quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Arrested Development (Caindo na Real): O Efeito Juno

Dois personagens vitais no filme Juno, coqueluche recente do cinema alternativo e que já conta com uma comunidade de 5 mil membros do Orkut em meros 5 dias de lançamento no Brasil, foram interpretados por dois atores que interpretaram pai e filho no seriado Arrested Development (Caindo na Real, título dado pela Rede Globo e que, embora tenha perdido o trocadilho do original, não soa tão deslocado), criado por Mitchell Hurwitz e que foi ao ar na Fox de 2003 até 2006. Jason Bateman, que interpretava Michael Bluth, o irmão que tinha de manter a família disfuncional unida depois da prisão do pai, e que no Juno fez o coroa que iria adotar o filho da moleca, mas que medrou ao perceber que o contato com a Juno o fez redescobrir o seu adolescente interior, e todos os sonhos que vinham juntos com ele (bocejos), e o Michael Cera, que interpretava o filho de Jason no seriado, George-Michael Bluth, e que no Juno fez o moleque abobado que engravidava a garota. No filme, em nenhum momento os dois aparecem juntos, talvez propositalmente, para não alimentar a euforia dos fãs da série, que são considerados os mais fiéis entre os fãs de séries cult. A série estreiou na Fox em 2003, para durar apenas duas temporas e meia, lutando contra índices baixíssimos de audiência, mesmo sendo um sucesso absoluto de crítica. A Fox, canal conhecido pela pouca paciência com seus títulos e por sabotar produções em nome da audiência (os chatos que veneram o Arquivo X culpam o canal pela decadência da série), até que teve bastante com essa, talvez apostando no efeito Seinfeld, que também lidou com audiências baixas na duas primeiras temporadas, mas com o boca a boca, acabou explodindo no final da terceira. Mas como os indíces jamais demonstravam qualquer tendência de crescimento, decidiram, acabar com a série na terceira temporada, que teve apenas 13 episódios. O último episódio foi visto por apenas três milhões de pessoas nos EUA, uma das menores audiências de um episódio final para uma série que durou mais de duas temporadas. Mas os fãs jamais se conformaram, e transformaram o show num clássico caso de "seriado maldito/incompreendido". O resultado do barulho feito por eles é de que já é considerada seriamente a hípótese de um filme baseado no show (vi o Jason Bateman falando numa entrevista no tapete vermelho do Oscar no Domingo que tudo está bem encaminhado). Para se ter uma idéia do poder dos fãs, no site IMDB, que é considerado a bíblia do cinema e televisão, e que tem um sistema de notas para filmes e seriados baseados na votação dos usuários-membros, a nota do show é um altíssimo 9.7. Para se ter uma idéia, um filme com uma nota de 7.7 é considerado excelente. O melhor filme avaliado, Poderoso Chefão, tem 9.0. E entre os seriados, os dois que chegam perto são Os Sopranos e Seinfeld, com 9.5 e 9.4, respectivamente. Poderoso Chefão, Os Sopranos e Seinfeld. Trica de deixar qualquer um com as pernas bambas, como diria Bezerra da Silva. Mas os fãs do Arrested Development conseguiram fazer sua série preferida ser o produto de entretenimento melhor avaliado entre tudo o que já foi feito em matéria de cultura cinematográfica e televisiva desde o invento das câmeras. Um exagero de proporções dantescas.

Essa histeria dos fãs foi absolutamente benéfica para o filme Juno. Como o filme conquistou notoriedade através da propaganda boca-a-boca, o séquito do show teve um papel importantíssimo no frisson coletivo, ao ver dois atores fundamentais de sua série favorita nesse filme. Como eu nutro uma ojeriza mortal pelo filme, não posso deixar de culpar o seriado por ter parte nessa palhaçada toda. Analiso agora então, para tentar entender tanta loucura, os prós e contras do show, para enfir dar o meu veredito final. Para quem não viu o seriado e tem curiosidade, a Fox está passando todo dia, 5 e meia da tarde. Mas agora, prós e contras:

Prós:

A edição ágil

Jeffrey Tambor, que interpreta o patriarca da família, George Bluth, que é preso no primeiro episódio e passa quase que a totalidade do show na cadeia. Desde quando fazia o Larry Sanders Show, ele já era sensacional. Rouba toda cena que aparece.
Personagens bem construídos, que geram facilmente empatia com o público.
As famosas piadas subtextuais, que fizeram a fama do show. O único elemento realmente eficiente nos roteiros da série, vi belas sacadas em vários epísódios.

Michael Cera, que funciona muito melhor no seriado do que no Juno. Embora ele se limite a fazer a mesma coisa nos dois, seu ar abobado cai que nem uma luva no Arrested Development. Antes que me perguntem: não, não vi ainda Superbad.

-Vamos lá, foram 53 episódios: em quantos deles o meu figurino não foi o uniforme laranja de presidiário e essa bandana? Economia é isso aí.

Contras:
Mais uma vez, a edição ágil (não raremente, o show exagerava nesse aspecto, criando uma atmosfera exageradamente caótica)
Jason Bateman. Embora o personagem dele seja o clássico exemplo da figura sã e pé no chão cujas reações aos malucos que povoam o show deveriam ser o mote das risadas, falhou ao dar um ar excessivamente sério ao personagem. Como ele era o centro gravitacional do show, não é de se estranhar que os espectadores normais (não os fanáticos) acabassem se cansando. Falhava ao fazer o meio campo, o que ajudou a matar a série. Não digo com isso que esperasse que ele afundasse no cinismo, o que seria errado também, mas apenas que ele deveria ter trabalhado para que a seriedade do personagem também se revelasse com o desenrolar da série como uma grave excentricidade, o que era nítido pelo tom dos roteiros, mas que Jason acabou falhando em transmitir para o público.

Humor: embora o show não procurasse gargalhadas histéricas, assim como o filme que inspirou a série (nas palavras do próprio Jason Bateman), Os Excêntricos Tenenbaums, não eram poucos os episódios que geravam uma série de sorrisos espontâneos nos espectadores, mas nada além disso. Muitas vezes a obviedade do humor do show me deixou espantado.

Número de personagens: eram 9 personagens fixos, durante toda a duração do show. Encaixar histórias de todos esses personagens numa série com episódios de 20 minutos e narrada ainda por cima, seria uma tarefa hérculea. Imaginem Seinfeld tendo de apresentar histórias para 9 personagens, ao invés de 4, todo santo episódio. Aí não dá, nem Shakespeare daria um jeito.

Ron Howard: todos os episódios do seriado foram narrados por ele (a família Bluth era filmada para um documentário na série, assim como no The Office, e o Ron Howard fazia as vezes do narrador do próprio documentário, o que explica a sua aparição no último episódio). A narração emulava o trabalho feito por Alec Baldwin no Tenembaums, que explicava serenamente as intenções dos personagens, ao mesmo tempo em que relembrava eventos anteriores de suas vidas, o que foi seguido à risca pelo seriado. Mas algo não batia. Como os personagens no Tennenbaums tinham uma caracterização dramática, com o humor sendo revelado nas entrelinhas e interações, a narração de Baldwin encaixava com perfeição. Não acho que isso deveria ter sido seguindo num show cujos personagens, embora construídos da mesma maneira, tenham a atmosfera obviamente cômica. Ron Howard (que era o produtor executivo) deveria ter dado outro tom. Do jeito que fez, seu trabalho em nada acrescentava à série, sendo apenas um elemento a mais num show já cheio de excessos. Mas, bem, em se tratando de Ron Howard, eu esperava o quê? Código Da Vinci?"A Mona Lisa? É logo ali!", lembram-se? Loser, com letra maiúscula.

Veredicto: série mais superstimada de todos os tempos. Agradável de se ver, inteligentinha (embora não tão inteligente como acham os fãs), personagens divertiduxos, mas, caçamba, 9.7? Um 8.0 já estaria de belo tamanho, e olhe lá. E mais uma vez, agradeço aos fãs da série pelo Oscar ganho pela Diablo Cody (já posso perguntar: quem?). Parabéns. Muito Barulho por Nada, diria o bardo inglês.

2 comentários: