sábado, 28 de julho de 2007

Mãe, me compra um All Star!

Gosto dos juízos reducionistas, do tipo: se alguém te perguntar o nome de um grupo musical feminino, e, em vez de responder Spice Girls, você disser Luscious Jackson (tão anos 90...), então você é indie. A sensibilidade embrutecida, as simplificações, tudo se encaixa tão bem numa conversa com pessoas que absolutamente não estão ouvindo o que você diz. Ai, ai.

Mas e se a resposta não for assim tão simples? Se, em vez de ouvir Paviment (zzzzzzz) e Pizzicato Five (tsc, tsc, tsc...), você ouve Mombojó ou, pior (quer dizer, pior de ser apreendido pelo nosso terrível olhar sofregamente analítico), Chico Buarque? Pra falar francamente, preto no branco: se você é um daqueles que lê Grande: Sertão Veredas e ouve Ópera do Malandro, e acha que, com isso, vai fundo nas Raízes do Brasil. Pra quem uma tarde com Gilberto Freyre e Mário de Andrade é entrar em contato com sua brasilidade mais profunda, cotidianamente esmaecida, tão sufocada por todo o lixo imperialista norte-americano, isto é, estadunidense.

Talvez isso desfaça a última das suas ilusões a seu próprio respeito, aquela segundo a qual você era absolutamente insubordinável a quaisquer rótulos e classificações, mas, amigo, você também é indie. Uma variação do indie original, é claro, resultado de uma aclimatação a esta terra tão radiosa onde vive um povo tão triste. Mas, ainda assim, indie. Porque o que é ser indie?

Para o nosso Camarada Moderado, da forma como nos tem atribuído tal identificação nas suas mais recentes postagens, se constitui num xingamento, numa acusação. Ser indie é um desvio em relação a uma formação intelectual e artística sadia e lúcida, desvio esse que responde por apreciações estéticas que soem endeusar ícones culturais que não passam de versões bem menos incisivas e vigorosas de ícones culturais realmente originais e relevantes (?).

Pra mim, que sou indie (lá-lá-lá-lá-lá-lá...), ao contrário disso, sê-lo é simplesmente diferenciar-se, por exemplo, do brasileiro do qual você, indie tupiniquim, também quer se diferenciar, não por pedantismo (nunca..., imagina!)! Que esse brasileiro que, pra nós, que estamos cheios de consciência social (um saco inteiro dela) e comprometidos em democratizar a cultura e assim transformar politicamente a sociedade (assim mesmo – social e político, tudo junto, com esperanças de atingir o econômico, é claro), é um beco sem saída. Sabe, esse brasileiro que freqüenta baile funk, acompanha novela das oito, nunca foi ao teatro em toda a vida e acha que Pablo Picasso é francês (brincadeira...). Que diz que o melhor filme que já viu é Transformers e o melhor livro que leu, mas não inteiro, é “um da Zibia”. Que vaia os atletas estrangeiros nos Jogos Pan-Americanos e facilmente compõe multidões de linchamento com muita presteza e solicitude. Esse brasileiro aí, sabe? Bom, eu não ia falar nada, mas com esse as coisas não podem ir pra frente, né? Mas, por favor, não é que eu esteja dando uma de elitista. Longe de mim, a essa altura do campeonato, resvalar pro aristocratismo. Não, pelos céus! Por favor!

Mas eu também era indie e não sabia. Mas agora que eu sei, tipo, não é tão ruim assim. The Arcade Fire é bem legal e tudo. Já até saí pra comprar meu par de All Star. Eu só, às vezes, sei lá, me pego ouvindo Nelly Furtado (antes dela começar a usar her humps) e cantando "I'm like a bird and I wanna fly away", e aí eu fico meio confuso, e dá uma crise de identidade, mas passa rápido. Mas pior mesmo é quando eu prefiro ler um empolado como o Proust a um beat qualquer, porque, ai, meu Deus, acho o Kerouac um xarope. Nessas horas, confesso que me dá um calafrio...

6 comentários:

  1. na mosca. Ser indie é querer ser diferente de tudo e todos, e com isso, ficar endeusando as mesmas coisas como Senfeild, Lost de Translation, Arcade Fire sem saber da onde vieram as referências,sim achando tudo aquilo genial e inovador, lógico que está bem longe disso. é querer ser independente e lutar por isso, mostrando que tem gostos diferentes, mas tão massificados, patéticos iguais e sempre com a carinha blasê

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  2. Camarada "Vamos para de meter o pau no Seinfeld ai, Moderado!"29 de julho de 2007 08:57

    Seinfeld não é Indie. Uma série que tinha 40 milhões de pessoas como audiência semanal seria justamente algo a ser evitado pelos indies, seja lá o que o moderado acha que isso é (parece que não pegou a idéia ainda). Se as pessoas gostam de Seinfeld mesmo assim, Indies ou não, é pq a série tem algo a mais que fica invisível para aqueles que, como o moderado, não a suportam.

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  3. camarada "vão vocês dois brincar mais pra lá, que estão sujando toda a minha calçada"29 de julho de 2007 09:06

    lá-lá-lá-lá-lá...

    E a sua mãe também!

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  4. camarada "vão vocês dois brincar mais pra lá, que estão sujando toda a minha calçada"29 de julho de 2007 09:09

    Eu li isso em algum lugar: "... pessoas que absolutamente não estão ouvindo o que você diz."

    rsrsrsrs

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  5. Camarada "tipo assim, vc não entendeu o meu bagulho tb".29 de julho de 2007 11:13

    O artista incompreendido. O Picasso sem sua Guernica. O Van Gogh sem a orelha (lesgal!!!!!!!!!!!!!!!). Amemos ao próximo como amamos a si mesmos?

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  6. gente! se vcs fossem a mesma pessoa, eu diria que esse post foi uma crise grave, com direito a internação, hahahahahahaha...

    mas falando sério... não me interessa quantas pessoas gostam de algo... o que interessa é o se eu gosto...

    acho que devemos nos ater ao que é inovador realmente... e não se é indie ou pop, pois isso é irrelevante... pelo menos pra mim...

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