de seus ex-alunos.

A luz.
("My fingertips are holding onto the cracks in our foundation...")

Sintomaticamente, o Adanoninho, como o apelidei, só me aparecia quando eu começava a flertar, mais do que o normal, com o mainstream. Aliás, só de tocar no assunto, pipocava um vultozinho dele aqui e ali, no canto do meu olho, mesmo entre os meus colegas superalternativos, totalmente endossados em seu estilo de vida pelo velho espírito carrancudo da Teoria Crítica. Ultimamente, o nome do flerte é Kate Nash, bijuzinho irlandês que já figurou aqui como Tetéia da Semana, escolha luminosa do Camarada Progressista.

A coisa melhor do mundo é saber que se está sendo enganado, mas deixar, porque é gostoso. Posso te enumerar pelo menos uns três vícios universais que não são senão variações disso: arte, música pop e amor. Agora, posso te citar verbatim a passagem da Minima Moralia em que o Adorno himself condena esse prazer leviano e irresponsável como o riso que acoberta o choro e ranger de dentes da multidão. Pois absolutamente toda vez que, diante da Farsa, você dá de ombros, muito jovialmente, e morde um Big Mac, cai uma bigorna bem grandona na cabeça de um chinezinho oprimido pela ordem do Trabalho.

Prevendo o tom zombeteiro de posts como este, é que Adorno, em vez de reencarnar – gesto crítico dialético contrário a seu materialismo em vida –, totalmente organicamente perpetuou-se em brotos alucinatórios (e não ectoplasmáticos!) na cabeça de jovens universitários incautos como eu, sob a forma de amiguinhos imaginários como o Adanoninho, para me lembrar que até isto é vaidade e há de passar.

As trevas.

Só que outro dia, depois de baixar, quer dizer, comprar um Compact Disc original de Made of Bricks e pagar em dinheiro no caixa da Fnac Paulista, pena que eu perdi a notinha, senão eu te mostrava, passei pro meu mp3 player pra avaliar a sonoridade da artista em outras faixas que não seu hit Foundations, teste que consiste em quanto uma música consegue me fazer sorrir em público esquisitamente, logo pela manhã, apesar do ônibus e metrô lotados que me levam prum serviço que paga mal. Estava mais do que aprovada a menininha.

Só sei que quando, em Skeleton Song, Kate Nash diz que vai acabar com a raça do seu amiguinho esqueleto, no meio de uma gigantesca barulheira, on that delicious British accent, o Adanoninho deu sinal, desceu do ônibus e se enfiou num boteco fedido, cheio da mais renitente e ascética resistência ao glamour hollywoodiano, já que não podia haver na terra cenário mais diverso daquele de Casablanca, em que Bogart amarguradamente mamado ouvia As time goes by. Casablanca, que ninguém, a não ser o Adanoninho, notara que endeusa um bebum agindo que nem fosse sóbrio. Como todos os filmes com o Bogart, você diz maldosamente, mas façamos que não vimos, né?

Desde então, não houve mais aparições do Adanoninho, que antes eram quase diárias. Isso foi há mais de uma semana.

Epílogo – New about me: lia Adorno e ouvia Kate Nash. Im-pu-ne-men-te.

Ô, sim, isso tudo foi um prólogo, porque de Kate Nash mesmo eu não falei nada, reme(n)dando o mal no post seguinte, pois não.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Previsões para o Oscar - Paul Thomas Anderson

Eu sou muito jovem e heterossexual pra ter, ao invés de simular, bom-gosto. No futuro, quando eu for tiozinho, num casamento frustrado ou na solteirice indesejadamente prolongada, aí sim vou dar o devido valor a ouvir Station to Station, a ler Declínio e Queda e a assisir a Irma, la Douce. Por enquanto, eu sou indie. E entre as constantes hesitações, que me fazem duvidar seriamente da minha capacidade crítica e intelectual, como o Marcel de (e esfrego na tua cara o engodo só mais uma vezinha) À sombra das raparigas em flor, blogo, reunindo em torno da persona que agora você sabe por que difusa do Camarada Fundamentalista um fã-clube que não ousa dizer o nome.

Mas Sangue Negro (There Will be Blood, 2007) estréia 16 de fevereiro por aqui. O novo filme do Paul Thomas Anderson é favorito ao Oscar, considerado por muitos melhor que o prodigioso No Country for Old Men, dos irmãos Coen. Mas como é a PTA feature, há muito a ser descontado daí, vai por mim. Relembrando sua filmografia em conjunto, a impressão mais forte que eu tenho é de um cinema campy e muito glamour estudadamente blasé.

Stand-up de Tom Cruise em Magnolia (1999): "Então, um sujeito chegou pra mim no Planet Hollywood e me perguntou se eu era cientólogo, e eu respondi que sim. Daí, ele falou que também era, e só aí eu vi que estava falando com o John Travolta." (Risos.)

Mas é um cinema de sensações, já ouvi dizer. Sensações com o William H. Macy, no entanto, o que passa bem a idéia do constante anticlímax (ai, essa linguagem sem vergonha de ser involuntariamente ambígua) que a gente experimenta, por exemplo, em Magnolia, que entra pra lista dos filmes-quase, porque é cheio de coisinhas que não deixam a gente se envolver com todas aquelas personagens, a não ser que você nunca tenha visto na vida, ou tenha visto mas não prestado atenção, uma pessoa de verdade frustrada ou sofrendo. Sem dúvida, o maior obstáculo entre nós e os personagens e seus dramas é o próprio PTA, cuja sensibilidade dramática se formou com canções pop de três ou quatro minutos, como em parte ele já confessou atribuindo à música sua principal fonte de inspiração. Muita Aimee Mann, então.

William H. Macy cercado de pessoas que, como eu, não dão a mínima pra ele.
"And the rain is coming, oooooh..."

Antes que você proteste contra o que acredita ser preconceito meu, deixa eu colocar assim. Tem a música, tem a literatura, tem o teatro e tem também o cinema. Música é música. E na música tem às vezes letra, que é parecido com poesia, que é literatura. E teatro tem literatura também. Tem. Só tem. Porque literatura é literatura. Teatro nasceu com música. Então, tem música no teatro. Tem. Só tem. Porque teatro é teatro. E música é música. Mas teatro e cinema são bem parecidos, mais que música e teatro. No cinema, também tem música. Tem. E tem literatura, menos que no teatro. Mas também só tem. Porque cinema é cinema. O que leva a gente a concluir que: 1) música é música, 2) literatura é literatura, 3) teatro é teatro e 4) cinema é cinema. E essa forma de exposição é quirky que nem um filme do PTA, e por isso me dá raiva, mas tem gente que adora.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Fomos ao Cinema ver Desejo e Reparação

Aviso: podem rolar spoilers aí embaixo. Por isso, antes de ler, vá para o cinema mais próximo e pague dez pilas para ver o filme. Não custa nada, ao invés de comprar a Men's Health ou a Júnior desse mês (uhm... sei), guarde o seu dinheiro para ver o filme. Evitamos constrangimentos desnecessários e malucos tentando me matar por terem achado detalhes importantes do filme antes de vê-lo. Se não viu e quiser ler mesmo assim, siga em frente. Talk to the hand!
Todo ano o Oscar tem entre seus filmes indicados na categoria de melhor película um típico drama inglês, sendo ele de época ou não. Deve ser o sotaque, provavelmente. Quem aí não se lembra de filmes classudos como Vestígios do Dia, Retorno a Howard's End e Razão e Sensibilidade, todos filmes que se esbaldaram com o clima interionano de época e a vida tediosa das classes superiores inglesas. O diretor Joe Wright lançou no ano passado um típico exemplar dos filmes dessa natureza, Orgulho e Preconceito, baseado no livro água com açucar da escritora Jane Austen. O filme era eficientíssimo no que se propunha, mas totalmente quadrado na sua forma e execução. Nada trazia de novo para um gênero naturalmente conservador. As velhas histórias envolvendo amores impossíveis entre jovens de classes diferentes (nome do álbum mais sensacional do Pulp, banda do bardo Jarvis Cocker, e que resume bem o espírito inglês desde... bem, desde sempre). Talvez Joe Wright tenha se dado conta de que algo estaria muito errado, parado. Era hora de ousar, beber da mesma fonte, porém mostrando truquezinhos novos para a patuléia parar de tirar um ronco. A coisa acabou saindo melhor do que a encomenda, felizmente. Wright pegou um intricado livro de seu compatriota Ian McEwan chamado Atonement (palavrinha que significa reparação) e foi para as cabeças. A história versa sobre duas irmãs de uma família abastada vivendo numa bela casa de campo inglesa em 1936, apenas três anos antes da Segunda Guerra. A mais jovem, Briony (interpretada nessa fase pela Saorsie Ronan), tenta montar uma peça para saudar a volta do seu irmão mais velho, e a mais velha, Cecilia (Keira Knightley is in the house) acaba de voltar da universidade e se vê lidando com seus sentimentos em relação ao filho da governanta da casa, Robbie (James McAvoy, o escocês gente boa do Último Rei da Escócia). Briony, embora bem mais jovem, nutre uma paixonite secreta por Robbie. O problema é que Briony, ainda jovem e arrogante, mostra-se, embora não abertamente, envergonhada por nutrir sentimentos por um rapaz fora de seu círculo social. Falamos então de um panorama propício para um bloqueio emocional, talvez? Que somado com puros sentimentos de ciúmes por ver Robbie e Cecilia juntos, teria feito Briony, em dois momentos cruciais do filme, interpretar equivocadamente momentos de interações entre Cecilia e Robbie, tomando o rapaz, gentilíssimo e educado, estupidamente como um predador sexual. O filme mostra as duas cenas primeiro com o ponto de vista da garota, para depois mostrar então os mesmíssimos acontecimentos com a perspectiva de Robbie e Cecilia, como eles realmente aconteceram.

Quando um crime ocorre na mansão, Briony se mostra tão condicionada que não pensa duas vezes em afirmar que viu Robbie cometê-lo, o que acaba desgraçando a vida do rapaz e sepultando as chances de um relacionamento entre ele e sua irmã. Toda essa primeira parte do filme transcorre de maneira lenta e contemplativa, refletindo inteligentemente o ritmo da vida de todos aqueles seres, nobres ou não, cujas existências passavam naturalmente por aquela gigante casa de campo. Depois da prisão de Robbie, o filme fecha um longo corte com um close-up no rosto de Briony, talvez tomando ciência pela primeira vez do alcance do seu ato. Então, o filme nos leva direto para a Segunda Guerra. Toda a calma da primeira parte é sepultada, e o caos e carnificina do conflito acabam refletindo a turbulência interna dos personagens, tendo de ao mesmo tempo sobreviver e lidar com as cicatrizes dos acontecimentos anteriores. Robbie se juntou ao exército inglês e aparece lutando na França, e Cecilia e Briony viraram enfermeiras, ainda que de hospitais diferentes. Cecilia tretou com a família por culpa de Robbie, e Briony, como dito pela própria irmã, virou enfermeira como forma de auto punição. Consumida pela culpa e pela angústia, que faz o seu semblante parecer sempre tenso e carregado (méritos totais para Romola Garai, intérprete de Briony nessa parte do filme), tudo o que quer é reparar (ATONEMENT! ATONEMENT!) a injustiça que cometeu e devolver Robbie e Cecilia aos braços um do outro. Mas a Guerra não entra na história por acaso. O conflito acaba exercendo influência decisiva sobre os acontecimentos, impedindo Briony de alcançar seu intento.

Então, voamos belos anos para frente, quando a lenda Vanessa Redgrave aparece já nos tempos atuais como Briony, quando sabemos que tudo o que aconteceu até então no filme tinha ocorrido na realidade e sendo escrito no livro que ela lançava, exceto uma única cena, inventada por Briony e que a permitiu, por pura licença poética, se desculpar com o casal pelos seus atos. A cena final mostra então Robbie e Cecilia felizes na casa de praia que Robbie carregava numa foto durante a Guerra, com todos os clichês permitidos para casais apaixonados. Um final que deixou muita gente nervosa, por mexer com a velha obrigação de se obter finais forçosamente felizes para satisfazer o público. Briony sabia bem que mesmo que não tivesse interferido, mesmo que deixasse os acontecimentos seguirem o seu ruma natural, não seria garantido ainda que a vida de Robbie e Cecilia seria um mar de rosas. Afinal, ele teria de ter ido para a Guerra de qualquer maneira, e a lógica das dinâmicas de relacionamento humanas poderia ter ditado também rumos não desejados para o romance dos dois. Os mesmos problemas teriam permanecido, as diferenças de classe dificilmente seriam acentuadas. A idéia do filme é mostrar que a reparação dada por Briony à história obedece mais a um desejo que todos sentimos e que ela, como espectadora privilegiada, teve a oportunidade de presenciar. Querer sempre que o amor verdadeiro seja aproveitado ao seu máximo, e que a sua luz pudesse inspirar todos em volta a seguir procurando pelo mesmo. O desejo do nome brasileiro se refere ao sentimento que levou Robbie e Cecilia a seguirem lutando até o fim, mesmo no meio do conflito mais brutal da história da humanidade. Soldados mostrados no filme cantando sobre esperanças de reencontrar seus entes amados, cantando sobre lugares melhores que os esperavam no fim daquela loucura e pelos quais valeria ficar em pé ainda. Como a casa de praia da foto de Robbie e da última cena do filme. A reparação existe no mundo dos nossos sonhos. Nos sonhos de Briony, que sentiu culpa por ter influido em algo que parecia ser tão certo, e que para matar a culpa dentro de si, deu o final mais perfeito possivel para essa história. Perfeição. A idéia que o filme e Joe Wright traíram as convenções e a inteligência de seu público é tão burra quanto as interpretações de Briony sobre o que presenciou ainda criança entre sua irmã e o criado da família. O filme exige maturidade, como exigiu de Briony quando comprou sua torturante cena de reparação e redenção. Um filme digno de estar ao lado da obra prima dos Irmãos Coen, indubitavelmente. E, caramba, não é inspirado no blog de uma típica menina peidorrenta yankee que gerou um filme mais sem graça que a fome. Parabéns ao senhor Joe Wright, e esperamos ansiosos pelos seus próximos esforços.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

TETÉIA DA SEMANA

Romola Garai


Atriz inglesa, protagonista da série inglesa Angel e que está bombando nos cinemas por aí com o belo Desejo e Reparação (o qual falarei em breve, segurem aí). Três atrizes interpretaram no filme a personagem Briony, vital para o desenrolar da obra. Com 13 anos colocaram a Saorsie Ronan, com 18 colocaram ela e já idosa enfiaram a Vanessa Redgrave. A única indicada foi a Saorsie, uma injustiça, já que Romola pega algumas das cenas mais densas do filme e consegue passar com clara habilidade a culpa da personagem. Coloco-a já no rol das grandes promessas do cinema da ilha, e se vocês acham muito, bom, aí já não é problema meu. Mau humor de Carnaval, desculpa aí. Há, esqueci de um bagulho: ela fez a continuação tardia do Dirty Dancing, Noites de Havana, com o Diego Luna. Agora que você leu isso, apague da sua memória esse detalhe. Bipppppppppp............

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Fomos ao cinema ver Onde os fracos não têm vez

Nota: abaixo, não propriamente uma resenha, mas um esboço interpretativo de Onde os fracos não têm vez, que recomendo ser lido depois que se tenha visto o filme. Spoilers? Há também esse risco.

Anton Chigurh (Javier Bardem) é um assassino profissional, contratado para recuperar 2 milhões de dólares, dinheiro de tráfico de droga que o fazendeiro Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra ao se deparar, ao acaso, com o cenário onde jazem os corpos dos traficantes, que aparentemente se mataram no momento de entrega e pagamento da mercadoria. No encalço dos dois, coloca-se o xerife Ed Tom (Tommy Lee Jones).

Na última cena de Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007), Ed Tom, aposentado, conta à sua esposa dois sonhos que teve, num dos quais seu pai aparece guiando-o através da escuridão.

O tema favorito dos irmãos Coen, o da Velha América, articula-se numa dimensão metafísica, na qual o conceito de absurdo é destacado como fator da desagregação que resultará no que a sociedade norte-americana é atualmente.

A tese em jogo é que a razão era suficiente num mundo onde subsistiam os princípios e valores tradicionais, no declínio dos quais aquela perde sua capacidade de compreender a realidade. Esse quadro desesperador é ilustrado pela figura de Ed Tom, cuja racionalidade é convertida num instrumento cego, quando voltado a Anton Chigurh, um assassino cujas motivações escapam a uma compreensão que insista em evocar aqueles valores.

Chigurh é um sinal dos tempos, submetendo-se a uma lógica que paradoxalmente supõe o acaso. É o mesmo que responder a quem pergunta qual o sentido de um mundo sem sentido. O assassino não é, pois, irracional; apenas absorve a irracionalidade como elemento constituinte da realidade.

E, por isso, trata-se de uma figura de transição (do mundo de Ed Tom para o presente), evidenciada nos momentos aterradores em que Chigurh interage com o homem comum, propondo-lhe questões a que este simplesmente tem se furtado desde que o mundo perdeu seu sentido. “Tudo está em jogo”, diz ele naquela que considero a cena mais assustadora do filme.

O fracasso de Ed Tom em compreender Chigurh e sua trajetória é que o impede de sequer alcançá-lo. São como mundos paralelos, que podem senão tangenciar-se. Chigurh existe no mundo de Ed Tom como a escuridão de seu sonho, ou seja, como aquilo a que a razão não tem acesso. No entanto, ele caminha noite adentro, iluminado por seu pai, isto é, pela tradição na qual se estriba sua lucidez.

A tragédia da racionalidade exemplificada pelo xerife é que ela é uma lâmpada apenas para ele. Sua aposentadoria aponta o ocaso da própria lei que, forjada pela tradição, quer julgar homens e crimes que “superaram” ou “ultrapassaram” a tradição.

Não olhe diretamente, ou ele irá atrás de você.

Olhar para Javier Bardem como Anton Chigurh é como olhar para Anthony Hopkins como o dr. Hannibal Lecter, em O silêncio dos inocentes. Não ficamos menos que perplexos, já que o que os sentidos sugerem – a saber, que estamos diante de um homem – tem por objeção o nosso próprio conhecimento precedente da vida.

Compreendendo como distintivo do homem a liberdade, quando é instado pela esposa de Llewelyn a que ele, Chigurh, é que faça a escolha, e não a moeda que carrega, responde: “A moeda e eu chegamos aqui da mesma maneira”. Assim, ao conceder a possibilidade de escolha num jogo de cara-e-coroa, quer ele demonstrar como a vontade nada é diante do acaso, tornando a distinção entre homens e coisas nula. Por isso, ele executa suas vítimas com uma pistola de ar comprimido, usada para abater gado, já que, como diz a velha canção da filosofia, o mesmo é o fim de homens e animais.

A última das três figuras arquetípicas de Onde os fracos não têm vez é Llewelyn Moss, cuja fragilidade e presunção fazem dele representante da perspectiva algo leviana e ingênua com que o homem comum leva a vida. Tentando escapar de Chigurh, senão com sua esperteza e astúcia, quer simplesmente deter o inevitável. Seu sucesso é o sucesso que todos nós podemos ter diante do que nos espera, diria o pregador, ensaiando um spoiler no meio da parábola.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Fomos ao cinema ver Juno

Como uma criança gorducha, que, acompanhando seus pais, vai à casa de um desconhecido e lá vê uma vasilha cheia de um delicioso creme, que sem dúvida deve ser o mais doce dos doces, para ser comido puro, passado no pão ou de qualquer outra forma que sua imaginação e apetite dispuserem. Pois assim foi o Camarada Progressista assistir à pré-estréia de Juno, salivante, perigosamente excitado. E, no entanto, terrível anticlímax, a vasilha estava cheia de gordura hidrogenada, de banha, para ser futuramente convertida em ingrediente de um algum quitute divino: mas as mãos e o coração gordinho do camarada podiam esperá-lo, sua mente gordinha podia supô-lo?

O que é um filme? Cidadão Kane é um filme. O romance da empregada é um filme. E, bem, Juno é um filme. Um filme qualquer. Sabe-se isso quando você conclui que o poderia ter escrito. Mas os críticos têm se desmanchado pela história da garota muito cínica, sarcástica e emancipada, que tem de lidar com o fato de estar grávida aos 16 anos. A conhecida bolha se formou em torno de Juno, diante do qual todos se admiram e passivamente celebram. O senso crítico fica de lado, quando nos tornamos empáticos.

Há séculos as pessoas são cínicas e ácidas. Até na curta história do cinema, é um fenômeno antigo. No entanto, para o grande público (eufemismo da mídia pra patuléia), alguém ser cínico é ainda incrivelmente subversivo. No mínimo, capricho adolescente porque o mundo não é do que jeito que eu queria que fosse e ninguém faz a minha vontade. Tanto que quando você viu um personagem de novela sendo cínico e não morrer em queda de avião ou atropelado, porque, nossa, era o vilão?

Mas aí eles resolveram revolucionar. Colocaram uma menina de 16 anos – 16 anos – protagonizando um filme grávida e cínica. Revolucionário. Cinismo de blogueiro, sim, mas cinismo. E aí é que está a chave para Juno e para a aversão do Camarada Progressista ao filme: Juno é um blog. É o blog da Juno, no qual ela comenta, cheia de sorrisinhos, como engravidou, como foi transar com o namoradinho pouco emancipado dela, como ela está pouco se lixando pra opinião dos outros, tudo muito irônica e independentemente. E que isto fique só aqui entre nós, mas o camarada não gosta de blogs. Um choque, eu sei.


Juno: "Camarada Progressista,... talk to the hand!"

Mas Juno é uma garota. O blog dela tem muito potencial: um dia ela pode ser tão cínica que vão confundi-la com um homem. Mas não agora, porque, além de garota, ela só tem 16. Por isso, ainda é uma indie muito auto-satisfeita, muito condescendente consigo mesma e com seu mundinho. E ela está certa. Só não é certo que façam filme disso, pra gente ir correndo assistir na pré-estréia em sessão da meia-noite.

Um filme que quer ser espirituoso a cada linha do diálogo, com todo o mundo, de cara, desferindo muitas falas cortantes e ácidas, mas que esquece de contar uma história cínica e ácida. O sarcasmo da Juno (que, diga-se de passagem, nunca se aplica a ela mesma) tem, então, uma moldura bem inexpressiva e convencional, mas miguxa, aliás, aparentando uma espécie de prevenção contra conflitos reais e resolvendo uma situação complicada com uma facilidade que pode até ser possível, mas não verossímil. Contraste esse que suponho tenha sido decisivo para arrebatar as audiências. Quer dizer, exceto o Camarada Progressista.